Attack on: Flügel der Freiheit
3 Toques
— Talvez… — mordeu o lábio inferior, voltando a olhar para xícara, agora podendo ver seu fundo — possamos comprar uma para levar para a Hange. Ela vive à base de café queimado e pão seco.
A ideia de Mikasa fazendo uma gentileza tão doméstica, tão normal, foi tão inesperada que Armin riu, um som claro e leve que fez uma ou duas pessoas na confeitaria olharem para eles.
— Acho que ela ia achar um troço venenoso e ficar analisando por uma semana antes de comer. Mas... é uma boa ideia. — Concordou, ainda sorrindo. — Nós podemos dividir outra na próxima vez.
A próxima vez. As palavras pairaram no ar entre eles, cheias de uma promessa frágil e corajosa.
Coragem… De repente, como um raio de transformação titã, algo surgiu na mente de Armin, impulsionada por aquele frágil sentimento de normalidade.
— Ei... — coçou a nuca, e desviou os olhos dela. — A regra ainda está de pé. Nada de trabalho. Mas eu... lembrei de um lugar. Fica na borda externa do distrito. É uma antiga formação rochosa, perto da abertura da Muralha Maria. Os soldados mais antigos da tropa de guarnição usavam para treinar escalada livre, antes de termos equipamentos de manobra tridimensional para todos.
Mikasa ergueu uma sobrancelha, interessada.
— Escalada? Sem equipamentos?
— Bem, quase sem. É seguro, prometo. Só... desafiador. — Seus olhos brilharam com um entusiasmo que ela não via desde que eram crianças e ele explicava sobre o mar. — A vista do topo... dizem que você pode ver toda a coroa montanhosa ao redor do distrito. Deve ser linda nesta época do ano.
Ela olhou pela janela por um momento. A atividade era física, o que a confortava. Era um desafio, o que a motivava. E era com Armin, o que, ela estava começando a admitir para si mesma, a agradava profundamente.
— Está bem — assentiu, virando as últimas gotas de seu chá. — Vamos.
A caminhada até a formação rochosa foi surpreendentemente agradável. A conversa fluiu sobre coisas insignificantes: o formato das nuvens, o cheiro do pinheiro no ar, a lembrança de uma vez em que Connie caiu de cara no refeitório durante o treinamento. Eles riram, um som estranho e maravilhoso vindo dos dois.
A rocha era imponente, uma cicatriz natural na paisagem. Havia marcas de garra e apoios para os pés que contavam a história de décadas de homens tentando sua sorte. Armin mostrou o caminho mais seguro, e Mikasa, com sua agilidade inata, muitas vezes acabava mostrando a ele um caminho mais eficiente ou estendendo a mão para ajudá-lo em uma passagem mais difícil.
O toque das mãos deles, inicialmente rápido e funcional, começou a durar um segundo a mais a cada vez. Não havia a eletricidade nervosa do toque na biblioteca, mas uma confiança tranquila, uma parceria sólida.
Quando finalmente chegaram ao topo, ofegantes mas vitoriosos, a vista era de fato espetacular.
O vento soprava forte, agitando os cabelos loiros de Armin e as madeixas escuras de Mikasa. A corrente de ar cantava uma canção fria e limpa, arrepiando a pele e afastando o cheiro da cidade. Em seu lugar, o ar trazia o aroma úmido de terra molhada e pinheiros, tão vivo que parecia encher os pulmões de lembranças esquecidas.
— É... incrível — ela admitiu, sua voz quase levada pelo vento. — Você pode ver tão longe...
— Parece que podemos tocar as nuvens — Armin completou, animado como uma criança com um brinquedo novo.
Seus olhos cintilando com a mesma admiração de quando lia sobre lugares distantes nos livros.
Mas diferente dos livros, aqui, ele estava vivendo, sentido o vento arrepiar sua pele alva
Ficaram em silêncio por um tempo, apenas absorvendo a imensidão. A vastidão do mundo, que normalmente era uma ameaça, naquele momento parecia apenas... linda.
Mikasa ergueu o cachecol, deixando o tecido carmesim chicotear como um estandarte contra o céu azul límpido. Não era um desafio, tão pouco uma conquista territorial, mas uma rendição àquele instante raro de paz.
Seus olhos, acostumados a dissecar cada detalhe do inimigo, deslizaram pela muralha sem pressa. Seguiram o vale até o horizonte, onde as montanhas se erguiam como muralhas naturais. Por um instante, o olhar endurecido se desfez em suavidade. O corpo afrouxou, e a mente, liberta, parecia balançar com as árvores, entregue ao vento.
— Ali, olha — o indicador ergueu-se como o de uma criança que encontra um brinquedo em meio a uma prateleira de possibilidades
O corpo de Armin direcionou-se para direção indicada, e ele conseguiu ver. Nos limites do distrito, onde a terra cultivada encontrava o começo da zona florestal, havia uma propriedade vasta e organizada. Diferente dos campos de subsistência comuns, esta parecia mais... ornamental. Cercas brancas e bem cuidadas delimitavam pastos verdes, fileiras ordenadas de árvores frutíferas formavam caminhos, e um casarão de madeira com um alpendre amplo dominava o centro. Pequenas figuras—visitantes, presumivelmente—andavam calmamente pelos campos.
— É uma fazenda — A voz vibrou ascendente, e a sobrancelha arqueou-se. — Mas parece... diferente.
— Parece um parque — Mikasa sorriu, com o tom alegre de uma flauta, entoando cantigas — Um lugar para se ir, não apenas para se trabalhar. Conseguimos ir lá?
Armin a encarou e viu os olhos negros reluzirem a inocencia nunca vista na amiga. Fechou as pálpebras e sorriu, genuinamente divertido com o pedido tão singelo para simplesmente ver algo
— Claro que sim. Parece ser o tipo de lugar que a História encorajaria, para mostrar uma face mais pacífica de Paradis.
A descida foi menos árdua que a subida. Os pés se moviam com a confiança de quem já conhecia o terreno, e a clareza de ter apenas um destino tornava o caminho mais leve.
Seguiram pela estrada de terra que haviam mapeado do alto da rocha. A cada avanço, o som seco das pedrinhas esmagadas sob os calçados se espalhava, rolando pelo chão árido. Era o único ruído.
Não havia pressa. Não havia fuga. Apenas o silêncio que acompanha uma caminhada.
A mata em torno permanecia imóvel, mas não os incomodava. Soldados que eram, aprenderam a se acostumar a trovões de explosões e gritos. Naquela ausência de som, encontravam uma dádiva rara: espaço para pensar.
Mas se o caminho era calma, as mentes fervilhavam.
Porque tudo isso era tão agradável?
Podiam mesmo, em meio a uma crise com Zeek se dar ao luxo de uma folga?
Hange, Levi, Pixis… todos se consumiam em trabalho e estratégia. E eles, ali, colhendo o gosto do sol na pele.
Queriam sentir culpa. Queriam sentir o peso da negligência. Mas a verdade era outra: havia um gosto de leveza no ar
Leve... não era doce, ou necessariamente agradável, e sim leve... O que seria esse gosto?
Estavam tão absortos em seus próprios pensamentos, que não perceberam quando chegaram a um portão grande, de madeira nobre entalhada, e um letreiro: "Fazenda do Vale Serena — Bem-Vindos à Nossa Herança Agrícola".
— Muito bem vindos a nosso cantinho. Vieram para conhecer o lugar?
A voz alegre, empolgada e quase lírica de menina de fios acobreados os fez virar e encará-la. A resposta era simples, os pensamentos corriam, os olhos piscava mas a boca não conseguiu formular resposta nenhuma
— Oi? Estão aí? — balançou as mãos na frente deles, que parecem despertar do pequeno transe
— Ahh sim, peço perdão, acho que estávamos… pensando demais — Armin emitiu um som de risada abafada — Sim viemos conhecer o lugar, se estiver aberto
— Claro, por favor siga-me
A jovem anfitriã tomou a dianteira e começou a guiá-los para dentro da propriedade. A trilha era margeada por grama verdejante, bem aparada, que soltava um cheiro fresco sob o sol da tarde.
De repente, ela se virou tão rápido que os surpreendeu.
— Céus, onde está minha educação? — sorriu, dobrando os joelhos e erguendo levemente o tecido bege do vestido em uma reverência formal. — Sou a Lara, prazer em conhecer. E vocês são...?
Mikasa apertou o cachecol contra o pescoço, como se buscasse apoio na textura áspera do tecido antes de responder:
— Mikasa Ackerman.
Armin pigarreou, a voz saindo um tom mais agudo do que pretendia:
— Armin Arlert.
— Eu conheço esses nomes... — a mão dela subiu até o queixo, e os olhos se estreitaram, como se pescassem algo na memória. — Ah, lembrei! Vocês não são os heróis de Shiganshina?
A pergunta os pegou de surpresa. Para eles, “heróis” parecia um exagero. Mas sabiam que era assim que a imprensa os chamava.
— Uau, que honra receber vocês aqui. — O sorriso dela saiu sincero, mas logo vacilou. — Sabe, devo essa fazenda à retomada da Muralha Maria. Se não fosse por isso... não sei onde estaria.
Os olhos dela baixaram, encarando o chão. Os dedos dela apertaram o tecido do vestido, como se buscassem segurar a memória que escapava.
— Naquele dia, perdi meus avós... e meus pais. Eu ainda era criança, mas eu e meus irmãos sempre repetimos: “um dia vamos voltar, um dia vamos recomeçar”. — A voz embargou, e as pálpebras se encheram de lágrimas. — Então... obrigada. Se não fosse por vocês, eu não estaria aqui.
Armin e Mikasa se entreolharam, mas nenhuma palavra surgiu. O silêncio pesou entre eles.
Recuperar território, descobrir o mundo além das muralhas, ver o mar… Tudo o que eles faziam com a tropa de exploração era para entregar a liberdade para humanidade, para momentos como esse, mas agora… tudo parecia diferente e se perguntavam quando deixou de ser o objetivo?
Lara piscou as lágrimas, respirou fundo e abriu um sorriso curto.
— Mas chega de histórias tristes. — estendeu o braço, convidativa. — Vamos começar pelo pomar.
Lara os guiou por uma trilha sombreada, onde o canto das cigarras se misturava ao farfalhar leve das folhas. Logo chegaram ao pomar. As árvores frutíferas alinhadas carregavam frutos pesados, alguns já perfumando o ar com doçura. Lara colheu uma maçã e a girou entre os dedos.
— Plantadas pelos meus avós. — comentou, orgulhosa. — Sempre disseram que o segredo é tratar cada muda como se fosse um filho.
Armin a ouviu com atenção, mas seus olhos escaparam para Mikasa. Ela acariciava uma das cascas rugosas do tronco, a palma aberta como quem buscava sentir a vida ali. Por um instante, parecia uma memória distante — as mãos de sua mãe guiando-a por um campo semelhante.
Do pomar, seguiram até a horta. O cheiro de ervas frescas, misturado ao da terra úmida, os envolveu. Lara se agachou e puxou um ramo de hortelã, oferecendo a eles.
— Experimentem. — disse com um brilho nos olhos.
Mikasa hesitou, mas provou. O frescor invadiu sua boca, arrancando-lhe uma expressão quase infantil de surpresa. Armin riu baixo, e ela desviou o olhar, o cachecol escondendo um rubor inesperado.
Mais adiante, Lara abriu o portão de madeira que levava ao estábulo. O cheiro forte de feno e couro misturava-se ao calor do gado. Vacas ruminavam devagar, e bezerros curiosos se aproximavam da cerca.
— Meus irmãos cuidam deles desde cedo. — contou Lara. — Dizem que quando a terra está em paz, até os animais ficam mais dóceis.
Mikasa encostou os braços no madeirame, observando os animais com olhos ausentes.
— Minha mãe... — começou, mas a voz falhou. Engoliu seco e tentou de novo. — Quando eu era pequena, ela me levava para o campo. Lembro dela me ensinando a segurar uma enxada... lembro da calma.
Enquanto os bezerros ruminavam em paz, ela lembrou da tranquilidade que a mãe transmitia; a mesma calma que parecia embalar agora o estábulo inteiro.
Armin a encarou em silêncio, percebendo que aquele era um pedaço de Mikasa que ele nunca ouvira antes.
Por fim, Lara os levou até um lago nos fundos da propriedade. A superfície refletia o céu dourado do entardecer, e libélulas riscavam o ar em voos breves.
— Aqui eu vinha quando precisava pensar. — disse Lara, em tom mais baixo, como se o lugar exigisse respeito. — Tudo parecia mais leve perto da água.
Ela se afastou discretamente, como se tivesse entendido que o resto do caminho cabia apenas a eles.
Armin e Mikasa ficaram lado a lado, olhando o espelho líquido. O vento soprou de leve sobre a superfície da água e, junto, ergueu uma mecha do cabelo dela. Ele estendeu a mão sem pensar, afastando-a de seu rosto.
O gesto durou apenas um segundo — mas longo o suficiente para deixá-los em silêncio, cada um sentindo o peso de algo que ainda não ousavam nomear.
Armin recolheu a mão rápido demais, como se tivesse tocado fogo. O rubor subiu-lhe às orelhas, quente, quase queimando.
— D-desculpe... — murmurou, olhando para a água como se nela estivesse a saída. — Eu não devia...
Mikasa piscou devagar. Não parecia zangada. Ao contrário, levou a mão ao próprio cabelo, como se ainda sentisse o calor do toque.
— Esse vento sempre me faz lembrar de quando era criança.
Ele a olhou de soslaio, sem ousar encarar de frente.
— Da sua mãe? — arriscou.
Mikasa assentiu, os olhos presos ao reflexo dourado do lago.
— Ela me levava para a fazenda da família, perto do portão interno da muralha.
O cheiro do feno seco, a terra molhada depois da chuva... era tudo tão forte que eu podia sentir o gosto do pó grudando nos dentes. — fechou os olhos por um instante, aspirando o ar como se ainda estivesse lá. — Minha mãe dizia que os animais entendem quando a gente está calmo. Eu passava a mão no pelo áspero das vacas, e parecia que o mundo parava.
O silêncio se instalou, mas não era vazio. Era denso, cheio de cheiro de água doce, da lembrança de feno, do calor da tarde. Armin sentia o coração bater no mesmo compasso lento das libélulas.
— Deve ter sido... — ele engoliu em seco. — Deve ter sido bonito.
Mikasa virou-se, e os olhos dela estavam úmidos, não de tristeza, mas de memória.
— Foi. — respondeu simples. — E é estranho... aqui, nesse lugar, sinto quase a mesma coisa. Como se ela estivesse perto.
Armin não se conteve: estendeu a mão de novo, hesitante, mas dessa vez parou no braço dela, o tecido áspero do casaco sob seus dedos.
— Então talvez... — a voz saiu trêmula — talvez ela esteja.
Mikasa o encarou por longos segundos. Não havia raiva, nem desconforto. Apenas aquela calma antiga de fazenda, de infância, de campo. O vento trouxe o cheiro úmido da água e o doce distante das maçãs no pomar.
Ela deixou escapar um sopro de riso breve, quase imperceptível, e não afastou o braço
Eu lembro do cheiro do pão assando quando chegávamos à fazenda. Minha mãe sempre dizia que nada unia uma família como o cheiro de comida saindo do forno. O trigo era moído ali mesmo, e a massa grudava nas mãos dela... áspera no começo, mas depois macia, viva.
Armin fechou os olhos por um instante, como se pudesse sentir aquele aroma também. O estômago se apertou — não de fome, mas de uma estranha saudade emprestada.
— Parece... tão real. — murmurou. — Como se eu pudesse sentir daqui o calor do forno.
Mikasa suspirou, e por um segundo a dureza habitual de seu rosto se dissolveu.
— Eu sinto falta disso. Do toque da terra molhada, dos grãos que arranhavam os dedos, do gosto levemente amargo do leite cru. Tudo tinha textura, peso... e calor humano. — desviou o olhar, o cachecol roçando de leve contra o queixo. — Desde que ela se foi, nunca mais foi igual.
Armin sentiu o coração apertar. O impulso de confortá-la veio tão rápido quanto o medo de parecer invasivo. Ainda assim, as palavras escaparam antes que pudesse contê-las:
— Mikasa... você não precisa carregar isso sozinha.
Ela o fitou de volta, os olhos escuros refletindo a última luz do entardecer. Havia algo ali — não só dor, mas também uma necessidade silenciosa de ser ouvida.
— Às vezes acho que carrego mesmo. — confessou. — Como se esse cachecol fosse o único fio que me resta dela.
Armin, sem pensar, deixou que os dedos roçassem o tecido áspero enrolado no pescoço dela.
— Então não deixe esse fio prender você. — disse baixo, a voz embargada. — Use-o pra se lembrar que alguém sempre esteve ao seu lado.
Por um instante, Mikasa não respondeu. Apenas respirou fundo, o ar úmido do lago misturando-se ao cheiro de feno que ainda vinha do estábulo distante. Depois, inclinou a cabeça levemente, como se desse razão a ele.
— Você fala como se tivesse estado lá comigo. — disse enfim, quase num sussurro.
Armin sorriu, tímido, mas firme.
— Talvez não estivesse... mas quero estar agora.
O silêncio voltou, só que dessa vez não era vazio — era cúmplice.
Eles se encararam. Um sorriso tímido brotou em ambos, como se fosse um segredo partilhado apenas ali. As mãos quentes, o coração acelerado, os olhares que não ousavam desviar. O tempo deixou de existir: era como se o mundo tivesse se reduzido ao reflexo dourado da água e à presença um do outro.
— Oi, casal! Espero que o passeio tenha sido agradável para vocês. — A voz alegre de Lara os fez estremecer, quebrando o encanto em um estalo.
— Nós não... — Armin gaguejou, o rosto em chamas.
— Ah, nossa, me desculpem! — Lara levou a mão à boca, rindo nervosa. — Eu... não queria interromper. Mas já estamos encerrando as visitações por hoje, precisamos recolher o gado e organizar as tarefas.
— Não precisa se desculpar. — disse Mikasa, recuperando o tom sereno. Curvou-se levemente, em sinal de respeito. — Muito obrigada por tudo.
Lara sorriu, ainda um pouco sem graça, e fez um gesto convidativo.
— Venham, vou acompanhá-los até o portão.
O caminho de volta parecia mais curto, mas nenhum dos dois se apressava. O silêncio os acompanhava, e nele vinham os pensamentos inevitáveis.
Não era a primeira vez que alguém os confundia. E toda vez, a reação era a mesma: negação apressada, rostos corados, olhos que fugiam um do outro. Mas por quê? Eram apenas amigos... amigos de longa data.
Ainda assim, algo na palavra “casal” ficava ecoando, como uma pedra atirada num lago, espalhando ondas que demoravam a desaparecer.
Mikasa apertou o cachecol contra o pescoço, como quem busca apoio. Armin, ao lado, chutava distraído pedrinhas no chão batido. Nenhum deles ousou quebrar o silêncio. Talvez porque a resposta à pergunta não fosse tão simples.
Chegaram ao portão. Lara já os esperava com um sorriso sincero e uma pequena cesta de palha nas mãos. Dentro, um queijo redondo, embrulhado em tecido rústico.
— Quero que levem isto. — disse, a voz embargando de gratidão. — É artesanal, feito com o leite das nossas vacas. Um presente simples, mas... é tudo que posso oferecer por tudo o que vocês fizeram pela minha família.
Mikasa inclinou-se em reverência, recebendo o presente com cuidado.
— Não é simples. É precioso. Obrigada.
Armin assentiu em silêncio, o peso da oferta lhe parecendo muito maior do que o alimento em si.
Enquanto caminhavam para a estrada, Mikasa arriscou um comentário, num raro tom de leveza:
— Então, guia... para onde me levaria agora?
Armin piscou, surpreso com a brincadeira, e deixou escapar um riso nervoso.
— Bem... pensei no porto. Lá tem um restaurante excelente. — ergueu os ombros, como quem disfarça um convite malfeito. — E podemos ir de trem.
Mikasa arqueou as sobrancelhas, os lábios se curvando num meio-sorriso.
— Trem e porto, então. Parece um bom plano.
E, pela primeira vez em muito tempo, caminharam sem sentir que o destino precisava estar definido; apenas juntos, passo a passo.
A estação de trem era um pequeno bustelo de madeira nova, cheirando a pinho recém-cortado e carvão. O apito da locomotiva, um som que ainda parecia milagroso para muitos, ecoou pelos vales. Dentro do vagão, o mundo desfilava pela janela em um turbilhão verde e dourado.
Armin encostou a testa no vidro ligeiramente vibrante, observando as plantações, os novos telhados de terracota e as estradas de terra batida que serpenteavam colinas que, há poucos anos, eram dominadas por Titãs. A ilha havia avançado com uma velocidade feroz, quase desesperada, como se quisesse apagar séculos de medo em uma única década.
Fechando os olhos, as imagens explodiam em seu imaginário. O calor forte dos dias, que exauria, e faziam gotas de suor correr pelo rosto. O “tim” do atrito dos metais dos trilhos e marretas; as brigas de Connie, Jean e Sasha por um pedaço de pão, ou último gole d’água no cantil. Entretanto… tudo sempre terminava com risadas calorosas, e a certeza de que aquele novo trecho feito, era um avanço para todos.
Naqueles dias, há uns quatro ou cinco anos, tudo parecia… perfeito. Suficiente. Cada dormente era um prego no caixão do mundo antigo; cada metro de trilho, um caminho para um futuro que eles mesmos estavam forjando. A sensação de propósito era tangível, intoxicante. A camaradagem, a certeza de que estavam todos juntos naquela construção, era um bálsamo para as almas feridas.
Quando foi que deixou de ser suficiente? A pergunta ecoou em sua mente, não pela primeira vez. Talvez quando a última ameaça Titã foi erradicada. Talvez quando as disputas políticas dentro dos muros, agora desnecessários, começaram a crescer como ervas daninhas. O objetivo claro de "sobreviver" dera lugar ao complicado "viver". E viver, Armin estava descobrindo, era uma paisagem muito mais complexa e solitária de se navegar.
— Armin.
A voz suave o trouxe de volta à realidade. O trem havia parado. Lá fora, o ar carregado de sal e o grito das gaivotas anunciavam o porto.
— Ah… desculpe. Estava… distraído.
— Eu vi — Mikasa sorriu de canto, sem pressionar, e se levantou.
Desembarcaram na estação, quase à beira-mar. O cheiro característico da maresia tomou-lhes o nariz, e a brisa suave do fim da tarde arrepiou-lhes a pele.
O restaurante Mar de Esperança era uma construção rústica junto ao cais, vizinha da estação, com varandas que se projetavam sobre a água. O proprietário, um homem de braços robustos e sorriso fácil, limpava um balcão quando os viu entrar. Seus olhos se arregalaram ao reconhecer o casal.
— Tenentes Arlert e Ackerman! — Nicolo abandonou o pano e veio recebê-los, enxugando as mãos no avental. — Que honra inesperada!
— Apenas Armin e Mikasa hoje, Nicolo. — Armin sorriu, um pouco sem graça com a formalidade.
— Claro, claro! Venham, vou lhes preparar a melhor mesa. Com vista, é claro.
Ele os guiou até uma mesa pequena na varanda, onde a brisa marinha agitava levemente os guardanapos e a vista se estendia pelo porto, com seus barcos balançando suavemente na água escura, pintados de laranja pelo crepúsculo.
— O menu é o que a maré trouxe hoje. Garanto que está fresquíssimo. — Disse Nicolo, com o orgulho de quem dominava sua arte.
A refeição foi um contraponto delicioso à tarde na fazenda. Peixe grelhado com ervas, batidas colhidas na horta de Nicolo e um molho que Armin não conseguia identificar, mas que era sublime. A conversa fluiu com uma leveza rara. Mikasa comentou sobre a determinação da Lara, e Armin riu ao tentar descrever a expressão dela ao experimentar a hortelã. Falaram do queijo que ainda carregavam na cesta, e Nicolo insistiu que lhes desse um pão caseiro para acompanhar.
Pela primeira vez em meses, a sombra de Eren não pairou sobre a mesa como um espectro. Era apenas… dois amigos jantando.
Ao final, com o estômago cheio e o sol já mergulhado no horizonte, acertaram a conta, despediram-se do chefe e foram andando até a praia.
Nem repararam quando retiraram os sapatos, e deixaram a areia moldar-se sob seus pés. Fecharam os olhos e mexiam os dedos, relaxando-os no calor do dia que ainda permanecia nos grãos amarelos
Foram até um velho barco de pesca virado, e apoiaram-se nele, olhando as primeiras estrelas pontilharem o céu cor de aço.
E então, silêncio… Assim como a brisa do início da noite soprava os ares gelados do oceano para a ilha, foi como se o tempo mudasse entre eles; repentino, implacável.
O silêncio não era vazio; pesava como uma rede encharcada, carregada de tudo o que nunca haviam dito. O som das ondas era o mesmo daquele dia distante em que viram o mar pela primeira vez. Só que agora, onde antes havia euforia, restava apenas uma melancolia compartilhada.
Armin passou a mão pela madeira áspera do casco, os dedos seguindo sulcos que guardavam cheiro de sal e tempo. Mikasa abraçou os joelhos, o cachecol frouxo no colo, como se quisesse encolher-se do mundo. Uma mecha rebelde colou-se à sua têmpora com o suor leve. Antes que ela pudesse afastá-la, a mão de Armin se ergueu.
Ele ajeitou o fio atrás da orelha dela. Um gesto simples, repetido pela segunda vez naquele dia. Mas, ao contrário da primeira, não havia rubor nem hesitação. Apenas a naturalidade de algo que parecia… certo.
— Às vezes… — ele murmurou, olhando o reflexo prateado da lua no mar — me pergunto se ele conseguiria ver isso. O porto. Os trens. A fazenda da Lara. Se era isso que ele queria.
Ela não respondeu de imediato. O peito subia e descia devagar, como se precisasse domar o próprio coração. Finalmente, sua voz quebrou o som das ondas:
— Ele queria que fôssemos livres. Mas liberdade… pode ser uma prisão quando você não sabe o que fazer com ela.
Armin fechou os olhos. Imagens do porão, do menino chorando, dos olhos ardendo de raiva e dor lhe atravessaram como lanças.
— Ele nos deu o mundo… e o poder para destruí-lo. — sua voz saiu num sopro. — Às vezes acho que estamos fazendo isso de novo. Só que mais devagar.
O silêncio voltou, mas dessa vez carregava algo novo. Mikasa desenhou linhas invisíveis na areia com a ponta dos dedos, sem olhar para ele. O vento trouxe o cheiro de maresia e a encobriu por inteiro.
Então ela falou, quase num sussurro que parecia não querer romper a noite:
— Armin… você já desejou ter uma família?
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