Audaciosos - Interativa
4 O Início Da Iniciação
Notas iniciais
Correria.
Era tudo que os iniciandos conseguiam pensar naquele momento.
Vinte lances de escada abaixo em meio a um mar de jovens sedentos por adrenalina, empurrando e pisoteando uns aos outros. Angelina reprimiu um grunhido e um palavrão. Tinham acabado de pisar em seu pé. Com muita força.
Muita mesmo.
Sarafine descia apoiada no ombro de Ayden, que veio o caminho inteiro lhe dando sermões de um amigo irado.
– Eu nem deveria estar te carregando. Você merecia era cair esses vinte andares inteirinhos e quebrar o pescoço.
– Obrigada por estar me carregando, então. — Ela sorriu amarelo, apesar da ressaca, ainda conseguia debochar.
Ayden revirou os olhos, mas virou-se para o lado na intenção de que ela não visse o sorriso que tinha no rosto. Um sorriso apaixonado.
O bando enlouquecido desaba no saguão. Os mais na frente e a maioria nascida na Audácia apostam corrida até os trilhos. Os transferidos se esforçam para alcança-los.
– É sempre assim por aqui? — Uma loira, transferida da Amizade, pergunta para Owen, que andava num ritmo normal. Ele a encarou, como se decidisse se arriscaria responder ou não. Parecia estranho, mas gostava que as pessoas pensassem que o mesmo era mudo.
Ele assentiu, calmamente.
– Naturalmente é pior.
A garota loira correu um pouco mais para frente, tentando se enturmar. Owen agradeceu mentalmente. Preferia ficar sozinho. Olhou de relance para o lado e uma figura feminina se materializou á alguns metros. Vestido branco, casaco preto.
Mordeu o lábio.
Lembrara daqueles olhos negros pesando contra ele na Cerimônia. Do mesmo jeito que ele estava agora. Carlyn notou e o encarou de volta. Nenhum dos dois desviou.
Um apito de trem irrompe no ar do grupo e todos se amontoam nas bordas dos trilhos. Logo, uma locomotiva entra em foco.
– A gente vai ter que pular?
Corinne tinha uma expressão assustada. Poderia ser só atuação, mas a garota sentia, no fundo de seu peito, um certo pânico se espalhar. Nunca tinha feito algo do tipo antes. E se ela falhasse?
– Está com medo, boneca? — Uma voz masculina soprou em suas costas. Um rapaz, no mínimo duas vezes maior do que ela, a encarava com um sorriso torto e cafajeste. Cabelos castanhos rebeldes e olhos acinzentados galanteadores. Tinha uma tatuagem no braço direito que estava parcialmente coberto pela manga da camiseta preta.
Corinne, por instinto, avançou.
– Boneca é a sua... — Ela mordeu a própria língua. Por pouco não havia colocado tudo por água abaixo. Balbuciou e desviou o olhar para o trem, tremendo — Me deixe em paz.
– Ainda bem que você tem bom senso de controlar o que fala — O rapaz chegou por trás, fazendo-a se arrepiar inteira — Uma vantagem daquele sua facção idiota, pelo menos.
– Griffin! — A voz rouca de Lince sobressaltou um segundo apito do trem, que agora já estava bem mais próximo — Vamos, não fique aí perdendo tempo com esses perdedores.
Griffin soltou um último sorriso debochado e caminhou até o grupo em que Lince estava.
– Perdedores... — Cassy repete, irritada — Pagaria pra ver esses perdedores colocando essa idiota no meio dos sem-facção — Murmurou para Nathaniel que estava a seu encalço. Delillah se juntou aos dois quando os mesmos a ajudaram a desentalar daquela multidão que se espremia pela porta não muito larga das escadas. Ela parecia ser uma pessoa ótima. Mesmo para uma assassina. Comprimiu os lábios. Ela não era assassina. Não era...
– Seria hilário — Nathaniel disse, rindo com sua própria visão da garota em trapos rasgados e com os dentes se desmanchando — Mas gostaria mesmo era ver esse grandão aí no mesmo estado.
Griffin.
O garoto era um terror. Capanga de Lince desde que se entende por gente, achava super legal tirar sarro de inocentes. Mas seu jeito para isso era muito diferente do padrão. Ele era doentil, até. Não do tipo que era odiado.
Do tipo que era temido.
– Eu me sinto um sapo de laboratório quando ele olha pra mim — Delillah diz, ainda com o olhar fixo para frente. O trem iria passar em pouquíssimos minutos -Parece estar me dissecando.
– Tenho trauma desse tipo de aula — Nathaniel confessa, desviando o assunto.
Alex estava em um canto, sozinho. Um costumeiro careta. Maravilha. Se estressar com o cachorro poderia ter acabado melhor do que daquele jeito?
Obviamente, não.
Ele da uma cotovelada sem querer em Owen quando foi agarrar o cabo de aço e entrar no trem.
– Foi mal, cara — Ele estende a mão para o outro e o ajuda a entrar.
– Tudo bem.
O trem passa e como um vulto de corpos se atirando contra a velocidade, a maioria do resto consegue entrar no vagão. A garota loira da Amizade que havia falado com Owen a pouco foi a única que não conseguiu subir. Agora, uma sem-facção.
Theo se juntara aos veteranos em um canto, enquanto os mesmos viravam garrafas de cerveja, mas ele maneirava. Não queria levar tudo tão na brincadeira e acabar como o irmão: Um sem-facção. Apesar disso ser um pouquinho complicado para ele. Theo sempre foi do tipo que gosta de se divertir e levar as coisas á serio era um desafio enorme a ser superado.
– Ei, me passa essa garrafa aí do teu lado. — Um veterano de cabelo raspado cutucou Theo que fez uma careta, já notando o bafo e a voz afetada do rapaz.
Seu nome era Colm.
– Toma. — Empurrou o objeto para o mesmo que agarrou imediatamente e tomou um gole demorado. Theo em seguida segurou a garrafa e a tomou das mãos do rapaz careca.
– Devolva!
– Não. — Ele retrucou, rindo junto com os outros da reação irada do bêbado, que tinha uma expressão de que iria acerta-lhe um soco no nariz se não o obedecesse. — Você vai acabar se dando mal quando pular. E eu prefiro apanhar a ter que te ver esborrachado naquele calçamento.
– Ah, pelo amor de Deus, Leo...
– É Theo. — Ele corrigiu.
– ... Eu pensei que você fosse um pouco menos clichê. — Colm metralhou, interrompendo Theo, ainda cambaleando até a garrafa. — Esse negócio de cuidado é pra marica. Eu sei cuidar de mim, então me devolva essa maldita garrafa! — Theo permaneceu imóvel, provocando sua superioridade. O careca soltou uma risada embriagada. Os outros veteranos, mesmo sem saber o motivo o seguiram. — Não quera que eu vá até aí e arranque sua mão.
A cena de Damian na cerimônia do mesmo fora um golpe de mestre.
Theo bufou.
– Pode vir! — Ele provocou, jogando a garrafa no colo de outro veterano.
O careca soltou um último riso se atirou em cima do mesmo, que saíram rolando um em cima do outro. Entre chaves, gravatas e socos leves, o tempo inteiro rindo, como duas crianças travessas.
Os outros veteranos apenas riam da situação.
Os outros iniciandos se espalhavam pelo quadrado de aço. Ficam conversando, se tiverem se enturmado com alguém. Ou quietos em um dos cantos, se sozinhos. O trem acelera e o vento chega a quase sufoca-los com a velocidade em que chega. Uma sequência de telhados aparece. Altos prédios, de no mínimo, sete andares.
Os transferidos encaram tudo com olhos esbugalhados. Já Angelina, tinha os olhos cegos pela adrenalina. Chegavam a brilhar, até
– Diga que esse trem vai parar em uma estação completamente segura e em terra firme — Um iniciado da Franqueza implora, perdendo o fôlego.
Lince avança primeiro até a porta do vagão. Um sorriso convencido brota de seus lábios.
– Felizmente, não.
E então ela pulou.
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