Até depois da Morte!
13 A tentativa de distanciar-se das tormentas.
Sra. Thérnadier não atreveu-se a dirigir a palavra ao conde naquele momento. Percebeu-lhe a tristeza no olhar ao chegar, subiu rapidamente as escadas e trancou-se. Após isso perpetuou-se o silêncio.
Thérnadier colocou-se a refletir sobre a conduta do conde naqueles últimos dias e algumas especulações passaram a surgir em sua mente.
Certamente toda aquela angústia que pairava por sobre a complacência dele estaria relacionada a questões sentimentais. Porventura todo este mal-humor tivesse origem em uma mulher. Esta questão apresentou-se, de certa forma, anormal para a governanta, já que Byron não era de entregar-se facilmente aos amores. Pensava na moça a qual ele havia se referido a pouco tempo. Beaumont, se bem lembrara o nome. Esta idéia a desagradou imensamente pois Aaron jamais deveria relacionar-se com uma criminosa. Considerou que estava imaginando demais e limitou-se a somente acatar outras possibilidades.
***
"Irei para longe! Não há a possibilidade de aqui continuar remoendo estes sentimentos. Deixou bem claro Justine que de mim nada quer e nem mesmo se importa.
Creio que tenho sido tolo demais para acreditar nesta possibilidade tão parva!
Nem mesmo consigo organizar minhas frases de maneira sucinta e formal.
Em verdade, minhas mãos tremem de raiva. Uma raiva que não deveria sentir, porém é impossível para mim fingir estar íntegro, quando estou tão martirizado, terrível e vergonhosamente martirizado.
Talvez esta declaração tenha servido para que eu a esqueça!"
Aaron de B.
***
Passou o conde a madrugada inteira preparando apenas uma mala. Deveras, não concentrava atenções no que organizava, a tarefa servia-lhe mais como remédio aos pensamentos que insistiam em persegui-lo, por isso a executava com extrema paciência.
Ao despontar do crepúsculo ele nada havia dormido, por conta disso — e pelo somatório de tantas noites minimamente aproveitadas para o descanso — encontrava-se com uma aparência exausta. Arrumou-se apressadamente.
Assustou sra Thérnadier ao mostrar-se repentinamente trajado para a viajem.
A governanta interrompeu imediatamente seus afazeres.
"Iria viajar sem antes contatar a mim?"
"Jamais Thérnadier! Já neste momento lhe diria que estou partindo até Honfleur e desejo lá passar dias."
"O que dizes? Como ficará tuas obrigações para com o rei?"
"Grande parte do que eu com ele deveria tratar já fora acertado. Entregarei-lhe uma carta explicando os motivos pelos quais distancio-me."
A governanta atentou-se a feição de consumição estampando-se repentinamente no aspecto do rapaz e por isto afagou-lhe os cabelos da mesma maneira que na infância. Aaron dirigiu-lhe um olhar intrigado.
"Por que fizestes isto?"
"Desejo que saiba o quanto o amo e que de forma alguma admitirei que alguém o machuque os sentimentos." O pronunciamento da governanta pareceu tocar-lhe a ferida de maneira certeira, fazendo com que seu esforço para manter-se íntegro se torna-se ainda mais dificultoso.
"Posso perceber que algo perturba-o em demasia a mente. Sei que nunca me dirá o que é, entretanto, saiba que estarei sempre aqui para zelar por ti."
O conde, sem nada dizer-lhe, lhe beijou as mãos, como demonstração de afeto.
"É muito bom tê-la junto a mim, Thérnadier! Devo ir, não preocupe-se comigo!"
Concluiu, afastando-se até a carruagem. Por mais que distribuisse sorrisos à governanta, o peito abria-se num buraco crescente de angústia.
****
Após entregar ao rei a carta explicando-lhe os motivos pelos quais afastava-se de Paris — obviamente que encobrindo totalmente a verdade — O conde dirigiu-se a seu destino.
Honfleur era uma pequena cidade no estuário do rio Sena que abrigava uma beleza singular possuindo diversas espécies de flores — o que seria um dos motivos pelos quais o conde felicitavasse tanto em visitá-la — ficava a 197 quilômetros de Paris, sendo a viajem feita em aproximadamente duas horas.
Imediatamente ao chegar, dirigiu-se ao pequeno estabelecimento de um velho amigo, Nicolette. Este por sua vez surpreendeu-se com a visita.
"Ora, quanto tempo faz que por aqui não te vejo, amigo Byron!"
Disse, apertando-lhe a mão. Aaron dirigiu-lhe um desanimado sorriso.
"É sempre uma honra tê-lo por aqui. E o que é isso? Somente uma mala?"
"Sim, na verdade não atentei-me a quantidade de parafernálias que traria desta vez."
"Pretendes passar quanto tempo em Honfleur?"
O conde pagou-lhe dezesseis écus, enquanto refletia.
"Nada premeditei."
"Tome!" Disse Nicollete entregando-lhe a pequenina chave do quarto. "29, como preferes!"
"Sim, agradeço!"
Articulou, já partindo.
"Conde, permita-me indagar, sei que não deve ser de meu interesse, entretanto, há algo de errado?"
Aaron perguntou-se se sua desgraça estaria tão evidente para que até Nicollete a percebesse.
"Não, amigo! Em que sentido?"
"Oh, não! Uma grande bobagem, grande bobagem. Passe bem!"
Nicollete despediu-se com um sorriso sem graça. Aaron retribuiu-lhe também o gesto e subira as escadas direto ao aposento 29. Tudo parecia impecável, solicitou a tempos para que o proprietário lhe reservasse aquele quarto sempre que na localidade estivesse. A vista que tinha dali, para ele, era uma das mais belas. Podia-se ver o rio Sena a cortar a cidade, refletindo todos os objetos em suas margens como um espelho, as construções com distâncias mínimas entre si, dispunham-se como que em uma maquete e tudo tornava-se ainda mais afável com os barcos a complementarem a vista. Deleitando-se com tamanha cena, retirou da mala o violino que levará consigo, e colocou-se a tocar uma das canções que mais admirava, inverno da composição le quattro stagioni. A rapidez com que se faziam as notas lhe tomava tanto a atenção que durante toda a execução da música, ele não mais remoeu os sentimentos passados, sentia-se leve e desprendido. Talvez a verdade seja que a música é a arma perfeita contra os males da alma.
***
Sra Thérnadier apreensiva acordara-se cedo, tratou das plantas — como sabia que o conde a cobraria se as deixasse a sorte do tempo — cuidou do château convidando mais duas conhecidas de confiança para a tarefa. Conde Aaron lhe permitia o ato, na verdade, a maioria das coisas o conde a permitia fazer, já que não havia desconfianças sobre Thérnadier. As três adentraram a biblioteca limpando-a de forma eficiente. Apesar de venerar todas as centenas de exemplares que tinha, Aaron por vezes desorganizava-os, embora gostasse de vê-los dispostos de acordo com a cor. Os já lidos, eram guardados em uma prateleira a parte, enquanto que os não lidos, encontravam-se nas primeiras estantes. Sra. Thérnadier nunca compreendeu como não cansava-se o conde de atinar tantos livros. Desde que fora para o palácio junto ao rei, acostumou-se com as leituras diárias. Aos seis anos levava para casa exemplares Shakespearianos e lia-os com afinco, por mais que não compreende-se efetivamente a maioria dos contextos, mostrava entusiasmo tamanho que a emocionava grandemente. Thérnadier aprendeu a apresentar-se como uma mãe, já que nenhuma outra poderia fazer este papel. Perdida em meio a devaneios, nem mesmo pôde perceber os papéis que espalharam-se pelo chão ao mudar de lugar um grosso livro. Assustou-se ao ver as diversas folhas misturadas ao acaso, percebeu a letra do conde e jurou a si mesma que por mais que a curiosidade fosse grande, não as leria.
"Onde devo deixar estas folhas?"
Perguntou a ajudante encontrando também os escritos abaixo de uma poeirenta fila de livros.
"Dê-me!" Ordenou Thérnadier, pegando-lhe da mão as cartas. "Não devem lê-las."
Entretanto não fora nem mesmo possível a ela cumprir esta ordem. Abriu vagarosamente uma das extremidades da folha e passando celeramente a vista, pode constatar o nome "Justine de Beaumont" várias vezes por sobre as linhas. Surpreendeu-se ao completar as frases muito bem elaboradas e saturadas de uma emoção sem limites que em nada assemelhavam-se a Byron. Abaixou-as com as dúvidas já tornando-se certezas. Não sabia ao certo o motivo, entretanto sentia imenso desgosto em constatar tamanho fato. Se fosse possível despedaçaria de imediato as cartas e as jogaria distante dos entornos do château. Perguntou-se como poderia tamanha desgraça assolar aquele ambiente? Thérnadier tinha conhecimento de que talvez um dia o conde por alguém criasse tamanha estima, entretanto, esperava que no mínimo, estes sentimentos estivessem atribuídos a Madeleine. O conhecia extremamente para ter a certeza de que mudara drasticamente após o contato com aquela cujo sobrenome era Beaumont. Thérnadier atentava-se para o comportamento de Aaron, já que aguardava ansiosamente a escolha de uma esposa, porém não adimitiria ele por aquela moça criar sentimentos. Srta de Beaumont era, em sua opinião, uma assassina habilidosa, que se caso viesse a relacionar-se com o conde, o levaria ao abismo, após sugar-lhe todas as economias o poderia matar, de certo.
"Thernadier!" Chamou-lhe a ajudante. "Onde estais com a cabeça?"
"Ora, não fale assim comigo, menina!"
"Onde devo deixar estes livros?"
Perguntou, apontando para uma pilha acima de uma pequenina mesa.
"Deixe-os aí mesmo!"
Respondeu sem dirigir verdadeira atenção a moça. Guardou as cartas dentro da agenda que levava no bolso e decidiu que alguém deveria também saber sobre aquilo.
***
Ao término dos serviços no château Thérnadier apressara-se, pois o anoitecer já escurecia o firmamento de tal forma que dali a alguns minutos não seria possível trafegar pelas ruas em segurança. Dirigiu-se imediatamente até a casa do Duque, levando consigo as cartas. A garoa despontava na atmosfera encharcando suavemente as ruelas parisienses. Apertou o passo, adentrando por entre o Jardim do château. Bateu ansiosamente a porta. Uma mulher de baixa estatura e cabelos rubros já esbranquiçados, atendeu-lhe estranhando a visita tardia.
"Pois não!"
Thérnadier refletiu por um momento o que dizer.
"Diga à milady Madeleine que a governanta do conde Aaron está aqui para lhe informar sobre algo importante."
Após algumas outras perguntas, a mulher se fora e Thérnadier pensou que se aquela era a governanta da casa, certamente estaria sendo demasiadamente deselegante deixando-a do lado de fora naquele clima. Entretanto não demorara muito até que a figura requintada de Madeleine surgisse a sua frente.
"Oh, Thérnadier! Anissa te deixou neste frio ficar? Ora, não a perdoarei desta vez!"
Disse fazendo com que a governanta adentrasse a casa.
"Nova na casa?"
"Sim, porém desagrada-me profundamente algumas atitudes que tem! Era na verdade, uma amiga da antiga governanta. Acreditas que o filho desta veio a falecer? E nós que conhecíamos a criança nos abalamos grandemente. Sabes como pensa mamãe, trata todos como filhos." Pronunciou sentando-se com a delicadeza de uma princesa, pensou Thénadier. "Ela disse-me que tens algo a dizer-me. O que é? Relaciona-se a Aaron?"
"Sim, sim, querida Madeleine! Na realidade, sabes que estou constantemente atenta aos atos do conde, pois ele para mim é um filho! Estava a organizar a biblioteca e terminei por encontrar algo que chateou-me de tal maneira que não pude deixar de lhe informar. Estas cartas aqui." Disse entregando a Madeleine uma das folhas que retirara do bolso. "Nestes escritos ele cita uma moça. Justine é o nome dela. A mesma que o atacou no baile real."
Madeleine, sedenta abriu o papel, lendo rapidamente a carta. Os olhos arregalando-se a passagem de cada linha.
"O que significa isto? 'Admiro especialmente seus olhos, diferentes de todos os que já pude ver até o preciso momento. negros e atentos..' ele por ela sente algo Thérnadier, sabes?"
"Não tenho conhecimentos precisos, Milady! Entretanto, a personalidade de Aaron mudou muito desde que com esta moça teve contato!"
"Oh, como sou tola! Esta evidente que ele por ela foi atraído!"
Disse, com o olhar em desespero. "Como pôde, sabendo que tanto o amo?"
"Ah, srta Madeleine! Nem mesmo eu consigo imaginar!" Segurou-lhe a mão, prestando-lhe apoio. "Sabes que és a única que me agrada! Desde a infância os dois foram destinados um ao outro. Até mesmo o rei pronunciou que uniriam-se futuramente, por este motivo vim até aqui! Não gostaria de assistir Aaron viver sozinho eternamente, e se tiver de constituir algo, que seja contigo! Volte a frequentar o Chatêau, vá com toda esta beleza encantadora que lhe fora concedida e conquiste-o! Não será um esforço, pois não é dificuldade nenhuma para um homem apaixonar-se por ti."
"Ah, como agrada-me ouvir estas tuas palavras, Thérnadier! Nunca esquecerei-me do quanto tu fostes importante para nossa união." Proferiu direcionando-lhe um doce sorriso."Amanhã eu lá estarei!"
"Não, minha querida! Conde Byron partiu para Honfleur no dia anterior e lá provavelmente está. Acredito que na estalagem do sr Nicollete, que é um de seus amigos. Fiz questão de anotar no caminho o endereço."
Entregou-lhe um pequeno pedaço de papel.
"Eu torço por ti, estarei a espera de notícias!"
As duas levantaram-se e se despediram num abraço demorado.
A governanta se partiu e Madeleine colocou-se a pensar incessantemente. A carta fora entregue, porém, as palavras ainda pairavam perfeitamente pela mente de Milady. A tristeza que sentia elevou-se a grau tamanho que ela imaginou sentir dores físicas. Este era o grande problema dos casamentos arranjados, as expectativas, na verdade, não correspondiam a realidade com o passar do tempo, e este também era o problema da fácil entrega aos sentimentos. Deve-se constantemente vigiar para que não se caía nestas armadilhas.
"Madeleine!" Exclamou a mãe, descendo, desconfiada as escadas "O que fazes a pensar deste jeito? Não estou escutando o som do piano. Por que não praticas ao contrário de aí ficar, inerte nesta poltrona?"
"Mamãe, desejo apenas continuar sozinha."
"Não!" Disse a duquesa, aproximando-se. "Pensas que não escutei tua conversa com a governanta daquele ser?"
"Aaron de Byron!"
Corrigiu-lhe.
"Tanto faz! Eu não permitirei que parta, nem penses que eu a deixarei ir até Honfleur a procura deste verme!"
Madeleine direcionou-lhe tranquilo olhar.
"De nada servirá. Irá prender-me? Enlaçar meus braços ao pé da cama? Amordaçar-me? Mesmo assim, eu sairei! Pois irei atrás do conde, mesmo com as cordas arrastando-se por sobre o chão."
Após este petulante pronunciamento subiu as escadas, deixando a mãe atônita a imaginar o que fizera Aaron a filha. A preocupação lhe trouxera uma enxaqueca que prepetuou-se por toda a noite e metade da manhã.
***
Aaron escolhera aquele dia em especial somente para a prática da caça, atividade que a muito não desempenhava. Pedira a Nicollete arco e flecha e partiu, tranquilamente até as planícies. Nas mãos, também jazia o livro que trouxera propositalmente para diversão, "Brobdingnag" sequência das viagens de Gulliver, que particularmente o satisfazia quando o desejo era distrair-se. Não foi preciso esforço para concentrar-se na tarefa, o silêncio do lugar era tão extremamente profundo que até mesmo o sacolejar das folhas nas árvores era possível se ouvir. Organizou-se, retirando dos ombros a aljava completa de oitos setas as quais ele organizou com agilidade. Apreciava especialmente o fato de, diferentemente de Paris ou Versalhes, ali poder transitar sem trajes tão formais, não havia problemas em desgrenhar-se os cabelos, e o mais importante no momento é que aquele ambiente automaticamente o fazia esquecer-se de Justine. E isto o deixou ainda mais contente que o resto. Armou-se devidamente e adentrou o aglomerado de árvores, atentando-se aos movimentos que faziam aguçar-lhe os sentidos. Não custou até que observasse uma ave de seu interesse, a perguindo e após metros de distância, conseguindo alvejá-la na segunda tentativa.
"Pegastes minha ave!" Pronunciou o amigo Fontaine ao seu lado."O que fazes aqui?"
"O mesmo que tu, suponho!"
"Finalmente resolveste sair daquele teu château? Magnífico, por esta eu realmente não esperava."
"Como és exagerado. Tu é que estais a me perseguir."
Disse, aproximando-se da caça. O amigo sorriu com o pronunciamento, debochado. Aaron incomodava-se minimamente com estas atitudes.
"Podes ter certeza absoluta que nunca prestaria-me a tanto. As caças por aqui parecem diminuir aceleradamente."
Disse, mudando rapidamente de assunto.
"Naturalmente. A pouco deixarei esta atividade. Somente estou a praticá-la, pois é o único meio que no momento encontro para relaxar-me a alma."
"Já para mim, há outra forma de aliviar-me que, inclusive, apresenta-se bem mais interessante."
"Não inicie este teu discurso novamente."
"Ora, nem mesmo sabes o que direi." Gargalhou. "Irei até o 'Château des filles' e lá estarei te esperando, pois ainda tenho esperanças em ti."
Brincou o amigo. Aaron afastou-se, já enchendo a cabeça com os velhos tormentos.
***
Geraldine embrulhara rapidamente o prato de comida em uma toalha e discretamente saiu. Aquele dia era um dos raros os quais a mãe a permitia dormir um pouco mais. Entretanto, Sra Henriqueta ainda lhe punia por ter Justine abrigado na estalagem, por este fato acreditou que seria mais vantajoso retirar-se escondida. O capuz bege lhe serviu como agasalho fazendo com que pelas ruas caminhasse despercebida. Avistou Justine a manter um peculiar diálogo com um dos pedintes, mostrava qual a maneira correta de defender-se com uma espada. Ao observar a amiga, algo disse ao homem e o deixou.
"O que fazes aqui? Não temes por tua vida?"
"Ora, deixe de brincadeiras, Justine! Este prato preparei para ti."
Disse entregando-lhe o pacote. Justine a olhou desconfiada.
"Por acaso não fora tua mãe que preparou?" Cheirou a comida. "Certifaste se ela não a envenenou?"
"Certamente que não, já disse que eu mesma a preparei! Coma, ou então devolva-me e eu a levarei novamente."
"De forma alguma! Nós todos por aqui temos fome!"
Falou, segurando o prato como que um tesouro.
"Não compreendo Justine! Tu és esperta, não deverias prestar-se a isto! Poderia agora, inclusive estar em um lugar muito mais agradável."
"E tu não achas isto agradável? Diariamente estas pessoas pedem-me para que eu lhes ensine o manejo da espada, creio que meus pecados serão aliviados com estes atos, não acreditas?"
Brincou, percebendo que Geraldine considerava tudo um absurdo.
"Não, tu deverias pensar em ti. Afinal de contas, para que vieste até Paris?"
Justine desviou rapidamente o olhar, já inquietando-se.
"Talvez para que esta cidade provasse o gosto do sangue derramado pela espada! Por aqui não existem espadachins de verdade!"
"Não sabes quanto desagrada-me estes teus pronunciamentos cheios de ódio. Chega até mesmo a arrepiar-me."
"Geraldine, uma moça deve saber defender-se com as próprias mãos! O medo? Este é que não deve existir! É natural sentir ódio. Não há como guerrear sem ódio!"
"Tu que dizes! Não tenho a mínima intenção de aprender a defender-me e prefiro continuar a pensar de forma pacífica do que ficar sendo presa, como tu!"
"Então de que adianta viver uma vida tão sem graça?"
Interrogou sorrindo.
"Como consegues sorrir em meio a todo este ambiente? Tu deverias ser estudada pois age de maneiras extremamente estranhas. Devo ir, pois se mamãe descobre que eu aqui vim somente para te ajudar, da-me uma surra, de certo!"
"Tu és uma boa pessoa!"
Disse Justine a ela, despedindo-se. Ao retornar dividira o pouco alimento com as dezenas de famintos que ali se aglomeravam apenas no intuito de conseguir saborear o tempero.
Sorrisos abriam-se mesmo com as tão miseráveis quantias.
***
Aaron não havia esquecido-se dos desagradáveis sons escandalosos dos locais de negociação de meretrizes de luxo, entretanto naquele momento, tudo o incomodava. As mulheres que de um lado a outro perabulavam em busca de parceiros, — algumas extremamente belas — os homens a aliciarem-nas a cada passagem ou os olhares e comentários a seu respeito. Na verdade não negaria que ali já estivera várias vezes e até mesmo diariamente, entretanto naquele momento encontrava-se consideravelmente distante para importar-se com a preferência feminina.
"Ah, atentem-se para isto!" Exclamou, Dousseau, agarrado a uma moça consideravelmente baixa de longos cabelos negros
encaracolados, totalmente desgrenhados. O rosto apresentava olheiras expressivas, sôfrego, apesar de seu esforço para torná-lo constantemente lascivo. "Resolveste voltar! Não há como desvencilhar-se deste lugar não é mesmo amigo, Byron?"
"Para mim é bastante simples!"
"Ora, não diga-me!" Exclamou, enquanto os homens de um pequeno grupo gargalhavam de sua ironia. Eram todos monarcas, Aaron pôde perceber. "Esta tua exclamação deixou-me bastante preocupado neste momento! Mesmo com toda esta tua pose, fiz o grande favor de trazer Larissa a ti!"
Avisou-lhe, direcionando o dedo a moça que chegava a seu lado. Byron não esquecera-se também de Larissa, a meretriz com quem teve uma transitória relação. Entretanto não mais a percebia como somente uma mulher a procura de dinheiro a perambular pelo estabelecimento. Atentou-se a seus olhos e o quanto eram graciosos, embora ilustrassem um olhar castigado, os fios de cabelo negros alongavam-se e cobriam-lhe os braços alvos. A roupa que trajava escorregava por sobre os ombros deixando amostra parte do busto. Aaron em nada sentia-se atraído por aquele gesto, embora a beleza de Larissa se mostrasse deslumbrante.
"Demorastes mais do que me prometera!" Disse docemente, com angústia. "Esqueceu-se de que eu aqui estava?"
"Não!"
"Por que, então, não antes voltaste?"
"Dediquei-me inteiramente a ocupação que me fora imposta pelo rei!" Pronunciou sem encará-la. "Perdão!"
"Perdão? É somente isto que tens a dizer-me depois de tudo o que me jurou? Meu infortúnio é que sou tola e permito que os outros com meus sentimentos brinquem."
"Em nenhum momento eu a jurei voltar."
"Disseste que eu deveria esperá-lo pois voltaria de imediato apenas para buscar-me."
"Jamais jurei!"
Exclamou Byron fitando a expressão de desespero de Larissa calmamente. "Sabes que não juro aquilo que não está a meu alcance cumprir."
"Então porque simplesmente não avisou-me deste teu pensamento? Pouparia-me imensamente de um sofrimento tamanho que perdurou meses, sem contar os anos passados que tu também me fizestes acreditar em ti!"
De imediato, o conde nada soube responder. Perambulou por sobre a banca os dedos.
"Te considerava bela! O que ainda acontece, porém, não possuo por ti afeto suficiente, talvez tua vida a meu lado se faria insuportável!"
"Tu não compreendes que o que mais vale para mim e para todas é sair deste lugar?" Perguntou, aproximando-se exageradamente. "E como teu afeto pode ter sido deixado de lado tão rapidamente?"
"Menti quando disse que a amava."
Esta frase acabou por fazer com que os olhos de Larissa se tornassem marejados, num manifesto da inconformidade perante a verdade dos fatos. Aaron, por não ter a intenção de machucá-la ao extremo, enlaçou os braços envolta a sua cintura na finalidade de disfarçar o gesto que faria em seguida. A moça permaneceu imóvel. "Porém eu trouxe algo que irá ajudá-la." Retirou do bolso o pacote que prencheria duas mãos de moedas e a ofereceu. "Isso fará com que tu daqui saia."
A moça o afastou com um empurrão.
"Não! Dissestes que eu seria condessa, que te acompanharia nos bailes, que dançaria contigo valsas! Que comeria as melhores comidas, tornaria-me íntima do rei! Que sairia pelas ruas de cabeça erguida! Nada substituirá estas promessas!"
"Eu tinha dezessete anos quando isso te prometi!"
"Porém acreditei em tuas palavras! A idade que tinhas não interfere na veracidade delas!"
"A verdade é que não havia maturidade em minhas decisões." Admitiu, reparando que a discussão chamava já a atenção dos indivíduos a sua volta. "Será bem melhor se nós dialogarmos em outro lugar!"
"Não há problema algum se esses homens entenderem sobre o que conversamos, afinal eles presenciaram também meu sofrimento durante todo esse tempo! E é maravilhoso que saibam o que tu me causaste!" Disse, elevando o tom de voz. "Aposto que já tens outra mulher para iludir! Quem é ela?"
Aaron indagou-se mentalmente se aquelas palavras seriam apenas suposições jogadas ao vento ou se havia certo cunho de veracidade no que dizia Larissa.
"Dousseau disse-me que estais diferente, que não viria me ver! Eu o escutarei se disser-me quem é!"
O conde achou essa proposta extremamente anormal.
"Não há ninguém!"
"Diga-me quem é e eu o deixarei em paz!"
Exclamou de maneira autoritária. Aaron pensou que tratando-se de Larissa, seria melhor, ao menos naquele momento, ser sincero.
"Justine. Este é o nome."
"Justine? Parece-me tão comum para te atrair!" Riu com proposital escárnio. "É rica?"
"Somente a primeira pergunta, nenhuma outra mais!"
"Oh, teme que eu à ela faça mal?" Continuou a rir. "Tadinho como está apaixonado!"
"Não permitirei que zombe de mim desta maneira. Retirarei-me se tu continuares a executar estas brincadeiras desagradáveis."
A meretriz pareceu não lhe dar ouvidos.
"Como é ela? É robusta que nem eu?"
"Disseste que deixaria-me em paz se te respondesse quem ela era. Já que te informei, creio que não seja confortável neste diálogo continuar." Pronunciou deixando o dinheiro que trouxera à ela sobre a mesa. "É melhor pegares este dinheiro! Te faço um imenso favor."
"Aceitarei pois isto é o mínimo que deverias me dar. Sei bem o que fazer com ele."
Larissa empalmou o pacote, posteriormente guardando-o na bolsa ao lado do corpo. "É uma pena que tu por mim tenha perdido o encanto, pois agora eu perdi também o meu por ti!"
"Não tive a intenção."
Disse-lhe, cumprimentando-a com um gesto de cabeça e partindo logo em seguida. Larissa permaneceu a observá-lo, compenetrada. O nome de Justine pairou em sua mente por toda aquela noite.
***
Os dias de Justine em Paris haviam sido todos passados nas ruas, noites sendo dormidas sob podres panos, presenciando a morte lenta dos que agora poderiam ser denominados companheiros, pois todos incluídos estavam na mesma situação. Dias permeados de profundas lamentações, tosses e gemidos. Justine se viu obrigada a dormir com um pano sobre as narinas para filtrar o mau odor que exalava dos corpos juntamente ao que vinha dos dejetos que eram depositados nas laterais dos muros e no canto dos becos. Ela arrumou uma forma de resguardar a espada de maneira que não ficasse constantemente exposta, contentou-se com a situação do cavalo que tivera que deixar na estalagem de Henriqueta, era bastante provável que ele não mais estaria lá. A suposição de que fora vendido tornava-se cada vez mais certa e isso, de todas as outras infelicidades era a que mais lhe doía. O menino Jean Batiste vinha sempre ao seu encontro com a face rosada cheia de curiosidade contar-lhe sobre diversas coisas, inclusive por justamente este gênio falante, Justine desconfiou de que se o conde soubera de algo sobre ela, só poderia ter sido pelos lábios de Batiste. Durante a conversa daquele dia, Justine resolveu indagá-lo.
"Pensei ser muito esquisito aquele conde ter conhecimento sobre meu nome. Acredito que alguém o informara sobre isso mesmo sem a minha aprovação! Sabes quem foi, Batiste?"
"Não sei!"
Justine sorriu, percebendo a aflição já surgindo na complacência da criança.
"Talvez tenha sido tu! Do modo como és tagarela!"
O garoto silenciou-se e nada proferira até certo momento. Justine sabia que ele confessaria de qualquer maneira.
"Sim fui eu!"
"O que ele te deu em troca destas informações?"
"Algumas moedas."
"Estou extremamente decepcionada com este teu comportamento, Jean Batiste! Dei adeus a minhas aulas!"
"Ora, não podes fazer isso comigo! Estava com fome, o que tu querias que eu fizesse?"
Justine refletiu, acatando a Justificativa. Naquele lugar tudo se fazia em troca de comida.
"Relevarei somente por este motivo, entretanto não pense que esquecerei!"
"Eu não acredito que ele quisera te fazer mal! Eu gostei dele."
Acrescentou.
"O que ele queria?"
Perguntou, desconsiderando a afirmação anterior do garoto.
"Falava sempre que eu deveria cuidar de ti, não sei por que dizia essas coisas já que tu não precisas de ninguém para ser protegida!"
"Que tolo!"
"Também se preocupava bastante com tua saúde. Todos os dias que vinha aqui me perguntava a mesma coisa." Disse retirando os fios de cabelo dos olhos. O rosto estava visivelmente cansado de perambular. "Acredito que ele também gosta de ti! Por que trata ele desse jeito?"
Justine desagradou-se com a indagação.
"Não! Estais parecendo uma mocinha colocando esses pensamentos na cabeça! Somos inimigos!"
"Por que?"
"Ora, para ter inimigos não é preciso ter motivos. O ódio sustenta-se por si só."
"Mamãe diz que não devemos sentir ódio. É um sentimento ruim!"
"Tua mãe está errada! Para que eu possa manter-me viva neste mundo, preciso sentir ódio. Do contrário sinto-me morta! O ódio também só tem efeitos se for tido com coragem."
"Isso é estranho!"
Justine sorriu.
"Meu pai sempre disse-me: O ódio e a vingança são os combustíveis de todo o homem!' Agora deixe de somente me olhar com essa boca aberta e prepare-se, pois temos muito a treinar!"
"Pensei que nunca mais me daria aulas!"
"Eu disse que relevei! Porém não faça isto novamente, senão nunca mais terás minha amizade!"
O garoto levantou-se as quedas, colocando-se em posição imediatamente.
***
Madeleine trajou uma das capas antigas que havia disponível no farto conjunto de roupas, na intenção de disfarçar-se. Os cabelos lisos foram presos num coque desgrenhado, a face ganhou cores sutis e o vestido era simples. Levava consigo a mala com quantidade razoável de peças, já que pretendia logo voltar.
Saira ainda a noite deixando uma carta à mãe explicando-lhe os motivos e rogando para não preocupar-se, pedindo sigilo ao cocheiro que ganharia uma boa quantia em dinheiro para leva-lá até Honfleur, partiu com as expectativas já crescentes de obter nesta viagem a confiança definitiva do conde. Fazê-lo esquecer aquela a qual destinara a carta. Lembrou-se de Justine e acreditou ser completamente incoerente a beleza dela, que era tão mínima para Madeleine, ter sido capaz de conquistar o conde. Este pensamento lhe parecera tão cômico que resolveu escrever sobre ele durante o trajeto.
"Neste momento, parto em direção a Honfleur a procura de Aaron. Sinto-me tão ansiosa que mal posso conter o riso. Somente a possibilidade de estar próxima ao conde é suficiente para alegrar-me imensamente. Resolvi aqui registrar estes meus sentimentos pois não há ninguém, além do cocheiro com quem eu possa iniciar uma conversa, Entretanto seria muito estranho eu com ele conversar sobre isso, então resta-me somente este papel e esta grafite como consolo.
Partindo de imediato ao meu desabafo! Pergunto-me como uma moça como Justine (creio que seja este o nome) com atributos tão ínfimos — para não dizer inexistentes — de beleza e conduta pode ter conseguido as atenções de Byron! Ela algo deve ter feito para seduzi-lo, mas o que? Talvez tenha dito que aprecia os mesmos livros, as mesmas músicas daquele violino que ele tanto ama. Talvez tenha o seduzido de outras formas libidinosas! Oh, quanto a isto não quero nem pensar! Quantas artimanhas essa tal deve ter usado? Esta é a indagação! Penso também que toda aquela cena que forjou tenha sido apenas para conquista-lo de forma sutil! Já que Aaron também gosta de armas! Sim, ela usou de golpes baixos! E o que indigna-me mais ainda é a forma como a trata Byron, ao menos pelo o que pude perceber quando discursou a seu favor no baile!
Chega até me causar ataques de risos imaginar que ele por ela sente algo. Seria como um leão apaixonar-se por um rato! Completamente inexistente está possibilidade! Os olhos dela não tem nada de especial. São opacos, negros, até mesmo um pouco caídos, existem rodelas escuras abaixo deles muito desagradáveis, demonstram como é grande o descaso consigo mesma. O corpo também não possui muita beleza. Sem contornos, não há cintura, o busto é insignificante, as claviculas sobressaltam-se como que as de um desnutrido. Os braços são desproporcionalmente longos, assim como os dedos. O conjunto do rosto então! Jamais vi uma mulher tão descuidada por Paris! Os lábios são pequenos, o nariz é fino e os cabelos são curtos e negros. Não consegui perceber absolutamente nenhuma característica agradável e não digo isto da boca para fora, há comentários piores rondando pela realeza. Até mesmo a forma
Desengonçada como caminhava com aquele vestido! Não é de minha natureza ser crítica de forma tão extrema, entretanto esta moça mereceu.
Talvez não seja a ela que ele dirigi-se na carta. Talvez deva haver outra com mesmo nome, tamanha é espantosa esta admiração repentina e sem motivos! Não admito que alguém com tão pouco encanto possa ter sido capaz de retirar o lugar que é meu por direito desde a infância. Estou certa de que ele irá esquecê-la facilmente com meus esforços!
Sinto-me maravilhosamente bem por ter expresso, mesmo que por meio da escrita, todos estes meus tormentos."
Terminou, voltando a dirigir atenção a paisagem e repousando a carta sobre o assento da carruagem.
***
Não demorou muito até que Madeleine chegasse à Honfleur, entretanto pela ansiosidade, parecia que havia-se passado uma eternidade.
"Tens certeza de que é aqui?"
Perguntou ao cocheiro que lia já pela segunda vez o papel com as informações que lhe dera Thérnadier.
"Sim, milady! Esta estalagem está bem ali, veja!"
Disse-lhe o homem direcionando à ela o estabelecimento de Nicollete.
"Oh, sim, agradeço! Será que não poderia ajudar-me com esta mala?"
"Sim, claro!"
O homem desceu rapidamente da carruagem e a acompanhou até a entrada da estalagem. Madeleine desagradou-se levemente com a cidade que parecia extremamente diferente de Paris ou Versalhes, sem toda sua agitação e luxo, jamais havia deslocado-se por aqueles lugarejos. Somente fazia viajens à Inglaterra, Versalhes e Paris, não desejava de forma alguma conhecer os interiores franceses. Se não fosse por aquela causa, jamais estaria ali.
Avistou Nicollete de imediato.
"Aquele é o Sr dono da estalagem!"
"Fale com ele para mim, rogo-lhe!"
Os dois encaminharam-se até o senhor levemente corcunda que parecia ocupado com chaves de quarto.
"Sr Nicollete, há mais um quarto.."
Madeleine o interrompeu.
"Na verdade, gostaria de saber se é aqui que está instalado conde Aaron! Podes me dar estas informações, por favor?"
"Ora, que honra receber tão bela moça em meu estabelecimento e ainda por cima, educada! Como chama-se?"
"Madeleine! Agora diga-me, conde Aaron aqui está?"
"Sim, minha querida! Que sorte a deste homem! O que queres com ele?"
Madeleine atrapalhou-se.
"Na verdade trago uma notícia extremamente importante à ele! Notícias da realeza!"
"Oh, sim! Então desejas ficar por quanto tempo?"
"Ficarei o tempo que ficar o conde, pois devemos voltar juntos."
"Então temos disponíveis a esta bela moça apenas dois quartos! Qual deseja?"
"O mais próximo do conde!"
Nicollete iniciou uma breve busca nos bolos de chaves espalhadas pelo balcão.
"Que sorte tens, o quarto vinte e sete acabou de ser liberado!"
Disse-lhe, entregando a chave.
"Qual o quarto em que ele se encontra?"
"Vinte e nove!" O sorriso que abriu Justine mostrou-se tão verdadeiro que Nicollete não mais pode dirigir atenção a outras coisas. "Deixe esta mala que levo, não há problemas!"
Disse levando-a até o quarto.
"É a primeira vez que vens até Honfleur?"
"Sim, mas gostei bastante de tudo por aqui!"
"É mesmo um lugar extremamente agradável! És amiga do conde?"
"Sim, na verdade, mais que amiga!"
"Oh, entendo! Ele é mesmo um homem de sorte!"
Proferiu logo deixando-a no andar correspondente ao quarto.
"Ficarás bem?"
"Oh, mas é claro! Agradeço-lhe a gentileza, és um homem muito prestativo! Boa noite, Sr Nicollete!"
Disse, retirando-se com grande satisfação.
***
O conde havia, naquele dia decidido somente andar pela cidade, solitário. Aquela altura já sentia que seus ânimos voltavam ao estado normal, e estava sinceramente muito feliz com este fato. Apesar de que sempre ao lembrar-se do ultimo diálogo com Justine apertava-se o peito de tal forma que ele nem mesmo podia continuar a caminhar. Parava, refletia por um momento e logo após, reiniciava o trajeto. O esforço era constante, por isso permanecia sempre a ocupar a mente com tarefas que premeditava um dia antes.
A caminhada naquele noite, porém, não perdurara por muito tempo, já que ele encontrava-se um tanto exausto. Voltara logo para a estalagem.
"Sr conde, uma moça aqui se hospedou a tua procura!"
Informou-lhe Nicollete.
"O que dizes?"
Perguntou sem entusiasmo.
"Uma moça, se chama Madeleine. Disse que é tua amiga e tem uma notícia para te dar."
Aaron permaneceu estático, refletindo sobre as palavras do amigo. Estranhou a informa, entretanto nada mudou em sua complacência.
"Em que quarto ela está?"
"Vinte e sete, disse que queria ficar o mais próximo de ti! Permita-me dizer, conde, que moça maravilhosa. Sinceramente ainda estou extasiado com tamanha beleza!"
"Sim, é realmente bela!"
"Alguma pretendente?"
"Talvez sim!" Disse, pensativo. "Boa noite!"
Subira rapidamente as escadas, adentrando os corredores com calma. Pôde avistar Milady a caminhar em sua direção. Os cabelos estavam soltos e balançavam-se com o movimento, esboçava um intenso sorriso que ele pôde perceber mais detalhadamente somente naquela vez.
"Aaron! Que bom vê-lo!"
"O que fazes aqui?"
Perguntou-lhe, retirando as luvas.
"Vim, pois gostaria de vê-lo! Sei bem que parece um tanto fora do comum para uma dama, entretanto não posso negligenciar esta minha vontade. Estais bem?"
"Sim, obrigada! Onde estão tuas coisas?"
"No quarto, na verdade nem mesmo sei como dormir por aqui, pois é a primeira vez que venho para este lugar! Gosta desta cidade?"
"Especialmente."
"Sim, também gostei bastante!"
"O que tua mãe disse sobre isso?"
"Oh, ela nada sabe, ou melhor, ela tem conhecimento de que vim a tua procura, entretanto não preocupe-se!
"Não é prudente isto que fazes!"
"Mas então desagradou-lhe minha visita? Pois senão parto de imediato!"
"Não, não! Jamais uma visita sua será desagradável!" Disse-lhe sorrindo. "Há várias coisas interessantes aqui para ver, se não quiser somente ficar reclusa."
"Ah, não! Por mais que o tempo na França esteja desta forma, adoraria conhecer mais sobre Honfleur! O que sugeres?"
"Talvez o porto Le Vieux Bassin ou a igreja Sainte-Catherine. Deve ser de teu conhecimento que os mais importantes portos da França estão em Honfleur, fora daqui que saiu a expedição liderada por Samuel de Champlain, resultando na criação da cidade de Québec! Os marujos daqui eram os melhores e continuam sendo. A arquitetura também é bastante surpreendente com traços normandos, sem contar que é simplesmente magnífico tocar com este cenário! Enfim, há dezenas de coisas encantadoras que posso listar-lhe!"
"Sim, imagino!"
O silêncio perpetuou-se durante alguns pequenos segundos.
"Os jardins daqui são primorosos! Poderia levá-la até eles, se aceitar meu convite!"
"Oh, mas é claro que aceito, Sr. Conde!"
"Então, portanto amanhã pela manhã virei buscá-lá! Voltaremos a Paris, juntos."
"Acreditava que ficaríamos por mais tempo aqui!"
"Não, infelizmente! Devo comparecer junto ao rei todos estes outros dias. Apesar de que muita falta sentirei deste lugar." Proferiu, pensativo. "A vista que temos neste local é privilegiada. Venha até aqui!"
O conde levou milady a varanda do andar, mostrando-lhe como era bela a imagem que tinham da cidade. De imediato o vento misturado às gotículas de água soprou em sua pele a fazendo sentir-se minimamente incomodada, bastou olhar a figura do conde ao seu lado, satisfeito enquanto os cabelos eram desgrenhados, para que este incômodo se estingui-se de imediato. Acreditou que somente por aquele momento, valera apena deslocar-se até a cidade.
"O que achas?"
"Realmente muito belo! Até mesmo parece uma pintura."
"Por que não pintas? Acredito ter telas por aqui e tinta!"
"Oh, não! Sr conde, por favor, eu nada sei pintar, sou uma verdadeira negação!"
"Não para mim!" Disse dirigindo-se a ela. "Já vi um de seus quadros, pintou-me quando tinha quinze anos, esqueceu-se?"
"Jamais, como poderia esquecer-me!"
"Eu lhe disse que retribuiria o presente, entretanto, não possuo talentos pela pintura."
"Isso se adquire com o tempo, Byron! Não é tão complicado como dizem! Sei que podes aprender."
"Seria magnífico, porém acredito que como pintor, sou um excelente admirador!"
Os dois sorriram.
"Talvez teus talentos estejam na tua invejável escrita e habilidade para com os instrumentos. Bem sei que desde a adolescência, gostas de escrever e fazes isso muito bem!"
"Que grande bondade é esta sua, milady! A questão é que a escrita me alivia algumas dores."
"Sem dúvida! Posso perceber, já que és tão fechado, somente um papel poderia entendê-lo com propriedade."
"Justamente por que os papéis não falam, não olham, não escutam! Muito menos julgam e isto é maravilhoso. Não há a menor possibilidade de que um segredo escrito espalhe-se, não achas?"
Madeleine observava-o com grande concentração.
"Sim, com toda a certeza!"
"Gostas de escrever também?"
"Oh, claro! Embora não seja tão boa nisso."
"Não digas! Uma mulher com teu vocabulário provavelmente deve ter uma escrita magnífica!"
"Ora, agradeço a gentileza!"
"Como estão teus pais?"
Justine pôde perceber o interesse do conde em manter a conversa com a mesma vivacidade do início e isto a alegrou.
"Mamãe, como sempre vive a perambular desconfiada de meus atos.."
"Creio que isso possa ser atribuído à mim!"
Brincou.
"Sim, em parte! Papai vive a sair, quase nunca o vejo em casa, após às sete. Isto deixa-me triste! Sei que ele é um homem comprometido com o trabalho, entretanto acredito que não faria-lhe mal retornar mais cedo de Versalhes."
"Sente-se sozinha?"
"Sim, muito! As vezes é quase como uma dor!"
Aaron a encarou placidamente.
"É uma pena que teu pai não esteja presente. Bem sei como é este sentimento."
"Oh, sinto muito por estar remoendo novamente este assunto!"
"Não, minha querida Madeleine, pare de se desculpar!" Disse-lhe desviando o olhar. "Queira dizer-me, qual notícia afinal me trouxera?"
Milady baixou a cabeça, levemente envergonhada.
"Ah, está foi somente uma desculpa para as perguntas daquele homem!"
"Compreendo. Ainda creio que este teu ato fora inconsequente! Permita-me que amanhã quando voltar-mos eu possa assumir as responsabilidades para com tua família."
"Não, Sr conde! Agradeço-lhe por querer ajudar-me, porém não é necessário!"
"Sim, é necessário! Pagaste algo a Nicollete?"
"Oh, não. Ele nada cobrou-me, que estranho, devo pagar de imediato.."
"Eu pagarei as despesas, tranquilize-se." Afirmou, tornando-se imediatamente sério. "Suponho que tens fome. Solicitarei um prato, gosto especialmente das sopas daqui, entretanto se quiseres poderás pedir algo diferente!"
"Oh, como posso agradece-lo?"
"De nenhuma maneira." Proferiu dando de ombros."Informarei-lhes para entregar em teu quarto a refeição."
"Não há problemas para mim jantar em teu aposento. Talvez pudéssemos continuar o diálogo."
"Seria interessante, porém as pessoas daqui espalhariam coisas desagradáveis a teu respeito. Neste aspecto não há diferenças entre Paris e Hanfleur."
Disse-lhe fazendo um sinal para que o seguisse.
"Espere-me aqui, irei pegar as opções de pratos."
Madeleine concordou, permanecendo a porta por alguns minutos.
"Aqui está! Foi grass, Quiche lorraine, Sopa de cebolas — que gosto muito — Coq au vin entre outras. Escolha!"
"Qual escolheria para mim?"
Byron franziu o cenho, contrariado.
"Bem talvez fosse melhor que tu escolhesse, porém acredito que a blanquette de vitela seria uma feliz opção. Deseja sobremesa?"
"Não conde, creio já ter abusado demasiadamente de tua bondade."
"Isto não é bondade! Faço por que realmente quero!" Aaron passara rapidamente a vista pelo cardápio. "Para a sobremesa terás Profiteroles. São divinos! Farei o pedido Srta, Boa noite!"
"Conde, por favor, se não for pedir demais, rogo-lhe para que me deixe em teu aposento ficar somente enquanto os pedidos chegam! Seria complicado permanecer sozinha neste escuro que faz ao anoitecer."
Aaron silenciou-se por certo tempo.
"Está bem, entre!"
Deixá-la entrar fora um desafio ao conde. Não poderia negar que aquela visita o desagradou, pois gostaria de ficar sozinho aqueles dias. Entretanto, acreditou ser Madeleine uma ótima companhia quando o desejo era esquecer-se de outras mulheres.
"Sente-se onde quiser."
"Que bela varanda!" Disse ela seguindo em direção a porta. "Tens a mesma vista neste quarto."
"É o melhor quarto da estalagem. Peço sempre para que Nicollete me direcione a este quarto quando aqui venho!"
"Que ótima escolha! Desde quando conheces este Nicollete?"
"Acredito que possuía dezesseis anos quando o conheci."
"E o que fazia deslocar-se até Honfleur desta maneira?"
"Nada de tão interessante. Gosto daqui, somente isto!"
"Realmente não há como negar esta beleza. Estavas a tocar?"
Madeleine observou o instrumento sobre a poltrona.
"Sim!"
"Qual música?"
"Vivaldi, praticamente."
"Oh, venero suas músicas. Que tal 'inverno'? É maravilhosa!"
"Sim, é uma de minhas favoritas! Não era de meu conhecimento que apreciava essas composições."
"Suas músicas também podem ser tocadas por pianistas!"
"Bem sei! Farei o pedido neste momento. Importa-se se eu sair por um instante?"
"Não, Sr conde! Estarei esperando-o."
Disse, enquanto Aaron retirava-se. Durante a saída, Madeleine aproveitou para vasculhar por entre os livros e todos os esconderijos possíveis as cartas destinadas a Justine. Talvez houvessem outras e ela faria questão de lê-las para ter a certeza do que lhe contou Thérnadier. Nada encontrou e isso a chateou, por mais que fosse um sinônimo de que ele não escrevia sobre a tal moça a todo o momento. Imaginou que se estivessem escondidas, seria em qualquer lugar distante o bastante de seu alcance. Pensou em procurar por entre os objetos mais remotos, porém não fora possível concretizar a tarefa. Aaron adentrou o quarto de supetão, com ar desconfiado.
"Esta feito o pedido. Esperaremos somente alguns minutos."
"Agradeço! Perguntava-me agora mesmo sobre quais as atividades que Hanfleur oferece. Percebi que tens um arco e flechas! Estais caçando?"
"Sim, consegui abater uma ave. Entretanto a caça não é a única atividade que podemos exercer aqui. Há também os passeios de barco, os passeios no bosque, entre outros."
"Programas que podem perfeitamente ser executados a dois, não achas?"
"Talvez, depende da intenção dos visitantes." Disse, caminhando até ela. "Sabes que isto que estais fazendo irá desagradar imensamente tua mãe, não sabes?"
"Ela nada fará!"
"Não penso desta forma. Do jeito que é, de certo que amanhã mesmo invadirá a estalagem procurando por ti. Lembra-te da infância? Onde ela dizia que eu era tua má influência em meio a todas as amizades. Por vezes desconfio que ela nunca gostara de mim verdadeiramente."
"Oh, engana-se grandemente! Mamãe sempre o teve como alguém da família já que estávamos destinados ao casamento e ainda estamos! "
"Ora, ainda pensas nisso?"
Perguntou-lhe o conde, com verdadeira dúvida. "Fora uma promessa tão remota de nossos pais."
"Não só de nossos pais! Esqueceste das palavras do rei? Ele disse perante nossa família que estaríamos sempre juntos e que merecíamos casarmos no futuro! Não te recordas?"
"Sim, entretanto não gostaria de iniciar outra discussão sobre este fato."
"Sabes que não é mero fato!"
"Sim, com toda a certeza, entretanto falemos de outras questões." Proferiu, exasperado. "Por favor!"
"Talvez tu estejas distante o suficiente para não querer dialogar sobre isto." Disse-lhe a moça. Madeleine o observou com doce olhar. "Aquilo que aconteceu a ti durante o baile, deixou-me extremamente preocupada."
"Não era necessário. Nada aconteceu-me de tão grave."
"Quem era aquela que te atacou?"
"Não tenho conhecimento!"
Respondeu-lhe o conde falsamente.
"Justine de Beaumont, não? O que achas que ela é?"
"Uma delinquente!"
"Somente isso? Pois eu acredito ser ela uma assassina."
"Acredito que ela seja cruel. Porém não uma assassina."
"A conhecias?"
"Não!"
"Deverias tê-la deixado no calabouço. Por que a soltou?"
"Isto é um interrogatório, Srta milady?" Perguntou-lhe a encarando seriamente. "Pois está parecendo!"
"Não sabia que este assunto o dedagradava. Acreditava que seria importante desabafar sobre isso. Entretanto se nada quiseres dizer, entenderei perfeitamente."
"Não, perdoe-me! É que não desejo relembrar este assunto."
"Oh, sim! Que tal lermos uma história? Vejo que trouxera livros e bastante interessantes por sinal."
Disse Madeleine, levantando até a pequena estante da sala. A vela acesa permeava-lhe os contornos, evidenciando
os traços simétricos. Aaron destinou atenção aos objetos por sobre a mesa, antes que iniciasse uma sucessão de pensamentos relacionados ao primor da moça.
"William Shakespeare! Que maravilha! Ora, tens Romeu e Julieta. Que tal lermos este, como fazíamos quando pequenos?" Sentou-se sobre a poltrona ao lado do conde.
"Quem começará?"
"Talvez tu!"
"Agradeço! Permita-me abrir nos trechos que mais gosto." Milady preparou-se e iniciou a leitura abarrotada de emoção. Enquanto pronunciava-se, Aaron permaneceu silente a analisá-la.
'"Diz Romeu: Posso ter a honra? Se profano for tocar este santo relicário. Espero que com meus lábios possa suavizar este rude contato com um terno beijo.
JULIETA: As santas teem mãos que são tocadas pelos peregrinos.
ROMEU: Não tem lábios as santas?
JULIETA: Sim, lábios que devem usar na oração.
ROMEU: Então santa adorada, deixai que os lábios façam o que as mãos fazem.
JULIETA: — As santas são imóveis mesmo quando atendem as orações.
ROMEU: — Então não te movas enquanto recolho o fruto de minhas preces. Assim mediante vossos lábios ficam os meus livres de pecados.' Não é belo, Sr conde?"
"Sim!" Disse secamente.
"Entretanto não permita que esses anseios lhe dominem a imaginação."
"O que quer dizer com isto?"
"Digo que estas coisas não acontecem verdadeiramente."
"Ora, iniciarás novamente teu discurso! Pois saiba que para mim, isto é que é a verdade! Não acreditas no amor?"
"O amor não é algo saudável. Muito ao contrário, é uma arma torturante."
"Falas com tanta propriedade que até mesmo parece que já passaste por isso!"
"Se é o que achas! Talvez tu tenhas um pensamento muito fértil."
"Não! Apenas é possível a mim perceber questões as quais os outros encontram-se alheios."
"As teorias filosóficas mudariam tua percepção."
"Se as teorias filosóficas me fizerem desacreditar no amor, então prefiro ser leiga!"
"Sinto muito por esta tua inflexibilidade." Disse-lhe firmamente. "É um imenso equívoco."
"Deixemos de debater! Não desejas ler?"
"Creio que não leria com tanto sentimento como tu! Continues a ler. Aprecio tua leitura."
Disse, já com os pensamentos distanciando-se lentamente. Enquanto milady passava as linhas, algumas celeramente outras vagarosamente, distribuindo a quantidade necessária de sensibilidade a cada cena com perfeita dicção, — resultado de anos de leitura assídua- o conde a observava detalhadamente rememorando a infância e adolescência a qual passaram intensamente juntos. Entretanto, nada sentia. Não pela questão de não querer ou não aceitar, mas sim pelo fato de não conseguir. A afeição que tinha por Madeleine nem mesmo minimamente comparava-se aos sentimentos que cultivava pela moça em Paris. Justine lhe estava torturando mesmo estando tão distante.
***
O dia seguinte fora bastante aproveitado pelos dois. Logo cedo Aaron e Madeleine partiram até os pontos mais importantes de Honfleur. Como sempre, Byron entusiasmou-se com a historicidade do local, explicando-lhe cada fato que dera origem a cidade e as condições que a fizeram chegar a aparência que tinha na época. Madeleine deleitava-se com sua presença. Era agradável vê-lo empolgado a sorrir enquanto conversavam sobre assuntos diversos. O jardim que ele fizera questão que visitasse não a toa era denominado belo. Possuía várias espécies juntas causando uma agradável confusão de cores.
"Qual o teu conceito sobre Honfleur após tanto conheceres sobre a cidade?"
Perguntou-lhe o conde já dentro da carruagem.
"Divino! Não há como achar outra coisa com esta explicação tão bem feita por ti."
"Apenas gosto muito daqui. Comprarei de imediato uma carruagem somente para deslocar-me até a cidade!"
"Já não tens uma?"
"A de meu pai já se tornou relíquia a que comprei a algum tempo agora possui um defeito na roda. Serei obrigado a comprar uma nova!"
"Por vezes acredito que gostas de gastar!"
"Admito que vez ou outra comporto-me de maneira exagerada, porém costumo gastar com aquilo que faz-me bem!"
"E que sejam suficientemente caros!"
"Creio que tu é que estais sendo exagerada."
O tempo restante passaram dialogando sobre trivialidades. Imediatamente ao chegarem a estalagem, Aaron pôde perceber algo que já imaginava.
"Teu pai nos aguarda!"
"Ora, o que dizes?" Proferiu Milady afastando da janela a pequena cortina afim de confirmar as palavras do conde. "Não posso crer! Como fora capaz!" Exclamou retirando-se com tamanha rapidez que o conde mal tivera tempo de acompanhá-la.
"Pai, o que fazes aqui?"
"Oh, querida! Graças ao bom Deus aqui estais!"
Disse-lhe abraçando-a. Madeleine retesou-se.
"Como descobriu onde estava?"
"Tua mãe deu-me o endereço. O que importa é que te encontras bem! Como saíste de casa naquela penumbra? És uma inconsequente!"
"Conde Aaron está junto a mim!"
"Por isto mesmo tua mãe por pouco não matou-me para que viesse de imediato buscá-la!"
"Pode ficar tranquilo Sr Duque! Nada fiz à Madeleine."
O conde apertou-lhe a mão.
"Oh, não! Eu que lhe peço desculpas por Madeleine."
"Se quer saber, tivemos conversas maravilhosas, bem mais interessantes que as de casa."
Proferiu Milady, levemente emburrada.
"Deixe de reclamar e pegue tuas coisas!"
"Preciso de ajuda, sou uma dama!"
"Deixe que eu mesmo irei buscar as coisas de sua filha, Sr Duque!"
Proferiu Aaron recebendo as chaves e destinando-se ao quarto de Madeleine.
"Não vês que estais atrapalhando o conde?"
"Ele nada pareceu incomodado quando conversamos!"
"Talvez esteja apenas sendo educado. Como tivestes coragem de executar esta fuga? Se tivesses antes vindo até mim! Saiba que estou extremamente decepcionado Madeleine!"
"Quando se trata de amor, retiro coragem até mesmo de onde ela é inexistente! Se fosse mamãe aqui, não virias atrás dela?"
"Ora, Madeleine, não sou um inconsequente como tu! Evidentemente que não, até porque tua mãe frequentava um colégio de freiras! Deixes de ser cega, querida!"
"Percebes o que acabas de me dizer? Não mais dirija-me a palavra hoje, pai!"
"Tu és irritante! Deste jeito ninguém jamais irá casar-se contigo, muito menos Byron que é cético! Pare de criar expectativas! Tua mãe está certa, nós algo erramos em tua criação."
"Não! Este teu pronunciamento somente prova o quanto os dois tem um pensamento equivocado. São imensamente superficiais! Sou entusiástica! Nem mesmo pareço vossa filha!"
"Infelizmente és! Já imaginou o que falará a vizinhança te vendo assim com um homem sem estar casada? Oh, temos mais isto para nos preocupar!"
"Não importo-me com o que falarão este povo tagarela! Todos sabem sobre meus sentimentos para com o conde!"
"Pois que grande infortúnio para ti quando perceberes que estes sentimentos não são correspondidos!"
"Vire essa boca para lá, pai! Consegui conquistar-lhe a admiração, logo estará pedindo minha mão!"
"Nada mais falarei, pois se quer iludir-se, iluda-se!"
Madeleine afastou-se com os sentimentos já a flor da pele.
"Somente esta mala?"
Perguntou-lhe o conde levando suas coisas nas mãos. Ele mal pôde dirigir-lhe a palavra. A moça desatou em choro incessante. Aaron repousou a bagagem sobre o chão sem compreender a cena. "O que sentes?"
Abraçando-o delicadamente, ele nada mais pudera fazer a não ser retribuir-lhe o gesto.
"Prometa-me que jamais decepcionará meus sentimentos!"
Disse-lhe aos prantos. Byron sentiu-se extremamente inquieto com a situação. Entretanto, não a deixaria sem uma resposta.
"Sim! Logo voltarei à Paris e nos veremos."
Tranquilizou-a, a acompanhando até a carruagem, onde guardou sua bagagem. A moça dirigiu-lhe tenro sorriso e juntou-se ao pai já no interior do veículo. Partiram de imediato, Madeleine o acompanhou até sumir de sua vista.
Aaron preocupou-se. Acreditava ter feito imensa besteira a tratando tão imensamente bem na noite anterior, alimentando os sentimentos já existentes. Deveria tê-la levado à Paris logo ao debater-se com ela pelos corredores, não negaria que a companhia mostrou-se agradável, porém a partir dali, tinha conhecimento de que a responsabilidade para com Milady aumentaria significativamente.
***
"Não, não adianta! Não digas nada, Madeleine! Tu perdeste a razão quando fugistes a procura deste homem! Jamais novamente acreditarei em tuas palavras!"
Berrou a duquesa. Madeleine encontrava-se sentada próximo a janela, aos prantos, fazia uso de um lenço para secar-lhe as lágrimas.
"Eu nada prometi! Fui verdadeira quando disse que fugiria!"
"Já disse para calar-te! Amanhã, logo cedo tua tia Bernadette virá até aqui te buscar para Londres. Lá ficarás por um tempo até que te esqueças deste conde."
"O que mamãe? Não podes fazer isto, é injusto!"
"Nada mais falarei. Tuas coisas já estão preparadas!"
"Não mamãe! Não podes fazer isto comigo! Logo agora que estou tão triste por ter descoberto que o conde ama outra!"
A duquesa dirigiu-lhe um olhar fuzilante.
"O que dizes? Quem?"
"Aquela que o atacou! Não sei se é a verdade, porém pelo o que pude ver ele por ela tem certa afeição."
"Quem em plena consciência apaixonaria-se por aquela mulher? Como pôde ele te trocar por uma indigente?"
"Oh, mamãe! Estou tão triste."
"Não fiques assim!" Disse-lhe, afagando os cabelos da filha. "Ele não será feliz com ela nem com ninguém!"
"Nada farás contra ele, mamãe!"
"Não querida, o tempo fará!"
***
"Que grande equívoco hoje cometi! Penso que mostrasse-me indiferente, este fato não teria crescido a este nível desagradável! Já deveria ter entendido o quanto milady releva os sentimentos. Neste momento sinto um imenso peso em minha consciência por tê-la feito acreditar em suposições mentirosas! Possuo a certeza de que agora remoe estes sentimentos mais que em qualquer outro momento.
Temo que saiba sobre Justine, desconfiei da pergunta, aparentemente sem intenção que me fez, não tenho certeza do que desejava indagando-me sobre a Srta. de Beaumont, entretanto as mulheres possuem artimanhas diversas de arrancar informações.
Terminarei agora este escrito, já que uma impetuosa dor envolve-me a cabeça."
Escreveu, permitindo-se refletir um momento sobre os fatos ocorridos. Decidiu que não mas voltaria à Paris naquele dia. Esperaria a manhã chegar e assim partiria ao alvorecer.
***
A duquesa saira misteriosamente, o Duque, em silêncio a observava da janela. Pagando, pediu ao condutor da carruagem que a levasse a Versalhes, repousou sem exprimir palavra sequer até o Palácio. Caminhou silenciosamente em direção a sala principal, solicitando que Lefebvre viesse até ela. O monarca estranhou o convite.
"O que queres, senhora?"
"Que bom que viestes! Desloquei-me até Versalhes somente para algo lhe perguntar! Sabes quem é aquela que ao conde atacou no baile?"
"Oh!" Disse ele, sorrindo. "Uma infeliz mulher, madame!"
"Mas quem é?"
"Não tenho conhecimento, somente ouço boatos pela realeza, ela está falada por aqui. Se não engano-me, seu nome é Justine alguma coisa a mais que não lembro. Vive pelas ruas, uma delinquente sem tamanho. O fato de Aaron tê-la liberto somente evidencia o quanto é irresponsável para com o cargo que lhe dera o rei."
"Sim, penso da mesma forma! Sabes onde posso encontrá-la?"
"Não, duquesa! Porém, seria mais evidente que por estes lados sujos de Paris. Onde dormem os indigentes."
"Ah, sim! Não havia pensado nisto. Agradeço!"
"Ora, mas permita-me perguntar, o queres com esta Justine?"
"Nada! Desejo apenas saber quem é, para que não aproxime-se de minha família." Disse, sorrindo forçosamente. "Agradeço, Sr Lefebvre!"
Retirou-se apressadamente. Lefebvre a acompanhou com os olhos, desconfiado.
***
"Leve-me de volta à Paris, meu rapaz!"
Informou ao cocheiro, sem nada mais dizer. A viagem para ela foi longa, já que a ansiedade estava presente. Pediu para que a deixa-se próximo de onde estavam os indigentes.
"Espere-me!"
Ordenou. Fizera um caminho semelhante ao que fez o conde, entretanto sem muito adentrar os becos, com receio. Tomava o cuidado para não fitar ninguém nos olhos, lera em algum lugar que este ato seria íntimo demais. Avistou Justine facilmente já que esta era a única que diferia-se dos outros com os cabelos negros e curtos. Aparentava estar alegre, embora o cenário em que encontravasse fosse o mais improvável para aquele sentimento. Justine, ao perceber estar sendo observada, passou a também encarar a duquesa de forma tão autoritária quanto.
"Quem é aquela?"
"Pelo jeito que se veste, deve ser da realeza."
Disse-lhe o homem a seu lado.
"Dê-me a espada!"
"Não, jamais! Estais maluca, esta mulher nada te fez!"
"Ela esta encarando-me! Ora, se quer encarar, porque não enfrenta-me?"
"Justine senta-te!"
Porém a ordem não fora suficiente, a moça já partia em direção a mulher. Caminhando a passos largos, com a postura altiva que mantinha constantemente.
"O que quer?"
"Nada quero! Somente a observo!"
Respondeu-lhe a duquesa calmamente.
"Se me observas então deves ter algo a dizer!"
"Tu que és a Justine?"
"Para que queres saber?"
"Seja como for. Se tu fores ou não a Justine, se a encontrares diga a ela que o conde já tem uma pretendente. Disse que nada deseja com outra."
Justine gargalhou.
"Tu achas que Justine é uma pretendente do conde? Ora essa!"
"Seja como for garota! Afasta-te, estais causando sofrimentos pela realeza, quebrando ligações já firmadas a anos! Pois senão.."
"O que farás? Continues! Será empolgante saber o que pretendes fazer com Justine."
"Pretendo não, farei! Caso ela não se afaste!"
"Sabes lutar ao menos? Já ouviste os boatos? Não meta-se com Justine!"
"Do que estais falando? Sou uma dama não é de meu feitio resolver as coisas desta forma bruta! De qualquer maneira, deixe-o em paz!"
"Podes ter certeza que de Justine nada será feito! Diga a ele que se afaste!"
"Não direi mais nenhuma palavra, se perpetuares esta tua conquista, presenciarás meus atos!"
Disse, retirando-se. O sorriso de Justine desfei-se imediatamente. Não compreendia o motivo daqueles avisos repentinos, também não compreendia como poderiam desagradá-la tão intensamente.
***
Como estipulara, o conde cedo encontrava-se pronto para partir. Despediu-se de Nicollete o agradecendo por ter sido tão imensamente hospitaleiro como sempre. Adentrou a carruagem e durante toda a viajem somente pensou. Sabia que ao pisar em Paris presenciaria o retorno dos pensamentos que tanto esforçara-se para esquecer. Na verdade, eles já retornavam naquele momento. Somente ao pensar em rever Madeleine voltava a sentir-se exausto. Seria um trabalho árduo novamente dirigir-lhe a palavra após o acontecido. O desejo de rever Justine aumentava quanto mais próximo encontrava-se da cidade e isto o chateava grandemente. Era de fato, algo que não controlaria por muito tempo.
Não demorara a retornar. O contato com os jardins o fizera esquecer-se minimamente do que vinha lembrando-se desde a saída de Hanfleur.
Sra Thernadier ao vê-lo, apressou-se em sua direção.
"Sr. Conde! Acreditei que retornarias mais tardiamente!"
"Não! Infelizmente me vi obrigado a voltar de imediato."
"Certamente que a viajem fora boa!"
"Como sempre bastante normal!" Disse sentando-se sobre a poltrona. "A não ser por um fato um tanto cômico. Acreditas que Madeleine fora até Honfleur a minha procura? Pergunto-me quem pôde dar-lhe tamanha informação! Tens uma sugestão Thernadier?"
A governanta permaneceu sem nada dizer, por este gesto Aaron pôde confirmar o que desconfiava.
"Sabia que foras tu! Por que fizeste isso?"
"Ora conde! Entenda que desejo ver os dois juntos, somente isto!"
"Quantas vezes terei que repetir que Madeleine não interessa-me neste aspecto? Será difícil compreender? Jamais repita este ato novamente!"
"Com toda a certeza, Sr conde!"
Tranquilizou-lhe com desânimo.
***
Aaron viu-se obrigado a retratar-se com a duquesa, ainda que soubesse que não seria bem recebido. Destinou-se até o château do Duque, preocupado. Pensou que se somente se dirigisse rapidamente ao Duque o diálogo poderia Até mesmo se tornar agradável, entretanto, certamente que a duquesa lá estaria, destinando a ele aquele olhar de escárnio que agitava-lhe os nervos. Ficara tanto tempo a bater incessantemente a porta que passou a imaginar não ser bem vindo. A governanta o atendeu com atraso fazendo-o esperar ainda mais ao chamar o Duque.
"Aaron o que fazes aqui?"
"Vim retratar-me, creio que seja preciso. Acate minhas desculpas, fui extremamente errado ao deixá-la permanecer em Honfleur! Sei que isso jamais servirá para a duquesa, entretanto aceite este meu pedido."
"Sim, na verdade tenho absoluta certeza de que tu nada farias à ela! Josephine é que pensa desta forma. Sinto-me verdadeiramente triste por Madeleine que agora tivera que ir até Londres e lá ficará por tempo indeterminado."
"Ora, por quê?"
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!"Em consequência desta falta de juízo!" O duque balançou a cabeça negativamente em tom de reprovação. "Farei-lhe uma pergunta Sr. conde e gostaria que fosses sincero. Tens algum tipo de sentimento por minha filha?"
Aaron sentiu-se desconfortável.
"Sr Duque, seria impossível nada sentir por alguém com que se passou a infância! Posso dizer que possuo grande estima por tua filha!"
"Não meu rapaz, refiro-me a amor. Amas Madeleine?"
"Seria um equívoco dizer que sim."
"Já imaginava! Então, amas outra?"
"Não!"
Respondeu, inquieto.
"Espero que um dia ames! Não preocupe-se meu rapaz, aprecio grandemente a sinceridade que tens. Infelizmente não posso convidá-lo para juntos tomarmos um chá pois Josephine chegará em breve."
"Não Sr Duque! Agradeço por seres sempre tão imensamente cordial comigo."
Os dois cumprimentaram-se e Aaron partiu direto à Versalhes.
***
Aquele dia fora um dos mais difíceis para Justine. Acordara com dores por todo o corpo. Os olhos tanto ardiam que ela quase não podia abri-los. A garganta doía intensamente, fazendo com que até mesmo falar se tornasse uma complicada tarefa. Lembrou-se que na noite anterior foi obrigada a dormir ao relento, as cobertas todas foram ocupadas. Só restou à ela a exposição aos pingos de chuva e à neblina. Como resultado, a doença acabou lhe atingindo finalmente. E pode-se dizer que tivera sorte, já que a gripe a atingiu por último entre todos os que ali permaneciam.
"Estais doente?"
Perguntou Batiste aproximando-se curioso.
"Não!"
"Estais quente e com uma aparência estranha!"
"Nada de tão importante!"
"Parece que vais morrer! Vou buscar ajuda!"
"Não, Jean Batiste! Estou recuperando-me, aquieta-te!"
Entretanto, o garoto já corria por entre os mendigos, saltando com habilidade os obstáculos. Jean foi até a estalagem a procura de Geraldine, percebendo que para execução do que planejava deveria ter a ajuda de alguém mais velho.
Arfando, bateu a porta com as mãos sujas. Sra. Henriqueta o atendeu, carrancuda.
"Não há esmolas aqui, pivete!"
"Desejo falar com Geraldine!"
"O que queres com minha filha? Saiba que ela não te dará esmolas, saia da porta de minha casa! Vá mendigar em outro lugar!"
"Eu só quero avisar algo à ela!"
"Avise a mim, sou a mãe dela!"
"Mamãe!" Disse a garota aproximando-se com uma jarra nas mãos. "O que queres, Jean?"
O garoto fitou sra Henriqueta, pensando se deveria ou não contar a notícia em sua presença.
"Tem uma pessoa que precisa de tua ajuda!"
Geraldine estranhou as palavras do garoto. Não conhecia Jean Batiste verdadeiramente, via-o a perambular pelas ruas, porém sabia da fama de ótimo informante que tinha no bairro.
"Oh, sim!" Disse com receio de que a mãe algo percebesse. "Talvez as crianças precisem de mim, mamãe!"
"Ora, desde quando tu cuidas das crianças indigentes?"
"Deixe-me vê-los, rogo-lhe!"
Entregou a mãe a jarra, partindo enquanto era duramente repreendida por Henriqueta.
"Diga-me logo o que quer!"
Ordenou, já estando consideravelmente afastada do campo de visão da mãe.
"Justine está doente, avise ao conde Byron. Este é o endereço."
Jean Batiste entregou um pequeno e amassado pedaço de papel à moça.
"Conde Byron?" Perguntou, franzindo o cenho. "Por que ele? Justine o odeia, seria o mesmo que ofende-la levando-o lá! Isto é totalmente sem nexo, garoto!"
"Não! O conde que pediu-me para fazer isto! Disse que quando algo acontecesse à Justine, eu o devia chamar."
"Que estranho! Somente isso tenho a dizer, que estanho!" exclamou, enquanto refletia. "Não devo executar tal ato! Mal sei o que este conde pode fazer à Justine! Ele é chefe da infantaria, talvez esteja tramando algo contra ela. Não farei!"
Jean Batiste bateu os pés sobre o chão, emburrado.
"Por favor, Geraldine! O conde não fará mal nenhum à ela. Ele por ela tem imensa afeição! Se eu não avisá-lo serei repreendido e nada almoçarei!"
"O que dissestes? Aaron sente algo por Justine? Bem imaginei! Tens certeza absoluta do que me dizes?"
"Sim! Porém, não espalhes!" Pronunciou ansiosamente o garoto. "Vá logo!"
"Irei! Entretanto, se algo prejudicar Justine, será tua a culpa!"
***
Thernadier havia acabado de organizar as louças como sempre aquelas horas. Aaron encontrava-se na biblioteca desde o amanhecer, na verdade ela nem mesmo tinha conhecimento de onde dormiu o conde durante a noite. Talvez a insônia o fez deslocar-se até o refúgio.
Ao ouvir os chamados na porta, apressou-se, porém indagando quem os visitaria já tão cedo.
Os baques aumentaram de intensidade.
"Ora, já estou indo!"
Abriu a porta com rapidez. Geraldine a encarava apreensiva. Thernadier pôde perceber seus trajes e imaginou que seria provável que fosse uma pedinte.
"Pois não?"
"Gostaria de falar com o Sr conde! Diga que tenho um recado muito importante para dar-lhe!"
"Desculpe-me, entretanto será que poderias informar-me sobre o que se trata para que eu possa informar ao conde com mais exatidão?"
Perguntou, desconfiada.
"Diga à ele que é um recado de Jean Batiste, o garoto!"
"Acredito que ele esteja ainda a dormir. Poderá dizer-me, portanto!"
Geraldine exitou.
"É algo que devo dirigir somente a ele, desculpe-me! Poderia chamá-lo?"
"Não será necessário!" Disse Aaron, surgindo próximo à governanta. "Obrigada, Thernadier. Deixe que eu fale com a moça!"
Exclamou saindo para atendê-la externamente.
"Conheces Jean Batiste?"
"Sim! O que houve?"
"Ele mandou dizer-lhe que Justine está doente."
"O que tem ela? Algo de grave?"
"Na verdade não sei! Tens certeza de que nada fará de mal à ela?"
"Não! O mais evidente é que aconteça o contrário. Quem tu és?"
"Geraldine, sou confidente
de Justine."
"Sim já pude ouvir coisas muito boas sobre teu caráter. Deva isso a Batiste! Espere-me um segundo."
Pediu, enquanto adentrava novamente o chateau para buscar o casaco. Thernadier estava a observá-lo atentamente.
"Aonde vais?"
"Resolver problemas pessoais!"
"Creio que não devas ir!"
Alertou-o a governanta, entregando-lhe uma carta.
"O rei deseja vê-lo o mais rápido possível. Seria melhor resolver as pendências reais, que são obrigações, que as pendências pessoais, não achas?"
"E o que tens a dizer sobre quando os dois problemas são equivalentes?"
"O que pode ser tão grave da maneira que falas?"
"Nada, Sra Thernadier!" Disse-lhe sorrindo. "Irei de imediato para Versalhes ao retornar."
Aaron a deixou, parada em meio a sala com cara de quem algo trama.
***
"Desde quando conheces Justine?"
Perguntou Geraldine, quebrando o silêncio que se perpetuou desde a saída do chateau. O conde destinou-lhe um olhar que a fizera querer esconder-se.
"Não gosto de comentar sobre isso. Foram várias as situações em que batemos de frente."
"Perdão, esta foi uma de minhas perguntas inconvenientes."
"Não! Converse comigo, pois encontro-me aflito."
"Bem, então gostas de Justine?"
Geraldine percebera que não poderia ter sido mais antiquada, porém não conseguiria guardar aquela questão por muito mais tempo. Aaron não a olhou desta vez. Continuou a fitar o caminho.
"Não! É algo pior!"
Confessou.
"Nunca pude pensar seriamente nisto. Por que? Permita-me perguntar."
"Não consigo saber. Eu apenas a fito e sinto muito por tê-la tão distante. Não entendo os motivos! És mesmo confidente dela?"
"Sim!"
"Ela diz algo sobre mim?"
"Coisas horríveis!"
"É claro!"
Conformou-se.
"É uma pessoa difícil de se conviver. Na verdade acredito que ela tenha traumas tão profundos que não a permitem perceber o bem."
"Traumas?" Perguntou, estalando a língua. "Sempre desconfiei. Ela lhe diz qual traumas?"
"Não, é muito fechada quanto a isso. Creio que ela não o deixará aproximar-se."
"Sim, bem sei!"
"Então por que vais?"
"Por que sou tolo. Porém, é torturante tentar evitar."
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