Até ele voltar

7 Capítulo 6 - Covarde


Notas iniciais
Voltei!!! Gente, voces estão gostando? Estou recebendo poucos comentários...

– Se você não falar nada, eu vou desligar.

Eu mesma desliguei. Bernardo me olhou desconfiada.

– O que foi? Ele desligou?

– Acho que ele estava ocupado. Sua mãe tem razão, melhor eu esperar até amanhã.

Bernardo deu de ombros e voltou sua atenção para as peças do brinquedo. Fiquei alguns instantes paralisada, tentando acalmar minha respiração. A voz dele estava mais grave, mais adulta. Levei um susto quando meu celular voltou a tocar.

Era ele retornando a ligação.

– É ele? – perguntou meu irmão distraído.

– Na verdade, não.... Bê, vou lá fora atender minha amiga de São Paulo.

– Bianca disse que você não tem amigas.

– Nunca ligue para o que a Bianca diz. Se precisar de alguma coisa, chame sua mãe.

Sai em disparada para a rua. Meu celular tocou de novo. Quando Pedro desistiu, achei melhor desligar o aparelho. Tentei me acalmar. não queria de jeito nenhum que ele soubesse que eu havia ligado. Pedro era um cara extremamente convencido, se ele sonhasse sobre quem havia ligado eu estaria perdida. Ele contaria para o bairro inteiro que a esquentadinha estava atrás dele. Nenhuma das minhas explicações sobre estar procurando João e sobre eu não ter ideia para quem estava ligando adiantariam.

Agradeci aos céus por ter a mania de trocar meu numero de celular regularmente. Quando fugi, há 5 anos atrás, meu pai chegou até a rastrear meus aparelhos. Tomei medidas drásticas: trocava o número todos os meses, com medo de que me achassem. Ninguém tinha meu celular, apenas Cobra, Roque e Wallace. Quando meu pai queria informações, ele falava com Roque e meu treinador apenas me passava o necessário. Era melhor assim. Ninguém ali tinha meu número, Pedro jamais saberia quem havia ligado.

Sentei em um dos bancos da praça. Olhei com pesar para a banca da Dona Dalva. Eu gostava mesmo daquela velha. Ela tinha um espírito tão alegre, leve. Mesmo com todos os problemas que já havia enfrentado na vida, ela conseguia tirar sarro de tudo e ver o lado bom das coisas. Pensei em Duca. Sozinho no mundo. Sem pais, avó e irmão. E enganado pela própria namorada. Eu sabia muito bem a sensação de perder tudo de uma vez, de não poder contar com ninguém.

– Filha? O que houve? – meu pai vinha em minha direção após sair cantarolando da academia. Ele estava feliz.

– Estou só dando uma olhada – sorri – sabe se o Duca está em casa? Gostaria de fazer uma visita.

Meu pai pareceu pensar por alguns segundos.

– Não faço ideia, K... depois que a avó dele morreu, Duca anda pra baixo. Não aceita ajuda de ninguém, nem temos nos falado direito. Acredito que ele esteja em casa sim, nem sai mais de lá. Ele adoraria te ver.

A casa de Duca era bem próxima da minha. Respirei fundo e bati algumas vezes na porta. Logo ele atendeu. Levei um susto.

Duca havia perdido no mínimo metade de seus músculos. Estava fraco, magro, abatido, com olheiras enormes embaixo dos olhos. Pareceu assustado ao me ver, piscou algumas vezes e por fim sorriu, sem graça.

– Ah, oi K.

– Oi Duca.

Duca havia me decepcionado algumas vezes na vida. Quando era adolescente, o culpei por não gostar de mim. Éramos tão iguais, tão amigos, tínhamos tudo para dar certo. Por que ele havia se apaixonado por Bianca, então? Depois teve aquela enorme confusão. Me enganaram, engataram aquele romance as escondidas. Depois de muito sofrer, superei. Perdoei. Daí ele resolveu me enganar novamente: sabia o tempo todo daquele maldito acordo e não me contara.

Nos afastamos muito por um tempo. Ele estava sempre presente, mas eu o evitava. Por mais que implorasse para Nat não dar informações para ele, ela dizia. Eu costumava lutar até de madrugada na academia Khan. Muitas vezes, percebia que ele me seguia até a casa de Nat, cuidando de mim.

Jamais agradeci.

Em certo ponto da história o destino nos uniu novamente. Descobri por acaso os planos dele e de Nat contra a Khan. Resolvi ajudar. Achávamos que éramos heróis. Nos arriscamos demais. Nós três contra a galera do mal. Desmascaramos Lobão finalmente. Heideguer conseguiu se safar, aquele cretino. Mas não contávamos com a inteligência dos dois. Quando os arquivos foram abertos, diversos documentos incriminavam Nat. Eu acreditei nela fielmente.

Duca não.

– Entra – pediu ele , dando passagem.

A casa estava muito bem arrumada e nada havia mudado de lugar.

– Quer alguma coisa? Água, café, refrigerante?

– Quero saber como você está.

Duca jogou-se no sofá e esfregou os olhos com as mãos, visivelmente cansado.

– Tentando seguir em frente. É bem difícil, K.

– Você sabe que não me aguento e preciso comentar – respondi depois de me acomodar em um sofá de frente para ele – você está péssimo, Duca. Sério mesmo. Tomei um susto enorme quando te vi. Para ter perdido tanta peso em pouco tempo, você deve estar comendo nada. Vai ficar doente.

Duca riu. Revirou os olhos e me encarou, rindo novamente.

– Eu vivi pra ver isso, mesmo. Karina Duarte mandando alguém se cuidar – pela primeira vez depois que entrei, ele pareceu realmente me notar – você está bem cuidada. Jurava que ia aparecer arrebentada.

– Eu costumo ganhar as lutas, Duca – sorri de forma cínica para ele.

– Por onde você estava? – perguntou ele, sério.

– Estamos falando de você.

– Não tem o que saber de mim. Minha avó morreu, estou arrasado. Preciso de um tempo. Estou desse jeito deplorável porque fiquei meses rodeando o hospital, trabalhando o dobro pra pagar as despesas. Abandonei a faculdade, os treinos. Vou voltar ao normal, só preciso de um tempo.

– Certo. Duca... – comecei. Não sabia como ele iria reagir as minha próximas palavras – eu gostaria muito de visitar a Nat.

As veias no pescoço dele apareceram devido a tensão que surgiu em todo seu corpo. Senti sua respiração falhar e vi seus olhos escurecerem. Eu conhecia bem o sentimento que o havia dominado naquele instante: raiva.

– Você só pode estar brincando, Karina – respondeu ele em um sussurro – sabe que nunca mais tive contato com ele.

– Ela saiu da prisão?

– Não.

– Tem alguém cuidando do caso dela?

– Eu não sei, Karina – Duca estava impaciente agora – quando eu voltei com a sua irmã, prometi pra ela que minha história com a Natalia estava encerrada. E eu cumpri para fazer dar certo com a Bianca.

Pobre, Duca. Se ele soubesse...

– Pensei que eu ia te convencer em ir comigo – Duca riu – mas fico satisfeita com a informação. Vou até lá sozinha.

– Você volta depois de anos. Eu tinha deixado bem claro pra Natalia que eu a estava deixando sozinha. Ela sabia que não podia mais contar comigo. Mas você, não. Era a única pessoa que ela ainda tinha. O que você fez? Fugiu.

– Não sou filha da puta a esse ponto – respondi, grosseira – antes de ir embora lá foi o último lugar em que eu passei. E sabe o que ela me disse, Duca? Que eu estava certa. Que eu precisava ir atrás dos meus sonhos.

Duca se levantou do sofá em um pulo. Apontou o dedo na minha cara. Enfurecida, eu levantei também.

– Ela vai ficar muito decepcionada quando descobrir que você não foi atrás dos seus sonhos, porra nenhuma! – esbravejou ele – meses tentando desmascarar um dos maiores esquemas de apostas do estado pra depois você mesma entrar nessa merda! QUAL É O TEU PROBLEMA, KARINA?

– VOCÊ NÃO SABE MEUS MOTIVOS, SEU MOLEQUE! A Natalia estava certa! Você nunca vai mudar esse seu jeito ridículo de se achar dono de toda a verdade!

– Quer saber? Esquemas de apostas eu até entendo, luta feminina nunca deu muito dinheiro, mesmo – ele havia abaixado o volume da voz, mas ainda estava extremamente bravo – mas agora, briga de torcida? Como você se meteu nisso? Apenas me tire uma dúvida. Aquela vez que você foi pega com arma era por causa disso?

Fiquei em silêncio.

– Que merda, Karina – Duca falava com tanto nojo que chegava a me incomodar – e ainda com o Cobra.

– Duca – respirei fundo, tentando me acalmar – Cobra está em coma.

Duca pareceu relaxar um pouco.

– Eu sei.

– Então não fale dele. Ele não está aqui para se defender.

– Por que, K? – Duca agora passava as mãos no cabelo, inconformado – quase morri de preocupação com você sozinha por aí com ele.

– Ele cuidou bem de mim.

Duca se aproximou.

– Bianca insiste em dizer uma coisa, mas eu sou teimoso o suficiente para achar o contrário. Acho que você não seria capaz. Você estava... saindo com o Cobra?

– Minha irmã acha nossa relação é baseada em sexo. Mas não é. Somos namorados.

– Você gosta dele?

– Claro que gosto – respondi incrédula – ele não é a pessoa que vocês imaginam. Tem seus defeitos, mas tem muito valor. Eu amo ele.

Duca vasculhou em meu olhar alguma coisa que me denunciasse.

– Sinto muito, então – ele desviou o olhar quando algumas lágrimas começaram a cair em meu rosto – isso já é demais para mim.

Limpei as lágrimas e me dirigi para a porta.

– Tenho algumas dívidas com você, apesar de tudo. Se precisar de ajuda, me chame. Mas por favor, não se meta na minha vida.

Sai de lá desolada. Mal havia chegado no Rio novamente e já tinha brigado duas vezes. Parei no meio da praça, perdida. Queria lutar, para aliviar a dor. Corri de volta para casa e passei em um borrão pelos cômodos até o quarto do meu pai. Ele estava ali, mexendo em seu notebook.

– Pai, quero ir na academia.

– Agora?

– Sim. Conversar com Duca... me deixou com vontade.

– Ele vai com você?

– Não, vou sozinha.

– Então vamos juntos.

Meu pai levantou-se sorridente. Me encarou com os olhos brilhando. Aquilo, depois de tudo, era muito importante para ele. Mas eu não daria o braço a torcer tão fácil.

– Pai... não – respondi, desviando o olhar para o chão – prefiro sozinha.

Meu pai pareceu que iria insistir, mas depois sentou-se novamente. Me estendeu as chaves. Peguei o molho e sai em disparada antes que meus olhos se enchessem de lágrimas. Bianca dormia tão profundamente que nem viu quando eu entrei e me equipei. Peguei água na geladeira e fui em direção a academia.

Lá estava ela: a imponente e segura Academia do Gael. Entrei devagar. Abri as janelas para deixar a luz entrar. Estava tudo do mesmo jeito. Algumas reformas haviam sido feitas, alguns utensílios eram mais modernos agora, mas naquele momento eu me senti como se nunca tivesse ido embora. Como se eu ainda pertencesse a aquele lugar.

Mas era besteira, afinal. Eu era uma estranha por ali.

Me alonguei, escolhi um saco e comecei um treino pesado. Para cada soco, uma lágrima, para cada chute, um grito. Comecei a me acalmar quando o suor escorreu pelo meu rosto. Mas eu precisava de mais. Precisava sentir meu corpo implorar para parar só para ter o prazer de quebrar algum limite.

Percebi que havia exagerado quando a falta de luz começou a me incomodar e me atrapalhar. Olhei no relógio do celular: 19h40. Juntei os materiais e segui para casa. Para minha surpresa, estava tudo no mais perfeito silencio. Estranhei. Na cozinha, havia um bilhete pendurado na geladeira:

“K,

Decidimos sair um pouco. Fomos em uma excelente pizzaria próxima daqui. O endereço está ao final do bilhete, pegue um táxi e venha nos encontrar. Vai ser divertido. Qualquer coisa me ligue. Beijos, Dandara”.

E como prometido, ao final tinha o endereço do tal lugar e o número dela. Mandei uma mensagem explicando que Roque havia me ligado e eu precisava preencher uns relatórios ainda hoje. Desculpa esfarrapada. Eu não queria ir, de jeito nenhum. Uma passada pelos cômodos me deu a certeza de que todos haviam ido, até Bianca. Encontrei na geladeira tudo que eu precisava para fazer um lanche daqueles. Escolhi um filme na TV, tomei um banho para relaxar.

Seria um excelente fim de domingo.

Em certo ponto do filme, senti vontade de urinar. O pausei e segui calmamente para o banheiro. Estava lavando as mãos quando ouvi a porta abrir. Não passava das onze horas, muito cedo para voltarem. Estranhei a falta de barulho. Pelo que eu me lembrava, Dandara sempre voltava cantando desses passeios em família.

– Mãe? Gael? – era João. Fechei a porta e encostei na parede fria do banheiro. Atenta – ninguém em casa? Cheguei, poxa.

Pelo amor de Deus, por tudo que é mais sagrado. NÃO!

Por mais que eu estivesse tremendo de ansiedade, eu não era uma covarde. Abri a porta com firmeza e segui para o corredor. Ouvi barulho de passos no meu quarto e voltei um pouco, parando no meio do corredor. Logo João entrou no meu campo de visão.

João começou a passar mal. Respirava com dificuldade e ficou pálido.

– Não vem pra cá! – gritou ele, alto demais.

Qual era a dele? Ele foi a única pessoa com quem eu não briguei antes de ir embora. Para que essa reação agora?

Ouvi passos na sala. Entendi imediatamente que não era comigo com quem ele falava. João arregalou os olhos mais ainda, se era possível. Me implorou perdão com os olhos. Senti uma presença atrás de mim e me virei.

Alto, mais forte do que eu me lembrava. Manteve os cabelos cheios e revoltados. Por um instante me olhou assustado. Mas no seguinte, fechou a cara para mim, me olhando de cima a baixo.

– Fica pra próxima, João – disse ele ainda me encarando – até mais.

Pedro piscou para o amigo antes de se virar. Senti o perfume dele. Meu corpo tremeu. Pensei que minha pequena tortura havia acabado, mas me enganei. Pedro se virou novamente. Abaixei os olhos, porque imaginei que ele falaria com o João. Me enganei novamente. Ele chegou perto de mim. Respirei fundo, juntei todo meu orgulho e o encarei.

Castanho no azul. Mais uma vez.

– Da próxima vez que me ligar, diga alguma coisa. Não pensei que fosse tão covarde.

João fez um barulho tão esquisito. Parecia estar tendo uma crise de asma. Mas o ignoramos.

Encarei Pedro por mais alguns segundos e lhe dei um de meus melhores sorrisos. Eu quase conseguia ver o coração dele pulando no peito.

– Cuidado, Pedro. Eu posso muito bem arrancar a sua língua fora.

– Claro que pode – respondeu ele, firme – você é uma bruta.

Arregalei os olhos. Meu coração doeu. Pedro me deu as costas e só fui me dar conta do que estava acontecendo quando ouvi a porta se fechar num estrondo.

Ninguém me chama de covarde e me dás as costas.

– Karina, pensei que você tivesse ido junto! – sussurrou João – não queria te por nessa situação de merda.

– Fica aqui, João.

– Onde você vai?

Sai em disparada pela rua. Olhei em volta com os olhos cerrados. Pedro seguia pisando firme no quarteirão do lado. Corri atrás.

– PEDRO! OLHA PRA CÁ, SEU MERDA.

Pedro parou. Me encarou sorrindo e cruzou os braços. Pura pose.

Alcancei-o em poucos segundos. Soltei o ar pelo nariz e me controlei para não cuspir naquele cínico.

– Não se pode chamar alguém de covarde e depois fugir como um, seu otário.

– E o que você vai fazer, sua estúpida? Me bater?

Antes que meu punho acertasse em cheio sua cara, Pedro desviou. Segurou em meu braço com força, apertando até ver minha pele ficar vermelha.

– Não sou mais seu saco de pancadas, sua desequilibrada. Experimenta me bater pra você ver.

– Agora você bate em mulheres, seu frouxo? – debochei, soltando meu braço com um puxão.

– Jamais. Mas em mim, você não encosta mais.

Não me humilharia por tão pouco.

– Como sabia que era eu ligando?

– Fácil. Joguei no Whatzapp. Apareceu sua foto.

Eu deveria ter ficado mais vermelha do que um tomate. Tão simples e bobo. Mas genial. Anos trocando números de celular me achando a foragida e um aplicativo tão básico quanto aquele havia me entregado. Eu excluiria aquela merda hoje mesmo.

– Então estamos conversados. Adeus, valentão.

Dei as costas.

– O que você queria?

– Estava atrás de João – respondi ainda de costas para ele – Bernardo me passou seu número e eu sequer imaginei que você era o tal amigo que estava com ele hoje – me virei para ele – não quero nenhum tipo de contato com você. Não pense que liguei para aquele número com qualquer tipo de intenção a não ser procurar meu irmão.

– Que bom que não quer. Porque a resposta seria não. Até mais. Mande lembranças para sua família.

– Só se eu me lembrar de que te vi hoje.

Dei as costas novamente. Segui para minha casa, segurando as lágrimas. Eu não deixaria ele me afetar daquela maneira. Não depois de tudo que ele me fez. Depois de alguns metros, olhei para trás e vi que ele já havia desaparecido. Corri para um dos bancos da praça e fiquei ali, tentando me acalmar pela terceira vez no dia.

Notas finais
PEDRO REVOLTADINHO HAHAHAHAHAHAH