CAPÍTULO 16

Jesse, é claro, não gostou nem um pouco quando eu disse que queria fazer aquilo essa noite. Ele disse que o melhor era esperar um pouco para que eu pudesse me preparar melhor, mas depois de um diálogo tranquilo ele aceitou minha decisão.

Acertamos tudo nos mínimos detalhes. Gina iria passar a noite na minha casa para dar apoio moral e me ajudar a acalmar um certo fantasma que não parava de resmungar, mesmo tendo concordado com tudo. Nós fomos a casa dela pegar alguma roupa e quando voltamos o almoço já estava pronto. Mais uma vez minha mãe quase surtou – de uma boa maneira – quando eu falei que Gina iria dormir ali. Ainda bem que Brad e Jake tinham saído antes mesmo que eu e Gina saíssemos do quarto ou teria sido impossível repetir a lasanha deliciosa que Andy tinha feito para nós.

Depois que comemos decidimos ir para a praia para relaxar um pouco. Foi uma tarde tranqüila embora eu não conseguisse parar de pensar sobre o que estava por vir. Gina também estava do mesmo jeito mesmo não sendo ela que iria fazer tudo. Ficamos sentadas na areia debaixo de um guarda-sol que minha mãe nos obrigou a trazer e planejamos tudo para aquela noite. Jesse queria vir conosco, mas Gina o cortou dizendo que precisava de um tempo sem fantasmas e sem ninguém do sexo masculino por perto.

E ela aproveitou boa parte desse nosso tempo para me interrogar sobre tudo – eu disse tudo – que já tinha acontecido entre nós dois. E ela pediu detalhes. Muitos detalhes. Eu corava a todo instante, mas até que estava gostando. Nunca tinha tido esse tipo de conversa com ninguém e no começo foi estranho, mas acabei me soltando depois de alguns minutos.

Depois que esgotamos o assunto sobre minha vida sexual com Jesse, partimos para o que realmente importava. Nossa intenção inicial era levar Jesse comigo para que ele pudesse me ajudar caso ocorresse algum problema, mas logo descartamos essa ideia quando nos lembramos de uma simples lei da física: “dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo”. O que significava que eu não poderia levar o fantasma de Jesse para o dia que ele morreu já que sua alma ainda estaria dentro do seu corpo humano. E o que significava que eu iria voltar cento e cinquenta anos no tempo, completamente sozinha.

Depois que todos fossem dormir eu iria me transportar para o momento em que Jesse tinha ido dormir. O último momento que ele lembrava de si com vida. Deveria ficar escondida na escuridão do quarto, observar tudo em silêncio e voltar para o presente logo em seguida, independente do que tivesse acontecido. Esse era o plano. E eu iria segui-lo à risca. Não poderia correr o risco de alterar alguma coisa no passado que pudesse comprometer meu presente com Jesse.

Estávamos tão entretidas na conversa que levamos um susto quando Jake apareceu do nosso lado com três garrafas de refrigerante nas mãos.

– Pega. – Ele nos estendeu duas das garrafas. – Vocês estão aí há horas e ainda não beberam nada. Vão acabar ficando desidratadas.

– Obrigada. – Eu peguei uma garrafa e Gina pegou a outra encarando Jake com um estranho brilho no olhar. – Onde você estava? Não tinha te visto.

Ele apenas deu de ombros e olhou para o mar sem falar nada. Estava apenas de bermuda deixando todo o resto do seu corpo à mostra. Se as barbies da escola o visse nesse momento provavelmente já estariam babando e se atirando no seu pescoço.

Senti um dedo cutucando forte a minha costela e me virei para brigar com Gina, quando a vi me olhando ansiosa e disse um “me apresenta” apenas movendo os lábios em um pedido mudo.

– Ah, foi mal – sussurrei para que Jake não ouvisse. – Jake – chamei e ele se virou na minha direção. – Essa é minha amiga Gina. Gina, esse é meu meio-irmão mais velho, Jake.

Ele estendeu sua mão enorme para apertar a dela e, sem o menor pudor, percorreu todo seu corpo com os olhos e sorriu em seguida, provavelmente gostando do que vira.

– É um prazer conhece-la – ele falou galanteador.

O que era isso? Jake dando em cima de Gina? E ao que parecia Gina estava correspondendo. Pelo visto não eram apenas as barbies da escola que se sentiam atraídas por ele, pois logo em seguida Gina o convidou para se juntar a nós debaixo do guarda-sol.

Depois de alguns minutos eu senti que estava sobrando quando passei a ser completamente ignorada pelos dois que conversavam animados. Levantei dizendo que iria para casa, mas não tinha certeza se tinha sido ouvida.

Cheguei em casa dando um rápido “oi” para minha mãe e Andy que estavam na cozinha preparando o jantar. Mas eu sabia que minha mãe só estava ali para ficar perto de Andy, já que ela não tinha nem um pingo de vocação para cozinheira. Subi as escadas e fui para o meu quarto. Jesse estava lá como de costume, mas estava estranho. Ele estava parado no meio do quarto e tinha um olhar ansioso no rosto. Assim que eu fechei a porta ele andou até mim e me puxou até o assento na janela.

– Eu estou com medo, hermosa – ele finalmente falou.

– Não precisa ficar assim. – Eu peguei sua mão na minha tentando confortá-lo. – Vai dar tudo certo.

– Isso não é certo – ele murmurou como se falasse para si. – Você não deveria fazer isso.

– Jesse – eu não podia acreditar que ele já estava mudando de ideia. Ok, eu podia sim. Era exatamente por isso que eu fazia questão de ir o mais rápido possível. – Eu quero fazer isso.

Ele ficou em pé e voltou a andar pelo quarto como tinha feito na noite anterior. Eu apenas continuei sentada observando-o.

– Você não deveria se sentir obrigada a fazer isso...

– Jesse – eu o interrompi –, eu já disse que eu quero.

– Por minha causa – ele falou completamente frustrado.

– Sim. Mas não porque você me obrigou. – Levantei e fui até ele. – Eu faço isso por você. Por nós. Você viveu todo esse tempo sem saber o que aconteceu naquela noite e agora...

– Eu quero saber o que aconteceu, mas eu não quero que você tenha que ver! – ele praticamente gritou.

– Do que você está falando, Jesse? – eu perguntei assustada, parando onde estava, a apenas alguns passos dele.

Ele diminuiu essa distância ficando na minha frente.

– Eu quero que você me prometa uma coisa. – Ele ergueu as suas duas mãos para segurar meu rosto entre elas. – Prometa que independente do que você ver por lá, você não fará nada.

– Nós já planejamos tudo essa tarde. Eu chego lá, me escondo, vejo tudo e volto logo depois – falei com simplicidade como se estivesse indo ao shopping comprar meias.

– Prometa! – ele exigiu.

– Ok. – Eu não via motivos para ele estar tão alterado. – Eu prometo. – Também peguei seu rosto entre as minhas mãos forçando-o a me olhar nos olhos. – Agora me explique.

Jesse apenas soltou o ar pesadamente e tentou se afastar, mas eu não permiti. E ele viu que eu não desistiria tão fácil.

– É só que eu... – ele começou, mas aquilo parecia difícil para ele. – Eu não queria que você tivesse que ver como eu morri.

– Mas você não sabe o que aconteceu. – Do que ele estava falando?

– Suzannah – ele murmurou –, não precisa ser nenhum gênio para saber o que houve.

Agora ele vinha insultar a minha inteligência?

– Jesse, eu não...

– Eu fui assassinado, Suzannah.

Eu o encarei, chocada com sua revelação. Chocada não. Assustada. Eu não poderia estar chocada quando eu via a lógica na afirmação de Jesse. Lógica, porque, de que outra forma um homem jovem e saudável como ele poderia ter morrido assim de uma hora para outra? Mas ainda assim era estranho ouvi-lo falar aquilo. Tornava as coisas ainda mais reais.

– E eu não queria que você tivesse que ver isso – ele continuou quando eu não falei nada.

Eu deveria estar me perguntando por que eu ainda iria para o passado agora que já sabia como Jesse tinha morrido, mas não estava. Ainda precisávamos saber quem tinha feito aquilo e por quê. A parte do “quem” era fácil, mas o “por que”... Bem, aí já seria mais complicado.

– Vai dar tudo certo – eu o tranquilizei.

Ele me encarou por alguns segundos e depois me envolveu nos seus braços em um abraço firme.

Ficamos ali no meio do quarto, apenas abraçados, por não sei quanto tempo, até que Gina entrou no quarto.

– Epa – ela falou risonha. – Estou atrapalhando alguma coisa?

Nós sorrimos e nos afastamos um pouco.

– Não fiquem encabulados com a minha presença – ela continuou depois que fechou a porta. – Se vocês quiserem, eu posso sair novamente para deixar vocês mais à vontade.

– Para com isso Gina – eu pedi tentando não rir, mas falhando miseravelmente.

Jesse passou seu braço pelos meus ombros me puxando para perto novamente e beijando minha testa.

– Eu te amo, hermosa – ele sussurrou no meu ouvido fazendo um arrepio gostoso subir pelo meu corpo.

– Ai que fofo! – Gina exclamou ainda parada ao lado da porta nos observando.

Era impossível não rir com essa garota.

– Eu vou sair agora para dar privacidade a vocês – ele falou antes de beijar meus lábios de leve, para deleite de Gina, e se foi.

Depois que tomamos banho, nós duas descemos para jantar e toda a família já estava lá. Andy estava trazendo as últimas caçarolas de batatas gratinadas para a mesa, minha mãe conversava animadamente com David sobre algum programa da National Geographic e Jake e Brad se empurravam numa brincadeira totalmente sem propósito a caminho da mesa. Mas assim que Jake nos viu chegando, ou melhor, viu Gina chegando, ele parou a brincadeira no mesmo instante e se adiantou para puxar a cadeira para ela. E eu posso até parecer chata por ter me dobrado de rir naquela hora, mas se eu sou chata então todo o resto da família também era. Porque, na hora que Jake fez o que fez, rolou um silêncio sinistro na sala de jantar seguido de uma gargalhada geral.

– Parem com isso – Gina pediu embora também sorrisse. – Isso foi muito fofo, Jake. Obrigada.

– É Jake – Brad comentou tentando parar de rir, mas sem muito sucesso. – Foi super fofo. E depois do jantar nós poderíamos sentar na varanda e tricotar um casaquinho rosa.

– Vai se ferrar, seu imbecil – Jake esbravejou e se sentou ao lado de Gina irritado.

– Olha o linguajar, rapaz – Andy repreendeu ainda rindo.

Depois que passou o acesso de riso, sentamos e comemos em paz. Eu tentava não olhar quando a mão do meu meio-irmão deslizava para a perna da minha amiga, mas era meio difícil já que ela estava sentada do meu lado.

Hoje era o meu dia de lavar os pratos então eu fui para a cozinha esperando que Gina e minha mãe, que se responsabilizaram por tirar a mesa, trouxessem os pratos para mim. Depois minha mãe foi para a sala assistir TV e nós duas ficamos conversando bobagens enquanto eu lavava os pratos e Gina os secava. Então subimos para o meu quarto para esperar que todos fossem dormir. Era provável que tivéssemos que esperar por umas três horas devido à agitação no andar de baixo.

Ficamos os três no quarto apenas esperando. Nós estávamos tão ansiosos pelo que estava por vir que não conversávamos. Eu estava sentada na minha cama, Gina estava no sofá cama que minha mãe tinha arrumado para ela e Jesse estava no assento da janela. Os três em silêncio esperando pelo silêncio do resto da casa.

Já passava da meia noite quando finalmente começamos a por nosso plano em ação. A primeira coisa que fiz foi trocar o pijama, que eu tinha vestido caso alguém resolvesse aparecer no meu quarto, por algo mais quente.

– Eu lembro que estava frio naquela noite – Jesse falou. – Então é melhor se agasalhar bem.

Eu percebia que ele continuava nervoso com tudo aquilo, mas estava fazendo o possível para nos ajudar.

Gina estava estranhamente calada, mas eu estava muito ansiosa para comentar alguma coisa.

Eu peguei um casaco grosso preto e vesti por cima da regata da mesma cor. Usava uma calça jeans e tênis também preto. Escolhemos essa cor porque seria mais fácil me esconder na escuridão dessa forma.

– Qual é o melhor lugar para eu ficar no quarto para que ninguém me veja? – eu perguntei enquanto fechava o zíper do casaco.

– O guarda-roupa – Jesse respondeu depois de pensar um pouco. – Eu não desfiz minha mala quando cheguei de viagem então estará vazio.

– Certo. Então é isso. Eu vou...

– Suze, espera – Gina exclamou de repente saltando da sua cama e vindo na nossa direção. – Eu acabei de me lembrar de uma coisa. Quer dizer, eu sabia que estava faltando alguma coisa, mas não lembrava o que era, mas agora eu lembrei. Eu não lembrava bem porque, como eu já disse antes, eu não acreditava de verdade que existiam deslocadores, então eu não prestei muita atenção quando ele falou.

– Fala de uma vez, Gina – eu pedi quando ela começou a enrolar.

Ela parou arfando na nossa frente e se pôs a explicar.

– Eu estava na casa de Paul um dia quando ele começou a falar com o avô sobre como seria para um deslocador voltar no tempo. E ele falou de alguns detalhes que a gente não levou em consideração.

– Do que você está falando? – Jesse perguntou ficando mais nervoso do que antes.

– São coisas que devem ser preparadas antes da viagem.

– Que tipo de coisas? – foi a minha vez de perguntar.

– Uma das coisas que ele falou foi que o deslocador deveria visualizar bem o local de destino para não correr o risco de parar no lugar errado. Ou no tempo errado.

– E você só vem falar isso agora? – Jesse perguntou irritado com ela.

– Eu já disse que eu só lembrei agora – ela respondeu ofendida com a acusação.

– Não tem problema, Gina. – Repreendi Jesse com o olhar e voltei minha atenção para Gina. – Antes tarde do que nunca. Essa parte é fácil a gente resolver. É só Jesse me dizer como ele lembra como estava o quarto naquela noite. Tem mais alguma coisa?

– Sim. Ele também disse que a pessoa tem que levar algum pertence da época para fazer a conexão entre os dois tempos.

Eu encarei Gina, parando de respirar, sem acreditar no que estava ouvindo. Como eu faria para conseguir achar um objeto daquela época? Talvez em um museu, mas eu não tinha tempo para ir a um museu agora.

Eu olhei para Jesse esperando ele falar que era melhor a gente deixar isso para outro dia já que surgiu esse contratempo, ou até que ele sugerisse desistirmos da ideia, mas quando ele viu minha cara desolada, ele apertou os lábios como se quisesse reter as palavras que estavam para sair. Então, respirou pesadamente antes de falar.

– Isso também é fácil de resolver. – E sumiu.

Eu já disse o quanto eu odeio quando ele faz isso? Como eu odeio quando ele some assim sem dar explicações? Pois é, eu odeio! Gina me olhava como se não tivesse entendido nada, mas que explicação eu poderia dar para ela? Eu também não entendia. Depois diziam que as mulheres eram as complicadas. Humpf.

Depois de meio século de espera... Ok, sem exagero. Depois de cerca de cinco minutos esperando, Jesse retornou com um sorriso triunfante no rosto. Sem falar nada ele se aproximou de mim e me estendeu algo que estava na sua mão direita.

Um pequeno retrato de... De Jesse. Na verdade, era uma pintura, mas uma pintura tão bem feita que era impossível não saber quem era. Na imagem, que só mostrava seu rosto e seus ombros, ele estava com uma expressão como se alguém tivesse contado algo sem o mínimo interesse para ele. Como se ele não se importasse menos com o que lhe fora dito. Ele usava uma daquelas gravatas antigas que a gente costuma ver nos filmes de época, um negócio grande, largo e cheio de dobras, enrolado algumas vezes no pescoço. E ele estava fantástico, claro.

Eu peguei a miniatura nas mãos e encarei Jesse sem palavras.

– Estava no museu. – Ele deu de ombros e fez aquela mesma expressão que havia na imagem nas minhas mãos. Como se aquilo fosse um assunto sem importância. – Foi a fotografia que minha família entregou à polícia quando tentaram me encontrar.

– Você roubou isso, Sr. Jesse? – eu perguntei sorridente.

– Peguei emprestado – ele me corrigiu. – E pretendo devolver isso antes que perceba que desapareceu.

– Você é perfeito, sabia? – eu falei me aproximando do seu corpo maravilhoso.

– Eu estou longe de ser isso, hermosa – ele respondeu me abraçando.

– Ok – Gina nos interrompeu. – Deixem isso para depois. Jesse ainda precisa detalhar o local para onde você está indo.

E foi o que Jesse fez.

Então, depois que confirmamos que não havia mais nada para providenciar, eu respirei fundo para me preparar para me deslocar pela primeira vez.

– Se cuida, Suze – Gina falou.

Eu estava em pé no meio do quarto com Jesse e Gina à minha frente.

– Hermosa, se algo der errado...

– Nada vai dar errado, Jesse – eu o interrompi.

– Mas se algo acontecer...

– Eu volto no mesmo instante – eu o interrompi novamente.

– E lembre-se do que você prometeu.– ele falou com a voz ansiosa.

– Uhum – eu murmurei. – Independente do que ver por lá, eu não farei nenhuma bobagem.

– Certo.

– Relaxa Jesse – eu o tranquilizei, embora não me sentisse tão segura assim. – Vai dar tudo certo.

Ele se aproximou de mim e me abraçou forte.

– Ainda está em tempo de desistir disso tudo.

– Eu não vou desistir. – Eu o encarei com a expressão mais firme que eu consegui colocar no meu rosto. – Agora você precisa se afastar para eu me concentrar.

– Eu te amo – falou com a voz rouca. – Não demora, por favor.

– Farei o meu melhor.

Ele me beijou nos lábios de leve e deu alguns passos para trás parando ao lado de Gina novamente.

Era isso. Agora tudo que eu precisava fazer era me concentrar no que deveria fazer.

Fechei os olhos e a primeira coisa que eu fiz foi visualizar o quarto que Jesse tinha me descrito detalhadamente. Me concentrei na cama de metal com uma colcha colorida, na estante de gavetas, com um jarro e uma bacia em cima, exatamente no mesmo lugar que estava a minha penteadeira agora, no piso com tapete de algum tecido que Jesse não soube explicar o que era, mas que disse ser de um tom cinza escuro, no guarda-roupa antigo com apenas duas portas. A primeira parte estava concluída.

Depois eu me concentrei no tempo exato. Sem carros, computador, celular, televisão, aparelho de som, avião. Apenas grama, árvores e um céu cheio de estrelas que não víamos mais devido à iluminação das ruas. Enquanto pensava em tudo isso, eu apertava a fotografia de Jesse nas mãos como se eu estivesse rezando. Mas não estava. Era apenas para evitar que elas tremessem.

Eu senti um calafrio estranho percorrendo meu corpo e eu abri meus olhos.

E eu estava lá.

O quarto era exatamente como Jesse tinha descrito só que mais escuro. Não dava para ver quase nada lá dentro. A única luz que tinha lá era um pouco da luz da lua que se derramava dentro da janela que dava para a baía. Não dava para ver, mas dava para ouvir. O silêncio era tão intenso que chegava a doer. Era como um zumbido constante. Os únicos barulhos que se ouviam ali era o som de grilos, o som das folhas das árvores se movendo com o vento frio que soprava e o som de uma respiração pausada com se alguém estivesse dormindo. E estava.

Eu forcei meus olhos a enxergarem melhor naquela escuridão e pude distinguir o contorno de um corpo deitado na cama. Eu não pude me conter e me aproximei para vê-lo melhor. Jesse. Ele estava dormindo tranquilamente coberto por aquela colcha ridícula, mas que deveria ser considerada elegante nessa época. E ele estava tão lindo. Seu rosto estava relaxado com os lábios entreabertos. Era tão bonito quanto o Jesse que eu conhecia só que mais corado. Contive o impulso de tocá-lo para sentir o calor da sua pele pela primeira vez. Ao invés disso, voltei ao plano original e procurei o guarda-roupa que seria minha “sala de espera”. Com muito cuidado para não fazer barulho eu abri uma das portas que rangeu baixo. Eu olhei para Jesse para ver se ele havia acordado e levei um susto quando ele se mexeu na cama. Mas foi apenas para cobrir o rosto desaparecendo completamente debaixo da coberta. Devagar, com toda a calma, eu entrei no pequeno móvel e fechei a porta deixando apenas uma pequena brecha para poder observar tudo sem ser vista.

A noite estava realmente fria, mesmo ali dentro, e eu já estava começando a tremer quando ouvi um barulho de passos no corredor. Os passos pararam exatamente em frente à porta do quarto e eu prendi a respiração aguardando. Ouvi alguém mexendo na trava da porta e logo em seguida pude ver o contorno de um homem alto e forte entrando no quarto.

Ele fechou a porta atrás de si e andou direto até a cama. Então ele parou e tirou alguma coisa do cinto que prendia sua calça, alguma coisa que brilhou de uma maneira sinistra quando a luz da lua bateu nela. Uma faca.

Meu coração batia tão forte e rápido que eu fiquei com medo que ele pudesse me ouvir. Coloquei a mão na frente da boca para evitar soltar algum tipo de som sem querer. De onde eu estava eu poderia observar todos os seus passos sem ser vista. E eu vi quando ele ergueu a faca e desferiu um único golpe na altura que eu sabia que estava o peito de Jesse. Apenas um único e mortal golpe.

Eu não tentei conter as lágrimas que escorriam pelo meu rosto e as mãos que ainda estavam na minha boca evitaram que o soluço que se formou na minha garganta saísse. Aquele covarde tinha feito tudo enquanto Jesse estava dormindo sem dar a mínima chance de defesa ou reação. Eu sentia uma vontade imensa de sair do guarda-roupa e atacar aquele monstro que tinha acabado com a vida do homem que eu amava, mas lembrei da promessa que tinha feito a esse mesmo homem e me mantive quieta.

O homem, que ainda estava parado ao lado da cama, limpou a faca em um lenço que tirou do bolso e guardou-a no cinto novamente. Então se estendeu para onde estava a cabeça de Jesse e removeu a colcha num único gesto.

– Com os cumprimentos do senhor... – ele começou num tom monótono, mas satisfeito, mas parou sem motivo aparente. – Mas que diabos?! – ele murmurou assustado. – Você não é Felix Diego!

Levou alguns segundos para eu compreender o significado daquelas palavras, mas quando a ficha caiu foi como se aquela mesma faca que matara Jesse tivesse acabado de atravessar meu corpo.

Não! – eu exclamei para mim mesma. – Não era possível que tudo isso tivesse sido um engano. Não era possível!

– Mas que merda! – o homem tornou a murmurar completamente transtornado – Quem diabos é você? – Então ele olhou ao redor como se procurasse alguma coisa, ou alguém. Fiquei paralisada no lugar com medo que ele ouvisse minha respiração, mas ele não olhou na direção do guarda-roupa.

– Era para Felix estar aqui e não você! – ele olhou para Jesse novamente como se esperasse uma justificativa. – O senhor De Silva vai me esfolar vivo.

Então era isso. Jesse tinha morrido por engano, assassinado por um homem contratado por um tal de senhor De Silva. Já descobrira o que tinha para saber e deveria ter voltado à época atual, mas não foi o que fiz. Eu simplesmente não conseguiria me deslocar naquele momento. Eu mal conseguia respirar tamanha era a dor no meu peito. Me concentrar para me deslocar no tempo era algo totalmente impossível.

Então eu vi o homem em ação novamente. Ele usou a mesma colcha com que Jesse se cobrira e enrolou-a em todo seu corpo não deixando nenhuma parte de fora. Depois ele depositou o corpo sem vida no chão e retirou os lençóis que forravam a cama de metal. Ele estava limpando a sujeira da mesma forma que os assassinos profissionais dos filmes de ação faziam. Só que aquilo não era um filme.

Ele usou os mesmos lençóis da cama para envolver o corpo mais uma vez e deu uma olhada rápida no colchão, provavelmente procurando alguma mancha de sangue. Quando não encontrou nenhuma, se abaixou e pegou o corpo de Jesse do chão e o jogou por sobre o ombro com um certo esforço. Depois deu uma última olhada pelo quarto verificando se tinha deixado algum rastro da sua presença e saiu para o corredor sem fazer barulho.

Eu não sei quanto tempo eu passei ali dentro. Não sei se foram minutos ou horas, mas quando eu comecei a tremer de frio eu me obriguei a sair e me preparar para retornar.

As lágrimas escorriam ainda mais intensas pelo meu rosto e, agora que já estava sozinha, eu não me preocupei em conter os soluços que brotavam da minha garganta. Meu corpo inteiro doía por ter ficado na mesma posição por tanto tempo e pelo frio que parecia ainda mais forte, mas essa dor não era nada comparada a dor que eu sentia no meu peito. Eu olhava na direção da cama onde tudo tinha acontecido sem querer acreditar no que vira, mas tinha sido real demais, brutal demais, para que eu pudesse pensar que tinha sido um pesadelo.

Eu sabia que tinha que voltar para o presente. Já estava fora há muito tempo, acho que há mais de três horas e Gina e Jesse deveriam estar muito preocupados. Me concentrei o máximo que pude em tudo que precisava, mas não conseguia parar de chorar. A sorte era que era mais fácil quando eu estava indo para a minha época e para o meu quarto. Então, em questão de segundos eu estava de volta. Jesse e Gina estavam sentados, ela na sua cama improvisada e ele no assento da janela e quando Jesse me viu, e viu o estado em que eu me encontrava, ele correu na minha direção e me tomou nos seus braços.

Eu não tinha mais forças para abraça-lo de volta e o deixei me conduzir em direção à cama. As lágrimas não cessaram um segundo sequer e ficaram mais ainda mais intensas quando eu senti seu corpo tocando o meu. Ele me deitou na cama delicadamente e eu o impedi quando ele fez menção de se afastar. Então ele se deitou ao meu lado e me abraçou novamente sussurrando palavras doces no meu ouvido.

Gina ficou sentada aos pés da cama me observando preocupada, mas não me pediu para falar o que tinha acontecido, nem fez nenhuma gracinha quando Jesse começou a me despir devagar.

O problema é que estava quente no meu quarto, se comparado a temperatura do quarto que eu estivera há alguns minutos, e eu ainda estava com aquele casaco pesado que eu usava na época que eu estudava na Suíça então, depois de alguns minutos eu comecei a suar.

Jesse percebeu e começou a tirar minha roupa. Ou parte dela. Quando eu já estava apenas de calça jeans e sutiã eu me sentei na cama enxugando o suor que escorria pelo meu pescoço misturado com as lágrimas.

– Eu preciso de um banho – falei entre os soluços.

Mas não era por conta do calor que eu precisava do banho. Eu me sentia suja depois de ter visto tudo aquilo.

– Eu te ajudo – Gina falou no mesmo instante e me ajudou a levantar, me segurando pela cintura.

Jesse nos ajudou a chegar até o banheiro, mas parou na porta deixando que Gina me ajudasse a tirar o resto da minha roupa. Mas a porta continuava aberta e Jesse ficou lá encostado me observando com um olhar aflito. Entrei debaixo do chuveiro molhando os cabelos. Precisava molhar o corpo inteiro para me sentir melhor. Sentia a água lavando minha lágrimas, deixando-a salgada por alguns instantes e meu corpo relaxou quando a água morna escorreu por ele.

Quando saí do box enrolada na toalha Gina já estava lá novamente com um pijama nas mãos. Depois que eu me vesti ela insistiu em secar meus cabelos para que eu não adoecesse e eu deixei, cansada demais para protestar, mas até que foi bom porque me deu mais tempo para me acalmar. O tempo todo Jesse permanecia em silêncio apenas me observando.

Eu ainda chorava quando saí do banheiro, mas bem mais controlada agora.

Fui em direção à cama novamente e eles me seguiram. A minha vontade era dormir, mas eu precisava explicar o motivo do meu surto.

Sentei na cama e pedi que os dois fizessem o mesmo.

– Você está bem, hermosa? – Jesse perguntou preocupado.

– Melhor agora. – Minha voz saiu rouca e eu pigarreei para tentar melhorá-la.

– Está machucada? – ele tornou a perguntar no mesmo tom.

Eu parei um pouco tentando sentir alguma dor no corpo, mas só sentia as mesmas dores que eu senti quando saí do guarda-roupa. Sentia também uma leve dor de cabeça, mas era tão fraca quando comparada a tudo que eu sentia naquele momento que me pareceu insignificante.

– Não – eu o tranquilizei.

– O que aconteceu? – Gina perguntou num sussurro com se temesse aquela pergunta.

E eu também temia, mas sabia que teria que falar mais cedo ou mais tarde então eu resolvi encerrar logo esse assunto.

Eu contei tudo desde o momento que eu cheguei ao quarto e vira Jesse dormindo até a hora que o homem saíra carregando seu corpo. Quando eu cheguei à parte em que o homem descobrira que tinha matado a pessoa errada, minha voz falhou e demorou alguns segundos até que eu conseguisse falar novamente. Gina não se controlou nesse momento e eu vi as lágrimas escorrendo pelo seu rosto, mas ela não falou nada. Quando terminei de falar tudo Jesse continuou em silêncio e não olhava para mim.

– Jesse – eu o chamei, mas ele não atendeu. – Jesse, você está bem?

As lágrimas já tinham esgotado e minha respiração começava a voltar ao normal, embora a dor no peito permanecesse.

Ele apenas meneou a cabeça sem virar o rosto na minha direção.

É claro que ele não estava bem. Como uma pessoa poderia ficar bem depois que descobria que tinha sido assassinado por engano?

– Se eu não tivesse coberto meu rosto... – ele murmurou como se falasse para si.

Eu também já tinha pensado nisso. Se Jesse não tivesse coberto o rosto naquele momento, o homem teria percebido que não se tratava do tal do Felix. E ele não teria morrido. E eu nunca o teria conhecido.

– Não – ele murmurou meneando a cabeça com firmeza. – Tinha que ser daquela forma. Era o meu destino.

Eu confesso que não entendi sua filosofia, mas resolvi deixar passar.

– E quem era esse Felix Diego? – Gina perguntou para Jesse enxugando uma lágrima. – Você o conheceu?

– Acho que não, embora o nome não seja estranho.

Ele ficou pensativo por um instante e eu continuei em silêncio, assim como Gina que enxugava as últimas lágrimas que escorriam pelo seu rosto.

– Espera. Acho que eu sei quem é! – ele exclamou de repente. – Eu lembro, que quando eu cheguei de viagem, a Sra. O’Neil, a dona do hotel, disse que eu dera sorte porque há até algumas horas atrás ela estava com todos os quartos ocupados, mas que um hóspede tivera que sair às pressas e deixara um quarto vago. Eu tenho certeza que ela falou o nome Diego. Só pode ser ele. – Ele olhou para mim finalmente. – Ele estava hospedado no meu quarto, por isso o homem nos confundiu. Felix deve ter descoberto que tinham mandado mata-lo e fugiu.

– Só pode ter sido isso – Gina falou.

Eu não consegui falar nada. Apesar de Jesse ter falado tudo àquilo com naturalidade eu ainda via a dor da descoberta nos seus olhos.

Continuamos nos olhando por um tempo sem falar nada, a dor ficando ainda mais evidente no seu rosto, e ele foi o primeiro a romper o contato visual. Levantou da cama e andou até a janela.

– Eu preciso de um tempo para absorver tudo isso. – Sua voz estava baixa e pesada.

– Jesse... – eu comecei, mas não encontrei nada para falar naquele instante.

Ele se virou e veio na minha direção, se inclinando para depositar um beijo na minha testa.

– Durma, hermosa. – Mesmo tom de voz e mesmo olhar. – Você precisa descansar. Amanhã nós conversaremos melhor sobre isso.

E fez o que eu mais odiava. É. Ele sumiu.

Conversei um pouco com Gina perguntando como tinha sido depois que eu saí, e ela disse que Jesse não parava de andar de um lado para o outro no quarto, só parando depois que ela o convenceu que isso não iria ajudar em nada.

Depois ela voltou para a cama dela e adormeceu logo em seguida. Eu tentei fazer o mesmo, mas falhei miseravelmente. Rolava pela cama tentando achar uma posição mais confortável, mas eu sabia não iria conseguir encontrar aquela posição ali.

Fiquei parada numa única posição, como uma estátua, esperando dormir com isso, mas não estava tendo muito sucesso. Foi quando ouvi sua voz.

– Hermosa – Jesse sussurrou para não acordar Gina.

Eu sentei na cama no mesmo instante e ele se juntou a mim sentando à minha frente.

– Me perdoa, por favor – ele pediu pegando minha mão nas suas. – Me perdoa por ter feito você presenciar aquela cena.

– Você não tem porque pedir perdão, Jesse – eu respondi sussurrando também.

– Claro que tenho! Você é muito doce e gentil para ser obrigada a ver um ato tão brutal...

– Jesse – eu o interrompi –, ninguém me obrigou a nada. E eu estou longe de ser gentil, você sabe disso. Mas eu confesso que fiquei abalada com tudo. Te ver ali na minha frente e saber que tudo não tinha passado de um erro... – Eu meneei a cabeça tentando afastar aquelas imagens. – Se você não tivesse coberto o rosto...

– Se eu não tivesse coberto o rosto – foi a vez dele de me interromper –, eu não teria morrido e nunca teria te conhecido.

Várias vezes eu já tinha me perguntado se Jesse era capaz de ler meus pensamentos e essa dúvida surgiu novamente na minha cabeça.

– Hermosa – ele sussurrou tocando meu rosto com as mãos –, eu morri para ter a oportunidade de te conhecer e estou muito feliz por ter colocado aquela colcha horrorosa no meu rosto.

– A colcha era mesmo horrorosa – eu balbuciei sem conseguir encontrar nada melhor para falar.

Nós rimos juntos e ele me abraçou.

– Obrigada por ter feito isso por mim, meu amor – ele sussurrou no meu ouvido.

– Eu te amo, Jesse – eu falei também no seu ouvido.

– Eu também te amo, hermosa.

Nós nos deitamos juntos, ele nos cobriu e me puxou para o seu peito me abraçando forte e beijando meus cabelos. Agora eu sabia que conseguiria dormir já que tinha finalmente encontrado a posição que eu mais gostava de dormir: nos braços de Jesse. E o sono veio fácil logo em seguida. Agora que eu estava nos braços do homem que eu amo, feliz e sonolenta, todas as cenas daquela noite foram para bem longe na minha consciência. Como se pertencessem a uma realidade paralela. Por que na minha realidade só existia eu e Jesse e a forma como nossos corpos se completavam como se fossem um só. E isso era por que estávamos apenas abraçados. Pelo menos na minha realidade. Porque no meu sonho nós estávamos mais do que abraçados. Estávamos unidos por toda a eternidade. E, embora eu soubesse que aquilo era apenas um sonho, eu me senti a pessoa mais feliz do mundo.