Até que ponto é fantasia
3 Cuidado com os lobos!
Notas iniciais
— Uau! — Lun assobia.
— Você sempre tem que cair em cima de mim?
Enrugo o nariz sentindo o peso da garota sobre o meu corpo. Nossos pés estavam entrelaçados e a testa dela batia na minha clavícula. Ela era realmente pequena… Ajeito os meus óculos e quando tento achar algum apoio no chão para me levantar, sinto o livro fechado perto da minha mão direita.
— Aquilo realmente aconteceu ou eu bati a cabeça?! — Com cuidado para não tocar nela, passo a mão em minhas roupas que por sorte eram normais.
— Foi meio louco, arriscado, mas… Achei incrível!
Lun parecia realmente acreditar que toda aquela loucura era real. Ela se estica em cima de mim puxando o livro e então parece abraçá-lo (!?). Já disse que aquela garota era maluca? E ela continuava viajando na maionese sem perceber que ainda estava em cima de mim.
— Confortável?
Os cabelos dela fazem cócegas no meu braço como se ela inclinasse a cabeça, seu shampoo tinha um cheiro agradável de lilases ou algo assim. Ela murmura um “Ahn?” aumentando a minha certeza de que deveria estar me encarando confusa.
— Desculpa!
Ela praticamente pula para longe, finalmente percebendo o óbvio e mais uma vez eu tinha uma ótima oportunidade para provocá-la… Eu coloco a mão no lugar em que ela me beijara. Não podia negar a sensação macia que aqueles lábios deixaram…
— Não pensei que fosse me agarrar depois de me elogiar tanto…
— Você deveria é agradecer por estar de volta!
— Acho que precisamos dar um tempo! Você está me sufocando!
Ela deveria estar irritada demais para responder. Seguro na parede tentando ficar de pé, estava meio zonzo, mas pelo menos o cansaço da história tinha passado. Por que aquilo estava acontecendo? Nós não poderíamos ter sonhado o mesmo sonho louco! Poderíamos? É… nós dois estávamos ficando malucos. Aquilo ia muito além de tudo o que poderia ser real não podia ser verdade, mas eu estava convencido de que não estava alucinando… Ouço Lun levantar de repente indo até a mesinha.
— Que estranho. O frasco não está mais vazio.
— A estrela voltou? — Pergunto me soltando da parede.
— Não, só tem uma pontinha de nada dentro. Será que nós fizemos isso…
Ela bate o vidro sobre a mesa de um jeito um tanto indelicado. Ela parecia não saber medir a própria força, pensar antes de agir ou então olhar para onde andava…
— Olha, o livro não funciona mais… — Ela folheia o livro bem rápido.
— Você sabe que eu sou cego, né? — Pergunto rindo.
Só queria saber se ela percebia que não mudava ignorantemente as palavras que tivessem a ver com visão por outras só por eu ser cego. Na verdade ela parecia ignorar completamente esse fato.
— Não sei… Mas suspeitei quando te vi de óculos escuros e bengala branca na primeira vez que nos vimos lá na faculdade… Olha isso aí.
Eu engulo o amargo que subia em minha garganta. Ela ria irônica empurrando o livro fechado no meu peito. Dava para perceber pela mudança brusca do tom da voz dela na última frase que só de pensar naquilo ela ficava irritada e tinha razão. Eu não me orgulhava nem um pouco daquele dia, mas eu nunca admitiria isso. Minhas bochechas esquentaram.
— Engraçadinha.
Tento ficar sério enquanto me distraia passando a mão pelo livro aberto sem que nada de mágico acontecesse. Suas páginas eram meio secas e grossas, um livro antigo comum, um daqueles que eu nunca poderia ler…
— Só têm umas letras estranhas dentro como se uma criança tivesse digitado isso… — Ela murmura pensativa, como se falasse consigo mesma.
— Supostamente nós passamos dias dentro da história, quanto tempo passou aqui?
— Verdade! Ainda tem isso… — Ela corre até a porta.
— Tá maluca, menina?
Por sorte consigo segurar o pulso dela antes que ela conseguisse sair da biblioteca. Lun se debate livrando-se de mim. Eu sentia seu olhar me atravessando, deveria estar pronta para brigar comigo.
— Parece que não passou muito tempo. — Farejo o ar. — O cheiro do chá ainda está forte.
— Menos mal!
Até o tom de voz dela tinha mudado, parecia bem mais calma. Eu encosto no batente mais relaxado. Não queria brigar feio com ela agora, não antes de nosso acordo de tolerância mútua acabar. Ela engole o ar depressa dando um pequeno pulo.
— O que foi?
Minha voz sai bastante áspera. Eu seguro fortemente a haste dos meus óculos ajeitando-os. Ela parecia muito incomodada com algo e não saber o que era…
— Nada!
Ela mentia muito mal. Suspiro sem conseguir localizá-la, afinal, Lun estava tão quieta que se eu não estivesse parado na frente da porta, suspeitaria que ela tinha ido embora. Ela deveria estar parada ou então andando devagar sobre o tapete.
— Como acha que saímos do livro?
Pergunto apenas para tentar saber onde ela estava, mas a infeliz continuava calada. Assim como mais cedo, quando nos falamos no sofá, ela só podia estar querendo me provocar… Preferia ouvi-la me insultando aos berros do que assim, sem dar nenhuma pista de onde estava, fazendo parecer que eu falava com as paredes.
— Minha teoria é que, como o “felizes para sempre” é um tempo que não existe dentro da história, o espaço-tempo do livro entrou em colapso e nos mandou de volta.
— Nerd…
Eu dei de ombros mais por querer disfarçar o susto que levei por perceber que ela estava mais perto do que eu imaginava do que por indiferença.
— Como nós nos lembramos da história no decorrer dela, acho que basta seguir mais ou menos a linha dela que nós conseguimos voltar. — Soa animada.
— Mas… E se não conseguíssemos?
— Nem quero saber…
Ela suspira indo para a cozinha, seus passos barulhentos ecoavam pelo corredor, justamente por isso percebo que ela para de andar por uns segundos e para na minha frente.
— Sua avó não está aqui. Que tal abrir um outro livro e provar que isso foi real?
— Tanto faz…
— Então tá!
Dou de ombros indo para a sala. Mostrar desinteresse era minha forma favorita de provocá-la, sempre funcionava. Podia ouvir seus passos pesados traçando o caminho de volta para a biblioteca. Quando ela entra na sala eu viro o rosto para ela.
— Qual vai ser? E eu não quero ficar entrando só nessas histórias de garotinha. — Eu bufo cruzando os braços, tentando provocá-la com sucesso.
— Mas você disse: Tanto faz… — Imita minha voz de um jeito engraçado me fazendo rir.
— Vai ser…?
Ela se joga no sofá e ficando quieta por um segundo, provavelmente lendo o título do livro que deveria ter puxado aleatoriamente da arca.
— Chapeuzinho vermelho e eu não estou a fim de buscar outro para você achar defeito!
— Tá bom… Abre isso logo e para de me encher.
Viro os olhos impaciente jogando a cabeça no encosto do sofá. Ela coloca o livro fechado no meu colo usando mais força do que precisava.
— Ah… Se eu fosse você, eu tomaria cuidado com o lobo… — Tento rir de um jeito assustador.
— Era para dar medo?
Ela debocha rindo. Eu dou de ombros e juntos abrimos o livro.
“Era uma vez uma linda garota que vivia com sua mãe perto de um grande bosque. Como ela sempre trajava sua bela capa com capuz vermelho (bordado por sua mãe e avó) por toda parte a chamavam de Chapeuzinho Vermelho”.
— Então… Quero que você leve isso para sua avó. — “Coloca vários tipos de pães dentro da cesta”. — Acha bom pôr um pouco de vinho também? — “A mulher pergunta para a filha que estava debruçada na mesa”.
— Claro, claro. — “A garota diz meio confusa vendo a mãe colocar ainda mais coisas na cesta já empanturrada de suprimentos”.
— Diga que eu mandei beijos. — “Prende tudo com um pano xadrez”. — E tome bastante cuidado com os lobos. — “Recomenda beijando sua testa ao entregar-lhe os alimentos”.
— Tchau! — “Ela acena saindo pela porta”.
“Era primavera, as flores desabrochavam timidamente por toda parte sendo iluminadas pela manhosa luz do sol. Chapeuzinho Vermelho caminhava alegremente pelo bosque observando as altas árvores que emanavam seu doce e terroso cheiro de musgo. Como tinha bastante tempo resolve andar com calma pela estrada pouco movimentada, lançando seus olhos curiosos em tudo ao redor”.
— Como o ar daqui é puro! — “Ela sorri abaixando seu capuz ao sentar-se na grama ciente de que já estava na metade do caminho. Ela come umas uvas de sua cesta imaginando como aquela história se desenrolaria”.
“Quando pensa em continuar sua jornada, ela vê uma daquelas borboletas azuis que parecem vir do mundo dos sonhos. Ela se diverte tentando pegá-la. Completamente distraída, Chapeuzinho a alcança no meio da estrada sem perceber que havia um homem olhando para ela”.
— É perigoso andar por aí sozinha sendo uma mulher tão jovem. — “O homem comenta olhando para o corpo de Capuchinho enquanto empurrava com força a árvore que cortara com seu machado até esta cair no chão”.
— Para qualquer um seria. — “Ela olha para ele com firmeza logo depois de soltar a borboleta. Ele sorri gostando da personalidade forte da garota”.
— O que leva em sua cesta? — “Pergunta deixando seu machado no tronco para caminhar ao seu lado”.
— Coisas para minha avó. Agora, se me dá licença, eu preciso ir. — “Ela se afasta apressada e antes que sumisse numa das curvas, ela vê que o homem a seguia”.
“Esperta como era, Chapeuzinho Vermelho finge que não percebe e segue por um caminho que a levava para a parte mais fechada do bosque. Quando o nota impaciente ela começa a correr. Chegando onde queria, ela passa entre as árvores para alcançar a pequena trilha escondida”.
“Ela sabia que era ágil o bastante para conseguir uma distância segura, mas estava começando a ficar cansada e cada vez mais longe do caminho que a levaria para a casa da avó. Para seu azar, o homem estava cada vez mais próximo, já que ao contrário dela, ele não poupava energias. Caso quisesse despistá-lo ela teria que ir mais rápido. Preocupada demais em ver o quão próximo ele estava, Chapeuzinho Vermelho não olha para frente e acaba caindo em cima de alguém que usava a mesma trilha”.
— Eu… — “Ela tenta dizer, mas sua voz mingua por causa do cansaço”.
— Volte aqui Chapeuzinho! — “O homem reaparece e ela se encolhe vendo o moço levantar”.
— Ela está comigo. Deixe a garota em paz. — “Diz com firmeza o moço que Chapeuzinho Vermelho caíra em cima. Ela segura a mão que ele estendera podendo jurar ter visto, muito brevemente, um par de olhos claros sobre ela”.
— Eu a vi primeiro. — “Ele ataca o estranho que se defende de uma parte de seus golpes lentos sorrindo para o desafio”. — Quer mais? — “Ele aperta mais o punho, mas corrige o movimento para tentar pegar uma faca que vira em suas roupas”.
— Não foi uma boa ideia.
“Ele ri de lado acertando com força o estômago do homem que cai no chão. Chapeuzinho pisa forte em seus dedos quando ele tenta pegar uma pedra para atacá-lo”.
— Vá! — “O desconhecido rosna ameaçando pagar sua faca e o homem sai correndo, mas não tinha desistido da garota. Eles mal poderiam imaginar o que viria a seguir”.
— Obrigada. — “Diz tentando ver seu rosto”.
— Seja mais cuidadosa. — “O moço ajeita seu capuz afastando-se dela, mesmo que atento aos seus passos que se aproximavam”.
— Espere. — “Ela segura a mão dele”. — Ele arranhou seu braço. — “Chapeuzinho rapidamente tira a garrafa de vinho de sua cesta e joga parte do conteúdo no braço do estranho que nem reclama do forte ardor”.
— Quer dizer que você ajudaria um estranho armado? — “Ele ri”.
— Como assim? — “Capuchinho amarra o pano de sua cesta sobre a ferida”. — Quem é você?
— O Lobo, o devorador. — “Ele ri assustadoramente”.
— Len! — “Ela olha bem para o rosto dele reconhecendo-o”.
— Até que enfim. — “Ele bufa”. — Logo que você apareceu eu sabia que era você.
— Vai falar que é porque sou barulhenta. — “Ela vira os olhos enquanto mexia nos pingentes que colocara no cordão de sua capa… Ela tinha lembranças claras sobre aquilo. Era algo novo”.
— Por que será? — “O Lobo ri desviando dela e voltando a andar. Ele também tinha lembranças de uma vida dentro da história, mesmo que não muito antigas”.
— Acho que você deve vir comigo… Se meu objetivo era ir para a casa da minha avó, deve ter algo lá. — “Ela para na frente dele”. — É para o sul daqui. — “Anda na direção certa”.
— Agora virei babá? — “Ele vira os olhos indo atrás dela”.
— Estou te pagando. — “Ela coloca uma maçã verde na mão dele”. — Eu ouvi seu estômago roncando umas três vezes. — “Esclarece tentada a puxar aquele capuz surrado que tampava metade de seu rosto. Ele parecia um ladrão ou algo do tipo, sem contar que ele estava sujo de areia…”.
— Você tem uma cesta cheia de queijos, pães, bolo de chocolate e doces e vai me dar só essa maçãzinha? — “Ergue uma das sobrancelhas depois de farejar o ar”.
— Sai pra lá Beethoven. — “Ela ri empurrando seu ombro bem de leve”.
— Essa é nova. — “Ele quase tropeça em um galho caído”. — Agora sou cachorro também? — “Morde a maçã”.
— Come isso logo. — “Ela continua rindo e ele sorri forçando-se a pensar no sabor cítrico da maçã”.
“Chapeuzinho caminhava sem preocupações enquanto o Lobo a seguia de perto, sempre alerta. Ele não podia negar, desde que chegara ali sentia-se irreversivelmente faminto, como se pudesse devorar uma cidade inteira e ainda assim continuar com fome”.
— Estamos chegando? — “Pergunta pouco tempo depois, afinal eles tomaram o caminho mais longo”.
— Praticamente na frente. — “Ela olha para a entrada da casa estranhando o fato da luminária estar apagada, sua avó sempre a acendia naquele horário. Chapeuzinho tenta dar um passo, mas o Lobo a impede”.
— O que foi? Farejou algo? — “Diz em tom de brincadeira, mas ele a ignora apurando os ouvidos”.
— Tem alguém andando no fundo da casa da sua avó. — “Avisa”.
— Como assim? — “Dá meio passo ouvindo alguém chacoalhar a janela da cozinha”. — Calma. — “Ela se solta de seu aperto forte”. — Eu vou tomar cuidado.
“Ela se aproxima sorrateiramente escondendo-se atrás do grande carvalho do quintal com o Lobo bem atrás de si. Os passos que ele ouvira estavam mais próximos e Chapeuzinho vê a silhueta de um homem sumir novamente atrás da casa. Ela agacha pegando algumas pedras no chão”.
— Fique aqui. — “Ela morde o lábio vendo-o sacudir a porta da frente procurando uma forma de entrar”.
— Por quê? — “Ele cruza os braços”.
— Ah, Len… — “Olha para ele aborrecida”. — Não vem dar uma de teimoso agora. — “Ela bufa”. — O que é mais fácil de perceber: o Lobo e a Chapeuzinho ou só a Chapeuzinho se aproximando? — “Cochicha procurando o melhor momento para partir”. — Eu vou fazer dar certo. — “Ela coloca seu capuz e se afasta achando aquele momento perfeito”.
— Pelo menos ela não disse que é por eu ser cego…
“O Lobo senta no chão se perguntando se ela realmente o via como uma pessoa ‘normal’, a maioria das garotas ‘comuns’ que ele conhecia o tratavam como um bicho de pelúcia ou filhotinho ferido e aquilo era insuportável. Ele se concentra ouvindo tudo atentamente, percebendo que ela se esforçava para não fazer barulho. Estava pronto para dar um jeito de interferir caso fosse necessário”.
“Chapeuzinho logo chega na porta, ela se estica para pegar a chave reserva no batente e escuta o homem se aproximar. Ela joga as pedras num tronco caído no momento que alcança a chave. O homem ao invés de dar a volta na pequena casa como pretendia corre até o tronco dando tempo de Chapeuzinho destrancar a porta e entrar sem ser impedida”.
— Abra já essa porta! — “Grita chacoalhando a porta, tentando evitar que ela se fechasse. Seu rosto colado no vão foi tudo o que Chapeuzinho precisava para ter certeza de que este era o mesmo homem que a abordara no bosque. Ela não fazia ideia de que ele já tinha trabalhado por lá e já a vira visitando sua avó. A garota sentia-se como um alvo”. — Vou arrombar! — “Diz mais determinado do que nunca”.
“Chapeuzinho que até agora usara todo os seu peso para impedir que ele abrisse a porta empurra o pé dele finalmente conseguindo fechá-la. Ela coloca a chave na fechadura trancando-a rapidamente e toma um susto ao ver sua avó segurando acima da cabeça um rolo de macarrão, pronta para golpeá-la. Por sorte, a luz da luminária que segurava foi o bastante para que ela pudesse reconhecer o rosto da garota e abaixar o rolo”.
— Minha menina. — “A abraça contente”. — Pensei que ele tivesse achado a chave. Você está bem?
— Estou. — “Ela sorri largando a cesta na mesa. Precisava encontrar algum móvel pesado para tampar a porta. Assim como a avó, ela sabia que a fechadura não aguentaria para sempre”.
— Vovó… — “Ela empurra uma cômoda para a frente da porta”. — Vá se esconder. Eu vou fazer esse homem ir embora. — Se eu demorar fuja pela janela e conte para todos o que aconteceu.
— Boa sorte e tome cuidado. — “Ela entrega sua ‘arma’ para a neta e se esconde dentro do guarda-roupas”.
“A garota se encolhe com o violento chacoalhar da porta. Ela sabia que não conseguiria fazer grande coisa, mas poderia fugir facilmente se o distraísse. Ela apenas respira fundo escondendo o rolo.
“Com o coração disparado, ela vê a porta sendo aberta e com pura força bruta, a cômoda ser afastada o bastante para que o homem pudesse entrar. Em um flash ela lembra de todo o resto da história. Relaxa, afinal, ninguém fora devorado até então”.
— Vai ser bem melhor para nós dois se você vier aqui por vontade própria Chapeuzinho… — “Ele sorri ameaçadoramente”. — Eu não vou te machucar. — “Mente”.
— Quem você pensa que é para se dar o direito de invadir a propriedade alheia? — “Ela ralha quando ele coloca um dos pés para dentro”. — Seu grosseiro. — “Capuchinho finge que vai empurrar a cômoda para então atacar o rolo em sua cabeça assim como outros objetos que encontra. Com um corte na testa e bastante surpreso o homem dá uns dois passos para trás, mas logo se recupera enfurecido”.
— Você vai pagar caro por isso! — “Ameaça se aproximar, mas o Lobo, atraído pelo barulho, habilmente agarra seu braço e o imobiliza. Como o homem não parava de se debater acabou batendo a cabeça na porta, desmaiando logo em seguida”.
— Rápido, cordas… Qualquer coisa que sirva para amarrar. — “Ele pede enquanto colocava o homem no chão”. — Não dá para saber quando ele vai acordar. — “Afinal, teoricamente era ele, o Lobo, quem deveria ser o vilão da história. Imaginou que cada um fazia de si o que quisesse, mesmo em um mundo daqueles”.
“Chapeuzinho Vermelho, contente, pega a corda que sua avó usava para prender a luminária e o amarra com força. Ele não se safaria dessa tão facilmente”.
— Pode sair vovó. — “Capuchinho bate na porta do guarda-roupas”.
— Finalmente. — “Ela pula para fora do móvel abraçando a neta e olhando para o Lobo”. — Obrigada, moço.
— Não há de quê! — Agora vamos levá-lo para a margem do rio. — “Sugere recebendo um olhar cúmplice de Chapeuzinho. Ele sorri com o gesto”.
“Eles carregam o homem desacordado até lá e o amarram em uma árvore larga, com força suficiente para que ele não se soltasse com facilidade quando acordasse. Ele aprenderia sua lição… Quando voltaram para a casa da avó de Chapeuzinho, eles fizeram um lanche aproveitando as sobras do que a garota trouxera em sua cesta. Eles se despedem da vovozinha e acompanhada pelo Lobo, Chapeuzinho Vermelho volta para sua casa usando o caminho que bem tendia”.
Uma força gentil e “colorida” nos puxa para fora do livro e nós voltamos para a sala com o livro fechado no meu colo.
— Estou com fome. — Bocejo espreguiçando-me.
— Você sai de um livro tendo certeza absoluta de que não é mera alucinação e essa é a primeira coisa que tem a dizer? — Reclama depois de um tempo, o tom da voz dela deixava claro que ela estava indignada.
— E o que você queria? — Viro os olhos.
— No mínimo um: Poxa, que legal! — Ela bate um tênis no outro suspirando cansada. Estava chateada?
— Bacaninha…
Dou de ombros só para aborrecê-la. Sabia que dizer algo assim sobre algo tão incrível que eu mal tinha digerido era maldade, mas eu gostava de vê-la brava… Será que ela corava?
— Implicante.
Ela suspira e eu sorrio. Lun abre a sua bolsa colocando algo de papel lá dentro, então, literalmente joga a bolsa no chão e levanta afastando-se rapidamente. Eu não podia me esquecer de onde aquela bolsa estava…
— Aonde você vai?
— Na biblioteca.
Depois de um tempo eu a sigo até lá.
— Cof! Cof! — Finjo tossir. — Não vai dizer que está pegado outro livro!
— Eu vim ver se eu estava certa.
Eu viro o rosto para ela curioso. Dou um passo para dentro da sala esperando que ela dissesse alguma coisa, o que não acontece.
— Sobre…
— O pote ficou mais cheio do que antes. É como se, de alguma forma, tivéssemos coletado seu conteúdo.
Lun murmura o final da frase, deveria estar distraída olhando para as estantes abarrotadas de livros que minha avó tanto prezava. Batuco com os dedos no batente da porta. Seus passos eram confusos e ela mexia em vários livros ao mesmo tempo. Tentar seguir seus movimentos com a cabeça estava me deixando tonto. Ela não podia parar quieta?
— Parece que perdemos a estrela da carta… Se é possível entrar e interagir com a história isso não é totalmente improvável…
— Isso não é bom. — Ela finalmente para. — Pediram para não deixarmos isso acontecer.
— Espero que seja bobagem… Acho melhor vermos se a minha avó voltou e tentarmos descobrir se ela sabe que esses livros são nada comuns.
— Boa ideia. — Lun esfrega os braços, deveria estar com frio.
— Sentem-se. — Minha avó pede quando entramos na cozinha. Ela terminava de pôr a mesa enchendo três xícaras com o chá de erva-cidreira, o cheiro estava ainda melhor do que antes…
— Hm… — Lun para no meio do caminho tentando decidir em qual cadeira sentar.
— Anda logo…
Eu suspiro. Se ela não fosse tão barulhenta, com certeza teria tentado passar por cima dela e isso seria bem constrangedor. Eu já tinha caído (especialmente por ter sido esmagado por ela) vezes suficientes por hoje… Lun puxa a cadeira devagar antes de se sentar. Eu me sento sorrindo sarcasticamente imaginando que ela olhava para mim fazendo cara feia. Minha avó inverte nossas xícaras rindo, provavelmente pensando algo como: “Jovens… eles ainda têm muito caminho pela frente…”.
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