Até depois da Morte!
14 O infeliz retorno à Rochelle
Justine limpou o suor que escorria-lhe pela testa, aquele era já um sinal de recuperação, acreditava. Logo estaria livre da doença. Para ela que jamais fora derrotada por uma arma, se livrar da enfermidade seria simples.
Esfregou os pés e recostou-se na parede limenta e repleta de musgos. Ao fechar os olhos com as pálpebras já pesadas, pôde ouvir o tom de voz desagradável que reconheceu de imediato, entretanto, esforçou-se para ignorar.
Geraldine chamava-lhe.
"Justine! Acorde!"
"Não durmo! Ora, deixe-me aqui!" Pediu, abrindo os olhos e percebendo a postura do conde à fitá-la com meticulosidade. "Por que trazem este homem até mim?"
"Ele é o único que pode intervir por ti neste estado. E não se oponha!"
"Que estado? Estou somente com uma gripe. Não necessito de tua ajuda!"
Exclamou dirigindo-se a Byron. Ele porém nada disse, permenaceu sob mesma postura, desta vez olhando-a nos olhos.
"O conde somente deseja te tirar daqui, tu não precisas por ele criar afeição. Se permaneceres aqui, morrerás, assim como a maioria dos indigentes."
Justine nada pronunciou. Fora a primeira vez que a moça não rebateu com uma resposta indelicado, reparou o conde.
O corpo todo doía intensamente, pôde reparar as fosses carregadas de constipação sós parceiros que ali encontravam-se com a doença. Três já haviam partido, somente nestas situações os soldados adentravam os becos. Com uma pano,envolviam os corpos e partiam para jogá-los em local desconhecido, a sra. a sua frente que sempre por ali estava a encarou, também à tossir. Os olhos tristes pareciam querer dizer-lhe algo.
"Queres morrer?" Perguntou por fim. "Sou velha, sofri o suficiente nesta vida para creditar a esta doença minha única certeza de que não mais continuarei viva para sopesar mais de seus fardos. És jovem, tens sorte de alguém ainda lembrar de tua existência em meio a todos nós."
Exprimiu. Justine baixou o olhar levantando-se firmemente, por mais que lhe tremesse as pernas.
"Explique-me o que queres!"
Aaron demorou a lhe oferecer uma resposta.
"Precisas de um médico no momento. Conheço um que pode ajudá-la!"
Pronunciou com a sensação de humilhação permeando-lhe o corpo.
"Dou-lhe minha palavra. Consegues andar?"
"Obviamente!"
Disse arrastando os pés, centímetros de distância e sendo repentinamente tomada por uma tontura que a fizera titubear ridicularmente. Aaron preparou-se para ajudá-la, entretanto Justine o ordenou que paresse. Solicitou que Geraldine a acompanha-se a carruagem.
"Por que não vamos até o château do conde? O médico poderá atendê-la com mais conforto."
Disse Geraldine direcionando o olhar à Aaron para poder constatar sua feição, entretanto nada pôde perceber já que o rapaz direcionava pensativo olhar a janela, não importando-se ou fingindo não importar-se com Justine a seu lado.
"Não! Prefiro ir até hospital!"
"O que dizes conde?"
"Se assim deseja Justine, então o faremos!"
Pronunciou secamente.
***
Justine deitou-se sobre a maçã enquanto Aaron dialogava com um dos médicos. Percebeu que nunca havia deslocado-se até aquela luxuoso e as pessoas pareciam bem mais educadas que as que estava acostumada.
Após dias, era a primeira vez que descansava sobre algo suficientemente alcochoado para lhe causar boa sensação,as enfermeiras tocavam-lhe a testa vez ou outra para se certificarem de que estaria com temperatura regular. Cobriram-lhe com grosso lençól para resguardá-la do frio e colocaram sob sua cabeça
um macio travesseiro. Os pulmões estavam cheios e a tosse não dava tréguas. Era intensa, assim como as dores.
O cansaço venceu-lhe por fim, fazendo-a dormir de imediato.
***
A moça acordou-se assustada, os olhos perambularam pela sala, porém ao perceber Aaron, aquietaram-se retornando a postura carrancuda. O conde sentava-se sobre uma poltrona no canto, distante o máximo. Tinha nas mãos um livro, que interrompeu para encarar a enferma.
"Quanto tempo passei adormecida?"
O rapaz olhou no relógio de bolso.
"Contando com agora, cinco horas e vinte e cinco minutos."
"Tudo isto?" Assustou-se. "Quanto tempo estais aí?"
"Estou aqui desde que deixaste."
Proferiu, virando uma página do livro.
"Ficaste parado este tempo todo?"
"Não! Na verdade, para responder tua indagação não proferida, não a toquei. Fique tranquila."
Justine colocou-se por breves segundos. Fitou o teto enquanto escutava os ritimados baques que com os pés o conde sutilmente disferia contra chão.
"Onde esta Geraldine?"
"Ah, sua amiga?" Perguntou sem retirar do livro os olhos. "Paguei para que voltasse a sua casa. Ela disse-me algo referente ao desgosto de sua mãe, eu portanto à facilitei a vida."
"Ela não voltará?"
"É provável que não."
"Ora!"
Exclamou, apoiando-se com dificuldade sobre os cotovelos. Aaron desviou o olhar do livro celeramente.
"O que fazes? Deves descansar."
"Minha espada está lá! Irei buscá-la!"
"Não!" Disse apontando para um dos cantos do quarto próximo à porta. A espada jazia encapada sobre o chão. "Para quem preocupa-se com a própria arma, tu te esqueces bastante."
"Não faço por que quero!"
Justificou, deitando-se novamente, contrariada. "Quando a pegaste?"
Aaron estranhou o fato da moça estar lhe fazendo tantas perguntas, geralmente nem mesmo respondia as suas com empenho.
"A vi jogado o cabo, ajuntei-na e a enrolei por entre os panos, somente isto."
O silêncio perpetuou-se até que o conde fechasse o livro, fazendo repercutir um som abafado.
"Bem, já que acordaste, devo ir. Voltarei aqui ainda hoje se permitires."
"Não é necessário!"
"Muito bem! Portanto amanhã retornarei." Disse, levantando-se e deixando sobre a cômoda o livro. "Se quiser distair-se tens meu livro."
O conde saira, trancando vagarosamente a porta.
***
A postura de Aaron havia mudado e isto era perceptível a todos que por ele passassem. Estava mais altivo que nos dias passados e o humor se apresentava melhor, encontrava-se também mais receptivo com os que o abordavam.
Dirigiu-se imediatamente ao grand gabinet, tratar com o rei sobre o atraso. No entanto, o mau humor do monarca não atingiu em nada sua estabilidade.
"Queres justificar tamanho atraso com desculpas esfarrapadas? Acreditas ser capaz de convencer-me com isto?" Perguntou, jogando sobre a mesa a carta. "Explique-se!"
"O que escrevi é a verdade. Necessitava ir até Honfleur, tinha coisas a tratar."
"Sei bem quais coisas tinhas a tratar. Se continuares a trocar tuas obrigações por mulheres, podes dizer adeus a teu serviço. Percebes quanto desgosto estais a causar-me? Assim como à rainha?"
"Sim, peço desculpas. Fui inconsequente, entretanto tudo está se tornando bem melhor agora." Exprimiu. "Virei até Versalhes diariamente, não preocupe-se!"
"Já que dizes!" Luis cruzou as mãos para trás. "Sabes que precisamos de tua opinião para os acordos firmados. Solicito que por tua ausência nestes dias, elabores uma carta ao bispo, diga a ele que requiro sua presença ainda hoje em Versalhes para tratar de assuntos referentes às revoltas burguesas. Explane sobre todas as causas e efeitos que tu já deves ter analisado sobre este súbito mal que agora sofremos."
"Devo frisar que o desejo da burguesia é somente poder participar mais ativamente da política e obter mais liberdade econômica em seus ofícios? Creio ser necessário."
"Não! Desta forma estarás justificando seus atos, nos tirando a razão. Estes que tramam armadilhas contra a realeza nos subsolos franceses são inconsequentes, pessoas sem escrúpulos. Escreves com estas exatas palavras."
O conde refletiu por um momento enquanto nas mãos repousava a grafite.
"Perdão majestade, entretanto já vistes como sofrem os camponeses, trabalhadores e desempregados nos subúrbios de Paris? Situações de extrema miséria. Uma doença se alastra por entre os indigentes, matando aqueles que não possuem condições de tratamento."
"E o que tenho com isso? Não nos preocupemos com os que nada tem a oferecer ao estado. Isso é o que determina o clero e nós, a nobreza. Devemos estar alerta somente aos que pagam seus impostos corretamente."
"Depreendo que refere-se aos trabalhadores, camponeses e burgueses?"
"Sim!" Esqueça os miseráveis, eles nada tem."
"Gostaria que acatasse a possibilidade de uma rebelião, majestade. A fome é imensa, e quando muito se passa sem pão, pede-se!"
"Ora, não! Sem nexo tuas palavras desta vez, Byron! Que recursos tem eles para iniciar uma revolta?"
"Encontrariam recursos. Acredite majestade, a situação é muito pior do que possa imaginar!"
"Para quê o sustentariamos? Daríamos dinheiro aqueles que nada fazem, retirando dos que nos prestam serviços e ajudam para o crescimento do país?"
"Não! Entretanto se organizase-mos a distribuição de dotes que são repassados à sociedade, fazendo com que se tornassem mais justos. Impondo até mesmo ao clero que pagasse também, impostos assim como o terceiro estado."
"Propões que tiremos de nossos para satisfazer os anseios de toda população?" Perguntou retoricamente. "Devo admitir que é uma idéia muito bela, meu rapaz, porém é algo inviável. O clero jamais aceitaria pagar impostos e também não deve já que é a mais alta representação divina em meio à nossa sociedade. Não pagaremos nada aqueles que nada fazem. Agora, redijas a carta e envie ao bispo como te expliquei, não penses em tuas palavras demonstrar estes teus anceios revolucionários, pois serão, jamais voltarás a escrever para a realeza. Lembra-te que esta é tua chance de concercer-me de que ainda possuem condições de ser meu confidente."
"Tenhas certeza de que assim considero, majestade!"
Proferiu, retirando-se totalmente contrário as idéias do rei. Ao atravessar os corredores com rapidez, pôde reparar na farta mesa, repleta de monarcas já a deliciarem-se com os aperitivos saborosos. Sabia bem que nada do que dissesse à eles referente à situação que encontravam-se os outros fora do reino iria ser acatado. Lidava com pessoas inflexíveis ao extremo para que suas sugestões tivessem algum efeito.
Retirou-se, dando de encontro a Lefebvre que venha em sua direção, encanrando-o propositalmente de maneira cínica.
"Olá, amigo Byron! Permita-me cumprimenta-lo, pois não mais o vejo por aqui com frequência! Chega até mesmo ser raro." Pronunciou. "Como vai o trabalho, ou, deixe-me corrigir, suas mulheres?"
"Não estou disposto a considerar tuas insinuações, Lefebvre. Adeus!"
"Deverias mesmo desconsiderar as insinuações coletivas que disseminam-se como praga pela monarquia."
"Posso apostar que conheço o disseminador destes boatos."
"Oh, então já sabes? É ótimo que não te incomodes com as falácias, gesto grandioso! Diga-me a verdade, estais a ajudar uma criminosa?"
"A isso te referes? Que falta de criatividade! Ao contrário de desejarem saber sobre este caso, deveriam atentarem-se à situação dos súditos, que inclusive, pode causar-nos vastos problemas."
"Novamente desviando do assunto inicial com esta temática! Os súditos estão sob nosso controle."
"Acredito que seria mais adequado dizer que estão sobre nosso controle." Proferiu, inquieto. "Todos erram ao acreditar na submissão do terceiro estado, este é o grande equívoco que cometem. Se permanecerem a renegar a opinião da maioria, uma legião irá revoltar-se. Criarão uma república!"
"Devo dizer que és extremamente imaginativo, Byron! Afirmo que toda a realeza tem a mesma opinião. Vejo que andas subitamente engajado com a situação do povo estes últimos dias, talvez pelas visitas à, como chama-se mesmo? Justine! Sim Justine, lembro-me. Não é este o nome?"
"Quem lhe disse isto?"
"Ah, todos sabem! As notícias aqui espalham-se com muita rapidez, meu caro. Bem sabes! Inclusive, até mesmo a duquesa viera outro dia perguntar-me sobre a moça."
"Duquesa Josephine?"
"Sim!"
Aaron sentiu a urgente vontade de indaga-la com mais persistência, porém percebendo o que desejava Lefebvre, contentou-se com apenas a resposta sintética que dirigiu-lhe.
"Nada sei sobre isso!" Afirmou impacientemente. "Devo ir, adeus!"
***
Após passar horas a elaborar a carta ao bispo em fino papel e em caneta de pena, dispondo estritamente as palavras de forma a mostrarem-se o mais inteligíveis possível. Descansou, empalmando novamente o companheiro caderno que lhe oferecia o abrigo para os sentimentos e iniciando um silencioso desabafo.
"Não é exatamente estranho Lefebvre ter conhecimentos sobre Justine, na verdade o que mais me surpreende é perceber que também a duquesa procura informações relacionadas à Srta de Bealmont!
Talvez eu tenha sido desatento por não antes perceber que, por conta da rejeição de sua filha, Josephine partisse a procura dos boatos. Gostaria de saber quais perguntas fez à Lefebvre, de certo que isto me traria alívio em relação a algumas questões.
Sei que comporto-me de maneira equivocada ao pensar que algo causarão à Justine, entretanto esta é a indagação que domina minha mente neste momento.
Para ser mais exato, confesso que todos os últimos pensamentos que tenho estão relacionados à ela. É humilhante confessar, porém, tudo o que vem de Justine — e principalmente o fato de neste momento ela se encontrar finalmente tão próxima — desanuvia minha consciência de reflexões grosseiras, traz-me bem-estar. Deveria ser mais sensato e fazer com que isto pare antes que me cause decepções, e é isto que farei. Entretanto, não neste momento. Aguardarei que se vá, pois de certo não permanecerá naquele hospital por muito mais tempo. Talvez se estivesse em minha casa seria mais simples, porém este não foi seu desejo.
Tentarei permanecer distante, para poupar-me de decepções."
Escreveu, antes de deitar-se, por fim dormindo verdadeiramente após dias.
***
"Aqui está!" Pronunciou o conde, deixando a carta sobre a mesa do rei. "Tudo o que pedira, majestade aí coloquei! Se quiseres ler antes do envio.."
"Não! Confio em vós!" Disse em meio a um suspiro de cansaço. "Aaron, preocupo-me demasiadamente com a situação do reino. Irei conversar seriamente com o bispo sobre tudo o que nos acontece."
"Estais bem?"
Perguntou, enquanto o rei sentavasse na poltrona.
"Sim, por mais que encontre-me inquieto."
"A rainha? Onde está? A muito não a vejo!"
"Não permanece muito tempo neste andar, sabes bem! Prefere ficar na biblioteca, nos jardins e nos quartos com suas amas. Por vezes, sinto-me desamparado."
"Não estais!" Respondeu-lhe o rapaz, com voz cálida. "Tudo o que lhe digo é apenas um alerta, não significa necessariamente que todo o reino estará acabado, é somente um aviso. Penso no bem de tua família.."
"Ora, não fale assim, garoto! Sabes que és também da família. Sei que fazes para o bem, por conta disso, por vezes, prefiro tu para alertar-me que meu próprio conselheiro."
"Agradeço pelo gesto de confiança, majestade!"
"O que aconteceu com o 'tio' de quando eras criança?"
Aaron pareceu contrariado com a pergunta.
"Dissestes a mim que não mais o chamasse de 'tio' majestade!"
"Que bobagem! Não lembrava-me disto, bem esqueça-se desta cena sem sentido! Enviarei a carta ao mensageiro! Cuidas da infantaria, os soldados solicitam tua ida até lá! Provavelmente ficarás até a noite, já que há muitas coisas para se resolver."
"Majestade, não poderei ficar até a noite precisarei ir até um local..."
"Não! Terminará teus afazeres, não quero teus trabalhos acumulados desta forma!"
"Sim, majestade!"
Concordou com desagrado.
***
"Não comes a quanto tempo?"
Perguntou a enfermeira observando a forma selvagem com que Justine devorava o prato de sopa.
"Semanas, dias, não sei ao certo!"
"Tens certeza de que não são meses?"
"Não!"
Respondeu, levando a colher a boca com as mãos trêmulas.
"És a primeira indigente a ser atendida aqui."
"Não sou indigente! Sou uma espadachim!"
"Verdade?"
Perguntou a enfermeira, sorrindo singelamente.
"Não pense que não percebi este sorriso! Veja minha espada!" Disse, apontando ao canto na parede. "Já derrotei muitos com ela. Inclusive um dos soldados da infantaria!"
"Muito interessante! O fato é que o conde nos disse que vives pelas ruas, acreditamos logo que serias uma miserável. Não se ofenda com nosso pensamento equivocado, por favor!"
"Aaron é um estúpido!"
"Ora, se eu fosse tu não dirias isso! O conde é um homem muito altruísta, entretanto é a primeira vez que aqui vem com uma mulher."
"O que estão pensando?" Perguntou, irritada. "Não há nada entre nós. Por que todos pensam desta maneira?"
"Sim, desculpe!"
Justine fitou o prato já abaixo da metade, com expressão séria. Acreditou ser necessário exprimir uma dúvida que perdurava desde que acordara.
"Ele está aqui?"
"Não! Talvez venha hoje, talvez não! É um homem cheio de deveres."
"Poderias deixar-me sozinha?"
"Não! Devo confirmar que terminará toda a sopa. São ordens."
Justine irritava-se ao ter a mulher observando-a com serenidade. Terminou a sopa com rapidez, molhou
as mãos em uma pequena terrina de porcelana acima da banca.
"Onde posso tomar banho?"
"Venha!"
Disse a enfermeira, direcionando-se a Justine para ampara-la.
"Estou bem! É um enfado ter alguém ajudando-me a cada passo!"
"Escute Srta. Justine, quer ou não se livrar da doença?"
" Sim, evidentemente!"
"Portanto terás que aceitar a ajuda que lhe prestamos. Entendo que és durona, posso perceber, entretanto em caso de vida ou morte devemos deixar o orgulho de lado, não achas?"
"Não, não acho! Porém, aceitarei tua ajuda desta vez!"
Tomou rápido banho, rejeitando veementemente a ajuda da enfermeira que permaneceu externamente ao box. Justine desconfiava de que ela, por ser uma desconhecida, lhe causasse algum mal, possuía olhar desconfiado e isso logo percebeu. Pentiou os cabelos e vestiu-se com a bata padrão do hospital, por mais que lhe fosse desconfortável.
"Estais bem, posso ir?"
Perguntou-lhe a enfermeira com uma trouxa nas mãos.
"O que estais fazendo com minhas roupas?"
"Isto é para lavar! Estão extremamente sujas. Este é o procedimento com todos aqui."
"Traga minhas roupas de volta amanhã! Não desejo sair daqui com esta bata."
"Não tens outras roupas além dessas?"
"Haviam outras! Troquei por comida."
Disse, sentando-se pensativa. "Possuía um cavalo também, entretanto falar disso causa-me dor."
"Sim! Então, as trarei logo. Se precisar de algo, toque os sinos!"
Dirigiu um gesto aos pequenos sinos acima da maca e saiu, deixando-a finalmente sozinha. A tosse a atingiu por pouco não a fazendo esgargar-se, cuspiu sobre o chão, percebendo o tom avermelhado dos excrementos. Talvez o esforço lhe ferira a garganta.
Deitou-se exausta. Os ossos parecendo ser esmagados por um peso invisível. Sentia os pulmões dificultosos na respiração, as narinas congestionadas. Os lábios secos descascavam e na boca surgiam finas estruturas transparentes. Por mais que tudo isto pareça sintomas preocupantes, Justine melhorara consideravelmente desde o dia anterior. Principalmente o estômago deixara de sugar-lhe o abdômen sedento por comida. Os chás que lhe obrigavam a tomar eram realmente bons neste sentido, deixavam a desejar no sabor, mas este é um mero detalhe quando se trata de doenças.
Destinou o olhar à mesa ao lado da cama fitando o pequenino livro que permaneceu intocado desde que o dono lá o colocara. O pegou. Nada tinha a fazer. Não podia levantar-se e partir com a espada, era para ela a tortura perfeita. Leu o título.
"Inferno" Girou-o nas mãos para perceber o que havia na retaguarda, intrigada com o nome inicial. "Dante Alighieri."
Uma pequena sinopse lhe fora apresentada. Conseguiu ler sem problemas. Abriu, por fim.
A imagem de um homem pensativo e sério trajando vermelho e com ramos de oliveira nas laterais da cabeça estava registrada logo na primeira página com uma pequena introdução sobre o autor. Percebendo que as mãos tremiam, repousou o livro sobre as pernas apenas tocando levemente as páginas de forma a deixa-las no lugar. Continuou a ler até a madrugada daquele dia.
***
"Thérnadier!" Chamou-lhe Aaron da biblioteca. A governanta apressou-se levando nas mãos o bordado que fazia sem maiores preocupações. "Por que meus livros estão fora do lugar?"
"Não estavam bagunçados?"
"Jamais! Tenho uma ordem para eles, algumas características como a idade, a cor das folhas.."
"Ora, mas as cores são todas iguais, Sr. conde!"
"Não, Veja!" Disse folheando o livro que emanava forte cheiro de mofo "Esta enciclopédia possui folhas manchadas e amareladas, era da adolescência de meu pai. Já este..." Estendeu-se para alcançar um exemplar de Homero. "Possui folhas brancas e luminosas. A diferença é perceptível quando se há perícia. Não havia reparado antes esta prateleira. Não os tire do lugar novamente, por favor!"
"Perdão, Sr. conde! Acredito ser muito trabalho somente para esta minha cabeça!"
"Penso nisso todos os dias. Meu desejo é que agora tu desfrutes da vida. O que fizeste por mim já fora o suficiente até aqui."
"Não pense que é um fardo. Sabes que adoro trabalhar nesta casa, entretanto uma ou duas ajudantes seria agradável."
"Fale com alguém, use sua experiência para encontrar uma nova empregada e que seja suficientemente boa, pois pago bem!"
"Sim! Já tenho algumas. Conhece Lucy, filha de Delrico o padeiro?
"Não!"
"É uma ótima moça! Ajudou-me muito satisfatoriamente da última vez! Há também Michela, é mais velha, entretanto possui grande fôlego para os trabalhos."
"Tem filhos?"
"Acredito que não!"
"É melhor que não! Nem mesmo posso imaginar crianças a correr por esta casa e ainda terei que sustenta-los." Proferiu formando uma careta de escárnio. "Somente as duas?"
"Não, já estou pensando em várias possibilidades. Não preocupe-se, hoje mesmo trarei elas até vós!"
"Não, Thérnadier! Devo sair neste momento e é provável que demore."
Thérnadier desapontou-se.
"Oh, sim Sr. Conde! Amanhã então as apresento."
"Obrigada!"
Somente após este pronunciamento de Byron é que a governanta pôde perceber seus trajes. Estavam diferentes e muito cuidadosos para o trabalho, os cabelos penteados com precisão. Abriu a janela e o acompanhou partir com a carruagem, não seria novidade o encontro com mulheres, porém a desagradava imaginar quem.
***
Justine recebeu o prato de sopa fumegante, entretanto para ela, não havia problemas em queimar a língua. Comera com a mesma voracidade que no dia anterior.
"Coma com mais lentidão. Não me deixaste esfriar, Justine!"
Exclamou a enfermeira.
"Cale-se e me deixe comer! Já passaste fome?"
"Não, entretanto isto não é pretexto."
"Provavelmente pensas igual aquele tolo! Nunca viras um prato vazio na tua frente enquanto tua barriga ronca há três dias!"
Terminou de imediato. Os olhos lagrimavam pelo ardor da refeição.
"Voltarei para que tomes banho!"
"Não é necessário!"
"Sim, é! São normas, não saía da maca. Toque os sinos caso precise de algo."
A porta trancou-se em um suave baque. Justine inquietou-se. A inércia a deixava nervosa. Pusera os pés fora da maca, tocando o chão, acreditava ela tudo estar melhor, afinal não sentiu tonturas.
"Não deverias levantar-se desta forma! Ainda não recebestes alta!"
Disse o conde, figurando-se ao lado da moça.
"Volte para a maca!"
Justine gargalhou.
"Como podes impor algo desta forma? O que pensa que és? Somente por que estou com esta tosse e me encontro nesta situação deplorável, acreditas que irá tratar-me com autoridade? Não penses que meus pensamentos mudaram em relação a teu caráter!"
"Possuo certa autoridade sim! Paguei este que é um dos melhores locais de tratamento que pode haver em Paris e até mesmo na França e me tratas desta forma quando somente digo para voltares a maca?"
"Pois eu nada pedi! Tu fostes até mim. Jamais aceitarei algo de ti novamente! Sabia que farias isso do jeito que és, fui estúpida em aceitar!"
"E estaria morta neste momento provavelmente! Perdendo a chance de derrotar-me não é isso que queres tanto? Não estou aqui para debater! Terminarei de ler."
Disse por fim. Justine refletia, exasperada a beira da maca.
"Isto é sangue?"
Perguntou o conde agachando-se para olhar algo no chão.
"Feri minha garganta enquanto tossia! Não irias ler?"
"Tens certeza disto?"
"Vai ler! Não irias ler?"
"Irrito-me quando fazes isso!.
"Não estavam bagunçados?"
"Jamais! Tenho uma ordem para eles, algumas características como a idade, a cor das folhas.."
"Ora, mas as cores são todas iguais, Sr. conde!"
"Não, Veja!" Disse folheando o livro que emanava forte cheiro de mofo "Esta enciclopédia possui folhas manchadas e amareladas, era da adolescência de meu pai. Já este..." Estendeu-se para alcançar um exemplar de Homero. "Possui folhas brancas e luminosas. A diferença é perceptível quando se há perícia. Não havia reparado antes esta prateleira. Não os tire do lugar novamente, por favor!"
"Perdão, Sr. conde! Acredito ser muito trabalho somente para esta minha cabeça!"
"Penso nisso todos os dias. Meu desejo é que agora tu desfrutes da vida. O que fizeste por mim já fora o suficiente até aqui."
"Não pense que é um fardo. Sabes que adoro trabalhar nesta casa, entretanto uma ou duas ajudantes seria agradável."
"Fale com alguém, use sua experiência para encontrar uma nova empregada e que seja suficientemente boa, pois pago bem!"
"Sim! Já tenho algumas. Conhece Lucy, filha de Delrico o padeiro?
"Não!"
"É uma ótima moça! Ajudou-me muito satisfatoriamente da última vez! Há também Michela, é mais velha, entretanto possui grande fôlego para os trabalhos."
"Tem filhos?"
"Acredito que não!"
"É melhor que não! Nem mesmo posso imaginar crianças a correr por esta casa e ainda terei que sustenta-los." Proferiu formando uma careta de escárnio. "Somente as duas?"
"Não, já estou pensando em várias possibilidades. Não preocupe-se, hoje mesmo trarei elas até vós!"
"Não, Thérnadier! Devo sair neste momento e é provável que demore."
Thérnadier desapontou-se.
"Oh, sim Sr. Conde! Amanhã então as apresento."
"Obrigada!"
Somente após este pronunciamento de Byron é que a governanta pôde perceber seus trajes. Estavam diferentes e muito cuidadosos para o trabalho, os cabelos penteados com precisão. Abriu a janela e o acompanhou partir com a carruagem, não seria novidade o encontro com mulheres, porém a desagradava imaginar quem.
***
Justine recebeu o prato de sopa fumegante, entretanto para ela, não havia problemas em queimar a língua. Comera com a mesma voracidade que no dia anterior.
"Coma com mais lentidão. Não me deixaste esfriar, Justine!"
Exclamou a enfermeira.
"Cale-se e me deixe comer! Já passaste fome?"
"Não, entretanto isto não é pretexto."
"Provavelmente pensas igual aquele tolo! Nunca viras um prato vazio na tua frente enquanto tua barriga ronca há três dias!"
Terminou de imediato. Os olhos lagrimavam pelo ardor da refeição.
"Voltarei para que tomes banho!"
"Não é necessário!"
"Sim, é! São normas, não saía da maca. Toque os sinos caso precise de algo."
A porta trancou-se em um suave baque. Justine inquietou-se. A inércia a deixava nervosa. Pusera os pés fora da maca, tocando o chão, acreditava ela tudo estar melhor, afinal não sentiu tonturas.
"Não deverias levantar-se desta forma! Ainda não recebestes alta!"
Disse o conde, figurando-se ao lado da moça.
"Volte para a maca!"
Justine gargalhou.
"Como podes impor algo desta forma? O que pensa que és? Somente por que estou com esta tosse e me encontro nesta situação deplorável, acreditas que irá tratar-me com autoridade? Não penses que meus pensamentos mudaram em relação a teu caráter!"
"Possuo certa autoridade sim! Paguei este que é um dos melhores locais de tratamento que pode haver em Paris e até mesmo na França e me tratas desta forma quando somente digo para voltares a maca?"
"Pois eu nada pedi! Tu fostes até mim. Jamais aceitarei algo de ti novamente! Sabia que farias isso do jeito que és, fui estúpida em aceitar!"
"E estaria morta neste momento provavelmente! Perdendo a chance de derrotar-me não é isso que queres tanto? Não estou aqui para debater! Terminarei de ler."
Disse por fim. Justine refletia, exasperada a beira da maca.
"Isto é sangue?"
Perguntou o conde agachando-se para olhar algo no chão.
"Feri minha garganta enquanto tossia! Não irias ler?"
"Tens certeza disto?"
"Vai ler! Não irias ler?"
"Irrito-me quando fazes isso desconversa!"
"Irrito-me também quando ficas fazendo perguntas demais!"
"Portanto estamos equiparados!"
Disse, sentando-se sobre a poltrona de sempre.
"Leste meu livro!"
"Não! Por que leria isto?"
"Amassaste as folhas e as deixasse com as pontas para cima!" Exclamou sorrindo. "Gostaste?"
Justine demorou minutos que o conde aguardara pacientemente para oferecer uma resposta.
"É bom, talvez!"
"Sim é Alighieri! Sinto-me muito bem que tenhas lido, o trouxe para isto."
"Não havia mais nada a fazer! Nem mesmo posso tocar em minha espada!"
"Daqui a alguns dias. Descanse agora!"
Disse voltando a expressão séria de antes. Justine permaneceu na mesma posição, pensativa.
"Não poderei descansar sabendo que há pessoas assim como eu que morrem a cada minuto nos becos! Tens que fazer algo!"
"O que queres que eu faça?"
"Tire-os de lá!"
"Estais pedindo-me isto então? Teremos uma dívida."
"Não jamais! Ora, se for para ter dívidas contigo prefiro resolver sozinha!"
"Como? Doente do jeito que estais!"
"Não pense que ficarei aqui para sempre."
Disse, cobrindo-se com os lençóis.
"Por que paramos? É a primeira vez que temos uma conversa agradável, Justine!"
Disse, entretanto sem obter respostas. Seria melhor não perturbar aquela pouca pacificidade que ainda sobrara entre os dois.
***
Por volta do meio dia, Justine despertou, levantando-se sisuda. Adormecera sem intenção. O livro do conde estava na poltrona, entretanto, sem o dono. A moça tranquilizou-se já que Aaron não a perturbaria novamente com infindáveis indagações.
"Justine!" Disse ele, saindo do banheiro com olhar intrigado. Fora a pior visão daquele dia. "Pensava comigo que, acredito ser este o momento propício para que tu me respondas algumas questões. Se quiseres, evidentemente."
"Não quero!"
O conde sentou-se retirando o livro da poltrona e repousando-o sobre a banca.
"Voltamos então ao início! Tu inflexível e eu esforçando-me para arrancar de ti uma resposta. Sabes que só tens a mim. Seria ótimo tratar-me bem."
"Tenho meu pai. Tu não és nada!"
"Oh, sim! Teu pai, falemos dele portanto! Qual o seu nome?"
"Deixe-me, Aaron!"
Pronunciou fitando as paredes.
"Srta. Justine é a primeira vez que proferes meu nome. Estou verdadeiramente surpreso. Teu pai é também um espadachim, estou certo?"
"Tu não tens outras mulheres para perturbar?"
"Não!" Afirmou, cruzando as pernas. "Beaumont é também o sobrenome dele? Parece-me que este teu gênio é de família! Teu pai e meu pai juntos lutaram antes de nossos nascimentos."
"Ora, o que dizes?"
"Sim, palavras do rei. Foi por isto que veio até mim? Uma promessa a teu pai?"
"Queres saber demais!"
"Então é isto! Desconfiei desde nosso primeiro diálogo. É ótimo pensar que teu ódio tem estas origens."
"Se soubesses a raiva que sinto por ti não dirias isso desta forma."
"O que não é de todo algo ruim. Te tornas bela quando a raiva permeia tua feição."
"Se eu bem estivesse, tua bochecha estaria com uma marca!"
"Que coisa!" Disse, remexendo nas mãos o chapéu. "E tua mãe?"
"Não! Cale-se, cale-se! Não toque neste assunto."
Justine o destinou verdadeiro olhar de cólera.
"Por que ficas desta forma quando falo de tua família?"
"É extremamente inquietante ter que ouvir-te! Deixe-me! Não preciso deste hospital! Te repugno mais e mais a cada pronunciamento e a cada indagação que me diriges! Quanto mais minutos passas aqui, mais meu ódio por ti aumenta."
"Isto não é novidade para mim, Srta. Justine. Acostumei-me com este teu comportamento. Portanto, nada do que falares irá ter efeitos sobre meus pensamentos, definitivamente! Quem era ela?"
Um peso pareceu ter repousado sobre seu peito, subiu-lhe um nó na garganta, as pernas tornaram-se inquietas, as orelhas esquentaram.
Pensou ser tudo aquilo mera imaginação. Era mais fácil aceitar que não passava de sonhos, seria mais coerente entender que dialogava pacificamente com o assassino da mãe e que este a citava em suas palavras sem remorços, com imensa naturalidade. O mais absurdo para ela era perceber que o ódio que sentia pelo rapaz reduzia-se quanto mais o conhecia. Naturalmente Justine jamais em hipótese alguma exprimiria tal mudança, entretanto decepcionava-se consigo mesma por tamanho equívoco. Aaron não despertava em sua consciência a cólera, era agora alguém como os outros e isto assustava-a de maneira astronômica. Desejava distanciar-se o quanto antes, pois seria um grande desgosto para seu pai perceber os novos sentimentos que cultivava. Sentiu verdadeiro asco por si mesma, embrulhou-lhe o estômago admitir aquela possibilidade para si no momento. Restara a ela calar-se.
"Percebo que estais incomodada. Quando quiseres poderás responder."
Disse ele, levantando-se. "Perdão pela inconveniência!"
"Afaste-se!" Pronunciou Justine com um gesto. "Voltarei ao meu pai, livrarei-me de ti!"
"Como?"
Perguntou Aaron, o cenho franzido.
"Exatamente o que ouviste!"
"Não sairás daqui sem alta!"
"Pois justamente quando recebê-la, partirei! E nem penses em me deter!"
"Não irias comigo lutar?"
"Quem te disse que não! Posso retornar sorrateiramente."
"Seria injusto! Não é tu que pregas pela justiça?"
"O fato é que partirei."
"Não!" Afirmou. "Por que fazes isso? Tens que ficar! Não há condições..."
"Eu cuido de meu destino! Aceite!"
"Não compreendes o que fazes? Alimentas em mim achismos e os desfaz de uma hora para outra!"
"Pois este é um problema somente seu! Eu nada disse para ter este efeito."
"Talvez eu tenha sido equivocado, porém posso ver em teu olhar. Não costumo ser falho nestas constatações. Escondes de mim teus sentimentos, por medo?"
"Evidente que não! Estais muito errado. Pois desta vez falhaste!"
"Justine, não deves partir. Rogo-lhe!"
Os olhos da moça destinaram-se analiticamente a face do rapaz. As sobrancelhas franziam-se dando-lhe um ar penoso e os olhos arregalavam-se deixando evidente a íris dilatada. Justine jamais havia visto esta expressão em qualquer outro.
"Sinto muito!" Proferiu firmemente. "Faça estes sentimentos desaparecerem de tua mente."
O conde sorriu repousando as mãos na cintura.
"Falas como se bastasse uma ordem para que meu cérebro obedeça. Como se eu não houvesse já esforçado-me para fazer desaparecer de mim estes desejos."
"Quanto a isso não sei o que dizer."
"Sabes que lhe venero, Srta." — Disse com o olhar astuto a observar o balançar indeciso dos olhos de Justine. — "Não serei hipócrita, cansei de tentar, sem resultado enganar-me. Obriguei-me a acobertar meus sentimentos no intuito de esquecer todos esses pensamentos cabulosos que me perseguem..."
"Cale-se! Não diga isso! Estais confuso com teus próprios sentimentos. Somos rivais na espada, é imprudente se render um ao outro por coisas inexistentes e banais."
Aaron dirigiu-lhe olhar incrédulo, como se a moça o tivesse ferido com qualquer objeto cortante.
"Banal? É isso que tens a dizer? Como podes comparar algo tão sôfrego com algo irrelevante? Não posso acreditar que disseste isso! Abdiquei de meu orgulho para declarar-me a vós e é essa tua resposta?"
"Tu não me deixas pensar! Vens falar coisas incompreensiveis para mim. Não consigo imaginar algo para dizer-te!" Exclamou, levando as mãos a cabeça. "É melhor afastar-se! Como pode sentir algo que juras ser tão forte desta maneira? Não creio nisto. Se fizesses um esforço.."
"Esforço? Não compreendes verdadeiramente! Pois já esgotei minhas forças. Todas as possibilidades de negar meus sentimentos desapareceram. Tu deverias esforçar-se para entender. E parar de tratar-me da forma indiferente como me trata! Parar de fingir."
"Não finjo!"
"Se quiseres, podes continuar a negar a si mesma, entretanto sei a verdade!"
"Tu achas que sabe de tudo!"
"Portanto por que não matou-me antes? Diga-me!"
Disse aproximando-se de Justine grandemente.
"Saia de perto de mim! Não tem escrúpulos! Não o matei pois seria injusto!"
"Então se te der a espada neste momento me mataria? Não seria algo complicado. Irei pegá-la..."
"Não!"
Interrompeu-lhe, com certo desespero.
"Por que? Não somos rivais? Quem perderia a oportunidade de extinguir um inimigo? Ainda mais quando tanto se odeia?"
"Deixe-a onde está!" Aaron entretanto empalmou a espada, retirando-a vagarosamente da capa. "Não estais ouvindo, seu inconsequente!"
"Sim, escuto e aprecio o que dizes! Não protestes, afinal é algo sem importância, não?"
Justine levou a mão aos sinos, agarrando-os e os tocando com vontade. O conde a fitou, enquanto guardava a espada novamente na capa, a deixando no lugar.
"Muito bem!" Proferiu caminhando celeramente até ela, o olhar aceso. "Agora tente explicar a si mesma por que fizera isso! Não por ódio, tenha certeza!"
A enfermeira adentrou o quarto com olhar preocupado.
"O que houve? Estais precisando de algo?"
"A Srta. Justine gostaria de saber quando terá alta." Respondeu Aaron direcionando-se à porta. "E também, já esta na hora de dar-lhe os chás."
"Ora, dependendo de seu estado, amanhã, depois ou em outros dias, estarás livre novamente! Quanto aos remédios, irei buscá-los."
"Agradeço! Voltarei amanhã, por hoje é tudo! Passe bem!"
Disse, retirando-se. O som dos passos sumiam a medida que afastava-se.
"Estais bem?"
Perguntou a enfermeira, percebendo a feição distante de Justine.
"Não me faça perguntas!"
***
Tudo estava bem até o momento em que o rapaz pisara fora do edifício, parecendo na verdade estar saindo do próprio estado de negação.
A realidade fora dura com ele, reduzindo-o a um nível mínimo de felicidade.
Era um sentimento, disso tinha certeza. Mas qual? Esta pergunta não havia como responder no momento.
A máquina em seu peito que ultimamente vivia constante a bater ansiosa, naquele momento não estava diferente, pulsava ritimadamente em compassos mínimos, apertava-se e lhe fazia querer enterrar-se de uma vez. A mão suada segurava o livro, que pela capa lisa escorregava das mãos, entretanto ele de imediato o repunha. Os cabelos caiam-lhe nos olhos emaranhados. O olhar era vago, quase perdido.
Subira a carruagem, a mão oferecendo descanço a cabeça que apresentava uma feição melancólica.
"Que grande entrega, que estúpida entrega."
Pensava o conde, fitando o chão com ar derrotado. Derrotado por causa tão banal, tão particular de fracos e meros.
Perambulava os dedos por sobre a perna, observando o trânsito.
Justine o maltratava com perfeição. Seria para ele mais simples que a moça admitisse de uma vez que também compartilhava por ele certa afeição — embora ainda estivesse um tanto equivocado quanto a isto. — que constantemente desviar o olhar na tentativa de não encara-lo diretamente.
Seria realmente muito bom à sua consciência se ela assim o fizesse desde o princípio, quando o envolvimento ainda nascia. Porém, já aquela altura não surtiria efeitos.
A moça na verdade o havia conquistado e irritava-o esta afirmação, pois não haviam motivos concretos para o fato. Talvez a personalidade, a beleza peculiar ou até mesmo o modo de trata-lo (que lhe era, digasse de passagem, demasiado estranho) o levara ao estado de extrema cobiça que se encontrava.
***
Confusão.
Esta era a situação da mente de Justine. O corpo estava tranquilo, extremamente diferente dos pensamentos, que surgiam e perpetuavam-se em uma sucessão ilógica de indagações confusas e desagradáveis.
Definitivamente não reconhecia seus atos que mostravam-se totalmente diferentes de antes. Eram agora benevolentes e irritantemente brandos com o conde. Ainda que desejasse, não mais era possível retornar ao mesmo ódio que sentira inicialmente, o que para ela seria como a perfeita derrota.
Seria prudente retornar à Rochelle, pois ao menos lá poderia esquecer daqueles episódios que somente lhe traziam desgostos.
Seria impossível voltar sem o cavalo, a não ser que acatasse a possibilidade de caminhar até a vila ou talvez roubar um cavalo, pois carruagem seria algo inviável para seu bolso. As tosses reduziram de intensidade e Justine felicitou-se imensamente com este fato, apenas as dores permaneciam, porém não mais tão importantes como nos dias passados, poderia agora executar passos completos sem que tudo a seu redor girasse acentuadamente.
Começou a preparar uma pequenina trouxa com os lençóis. A roupa havia sido devolvida, Justine pôde identificar o agradável odor de flores jamais antes em seus trajes. Planejou levar o prato de sopa que receberia, pois de certo que a fome se iria se manifestar.
A noite se aproximava Justine saiu da cama e caminhou, ainda com certa dificuldade até a espada a agarrando, agachada sobre o chão, os olhos apertados. Era astronômico o sentimento de fracasso. Nada poderia fazer ao inimigo, pois não mais desta forma o considerava. Permitiu-se fitar o entardecer, recostada sobre a parede, o olhar vazio de quem tem os planos frustrados.
***
Naquela noite, no chatêau do duque, o casal reunira-se a mesa de jantar. As três empregadas os serviram sobre tão extremo silêncio que era facilmente perceptível à todos o coaxar dos sapos intercalando-se irritantemente. Haviam cachos de belas uvas à ultrapassarem as barreiras da fruteira, suco em jarras de porcelana e o fumegante prato de pernil de cordeiro que a duquesa muito apreciava.
"É ótimo ter este jantar finalmente, querido!" Disse, colocando o lenço sobre as pernas. "O prato favorito de Madeleine."
"Espero que ela esteja comendo lá tão bem quanto come aqui!" Pronunciou o duque, dispersando as serviçais com um gesto.
"Mas é claro que sim! Minha irmã sempre a tratou como filha, bem sabes disso. Disse que o mais rápido possível Madeleine estará escrevendo uma carta para nos informar os acontecimentos."
"Quando te comunicaste com ela?"
"Ora, não sabes? Recebi de Bernadette uma carta a dois dias. Te limitas tanto a estes jornais e ao trabalho que nem mesmo consegue perceber o mundo a teu redor."
"Muito pelo contrário!" Afirmou, levando o cubo de carne espetado pelo garfo à boca. "Estou muito atento. Então está é a razão pela qual saíste estes últimos dias? Ou para ser mais exato, toda a semana? Sentirei-me bastante aliviado se for este o motivo."
Sra. Josephine, repousou os talheres sobre o prato, fitando-o ligeiramente ofendida.
"O que insinuas Louis?"
"Não, não insinuo nada! Apenas estou curioso para saber o que fazes todos os dias quando pegas a carruagem e some durante horas. Não tenho o direito de saber?"
"Sim, tens! Porém não penses que a ironia em tuas palavras me passou despercebida." Proferiu, limpando a garganta elegantemente. "Fui até o alfaiate fazer o concerto de meu antigo Hábito."
"Os trajes de freira?" Riu o duque. "Ora, para quê? Não era tu que dizias não querer ligações com teu passado de noviça? Diz que fora tua melhor decisão."
"Louis não comporte-se como tolo! É evidente que não voltarei a ser freira, entretanto quis reparar os trajes. Naturalmente, após vinte e três anos, não é de se esperar que esteja em boas condições. Parte do véu encontrava-se já corroído pelas traças e o cheiro de mofo me fizera espirrar desde o momento em que daqui saí!"
"Se tivesses avisado-me teria levado para ti! Queres manter segredo, é desta forma que acaba!"
"Não seria interessante esperar durante tantas horas e os ajustes são extremamente minimalistas. Tornaria-se um suplício para teu gênio."
"Faria de bom grado. Aguardo Madeleine escolher as próprias roupas, não seria complicado esperar pelo conserto de um simples traje."
"Estais sendo exagerado!"
Pronunciou a duquesa, sorrindo animadamente. As luzes das velas realçavam seus contornos, deixando-os mais perceptíveis pela formação das sombras. "Acreditas que conde Byron perceberá a falta de Madeleine?"
Duque Louis deu de ombros.
"De qualquer forma ele sabe que nossa filha está em Londres."
"Ora, contou a ele? Não deverias fazer isto!"
"Aaron veio até aqui retratar-se conosco, não faria joguinhos como vós fazes! Decidi informar-lhe de uma vez. Estas coisas me exaurem."
"Bem, entretanto se tivesses ao menos refletido sobre o que seria prudente ou não fazer..."
"Prudente? Tudo o que para ti é prudente, Josephine é a tua própria opinião, esta é a realidade. E afinal, Aaron nem mesmo ama Madeleine, não há por que fazer estas encenações."
A duquesa bebera um gole, com olhar fixo no nada.
"Sim, sei sobre isso! É um desgosto ter que encarar estes fatos! Desde a infância, estava tudo premeditado. Acabaria de modo perfeito se caso ele não fizesse o contrário!"
"Que assunto é este agora? Nada havia sido confirmado, bem sabes! O conde e a condessa Byron apenas foram coniventes com as tuas imposições, (e ainda de maneira superficial, digasse de passagem). Aaron e Madeleine possuíam apenas seis anos!"
"Estais então por esquecer-se do pronunciamento do rei. Quando a majestade algo diz, deve-se cumprir de imediato!"
"Aquele pronunciamento nada mais foi que uma brincadeira, querida! Acreditei que tinhas percebido! Não era tu que desprezava-o com todas as forças, exclamando que o conde não deveria nem mesmo se aproximar de Madeleine, e tudo o mais? O que houve com tua resolução?"
"Permanece intacta quanto a seu caráter, porém mudara drasticamente quando resolvi acatar o poder que tem este homem e seus dotes! Seria magnífico um membro deste na família, até mesmo Bernadette por ele possuí favoritismo. Já imaginastes? Quase oitocentos écus mensais! Dois chatêaus, duas carruagens! Que futuro imensamente reluzente teria nossa filha ao seu lado! Tu nem mesmo precisaria continuar a trabalhar, Louis!"
"Ora, sabes que ganhamos mais! Para que casar os dois se ainda podemos sustentá-la?"
"Temos mais pois estamos juntos! Agora perceba que sozinho o conde arrecada tudo isto! Penses o que aconteceria se juntassemos nossos dotes? Seríamos os mais ricos da França depois do rei! Nos tornariamos imponentes. Não é maravilhoso?"
O Duque limpou os lábios tocando o lenço sobre os cantos da boca tranquilamente.
"Um sonho dantesco minha querida, um sonho dantesco! Não alimente a alma com estas alusões sem fundamentos! Aaron não se casará com Madeleine, esta é a realidade desagradável! Ele por outra apoixonou-se, correm boatos no reino. De certa forma, não mentirei que sinto-me um tanto feliz por isto."
"O que dizes Louis? Feliz? Este é um fato para por-se de luto!"
Exclamou, indignada.
"No que diz respeito à felicidade do conde, não! Após todos estes desastres de família. É ótimo ter alguém para apoiar-se as vezes, e esta tarefa somente deve ser atribuída a quem verdadeiramente se sente afeição."
"Sim, mas não com uma mendiga!" Exasperou-se. "Será uma humilhação tremenda à Madeleine! Os boatos se perpetuarão até que alguém do mesmo nível que o conde lhe venha pedir a mão! Será muito para ela."
"Nada que o tempo não possa ajuda-la a superar. Madeleine é forte, embora não pareça! Estaremos ao seu lado e, bela do jeito que é sua solteirice não se estenderá por longos dias. Conseguiste esqueçer o celibato sendo tão devota como eras!"
"O fato de não mais estar no celibato, de nenhuma maneira quer dizer que esqueci inteiramente minha fé, Louis!" Exclamou, levando as mãos à testa. "Oh, que grande problema temos agora!"
"Esperemos, Josephine!" Dise-lhe tocando calidamente as mãos da duquesa. "Agora terminemos nosso jantar!"
***
Assim que pisara o conde no suntuoso piso do chatêau, o desânimo lhe envolveu sem polidez. Jogou-se, quase desfalecido sobre — naturalmente — a poltrona que afundou com o peso. Retirou os sapatos, o casaco com uma brutalidade jamais Vista. Soltou os cabelos, e recostou-se, escorregando levemente sobre o liso tecido.
Pela abertura da janela adentrava uma brisa fresca e rarefeita fazendo tremular as cortinas alvas, envolvendo-o o rosto, fazendo-lhe arder os olhos já desagradavelmente marejados.
As mãos buscaram no bolso do casaco papel e grafite e logo após repousaram durante breves segundos, pois a partir do momento que o rapaz iniciara a escrita, não mais fora capaz de pará-la, nem mesmo para refletir quais seriam as próximas frases a serem formuladas. As articulações dançavam sobre a folha, que amassava-se quanto mais escrevia. Os dedos apertavam o fino lápis, que por um milagre não partia-se ao meio tamanha era a intensidade com que redigia cada palavra, parecendo mais estar disferindo golpes contra uma parede. Nem mesmo a caligrafia poderia ser considerada sua, tamanho era o descuido que tinha para com a elaboração do texto.
"Me surpreende a capacidade desta moça de se manter indiferente e fria perante meus sentimentos, embora tenha a certeza (certeza absoluta!) que tudo não passa de um fingimento sem escrúpulos. Não tenho com quem desabafar tamanho desespero.
Não um desespero melindroso de morte — graças ao embate que ela teima em comigo travar — até porque sei que esta espreita a qualquer um. Porém meu medo é inteiro da perda. Perder, sem nunca ter tido, esse é meu medo.
Talvez, ou certamente, tenha errado em diversos aspectos. Este meu modo imprudente e orgulhoso de ser já rendeu-me diversas desventuras. De toda maneira, não escondo quando amo e gostaria que houvesse mais reciprocidade de quem amo.
Certamente, Platão estava correto em suas constatações. O amor é o desejo de se ter, que quando suprido, se esvaece e não volta a ser o que era. Tenho um desejo crescente de ter tudo o que admiro, esse é meu imensurável erro. Minha inconformidade perante a negação é tamanha, que fecho-me entre pensamentos obscuros, como forma de reverter a inegável realidade. Ainda assim, meus esforços desta vez surtiram efeito nenhum e agora martirizo-me por ser tão fraco e tão irresistível a esses desejos demoníacos.
Escrevo para desabafar e acalmar minh'alma perturbada. Entretanto, ainda declino-me até o mais baixo nível de estima. E posso dizer, verdadeiramente que não mais vejo júbilos na vida..."
"Sr Conde!"
Chamou-lhe Thérnadier, surgindo repentinamente ao seu lado. A voz estava trêmula, entretanto Aaron não dirigiu olhares à governanta, permaneceu estático, fitando o firmamento salpicado de pequeninas estrelas. Nem aquela tenra imagem poderia o agradar diante da confusão mental que se disseminava por sua mente. "Estais bem?"
Aaron tardou a falar.
"Sim, mas gostaria de ficar sozinho no momento!"
A governanta destinou rápido olhar ao papel nas mãos do rapaz, já desconfiando do pivor de toda aquela cena.
"Deixa-lo-ei de imediato, Sr. Conde! Porém, devo informar-lhe que uma moça viera aqui a sua procura hoje mais cedo assim que saíste. Larissa era o nome dela. Pediu-me que lhe entregasse esta carta! Acreditei ser demasiado estranho, entretanto aqui está."
"Queime!" Disse ele sem mexer-se um centímetro. "Jogue fora, rasgue. Faça o que quiser com isto."
"Deixarei sobre esta mesa, o que fazer com ela não cabe a mim."
Respondeu Sr. Thérnadier, suspirando pesadamente.
"Faça o que mandei!"
Impôs, lhe destinando olhar inquisidor que a assustou.
"Sr. Byron! Posso perceber que estais com problemas, todavia, exijo que me trate de maneira respeitosa, pois nenhum erro cometi." Proferiu, em tom de indignação. "E além do mais não sou culpada por estas tuas paixões que aparecem e desaparecem te causando problemas."
"Tens razão, tens razão! Equivoquei-me." Admitiu o rapaz, porém de maneira distante. "Deixe a carta!"
Sra. Thérnadier sem nem mais uma palavra proferir, depositou o envelope sobre a bancada, partindo em seguida, tão silenciosamente que nem mesmo podia-se perceber o som de seus tamancos sobre o piso.
Aaron, já impaciente abriu a carta, encontrava-se tão disperso que fora preciso concentrar-se para compreender a mensagem.
Uma letra cuidadosa compunha o pequeno texto, assim como o doce perfume de Larissa que exalava do papel, permeando de forma desagradável as narinas de Byron.
"Querido!
(Ainda é possível assim lhe chamar?) não escreverei tanto para não esgota-lo. Gostaria somente de avisar-lhe — como já deves ter percebido — que estou em Paris!
Consegui aqui um emprego diferente.
Como chama-se aquela moça?
Justine, estou certa?
Poderei visitá-la o mais breve possível!
De sua amiga, Larissa."
Aaron fitou a carta durante longos vinte minutos. Lendo e relendo as palavras, a fim de retirar dali as informações relevantes. Criando já na mente milhares de suposições do que queria Larissa com a nota enigmática. Por fim, acabou por amassá-la com uma só mão, jogando-a longe. Prometera a si mesmo, que não mais encheria a cabeça com "Justines".
***
Às quatro da manhã, com a alvorada ainda de maneira sutil a permear o horizonte, Justine encontrava-se prostada, recostada sobre a janela, a contemplar friamente o passar dos minutos. Havia um tique-taque incessante do cuco no lado externo ao quarto que só era possível ouvir no momento, pois a porta encontrava-se entre-aberta. O ritimo a fazia querer tampar os ouvidos. Abriu a janela, não a escancarando, mas o suficiente para ao menos ser possível escutar o zunido do vento a adentrar a fresta e os sapos e rãs a coaxar nos aredores do hospital. Encostou o rosto, espremendo-o contra o vidro, deixando para fora apenas o nariz e parte dos lábios. Observou o caminho que levava para fora do edifício. Uma idéia de fuga lhe ocorrera. Tossiu, colocando novamente sangue para fora. Não seria prudente caminhar até Rochelle no estado que se encontrava. Considerava que não lhe custaria esperar mais a metade de um dia, pois certamente, já pela tarde receberia autorização para a saída.
Fitou a vela que flamejava candente a seu lado.
A sensação de solidão lhe envolveu de maneira misteriosa, silente. Fora a primeira sensação como aquela que tivera na vida. O quarto, repentinamente tornou-se grande demais. Permitiu-se remoer isto, pois não era algo que lhe ocorria todos os dias. Imaginou que até mesmo se Byron ali estivesse, importunando-a com seus olhares inconvenientes, ela o permitiria ficar, porém sem que este algo dissesse. Somente o queria sentado a poltrona, nada mais.
Fechou a janela com um baque. Assustou-se com tamanho pensamento que lhe ocorrera de maneira tão distraída. Jogou-se sobre a maca e, de peito para cima, terminara a noite a encarar o teto. Pensando que a melhor companhia seria a do pai, que aguardava com ansiosidade seu retorno à Rochelle.
***
A noite fora curta. Sem que fosse possivel à Justine descanssar a agitação mental. A enfermeira veio chamar-lhe já pela última vez, pois sabia Justine ser aquele o dia de sua partida. A moça adentrou o quarto com mesmo olhar plácido de sempre. Iniciando o diálogo com a mesma pergunta.
"Estais bem?"
Entregou-lhe o prato de sopa agora parecendo diferente em aparência do que Justine estava habituada.
"O que é isto?"
"Uma canja. Por decisão nossa, resolvemos oferecer este prato aos que já podemos considerar ligeiramente recuperados."
"O que quer dizer com 'ligeiramente'?"
Perguntou deixando a comida intacta.
"Não estou recuperada?"
"É o que dirá o médico, não eu."
"E quando ele vem? Devo sair daqui o mais rápido possível, de preferência antes da chegada do conde."
"Ah, isso não será possível. É necessário que o responsável por ti aqui esteja."
"Responsável? Acredito ter havido um enorme engano! Aaron não é o responsável por mim."
"Bem, mas vemos pelo ponto de vista de quem nos paga. É este fato que temos como critério."
Justine não pôde protestar desta vez, pois a lógica era certa. Perguntou a enfermeira se era possível guardar o prato para a longa viajem que faria, embrulhou-o com destreza e rapidez, colocando já os pés para fora, perambulando pelo quarto. Banhou-se, vestiu-se, escovou os finos cabelos sem nenhuma animação e com tamanha brutalidade que fora preciso oferecer-se a enfermeira para a ajuda. Não tardou até que o conde chegasse, porém permanecendo externamente ao quarto. Justine não tivera o ânimo de com ele dialogar mais uma vez, pois era provável que tudo novamente terminasse em enorme e desagradável discussão. Pensava o conde da mesma forma.
Por fim, chegara Dr. Gaspard, com feliz olhar. Era baixo e roliço, possuía um óculos oval que constantemente escorregava pelo nariz, entretanto o olhar passava confiança.
Somente desta maneira para que Byron adentrasse a sala, com ar ligeiramente desconfiado. As mãos entrelaçadas estavam para trás, e os passos que dava pareciam calculados. Permaneceu próximo a porta como que desejando logo partir. Justine o encarou por curto tempo enquanto Gaspard algo dizia sobre sua saúde. O conde não retribuiu-lhe o gesto.
"Sente dores, tosses ou percebes outros sintomas?"
"Não!"
"Ora então, se estais sendo sincera, podemos libera-la sem problemas. O que achas conde?"
Perguntou Gaspard, tocando a pena em tinta e assinando o papel amarelado que serviria como atestado à Justine.
"O que decretares, estará certo."
Respondeu Aaron, dirigindo a Gaspard um sorriso que Justine pensou ser sincero. O médico entregou à ela o pedaço de papel, com uma assinatura que para a moça seria muito enrolada.
"Poderás ir! Entretanto, não esqueças dos cuidados necessários a serem tomados com tua saúde. Lhe digo que tiveste sorte, pois se caso não viesses a tempo, de certo que não resistiria. É sempre melhor tratar uma doença no início."
Justine respondeu com um balanço afirmativo de cabeça, já pegando do chão a espada e a trouxa decadentemente elaborada com lençóis usados cedidos pelo hospital. Transpassou todos da sala, sem nenhuma palavra dizer.
Caminhou celeramente pelos corredores, com passos rápidos, quase escorregadios. Agarrava a bolsa de panos colada ao corpo. O desejo de sair de Paris era tão imensamente grande, que nem mesmo atentou-se aos olhares alheios. Tomou a saída, correndo até os limites da cidade. A passos largos e atentos, esforçou-se para esquecer o tormento que se iniciava novamente em sua consciência. Jamais novamente veria Jean Batiste ou Geraldine. Não lhes agradeceria pela bondade, não mais veria Aaron.
Apertou cada vez mais o passo.
Tivera o cavalo retirado de sua posse, retornava derrotada e humilhada. Arrepiou-lhe a espinha imaginar a reação do pai diante de tamanha tolice de sua parte. Se ele a quisesse punir, permitiria, pois até mesmo ela pensava em jogar-se de qualquer abismo. O ódio lhe permeou o corpo como chamas. O rosto adquiriu uma coloração rubra. O cabelo colava-se ao suor que escorria-lhe sobre a face.
Não cessou a corrida até ter a certeza de que encontrava-se distante o suficiente da cidade, que ninguém a poderia seguir.
A estrada era de chão, ainda larga. A poeira levantava-se com a ventania que vez ou outra varria a terra, parecendo disferir-lhe tapas. Viu o quão era diferente a caminhada da cavalgada, os pés enchiam-se de terra, mesmo protegidos pelos sapatos e por mais que o clima Francês naquele momento encontrava-se sutilmente gélido, o vestido que levava ao corpo jazia encharcado. O vento lhe soprava no pescoço secando-lhe as gotas de suor.
***
Todo o trajeto, da maneira que percorria Justine duraria, no mínimo, quatro horas até a chegada em Rochelle e obviamente que todo este tempo passaria caminhando. Decidiu sentar-se a beira da estrada, que agora encurtara-se bastante. Haviam mais pedregulhos e menos poeira, ainda que o vento permanecesse incessante. Passava-se já uma hora de caminhada. A moça imaginou que seria ótimo se houvessem atalhos, o que deveria realmente existir por aqueles arredores, porém não arriscaria-se buscando-os, tinha conhecimento, por experiência própria, o quanto isto seria perigoso.
A fome já manifestava-se, entretanto, pensou Justine, a comida lhe traria sede. Por mais que fosse prudente, acabou por ignorar este pensamento, desenrolando dos panos o recipiente que para sua felicidade, ainda encontrava-se morno e devorando a refeição de uma vez.
Ouvira o trotar de cavalo grande a aproximar-se pela estrada. Uma idéia lhe ocorreu e enfiando-se por entre o matagal, ajoelhou-se em estratégica posição, limpou as mãos de qualquer modo e retirou da capa a espada. Esperou a aproximação do cavaleiro pacientemente.
"Ahá!"
Gritou enfiando-se frente ao alazão para que este não batesse em disparada. O olhar assustado do homem arregalou-se, enquanto agarrava fortemente as rédeas, ligeiramente melindroso. Levava a espada também guardada a cintura para a surpresa da moça, entretanto de maneira alguma a afetando.
"Desce do alazão e me entregas!"
"Quem és tu para isto me impor?"
Indagou-a de forma desafiadora, retirando da bainha também a espada de ferro. Era um homem já de certa idade, com olhar sagaz e traços extremamente finos o que lhe dava certo ar cadavérico. Parecia deter também a arte da esgrima. Sobre o cavalo haviam dois recipientes pendendo das laterais. Imaginou Justine, serem encomendas.
"Para onde te destinas?"
Perguntou ela.
"Até Rochelle! Para quê queres saber?"
"Nada farei a ti se somente me levares até a vila."
Disse-lhe a moça. O homem baixou a espada, com cínico sorriso estampado-se no rosto, evidenciando a precária dentição.
"Farei!" Exclamou. "Entretanto tu terás que pagar-me."
Imaginou, pelo olhar que lhe dirigia o desagradável homem de que forma pretendia receber o terrível pagamento. Revirou-lhe o estômago a possibilidade, entretanto pensando analiticamente, Justine sorriu-lhe docemente.
"Se assim pretendes!"
Os olhos do homem tornaram-se surpresos com a aceitação improvável da moça, considerando-a bela demais para se prestar a tamanhos serviços.
Os dois caminharam até meio metro floresta a dentro.
"Deixe aqui a espada! Não confio em mulheres como tu."
Impôs, com excesso de autoridade repentino. Justine jogou a arma sobre o chão.
"Deixa também tua espada!"
Disse-lhe. O homem obedeceu sem protestos aproximando-se da moça precipitadamente, agarrando o vazio. Justine socou-lhe um olho, trazendo-o a sensação de ossos fraturados, não que jamais houvesse levado um soco, porém aquele havia sido milimetricamente ensaiado. Disferido com os ossos pontudos dos dois primeiros dedos, indicador e médio em área estratégica, certeiramente sobre o globo ocular e acertando em conjunto parte do supercílio de onde originava-se um filete de sangue. Sem dar-se conta da velocidade dos movimentos da moça e ainda cambaleante, fora agarrado brutamente pelos ombros, recebendo três joelhadas sobre o estômago e após, sendo jogado impiedosamente sobre o chão.
Justine chutou-lhe a genitália — apenas para garantir que ali passaria tempo suficiente para uma fuga adequada — e partiu, levando consigo duas espadas e o cavalo.
Cavalgou incessantemente até encontar-se a uma distancia considerável. Pressentia o ligeiro sentimento de mal-estar que a importunava pelo ato que cometera como verdadeira delinquente, entretanto não havia o que fazer sobre isto.
O novo animal de início, mostrou-se um tanto arisco, todavia Justine fora capaz de fazê-lo submisso durante todo o trajeto, segurando as rédeas com rigidez incomparável.
Passaram-se duas horas até que finalmente pisasse nas proximidades de Rochelle, já pela tarde, onde mesmo sendo horário típico de sol, era na França momento de frialdade.
Finalmente avistou ao longe a vila intacta em aparência. Esforçou-se para ignorar lembranças que a desagradariam. Direcionou-se ao local mais remoto do lugar, onde se encontrava a solitária casa em meio a um terreno de árvores secas. Percebeu, para imenso desgosto os pinheiros aos troncos e o casebre em estado degradante, indagou como era possível sofrer o local mudanças tão expressivas durante o pouco tempo que passou distante. No chão encontravam-se velhas folhas, estalando sob seus passos. Enlaçou firmemente o cavalo por entre um dos troncos e caminhou até a porta que parecia ser a única coisa intacta do local. Uma velha camponesa a observava ao longe, com olhar desconfiado, Justine a encarou até que a mulher desviasse, desaparecendo por completo, num andar sem pressa.
Bateu de punhos fechados sobre a madeira, entretanto não foram necessários maiores esforços já que aparentemente a porta havia sido destrancada ou encontrava-se aberta mesmo antes de sua chegada. Um ar gélido que originava-se de dentro a envolveu, causando-lhe súbito arrepio.
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