Até ele voltar

10 Capítulo 10 - De lutadora pra lutadora


Notas iniciais
Fui escrevendo, escrevendo e quando vi.... mais de 4000 palavras! :O Espero que não esteja cansativo, eu adorei escrever esse capítulo! Pessoal, comentem para eu saber o que vces estão achando!

Depois do que aconteceu, o clima entre eu e Dandara ficou estranho.

Após a aula de Bernardo, que tagarelava animado sem parar, optamos por almoçar em um restaurante calmo ao lado da escola dele. Ouvi todas as histórias de meu irmão com interesse e fiquei extremamente satisfeita quando percebi que nossa relação estava sendo construída aos poucos. Aquilo era o que eu mais queria.

– Bom, bom final de dia para vocês – disse Dandara, ainda sem graça – João, eu vou levar o Bê até a porta da escola e pego carona pra Ribalta com uma amiga minha que tem a filha estudando aqui também. Ela trabalha em um prédio comercial no mesmo quarteirão, não vai se importar. Fica com o carro, é mais fácil para vocês.

João aceitou as chaves, despediu-se da mãe. Olhei Dandara e então, sem eu prever, ela me deu um abraço apertado.

– Se cuida – pediu ela, cheirando meus cabelos – desculpa se te magoei ou ofendi, não se esqueça nunca que eu só quero seu bem.

Sorri para ela e também me despedi. Demos tchau para Bernardo e ficamos ali os observando atravessar a rua e entrar na escola de paredes coloridas. João foi o primeiro a entrar no carro e o deixei dirigir quando ele me mostrou a carteira de motorista.

– Sou habilitado há anos, sua desconfiada – reclamou ele, ligando o carro – e se prepara que mudei nossos planos.

– O QUE? – gritei – tá maluco? Justo agora que ia começar a dar certo?

– Karina, não sei se alguém te disse isso alguma vez, então se prepara – começou João, tentando fazer mistério. Eu ia chutar a cara dele – você é louca...

– ...louca pra te dar um murro nessa tua cara escrota...

– ... e pessoas loucas precisam de ajuda para raciocinar – completou João enquanto esperávamos em um sinal vermelho – acho essa sua ideia de se meter lá em Porto Sul absurda... mas, sei que se eu te impedir você me sufoca durante a noite...

– ... eu vou picotar seu corpo durante a noite se fizer isso...

– ... então, eu, mestre em planos geniais, decidi te ajudar.

Se ao menos eu tivesse uma arma.

João estava realmente falando sério sobre mudar nossos planos. Sorriu animado enquanto colocava uma música do Wiz Khalifa pra tocar no rádio. Colocou um braço para fora do carro e piscou pra uma menina do carro ao lado. Foi naquele momento que eu percebi que aquela era umas poucas vezes que Dandara tinha deixado João dirigir. Ele estava claramente nas nuvens com tanto poder.

– E o plano é qual, seu inútil? – praticamente rosnei, capaz de pular no pescoço dele se não estivéssemos em um carro em movimento.

– Bem simples – começou ele – vou te levar de carro pra Porto Sul. Só não fico lá com você lá porque preciso apresentar um seminário na faculdade. Assim que sair da visita, você me liga, você espera boazinha dentro da cadeia e eu te busco.

– João, agradeço a preocupação, mas é muito mais fácil...

– Não vai de ônibus, cacete – brigou ele. Observei que ele estava pegando um caminho para cair na estrada – quando chegarmos em Porto Sul, você vai entender. Ruas sujas, casas abandonadas, povo estranho... Maior barra pesada. Você, toda limpinha, loirinha e de olho azul é tudo que eu não quero andando sozinha por lá.

Bufei derrotada no banco. Aumentei o volume do rádio e me concentrei em apenas respirar fundo e me controlar. Durante esses cinco anos, me acostumei a tomar decisões sozinhas e fazer tudo sem a opinião de alguém. Ia e voltava, muitas vezes sem nem Cobra saber. Mas então, um pensamento me ocorreu.

– Como sabe de tudo isso, João? Parece até que frequenta essa cidade.

– Frequenta o que?

– A cidade.

– Cidade?

– Porto Sul.

– Porto Sul? Quem?

– Você, João.

– O que tem eu?

– Fala como se conhecesse Porto Sul.

– Conheço?

– Não sei, me diga você.

– Eu dizer?

– JOÃO – berrei – me fala que você paga prostituta, mas não me fala que você vai lá atrás de droga, seu moleque!

– Você enlouqueceu de vez, mulher? – respondeu João, pálido – fala isso de novo e capaz da minha mãe sair do capô do carro pra me dar umas porradas.

– Então para de se fazer de imbecil e me fala as coisas direito. Por que você sabe como é lá?

Ficamos em silencio por alguns instantes, enquanto João pensava. Ele respirou fundo e me encarou, confuso.

– Foi sem querer na verdade.

Ri com gosto. Puta falta a lerdeza de João me fazia.

– Não ri não – reclamou ele, voltando a se concentrar na estrada – eu tenho um grande amigo que um dia...

– Pedro. Pode falar. Duvido que você tenha outro grande amigo...

– É, Pedro – continuou ele. Sorriu como se lembrasse perfeitamente da história – Pedro e eu fomos em um boate, ano passado. Lá no centro. Não costumamos frequentar esses lugares, mas quando vamos, arrasamos.

Revirei com os olhos e me controlei para não pedir para João pular para a parte interessante da história. Não queria saber nada sobre as badalações de Pedro.

– Não conta nada pra minha mãe, mas eu costumo beber quando vou em festas. E como sou fraco, fico bêbado. Pedro demora um pouco mais, mas também fica.

Fiquei surpresa com a informação. Quando fui embora, João e Pedro tinham 20 anos. Eles nunca foram de beber. Não me lembro nem de ver Pedro experimentando alguma coisa.

– Eu sofro um pouco, mas Pedro, sabe, ele faz sucesso com a mulherada.

Agradeci por João estar tão concentrado na estrada que não percebeu minha reação. Sempre soube, da pior maneira, que Pedro cativava as mulheres: bonito, de sorriso fácil, cabelo bagunçado, skate na mão e poeta. Era muito fácil uma mulher se apaixonar completamente por ele.

Fui a prova viva disso há um tempo atrás.

Mas não conseguia imaginá-lo em boates, bêbado e pegando geral. Senti vontade de me bater quando senti meu estômago embrulhar e minha cabeça rodar. Eu tinha prometido para mim mesma que eu não deixaria mais nada sobre ele me abalar.

– Nesse dia, uma morena gostosa estava dando mole pra ele – continuou João, alheio sobre que tipo de coisa ele estava me contado – Pedro levou ela pra casa naquele dia. Depois, saiu mais algumas vezes com ela. Daí um dia, ele ficou tão bêbado em um barzinho que ele pediu pra ela ir dirigindo o carro na volta. Quando Pedro acordou, estava em Porto Sul, na casa dela. Saiu distraído da casa e foi assaltado ali mesmo. Ficamos sabendo depois que o irmão da menina era um traficante da área. E é por isso que eu sei como Porto Sul é, Pedro me contou. E eu curioso, fiz ele me levar lá pra dar uma olhada de perto. Nunca mais quis voltar.

– Depois daquilo tenho certeza que o Pedro passou a escolher melhor as namoradas – sussurrei mais para mim do que ele para ele. Mas João escutou.

– Ele nunca mais namorou, Karina. Você foi a primeira e única namorada dele.

Depois disso, ficamos em silêncio. Não havia mais nada para falar.

Cinco minutos mais tarde chegamos em Porto Sul. A entrada da cidade era uma estrada de terra, esburacada. João virou à direita e entramos no que me pareceu ser a rua principal da cidade.

– Veja e tire conclusões – comentou João, subindo os vidros do carro.

A cidade era suja. Conseguia ver lixo pelas calçadas, esgotos e rua. Havia alguns estabelecimentos abertos, como lojas, farmácias e pequenos mercados. Assim que viram nosso carro, as pessoas passaram a nos encarar curiosas e nunca agradeci tanto por termos vidros escuros.

– Eles sabem quando chega alguém diferente – continuou João, virando em um rua paralela – a cidade é bem pequena.

João estacionou no meio fio, em frente a cadeia. O lugar com certeza não era bem cuidado. A tinta das paredes descascava, a fachada precisava ser varrida e eu já conseguia imaginar a falta de higiene que eu encontraria lá dentro.

– Bom, é aqui. Tem certeza?

– Tenho.

– Você tem meu número. Assim que sair, espera lá dentro. Venho te buscar correndo.

– Valeu, João. Mas vai tranquilo. Vou ver se consigo ficar bastante tempo com ela, então por no máximo até as 18 horas eu te ligo.

Dei um beijo na bochecha dele e sai do carro. Respirei fundo, apertei a bolsa no ombro e comecei a caminhar em direção a entrada. Olhei para trás, ouvi a buzina e observei o carro se afastar. Eu estava sozinha. Não me restava mais nada a não ser entrar no local.

Senti minha sapatilha grudar no chão enquanto caminhava por um salão comprido, logo na entrada. Aquilo ali não era limpo há algum tempo, eu tinha certeza. Avistei um balcão de informações e me dirigi até lá, pigarreando para que uma senhora percebesse minha presença.

– Pois não? – perguntou ela sorrindo, me parecendo simpática.

– Estou aqui para ver Natalia Queiroz*, ela está presa aqui. Só isso que eu sei.

– Um momento – pediu a senhora, se afastando para abrir uma gaveta grande e buscar os arquivos.

Olhei ao redor enquanto esperava. Graças aos céus o lugar estava vazio. Havia dois pequenos sofás e algumas cadeiras em um canto juntamente com uma mesa e um bebedouro, como se formassem uma pequena sala de espera. Do outro lado, havia banheiros. E ao fundo, um corredor com certeza levava até as celas.

– Moça, precisa preencher essa ficha – comentou a senhora, me entregando um papel – preciso também ver seus documentos. Próxima visita é daqui uma hora. Vou pedir para avisarem a detenta. Ela sabe que você vem?

– Não, é uma surpresa.

– Imaginei. Não há histórico de visitas na ficha dela.

Sorri para a mulher, peguei uma caneta no balcão e rapidamente preenchi a folha. Ela conferiu meus documentos, me fez algumas perguntas de rotina e me pediu para aguardar.

Estava observando alguns quadros em uma parede quando fui chamada até o balcão, cerca de meia hora depois. A senhora que me atendeu parecia constrangida.

– Aconteceu alguma coisa? – perguntei receosa ao me aproximar.

– Senhorita, creio que não vai ser possível realizar a visita.

Gelei.

– Por que?

– A detenta... não quer receber visitas.

– Fala que é a Karina D...

– Mostramos seu nome, moça. Foi aí que ela se recusou.

Senti minhas pernas fraquejarem e acabei rindo em descrença.

Como assim ela não queria me ver?

Era impossível. Conversei com Nat pouco antes de ir embora para São Paulo. Conversamos sobre meus sonhos, sobre minha vontade de começar minha vida em um novo lugar. Na época ela ainda esperava o julgamento final, estava em regime semiaberto e conseguia me encontrar durante o dia. Nat me apoiou e me disse que eu precisava realmente ir embora. Não fazia sentido ela estar brava comigo.

O que eu tinha feito?

– Senhora – disse tentando me controlar – Natalia está aqui há muito tempo, sozinha. Sou uma amiga muito antiga dela, talvez a única. Acredito que ela esteja confusa e por isso não quer me ver. Mas eu vim para ajudar. Eu realmente preciso falar com ela.

A senhora simpática suspirou e deu mais uma olhada na ficha dela.

– Ela é um daqueles casos que ninguém liga, menina – comentou ela, folheando uma pasta – não tem nem advogado. Não sei nem como ela mantém bom comportamento. Ficha dela é limpinha.

– Ela só está confusa – argumentei, quase ajoelhando para a mulher me ajudar – eu preciso ajuda-la. Por favor, se ela se irritar eu saio.

A mulher trocou algumas palavras com um policial que a acompanhava e me pediu para esperar.

As próximas horas foram extremamente agonizantes.

Já passava das 17h30 e isso significava que os horários de visita haviam acabado e mesmo assim Nat continuava a se recusar em me receber. Toda vez que a mulher voltava me dando essa notícia, eu implorava para que ela voltasse e tentasse de novo. O policial já me olhava feio, pois eu tentava a todo custo me aproximar das celas.

Mas quando eu estava me dando por vencida, a esperança veio no sorriso daquela mulher.

– Bom, ela cansou de negar – disse a senhora, rindo da situação – você irá conversar com ela em uma de nossas salas. Você tem 40 minutos. Não é permitido visitas esse horário, mas vou abrir uma exceção. Qualquer coisa, chame pelo policial. E boa sorte, moça.

– Muito obrigada e parabéns pela paciência – respondi antes de seguir o policial.

– A senhorita precisa deixar comigo a bolsa e o celular – concordei com a cabeça e deixei meus pertences em uma caixa que ele apontava – uma policial irá te revistar antes de entrar, são normas.

Após a revista, fui direcionada até uma pequena sala onde ocorreria a visita.

– Qualquer coisa me chame – pediu o policial antes de se retirar.

Me acomodei em uma das cadeiras e apertei as mãos, ansiosa pelo encontro. Segundos depois Natalia entrou. Jogou-se na cadeira em minha frente e cruzou os braços na frente do peito. Juntei as mãos e as apoiei na mesa que nos separava.

Ela me encarava com desdém. Me olhou de cima a baixo. Sentou-se de maneira confortável e sua primeira reação foi rir.

– Teimosa e chata como sempre – disse ela. Sua voz estava tensa, fraca, talvez pelo fato de não estar a usando muito na cadeia – o que você quer, Karina?

– Qual a tua, Natalia? – respondi séria – por que estava se recusando a me receber?

– Não queria olhar pra tua cara – Nat bateu com a força a palma da mão na mesa – sua traidora.

– O QUE? – gritei – traidora por que? Sabia que eu estava em São Paulo trabalhando.

Natalia riu, me assustando. Passou as mãos no cabelo impaciente e por um instante jurei que ela pularia por cima da mesa e me atacaria.

– Trabalhando, não – rosnou ela.

– O que quer dizer?

– Acha que só por que eu estou aqui eu não sei, Karina? Sei de toda a sujeira que você se meteu – ela riu novamente e começou a enumerar nos próprios dedos – briga de torcida, esquema de apostas, brigas de rua para apostas também, você foi presa... mais alguma coisa? Esqueci algo?

Meu queixo foi ao chão.

– Como você....

– Não importa como eu sei – respondeu ela, séria – importa que você fez tudo isso. Porra, Karina! Você saiu do Rio me dizendo que ia fugir com o Cobra pra São Paulo, queria só treinar longe daqui depois do rolo do Warriors daquele ano. Acreditei que você fosse treinar duro, mas honestamente.

– Nat, é muito complicado... – sussurrei, sentindo todos os músculos tensos. Era difícil até respirar – eu não sei direito como e quando, mas simplesmente aconteceu. Eu realmente tinha planos diferentes.

Nat não me encarava mais. Olhava para cima, apertava as mãos inquieta e eu podia ver seu maxilar travado. Eu não sabia o que dizer, nem por onde começar a explicar. Ali, parada em frente a ela, sem precisar manter a pose da durona independente, eu parei para organizar tudo que havia acontecido naqueles últimos cinco anos. Era tudo tão confuso. Eu não sabia explicar onde começou uma encrenca e onde elas terminaram, se é que terminaram. Vi Nat respirar fundo e fechar os olhos por alguns instantes. Quando os abriu, havia lágrimas ali.

– Eu senti tanto sua falta, sua pirralha – disse ela com a voz embargada pelo choro, mas ainda visivelmente brava e chateada – não sabe o desespero que me deu quando soube que caminho você estava tomando. Eu precisava te dar esse gelo e agora, essa bronca.

Sorri e nessa altura eu também já estava chorando.

– Nat, não sei se tudo que fiz até aqui está certo, mas foi o que deu – argumentei, puxando as mãos dela para se unirem com as minhas na mesa – você também tinha planos diferentes quando veio para o Rio e no final...

– ... deu tudo errado – completou ela – eu não queria esse mesmo destino pra você. Sabe né, você é como se fosse uma irmãzinha. Mas o que te fez voltar para o Rio? Quando me falaram que você estava aqui para me visitar imaginei milhares de coisas.

Respirei fundo.

– Mês passado Cobra participou de uma luta em um campeonato profissional. Ele estava quase chegando nas semi-finais, ele é um dos favoritos agora. Mas... foi horrível Nat. O outro lutador jogou sujo e o machucou demais... machucou tanto que ele entrou em coma.

– K, sinto muito – disse Nat, apertando mais minhas mãos.

– É, eu também. Ele está em coma desde o dia da luta. Eu queria estar lá com ele, no hospital, mas meu pai se intrometeu em tudo e convenceu até meu treinador que eu deveria vir para cá por uns tempos. E aqui estou eu.

– Pretende ficar por quanto tempo?

– Se Cobra melhorar ou piorar 1% que for, eu volto no segundo seguinte. Mas se tudo ficar do mesmo jeito no estado de saúde dele, pretendo ficar no máximo um mês.

– E como está sendo? Sabe, ver todos novamente?

– Difícil – suspirei antes de continuar – não vou negar que senti falta. Mas só fui perceber quando coloquei os olhos neles novamente. Não é mais como antes. Eles todos se esforçam e até eu estou me surpreendendo comigo mesma. A melhor parte de tudo é rever meu irmão.

Nat sorriu comigo quando eu contei como estava Bernardo e sobre suas histórias. Estávamos rindo quando o policial entrou me avisando que eu tinha mais 10 minutos de visita apenas.

– Nat, eu quero te ajudar – disse quando ficamos sozinhas novamente – tenho um bom dinheiro guardado. Quero contratar um advogado.

– K, não quero que gaste seu dinheiro comigo. E além do mais, nem sei se adianta mais.

– Não saberemos se não tentar – respondi, confiante – vou atrás de um bom advogado, estudaremos seu caso e prometo que venho te visitar sempre agora.

– Essa parte eu aceito sem questionar – respondeu ela, ficando triste novamente – companhia as vezes é bom.

Nos despedimos com um abraço apertado. Sussurrei as minhas mais sinceras desculpas em seu ouvido e ela retribuiu me apertando mais ainda em seu abraço.

Caminhei de volta ao salão de entrada com o coração apertado. Minha vontade era tirá-la dali hoje, dar um lugar confortável para ela dormir e se alimentar. Meu coração doía só de imaginar as condições de sua cela.

– Seu celular tocou várias vezes e depois acho que acabou a bateria, moça – me informou uma moça jovem na recepção ao devolver meus pertences. A senhora simpática deveria ter ido embora.

Congelei no mesmo lugar. Espiei o relógio da parede e me assustei: 19 horas.

Se João já não tivesse morrido de preocupação, eu tinha certeza absoluta que ele iria me matar.

– Alguém veio me procurar? – perguntei para a jovem enquanto tentava inutilmente reiniciar meu celular.

– Meu turno começou às 18h30 moça, desde que eu cheguei ninguém veio aqui. Inclusive, se não se importa, precisamos fechar para visitas.

– Já estou indo, obrigada – respondi apressada.

Caminhei tão depressa para fora do local que nem pedi desculpas ao esbarrar em um homem alto de olhos claros logo na entrada. Ele pareceu não se importar com minha falta de modos.

Já na calçada, olhei para todos os lados, mas nada do carro e nem de João. Um vento gelado fez meu corpo se arrepiar e meu cabelo bagunçar. Mais cedo, ao ligar para a cadeia, a mulher que me atendeu havia me informado que há dois quarteirões dali havia um ponto de ônibus.

Sabia que poderia ser uma burrada, mas era minha única opção. Eu não sabia o celular de João de cabeça e não tinha como recarregar o meu. Respirei fundo, cruzei os braços e passei a andar rápido e atenta, a procura do ponto de ônibus.

O achei com facilidade, muito próximo da cadeia. Ele estava vazio aquele hora e o fato daquela rua ser extremamente escura e deserta me dez redobrar a atenção. Depois de vinte minutos esperando, comecei a ficar mais nervosa e apreensiva: não tinha sinal algum de ônibus. Respirando fundo para me acalmar, sentei no banco e rezei para que alguém extremamente bondoso e gentil aparecesse para me ajudar.

Segundos depois, percebi uma movimentação ao final da rua. Um vulto virou a esquina e veio caminhando em minha direção. Estreitei os olhos para identificar quem poderia ser: era um rapaz, provavelmente da minha idade. Vinha em passos lentos, com o capuz do moletom levantado e uma garrafa de vodka na outra mão. De repente, ele parou, tomou os últimos goles e arremessou a garrafa na rua, fazendo milhares de cacos se espalharem por ali.

Não havia mais dúvidas: eu estava extremamente ferrada.

Me encolhi no suporte do ponto de ônibus, tentando não ser vista, o que eu sabia que seria impossível. Cruzei os dedos pedindo as céus para que ele estivesse tão bêbado ao ponto de sequer me enxergar parada ali. Tudo que eu não precisava era ser assaltada em Porto Sul.

O rapaz atravessou a rua. Mas quando estava quase saindo do meu campo de visão, ele me viu. Voltou alguns passos para ter certeza que tinha alguém ali e começou a se aproximar devagar. O cheiro forte de álcool chegou bem antes dele.

Passei um plano em minha cabeça: se ele viesse pra cima, daria todo o dinheiro que tinha sem nem retrucar, eu mesma abriria minha bolsa e entregaria. Daria meu celular e até minha gargantilha de ouro. Eu só precisava continuar com meus documentos. Eu não tinha medo de brigar, mas se a fama da cidade fosse verdadeira, se eu o encarrasse provavelmente no segundo seguinte, diversos “amigos” dele poderiam aparecer. Eu era forte, mas era uma.

Ele parou em minha frente. Desviei o olhar, fingindo não perceber seu olhar queimando sobre mim.

“Vamos”, eu pensava “apenas anuncie o assalto e acabamos logo com isso”.

– Perdida, meu amor? – disse ele, com a voz firme e grave para alguém bêbado.

– Não – respondi da maneira mais confiante que consegui, ainda sem encará-lo – trabalho aqui. Estou esperando minha carona para ir embora.

– Não minta, meu amor – respondeu ele após uma risada debochada – sei tudo que acontece nessa cidade. Você obviamente não é daqui.

– Engano seu.

Eu tremia tanto. Mas não exatamente de medo, mas sim de raiva e frustração. Odiava me sentir encurralada e impedida de agir. O rapaz se aproximou um pouco mais e senti meu estômago embrulhar quando ele colocou uma das mãos em minha cintura, me puxando de leve para perto dele.

– Não me lembro qual foi a ultima vez que vi uma garota tão linda por aqui. Você parece uma boneca, meu amor.

Finalmente o encarei. O homem era mais de 20 centímetros mais alto que eu, tinha a pele levemente bronzeada e uma barba até que bem feita. Seus olhos estavam cravados em meu rosto.

– Te dou meu dinheiro – respondi finalmente – só me deixa com os documentos.

Uma fagulha de esperança se acendeu quando um carro preto passou correndo pela rua, mas logo se apagou ao vê-lo virar a esquina cantando pneu.

– Não quero seu dinheiro – respondeu ele, ainda olhando fixamente para mim – eu te quero na minha cama.

Sua mão veio com rapidez para meus cabelos. Os puxou com força e sua boca alcançou meu pescoço e uma raiva imensa me subiu ao sentir ele me chupando. Sem pensar duas vezes, consegui torcer seu braço e o empurrar. Mas ele era mais forte e bem maior. No instante seguinte, ele já tinha me envolvido com os dois braços e entrei em desespero quando percebi que ele iria me pegar no colo.

Mas antes que ele conseguisse, um farol extremamente alto surgiu. O carro preto havia dado a volta no quarteirão e parou com tanta rapidez em nossa frente que quase subiu na calçada.

O motorista desceu e bateu a porta com força e contornou o carro. Quando chegou perto de nós, absurdamente irritado, eu pude ver seu rosto.

Pedro.

Bendito Karma.

Notas finais
* Não sei mesmo o sobrenome da Nat, tive que inventar. Pedro herói hahahhhahhahah E a Nat hein? Pq será que ela sabe de tanta coisa? Ela não recebe visitas...