Attack on: Flügel der Freiheit
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Notas iniciais

(...)
Nos dias que se seguiram, Armin e Mikasa tentaram, sem sucesso, visitar Eren.
Hange havia sido clara: ele permaneceria isolado, preso por deserção, até o julgamento do alto comando.
— Mais que droga! — o som seco dos punhos de Mikasa contra a madeira, deformando levemente a superfície, cortou o ar. — Por que não podemos vê-lo, Armin?
— Não adianta questionar a decisão da Hange… a menos que queira ser a próxima a ficar presa.
Armin respirava devagar, quase como um sopro, tentando segurar a irritação. Os olhos permaneciam fixos nas longas vidraças que davam para o portão do QG da Tropa de Exploração, no centro da capital.
— Ele é… — Mikasa começou.
— Já sei. É sua família. — cortou, mais ríspido do que pretendia.
— Armin… — o nome saiu baixo, quase como um pedido.
Ele finalmente se virou para encará-la. — Desculpa, Mikasa. Eu só… — soltou o ar, um som entre o suspiro e a bufada. Os braços inquietos, os ombros girando como quem tenta expulsar um peso preso na carne. — Sei lá… tô exausto. Faz meses que a gente vive em função do Eren. Aliás… desde que entramos na academia, a gente já viveu algo que não fosse por causa dele?
As palavras eram como lâminas do DMT: não cortavam carne, mas atravessavam o espírito. Quando foi, afinal, a última vez que puderam ser apenas… eles mesmos?
Mikasa desviou o olhar. Do corredor, a voz animada de uma recruta ecoou:
— "Deixa de ser tão dura! Um pouco de alegria não faz mal!"
A frase cravou-se nela como um punhal. As mesmas palavras. Décadas atrás, História, ainda sob o manto de Christa, lhe segurando o pulso com força surpreendente. Do outro lado da porta da taverna, Ymir reclinada na cadeira, Sasha já devorando os aperitivos, e Annie, de braços cruzados, mas presente.
Uma noite de garotas.
Nunca fora fã daquelas trivialidades. Perda de tempo, pensara. Mas naquela véspera de formatura, quando todas se dispersariam para seus esquadrões, algo inesperado apertara-lhe o peito: a vontade de ouvir histórias que não fossem sobre morte. De rir sem culpa.
Eren soubera. Sempre sabia.
— "Você está acima disso", dissera, os olhos verdes queimando com familiar desdém. "Meninas fracas brincam de confidências. Você luta."
Mikasa argumentara — citara os rankings, a habilidade delas — mas conhecia aquele tom. Era o mesmo que precedera cada "não" em sua vida. E, como sempre, recuara.
Agora, anos depois, o eco daquela recusa latejava em seu esterno, mais nítido que o riso das recrutas. Algo tão simples. Algo que ela deixara escorrer entre os dedos.
Depois veio o ataque a Trost. As missões da Exploração. A descoberta sobre Annie. A guerra civil. Os guerreiros de Marley. A ilha. Nunca mais houve tempo para festas, noites ou risos. O clima de guerra e morte nunca deixou de cercá-la.
— Sabe, Armin… — a voz dela vacilou, mas o suficiente para prendê-lo. — Eu nunca… — as bochechas coraram com a confissão — nunca tive uma noite de meninas, sabia?
— Hã? — Armin piscou, incrédulo. — Mas… Mikasa, e aquela noite, quando éramos cadetes?
— Eren. — ela soltou o ar, pesado. — Achou que era besteira… e eu ouvi.
O silêncio caiu entre os dois. Mikasa virou o rosto, incapaz de encará-lo. Ele provavelmente acharia ridículo pensar nisso agora, no meio de tudo.
— Entendo. — limitou-se a dizer.
Olharam para lados opostos, como se o constrangimento os mantivesse a metros de distância, mesmo tão próximos.
— Eu também… — Armin ergueu os olhos para o teto, evitando fitá-la. — Nunca fui a um bar com os rapazes. Acho que temos mais em comum do que gostaríamos de admitir. — Sorriu, mas sem humor.
Quase sem perceber, seus olhares se prenderam. Não havia cálculo, nem a leitura fria que faziam no campo de batalha; apenas a pausa crua de quem compartilhou anos… e nunca se viu de verdade.
Naquele instante, Armin captou algo novo: veios de âmbar riscavam o negro dos olhos de Mikasa, como rachaduras em mármore escuro. Um brilho quente, quase escondido.
— Há um pouco de chocolate no negro dos seus olhos. — As palavras escaparam antes que pudesse segurá-las.
O rubor subiu pelas faces dela; a boca sumiu atrás do cachecol.
— Er… me perdoe, eu… falei sem pensar.
— T… tá tudo bem — veio abafado pelo tecido, junto de uma respiração que já não saía estável.
O silêncio voltou, denso e morno, como se o ar tivesse mudado de temperatura. Algo se instalava no espaço entre eles; algo que não sabiam, nem queriam, nomear.
— Seus olhos… — ela começou, a voz tão baixa que parecia medo de romper o momento — também têm um pouco de verde no azul.
Não o encarou. Enterrou metade do rosto no vermelho do cachecol. O tecido se amarrotou sob a força dos dedos, quentes e úmidos. Um fio de cabelo escapou, colando-se à têmpora pelo suor. No pescoço, a pele esticada deixava as veias pulsarem visíveis, comprimidas pelo aperto carmesim. Inspirou curto, como se o ar tivesse ficado mais estreito.
Ele engoliu seco, mudando o peso do corpo. Um arrepio subiu-lhe pela coluna. Sentia o sangue quente no rosto e nas mãos, o coração pulsando rápido demais para algo tão simples.
Entre eles, nada se moveu.
Ainda assim, o espaço parecia outro.
Armin pigarreou, tentando amenizar o clima daquele momento. — Acho que… — começou, chamando a atenção dela. Mikasa o encarou tão profundamente que ele gaguejou e precisou abrir e fechar a boca algumas vezes para conseguir continuar — Talvez devêssemos tirar um tempo para nós.
— Hum? — ela inclinou a cabeça, curiosa.
— Ei, não me olhe assim. — disse, tentando não sorrir ao achar a reação dela fofa. — É sério. Sair, conversar, comer em um restaurante legal. Mas com uma regra: é proibido falar de Eren, titãs, Marley… ou qualquer coisa de trabalho.
— E… do que vamos falar, então? — a curiosidade dela era genuína. Desde que Maria foi invadida, sua vida foi lutar, sobreviver, guerrear… será que saberia conversar sobre outra coisa?
— De qualquer outra coisa. Da ilha, da culinária de outros países… do futuro, do passado… mas tem que ser sobre nós.
— Sobre… nós? — mais uma vez, o rosto dela esquentou.
— Nã… não “nós” como… “nós”. — ele se atrapalhou todo. — Quero dizer… nossas histórias, vontades… eu e você, como duas pessoas diferentes.
Mikasa riu. Uma risada leve, quase esquecida, que foi crescendo até virar gargalhada ao ver o amigo tentando se explicar. Armin, constrangido, acabou rindo junto.
E, por um instante, o peso que carregavam pareceu se dissipar. Tentaram lembrar da última vez que riram assim. Não conseguiram.
Talvez fosse hora de criar novas memórias.
(...)
Dois dias após a conversa, Armin e Mikasa estavam frente a frente, prontos para viver um raro dia de folga.
O vento ameno que soprava pela ilha fazia o tecido alvo da camisa de linho de Mikasa ondular, as mangas dobradas no cotovelo revelando parte dos braços. As madeixas escuras se agitavam junto ao inseparável cachecol e à calça marrom.
Os fios dourados de Armin também esvoaçavam, mas o colete cinza que escolhera amenizava o efeito das rajadas, e os braços também estavam protegidos pela camisa bege; apenas a calça de linho preto sentia o frio.
Os primeiros raios de sol escapavam como suspiros, iluminando parcialmente a rua de pedra. E eles continuavam ali, se observando como quem tenta decifrar o próximo movimento.
— Bem… — a voz aveludada de Armin quebrou o silêncio. — Acho que… — balançou o corpo entre a ponta dos pés e o calcanhar, numa tentativa quase infantil de dissipar a timidez.
Ergueu o braço, indicando um caminho; um convite silencioso para que ela o seguisse.
— Sim… — Mikasa respondeu num fio de voz, baixo o suficiente para fazê-la se perguntar se tinha sido ouvida.
A rua estava quieta, não apenas pelo horário, mas porque eles ainda buscavam romper o gelo.
O som dos tênis dele e das botas dela ecoava nas pedras, andando lado a lado.
As suas mentes, em contraste com a calmaria do mundo externo, fervilhavam nos mais diversos pensamentos:
Como começar? O que falar? Será que era uma boa ideia?
— Então… — disseram juntos.
— Não, pode falar primeiro.
Um riso constrangido tomou os dois.
— Acho que estamos um pouco nervosos por sair juntos — Mikasa surpreendeu ao dizer em voz alta.
— Sim… olha, não quero que pareça que forcei você a gastar a sua folga comigo.
— Tudo bem, eu quis estar aqui. — Ela suspirou, olhando para o céu com um meio sorriso. — É a primeira vez que ficamos juntos sem o Eren… e que não seja em missão.
Armin sorriu, enfiando as mãos no bolso e olhando para o traçado irregular das pedras.
— Sendo sincero, acho que nunca tivemos tempo para…
— Viver? — completou ela, pensativa.
— Mikasa… — o nome saiu quase como um sussurro, carregado de uma curiosidade que ele não sabia como expressar.
— Enfim… — ela sorriu de leve. — Para onde estamos indo tão cedo?
— Ah, sobre isso… — Armin tocou o queixo numa pose pensativa. — Veja só, chegamos.
Mikasa fitou o prédio antigo. Seus olhos percorreram cada detalhe com um misto de cautela e curiosidade.
— Biblioteca? — disse, entre a surpresa e o interesse.
— Espero que não se decepcione. — Os passos ágeis do portador do Titã Colossal avançavam com a familiaridade de quem passara horas ali. — É um dos meus lugares favoritos… e queria começar te mostrando ele.
— Eu conheço a biblioteca.
— O que vou te mostrar, garanto que não.
Num impulso, a ansiedade em mostrar o lugar falou mais alto que a timidez. Armin segurou a mão dela e a puxou por corredores de prateleiras longas, até uma porta pesada de metal. Ao abrir, entraram numa espécie de antessala.
A luz atravessava janelas altas, formando manchas douradas sobre mesas de madeira antiga. O cheiro de papel envelhecido e tinta era quase tão intenso quanto o silêncio.
Armin percebeu seus dedos ainda entrelaçados aos dela — por um momento pensou em soltar, mas algo o fez manter o toque.
Passavam pelas estantes com ele roçando a ponta dos dedos nas lombadas, como se cada livro fosse uma porta. Mikasa o seguia, observando não só as obras, mas o brilho nos olhos dele.
— Esse aqui… — ergueu um volume grosso, com o título quase apagado na capa gasta.
— Que livro é esse? Aliás… que lugar é esse? — ela perguntou, soltando a mão dele para girar sobre os calcanhares, admirando o espaço.
— É o acervo que conseguimos com as visitas aos continentes. Alguns vieram de embarcações marleyanas… mas a maioria foi um presente da embaixadora Kiyomi.
— Interessante… — Mikasa, inclinando a cabeça, leu o título na mão do loiro: — O Pássaro que partiu Tarde Demais. — Seu olhar transpôs uma genuína curiosidade, e as palavras saíam naturalmente. — Nunca ouvi falar.
— É um conto antigo, de uma autora marleyana. — A voz dele estava baixa, como se já entrasse no clima da história.
Caminhou até uma mesa, com cadeiras de madeira rígida, como se fossem uma escrivaninha, sendo seguido.
— Fala de um reino… onde as aves viviam presas em uma cúpula de vidro. Lá dentro, tinham comida, abrigo, segurança. Mas nunca viam o céu.
Ele abriu o livro, e o som seco das páginas ecoou no silêncio.
— Um dia, uma fenda se abriu. Muitas aves escaparam… sem olhar para trás. Mas uma delas ficou. Tinha medo do vento, da fome, de tudo que existia lá fora.
Mikasa reclinou-se com os cotovelos apoiados na mesa. — E depois?
Armin respirou fundo, os olhos fixos nas palavras. — Anos depois, a cúpula desmoronou sozinha. O pássaro… já velho… voou pela primeira vez. E descobriu que o mundo era vasto, lindo… e cruel. Mas as aves que partiram antes já estavam longe. Ele nunca as encontrou.
Mikasa ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo. — Você acha que ele errou?
Os dedos de Armin apertaram levemente as bordas do livro. — Eu acho que ele se arrependeu… todos os dias. Que cada nascer do sol, cada corrente de ar, era um lembrete do que ele perdeu.
— Mas ele viveu seguro. — A voz dela era firme, quase desafiadora. — Talvez tenha sofrido menos que os outros.
Ele ergueu o olhar para ela, e a intensidade em seus olhos fez Mikasa recuar só um pouco na cadeira.
— Mikasa… liberdade não é só sobre estar seguro ou não.
Mikasa sentiu os músculos enrijecerem e um arrepio na nuca correr pelas costas.
— Armin… — instintivamente, ela mordeu os lábios, receosa sobre expor seus pensamentos — o que adianta ser livre para escolher, se o mundo cruel pode desaparecer com tudo? Quem garante que os pássaros não foram encontrados, porque foram caçados, ou até mortos?
— Sabe… você até está certa. — Suas orbes azuis estavam intensas, vivas. — Mas, mesmo que por pouco, elas viveram.
Os dedos correram pelas bordas do livro, quase que o acariciando, como quem procura ali a coragem para continuar.
— A vida aprisionada a qualquer corrente não é viver, é sobreviver. Para viver, precisamos escolher, mesmo que isso custe tudo.
— E se “tudo” for… tudo mesmo? — Ela inclinou-se para frente. — E se isso significar perder quem você ama?
Armin sentiu aquela pergunta cortar o ar, como as lanças de trovão.
— Então… — sua voz falhou. Abriu a boca diversas vezes tentando encontrar as palavras certas. — Se o amor não suportar a liberdade… ele era amor?
— Não existe uma única forma de amar. — Seu tom era de defesa de sua tese.
— Exato… — suspirou, encarando o livro, com olhos levemente marejados. — Mas a gente aprende, ou tenta aprender, a amar de outra forma, eu acho…
O silêncio denso se instalou entre eles, fazendo-os refletir.
— Ou a viver com o vazio. Mas pelo menos… — ele bateu de leve no livro. — Pelo menos você olha para o céu sabendo que não ficou para trás.
Mikasa desviou o olhar, fixando-se numa partícula de poeira flutuando na luz dourada que vinha da janela.
Quase como um instinto, ela apertou o tecido carmesim que nunca saía do seu pescoço. “Pelo menos você olha para o céu sabendo que não ficou para trás.” A frase ecoava em sua mente, e mais uma vez sua memória voltou àquela noite de garotas a que não foi.
— Você acha que eu teria ficado?
Armin sorriu de lado, mas não havia alegria.
Os segundos de silêncio pareciam uma eternidade para a dona da pergunta, que praticamente escondia o rosto no cachecol.
— Eu acho que você teria quebrado a cúpula com as próprias mãos. Mas… — suspirou e a olhou. Mais uma vez, as ranhuras de chocolate se mostravam na imensidão negra que eram os olhos dela, e sentiu seu pulso errar um compasso. — Só se alguém importante estivesse preso lá dentro.
Ela não respondeu. Que adiantaria, afinal? Mas não havia constrangimento; apenas o vazio de quem já sabia a resposta.
Uma respiração profunda. Um lento fechar de olhos. Mil pensamentos em sua mente. Armin era tão intenso… Aliás, pensando melhor, ele sempre foi.
O loiro fechou o livro devagar e ficou apenas observando as mãos sobre a capa, como se aquilo fosse um escudo frágil contra tudo que ele acabara de expor.
Seus olhos fitaram Mikasa à sua frente. Pensativa, intensa, mas sempre com o pano vermelho como um ponto de fuga, sempre com o lindo rosto parcialmente escondido.
Lindo rosto…
— Mikasa… — ele começou, a voz quase um sussurro — …às vezes, eu tenho medo de que a gente ainda viva dentro de uma cúpula. Só que agora… ela é invisível.
Ela o olhou de volta, e havia algo nos olhos dela que não era pura concordância, nem discordância. Era… compreensão. E talvez, um pouco de medo também.
O silêncio na antiga biblioteca era espesso, carregado não apenas pela poeira dos livros, mas pelo peso das palavras não ditas que pairavam entre eles. A metáfora da cúpula invisível pairou no ar como uma névoa, um reconhecimento mudo de que as correntes que os prendiam eram, em grande parte, de sua própria autoria.
Os olhos de Mikasa ainda estavam fixos na partícula de poeira dançando no raio de sol, mas sua mente viajava muito mais longe. A pergunta de Armin ecoava: “Até quando a gente vive dentro de uma cúpula invisível?”
Ela se pegou pensando se o cachecol vermelho era sua própria cúpula. Um refúgio seguro, quente, familiar. Mas também uma âncora, amarrando-a a uma ideia, a uma pessoa, a um passado que doía tanto quanto confortava.
— Talvez… — a voz dela soou áspera, quebrando o silêncio como um vidro fino. Ela limpou a garganta, tentando encontrar a coragem que tinha no campo de batalha, mas que falhava miseravelmente ali. — Talvez esteja na hora de quebrarmos essa cúpula.
Armin ergueu o olhar do livro, seus olhos azuis abriram-se, surpresos não com a afirmação, mas com quem a proferiu. Ele esperava que aquela reflexão ficasse só com ele, como tantas outras.
— Como? — a pergunta saiu num sussurro, quase um desafio.
— Começando por aqui. — Mikasa gesticulou com a cabeça para o ambiente ao redor. — Por hoje, pela sua regra, nada de Eren, titãs ou guerra.
Um sorriso lento, genuíno, iluminou o rosto de Armin. Era um alívio tão profundo que quase doía. Ele não estava sozinho naquele sentimento.
— Certo. — Um impulso o tirou da cadeira para colocar o livro de volta na estante com um cuidado quase cerimonial. — Então a primeira missão do dia é: encontrar o melhor lugar para comer nesta cidade. Rumores dizem que há um lugar que serve uma torta de maçã que faz uma pessoa acreditar em paz, por uns cinco minutos.
Mikasa deixou escapar um som que era quase um riso abafado pelo cachecol.
— Só cinco minutos?
— É mais do que temos há anos, Mikasa. — Seus dedos passaram pelos cabelos dourados, arrumando-os, e em sua voz não havia amargura, apenas um fato aceito.
Ela assentiu, séria de novo, mas com um brilho diferente nos olhos. Um brilho de determinação, não para destruir algo, mas para conseguir algo. Algo pequeno e aparentemente insignificante como uma torta de maçã.
Ao sair da biblioteca, o sol da manhã já estava mais forte. Armin, num impulso que surpreendeu a si mesmo, ofereceu o braço. Um gesto antiquado, cortês, que fez Mikasa hesitar por um segundo, seus olhos negros cintilando com uma perplexidade adorável. Ela então enrolou cuidadosamente seu braço ao dele, os dedos repousando levemente sobre o tecido do colete.
Caminharam assim pela rua de pedra. Ele mantinha os olhos à frente, mas os ombros denunciavam a rigidez de quem tentava não tremer.
Ela, por instinto, quase tomou a dianteira, mas conteve o passo e deixou-se levar.
Pela primeira vez, não eram dois soldados marchando para uma missão. Estavam apenas… caminhando.
O contato era mínimo, mas era elétrico. Cada olhar de soslaio, cada pequeno desvio para evitar uma pedra solta, era uma conversa silenciosa.
— Sabe… — Armin quebrou o silêncio, olhando para a frente. Mordeu o interior da bochecha, hesitante com as palavras. — Eu lia sobre esses lugares. Praças com fontes, mercados com barracas de frutas... mas ler é muito diferente de cheirar o pão quente, não é?
— É. — A simplicidade da resposta, a voz mais suave do que o habitual, não era desinteresse, mas sim… conforto.
Ela inalou profundamente, e o ar realmente carregava o cheiro de pão de uma padaria ali perto, misturado com o aroma de flores de um jardim público próximo.
— É mais... real.
— É assustador. — Quase um sussurro foi a resposta de Armin. Fitava-a como quem busca ler uma bússola em busca do caminho certo. — Porque você sabe que pode perder aquilo a qualquer momento. Isso torna cada cheiro, cada sabor... mais precioso.
Encontraram, por fim, a pequena confeitaria escondida em uma rua lateral. O lugar era simples, mas o ar doce que escapava pela porta parecia dar boas-vindas.
Entraram no lugar, e Armin apressou o passo para escolher a mesa com uma bela vista para a fonte. Seguindo o manual de gentilezas, puxou a cadeira para Mikasa, que, com o rosto quente, aceitou o gesto.
Armin, como previsto, pediu a torta de maçã, acompanhada de um café. Mikasa, após hesitar, pediu um chá.
— Nunca te vi ter um hobby, Mikasa. — Armin comentou depois do primeiro gole de café, a voz carregando uma leveza incomum. — Fora treinar e... bem, treinar mais.
Mikasa ficou em silêncio por um instante, girando a xícara de chá entre os dedos.
— Tricô. — Murmurou por fim, quase inaudível, antes de esconder o rosto no vapor da bebida quente.
Armin tossiu, quase engasgando com a torta. — Tricô? Você? A mulher que corta a nuca de Titãs com precisão cirúrgica?
— A Carla... a mãe do E… — o maxilar travou, impedindo que o nome escapasse e quebrasse a regra. — Ela me ensinou. Era uma memória doce, isolada da tormenta que se seguiu.
Os olhos dela se perderam na xícara. — Era... calmante. Repetitivo. Previsível. Diferente de tudo lá fora.
Armin sorriu. Seu rosto ganhou uma expressão suave e compreensiva.
— Faz sentido. Todo mundo precisa de uma âncora. A minha sempre foram os livros.
— Humm, achei que fosse a Annie? — Os olhos negros transbordavam malícia ao citar a mulher.
— O… O quê? — A voz falhou, o café desceu rasgando e o rosto enrubesceu com a menção.
— Hum, a titã fêmea ainda mexe com você, Armin?
A frieza no tom de voz congelou a mente do homem, que balbuciava palavras sem sentido, como se perdesse toda a sua dicção.
Sem conseguir mais resistir, ela riu, divertindo-se com o nervosismo do amigo.
— Estou brincando, não precisa morrer.
— Haha, muito engraçado, Mikasa. — Fingiu um tom de reprovação, mas foi contagiado pelo riso sincero.
— E agora? — Mikasa o fitou, genuinamente curiosa. — Sua âncora mudou?
A pergunta era mais profunda do que parecia.
— Você ainda é o mesmo, Armin? Após tudo o que fizemos? Após o porto?
Ele olhou para a torta, como se algo muito interessante estivesse ali. O garfo brincava com um pedaço de maçã caramelizado.
— Acho que sim. Só que agora... — ergueu os olhos para encontrar os dela, e a intensidade do encontro fez ambos segurarem a respiração. — Agora eu acho que também preciso de outras âncoras que me lembrem do mundo real, fora das páginas. Não só daquilo que precisa ser consertado ou conquistado, mas daquilo que já está aqui e vale a pena ser preservado.
Palavras eram dispensáveis; o olhar dele era eloquente o suficiente para clarear o que eram as “outras âncoras”.
O tilintar suave da campainha da porta e a risada despreocupada das crianças que entraram não quebraram o momento, mas sim o embelezaram.
Armin e Mikasa vacilaram entre admirar a alegria das crianças e encarar-se. As orbes não revelavam dor ou tensão, mas uma compreensão silenciosa. Estavam testemunhando um fragmento do mundo pelo qual, em teoria, lutavam para proteger. Um gosto tão doce quanto a torta saboreada por Armin.
— Os rumores estavam certos — murmurou, com a boca ainda com pedaços da iguaria. — Cinco minutos de paz, garantidos.
Mikasa o observou.
Um canto de sua boca curvando-se levemente para cima, escondido pelo cachecol que ela finalmente afrouxou um pouco em volta do pescoço. O calor do chá em suas mãos era reconfortante.
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