Aurora: a Mestiça
23 CAPÍTULO 21: Se anoitece minha sorte nunca chega
Durante os dias que se passaram, cogitei a possibilidade de fazer a entrevista da Chie. Gostei dos seus amigos do clube de jornalismo, eles pareciam boas pessoas. Chie vinha se tornando cada vez mais próxima de mim e de Méilie. Estudávamos e jantávamos juntas algumas vezes, já não insistia mais que eu fizesse a maldita entrevista.
Porém… as palavras de Kaila na discussão que ela teve com Ali, sobre eu me fazer de coitadinha e que todos tinham pena de mim ecoavam em minha cabeça. Eu não quero ser uma coitada.
Nas aulas práticas, em que eu tinha dificuldade, todos me olhavam com pena. Quando o professor de biologia citava diferenças que ocorriam no corpo de um vampiro para um mestiço, todos me encaravam. Era desconfortável ser visto como um bichinho diferente e exótico. Talvez a entrevista, ao falar tudo o que eu penso, fosse a melhor solução.
O problema era que o meu medo era maior. Minha mente entrava em ação criando histórias futuras de que a entrevista teria um efeito contrário ao que eu desejava. Portanto, não falei com Chie.
Em um dos ensaios do clube, Ali não veio. Ele faltou a última aula também, nos disse que tinha problemas pessoais para resolver em casa e partiu para pegar um avião, já que o fuso horário de Plenluno até Tiwi era de mais de doze horas de diferença. Imaginei que tipo de problema pessoal um garoto rico e mimado teria. Será que aprontou alguma coisa?
Naquela noite, vi que ele mandou uma mensagem no grupo do clube de teatro.
— Foi mal, não vou poder ir ao ensaio hoje. Só voltarei amanhã à noite para a escola, prometo que darei o meu melhor quando voltar. — Era o que a mensagem dizia. A única coisa chata é que naquela noite todas as minhas cenas de ensaio eram com ele. Sem a sua companhia, tive a noite de folga.
Por outro lado, foi a noite mais feliz de Méilie, pois Mirela decidiu que ensaiariam as cenas entre a irmã do vampiro com o empregado da mansão, que eram os papéis dela e de Chang. Decidi ficar para ver a cena.
A personagem de Méilie provocava o personagem de Chang. Os dois atuavam em uma cena em que ela jogava xícaras ao chão para que ele as limpasse.
— Madmwazèl Johanne! Cansei de tais abusos teus! Me demitirei se não pretendes mudar tal comportamento! — Chang ameaçou, se recusando a pegar as xícaras de mentirinha jogadas no chão.
— Como ousas falar com sua senhora desta maneira? — Méilie colocou as mãos na cintura. — Devo-te punir por tal insolência…
Naquele momento, Méilei escorregou nos objetos e caiu nos braços do rapaz. Os dois se olharam corados, demoraram minutos pra se soltarem. Era impressão minha ou rolou um clima?
Os dois se afastaram constrangidos enquanto Mirela falava para repetirem a cena.
— Sem escorregar desta vez, Méilie! — Exigiu.
— Wi, wi!
Apesar dos rostos avermelhados, ambos tentaram se concentrar em seus papeis e evitaram contato visual, o que acarretou em mais interrupções de Mirela, ela era muito exigente com seus atores, já que queria que tudo fosse perfeito. Peguei meu celular para ver as horas, ainda estava cedo, decidi aproveitar o tempo para tentar encontrar Chie, torci para ter coragem de falar a ela sobre a entrevista.
Desci as escadas rapidamente e fui em direção a sala de jornalismo. Bati na porta e um garoto do clube abriu para mim, me convidando a entrar.
As cadeiras e mesas estavam no lugar, a sala já não possuía cheiro de álcool, tinha cheiro de papel e tinta. O garoto me levou até Chie que digitava alguma coisa no computador, seus dedos eram ligeiros e, confesso ter uma inveja desta sua capacidade incrível de digitação.
— Me perdoe o incômodo, mas eu quero ser entrevistada agora — disse a ela.
Um enorme sorriso surgiu em seus lábios. Ela se levantou com rapidez e disse que seria uma grande honra me entrevistar, procurou por alguma coisa em sua mesa e revirou as gavetas até pegar um gravador e alguns papéis grampeados. Me convidou a sentar e ficamos frente a frente. Os outros alunos do clube saíram da sala para nos dar privacidade.
Chie ligou o gravador e pigarreou antes de começar as suas perguntas.
— Qual o seu nome e idade? — Ela me perguntou.
— Sou Aurora e tenho dezesseis anos.
— Você é uma Valaya, correto?
— Bem, eu ainda não entendo muito disso de clãs, mas tenho os mesmos poderes que os Valayas.
— E você é uma mestiça, não é?
— Sim, eu não tenho presas e o sol não me afeta.
— Interessante. Como pode existir uma mestiça Valaya? Para o clã Valaya, é crime relacionamento entre humanos e vampiros.
— Foi o que me disseram, mas eu nunca cheguei a conhecer meus pais — menti.
— Explique.
— Descobri que fui abandonada quando pequena e desde então fui criada por um grupo de humanos.
— Então você sempre achou que fosse uma humana?
— Sim, só descobri que era diferente quando ataquei um deles. — Fiquei triste ao me lembrei de Renan.
— Bem, é normal adolescentes vampiros perderem o controle de vez enquanto. Como se sente se descobrindo uma vampira, ainda mais uma mestiça e do clã Valaya?
— Sinceramente? É confuso, ainda não entendo muito bem sobre como isso tudo funciona. Mas pelo simples fato de eu ser quem sou, os Valayas me odeiam e dizem que meus pais cometeram um crime, eu não tenho culpa, entende? — Respirei fundo antes de continuar. — Sinto saudades de casa, mas sei que lá não é mais o meu lugar, eu pertenço a esse mundo, ao mesmo tempo que também sinto que aqui não é meu lugar.
— Por quê?
— Sinto que todos me olham com pena aqui, como se eu fosse um animal exótico e abandonado, mas eu não sou! Posso ser uma órfã e mestiça, isso não me faz alguém que mereça ser diminuído. Sou igual aos outros, tenho sentimentos e sei me defender!
Chie me deu um sorriso cúmplice.
— Tenho certeza que há pessoas que te aceitam aqui.
— São poucos, e eu gostaria de dizer que quem ousar me machucar ou um dos meus amigos, eu vou atacar. Estou aqui para aprender a usar meus poderes, não é? E não é por eu ser mestiça que vou ter medo de usá-los.
Tentei soar como uma pessoa segura e um pouco agressiva para manter todos aqueles que ousassem a querer me devorar longe. Chie pareceu gostar das minhas respostas, após todo o assunto sobre mestiços, ela me fez perguntas mais comuns, como se eu tinha um namorado e meus gostos, não pude deixar de falar sobre minha paixão por rock e churrasco. E sobre garotos, falei que não me interessava por ninguém daqui.
Chie podia ser um pouco inconveniente, mas era uma garota de bom coração e muito divertida. Ao desligar o gravador, seu tom profissional desapareceu e ela riu ao comentar sobre algumas respostas que dei, não pude evitar gargalhar junto. Ela me chamou para beber com sua turma novamente, recusei. Queria ver se Méilie ainda atuava no clube.
Me despedi e andei animadamente pelos corredores até ouvir algumas pessoas cantarem Parabéns. Parece que alguém fazia aniversário. Eu quis saber quem era o aniversariante e fui em direção a sala de música, de onde vinha a canção.
As garotas do clube de canto saíram juntas enquanto cantarolavam para o aniversário de Kaila.
— Parabéns pelo seu aniversário de dezesseis anos — disse uma menina de cabelos castanhos.
— Thanks, garotas. Foi ontem, mas não me importo de comemorar novamente hoje. — Ela respondeu, fazendo-se de modesta.
— Ontem não tivemos tempo para comemorar, né? Vamos sair e cometer loucuras! — Elis sugeriu.
As garotas do clube de canto saíram cantando pelos corredores. Ela não parecia preocupada que Ali não estava aqui para comemorar seu aniversário. Será que os problemas pessoais que ele disse ter, tem a ver com Kaila? Ele não queria vê-la? Brigaram novamente? Ah! Estou andando muito com a Chie e Méilie para começar a me importar com fofocas alheias. Continuei o meu caminho, e subi as escadas até a sala de teatro.
Mirela ficou surpresa ao me ver novamente. Olhei para o palco e observei Jamal e Ítalo atuando juntos com Mei Pasu. A cena era cómica de se ver. Ítalo fazia o papel do melhor amigo do ex ciumento, enquanto Mei era uma árvore mágica. Ela não parecia nada feliz com o papel que recebeu.
Decidi ir atrás de Méilie, a encontrei conversando com Chang, bem próximos um do outro. Minha amiga soltava risadinhas bobas. Notei que os seus mindinhos estavam entrelaçados. O quê?! Eu não podia acreditar que Méilie se sujeitaria ao papel de amante! Ela tendo um crush nele, ok, mas se ele retribuísse seria um problema, ele tem namorada, oras!
Cheguei logo no meio dos dois, fazendo-os se afastarem. Tomei Méilie pelos ombros e a levei para longe do garoto, assim que fôssemos para o quarto eu daria uma lição de moral nela.
***
Levei Méilie para o nosso quarto assim que os ensaios do clube terminaram. Fechei a porta com raiva e a encarei.
— O que aconteceu entre vocês dois? — Perguntei.
— Nada, ainda. — Ela deu ênfase na palavra “ainda”.
— Você não acha errado se relacionar com um rapaz que tem namorada?
— Se eu fosse namorar o Chang… — Ela soltou uma risada sonhadora. — …óbvio que eu pediria para ele terminar com a Elis. Mas não se preocupe, ele nunca vai me notar.
— Não vai te notar? Vocês dois estavam claramente flertando!
— Ele é lindo demais pra mim. — Seus olhos demonstraram tristeza.
— Méi… não diga isso, você é linda!
— Não só isso, ele é um Pasu e eu apenas uma Semitochi, ninguém de um clã grande ousaria a se relacionar comigo. Eu não tenho chance alguma contra a Elis.
Não sabia o que dizer neste momento, apenas a puxei para um abraço amigável. Em meus braços ela soluçou e se odiou de pertencer a um clã pequeno, desejava ser uma Genesi, como Elis. Eu gostava de Méilie, independente de qual clã ela pertencia, se um garoto não a quisesse por tal motivo, ele não a merecia.
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