Até ele voltar
8 Capítulo 7 - João, o fiel
Notas iniciais
João me pediu milhares de desculpas.
– Eu não sabia que você estava aqui – explicava ele enquanto secava as louças que eu lavava – puta falta de sorte.
– Esquece, vai. Já passou – respondi entregando mais uma xícara – não quero que ninguém saiba disso que aconteceu. Vão ficar... especulando.
João concordou com a cabeça enquanto observava nossa família conversando entretida na sala. Assim que chegaram, decidiram se reunir e tomar uma xícara de café antes de dormir. Ninguém havia desconfiado de que minutos antes, naquela mesma casa, havia tido um confronto tão tenso.
– Pensei que você fosse bater nele ali no corredor mesmo. Sabe, que nem nos velhos tempos – comentou João, rindo – eu me matava de rir naquela época.
– João, chega desse assunto – pedi – aconteceu. Pronto. Não vamos nos ver de novo. Faça o favor de agora em diante não trazer ele aqui enquanto eu estiver. Se ele vier com você aqui, me avise também para eu demorar para voltar.
João levantou os braços, se rendendo.
– Depois daquela cena que eu causei, te faço todos os favores do mundo.
João se arrependeu de pronunciar aquelas palavras assim que viu meu olhar esperançoso. Era só isso que eu precisava ouvir.
– Calma lá, Karina... quase todos.
– Não pira, mané. É bem simples.
– Simples ao estilo Karina? Já não estou gostando.
Ficamos em silencio quando vimos Bianca se aproximar trazendo um prato sujo por farelos de biscoitos de polvilho. Assim que viu a aproximação minha e de João, Bianca tornou-se extremamente prestativa naquela noite. Trazia para nós todas as louças, vinha a cozinha buscar suco, água, refrigerante, frutas.
O medo dela era gigantesco.
– Vou me arrepender... mas manda – suspirou João, depois que Bianca se afastou.
– Amanhã vou visitar uma amiga. Queria que você me encobertasse – comecei, sussurrando – não é pra você ir junto. Só confirma a história falsa que eu contar.
– E pra que você precisa inventar uma história falsa? – perguntou João, desconfiado.
– Por que essa minha amiga se chama Natalia. E a casa dela atual é a cadeia.
Houve um barulho estridente quando a xícara se partiu em pedaços no chão.
– JOÃO! – gritou Dandara, assustada – o que foi isso, filho? Machucou?
João não respondeu. Olhava de mim para a mãe, transtornado.
– Tá passando mal? – perguntou meu pai, aproximando-se de nós para juntar os cacos.
– Não... – respondeu João com a voz fraca – é que... Karina estava contando uma história sinistra! Uma vez em uma luta...
– Já entendi – respondeu Gael encerrando o assunto. Eu sabia que ele evitaria qualquer conversa sobre as lutas que eu havia me envolvido nesses anos. Excelente jogada de João – está tarde. Melhor vocês acabarem isso logo. Vamos dormir.
Eu e João trocamos um olhar cúmplice. Fingimos limpar a cozinha enquanto Dandara e Gael se recolhiam para dormir. Bianca começou a rodear. Agradeci aos céus quando Bernardo começou a resmungar no quarto chamando por ela. Vencida, ela me deu um olhar de súplica antes de seguir para o quarto.
– Ficou louca, Karina? – disse João, atento aos moradores da casa, assim como eu – a cadeia da Nat é em Porto Sul... outra cidade.
– Só 20 minutos daqui – respondi, impaciente – fiquei sabendo que a Nat está sozinha. Sem ninguém pra cuidar do caso dela... duvido que alguém sequer visite ela. Eu tenho grana guardada... posso ajudar.
–Então contrata um advogado e manda ele ir lá. Que loucura, Karina! Lá é barra pesada – argumentava ele, controlando-se para não gritar comigo.
– NÃO! – respirei fundo – ela merece que eu vá visita-la. Vai me ajudar ou não?
João passou as mãos nos olhos, cansado.
– Você voltou mais teimosa e chata do que nunca – respondeu ele – mas vai irmãzinha, manda.
– Vou de ônibus...
– Piorou Karina!
– ... não quero ir com o carro do meu pai e correr o risco de acontecer alguma coisa...
– Com o carro não pode acontecer nada, mas com você sim?
– ... então vou de ônibus mesmo. Vou logo depois que meu pai sair para a academia e a Dandara pra Ribalta, umas 9 horas. Volto antes de anoitecer, prometo.
– E onde eu entro nisso?
– Confirma minha história. Vou dizer que vou passar o dia visitando alguns lugares.
– Você só gostava da academia, meu bem. Ele não vai cair no papo de você estar com saudades das praias pomposas do Rio de Janeiro.
– É aí que você entra. Vou falar que vou com você. Sabe, visitar sua faculdade, conhecer o lugar que você está estagiando... sempre nos demos bem, ele vai engolir numa boa que estamos querendo nos reaproximar.
– E pra isso...
– Você precisa sumir também. Essa é a parte mais importante, João. Precisamos sair de casa juntos e voltar juntos. Pra ninguém desconfiar. Vamos nos falando o dia todo pra não ter desencontro.
– Precisa realmente disso tudo? De toda essa mentira? Você nunca foi de mentir desse jeito.
Encarei João. Com seus olhos profundamente castanhos ele parecia ser capaz de enxergar uma Karina que eu não sabia se ainda existia: a bruta, porém doce, sincera e honesta. Eu havia assassinado aquela garota. Torturei-a dia após dia, até finalmente apaga-la. Se a Karina de 18 anos ainda existia, ela estava muito bem escondida.
– Meu pai não entenderia. E mesmo se entendesse, não quero preocupar ninguém. E também João, já sou maior de idade. Vai dar tudo certo.
– Espero mesmo, K. Não quero ser o pessimista da dupla, mas Porto Sul é bem perigosa. Depois que transferiram a cadeia pra lá, a cidade virou centro de um monte de coisa pesada: droga, prostituição, assalto. Me promete que você vai do ponto de ônibus pra cadeia, da cadeia pro ponto. Tudo isso antes de anoitecer.
– Confia em mim. Amanhã a noite nós dois vamos estar nesse mesmo horário suspirando aliviados.
Dei o meu sorriso mais sincero e confiante para ele. João hesitou, mas depois sorriu também e me abraçou, forte. Eu sentia muita falta dele. Comecei a imaginar como João reagiria quando soubesse que seria pai. Por mais que agora fosse um homem por fora, eu tinha certeza que João ainda era uma criança por dentro.
– Obrigada, João. De verdade.
João sorriu mais uma vez.
– Até amanhã. Nos encontramos para o café da manhã.
E, por fim, saiu.
No quarto, Bianca ainda estava acordada. Ela me esperava sentada na minha cama. Parecia estar sofrendo com sua ansiedade. Fingi não perceber seu estado enquanto colocava um pijama e fazia minha higiene pessoal. Só depois de estar devidamente pronta para deitar eu parei na frente dela, de braços cruzados.
– Preocupada se eu abri a boca pro João, né?
– Sinceramente? Sim – respondeu Bianca, encarando ao chão.
Sentei ao lado dela.
– Eu tenho milhares de motivos pra te matar, Bianca. Pra ferrar com sua vida. Mas não vou usar isso. Acho que ele precisa saber sim, mas quem vai contar vai ser você.
– É muito complicado, K. Você não tem ideia.
Bianca tinha os olhos marejados quando me encarou. Ela parecia cansada de lutar sozinha com seu segredo.
– Quantas semanas?
– Acho que umas 6 ou 7 semanas, não consigo saber ao certo.
Ficamos em silencio enquanto ela chorava. Eu sempre fui péssima em consolar as pessoas, sempre fugi de qualquer tipo de situação dramática. Arrisquei envolver os ombros dela em um abraço e Bianca entendeu, encostando a cabeça em mim.
– Eu já sabia antes, é claro. Eu e você somos muito certinhas com nosso ciclo. Quando atrasou, eu já sabia. Descobri terça feira passada depois de um teste de farmácia. Quase tive um surto, se é que tive e não percebi. Chorei tanto, me xinguei, cheguei a me machucar de raiva de mim mesma. Tudo isso sozinha, sem ninguém com quem eu pudesse conversar. Mas depois, acho que comecei a encarar. Encarar de verdade que a responsabilidade é toda minha e que eu precisava reagir.
– E como você sabe que não é do Duca? Vocês não... você sabe...
Bianca soluçou e riu ao mesmo tempo.
– Duca é uma pilha com isso, K. Apavorado com tudo. Faz questão de transar com camisinha sempre, mesmo sabendo que eu me cuido com pílula – Bianca fez uma pausa e eu senti seu corpo ficar tensa – como diminuímos o ritmo nos últimos meses, eu desleixei. Minha ginecologista sugeriu trocar a marca do anticoncepcional e eu acabei parando de tomar por um tempo. Eu sou uma burra mesmo.
– E só pra confirmar: você não estava tomando pílula e transou com o João sem camisinha?
Bianca se soltou do abraço. Abanou a cabeça confirmando quase de forma imperceptível.
– Bianca, eu não acredito. Não acredito de você ter feito sem proteção e eu não consigo entender como foi acontecer isso com vocês dois.
– Karina, eu preciso dormir. Quase passei mal de nervoso imaginando a conversa de vocês. Afinal, do que vocês tanto falavam então?
– Faculdade – respondi rápido – não quer falar hoje, tudo bem. Mas quero saber dessa história.
– Amanhã. Não tenho ensaio no teatro e podemos passar a tarde toda juntas.
Droga. Mordi o lábio, pensando. Se eu falasse dos meus planos, ela iria querer ir junto para vigiar minhas conversas e de João.
– Podemos sair a noite. Bem mais legal. O que acha?
– Ah, melhor ainda! – Bianca sorria radiante diante da minha proposta de passear com ela depois de tanto tempo – vai ser ótimo. Podemos sair para jantar, só nós duas.
– Claro! E tenho uma missão para você a tarde. Procura um médico.
– É...esse era um dos meus próximos passos. Mas queria que você fosse comigo. Você é a única que sabe disso.
– E eu vou. Mas primeiro dê uma pesquisada nos melhores que tem. Você sabe que nossa mãe teve complicações, Bianca. Você não pode arriscar. Precisa cuidar muito bem do seu filho.
Bianca sorriu. Se aproximou de novo e me deu um beijo demorado na bochecha.
– Do seu sobrinho. Boa noite K.
Depois que me deitei, fiquei um tempo imaginando como seria ter um sobrinho. Como seria acompanhar uma criança crescer. Uma das maiores dores da minha vida é não ter feito parte dos primeiros anos de Bernardo: primeiros passos, primeiras palavras, primeira papinha. Algo me dizia que talvez a vida fosse me dar uma oportunidade nova.
E eu iria aceita-la.
Fale com o autor