Atração Involuntária

31 Capítulo 31 - Parte 1


CAPÍTULO 31 – Parte 1

Entrei no meu quarto e fui direto para o banheiro. Larii – como ela tinha dito que preferia que a chamassem – já estava no quarto lendo uma revista da minha coleção. Tirei meu vestido e só. Era a única peça que eu tinha para tirar já que Jesse se recusou a devolver a minha calcinha. Entrei debaixo do chuveiro e fiquei relembrando a forma como Jesse me tocara essa noite. Não que ele nunca tivesse feito isso, mas foi diferente. Ele estava mais ousado, menos inibido. Ele nunca tinha me falado aquelas coisas antes. Não de forma tão explicita.

E eu estava prestes a retribuir o prazer que ele tinha me proporcionado quando minha mãe começou a acender e apagar a luz da varanda chamando a nossa atenção por conta da demora. Então eu tive que desistir da ideia. Pelo menos por hoje. Eu ainda tentei argumentar que precisaria da minha calcinha para entrar em casa, mas ele se recusou terminantemente a me devolver. E quando minha mãe voltou a me chamar para dentro do seu modo, eu bufei irritada e andei em direção à porta enquanto ele ria ao entrar no carro.

Saí do banho e vesti uma camisola que tinha deixado dentro do banheiro, antes de voltar para o quarto.

Larii já estava dormindo quando saí do banheiro e fiz o possível para não acordá-la.

No dia seguinte eu acordei e segui o mesmo ritual do dia anterior me arrumando para quando Jesse chegasse. Nós iríamos sair hoje para resolver de vez o caso de Petrie. Ou pelo menos dar uma boa adiantada nas coisas. A única diferença foi que eu encontrei a porta do meu banheiro trancada. Já tinha esquecido que estava dividindo o quarto. Gina nunca acordava cedo quando dormia comigo e eu nunca tinha problemas em dividir o banheiro. Mas seria apenas por duas semanas, eu me esforcei a lembrar.

Estava separando a roupa que usaria e arrumando minha mochila com coisas úteis, esperando Larii sair do banho, quando alguém bateu à minha porta. Era a minha mãe.

– Filhinha – ela começou assim que eu abri a porta –, você se incomoda de ficar com a sua prima por um tempo?

– Por quê?

– Eu preciso sair. Surgiu uma emergência no trabalho e não tem mais ninguém em casa.

– Mas mãe, eu vou sair com Jesse – eu a lembrei.

– Eu sei. Mas é só até alguém chegar. Andy provavelmente será o primeiro. Ele foi levar David em uma excursão. Não deve demorar.

– Tudo bem.

– Obrigada, filhinha.

Quando eu finalmente fiquei pronta, eu desci as escadas com a mochila, mas não havia sinal de ninguém mais na casa a não ser Larii. Ela estava sentada na sala assistindo a um filme e sorriu para mim sem graça.

– Desculpa por te prender em casa.

– Sem problemas.

Ela não tinha culpa, afinal de contas. Sentei ao seu lado e fiquei assistindo ao filme com ela até que a campainha tocou. Corri para receber Jesse e ele aceitou normalmente que o nosso “passeio” iria atrasar um pouco. Sentou comigo no sofá em frente ao que Larii estava e passou um braço sobre os meus ombros, me trazendo para mais perto.

Estava tão distraída apreciando o toque da sua mão no meu braço que levei um susto quando Brad entrou como um furacão com um sorriso enorme do rosto. Parou com um pé no primeiro degrau da escada e se dirigiu à prima.

– O que acha de ter sua primeira aula de surfe hoje? – ele perguntou sem desmanchar o sorriso.

– Perfeito – Larii respondeu animada.

– Certo. Coloca um biquíni e a gente vai assim que eu terminar o banho.

Ele subiu correndo e Larii foi atrás. Menos de dois minutos depois ela já estava de volta, pulando como uma pipoca, mas parou quando a campainha tornou a tocar. Me surpreendi por encontrar Thais lá com cara de pouquíssimos amigos.

– Oi, Suze – ela me cumprimentou, não esquecendo de ser educada, apesar da raiva que ela parecia estar sentido. – O energúmeno está?

Acho que ela se referia ao Brad.

– Está no banho. Quer entrar? – Eu também sabia ser educada.

– Obrigada. – Ela entrou, mas se recusou a sentar.

Eu a apresentei à Larii, subi correndo para avisar Brad que ele tinha visita e voltei para o meu lugar ao lado de Jesse que a cumprimentou brevemente e me olhou com o cenho franzido quando ela passou a andar de um lado para o outro da sala, direcionando olhares constantes em direção às escadas. Finalmente Brad apareceu, apenas de bermuda. Mesmo vendo a carranca de Thais, ele sorriu satisfeito, mas antes que ele pudesse falar qualquer coisa ela jogou uma embalagem do tamanho de um CD em cima dele.

– Escuta aqui, possesso do demônio – ela esbravejou –, se você continuar com essas palhaçadas eu serei obrigada a...

– Vai me dizer que você não gostou do presente? – ele fingia uma expressão de mágoa que não enganava nem a um cego.

– Sujeitinho desnorteado, cai na real! – ela ria da cara dele. – Eu já fechei a creche há muito tempo. Eu não sou papa anjo.

Aquilo realmente pareceu ter ofendido Brad a ponto de fazê-lo desmanchar a aparência presunçosa.

– Eu vou te mostrar quem é o anjo aqui.

Então, para surpresa de todos e, principalmente de Thais, ele a puxou para si e a beijou com violência. O gesto foi tão rude que Jesse chegou a se levantar para impedir Brad de continuar aquela selvageria. Mas Thais foi mais rápida e ergueu um joelho até as partes íntimas e super sensíveis de Brad, fazendo-o se curvar de dor.

– Homem nenhum me beija sem minha autorização, moleque ignorante.

– Não me chame de moleque! – ele quase gritou, se recompondo aos poucos da dor.

– Chamo sim, porque é o que você é.

Mais uma vez ele avançou sobre ela e a pressionou contra a parede.

– Vai continuar me chamando de moleque?

– Vai tentar me beijar de novo sem a minha autorização?

– Posso te beijar, senhorita Cagliari?

E sem esperar por resposta, a beijou com sofreguidão.

Eu estava perplexa com aquela cena e mais perplexa ainda eu fiquei quando percebi que ela estava retribuindo ao beijo.

Eu olhei para todos para ver se eles estavam tão surpresos quanto eu e me deparei com Larii observando tudo de boca aberta. Ela estava corada, mas tinha um sorriso no rosto.

– Isso é muito mais divertido do que a casa da tia Corina.

Os dois continuavam se agarrando contra a parede, mas, do nada, Thais o empurrou com força, deixando-o desnorteado com a interrupção súbita.

– Satisfeito? – ela perguntou com um sorriso perverso nos lábios.

– Ainda não – ele respondeu tentando se aproximar dela novamente, mas ela recuou em direção à porta.

– Contente-se com isso, pois é tudo que você terá, bebê. – E sem mais palavras, ela saiu batendo a porta.

Brad continuou encarando a porta fechada por alguns instantes antes de voltar vagarosamente para as escadas.

– Preciso de outro banho. Frio dessa vez.

Larii riu e tornou a se sentar no sofá.

– Essa casa é muito divertida.

– Você achou isso divertido? – eu perguntei com o cenho franzido.

– Claro! Adorei.

Garota estranha.

Brad voltou depois de cinco minutos e os dois saíram para a praia juntos depois de pegarem a prancha na garagem.

Eu e Jesse saímos logo em seguida, mas antes eu lembrei de ligar para minha mãe para avisar que Larissa estaria na praia com Brad durante toda a manhã para que ela não se preocupasse. Entramos no carro e eu peguei o mapa para começar a me guiar.

– Então, para onde vamos? – Jesse perguntou ligando o carro.

– Garrapata State Park. Você pega a Rod...

– Rodovia 1 – ele completou sorrindo. – Sei onde fica.

E lá fomos nós para o tal parque onde poderia estar a princesa de Petrie. Só esperava que não fosse tão difícil acha-la. Mas não tinha tanta esperança assim. Profissionais fizeram buscas por meses e não acharam nada. Por que eu e Jesse teríamos mais sorte? A única vantagem que tínhamos a nosso favor era a presença do dono da peça. Estava torcendo para que isso fosse o suficiente.

Pegamos a Rodovia Allen antes de entrarmos na Rodovia 1 para finalmente chegarmos ao Garrapata State Park que ficava a cerca de dez quilômetros do centro de Carmel. Era um parque lindo que, em determinados pontos, inclusive na entrada, se unia à praia. A floresta dentro dele era vasta e era exatamente para ela que nós iríamos.

Na entrada do parque nós tivemos que passar no escritório do guarda florestal já que aquela era a nossa primeira visita. Ele nos deu orientações sobre os pontos de risco, nos entregou mapas atualizados com as localizações das torres de comunicação para o caso de haver algum acidente e nos deu um kit de primeiros socorros depois que pagamos a taxa obrigatória.

Quando finalmente começamos a caminhada, mochilas às costas, já passava das onze da manhã.

– Temos que andar rápido se quisermos voltar para casa antes do anoitecer – Jesse falou quando chegamos à praia.

– Eu não sou muito boa para subir montanhas – eu comentei observando a elevação que teríamos que encarar.

– É o caminho mais rápido para chegarmos ao ponto marcado no mapa.

– Eu sei – eu murmurei soltando o ar pesadamente.

A vontade que eu tinha era rasgar aquele mapa e mandar a tal peça para o quinto dos infernos, mas eu sabia que isso não seria nada esperto da minha parte. Petrie não deixaria a mim ou a Jesse em paz enquanto não resolvêssemos isso.

– Vem – Jesse chamou, estendendo a mão e pegando a minha. – Eu te ajudo.

Andar assim de mãos dadas com Jesse tornava as coisas bem mais fáceis. Saímos da praia e começamos a subir a montanha que nos levaria à floresta no meio do parque.

O começo foi a pior parte já que o caminho era todo rochoso e com alguns pontos com lodo. Mas depois que o chão começou a ficar coberto de grama e a trilha apareceu, tudo ficou mais fácil. Mas ainda assim, quando chegamos ao topo da montanha, eu já estava com meio palmo de língua para fora e paramos para descansar por cinco minutos antes de continuarmos.

– O resto do caminho é descida e linha reta – Jesse informou tornando a consultar o mapa. Ele era bem melhor em ler mapas do que eu. – Mais uma hora de caminhada e chegaremos ao ponto que você marcou – ele continuou enquanto tirava o cantil da mochila.

– Uma hora no seu ritmo – eu resmunguei e sentei no tronco de uma árvore caída, retirando meu próprio cantil da minha mochila.

E foi exatamente como eu disse. No meu ritmo levamos uma hora e meia para chegar, resultando em um total de duas horas e meia de caminhada. A sorte era que a parte em que estávamos agora era protegida do sol extremamente quente da Califórnia, graças às árvores frondosas que havia na floresta.

– Ok. O que fazemos agora? – eu perguntei olhando ao redor.

– O que mais você leu sobre as buscas? – Jesse quis saber parando ao meu lado.

– Bem – comecei –, o que eu sei é que os ladrões estavam sujos de terra quando os encontraram, então a polícia deduziu que eles tivessem enterrado a peça, mas eles cavaram tudo, todas as partes com terra remexida recentemente e não acharam nada.

– Porque eles não enterraram a minha princesa – Petrie falou, aparecendo de repente atrás de nós.

– Não? – Jesse perguntou com o cenho franzido.

– Não. Essa área possui um solo úmido demais por conta da proximidade com a praia e com o rio que passa aqui perto. Se eles a enterrassem, a peça estragaria em questão de dias.

– Mas será que eles saberiam disso?

– Tenho certeza que sim. Eles não esconderiam a peça em um lugar que poderia estraga-la. Isso com certeza dificultaria a venda.

– Então onde mais pode estar?

– Não sei.

– Ajudou muito – eu resmunguei.

– Pelo menos nós não precisaremos cavar. – Jesse sempre vendo o lado positivo das coisas.

Mas isso era mesmo um alívio, embora não nos deixasse com pista alguma de onde poderia estar o pedaço de pedra.

– Mas isso também significa que eles podem ter escondido em qualquer lugar – eu o lembrei. – Não necessariamente nesse parque. Eles podem ter descoberto que a polícia estava na cola deles e criaram essa pista falsa.

– Tem razão – Jesse admitiu sem ânimo.

– Petrie – eu o chamei quando ele começou a se afastar. Tive uma ideia que poderia ajudar. – Se você tivesse roubado essa peça, onde esconderia?

– Por que eu roubaria a minha própria peç...?

– É só uma suposição Petrie – eu o informei. – Para sabermos se os ladrões pensaram igual a você.

– Ah – ele levou uma mão à barba longa e branca e começou a andar de um lado para o outro, pensativo. – Primeiramente eu envolveria a peça em algum tecido que o protegesse contra a umidade.

– Alguma espécie de fibra? – Jesse perguntou.

– Provavelmente. Mas ainda colocaria dentro de alguma caixa, um baú talvez.

– E toda essa proteção não permitiria que a caixa fosse enterrada?

– Muito improvável, Suzannah – Petrie respondeu pisando forte no chão. – Não demoraria muito para encontrar água cavando nesse solo.

– Certo. Então não está enterrada. E onde você esconderia?

– Eu tentaria coloca-la em um lugar similar ao que ela estava quando eu a achei.

– Mas você a achou em um cemitério no Egito.

– Em um mausoléu para ser mais específico.

– Não há mausoléus aqui – eu o informei, cética.

– Mas há pedras – Jesse falou com um brilho no olhar. – Seria um bom esconderijo, não seria?

– Sem dúvida! – Petrie confirmou sorrindo animado.

Nós nos dividimos para cobrir uma área maior em menos tempo e começamos a procurar, usando Petrie como comunicador. Ele ficava com Jesse e quando eu queria falar com ele, eu só precisava me concentrar. Jesse não gostou muito de me deixar sozinha, mas depois acabou aceitando que era a melhor maneira para ganharmos tempo. Ainda tínhamos que voltar para casa antes do jantar se não quiséssemos levar bronca da minha mãe e de Andy.

Eu me sentia uma idiota subindo e descendo das pedras maiores que eu encontrava, analisando cada brecha que poderia comportar a caixa em que a peça provavelmente estaria guardada. Eu já tinha encontrado aranhas, insetos asquerosos, sapos e até uma cobra pequena, mas nada da caixa.

Estava com fome, cansada e suada. Olhei a hora no meu celular, que naquele momento só servia para isso, já que ali não havia área, e me assustei quando vi que já eram quase quatro horas. Nós havíamos combinado que pararíamos as buscas às quatro e meia.

Sentei no topo da pedra que eu tinha acabado de fazer uma busca, encontrando apenas mais insetos e aranhas, e peguei um saco de salgadinhos da mochila. Meu estômago estava roncando. Olhei ao redor tentando localizar mais lugares para a busca. A pedra em que eu estava agora era alta, com cerca de três metros de altura e me dava um bom campo de visão. Avistei mais duas formações rochosas que tinham tamanho suficiente para esconder o que procurava. Uma delas era um pouco maior do que a que eu estava agora e era coberta de lodo.

Terminei meu lanche e guardei a embalagem na mochila antes de continuar aquele trabalho inútil.

Quase fui picada pela segunda cobra que eu achei enquanto espiava dentro de um buraco que havia entre as pedras menores.

– Merda – exclamei pulando assustada para longe. – Odeio cobras. Odeio!

Ok. Chega! Cansei de escapar de picadas e de tocar bichos nojentos sem querer. Já estava me preparando para chamar Petrie e avisar que eu iria parar com as buscas quando um pássaro voou da outra pedra que eu ainda não tinha ido, fazendo barulho e chamando a minha atenção para aquele local.

Tudo bem. Só mais uma pedra. Andei até a formação e a contornei observando as aberturas que havia ali. Dessa vez eu evitei chegar muito perto para não levar outro susto com alguma cobra que poderia haver ali e usei a lanterna para iluminar as partes mais profundas. Depois de escorregar duas vezes no lodo que cobria quase toda a superfície da pedra, eu finalmente consegui chegar ao topo dela.

Ainda com a lanterna eu fui procurando sem muito interesse. Foi então que eu vi uma coisa que me chamou a atenção. Em uma das aberturas que havia ali, grande o suficiente para caber uma pessoa, eu vi folhas de árvores secas misturadas com algas e muito lodo, formando uma espécie de tapete. E não haveria a mínima possibilidade daquelas folhas terem se amontoado ali sem a ajuda de alguém. Eu queria afastar aquelas folhas dali, mas fiquei com medo de achar algo que não queria.

Desci da pedra e olhei ao redor procurando alguma coisa para me ajudar. Vi um galho grande o suficiente, com cerca de um metro de comprimento, e voltei a subir, tomando mais cuidado para não escorregar novamente. Usei o galho para afastar as folhas, mas elas estavam muito presas às algas como se estivessem ali há muito tempo. Empurrei o galho para ver a profundidade daquele buraco e depois que ele afundou quase pela metade, sua ponta tocou em algo duro. Não poderia ser, poderia? Claro que poderia ser apenas o fundo da rocha, mas ainda assim eu fiquei com esperanças.

Continuei forçando o galho para tentar ver alguma coisa e eu acabei usando tanta força que ele se partiu. Mas não sem antes revelar um pedaço marrom de alguma coisa. E eu tinha certeza que aquela pedra não era marrom.

Petrie – chamei na minha mente –, acho que eu encontrei.

Menos de dois segundos depois ele aparecia perto de mim. Se agachou ao meu lado e olhou para onde eu apontava.

– Você acha que é...?

– Cadê Jesse? – eu perguntei interrompendo-o.

– Ficou – ele respondeu distraído, se inclinando para ver mais dentro do buraco.

– Como assim ficou? Traga ele aqui.

– Mas eu...

– Foi o que combinamos, Petrie. Eu não vou colocar minha mão aí dentro para tirar nada enquanto Jesse não estiver aqui.

– Eu posso tirar isso daí sozinho.

– Traga Jesse aqui, Petrie. – eu repeti empurrando-o delicadamente do local.

– Tudo bem – ele aceitou a contragosto e sumiu.

Eu liguei a lanterna outra vez e continuei olhando para aquele pedaço marrom que aparecia na abertura que eu tinha feito. Parecia couro.

Demorou quase vinte minutos para Jesse chegar com um Petrie irritado ao seu lado.

– Hermosa, desculpa a demora – ele falou enquanto subia até onde eu estava. – Eu estava longe. Você achou?

– Não tenho certeza, mas seja lá o que for isso – eu falei apontando para o buraco –, está aqui há muito tempo.

Jesse, que estava com uma espécie de cajado na mão, começou a remover os obstáculos com ansiedade.

Prendi a respiração quando Jesse puxou a maleta de couro marrom. O tamanho era perfeito. Compatível com o que procurávamos.

– Petrie, se acalme, por favor – Jesse pediu, limpando a superfície da maleta.

Eu nem havia percebido o que estava acontecendo ao meu redor, tamanha era a minha empolgação. Petrie, de tão nervoso e ansioso que estava, fazia as árvores se agitarem a nossa volta, espalhando folhas e quebrando pequenos galhos secos.

Mas foi impossível conter a empolgação de Petrie quando Jesse conseguiu abrir o fecho enferrujado da maleta e encontrou um tecido que parecia um tipo de lona, daquelas que se vê em caminhões, envolvendo algo.

– É a minha princesa – ele murmurou extasiado. – É ela. Eu sinto. Eu sei que é ela!

E ele tinha razão. Quando Jesse removeu o tecido cinza foi impossível não reconhecer a peça. Lá estava ela. A... a... Como era mesmo o nome da peça? Princesa alguma coisa? Alguma coisa da princesa? Sabia que tinha algo relacionado com a mesa.

– A Princesa Néfertiabet antes de sua refeição – Petrie falou num sussurro como se lesse a minha mente. Ele olhava para a pedra como um pai olha para seu bebê.

Continuamos ali por quase dez minutos contemplando a descoberta, ou melhor, o achado. Mas chega uma hora que cansa.

– Ok, Petrie. Já achamos a sua princesa. Está vendo a luz em algum lugar?

Eu tinha falado alguma coisa errada? Não que eu saiba. Mas então por que Jesse estava me olhando com essa cara feia?

– Não – Petrie respondeu sem olhar para nenhum outro lugar. – Eu não posso ir assim. Não sem antes saber se ela ficará bem. Não quero que ninguém do meu museu ponha as mãos nela.

– Nós não permitiremos isso – Jesse garantiu. – Precisamos ligar para o Louvre – ele falou olhando para mim.

– Quê?

– Eles são os donos agora, não são?

– É, são sim. Acho que é o melhor a fazer. Tudo bem por você, Petrie? – perguntei temendo a reação dele. Não tinha esquecido do ataque que ele deu quando descobriu que a peça havia sido vendida para os franceses.

Ele demorou um pouco para responder, mas acabou assentindo.

– Ao menos eles parecem saber a importância que a minha princesa tem para a história. – Era impressão minha ou ele estava chorando? – Mas vocês precisam tirar fotos do local onde acharam a peça para ficar tudo documentado. Ou eles podem pensar que vocês estavam com ela esse tempo todo.

Era só o que me faltava. Ser acusada de roubar um pedaço de calcário sem graça. Mas fizemos como Petrie recomendou. Com a câmera do celular, eu tirei o máximo de fotos possíveis antes de Jesse guardar a peça de volta na maleta e começarmos nosso caminho de volta para casa.

Assim que chegamos ao estacionamento do parque, eu peguei meu celular para ligar para casa e avisar que me atrasaria para o jantar.

Ou melhor, que não jantaríamos em casa. Já passava das oito da noite e eu tinha perdido a hora do jantar.

– Virou moda? – minha mãe perguntou irritada do outro lado da linha. – Primeiro Brad, agora você? Onde você está?

– Estou no Garrapata State Park – eu a informei enquanto Jesse guardava a maleta no porta-malas. – Nós achamos uma coisa quando estávamos fazendo piquenique e eu acabei perdendo a hora.

– Achou o quê? – ela perguntou com a curiosidade evidente na sua voz.

– Quando eu chegar em casa eu mostro.

Estava seguindo o plano que havia combinado com Jesse. Nós diríamos a todos que estávamos fazendo um programa de namorados perto da trilha que levava ao rio e que eu havia subido naquela pedra para tirar fotos quando notei o buraco estranho e resolvemos ver do que se tratava. Totalmente plausível. Ninguém desconfiaria que tínhamos ido ao parque para procurar a peça. E como Jesse trabalhava no museu e sabia muito sobre Petrie, não seria difícil acreditarem que ele reconheceu a princesa que havia sido roubada.

– Você foi incrível hoje, hermosa – Jesse falou pegando a minha mão quando já estávamos a caminho de casa. – Tenho muito que aprender em como ser um mediador. – Ele levou minha mão aos lábios beijando-a com ternura.

– Terei o maior prazer em te ensinar – eu respondi com um sorriso nos lábios. Adorava quando ele beijava a minha mão.

– Ainda bem que eu tenho uma excelente professora.

Jesse estacionou o carro na entrada e nós descemos em seguida. Ele pegou as nossas mochilas enquanto eu pegava a maleta e nós entramos juntos.

– Cheguei – anunciei rumando para as escadas.

– Vocês não vão comer? – minha mãe perguntou saindo da cozinha com Andy.

Pelo visto o jantar já havia acabado. Não havia mais ninguém à vista.

– Agora não. Preciso fazer uma coisa antes. Vem, Jesse.

– Aonde vocês vão? – minha mãe perguntou parando ao lado da escada.

– Ao meu quarto. Eu preciso ver uma coisa no computador.

Eu comecei a subir as escadas, mas notei que era a única. Olhei para trás e vi Jesse parado no mesmo lugar.

– Não vem?

– Eu vou esperar aqui embaixo.

– Como é?

Eu desci novamente e parei a sua frente.

– Nós precisamos resolver isso – eu o lembrei erguendo de leve a maleta.

– Você procura o telefone e eu te espero aqui.

– Por que isso agora? Nós combinamos de fazer tudo juntos.

– Ele está certo, Suze – Andy falou parando ao lado da minha mãe. – Não é correto um rapaz ir ao quarto da namorada.

Eu fiquei tão surpresa com aquilo que eu não consegui falar nada momentaneamente. É claro que eles, como pais, tinham razão em proibir meu namorado de ir para o meu quarto, embora nós não estivéssemos pensando em fazer nada demais. Mas eu realmente não tinha pensado nesse pequeno empecilho quando chamei Jesse para subir comigo. Acho que eu estava tão distraída com tudo que tinha acontecido essa tarde que eu acabei me deixando levar e esqueci que, para a minha mãe e Andy, Jesse nunca tinha estado no meu quarto antes.

– Nós não vamos fazer nada demais, Andy – eu o tranquilizei. – Mas nós precisamos fazer uma ligação e eu preciso procurar o número na Internet.

– Eu espero aqui, hermosa – Jesse repetiu.

Mas eu queria que ele fosse comigo.

– Eu vou deixar a porta aberta se isso resolve a situação.

Andy olhou para a minha mãe, que deu de ombros.

– Tudo bem – ele falou. – Porta aberta.

– Sim, senhor! – eu falei e puxei Jesse pela mão antes que eles mudassem de ideia.

Nós dois paramos à porta do quarto e ele respirou fundo antes de entrar, deixando a porta aberta. Jesse depositou as mochilas num canto e olhou ao redor com um sorriso nos lábios.

– Senti falta desse quarto – ele murmurou observando tudo, seus olhos se detendo no assento da janela.

– Bons tempos – eu falei me aproximando dele depois de deixar a maleta em cima do móvel do computador. – Quando podíamos ficar juntos aqui dentro com a porta fechada.

– Também sinto falta desses dias. – Ele me segurou pela cintura e me puxou para si. – Mas ainda prefiro as coisas como estão. Sabendo que agora nós teremos um futuro pela frente.

– Suze – Gina chamou aparecendo de repente na porta e quebrando o clima por completo. – Ah! Oi, Jesse. De volta as origens?

– Oi, Gina.

– Interrompi alguma coisa? – ela perguntou entrando e fechando a porta.

– Deixa a porta aberta – eu pedi me afastando de Jesse com relutância e indo até o computador. – Ordem da patroa – eu a informei quando ela me encarou com o cenho franzido.

– Opa. Essa regra é nova – ela comentou rindo enquanto abria a porta. – Acharam alguma coisa?

Eu apenas apontei para a maleta marrom, ligando o computador para procurar o telefone do Museu do Louvre.

– É a tal peça? – ela perguntou perplexa.

– É sim – Jesse respondeu se aproximando. – Suzannah achou.

– Nós achamos, Jesse – eu o corrigi.

– E o que vão fazer agora?

– Devolvê-la aos donos atuais – Jesse informou. – Mas eu acabei de lembrar uma coisa, hermosa.

– O quê? – eu perguntei por sobre o ombro sem parar o que estava fazendo.

– Nós não poderemos ligar agora para o museu. É madrugada lá.

Às vezes eu ainda me surpreendia com a quantidade de conhecimento de Jesse. Tudo bem que ele viveu muitos anos, mas saber a hora atual da França era demais.

– Então eu vou mandar um e-mail. Aproveito e já anexo a foto.

Depois de descarregar as fotos no computador, eu peguei o e-mail do responsável pelo setor de Antiguidades Egípcias, um tal de Jean Brodoteu, torcendo para ele falar inglês. Eu até sabia falar francês, mas apenas o básico. Enviei um resumo de como tinha achado a peça, contando a história que eu e Jesse tínhamos inventado e anexei quatro fotos: uma da pedra, outra do buraco onde a maleta estava e duas da peça em si. No final do e-mail eu coloquei meus dados para contato e enviei. Esperava que alguém lesse logo esse e-mail.

Depois que Jesse foi embora, eu voltei para o meu quarto e tomei um banho rápido. Ainda era cedo, mas eu estava cansada de tanto andar. Larii estava no quarto de David jogando videogame com ele e eu nem vi quando ela voltou para o meu quarto tamanho era o meu sono.

Acordei de um pulo com o toque do meu celular. Olhei para o relógio ao lado da minha cama e quase gritei de raiva quando vi que eram apenas três da manhã. Quem era o imbecil que estava me ligando a essa hora? Olhei para o número, mas não reconheci a enorme sequência.

– Alô? – atendi com voz de poucos amigos.

– Senhorrita Simon? – uma voz feminina falou.

Serrote de quem?

– Quê?

– Falo com a senhorrita Simon?

Senhorrita Simon? Ah, sou eu.

– Sim. Quem fala?

– Aguarrd um momenti, porr favorr. – Ouvi uma musiquinha de espera e tive vontade de desligar. Só não desliguei porque aquela música me pareceu francesa demais.

– Desculpa Larii – eu pedi quando vi que ela estava acordando. – Volta a dormir. Está cedo ainda. – Levantei e fui para o banheiro para evitar fazer barulho.

– Senhorita Simon? – uma voz se fez ouvir do outro lado, mas dessa vez era um homem.

– Sim.

– Aqui é Jean Brodoteu. Você enviou um e-mail para mim.

– Sim. Enviei. – Sua voz quase não tinha sotaque, o que eu agradeci tremendamente.

– Desculpe ligar a essa hora. Sei que ainda está cedo no seu país.

Não desculpo, não! – tive vontade de responder. Eu me preocupei em não ligar fora do horário, mas ele, pelo visto, não teve a mesma preocupação.

– Tudo bem. – Não que estivesse mesmo bem, mas o que eu iria fazer? Desligar o telefone na cara dele?

– No e-mail você diz ter achado La princesse Néfertiabet devant son repas.

– Er... O quê? – Eu até teria entendido se ele não tivesse falado tão rápido.

– A peça. A Princesa Néfertiabet Antes de Sua Refeição.

– Ah, sim. Eu mandei fotos junto.

– Sim, eu vi. Você pode me explicar detalhadamente como a achou?

Pensei que ele estaria mais empolgado com a notícia, mas sua voz era baixa e monótona.

– Claro. – Eu me pus a relatar com o máximo de detalhes que eu consegui e ele se manteve em silêncio a todo instante.

– E como foi que você reconheceu a peça? – ele perguntou quando eu terminei.

– Jesse, meu namorado, trabalha no museu daqui da cidade. Ele já leu muitos livros sobre Petrie e sabia sobre a peça roubada.

– Quantos anos você tem, senhorita Simon?

– Dezessete.

– E seu namorado?

– Vinte, mas o que isso tem a ver com...

– Desculpe – ele me interrompeu com educação –, mas é que é muito repentino. Especialistas procuraram essa peça por anos e nunca acharam sequer uma pista. E então dois adolescentes a acham durante uma caminhada. Mas pelo que eu vi das fotos que você mandou e pelo que você me contou, nós procuramos no lugar errado.

– Acho que sim. Bem, eu não sei muito sobre isso. – Ele não precisava saber que eu tinha lido tudo sobre o roubo e as buscas.

– Você a tirou da mala onde ela foi encontrada?

– Não. Só abri para ver o que era, mas fechei de novo.

– E onde está a peça agora?

– Aqui no meu quarto.

– Não a levou para o museu que seu namorado trabalha? – ele perguntou desconfiado.

– Nós íamos fazer isso – eu improvisei quando percebi seu tom. Petrie tinha nos avisado que isso poderia acontecer. – Mas o museu estava fechado quando voltamos. E quando eu cheguei em casa, nós pesquisamos na Internet para saber um pouco mais sobre o que tinha acontecido com a peça e descobrimos que o seu museu tinha comprado ela do Museu Petrie. Por isso eu entrei em contato com o senhor. Mas se o senhor quiser, eu posso levar até o Museu de Carmel assim que abrir.

– Não! – ele se apressou a responder. – Não precisa. – Sua voz agora estava agitada. – Só a mantenha bem guardada. Estou indo para o aeroporto com especialistas para atestar a veracidade da peça. Não a entregue a ninguém e, por favor, deixe isso em segredo por enquanto. Nada de imprensa.

– Imprensa? Por que eu faria isso?

– Essa peça é muito importante, senhorita Simon. Mas até que possamos comprovar se ela é verdadeira, não queremos fazer nenhum alarde.

– Certo.

– Posso contar com a sua palavra?

– Pode.

– E a do seu namorado?

– Não vamos contar a ninguém, senhor Brodoteu.

– Ok. Eu devo estar chegando no final da tarde da segunda feira no horário de vocês. Se seus pais permitirem eu gostaria de ir à sua casa assim que chegar.

– Acho que não haverá problemas.

– Certo. Eu ligarei quando desembarcar para informar o horário exato.

– Ok.

Eu passei meu endereço para ele e disse mais ou menos como ele fazia para chegar aqui.

Depois que ele desligou, eu voltei a dormir imediatamente. Só de lembrar que ainda tinha que ir para a escola chegava a me dar uma dor.

Assim que acordei eu guardei a maleta no guarda roupa, dentro de um saco de lixo para não sujar nenhuma das minhas roupas e me arrumei para ir para a aula. Liguei para Jesse antes que ele saísse de casa, contei sobre a ligação e ele disse que viria direto do trabalho.

Saí do quarto e encontrei Jake e Gina saindo do quarto. Por que eles podiam e eu não? Vida injusta!

– Alguém viu Brad? – minha mãe perguntou quando nos viu descendo.

– Ele não dormiu em casa – Jake respondeu tranquilamente. – Me ligou dizendo que ia direto para a escola.

– Como assim não dormiu em casa?

– Está tudo bem, meu amor – Andy falou saindo do quarto. – Ele me avisou que tinha um encontro e que não sabia se viria dormir em casa. Mas eu gostaria que vocês me dissessem a verdade caso ele não apareça na aula.

– Pode deixar comigo – eu falei de pronto.

Mas assim que eu cheguei na Missão, meus planos de dedurar Brad foram por água abaixo quando eu o vi saindo do banheiro no corredor dos armários. Era impressão minha ou ele estava andando esquisito?

– Está andando assim por quê? – Jake perguntou também percebendo isso.

– Meio assado – ele murmurou, mas não baixo o suficiente para que eu não ouvisse.

Jake explodiu em gargalhadas e eu saí de perto não querendo ouvir o relato da noite de Brad. Por que todo mundo podia passar a noite fora ou no quarto do namorado e eu não podia? Isso não era justo. Eu também queria passar a noite com Jesse. Eu sentia falta disso. Nós passamos meses dormindo juntos e agora que ele era, oficialmente, o meu namorado, eu era privada disso. Daria um jeito de conversar com a minha mãe sobre isso. Não sei como, mas eu faria.

Fiz o dever de casa às pressas e desci para esperar Jesse. Ainda faltava um pouco para ele chegar e eu fiquei conversando como Larii enquanto isso.

– Você sabe onde tem estúdio de piercing por aqui? – ela perguntou displicentemente enquanto assistíamos a um filme de comédia romântica.

– Um estúdio de piercing? – Ela apenas assentiu sem desviar a atenção da televisão. – Nem pense nisso. Você não vai se furar aqui também.

– Ah, qual é, Suze! – ela reclamou finalmente olhando para mim. – Não tem nada demais nisso.

– Seus pais não deixam.

– Mas eu vou fazer no umbigo. Eles nem vão ver.

– De jeito nenhum. – E eu que pensei que ela tinha feito piercing no nariz por influência da tia dela.

– Por favor, Suze. Não seja chata.

– Eu sou chata! Eu não vou deixar você fazer isso. Quando você for maior de idade, você faz o que quiser.

– Que saco! – ela bufou irritada e não falou mais comigo.

Por sorte meu celular tocou e eu pude me livrar da birra dela.

– Alô?

– Senhorita Simon? – Ouvi a voz masculina com um leve sotaque francês do outro lado.

– Sim. Oi, senhor Brodoteu.

– Acabamos de desembarcar no Aeroporto Internacional de San José. Devemos chegar à cidade em meia hora. Poderá nos receber?

– Claro.

Ele confirmou o endereço que eu havia passado e desligou. A campainha tocou em seguida.

– Oi, hermosa.

– Oi. – Eu não conseguia deter o sorriso bobo que se formava nos meus lábios sempre que o via.

– Eles já chegaram? – ele perguntou depois que eu abri caminho para ele entrar.

– Acabaram de ligar. Daqui a pouco eles devem estar aqui.

Nós sentamos lado a lado no sofá em frente ao que Larii estava, ainda me ignorando. Jesse a cumprimentou e ela respondeu monossilabamente sem olhar na nossa direção.

– O que deu nela? – Jesse perguntou num sussurro para que ela não ouvisse.

– Ficou assim porque eu não deixei que ela colocasse um piercing no umbigo.

– Furar a pele? – Aquela ideia parecia absurda para ele.

– Sim.

– Por que alguém faria uma coisa dessas?

– Tem gente que acha bonito.

– Você acha isso bonito, Larissa? – Jesse perguntou com a voz no tom normal para que ela pudesse ouvir.

– O quê?

– Furar a pele e colocar um pedaço de metal nela.

Gostei da descrição que Jesse deu.

– Eu acho – ela respondeu ainda chateada. – Mas Suze não quer me dizer onde tem um estúdio.

– Por que você quer fazer isso? – ele perguntou com o cenho franzido.

– Porque é legal.

– É vulgar – ele retrucou, mas com a voz calma.

Aquilo pareceu deixa-la sem graça.

– Você acha? – ela perguntou olhando para o chão.

– Sim. Acho muito mais bonito uma barriga lisa sem nenhum metal.

Ela, estranhamente, gostou de ouvir aquilo e disse que não iria colocar nenhum piercing na barriga. Pediu para usar o telefone e subiu correndo as escadas para usar a extensão do meu quarto.

– Garota maluca.

– Ela não é maluca. Só está na fase das incertezas.

– E você entende de adolescentes incertas?

– Eu tive irmãs lembra?

– E suas irmãs também queriam colocar piercing? – eu perguntei rindo das cócegas que ele estava me fazendo na cintura.

– Se naquela época existisse isso eu nunca permitiria que elas colocassem.

– E se eu... Para Jesse! – eu pedi tentando me esquivar das suas mãos, sem conseguir parar de rir. – E se eu colocasse um piercing? – eu perguntei quando consegui pular do sofá, mas ele me segurou pelo pulso e me fez parar em pé na sua frente entre as suas pernas.

– Se você colocasse um piercing – ele respondeu calmamente, seu rosto na altura da minha barriga – eu não poderia mais fazer isso. – Ele ergueu minha blusa apenas o suficiente para expor meu umbigo e beijou o local. – Nem isso – ele continuou, com sua língua descrevendo círculos ao redor e me fazendo estremecer.

Meus dedos entraram nos seus cabelos enquanto ele beijava minha barriga deixando um rastro de fogo por onde seus lábios passavam.

A campainha tocou me fazendo pular de susto. Jesse riu da minha cara atordoada e se recostou no sofá.

– Provei meu ponto de vista?

– Sem dúvida! – eu respondi ainda arfando e recolocando a blusa no lugar. – Nenhum metal vai furar minha barriga. Nunca!

Corri até a porta antes que a pessoa tocasse de novo.

– Olá – Thais cumprimentou com um sorriso quando eu abri a porta. – Brad está?

Não era mais “energúmeno”?

– Lá em cima.

– Você poderia chamar ele?

– Ok. Entra. Eu já volto.

Subi as escadas correndo e bati na porta do quarto de Brad. O interior estava silencioso e ele não respondeu. Bati de novo, dessa vez com mais força.

– Que é? – ele perguntou com a voz sonolenta e irritada. – Me deixa dormir.

– Você tem visita.

– Quê?

– Você tem visita. – Eu odiava ter que ficar falando com a porta. – É Thais.

Ouvi um barulho de algo caindo lá dentro seguido de um gemido. Em questão de segundos ele saiu correndo do quarto, quase me atropelando no caminho.

– Merda! – ele exclamou vestindo uma camisa e descendo as escadas às pressas. – Desculpa, desculpa, desculpa – ele pediu assim que chegou na sala e encontrou Thais.

– Nós marcamos às 17h – ela o lembrou fria, se esquivando do seu toque. – São 17:30.

– Eu sei. Desculpa. Eu dormi.

– Você me deu um bolo – ela falou ainda sem se abalar.

– Desculpa, Thais. Eu deitei para descansar um pouco e acabei dormindo. Me desculpa, por favor.

Eu não podia acreditar no que estava vendo. Brad praticamente implorando por desculpas? Cena única que eu nunca vou esquecer. Será que se eu pegasse meu celular que estava em cima do sofá e filmasse essa cena eles iam notar?

– Ainda não sei se eu vou te desculpar.

– Thais...

– Vá se arrumar. Nós ainda vamos sair. Você tem dez minutos para descer – ela falou olhando para o relógio.

– Ok. – Ele se inclinou para beijá-la, mas ela tornou a se esquivar.

– Quem disse que você tem direito a beijo?

– Thais...

– Você está perdendo tempo – ela o interrompeu olhando no relógio de novo.

– Certo – ele murmurou e subiu as escadas correndo sem falar mais nada.

Depois que ele entrou no quarto, Thais começou a rir e sentou descontraidamente no sofá.

– Relaxa Suze – ela falou ainda rindo, ao me ver parada ao lado da escada encarando-a incrédula. – Eu não mordo.

– Estou chocada! – eu respondi saindo do lugar e sentando ao lado de Jesse novamente. – Eu nunca imaginei que veria Brad se comportando como um cachorrinho obediente. Como você fez isso?

– Você é nova demais para saber esse tipo de coisa – ela respondeu sem deixar de sorrir.

– Ah – eu não consegui deixar de corar. – Mas seria interessante aprender isso.

– Por quê? – Jesse perguntou passando um braço pelos meus ombros e me puxando para si.

– Deve ser interessante ter alguém fazendo tudo que eu quiser.

– E eu não faço tudo que você quer? – ele perguntou com a sobrancelha sexy arqueada.

Pensei um pouco só para fazer raiva a ele.

– Faz – eu respondi beijando seus lábios de leve. – E faz até mais. Mas que foi engraçado ver Brad se comportando assim, foi!

– Me conta alguma coisa dele, Suze – Thais pediu com um olhar malicioso. – Alguma coisa que eu possa usar contra ele.

– Como o quê?

– Sei lá. Algum apelido que ele não goste.

– Não sei se ele tem algum apelido, mas ele não gosta de ser chamado de Bradley.

– Perfeito!

Deveria ter medo daquele sorriso?

– Estou pronto – Brad anunciou aparecendo na sala ainda com os cabelos molhados.

Thais olhou para o relógio antes de ficar de pé, o sorriso sumindo por completo do seu rosto.

– Muito bem – ela chegou perto dele e quando ele pensou que ela fosse beijá-lo, ela cheirou seu pescoço. – Perfumado. Ganhou uns pontos. – Ela falava isso tão séria que parecia mais uma professora tomando a lição de um aluno. – Vamos.

Ela fez com que ele saísse na frente e, antes de passar pela porta, se voltou para mim sorrindo e piscou um olho.

Eu e Jesse começamos a rir do que estava acontecendo com Brad. Estava totalmente a fim de uma garota que, pela primeira vez, estava conduzindo ele a rédeas curtas.

Quando Andy chegou com a minha mãe, nós estávamos namorando comportadamente no sofá e os dois foram direto para a cozinha.

– Mãe – chamei indo atrás dela –, eu esqueci de avisar. Estão vindo umas pessoas aqui em casa para falar comigo, mas não devem demorar.

– Eles vão jantar? – Andy perguntou enquanto começava a retirar os ingredientes do armário.

– Não. É coisa rápida. Eu acho.

– Quem são essas pessoas? – minha mãe perguntou se apoiando na bancada para começar a observar enquanto o marido cozinhava. Era só o que ela fazia.

– Er... – Como é que eu ia explicar para ela? Por sorte a campainha tocou e me livrou desse aperto. – Eu atendo.

Corri para a porta e dei de cara com um homem alto e magro, com cabelos pretos e bem arrumados e cerca de quarenta anos. Junto dele havia mais quatro homens tão elegantes quanto ele, embora nenhum estivesse usando terno ou gravata. Mas dava para perceber o quanto suas roupas eram caras. Na entrada de carros havia dois carros pretos parados perto do de Jesse e mais dois homens estavam encostados a eles. Motoristas? Céus! Para quê tanta pompa?

– Senhorita Simon? – o homem que estava mais perto perguntou.

– Sim.

– Sou Jean Brodoteu – ele informou estendendo uma mão para me cumprimentar.

– Oi. Pode me chamar de Suze. – Jesse parou ao meu lado e encarou aquela comitiva parada à minha porta. – Esse é Jesse.

– Olá.

Eu os convidei para entrar e eles se acomodaram nos sofás no momento que a minha mãe saiu da cozinha. Ela parou assustada por ver a sala cheia de repente e me encarou com uma nítida interrogação no rosto.

– Mãe, esse é Jean Brodoteu. – O homem se ergueu para cumprimenta-la, mas eu não falei mais nada.

– Podemos ver a peça? – ele perguntou depois das formalidades.

– Claro. Vou pegar.

Subi as escadas e ouvi passos me seguindo. Entrei no quarto indo direto para o guarda roupa para pegar a maleta.

– Quem são esses homens, Suze? – minha mãe perguntou entrando também.

– São do Museu do Louvre, mãe – eu respondi por fim. Ela descobriria mais cedo ou mais tarde. – Eu e Jesse achamos uma peça ontem no Garrapata State Park que pertence a eles.

– Como assim? Como foi isso?

– Depois eu te explico com calma. – Retirei a maleta do saco de lixo e passei por ela para sair do quarto. – Eles estão esperando por isso. Quando eles saírem, eu te conto tudo. – Dei um beijo no seu rosto e desci as escadas.

Os homens ficaram de pé assim que me viram e começaram a falar em francês olhando e apontando para a maleta em minhas mãos. Eu tentei captar algumas palavras, mas só entendi umas poucas no meio do francês rápido que eles falavam. Eles falaram algo a respeito do tamanho e do estado da maleta.

– Peça para ver a identificação dele – Petrie falou aparecendo de repente na sala.

Tinha que mandar ele parar com essa mania de ficar espiando e aparecer do nada.

– Er... Posso ver sua identificação, senhor Brodoteu?

Ele estranhou um pouco meu pedido, mas retirou a carteira do bolso e me entregou seu crachá do museu. Estava em francês, é claro, mas eu consegui identificar tudo que estava ali.

– É verdadeiro – Petrie falou olhando por sobre o meu ombro.

Devolvi o documento ao dono, coloquei a maleta na mesinha de centro e deixei que eles a abrissem. Um deles, mais novo e com cara de nerd, se adiantou colocando luvas cirúrgicas e abriu a maleta com cuidado.

Todos observavam em silêncio enquanto o homem trabalhava, inclusive Andy que saíra da cozinha e agora estava parado ao lado da minha mãe.

– Veja como ele manuseia a peça com cuidado – Petrie sussurrou embora ninguém pudesse ouvi-lo. – Ele sabe a importância do que tem em mãos.

Mas eu percebi que ele não era o único que sussurrava. Os franceses conversavam entre si num tom baixo como se estivessem diante de algo assombroso ou muito especial. O nerd continuava analisando a peça com cuidado, utilizando uma lupa e alguns instrumentos que eu não conhecia.

Essa analise durou mais de meia hora e Andy foi obrigado a voltar para a cozinha para não atrasar o jantar. Eu estava sentada no único lugar vago, com Jesse ao meu lado sentado no braço da poltrona.

Jean se aproximou do homem e se abaixou até ficar na mesma altura do outro.

– Est vrai? – ele perguntou ao outro num tom baixo, mas não o suficiente para que eu não ouvisse.

– O que ele falou? – Jesse perguntou sussurrando no meu ouvido.

– Ele perguntou se é verdadeira – eu respondi no mesmo tom.

Ao menos meu francês agora serviria para algo.

– Oui.

É claro que era verdadeira.

– Nous prenons le laboratoire? – Jean tornou a perguntar.

– Juste pour la rendre officielle.

E mais uma vez eu traduzi para Jesse.

– Eles vão levar a peça para um laboratório para oficializar que é verdadeira.

– É apenas uma formalidade necessária – Jean falou quando percebeu que eu tinha entendido. – Nós não podemos assinar o cheque enquanto não tivermos o aval do laboratório.

– Cheque? – minha mãe perguntou com o cenho franzido.

– Sim – ele confirmou enquanto o outro se erguia e retirava as luvas. – O cheque da recompensa que estava sendo oferecida a quem tivesse alguma pista sobre o paradeiro de La princesse Néfertiabet devant son repas. Nós precisaremos levar a peça conosco e precisamos que vocês assinem alguns documentos para que...

– Espera – eu o interrompi ficando de pé –, nós não queremos recompensa nenhuma.

– Como?

Eu nunca lucrei nada com nenhum trabalho de mediação antes e não ia começar agora. Eu não me sentia bem fazendo isso. Era como me aproveitar de um morto.

– Nós não queremos o dinheiro – Jesse falou ficando ao meu lado e me envolvendo pela cintura.

– Mas então por que vocês fizeram isso? – Jean perguntou com uma expressão incrédula no rosto.

– Não pelo dinheiro – Jesse respondeu. – Nós nem sabíamos que havia recompensa para isso. Apenas tínhamos a peça em mãos e, nada mais certo do que devolvê-la aos donos. Eu só peço que vocês deem o devido crédito a Flinders Petrie.

– Claro que daremos, mas...

– Não queremos o dinheiro, senhor Brodoteu – eu insisti.

Ele continuou nos encarando por alguns segundos, vendo a nossa expressão decidida. Depois de alguns instantes, ele se reuniu com os outros homens em um canto da sala e começaram a conversar em um tom rápido e baixo, me impossibilitando de entender.

Eu via pelo canto do olho que minha mãe estava se segurando para não falar nada, trocando o peso do seu corpo de uma perna para outra a todo instante.

Depois de intermináveis cinco minutos, Jean voltou para o meio da sala com um sorriso no rosto. Era a primeira vez que eu o via sorrir.

– Senhorita Simon... Suze – ele se corrigiu. – Eu confesso que quando você me enviou aquele e-mail, e até mesmo depois de falar com você, eu acreditava que você era apenas mais uma caça recompensas. – Eu ia interrompê-lo para dizer que eu não era assim, mas ele ergueu uma mão para me deter. – Desculpe pensar isso a seu respeito, mas eu estou acostumado a esse tipo de gente. Mas quando eu te vi, percebi que você não era assim. Tampouco seu namorado. Vocês são pessoas decentes e cresceram ainda mais no meu conceito por terem recusado a recompensa.

– Obrigado – Jesse falou envolvendo meus ombros com seu braço quente e forte.

– Mas ainda assim – ele continuou ainda com um sorriso gentil nos lábios – eu sou obrigado a entregar esse dinheiro a você. São normas do nosso museu. Não podemos simplesmente pegar a peça que estava sumida há décadas e não entregar a recompensa que é oferecida. Mas você pode fazer o que quiser com esse dinheiro. Pode doar se quiser, mas, honestamente, eu aconselho você a aceitar. Você é jovem, pode usar esse dinheiro para a faculdade, para o seu futuro.

– Mas eu não quero – eu insisti embora visse a razão por trás das palavras dele.

– Bem, como eu já disse, eu tenho que lhe entregar o cheque. Você faz o que quiser com ele, mas converse com seus pais antes de tomar alguma decisão.

Olhei para a minha mãe que continuava do mesmo jeito, aflita para falar algo.

– Tudo bem.

Ele fez sinal para um dos homens, um senhor de cabelos grisalhos, que retirou alguns papéis de uma pasta e entregou a ele.

– Eu preciso que assinem esse documento. – ele pediu estendendo duas vias para mim. – Nele consta que essa peça pertence ao Museu do Louvre, mas que, enquanto não é comprovada a veracidade, vocês são os proprietários. Após a confirmação do laboratório, ela voltará a pertencer ao museu e vocês receberão a devida recompensa.

Eu olhei o papel em minhas mãos e, vendo que estava em inglês, entreguei para Jesse ler.

Ler contratos era tedioso demais para mim. Enquanto ele lia, eu procurei Petrie pela sala e o vi a um canto perto de onde a minha mãe estava. Ele estava estranhamente calado. Eu pensei que ele fosse ficar mais agitado naquele momento.

– Qual é o valor dessa recompensa? – minha mãe perguntou por fim, sem conseguir mais se controlar.

– Mãe! – eu realmente não queria saber. Tinha medo de ser influenciada pelo valor.

– Quinhentos mil – ele informou e meu queixo foi ao chão.

– Dólares? – minha mãe perguntou num sussurro, tão incrédula quanto eu.

– Euros. – Dessa vez minha mãe se engasgou e não falou mais nada. – O que, convertendo para a moeda de vocês, chegaria próximo dos setecentos mil. – Ele esperou um pouco para analisar a minha reação, mas eu não consegui esboçar nenhuma. Jesse tampouco se abalou. Ele apenas me encarou brevemente e voltou à leitura. – Eu sugiro que você aceite esse dinheiro, Suze. Tornaria seu futuro mais fácil.

Eu não respondi. Jesse terminou a leitura e me estendeu os papéis para que eu assinasse.

– Assina você – eu falei pegando a caneta que Jean estendia e entregando a Jesse.

– Eu preciso que você assine, Suze – Jean pediu. – Foi você que achou a peça.

– Não, senhor Brodoteu, nós achamos juntos. Eu apenas fiquei responsável por entrar em contato com o senhor por falar um pouco francês. Mas nós fizemos todo o resto juntos.

– Tudo bem, então.

Depois que Jesse assinou o contrato, Jean assinou também, assim como o senhor de cabelos grisalhos que eu descobri ser advogado do museu. Ele guardou uma das vias e nos entregou a outra.

– Entraremos em contato com você amanhã no final da tarde ou na manhã da quarta-feira no máximo.

Assim que eles saíram, levando a maleta com tanto cuidado que parecia mais de porcelana, minha mãe saiu do estado de choque que ela ficara ao saber o valor.

– Você tem que aceitar esse dinheiro, Suze. Pense só no que ele poderia proporcionar para...

– Mãe – eu a interrompi com delicadeza –, eu preciso falar com Jesse um instante. Afinal, esse dinheiro também é dele.

– Mas...

– É rápido mãe – eu falei pegando a mão de Jesse e guiando-o para as escadas.

– Certo. Mas desçam logo. O jantar já vai ser servido.

Levei Jesse para o meu quarto sem falar nada e fechei a porta. Não porque iríamos fazer nada indecente, mas a conversa ali dentro não poderia ser ouvida.

– Precisamos falar com Petrie – Jesse falou assim que eu fechei a porta.

– Está lendo a minha mente? – eu perguntei sorrindo, enquanto chamava Petrie na minha mente. Eu já tinha feito tanto isso que nem precisava mais me concentrar. – O que você quer fazer com esse dinheiro, Petrie? – eu perguntei assim que ele apareceu no meio do quarto.

– Eu?

– Sim. Você quer enviar esse dinheiro para alguma instituição? Ou talvez para o seu museu?

– Não! De forma alguma! Eu não quero que eles vejam um centavo desse dinheiro. Eles já lucraram bastante com a venda da minha princesa.

– Ok. Então o que você quer fazer?

– Eu quero que vocês fiquem com esse dinheiro.

– Petrie...

– Tenho certeza que ninguém fará melhor uso desse dinheiro do que vocês.

– Nós não podemos aceitar, Petrie – Jesse falou.

– É claro que podem, Jesse. Vocês podem pagar a faculdade e construir o futuro de vocês juntos.

– Mas...

– Vocês perguntaram o que eu quero. Eu respondi. Não fazer isso seria ir contra a minha vontade – ele falou isso num tom sério, mas havia um sorriso brincando em seus lábios.

Eu encarei Jesse por alguns instantes. A faculdade de medicina não era barata. Ele precisava daquele dinheiro.

– Ok, Petrie, nós aceitamos o...

– Espera, hermosa – Jesse me interrompeu e me virou de frente para ele. – Por quê?

– O quê?

– Por que você aceitou agora? Espero que não tenha sido por minha causa.

A cada dia que passava Jesse me entendia mais.

– Você vai fazer medicina, Jesse. Não é barato.

– Eu não quero esse dinheiro, hermosa.

– Mas Jesse...

– Esse dinheiro é seu. Eu estou trabalhando. Posso muito bem pagar a faculdade.

– Eu não vou ficar com esse dinheiro só para mim. Nem adianta insistir.

– Suzannah...

– Jesse – eu o interrompi levando um dedo aos seus lábios –, nós somos um só agora. O que é meu é seu.

– Hermosa...

– Eu não vou aceitar esse dinheiro se você não quiser. Nós podemos doá-lo a alguma instituição.

– Você também pode usar o dinheiro para pagar a sua faculdade.

– Eu sei. Embora ainda não tenha nenhum curso em mente. Mas eu só vou usar o dinheiro se você usar.

Ele respirou fundo e me puxou mais para si, unindo nossos corpos.

– Tem certeza?

– Só se você tiver.

Ficamos nos encarando por alguns segundos. Eu sabia que ele, assim como eu, estava analisando as vantagens de ter esse dinheiro. Tudo ficaria muito mais fácil para nós. Não apenas por conta da faculdade. Mas Jesse poderia enfim sair da casa de Paul. Sem contar que eu poderia ir morar com ele quando terminasse a escola e fosse maior de idade. Imaginar uma vida ao lado de Jesse, acordando com ele me dizendo bom dia e dormir em seus braços todos os dias, fez com que um sorriso brotasse em meus lábios e, estranhamente, nos dele também. Eu tinha certeza que ele estava pensando o mesmo que eu. Estávamos sempre em sintonia.

– Tudo bem. Nós aceitaremos o dinheiro Petrie – Jesse falou se voltando um pouco para ele.

Me assustei ao ver Petrie bem menos sólido do que antes.

– Petrie...

– Obrigado por tudo que vocês fizeram para mim crianças – ele falou, sua voz sumindo à medida que seu corpo ia ficando mais e mais transparente. – Serei eternamente grato a vocês. Desculpem pelo terremoto. – Ele olhou para as próprias mãos que quase não eram mais visíveis e voltou a olhar para nós com lágrimas nos olhos. – Sejam felizes.

– Seremos – Jesse sussurrou antes que ele sumisse por completo.

Eu me surpreendi ao sentir as lágrimas escorrendo pelos meus olhos que Jesse se apressou a enxugar.

– Ele foi feliz durante a vida? – Era a primeira vez que eu me interessava em saber sobre algum fantasma.

– Claro que foi. Ele viveu para o que ele mais amava. Arqueologia era a vida dele.

– Mas ele pareceu triste com o que museu fez para ele.

– Não com o museu. Acho que ele ficou chateado pela forma como as pessoas o administraram. Não deram o devido valor ao que ele tanto prezava. Mas isso não tornou a vida dele menos feliz.

– Apesar de ele ter me irritado bastante no começo, ele parece ser um homem legal.

– Ele é sim. E tem uma história incrível.

Minha mãe gritou avisando que o jantar estava pronto, mas quando eu fiz menção de me afastar Jesse me deteve.

– Espera um pouco – ele sussurrou com a voz baixa. – Eu estava com saudades.

Sua mão que permanecia na minha cintura me puxou para mais perto, enquanto a outra se prendia em minha nuca e entrava em meus cabelos.

– Eu te amo, Jesse.

– Eu sei. – Seus lábios se abriram em um sorriso antes que nossos lábios se encontrassem em um beijo terno e cheio de significados.

Meu corpo inteiro relaxou em seus braços e a vontade que eu tinha era ficar assim para sempre, mas a voz da minha mãe se fez ouvir novamente no andar de baixo.

– Eu também te amo – ele murmurou contra os meus lábios antes de se afastar e me guiar para fora do quarto.

Quando chegamos na cozinha, todos já estavam sentados à mesa, inclusive Jake e Gina que estiveram sumidos desde o final da aula. Apenas Brad estava ausente e eu sabia exatamente onde ele estava e com quem. Mesmo ele estando completamente domado agora, ele tinha conseguido o que tanto queria. De uma forma diferente da que ele estava acostumado, mas ele conseguira ficar com Thais.

Sentei ao lado da minha mãe, de frente para Gina, e Jesse sentou ao meu lado.

– Adivinha onde nós estávamos agora, Suze – Gina perguntou com um sorriso enorme no rosto.

Eu queria mesmo saber onde? Por que ela estava perguntando isso na frente de todo mundo?

– Não faço ideia.

– Lá em casa – ela falou sem desmanchar o sorriso. – Jake conheceu meus pais hoje.

– É – Jake confirmou um tanto constrangido. – Eles são legais.

– Que coisa boa, Jake – Andy falou com o tom paternal. – Já estava me perguntando quando isso iria acontecer. É um grande passo para o futuro de vocês.

– É. – Jake parecia ainda mais sem graça do que antes.

Mas eu achava legal que ele finalmente tenha conhecido os pais de Gina. E eu tinha certeza que Gina também estava muito feliz por isso. Por Jake estar mais participante na vida dela.

– Falando em futuro... – minha mãe começou e eu sabia que ela estivera se controlando para não falar logo sobre aquilo.

– Nós já decidimos o que vamos fazer, mãe – eu a interrompi antes que ela começasse a falar demais. – Nós vamos ficar com o dinheiro.

Minha mãe ficou mais que feliz com isso, é claro.