Até que ponto é fantasia
2 Como assim Rapunzel!?
Len’s POV.
O riso leve dela me pegou desprevenido. Mesmo sem querer já me perguntava como seria a gargalhada dela… O sorriso que dei a seguir não foi tão arrogante quanto eu queria que tivesse sido. Apenas desejava que ela não tivesse notado.
— Que tal abrir isso logo?
Eu sinto a fechadura com uma das mãos e giro habilmente a chave entre os dedos da outra colocando-a dentro do cadeado que se abre num click e cai pesadamente no chão. Juntos, nós levantamos a tampa da arca.
— Tem uma carta aqui dentro. — Comenta desdobrando o papel ruidosamente.
Respiro fundo, detestava depender dos outros para saber daquele tipo de coisa. Eu me encosto na parede do lado direito da arca passando uma das mãos em meus cabelos. Eles estavam uma bagunça…
— O que está escrito?
— Hm… — Lun estica ainda mais papel.
Ela deveria estar me encarando, eu ajeito meus óculos tentando esconder o lampejo de expectativa que passou pelo meu rosto. Batucava com meus dedos impacientemente na lateral da arca. Ela estava enrolando de propósito? Estava prestes a quebrar a nossa breve trégua para mandá-la ir a merda quando ela limpa a voz encostando-se na parede pronta para ler.
— “Puxe o pano e verá vários clássicos que atravessaram o tempo e embebedaram gerações e gerações com sua magia mostrando a realidade para os menos preparados.”
Coloco a mão dentro da arca e realmente sinto um pano que parecia ser de veludo. Eu o puxo com cuidado para que o pó que com certeza deveria estar em tudo lá dentro, não se espalhasse. Ela faz um barulho esquisito enquanto se joga de joelhos (!?) vasculhando a arca.
— Ah Len… Você tem que ver isso, são livros: Peter Pan, Branca de Neve, Bela e a Fera… — Tagarela sonhadora.
E eram muitos deles. Com a mão dentro da arca eu percebo que todos tinham o mesmo tamanho e espessura, algo bastante estranho. Cada história logicamente deveria ter um tamanho diferente, não?
— Nunca deixei de gostar dessas coisas… — Praticamente ronrona consigo. — Sente só o cheiro desse livro… Tão bom! — Espirra.
Eu pego o livro que ela segurava encostando no meu braço esquerdo. Empolgada, ela ignorava toda a nossa falta de “intimidade”, mas não era como se eu achasse aquilo particularmente ruim. Ela era bastante incomum e mais uma vez eu estava começando a achar que aquilo não era exatamente um defeito. Por mais que eu não quisesse admitir, ela me intrigava. Não media palavras nem gestos, era direta e não fazia questão de me agradar, sem contar que provocá-la era bastante divertido…
— Estranha… — Digo em tom de deboche voltando a minha atenção para o livro.
Aquela sim era uma capa dura de verdade! Eu adorava livros assim… Depois de sorrir com o barulho sólido dos meus dedos batendo na capa rígida de couro duro eu procuro entre os outros livros o lugar que ela tirara aquele e o coloco de volta.
— “Reescrevemos esses contos com uma tinta tão encantada quanto os mesmos; por isso tome cuidado para não mergulhar a estrela fugaz no mundo da fantasia. Ela pertence ao mundo dos sonhos, mas seu lugar é na realidade…”
Ela para de ler como se estivesse pensativa, eu viro a cabeça na direção dela esperando que ela se manifestasse.
— Será que é a estrela daquele pote estranho? — Pergunta rindo daquela hipótese esquisita.
— Deve ser simbólico.
Dou de ombros. Onde eu tinha colocado aquilo mesmo? Deveria ter aprestado mais atenção… Eu corro as mãos perto da arca e por sorte o encontro rapidamente.
— Ahn… Tem uma coisa errada com isso.
Era só o que faltava. Eu deveria ter esmagado aquilo sem querer. Eu passo a mão no vidro mais de uma vez vendo que ele estava inteiro, sem nenhuma rachadura sequer. Eu entrego o pote para ela.
— O quê? Para mim parece normal.
— A estrela de dentro sumiu. Muito estranho, deve ser algum tipo de truque.
— Magia… — Viro os olhos. — Vai que, ignorando a literalidade da coisa, só você pode ver essa tal estrela?
— Ha ha, ha!
Aquela risada não parecia tão falsa assim, mas não importava. Eu estico minhas pernas esperando ela continuar a leitura daquela carta mais estranha do que ela. Um riso passa pelos meus lábios ao pensar nisso.
— “Estamos muito gratos pela oportunidade de disponibilizarmos nossos livros. Aproveitem a leitura; especialmente você, querida Estela.” — Ela dobra a carta e a coloca dentro da arca. — Fim.
— Aposto que essa Estela era uma criança, isso é pelos títulos que você me falou.
Pego um livro aleatório e o giro, ainda fechado, entre os dedos. Novamente viro o rosto para ela esperando algum comentário que não veio. Gabriel dizia que ela se distraia facilmente, mas não imaginava que seria tanto assim…
— Ru…?
Tento, pela terceira vez, contornar as confusas letras desenhadas finamente em baixo relevo. Mas a cada letra que eu tocava menos certeza da última eu tinha, elas eram rasas demais. Por que eles tinham que entrelaçá-las até parecerem um monte de rabiscos com letras no meio das letras? Já estava suspeitando que alguns deles eram um tipo de desenho atrás do nome… Deveria ser algo bem bonito de se ver, mas com certeza não era “bonito” de se tocar.
— Rapunzel?
— É…
Ri sem graça. Se ela não tivesse falado eu provavelmente passaria minutos naquilo e acabaria acertando por dedução. Imaginá-la me olhando fazer aquilo não era nada agradável. Não como se eu me envergonhasse ou algo assim. Não sei… Só me sentia estranho… Eu me viro desconfortável pensando em como mudar de assunto.
— O que tem de mágico nesses livros? Brilham no escuro? — Digo em tom de brincadeira. — Você já abriu algum deles?
— Não. — Lun parece surpresa com a própria afirmação.
Ela se aproxima tentando pegar o livro que eu segurava, mas ao contrário do que ela pensava não seria tão fácil. Eu o puxo para longe imaginado que ela iria desistir.
— Ei!
Era tarde demais para desviar, sem conseguir parar ela cai em cima de mim fazendo o livro aberto quicar para longe de meus dedos.
“Era uma vez um jovem casal muito pobre que desejava acima de tudo ter filhos, quando eles finalmente tiveram seu desejo atendido viveram felizes por muitos meses… Mas no final da gravidez a moça começou a desejar os fartos rabanetes em flor que via no jardim de sua vizinha, conhecida por sua bruxaria e avareza. Mesmo com ambos explicando, a vizinha se negou a dar-lhes os rabanetes sem antes receber o valor que exigia, um valor alto demais para poderem pagar. Com o pedido negado ela tentou conter sua vontade, mas à medida que os desejava sua saúde definhava. Seu marido, com medo de perder a esposa e filho, decidiu roubar a bruxa. Mal pisou no jardim e já foi flagrado. Desesperado, explicou-se novamente desejando não ser severamente punido. Para sua surpresa, a vizinha o ajudou de bom grado com a condição de receber o que pedisse em troca. Assustado, ele aceitou e todos os dias a bruxa passou a levar bastante comida para sua esposa que logo voltou a ser saudável. Com o nascimento de sua filha a vizinha retornou e a levou como pagamento da dívida. A garotinha cresceu se tornando cada vez mais bela. Com medo de que a desposassem e levassem embora, a bruxa deixou os cabelos da garota crescerem e a guardou em uma torre sem portas no meio da floresta julgando que lá ambas poderiam viver juntas para sempre”.
“Encostada na janela, a moça acorda com a sensação de que estava mergulhando em água morna... Onde estou? Pensa a moça confusa”.
— Rapunzel, Rapunzel, jogue-me suas tranças… Castanhas? — “Grita a bruxa aos pés da torre”.
— Como assim!? — “A moça franze o cenho. Então olha para os próprios cabelos que estavam presos em duas tranças enormes. Ela puxa uma delas e sente na raiz”. — Ai! O que está acontecendo comigo e que voz do além é essa? — “Anda em círculos, quase tropeçando nos próprios cabelos”.
— Filha, algum problema aí em cima? — “Pergunta preocupada”.
— N-nada não. Estou indo. — “Joga suas tranças pela janela da torre quase automaticamente”.
“A bruxa sobe pelas tranças habilmente e abraça a garota. Rapunzel as puxa de volta antes de sentar na cama”.
— Trouxe umas coisinhas para você. — “Sorri com seu rosto levemente enrugado. A garota imaginou que ela teria uns quarenta anos”. — Mas já-já precisarei sair de novo.
— Obrigada. — “Olha para ela com a expressão confusa”.
— Você me parece um tanto vermelha. Será febre? Aconteceu alguma coisa? — “Pergunta preocupada colocando as coisas na mesa”.
— Estou bem. Acho que só preciso lavar o rosto. — “Rapunzel ri sem graça”. — Não precisa se preocupar.
— Tente descansar um pouco. — “Recomenda levando as tranças para a janela e descendo por elas”.
— Eu não acredito! Eu não acredito!!! — “Puxa as tranças.” — O que está acontecendo aqui? Eu não posso simplesmente ter entrado num livro, virar parte da história e reaparecer vestida assim. — “Olha para seu vestido longo.” — Ou posso? Eu me lembro de um conto com esse nome e de um príncipe que salva a princesa e de mais nada. Você é o narrador? — “Pergunta olhando para os lados e depois para o teto, esperando que alguém fosse cair de lá.” — Será que enlouqueci?
“O príncipe caminha em direção de uma árvore. Ele desvia indo na direção de um tronco caído, mas para um pouco antes, sentando-se nele”.
— Que conveniente. Até parece um GPS. — “Ele se espreguiça rindo de lado.” — Onde será que aquela encrenqueira se enfiou? Parece que entramos na história do livro, mas não me lembro de nada, só de uma torre. Estranho… — “Levanta”. — Você me diria alguma coisa narrador? — “Ele pergunta, mas não recebe resposta”. — Ok. Acho que se eu andar por aí, vou acabar a encontrando, certo?
“Ele dá de ombros e sai andando. A cada passo que dava se aproximava mais e mais do coração da floresta, um lugar bastante perigoso, mas por algum motivo ele continuava indo para lá. Alguém vagarosamente se aproxima e o príncipe esconde metade do corpo atrás de uma árvore, depois se agacha sumindo totalmente”.
— Rapunzel, Rapunzel, jogue-me suas tranças de caramelo! — “Uma senhora grita e o príncipe escuta algo caindo no chão, depois ela respirando fundo enquanto subia pela a torre e então algo sendo puxado”.
— Então isso é uma torre? — “Pergunta, mesmo sabendo que não receberia resposta. Como estava ocupado falando sozinho… o príncipe mal escuta a conversa no topo da torre”. — Ha, ha, ha… — “Ele bufa apoiando o queixo na mão. Quando a mesma pessoa desce e se afasta, ele decide tentar fazer o mesmo para descobrir o que tinha lá em cima”.
— Rapunzel, Rapunzel, jogue-me suas tranças de cogumelo! — “Grita esperando que sua imitação de voz fosse boa o bastante”. — Parece que errei a frase. — “Murmura irônico desviando o olhar”.
— Isso é cabelo? — “Ele pergunta ao tocar nas tranças da moça”. — Parece que sim… Francamente, essas coisas só acontecem em contos de fadas… — “Ele sobe na torre com os olhos bem fechados”.
— Len!? — “Rapunzel sorri aliviada quando o vê pulando janela adentro”.
— Oi princesa! — “Debocha, mas quase tropeça no cabelo dela”.
— Eu não avisei, né? — “Morde o lábio fazendo cara de desentendida”.
— Engraçadinha… — “Anda com cuidado”. — Acho que aquele livro nos trouxe para dentro dessa história, mas não consigo me lembrar dela.
— Também não, mesmo que eu tenha certeza de que antes de abrir o livro eu sabia. — “Ela suspira”. — Mas sinto que você vai precisar me tirar daqui. — “Puxa boa parte de seu cabelo para perto de si”.
— É só sair pelas escadas. — “Diz como se fosse óbvio”.
— Não tem nenhuma. Já procurei até debaixo do tapete… — “Ela olha para ele preocupada”.
— Como assim? Não me diga que só dá para subir pelos seus cabelos!? — “Ele a encara através de suas pálpebras fortemente fechadas”.
— Parece que sim… Mas então como eu vim parar aqui em cima? — “Ela se pergunta mordendo o lábio”. — Duvido que exista uma escada tão grande por aqui…
— Vamos dar um jeito, mas eu tenho que ir… Vai que aquela mulher volta e me vê aqui. Se ela trancou uma princesa na torre, deve ter algum motivo. — “Ele coloca as mãos na janela procurando os cabelos dela que estavam no chão à sua esquerda”. — Obrigado narrador! — “Ele sorri jogando-os pela janela” — Vou ver se arranjo uma escada de cordas para você descer comigo. — “Ele desce sumindo da visão da moça”.
— Tomara que ele consiga. — “Ela se debruça na janela olhando o lindo entardecer. Cansada, ela adormece pouco tempo depois”.
— Rapunzel, jogue-me suas tranças, querida. — “A bruxa pede sorridente. Quando sobe, ela desfaz as tranças da filha”. — Que bom que o chá que eu trouxe fez você melhorar. Está tão perigoso lá fora… Menina, mal imagino o que aconteceria com você caso eu a deixasse descer. — “Diz penteando os cabelos dela”.
— Acho que eu entendo. — “Rapunzel dá de ombros enquanto a mãe começava a trançar todo o seu cabelo”.
— Que bom que está mais conformada e calma do que antes. — “Estranha, mas logo a abraça”. — Vou sair de novo, essa semana estou cheia de coisas para fazer. — “Amarra a ponta da trança”. — Volto mais tarde.
“A bruxa desce e se afasta enquanto a moça senta na janela esperando seu príncipe”.
— Meu príncipe? — “Sua trança escorrega para fora e com seu movimento brusco ela quase cai da janela”.
— Você já me viu daí? — “O príncipe pergunta de longe imaginando que ela jogara a trança por isso”.
— É claro, é claro. — “Mente”. — Dedo-duro! — “Bufa e o príncipe ri”
“Ele sobe e amarra atrapalhadamente a escada na janela”.
— O tamanho bateu? — “Pergunta dando espaço para ela ir ver”.
— Claro que não, ainda falta um terço, senhor calças bufantes! — “Ela suspira olhando para fora. Queria sair dali logo”.
— Desculpa se eu não vi a altura da torre!
“Ele cruza os braços e Rapunzel, depois de um tempo abaixa o olhar. Não queria ter descontado toda a sua frustração nele. O príncipe suspira encostando-se na parede”.
— Parece que nossa personalidade, aparência e tudo mais também interfere na história. Lá no castelo, eles não ajudavam muito. Mesmo eu sendo o príncipe mais velho, eles me tratavam como um filho bastardo ou nobre qualquer. — “Dá de ombros”. — Acho que é como se eu também tivesse ficado cego quando mais novo aqui… — “Rapunzel o encara curiosa, não sabia daquilo sobre ele”.
— Interessante. — “Decide não perguntar”. — Até a linguagem deles parece menos “esquisita” do que seria. Acho que o livro foi feito para qualquer um conseguir “ler” sem se esforçar. — “Encosta na janela”.
— Acho que está na hora de eu ir. — “Pensa que ela, pelo menos, não era tão intrometida”. — Preciso conseguir mais corda. Você aguenta até amanhã sem mim? — “Ergue as sobrancelhas rindo sarcástico”.
— Com certeza! E só para você não pensar que não quero que você volte eu vou acenar daqui de cima igual aquelas princesinhas de filme. — “Vira os olhos”.
— Pode deixar.
“Ele desce rapidamente e ela acena fazendo-o rir pouco antes de sumir entre as árvores. Logo a bruxa volta e elas passam um tempo contando histórias. Ela era cuidadosa, repara Rapunzel passando a imaginar que ela não era tão má quanto tinha a impressão de que deveria ser”.
— Mesmo estando tarde, só vou descer mais uma vez hoje, Quero passar o resto da semana com você, por isso vou trancar a nossa casa antiga. Quer alguma flor ou algo lá de fora? — “A mãe lhe pergunta já se preparando para descer”.
— Pode me trazer rapúncios? Eles me lembram o meu nome… — “A moça diz depois de pensar um pouco”.
“A bruxa desce e bons minutos depois volta a subir com bastante cuidado para não amassar as flores”.
— Como você demora, o príncipe é bem mais rápido. — “Diz quando ela entra” — Ei! Isso era para ser um pensamento! — “Exclama ao ver o rosto da mãe furiosa, ou triste? Não sabia dizer”.
— Você me traiu. Essa torre era para nós duas vivermos juntas para sempre, mas você deixou um estranho entrar. Isso não é justo. Só o meu amor não é o suficiente? — “Sua voz estava cada vez mais carregada de raiva e mágoa”. — Esse seu principezinho vai pagar por ter tomado parte do seu coração que era para ser só meu. — “Ela pega uma faca na estante”.
— Mas, espera! Não foi bem isso… — “Rapunzel tenta se explicar com medo de que ela a esfaqueasse ou algo do tipo”.
— Sem mas! — “A bruxa corta sua trança rente ao pescoço, a arrasta para o meio da sala e empurra uma estante pesada levando-a para baixo por uma escada em espiral”. — Agora vou te castigar, depois seu príncipe.
“Ela a larga no meio de um deserto e volta para a torre através de um caminho confuso o bastante para Rapunzel não conseguir segui-la”.
— Rapunzel, jogue-me suas tranças! — “O príncipe grita na manhã seguinte e a trança única cai. Ele sobe rapidamente parando na frente da janela”.
— Você roubou o coração da minha filhinha, seu monstro. — “Ralha apontando o dedo para o príncipe confuso”.
— Como assim? — “Arregala os olhos surpreso”. — Onde ela está? — “Pergunta olhando inutilmente para trás da bruxa”.
— Não se faça de desentendido! Você nunca mais vai vê-la!
— Não é como se eu tivesse feito isso antes… — “Ele ri hesitante, mas ela ignora colocando as mãos em seu peito, pronta para empurrá-lo”.
— O quê!? — “Pergunta virando a cabeça para cima, mas logo é empurrado janela abaixo”.
“A bruxa bate a janela depois de vê-lo caído em um espinheiro sem perceber que ele sai praticamente ileso”.
— Agora era para eu ficar cego é isso? — “Ele ri tendo um breve flash de mais uma parte da história”. — Isso você já tinha desde o começo. Agora devo buscar aquela pirralha em um deserto, certo? Vê se me ajuda um pouquinho. — “Como não recebe resposta, ele vira na direção da cidade. Ele vira de novo indo na direção do deserto”.
— Eu deveria fazer alguma coisa. Ficar parada não serve de nada. Se o sol fica para o leste… — “Ela gira o corpo com uma das mãos estendidas” — Mas dava ou não para vê-lo da torre? E quando ela me trouxe aqui era de noite, qual era o lado mesmo? Como eu sou burra. — “Passa a mão no cabelo assimétrico”. — Já me perdi umas trinta vezes nas últimas horas… Bem que você poderia me ajudar! — “Ergue as mãos para cima sem receber ajuda de ninguém”. — Cantar? Era isso que a moça fazia, não era? Que constrangedor! — “Rapunzel fica vermelha”. — Eu me recuso a fazer isso, ele iria me zoar para sempre! — “Continua falando sozinha”. — Len! — “Ela decide chamar por ele até ser escutada”.
— Calor! — “Era isso que o príncipe murmurava enquanto quase abraçava um cacto no topo de uma duna. Ele desvia por pouco sentindo as botas afundarem na areia quente”. — Pelo menos não tem nenhuma miragem para me iludir, mas esse zumbido… — “Ele senta tirando a areia de suas botas arranhadas.” — Nunca pensei que teria tanto trabalho justo por causa daquela garota… — “Levanta-se batendo a mão na bochecha queimada de sol”. — Só mais uns metros… — “Diz pela centésima vez”.
“Quando mal estava aguentando, ele pôde ouvir uma voz rouca chamando o seu nome. Ele corre na direção dela se atrapalhando e tropeçando bastante até conseguir alcançá-la num pequeno oásis não muito longe dali”.
— Len! — “Rapunzel se deixa cair ao lado dele”.
— Até que enfim! — “Ele ri com a voz cansada”.
— Eu estava tão perdida que acabei ajudando em nada. Por um momento pensei que nunca mais nos encontraríamos. — “Evita olhar para ele sentindo o vento excessivamente quente soprando contra o seu recém-cortado cabelo enquanto ele ria”. — Qual é a graça? — “Aponta para o rosto dele, nervosa, quase caindo nele por deslizar na areia”.
— Nada. — “Segura o riso tentando não pensar para não ser delatado”.
— Seu chato. — “Ela cruza os braços desistindo de esperar algo minimamente humano da parte dele”.
— Nossa! — “Ele finge estar abalado”. — Sou o que agora?
— Uma pedra, seu insensível! — “O encara querendo que ele abrisse os olhos”. — Eu estava preocupada…
— Comigo? — “Ele aponta para si com cara de desentendido”. — Pensei que você me odiasse”.
— Eu não te odeio… — “Ela admite chutando a areia”. — Não dava para saber o que aquela mulher poderia fazer. Se ela deixou a “própria filha” passando fome no deserto, o que ela faria com um estranho que ameaçou tirá-la de lá!?
— Ela só me jogou da janela. — “Diz com frieza”.
— Como assim??? — “Ela arregala os olhos para a cara indiferente dele”.
— Saí praticamente intacto. — “Diz como se fosse irrelevante”. — Falando nisso… — “Ele ri, assim como ela, lembrando-se do conto inteiro”. — Que bom que não passaram meses e você me recebeu com gêmeos.
— Você teria desistido. — “Rapunzel abraça seus joelhos ralados”.
— Duvidando de mim? Eu também posso ser persistente, sabia? — “A encara por trás de suas pálpebras fechadas”. — Mesmo que fossem meses eu não desistiria de te procurar. Gabriel iria me matar se você sumisse de repente…
— Como se eu pudesse dizer obrigada depois de você falar algo assim! — “Ela se afasta”. — Na história eles se beijavam e… — “Ela cora adoravelmente nem querendo pensar naquela hipótese terrível”.
— Eu sou tão feio assim? — “A interrompe com seu costumeiro tom irônico”.
— Não necessariamente. — “Dá de ombros, sincera, evitando olhar para ele e deixar algum pensamento escapar”. — Mas com certeza é arrogante, indiferente, sínico, dissimulado, implicante, frio, idiota…
— Nossa! Quantos elogios! Estou lisonjeado, não sabia que era minha fã.
— Vou ignorar você! — “Vira os olhos”. — E agora, só para sair disso… Fique parado.
— Pra quê? — “Ele vira para ela”.
— O nosso “felizes para sempre”. — “Diz como se fosse óbvio e lasca um beijo em sua bochecha”.
Algo como uma “luz” morna parece nos envolver. Eu me sentia meio tonto, mas pela mudança de temperatura e tudo mais, tinha certeza de que estávamos na biblioteca e não num deserto.
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