Atração Involuntária
15 Capítulo 15
CAPÍTULO 15
Eu acordei no dia seguinte enroscada no corpo mais maravilhoso que existia na face da terra. Estava tão gostoso ali que eu não entendi o motivo de eu ter acordado de repente. Só quando uma batida na porta se fez ouvir foi que eu percebi que alguém tinha me acordado. Olhei para o relógio digital ao lado da cama. Quem era que estava me acordando às sete e meia em pleno sábado.
– Suzannah. – Era a minha mãe. – Suzannah, está acordada?
– Oi, mãe? – perguntei ainda deitada nos braços de Jesse.
– Você tem visita – ela falou do outro lado da porta.
Visita a essa hora?
– Já estou indo. – Eu não queria levantar agora. Ainda estava com sono graças à noite de reconciliação que eu tive com Jesse, mas eu não poderia deixar quem quer que tivesse vindo me visitar esperando por muito tempo.
– Suzinha – minha mãe tornou a chamar com a voz mais baixa.
– Oi?
– Eu acho melhor pedir para ela subir – ela falou no mesmo tom.
Eu estranhei o comportamento da minha mãe e a curiosidade venceu a preguiça. Levantei rápido e vesti um roupão.
– Quem está aí, mãe? – perguntei assim que abri a porta.
– Gina – ela respondeu com uma expressão estranha no rosto.
– Ah, você a conheceu. – Eu tirei a mecha de cabelo que caía no meu rosto e esfreguei os olhos.
– Sim. E parece que ela não está bem.
– Por que a senhora diz isso?
– Ela está com os olhos vermelhos e inchados como se tivesse chorado.
– Sério? – Minha mãe apenas confirmou com a cabeça lançando um olhar de compaixão para o andar de baixo. – Tudo bem. Pede para ela subir.
– Ok. – E se retirou antes que eu fechasse a porta.
Corri para o guarda-roupa para pegar alguma coisa para vestir. Jesse já tinha levantado da cama e também vestia sua roupa que estava no chão.
– Eu estou indo – ele falou e depois ouvimos uma batida leve na porta. Gina. – Me avisa quando eu puder voltar – ele sussurrou e se foi.
Eu corri para a porta depois que terminei de me vestir. Minha mãe tinha razão. Gina realmente estivera chorando.
– Oi – ela falou com a voz fraca. – Desculpa vir aqui essa hora.
– Não tem problema. – Eu não poderia expulsá-la dali no estado que ela se encontrava.
Seus olhos estavam muito vermelhos e inchados como minha mãe dissera, mas ela também estava com a aparência cansada, com olheiras profundas debaixo dos olhos brilhantes e usava as mesmas roupas de ontem que agora estavam amarrotadas. Parecia que ela não tinha dormido essa noite.
Fechei a porta depois que ela entrou e sentamos no tapete. Ela pegou uma das almofadas que estavam jogadas no chão e a abraçou. Seus olhos estavam cheios de lágrimas e ela respirou fundo tentando se recompor.
– O que aconteceu? – eu perguntei confusa e curiosa. Aquele comportamento parecia estranho para Gina. Eu a conhecia há apenas dois dias, mas já tinha percebido que ela era do tipo durona. Mais até do que eu.
– É Steph – ela respondeu deixando as lágrimas rolarem pelo seu rosto.
– Ela está bem?
– Ela está me dando nos nervos! Eu não aguento mais. – Eu fiquei em silêncio esperando que Gina continuasse. – Ela botou na cabeça que quer ser mediada. E fica me pedindo isso o tempo todo, dizendo que chegou a hora dela, mas eu não posso fazer isso. Eu não quero! – Ela me olhou suplicando por apoio. – Você acha que é egoísmo da minha parte me recusar a deixa-la seguir em frente?
– Não, eu não acho. – E não achava mesmo. Afinal, eu também tinha um fantasma que eu não queria que me deixasse. Se eu a achasse egoísta, eu também seria. – Mas por que ela resolveu isso agora? – perguntei tentando entender mais a situação.
– Já faz um tempo que ela vem falando sobre isso. Desde New York. – Ela suspirou abraçando mais a almofada. – Ela diz que eu preciso fazer mais amizades, conhecer mais pessoas. Por todos esses anos meu único amigo de verdade foi Paul, mas nos últimos meses ele passou a viajar constantemente e ficar fora por muito tempo, então eu passava quase o tempo todo sozinha. Foi quando ela começou com essa história. – Ela bufou irritada.
Eu novamente não falei nada e apenas esperei que ela continuasse.
– E piorou desde que descobrimos que eu viria para a Califórnia. Aqui eu não teria o meu melhor amigo por perto. Mas então, no primeiro dia de aula eu te conheci. – Ela sorriu. – Uma deslocadora em Carmel, na mesma escola que eu. Mundo pequeno esse, não acha?
– Com certeza – eu respondi acompanhando o momento de descontração.
– A gente se deu bem. E Steph percebeu isso. Ela disse que ficou muito feliz por eu ter feito amizade com você já que somos tão parecidas. Ela falou isso ontem à tarde quando eu fui em casa me trocar. Eu pensei que, finalmente, ela iria me deixar em paz com essa história de mediação, mas então ela mudou o discurso. – Seu rosto ficou triste novamente. – Ela disse que não tinha mais motivos para ficar aqui agora que eu fizera amizade com alguém. Que agora ela poderia seguir em frente sabendo que eu estava feliz, que não estaria sozinha. – As lágrimas escorreram com mais intensidade pelo seu rosto e ela as enxugou irritada. – Desde a hora que Paul me deixou em casa ontem ela começou a me seguir pela casa insistindo para eu ajuda-la a seguir em frente. Mas eu não posso fazer isso. Eu não posso! – Ela estava quase gritando de tanta frustração.
Nessa hora, alguém bateu na porta fazendo com que nós duas nos sobressaltássemos assustadas.
– Desculpa. Eu já volto. – Levantei e fui até a porta, abrindo-a e me deparando com minha mãe segurando uma bandeja com uma jarra de suco, dois copos, torradas, algumas frutas e geleia.
– Trouxe para vocês. É muito cedo e acho que sua amiga não deve ter tomado café da manhã também.
– Uau, mãe. Obrigada! – Minha mãe era realmente o máximo. E eu me senti péssima pela forma como eu falei com ela ontem à noite. Eu peguei a bandeja de suas mãos e pedi para ela esperar enquanto eu levava a bandeja para dentro e a coloquei em frente à Gina para que ela se servisse. Então voltei para a porta onde minha mãe ainda estava. – Mãe – eu comecei olhando nos seus olhos –, desculpa por ontem. De verdade.
Ela abriu um sorriso enorme e ergueu uma mão para acariciar meu rosto.
– Tudo bem, Suzinha. Eu entendo que você não estava no seu melhor momento.
– Não estava mesmo. – Eu também ergui a mão e acariciei seu rosto que já tinha algumas rugas de expressão. – Eu te amo, mãe.
Vi seus olhos encherem de lágrimas, mas sabia que eram de alegria.
– Eu também te amo, minha filha. – Ela continuou olhando para mim por um tempo e depois se afastou em direção às escadas. Eu ainda pude ouvi-la fungando antes de fechar a porta.
– Desculpa pela interrupção, Gina – eu pedi assim que sentei a sua frente novamente.
– Sua mãe é um amor. – Ela olhava para bandeja intocada a sua frente.
– É sim – eu confirmei pegando a jarra e servindo suco de laranja nos dois copos. – Come alguma coisa.
– Eu estou sem fome – ela falou, mas pegou uma maçã e mordeu um pedaço. – Eu não sei o que fazer, Suze. Eu me sinto tão má por não permitir que minha irmã siga seu caminho.
– Mas ela não vai conseguir seguir o caminho dela enquanto ela não descobrir o que a prende aqui. – Eu tinha que ser racional nessa hora. Não adiantava Gina ficar se martirizando com isso.
– Mas nós já sabemos o que é – ela falou tão baixo que eu quase não ouvi.
– E o que é?
– Eu. – Franzi as sobrancelhas, confusa com sua resposta. Ela percebeu isso e continuou explicando. – Sou eu que a prendo aqui, Suze. Quando ela morreu, depois que Paul me explicou tudo sobre o que eu sou, nós duas ficamos com medo de descobrir o que tinha acontecido no acidente porque pensávamos que era esse o motivo que a impedia de seguir em frente. Mas depois de um tempo, a vontade de saber o que tinha matado minha irmã foi mais forte e eu a convenci a ir atrás da história de uma vez por todas. Descobrimos que um bêbado tinha provocado o acidente e que ele já estava preso pelo que aconteceu. E, para a nossa surpresa, Steph continuou aqui depois disso. – Ela fez uma pausa para tomar ar e dar outra mordida na maçã. – Depois de um tempo nós descobrimos que era a nossa união que a mantinha aqui. Nós sempre fomos muito unidas e isso ficou ainda mais forte depois que ela morreu. Então, a única coisa que fará com que ela siga o caminho dela é se ela quiser ir embora e se eu também quiser isso. Mas eu não quero. E eu sei que ela também não quer ir. E quando eu me recusei a deixa-la ir embora, ela me lembrou que tinha opções. Que ela poderia pedir para outra pessoa ajuda-la. – Gina me encarou com os olhos torturados pela dor. – Ela estava se referindo a você, Suze.
– A mim? – eu perguntei confusa, mas então eu entendi. Eu era uma deslocadora. Eu poderia leva-la ao mundo dos mortos mesmo sem resolver sua pendência nesse mundo. Meneei a cabeça com força. – Eu nunca faria isso. Eu nunca levaria a sua irmã para aquele lugar, Gina.
– Promete?! – Ainda havia dor no seu olhar, mas havia também uma súplica urgente.
– Prometo!
Nos encaramos por alguns segundos e ela viu a verdade nos meus olhos.
– Eu sei que ela só está fazendo isso porque acha que é o melhor para mim. Mas não é!
Eu percebi que nós éramos mais parecidas do que eu tinha pensado. Afinal, eu não tivera mais ou menos essa mesma conversa com Jesse na noite passada? Ele querendo me deixar porque julgava ser o melhor para mim?
– Eu entendo como você se sente, Gina.
– Entende? – Ela me encarou com o rosto aflito e esperançoso.
– Sim. Mais do que você imagina. – Eu não via mais motivos para esconder minha vida para ela. Gina tinha revelado sua fraqueza para mim e nada mais justo do que me expor para ela também. Eu respirei fundo criando coragem para o que estava prestes a fazer. – Tem alguém que eu quero que você conheça. – Fechei os olhos e me concentrei naquele rosto familiar.
Jesse apareceu logo em seguida e me encarou confuso quando viu que eu não estava sozinha.
– Suzannah, o que...?
– Está tudo bem, Jesse. – Eu me ergui e fui ao seu encontro, parando ao seu lado e me virei para encarar Gina que também tinha se levantado. Ela me olhava confusa e curiosa. – Jesse, essa é Gina – eu comecei as apresentações. – Gina, esse é Jesse, meu namorado.
A expressão de Gina ficou variando entre incrédula, confusa e estranhamente feliz. Jesse estava parado ao meu lado, completamente imóvel, com os ombros rijos e encarava Gina aguardando sua reação.
– N–namorado? – ela gaguejou.
– Sim.
– Mas ele é um... fantasma. – A incredulidade estava prevalecendo na sua reação. Ela olhava para mim e para ele com o cenho franzido.
– Eu sei. – Eu ri de leve.
– Isso é... muito esquisito – ela falou ainda nos olhando chocada. – Como é que se namora um fantasma?
– Você sabe que para mim isso não faz diferença. – E eu confirmei isso pegando a mão de Jesse na minha. Ele continuava calado e parado como uma estátua. – Relaxa Jesse. Está tudo bem.
– Eu não acho isso uma boa ideia – ele falou, sua voz saindo baixa por entre os dentes.
– O que foi? – Gina perguntou estranhando a atitude de Jesse. – Ele não está com medo de mim, está?
– Não exatamente. Mas nós tínhamos concordado que não era uma boa ideia que você ou Paul soubessem sobre ele para não... – Eu hesitei nesse momento e a dúvida surgiu na minha mente. Não por Gina, mas por Paul.
– Para nós não tentarmos mediá-lo – Gina completou nos encarando séria. – Agora eu entendo. – Então ela olhou para Jesse e ele sustentou seu olhar. – Pode ficar tranquilo. Eu sei bem pelo que vocês estão passando. Não vou me meter nisso.
– E Paul? – Jesse fez a pergunta como se lesse meus pensamentos e temores.
– Ele provavelmente diria a mesma coisa. Até por que Paul não é muito ativo nessa coisa de mediar. Ele gosta mais de estudar o assunto do que coloca-lo em prática.
– Ainda assim eu prefiro que você não mencione esse assunto com ele – eu pedi ainda segurando a mão de Jesse com firmeza.
– Tudo bem. Mas Paul não está mais na cidade.
– Não?
– Não. Ele foi embora ontem à noite mesmo. Ele me ligou para se despedir. Disse que já tinha feito o que tinha que fazer aqui na Califórnia. Pensei que ele tinha te ligado também.
– Não ligou. – E isso não me importava nem um pouco. Era bom saber que ele tinha cumprido a promessa de não insistir caso eu o recusasse.
– Bem, ele voltou para New York agora. – Então ela deu de ombros como se encerrasse o assunto e nos encarou curiosa com um sorriso no rosto. – Há quanto tempo vocês estão juntos?
– Pouco mais de um mês – respondi o encarando. Era incrível como tinha se passado tão pouco tempo desde que nos conhecemos e tanta coisa já tinha acontecido.
– Cara! – Gina exclamou. – Que coisa estranha. Legal, mas estranha.
Nós rimos e nos sentamos no tapete novamente – Jesse sentou ao meu lado, agora mais relaxado – e Gina começou nos interrogar sobre tudo.
– Como vocês se conheceram? – ela perguntou empolgada enquanto pegava uma torrada e passava geleia em um dos lados.
Era bom ver que ela estava melhor agora que ela via que não era a única que se encontrava naquela situação. E depois de ter desabafado seus problemas ela estava mais leve e sorridente. E faminta.
– Ele morava no meu quarto quando eu me mudei – eu respondi, lembrando do dia que chegara na casa e vira Jesse pela primeira vez no meu quarto sentado no assento da janela que Andy tinha feito para mim.
– E como foi que aconteceu tudo? – ela estava empolgada com a situação e mudava de posição a todo instante como se quisesse estar mais confortável para ouvir tudo, mas que fazia com que ela parecesse uma pipoca.
Eu corei intensamente quando ela fez a pergunta, recordando de como tudo havia acontecido no dia que nos conhecemos. A atração instantânea que sentimos um pelo outro e como quase fizemos sexo naquele mesmo dia. Jesse também estava tão constrangido quanto eu, mas com a diferença que ele não corava. E é claro que Gina percebeu isso.
– Meu Deus! – ela exclamou no meio de uma risada alta. – Por que você está tão corada Suze? – E riu ainda mais, nos avaliando com os olhos perspicazes.
– Nós... – eu tentei começar, mas estava insegura sobre o que falaria. Não queria parecer uma pervertida. – Bem... Foi meio que uma coisa instantânea, sabe?
– Não. Eu não sei – ela respondeu com uma cara de curiosa inocência que não me enganou. Ela sabia muito bem do que eu estava falando.
– Foi... – eu tentei começar de novo, mas era muito estranho falar sobre aquilo. Ainda mais com Jesse me olhando com aqueles olhos negros intensos que deixava a recordação daquele dia ainda mais vívida.
– Foi amor à primeira vista – Jesse respondeu por mim com a voz suave e olhando nos meus olhos.
Senti um carinho imenso me invadindo naquele momento. Minha vontade era tocar seu rosto perfeito e beijar aqueles lábios macios até ficar sem fôlego, mas eu sabia ao que isso poderia levar e nós tínhamos companhia.
– Uau – Gina murmurou e eu olhei para ela. Ela nos encarava com os olhos arregalados e um sorriso nos lábios. – É amor de mais. Por acaso vocês querem que eu saia para que vocês tenham mais privacidade.
– Gina! – eu a repreendi, mas não pude evitar um sorriso.
Gina continuou a nos fazer perguntas sobre quem tinha beijado quem pela primeira vez, como tinha sido, quem tinha se declarado primeiro, como tinha sido, se alguém da casa desconfiava de algo. Eu lhe disse que Brad sabia que estávamos juntos, mas sem saber que ele era um fantasma.
– Como foi que ele descobriu? – ela perguntou depois que terminou seu suco. A bandeja entre nós já estava vazia.
– Ele... Nos ouviu.
– Ouviu vocês conversando? – Seu cenho estava franzido. – E não desconfiou que você estava falando sozinha?
– Não. Não foi bem uma conversa que ele ouviu. – E novamente eu corei. Jesse olhou para mim e riu de leve.
– Vocês n–não... – Seus olhos se arregalaram novamente. – Você está querendo dizer que vocês já... – E não concluiu a frase. Não precisava.
Eu apenas acenei positivamente com a cabeça corando mais do que nunca. Parecia uma daquelas menininhas bobas.
Gina continuou com os olhos arregalados por alguns segundos. Um minuto. Dois minutos. Três. Aquilo já estava ficando sem graça. Estava prestes a chacoalha-la pelos ombros quando ela pareceu despertar do transe e começou a rir alto. Na verdade, ela gargalhava tanto que se contorcia segurando sua barriga. Eu olhei para Jesse apenas para ver que ele estava tão aturdido quanto eu.
Ela não parava de rir por mais que eu pedisse. Ela só parou de rir quando Jesse, que já estava tão chateado com a situação quanto eu, estendeu a mão e tocou seu ombro. Mas é claro que nela, diferente de quando ele me tocava, sua mão atravessou seu corpo, fazendo com que ela desse um pulo ficando em pé de imediato e o olhando irritada.
– Hei, parou a palhaçada, cara! – “Cara?” Ela chamou Jesse de “cara”? Eu tive que rir com essa.
– Parou mesmo – ele respondeu ainda sentado ao meu lado e ainda sério.
Gina sentou novamente, bufando e pegando a almofada novamente, que tinha caído do seu colo.
– Humpf. Eu não gostei disso.
– Desculpe – ele pediu gentilmente. – Eu só fiz aquilo para você parar.
– Tanto faz – Gina deu de ombros, ainda um pouco irritada, mas um sorriso já começava a despontar nos seus lábios novamente. – Desculpa pela crise também. Mas é que eu fui pega de surpresa. Foi mal. Bem... Mudando de assunto... Quantos anos você tem Jesse?
Mudança radical de assunto! Mas eu tinha a impressão que isso era temporário. Algo me dizia que ela iria me bombardear de perguntas quando estivéssemos a sós.
– Vinte. Pelo menos era o que eu tinha quando morri.
– E há quanto tempo você está morto?
– Cento e cinquenta anos.
– Caraca! Muito tempo.
– Sim – ele respondeu simplesmente.
– E como foi que você morreu?
A pergunta que não quer calar. Mas Jesse não respondeu. Apenas olhou para mim com o cenho franzido e eu vi o que se passava naqueles olhos negros.
– Ela não está te mediando – eu respondi à sua pergunta silenciosa. – É só curiosidade.
– Nossa! Que carinha mais desconfiado – Gina exclamou olhando risonha para Jesse.
– Eu não lembro – Jesse respondeu a sua pergunta voltando a encará-la, ignorando o comentário.
– Não lembra o quê? – ela perguntou confusa.
– Como eu morri. Eu não lembro.
– Ah. E vocês não têm curiosidade de saber o que aconteceu? – ela perguntou apontando seu dedo indicador para nós dois.
É claro que eu tinha curiosidade. E meios para satisfazer a curiosidade. Mas parecia que o maior interessado no assunto não se importava muito com isso. Ou era o que eu pensava.
– Sim – ele respondeu, para a minha surpresa.
Eu o encarei sem acreditar na sua resposta.
– E ainda não descobriu nada por quê? – Gina perguntou totalmente alheia à minha reação.
Mas Jesse percebeu.
– Eu já tentei – ele respondeu evitando meu olhar. – Mas não há nenhum registro da minha morte. Apenas um registro policial de ‘desaparecido’ feito pela minha família.
Como é que eu não sabia disso? Todo esse tempo Jesse nunca tinha me contado isso e agora falava como se fosse a coisa mais simples do mundo.
– Jesse... – eu tentei falar, mas tudo o que saiu foi um sussurro.
Ele me olhou finalmente. Mordia o lábio inferior como se estivesse constrangido, mas não falou nada.
– Por que você nunca me contou isso?
Gina percebeu que tinha tocado em um assunto delicado devido à nossa expressão e ficou em silêncio.
– Jesse – eu insisti quando ele continuou olhando para mim sem falar nada. – Por que você não me falou nada quando eu te perguntei como você havia morrido?
– Por que quando você perguntou, eu ainda não sabia. Mas depois da nossa conversa, eu fiquei curioso.
– E ainda assim não me falou nada. – Eu não precisava esconder a mágoa que eu sentia por Jesse ter escondido algo tão importante de mim.
– Eu ia falar se descobrisse alguma coisa, mas eu não descobri. – Ele estendeu a mão para tocar meu rosto e eu permiti o contato. – Então achei melhor não te falar nada para você não ficar pensando no assunto quando não havia nada que você pudesse fazer.
– Mas eu posso fazer algo. Eu posso te ajudar. Você só...
– Eu não quero esse tipo de ajuda, Suzannah – ele me interrompeu agora ainda mais sério.
– Mas Jesse...
– Não, Suzannah! – ele ficou em pé e se pôs a andar pelo quarto visivelmente irritado. – Nós já conversamos sobre isso.
– Er... Posso me meter? – Gina perguntou insegura. Nós só olhamos para ela esperando. – Vocês estão se referindo ao fato de que Suze pode voltar ao passado?
– Sim – eu respondi. – Mas Jesse não quer que eu faça isso.
– E não quero mesmo! – ele afirmou ainda do outro lado do quarto.
– Por quê? – ela perguntou sem entender. – Afinal, isso pode resolver logo esse mistério de uma vez por todas. – Ela agora olhava apenas para Jesse. – Você não está com medo de que isso possa te fazer ir para o outro mundo, está?
– Não – ele respondeu frio. – Eu só não posso permitir que ela se machuque por minha causa.
– Jesse... – eu tentei falar.
– Suzannah... – ele me interrompeu pronto para discutir novamente.
– Se machucar por quê? – Gina o interrompeu para meu alívio.
– Paul falou sobre isso – eu expliquei. – Sobre aquela coisa das células morrerem com o deslocamento.
– Mas ele disse que isso só te machucaria se você fizesse isso com frequência. Uma vez apenas não vai te matar.
– Fala isso para ele – eu falei apontando para Jesse.
– Hermosa, por favor...
– Jesse, só uma vez não vai me fazer nada – eu fiquei de pé também e andei na sua direção.
– Eu não vou arriscar. E vamos encerrar esse assunto, por favor.
– Posso me meter de novo? – Gina perguntou se levantando.
– Claro – eu respondi antes que Jesse pudesse fazer isso.
– Jesse – ela começou olhando para ele –, quando a gente fala que ela não vai se machucar se fizer isso só uma vez, não...
– Eu já disse que não vou arriscar – ele a interrompeu sendo ríspido com ela também.
– Mas não tem o que arriscar – ela estava sendo racional e não se importou com a cara de poucos amigos que Jesse lhe direcionou. – Se ela fizer isso apenas uma vez, o máximo que pode acontecer com ela é ela ficar com dor de cabeça. Nada que uma aspirina não resolva.
Ok. Isso eu não sabia. Eu vinha falando para Jesse apenas o que Paul tinha me falado aquela tarde. Mas não sabia de detalhes.
– É sério – ela afirmou. – Eu ouvi o avô de Paul falando isso uma vez. Ele até deu um exemplo. Ele disse que era como uma pessoa pular de um lugar de um metro e meio de altura. Se essa pessoa fizesse tudo direitinho, o máximo que poderia acontecer era ficar com o pé queimando do impacto. Nada mortal. Mas que se a pessoa pulasse de uma altura de três metros já poderia ter um estrago maior. Ele comparou o segundo pulo com um segundo deslocamento. Ainda não mata, mas pode te machucar mais sério.
Tanto eu quanto Jesse ficamos sem fala diante da explicação de Gina. Mas eu não demorei muito para quebrar o silêncio.
– Está vendo só, Jesse? – eu falei me virando para encará-lo.
– Hermosa... – Mas agora não havia mais a frieza na sua voz. Ele certamente estava indeciso agora que sabia de tudo isso. E eu aproveitei a brecha.
– Jesse, por favor, me deixa te ajudar. – Eu me aproximei dele e peguei suas mãos nas minhas. – Eu te prometi que só faria isso se você consentisse, mas eu quero muito poder te ajudar. Eu quero descobrir o que aconteceu com você naquela noite, meu amor. Por favor, diz que sim.
Eu via a aflição percorrendo seus olhos e seu rosto. Eu sabia que ele também queria aquilo, mas ainda tinha medo por mim. Mas agora nós dois sabíamos que não havia pelo que temer. Afinal, eu só faria isso dessa vez.
Ele respirou fundo, soltou o ar pesadamente e me puxou para si num abraço, sussurrando no meu ouvido.
– Sim.
Eu o afastei empurrando-o de leve pelo peito para poder olhar nos seus olhos.
– Mesmo? – eu perguntei sem conseguir acreditar.
Ele apenas acenou com a cabeça, mas eu precisava ouvir.
– Peça. – Seu cenho franziu enquanto ele me olhava intrigado. – Eu te prometi que só faria isso se você pedisse. Você ainda não pediu.
Jesse abaixou a cabeça sorrindo e manteve o sorriso no rosto quando voltou a me olhar.
– Eu não acredito que eu vou fazer isso. – Ele tomou ar como se quisesse criar coragem e ficou sério novamente. – Suzannah, você poderia se deslocar para o passado para descobrir como eu morri?
Nem eu acreditava que ele tinha pedido isso. Pulei nos seus braços depois de responder um sonoro “sim” e envolvi seu pescoço com meus braços antes de beijá-lo. Estava mais do que feliz. Estava radiante. Mas também estava nervosa, embora não deixasse ninguém perceber. Não pelo medo de me machucar. Não tinha mais motivos para isso. Mas porque seria a primeira – e única – vez que eu iria me deslocar. E faria isso essa noite. Sim, porque não havia mais motivos para esperar. Essa decisão estava tomada e eu não iria correr o risco de Jesse mudar de ideia. Estava nervosa, sim. Mas muito mais ansiosa pela noite. A noite que eu finalmente descobriria o que aconteceu com Jesse há cento e cinquenta anos. A noite que eu finalmente iria descobrir como era ser uma deslocadora no sentido mais completo da palavra.
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