Aurora Springs
3 Capítulo 1 - Parte 3
Notas iniciais
– O que você quer dizer com isso? – Paula cruzou os braços, erguendo uma sobrancelha.
Isabella Beatriz deu um passo para frente, nivelando o olhar das duas.
– Não ficou sabendo do aviso? Temos um novo treinador, e ele abaixou a posição de tudo mundo. Estaca zero. Significa que teremos que competir pelos lugares novamente, inclusive do topo. Quem sabe, dessa vez, seja uma competição justa, huh?
A questão é que, embora aquela rivalidade entre as garotas muitas vezes passasse a impressão de ser apenas uma richa qualquer, havia muito mais que isso. Principalmente para Isabella. O ano anterior havia sido marcante para quase todo mundo do AS high school, e ela não era uma exceção. Havia um bom motivo para a amizade das cinco ter acabado.
Alice parecia prestes a pular no pescoço da garota. Laura a segurava, revirando os olhos, enquanto Júlia estava alheia àquilo tudo, olhando ao redor e acenando/sorrindo aos garotos que passavam. Paula estava prestes a sair andando quando Isa a segurou pelo pulso, sorrindo.
– Só gostaria de deixar um lembrete. As pessoas não se contentam com prata quando podem ter ouro.
– Pena que você é apenas uma “rocha” qualquer, né?
Isa soltou uma risada sarcástica.
– Te vejo na festa – Foi sua despedida, antes de ela e Júlia se afastarem.
***
A educação física era obrigatória em AS high, e cada ano fazia no mesmo horário. Isso significava que, naquele momento, as quadras e as pistas estavam lotadas com boa parte dos alunos do segundo ano. Geralmente eram atividades normais – afinal, o hockey e cheerleading eram considerados atividades extracurriculares e os treinos eram após o horário escolar.
O jogo do dia era caçador/queimada. Os alunos haviam formado quatro times, e enquanto dois deles jogavam, o restante deveria correr na pista de atletismo que rodeava a quadra. Caio era um dos que ficara para correr e, diferente da maioria, não estivera reclamando sobre isso. Desde que ele se concentrasse os pensamentos em por um pé depois do outro, não se cansava tão fácil.
Após um tempo, eles tiveram uma pausa de cinco minutos para descansarem, e Caio avistou Bruno perto da arquibancada. Se aproximou bebendo um longo gole de garrafa de água, e então arqueou as sobrancelhas antes de perguntar:
– Como foi o primeiro dia, novato?
– Achei o pessoal daqui meio pirado.
– Você logo se acostuma.
Caio e Bruno já se conheciam antes daquele dia. Na verdade, se conheciam quase a vida inteira. Os dois estudaram juntos na outra cidade antes de Caio se mudar no início do nono ano. Ele já fora o novato naquela escola — então entendia bem. Embora os dois tivessem mantido o contado, eventualmente se afastaram um pouco. Por fim, Bruno se manifestou:
– Cara, quanto tempo.
– Cê tá gordo, hein?
Bruno ignorou.
– Eu até te daria um abraço e tal. – Ele comentou, enquanto fechava a garrafa e depositava-a sob o banco da arquibancada — mas, bem, acabamos de correr vinte minutos sob esse sol de litoral então...
– Sério? – Caio perguntou, querendo rir, percebendo que o humor do velho amigo não tinha mudado.
– Claro que não – Bruno respondeu, com um esboço de um sorriso querendo se formar. Ele estava encarando todos ali, seu olhar demorando mais em algumas das meninas que Caio não podia particularizar, mas antes que conseguisse, Bruno falou de novo. – E ai, algum interesse?
– Você se importa ou quer mudar de assunto?
– E eu achando que você não me conhecia mais – Bruno realmente sorriu agora, e como se fosse um filme de ficção, um vento gelado passou ali, bagunçando mais seus cabelos, assim como os do próprio Caio. Os dois passaram a mão no cabelo, por puro hábito, um hábito antigo, que os dois tinham adquirido juntos. – Os dois, pra ser honesto.
– De qualquer forma, como sei seu longo-histórico de "sai de perto eu odeio todos", tenho certeza que você não deve ter feito nenhum amigo ainda...
– Vou completamente não considerar isso uma ofensa, idiota.
– ... eu tenho algumas amigas bem legais para te apresentar. Elas são divertidas.
– Se for igual sua ex-namorada, eu estou muito bem obrigado, passo longe.
– Não, pelo amor de deus. Mas não estou lhe apresentando elas pra namorar — claro que se rolar algo, beleza — era mais pela amizade mesmo. Elas são legais. Agora, se estiver pensando nisso... – Ele perdeu o olhar pelas garotas ali. Apontou para uma que estava na quadra, jogando caçador.
– Dizem que ela é legal, além de ser gostosa — se você desconsiderar o humor meio negro.
– Já conheci essa daí. Cristye. Prefiro morrer.
Caio suspirou exageradamente, revirando os olhos.
– Tá, então – ele apontou para uma garota morena extremamente linda se alongando ao lado de uma Esther tagarelando animadamente sobre — provavelmente — sua festa. – Julia Drapella. Se bem que é meio difícil de conquistar essa daí.
– Cara. Para. Sério.
Enquanto isso, a alguns metros dali, Giulia e Agnes também haviam parado de correr para beber água e se alongar. Agnes observava o jogo de caçador, provavelmente em seus últimos momentos. Um dos times ganhava de lavada do outro. O perdedor continha em campo apenas mais quatro pessoas: Beatriz Custódio, Thaís Segalla, Italo Bianchini — quem mais produzia mortes no time adversário — Maria Clara, que de alguma forma muito surpreendente havia conseguido não ser acertada até agora. Provavelmente devido a menor superfície de contato.
De qualquer forma o jogo estava quase sendo uma completa humilhação, e Agnes agradeceu por não estar nele. Observou logo quando Thaisa tacava uma bola que ia diretamente na cara de Maria Clara, finalmente eliminando a garota. Rapidamente, ela se desculpava — não a Maria, mas ao professor — dizendo totalmente não ter medido sua força e direção e "acontece, é só um jogo". Mas Agnes pode encontrar um sorriso da mesma enquanto ela observava Maria indo para a base.
– Meu deus, ela é tão falsa. – Comentou para Giulia.
– Que, quem, onde, quando? – Foi a resposta recebida.
– Você não tá prestando a atenção no jogo ou em nada que eu venho dizendo nos últimos minutos, né?
– Não tenho culpa que há coisas muito mais interessantes para serem observadas.
– Sinceramente, se você quer uma vista bonita, eu prefiro totalmente o campus da faculdade, que não é muito longe daqui. Colegiais, ugh. – Quase foi possível ouvir o "♥" na voz da garota.
Mais uma vez, Giulia permaneceu quieta, e Agnes acompanhou o olhar da garota, até que percebeu que se direcionava a dois garotos tomando água a alguns metros delas. Godinho e o novato, Bonde ou alguma coisa assim. A maioria das garotas (que não encaravam Italo) olhavam para os dois. Caio já era popular, mas estar ao lado do garoto-novo-que-todas-falavam aumentava ainda mais a atenção. Sem falar nada, Giulia se levantou e caminhou na direção dos dois. Arregalando os olhos, Agnes correu atrás das garotas.
Segurou-a pelo pulso, mas apenas quando ela já havia alcançado os dois. Agnes nem se importou que estivessem presentes, e ignorou, começando a falar rapidamente:
– Sinceramente, Giu, se esse é o seu tipo de alvo, eu recomendaria uns bem melhores. Na verdade, tem muitos – Ela não saberia dizer sobre Bruno, claro, não conhecia o garoto, então é claro que se referia completamente a Caio. Se ele não sacasse, sacaria o braço de Agnes fazendo gestos na direção dele.
– Agnes, na verdade – começou Guilia.
– Shhhh. Você não vai querer nem ser amiga de um womanizer que nem ele. Não sabe nem da metade das histórias com as minhas amigas. Ainda é possível ouvir o choro a distância.
– Huh, o womanizer tá bem aqui – acenou Caio, arqueando as sobrancelhas, a expressão dividida entre a surpresa e algo que parecia divertimento.
– Agnes, espera. – Giulia.
– Olhos bonitinhos, sorrisinho irresistível, oh, você tá apaixonada –
– Sabe, a maior parte dos boatos são apenas boatos, e eu ando com garotas porque elas são minhas amigas e engraçadas (diferentes de muitas, sabe), não quer dizer que tenho um caso com todas elas e – Agnes também ignorou Caio.
– Agnes.
– ... mas logo depois vai acabar acabada no sofá comendo sorvete em potes e assistindo comédias românticas que na verdade são um puta de um drama enquanto grita como homens são inúteis.
– AGNES.
– O que foi, cacete.
– Eu tô tentando dizer que eu já sou amiga dele. Há muito tempo. Dos dois. Nos conhecíamos na outra escola. Na verdade, éramos melhores amigos e eu estava tentando dar um oi.
Breve e curto silêncio porém extremamente constrangedor e destruidor de vidas. Bruno ria da cara dela. Uau, que gente boa.
– Ok, essa é a hora que eu me retiro para não expressar minha humilhação na frente do mundo inteiro.
Tanto Bruno como Giulia continuaram rindo, embora Caio tenha permanecido com os braços cruzados, um meio sorriso no rosto, enquanto Agnes acenava para com um dedo do meio. Encontrou Sofia e Julia Rabelo e simplesmente puxou as duas pelo braço para ter alguém para tagarelar alguma coisa enquanto esperava a total vergonha alheia passar.
– Então – falou Giulia, ainda meio rindo, mas foi mais uma vez interrompida por um garoto que parecia ter brotado das cinzas.
Ele ignorou Caio, deu uma leve acenada para Giulia, e parou de frente para Bruno.
– Novato, eu sou o Italo. Capitão do time da escola. Você já deve ter conhecido nosso goleiro. – Ele comentou, sem olhar para Caio. Os dois, aparentemente, não se davam lá muito bem. – Você joga algum esporte?
– Huh, ping pong é um esporte?
Italo o avaliou por um momento.
– Serve.
Algum garoto aleatório, que também surgira aleatoriamente atrás de Italo, jogou um equipamento envolto saco na direção de Bond — incluindo dentro capacete, luva, protetores e até o taco, e Bond teve que se espertar para não ser acertado pelo enorme pacote.
– O treino é segunda a quinta às 16h. Por ser primeiro dia, não temos hoje, então te vejo amanhã. Temos um campeonato para ganhar. Tchau.
E se afastou, indo em direção das garotas do terceiro ano — cheerleaders, que estavam treinando num horário vago.
– Wow, isso foi sutil. – Comentou Giulia.
– Bem vindo ao time, cara. – Falou Caio, meio rindo – estávamos precisando de um zagueiro mesmo, e eu mesmo ia tentar te convencer, barganhar ou algo assim, mas o Italo só foi mais rápido e direto.
– Eu nem sei qual é porra do esporte – Bruno bufou, deixando o equipamento cair enquanto sentava na arquibancada.
Giulia estava prestes a finalmente falar o que viera ali dizer quando uma voz grossa mais uma vez a interrompeu (sinceramente, depois daquele dia, Giulia perdeu as contas de quantas vezes havia sido interrompida e segurou a vontade de socar alguém mais próximo, que no caso era o Bond).
– Ei, trio de inúteis, já é a vez do terceiro e o quarto time! Tragam esses seus traseiros preguiçosos agora para a quadra! – Era o doce e sempre amável treinador, acenando loucamente para que os últimos três jogadores finalmente entrassem em jogo.
E foi o que, por fim, fizeram.
***
Click. Click.
Horário livre para algum dos secundanistas, que se encontravam espalhados pelo campus.
O zoom da câmera focalizou o rosto claro e os olhos azuis. Três, quatro fotos espontâneas eram tiradas de Isabella Faedda, localizada a alguns metros de distância de aonde a máquina se localizava. Ela ria de algo que sua nova amiga, Lara, estivera dizendo. A câmera localizou a segunda garota, também capturando algumas fotos. Claudio, ao lado das duas, mostrava algo em seu notebook — provavelmente sobre algum filme. As mãos habilidosas segurando a câmera ignoraram-no, passando para o próximo grupo, um pouco mais longe.
Era um grupo de amigas das novatas, Laís e Isabella Noal. Click. Click. Rapidamente, uma série de fotos das garotas eram acumuladas no memory card do aparelho.
O sinal tocou antes que ele procurasse pelas duas outras pessoas. A câmera teve de ser desligada antes da pessoa guardar rapidamente em sua bolsa, enquanto caminhava para o último período. Mas não seria para a aula que a pessoa encaminhava-se. Tinha outras coisas a serem resolvidas.
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