Aurora: a Mestiça
3 CAPÍTULO 2: O Dia Acabou
Chegando ao hospital, fui bem recebida e meu amigo foi atendido rapidamente, Paloma e eu ficamos nos encarando sem dizer coisa alguma. Até minha mãe foi para o hospital, tive que avisar que eu não chegaria às oito horas como prometido.
Ela caminhou ao nosso encontro perguntando o que havia acontecido. Paloma foi a primeira a falar, ainda bem que ela não contou sobre eu ter mordido e lambido a perna do nosso amigo, seria constrangedor demais. Minha mãe me olhou preocupada, sabia muito bem que eu escondia algo, sou uma péssima mentirosa…
Gabriela foi falar com os médicos e retornou algum tempo depois avisando que Renan estava bem e não havia nada grave com ele além de um tornozelo torcido. Ofereceu carona para minha amiga em seu Fiat velho. Paloma relutou em aceitar, mas minha mãe era insistente.
Era doloroso o olhar da minha amiga pelo retrovisor. Ela me encarava de maneira atenta e, ao mesmo tempo, assustada, nem mesmo eu entendia o porquê de ter feito aquilo. Minha mãe notou o silêncio constrangedor entre nós duas, sempre sentávamos juntas no banco de trás, e Paloma era muito faladeira.
Aos chegarmos na casa de Paloma, ela desceu do carro e agradeceu a carona à minha mãe sem se despedir de mim, nem mesmo virou para trás.
— O seu amigo tinha marca de mordidas na perna… — começou Gabriela após a casa de Paloma tornar-se um borrão no retrovisor.
Eu não sabia o que dizer, estava constrangida demais para falar, nem eu mesma entendia o que aconteceu. Minha mãe me olhou desconfiada antes de dar um longo suspiro, disse que precisávamos conversar quando chegássemos em casa. Senti um arrepio na espinha.
***
Em casa, minha mãe permaneceu calada enquanto terminava o jantar que havia planejado para nós naquela noite, era a minha comida favorita depois de churrasco: bife na manteiga, acompanhado de arroz e macaxeira. Eu estava com fome e o nervosismo me deixava ainda mais faminta, comi tudo com gosto enquanto ela dava pequenas garfadas em sua comida, podia sentir uma tensão cortando o ar.
Ao terminar a minha refeição, ela ainda comia devagar. Minhas pernas se mexiam nervosamente e eu arrancava o esmalte preto das minhas unhas curtas. Assim que terminou seu jantar, ela me pediu ajuda com a louça. Nós lavamos nossos pratos em silêncio, ela parecia estar em agonia — O que ela queria me falar?
— A comida estava boa? — perguntou, quebrando o silêncio.
— Sim, suas comidas são sempre gostosas, mãe.
Notei um sorriso no canto da sua boca. Ela apertou seus braços e olhou de um lado para outro, como se alguém pudesse estar escutando nossa conversa, até mesmo eu comecei a ficar temerosa.
— A perna do seu amigo… foi você quem fez isso aquilo? — Ela perguntou sem me encarar.
Eu não sabia o que responder, jamais mentiria para ela, precisava dizer a verdade mesmo que não compreendesse. Respondi com um aceno de cabeça. Ela suspirou novamente e eu pude ver o brilho de seus olhos castanhos diminuírem.
— Eu sempre notei que você era diferente, mas tentei negar a todo custo…
Perguntei o que ela queria dizer com aquilo, ela parecia não ter coragem de contar, como se fosse algo doloroso demais.
— Você entende por que não tem medo do escuro? Por que é a melhor aluna de Educação Física?
Ela soltou um longo suspiro como se estivesse carregando um peso por um longo tempo. Seu corpo tremia e seu rosto demonstrava vulnerabilidade. Nunca a tinha visto assim antes. Parecia ter medo das palavras que pronunciava.
— Aurora, consegue entender porque atacou seu melhor amigo?
— Mãe! Eu não o ataquei, eu estava tentando ajudar quando… — As palavras morreram na minha boca ao lembrar-me do que ocorreu. Eu realmente o ataquei!
As perguntas da minha mãe giravam em minha cabeça. Eu era uma criança esquisita, sempre justifiquei isso com uma piada de que eu era gótica desde sempre, pois amava os desenhos do Tim Burton.
— Eu ignorei todos os sinais, pensando que você era uma humana normal, achei que você era apenas uma criança diferente e habilidosa, mas estava enganando a você e a mim mesma. — Dirigiu o olhar para mim, seus olhos adquiriram uma maior cintilância devido às pequenas lágrimas que começaram a se formar. — Aurora, você é uma vampira.
Não pude evitar de soltar uma gargalhada, era tudo muito surreal. Minha mãe era uma mulher séria e vê-la fazendo uma pegadinha me deixava confusa. Muitas pessoas me chamavam de vampira na escola, afinal me vestia toda de preto e escutava rock e metal. Mas acreditar que tais criaturas existiam?
Eu não tinha presas. Quando mordi, Renan não ficou aquelas duas marcas de caninos que sempre aparecem nos filmes.
Minha mãe continuava me encarando sem alterar sua expressão séria. Minha gargalhada cessou no momento que ela cruzou os braços. Como eu poderia acreditar? Sempre fui uma menina cética, nunca tive medo de histórias de fantasmas. Já invoquei a loira do banheiro várias vezes na escola, na época do fundamental, para as meninas pararem de lotar o banheiro todas às vezes. Nenhum espírito apareceu naquele lugar.
— De qualquer forma, você não pode ficar aqui. — Ela disse isso sacando seu celular e ligando para alguém.
Tentei perguntar para quem ligava, mas ela me ignorou completamente enquanto falava na outra linha sobre mim, dizendo que era minha primeira lua cheia e que eu tinha feito dezesseis anos na semana passada. O que ela queria dizer com tudo isso? Simplesmente desligou o telefone sem me responder nada.
— Aurora, arrume suas malas! Vamos partir imediatamente! — Ela ordenou.
— O quê? Não! — Não sou de desobedecer à minha mãe, mas eu não podia partir assim! Não tinha todas as respostas. O que ela me disse era um absurdo!
— É a sua primeira lua cheia depois que completou dezesseis anos, você tem que ir ou pode atacar mais pessoas.
Continuava sem entender e, antes que eu pudesse fazer qualquer pergunta, ela me puxou pelo braço até o meu quarto. Abriu meu guarda-roupas e colocou minhas roupas em uma mala. Ao perceber que não seria suficiente para caber tudo, foi buscar uma segunda mala em seu quarto. Chamei-a várias vezes, perguntando por que eu tinha que ir embora, ela chorava e se mexia nervosamente.
Segurei em suas mãos, estavam frias e trêmulas. Minha mãe tinha medo, dava para perceber em seu olhar. Naquele momento um nervosismo abateu-se sobre mim. Era verdade então? O que ela havia falado era real? Mas não queria ir embora! Iríamos nos mudar por eu ter atacado o Renan? Não tinha um jeito de reverter minha situação? Meus olhos lacrimejavam, o que fez minha mãe parar e me dar sua atenção.
— Prometo que tudo será explicado quando chegarmos lá. — Ela me disse enxugando lágrimas.
— Lá onde? — perguntei, com a voz falha.
Ela balançou a cabeça e continuou a arrumar minhas coisas. Duas malas não eram o suficiente para uma mudança, ela concluiu. Então me pediu para escolher o que era mais importante pra mim. Deixei uma mala para minhas roupas e na outra coloquei coisas como carregador, livros, toalhas, lençóis, entre outros.
Nós entramos no carro de maneira apressada. Ela dirigia por bairros que não era costume nosso frequentar. Paramos em frente a uma casa amarela. Ela desceu do carro apressada e correu para pegar as malas. Desci do automóvel ainda preocupada e confusa. A porta da casa se abriu, um homem alto de pele morena foi nos receber. Logo o reconheci. Era um dos médicos que trabalhava com a minha mãe.
Entrei timidamente carregando minhas malas. Ele nos levou até a sua cozinha e lá havia uma mulher sentada em frente a uma mesa redonda. Ela tinha os cabelos curtos estilo joãozinho, de tom castanhos escuros, assim como seus olhos. Vestia-se com um sobretudo, calças e botas pretas, usava um colete por cima de uma camisa branca. A mulher de preto bebia um líquido vermelho em um copo de vidro. Ela pousou o copo na mesa, deixando uma marca de seu batom escarlate.
Um cheiro metálico e, ao mesmo tempo, doce invadiu minhas narinas. Meus instintos diziam que vinha do copo que a mulher bebeu a pouco, mas não ousei perguntar. Reprimi todos os meus pensamentos naquele momento. O aroma era muito parecido com o de Renan.
Ela agradeceu ao homem pela refeição. Chamou-o de Rodrigo, depois se levantou e veio em nossa direção. Ela era alta, bem mais do que eu com aquelas suas botas de salto alto.
— Finalmente conheci você, senhorita Aurora. Sabia que está atrasada para as aulas? Mas não a culpo, sua mãe não foi muito responsável, não é? —A mulher encarou minha mãe seriamente, como se passasse um sermão.
Seu tom de voz dirigindo-se a ela era como um adulto falando com uma garotinha. Gabriela mantinha os olhos baixos enquanto recebia a bronca sem reclamar. Isso me incomodou. Essa mulher não parecia nem ter trinta anos pra falar daquele jeito! Eu intervi:
— Quem é a senhora por acaso? — perguntei, de maneira rude.
A mulher não pareceu se incomodar com minha pergunta, e me respondeu prontamente:
— Eu me chamo Sofia Znaide, sou uma antiga conhecida da sua mãe.
Conhecida da minha mãe? Eu nunca a tinha visto antes. Meu olhar direcionou-se para minha genitora aguardando uma resposta. Ela mordeu o interior da sua bochecha sem me responder. A mulher suspirou e voltou a falar.
— Devemos ir logo, explicarei tudo quando chegarmos lá.
— Lá onde? — perguntei, ríspida.
— Plenluno.
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