Aurora: a Mestiça
26 CAPÍTULO 25: Porque estou perdendo a minha razão, perdendo minha mente
Consegui sobreviver até a cena final. Méilie e Ali discutiam sobre o baile, até que anunciam a minha entrada, devagar, entrei em cena, levantando um pouco o meu longo vestido amarelo. Ali me olhou boquiaberto, me senti nervosa ao vê-lo olhando para mim com admiração, apesar de ser apenas uma atuação. Ele me estendeu a mão e eu aceitei, a música tocou uma valsa lenta. Começamos a dançar.
Sua mão em minha cintura, nossos corpos próximos um do outro e nossos dedos entrelaçados me deram nervosismo, fechei os olhos e me forcei a pensar em Vítor. Quando abri meus olhos, vi os cabelos negros de Ali tornaram-se castanhos, formando pequenos cachos, a sua pele clareou e se embebedou de sardas, seus olhos escuros agora possuíam tons esverdeados, era o meu Vítor na minha frente! Vê-lo me fez sentir confortável, ousei a pousar minha cabeça em seu peito. Só que ele não cheirava a seu desodorante típico, mas a um cheiro provocante de âmbar.
A dança foi interrompida por Jamal e Ítalo, e seguiu-se até o combate final, quando Ali caiu no chão, próximo da morte. Eu o tomei em meus braços, igual nos ensaios. A cena do beijo finalmente aconteceria na frente de todos. Seus dedos tocaram o meu rosto e cabelo, proferimos nossas juras de amor até que seus olhos fechassem. Porém o garoto que eu vi a minha frente era Vítor.
Lembranças dos nossos últimos momentos juntos voltaram a minha mente. Quando o vi no quarto, com os cabelos cacheados molhados, com seus olhos esverdeados brilhando na luz do sol e com seu belo sorriso. Queria tanto beijá-lo mais uma vez… observei os lábios entreabertos a minha frente, aguardando pelos meus. Aproximei-me do seu rosto, sem hesitar, e expressei toda a paixão que guardava.
Nossos lábios se tocaram, mas eu desejava mais, não queria soltá-lo, abri sua boca com meus lábios e forcei sua língua a seguir o mesmo ritmo da minha. Sua hesitação logo foi embora com as minhas insistências, pude sentir o desejo e paixão em seu beijo, já não desejávamos mais no soltar. Sua boca possuía um gosto doce de baunilha, o que me fez estranhar, seu gesto de mordiscar meu lábio inferior me obrigou a abrir os olhos.
Tive uma surpresa ao ver que o rosto a minha frente não era de Vítor. Oh céus! Eu dei um beijo de língua em Ali! Ele abriu os olhos devagar, tentando não demonstrar surpresa com o rosto completamente vermelho, assim como o meu. Queria me enfiar num buraco. Por que diabos fiz isso?
Evitei contato visual enquanto o ajudava a se levantar.
— É o milagre do amor verdadeiro! — Anunciei, tentando não demonstrar o quanto estava constrangida.
Os outros alunos da peça se juntaram a nós para comemorar, e finalizamos dando as mãos e nos curvando em agradecimento. Fomos imensamente aplaudidos. Mirela veio em nossa direção e disse estar orgulhosa do nosso trabalho.
— Aurora, eu tinha minhas dúvidas sobre você hoje, mas você me surpreendeu! Meus parabéns! E que final hein! O beijo foi fantastik!
Fiquei feliz com tantos elogios, mesmo sem entender a maioria deles. Ainda estava constrangida com o fato de que tinha dado um beijo de verdade no garoto que eu não gostava. Ali se afastou de mim para ficar perto do seu melhor amigo.
— Vamos comemorar mais tarde com pizza, que tal? Eu pago. — Mirela ofereceu e todos comemoraram.
Após tirar a fantasia e vestir o uniforme novamente, Méilie me levou para conhecer os seus pais. Me surpreendi ao ver dois jovens, que mais pareciam irmãos mais velhos do que pais, então me lembrei, que vampiros não envelheciam. Não duvidaria que teriam centenas de anos. Sua mãe era muito estilosa, vestia um cropped amarelo, com uma saia longa verde com estampa de folhas tropicais, seus cabelos negros estavam presos por um coque volumoso. O pai de Méilie, era igualmente maneiro, ostentava um grande blackpower, a estampa de sua camisa combinava com a saia de sua esposa e usava calça cáqui da cor do cropped da mãe de Méilie. Ambos possuíam os olhos cor-de-rosa.
— Eles são tão românticos! Combinam roupas! — Méilie sussurrou para mim.
Acho que comecei a entender por que a Méilie é tão romântica. Os pais dela pareciam muito apaixonados um pelo outro.
Sua mãe me estendeu a mão, ansiosa para me conhecer, ambos foram muito amáveis comigo e me disseram que sua casa estaria sempre aberta para mim. Logo Chie se juntou a nós, ela e a mãe de Méilie elogiaram o cabelo uma da outra.
— Seus pais são tão maneiros! — Ouvi Chie dizer a Méi.
De repente, senti uma tristeza súbita, talvez fosse inveja da família de Méilie? É um sentimento péssimo que não queria ter. Eu amava a minha mãe, ela é uma mulher incrível, mas ver a família de Méilie, fez parecer que minha família era incompleta. Se meu pai tivesse fugido com minha mãe, será que tudo seria diferente?
Méilie me acordou dos devaneios, ao puxar meu braço e apontar para Chang, que conversava com um casal igualmente jovem, ele não parecia muito feliz em vê-los, ambos vestiam roupas sóbrias e possuíam a face séria. Os observamos até que Chang se despedisse do casal, ao nos ver, seu rosto mudou completamente de tom, de tristeza para felicidade, exibindo um grande um sorriso.
— Arrasamos não foi? — Perguntou, entusiasmado.
— Wi! — Méilie respondeu.
— E os pais de vocês gostaram da peça?
— Estávamos conversando com meus pais agorinha, os da Chie não vieram.
— Minha mãe acabou de ter bebê, então achou melhor não viajar, mas filmei tudo para ela ver! — Chie se justificou.
— Tenho certeza de que ela vai gostar, seu trabalho no clube de jornalismo foi nányǐ zhìxìn! — Ele elogiou. — Quase me deu vontade de entrar pro clube.
— Arigatou! — Chie agradeceu.
— Eu vou chamar o Ali pra gente ir comer pizza, ele deve estar com o pai dele agora.
— Espera! O imperador de Tiwi veio? — Os olhos de Chie brilharam. — Preciso tirar uma foto da realeza!
Chang nos levou até Ali, que conversava com um homem mais velho, a pele dele tinha um tom mais claro que a de Ali, os seus olhos eram castanhos escuros, assim como seus cabelos longos, tinha uma barba espessa em seu rosto e vestia-se com uma bata cor bege estampada de flores, havia um pano também estampado com flores em seu ombro e braço esquerdo.
Chang curvou-se num gesto de cumprimento e todas nós fizemos o mesmo. Chie era a mais empolgada do grupo, mal podia conter suas emoções.
— Abbu, estas são as minhas novas amigas, Aurora, Méilie e Chie. — Ali nos apresentou.
— É bom ver que você está fazendo novos amigos na escola. — O homem nos deu um sorriso gentil. — Onde estão Kaila e os outros?
— Eles já foram embora, Vossa Majestade. — Chang o respondeu.
Vossa Majestade?! Aquela coisa de príncipe não era uma brincadeira então? Ali era mesmo um príncipe? Esse homem que estava a nossa frente era um rei? Chie o chamou de Imperador de Tiwi agora a pouco…
— Uma pena, eu nem pude ver a apresentação deles. Vocês foram ótimos, mas não vi essa jovem de cabelos prateados na peça. — O imperador observou.
— Ela é do clube de jornalismo, abbu.
— Se vossa majestade não se importar, posso tirar uma foto para o jornal da escola? O senhor está elegante esta noite — pediu Chie, pegando a câmera fotográfica.
— Isto? — Ele apontou para si mesmo e riu. — É apenas uma roupa casual. Mas não me importo de tirar uma foto.
O homem fez algumas poses majestosas enquanto ela tirava fotos, muitos alunos observaram curiosos. Depois ela pediu para Ali participar também, ter a foto do imperador e do príncipe juntos iria agregar mais.
— Estou vestindo o uniforme, Chie. — Ali se justificou.
— E daí? As meninas acham você sexy de uniforme, mas se quiser tirá-lo, posso vender as seus nudes por uma grana alta.
— Engraçadinha.
O imperador achou graça da conversa dos adolescentes. Abriu os braços para receber o filho e os dois posaram juntos para algumas fotos rápidas, que Chie ficou imensamente agradecida.
Ali avisou ao pai que sairia para jantar com os amigos do clube e se encontrariam no aeroporto para irem para casa juntos. Chie queria entrevistar o imperador, mas Ali a deteve e a arrastou para longe enquanto seu pai ia embora. Nós a convidamos para jantar conosco, mas disse que precisava terminar as suas malas, nos despedimos e fomos nos juntar aos outros membros do clube de teatro. Mirela anunciou que tiramos a nota máxima da peça. Todos vibraram e fomos cantando até a pizzaria.
Juntamos duas mesas para caber todo mundo. Méilie apressou-se em sentar-se ao lado de Chang. Sabia que essa história de desistir dele era uma piada. Me sentei ao lado dela para ficar de olho e evitar problemas. Chang, Méilie e eu comíamos da pizza de bacon, enquanto Ali que estava sentado à nossa frente, se servia apenas de pizza vegetariana, que sem graça!
Mirela pediu cerveja sangrenta para todo mundo. Quando as bebidas foram servidas nós tocamos nossos copos em conjunto, comemorando o nosso sucesso e o começo das férias.
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