Atração Involuntária
32 Capítulo 31 - Parte 2
Notas iniciais
CAPÍTULO 31 – Parte 2
No dia seguinte eu estava voltando para casa quando meu celular tocou. Era Jesse.
– Oi, hermosa.
– Oi, Jesse. Que barulho é esse? – eu perguntei estranhando os ruídos. O museu era sempre tão silencioso.
– Estourou um hidrante em frente ao museu e agora eles estão concertando – ele falou aumentando um pouco a voz para que eu ouvisse. – Mas nós estamos fechando mais cedo porque não está dando para ninguém entrar.
– E você está indo lá para casa agora? – eu perguntei esperançosa. Seria perfeito passar todo esse tempo com ele.
– Eu estava pensando em te levar para jantar. O que acha?
– Eu adoraria. Só preciso ligar para a minha mãe.
– Eu já fiz isso. – Desde quando Jesse tinha o telefone da minha mãe? – Ela autorizou contanto que eu te devolva até as 23h. Eu te pego às 18h, ok?
Às 17:30 eu já estava pronta. Jesse não quis me dizer para onde iríamos, então eu tive um super trabalho para escolher a roupa. Acabei optando por um vestido preto tomara-que-caia soltinho que ia até a metade da coxa. Deixei meus cabelos ao natural e apliquei um pouco de maquiagem.
Minha mãe estava na sala, sentada confortavelmente no sofá, quando eu desci e me deu uma olhada conferindo minha aparência.
– Você está linda, filhinha.
Opinião de mãe não conta, não é? Eu poderia vestir um saco de batatas que ela diria que eu estava bonita.
– Obrigada, mãe. – Eu notei uma sacolinha ao seu lado com o desenho de uma cegonha nela. – O que é isso?
– Ah, eu estava voltando do trabalho e passei numa loja de roupas de bebê. – Ela pegou a sacola e retirou de dentro uma peça que mais parecia roupa de boneca. – Comprei branco já que eu ainda não sei o sexo.
– É tão... pequeno. – Será que alguém cabia naquele pedacinho de pano?
– Você era desse tamanho quando nasceu – ela falou com um sorriso.
– Anã?
Minha mãe riu ainda mais da minha cara.
– Pequenininha. Parecia um anjinho, toda redondinha e vermelhinha.
– Anã, gorda e parecendo um camarão. Não parece nada bonito.
– Era linda. Ainda é – ela falou erguendo uma mão e acariciando meu rosto com um olhar maternal. – Mas agora já está uma mulher. O que me faz lembrar... – ela falou de repente. – Está levando camisinha?
– Mãe! – Meu Deus. Minha mãe saía com cada uma às vezes. Corei até a raiz dos cabelos, é claro, e não consegui continuar olhando nos olhos dela.
– Eu espero que você esteja. Eu não comprei aquela caixa para você deixar guardada no seu guarda roupa. Você não quer acabar com eu, quer? Eu estou muito feliz de estar grávida, mas você é muito nova. Tem todo um futuro pela frente e não tem porque desperdiça-lo por conta de uma vergonha boba. Hoje em dia não tem mais isso de mulher não andar com camisinha na bolsa. Tem que andar, sim! É responsabilidade dos dois se protegerem para que...
Céus! Como minha mãe fala!
– Ok, mãe, eu estou levando camisinha. Pode parar o falatório agora.
– Ótimo. – Ela pareceu satisfeita e voltou a atenção para o casaquinho branco que tinha nas mãos.
– Mãe – por que não aproveitar o papo para pedir isso? Já que estávamos tendo um papo aberto, era melhor ir até o fim –, posso te pedir uma coisa?
– Diga – ela falou sem deixar de olhar para a roupinha.
Ok. Vamos lá. De uma vez. Respira fundo e fala.
– Posso dormir na casa de Jesse hoje? – pedi num fôlego só.
Ela parou no movimento de devolver a pecinha à sacola e ficou uns instantes congelada. Por um momento eu pensei que ela iria me ignorar enquanto a observava colocando a sacola no lugar e se voltando para mim.
– Suze...
Reconheci aquele tom. Um belo de um “não” estava a caminho.
– Mãe – eu a interrompi antes que ela falasse o que eu não queria ouvir –, Gina passa a noite com o Jake aqui, Brad passa a noite fora e vocês não falam nada. A senhora sabe o que acontece entre nós dois. – Ah! Dane-se! Estava na chuva era para me molhar. – E a senhora sabe que eu estou me protegendo. Eu também não quero engravidar agora, mãe. Eu amo Jesse, mas ainda não estou pronta para formar família. E tenho certeza que ele pensa da mesma forma.
– Mas – ah, desse tom eu gostava. Era quase uma rendição –, você tem aula amanhã.
– Eu vou para a aula. Já fiz minha lição de casa hoje e amanhã Jesse me leva para a escola.
– Mas...
– Por favor, mãe.
Antes de falar qualquer coisa ela me puxou para si e me abraçou.
– Droga! – ela murmurou ainda sem me soltar. – É tão difícil te ver crescendo assim tão rápido. – Eu não sabia o que falar. – Tudo bem. – Ela me soltou devagar, mas continuou com as mãos nos meus ombros me segurando no lugar. – Pode dormir lá. Mas é a primeira e última vez...
– Mas...
– Deixa eu terminar. É a primeira e última vez que eu deixo você dormir na casa dele durante a semana. Eu não quero que isso atrapalhe os seus estudos.
– Fechado!
Corri para o meu quarto e peguei minha mochila da escola com o trabalho que eu deveria entregar no dia seguinte e coloquei duas mudas de roupa dentro. Desci as escadas no momento que a campainha tocou.
Abri a porta e lá estava o homem mais maravilhoso da face da terra segurando uma única rosa vermelha em frente ao peito. Ele beijou a rosa e a estendeu para mim, andando alguns passos até quase colar nossos corpos, mas sem me tocar. Eu levei a rosa até os lábios e a beijei assim como ele tinha feito e aproveitei para inalar o seu perfume.
Jesse ergueu uma mão e, lentamente, afastou uma mecha que caía no meu rosto e se inclinou para beijar minha bochecha. Eu sorri ao sentir seus lábios na minha pele, fechando os olhos para apreciar o contato. Ele beijou o outro lado do meu rosto antes de juntar os nossos lábios num beijo calmo, mas que me deixou de pernas bambas.
Jesse se afastou devagar e eu abri os olhos para encarar os seus brilhantes.
– Olá – eu sussurrei com um sorriso bobo nos lábios.
– Olá, hermosa. – Seu tom de voz era tão baixo quanto o meu. – Está pronta?
– Estou. Só vou colocar a rosa na água. Já volto.
Subi as escadas correndo e entrei no quarto a procura de um jarro em formato de cilindro que eu tinha comprado há algum tempo. Era pequeno e só cabia uma única flor. Perfeito! Estava no banheiro enchendo ele de água quando Larii entrou no quarto.
– Ah, oi. Vai sair? – ela perguntou notando a minha roupa.
– Vou. Onde você estava? – eu perguntei, lembrando de não tê-la visto a tarde inteira.
– No quarto de Dave. Estava jogando Cool Boarders.
– Só vocês dois? – Tudo bem que eles eram primos, mas...
– Não. Eu, ele, Maria e Cole.
– Quem é Cole? – eu perguntei enquanto voltava para o quarto e colocava o jarro com a rosa no móvel ao lado da minha cama e apreciava o efeito que a rosa deu.
– Amigo de David. Bonitinho – ela completou com um sorriso. – E é legal também. Ele está me ensinando vários truques novos para jogar.
– Ah, que legal. – Será que tinha alguma coisa no ar na Califórnia que estava fazendo todo mundo se gostar de repente?
– É.
– Bem, eu vou indo. Eu não vou dormir em casa, então o quarto é todo seu.
– Oba. Posso ouvir alguns CDs seus?
– Pode. Só coloca no lugar depois.
– Pode deixar. Vou tomar banho agora. Daqui a pouco o jantar fica pronto. Estou morrendo de fome.
– Ok. Até amanhã.
– Até. Divirta-se.
– Obrigada.
Desci as escadas e encontrei Jesse vendo as minhas fotos que estavam em cima da lareira da sala que nunca era usada.
– Não veja essas fotos, Jesse. São constrangedoras.
Ele apenas riu, mas não deixou de olhar.
– Para onde vamos? – eu perguntei, mais para tentar tirar a atenção dele daquelas fotos ridículas da minha infância, do que por curiosidade.
Funcionou. Ele se voltou para mim e andou na minha direção.
– Para casa. Eu preparei um jantar especial para nós.
– Você cozinhou? – ele apenas assentiu se aproximando mais. – E eu perdi isso? Eu gosto de te ver cozinhando. – Eu olhei para os lados para me certificar que não havia ninguém por perto antes de continuar. – É sexy.
Ele gargalhou divertindo-se com as minhas palavras e corou levemente.
– Mas eu ainda posso te ver preparando meu café da manhã – eu continuei, envolvendo seu pescoço e me erguendo na ponta nos pés para tentar chegar perto dos ouvido dele. – Já que eu vou dormir com você essa noite – eu sussurrei.
Agora ele parou de rir. Me afastou delicadamente pelos ombros para poder me encarar. Sua expressão estava surpresa e ansiosa.
– Você... vai... dormir...
– Com você – eu completei com um sorriso ainda maior.
Foi engraçado ver o sorriso crescendo nos lábios dele. Sua expressão agora era de plena felicidade.
– Bem... – ele começou, passando as mãos nos cabelos num gesto nervoso. – Vamos?
Ele pegou minha mochila e eu peguei a minha bolsa de mão. Fomos andando para o carro de mãos dadas, mas eu tive que interromper o contato para atender meu celular.
– Alô?
– Suze, é Jean Brodoteu – ele falou, embora eu tenha reconhecido sua voz assim que ele falou meu nome que, com o leve sotaque dele, parecia mais “Sussi”.
– Olá, como vai? – eu o cumprimentei enquanto entrava no carro pela porta que Jesse mantinha aberta para mim e o acompanhei com o olhar enquanto ele dava a volta no carro e sentava-se ao volante.
– Bem, obrigado. E você?
– Estou bem.
– Que bom. Acabei de receber um telefonema do laboratório – ele falou sem rodeios. – A peça é verdadeira, é claro. Podemos marcar a entrevista e a entrega do cheque para amanhã às dez?
– Espera, o senhor disse “entrevista”?
– Sim, mas nada demais. Eles apenas vão querer saber o que você já nos contou sobre como achou a peça. E serão apenas dois ou três jornalistas.
– Isso é mesmo necessário?
– Sim. Nós precisamos deixar tudo registrado.
– Ah, ok, mas pode ser à tarde? Eu tenho aula pela manhã.
– Ah, claro. Esqueci desse detalhe. Às 16h então?
– Er... Não poderia ser depois que Jesse saísse do museu. Eu queria que ele estivesse comigo.
Jesse, ouvindo isso, pegou minha mão na sua livre e levou-a aos lábios.
– Na verdade, Suze, você acabou de me dar uma excelente ideia. O que acha de fazermos a entrevista no Museu de Carmel? Tenho certeza que eles vão adorar a mídia espontânea.
– Só um momento, por favor. – Eu transmiti a ideia para Jesse ele também gostou da divulgação que isso traria para o museu. – Tudo bem, senhor Brodoteu.
– Perfeito. Vou ligar para a Sociedade Histórica e acertar tudo. Nos vemos amanhã no museu às 16h.
– Ok.
– Isso será muito bom para o museu – Jesse comentou depois que eu desliguei.
– Ele marcou às 16h, ok?
– Ok. Ah, eu comprei uma coisa para você – ele falou estendendo a mão até o cofre do carro e retirando uma caixa branca envolvida em uma fita de cetim vermelho.
– Você comprou isso? – Ele apenas assentiu com um sorriso satisfeito nos lábios. – Jesse, eu não quero que você fique gastando seu dinheiro comigo. Você deveria... – eu me interrompi quando o vi arqueando as sobrancelhas na minha direção. – Ok. Eu sei que você falou a mesma coisa quando eu comprei as roupas para você, mas foi diferente.
– Não vejo diferença alguma – ele voltou a atenção para a estrada e pegou minha mão nas suas novamente. – Eu recebi meu primeiro salário. Quis gastar com você. Será que eu não posso comprar um presente para a minha namorada?
– É claro que pode, mas...
– Sem mais, hermosa. – Ele apertou levemente minha mão. – Eu me sinto bem agora que finalmente posso comprar algo para você.
Eu preferia muito mais que Jesse gastasse o salário dele com ele, mas ele estava tão feliz que eu preferi não insistir.
– Obrigada, Jesse.
– Não me agradeça ainda. Vamos, abra – ele pediu ansioso.
Eu desfiz o laço, agora curiosa para saber o que Jesse tinha comprado para mim. Me surpreendi ao ver um livro. Não qualquer livro. Era a biografia de Flinders Petrie. Não era necessariamente um presente romântico, do tipo que vemos os namorados presenteando as namoradas nos filmes com caixa de bombons ou perfumes, mas eu e Jesse nunca seríamos namorados normais.
– Ah, Jesse, eu adorei – eu exclamei com sinceridade, me inclinando sobre o seu banco e beijando seu rosto. – Obrigada.
Na noite anterior, depois do jantar, eu tinha ido até a prateleira de livros que ficava na sala e peguei o tal livro que Jesse tinha comentado que lera a respeito de Petrie. Não havia muita coisa falando sobre ele. Apenas uma breve explanação sobre quem ele fora e o que ele fizera, mencionando algumas das suas descobertas. E eu ficara curiosa para saber mais a respeito dele. Eu cheguei a comentar com Jesse que queria ter tido a oportunidade de conversar mais com Petrie.
– Howard Carter? – eu perguntei vendo o nome do autor da biografia.
– Filho do assistente de Petrie. O pai, que tinha o mesmo nome do filho, começou juntar as informações sobre Petrie, mas morreu antes de começar a escrever. Então o filho terminou o trabalho do pai. Os dois eram arqueólogos.
Eu tentei ler alguma coisa enquanto não chegávamos à casa de Jesse, mas a pouca luminosidade que vinha dos postes na estrada não me possibilitou fazer isso. O sol já tinha se posto completamente quando chegamos e Jesse estacionou o carro em uma das vagas da garagem. A moto de Paul não estava em lugar nenhum.
– Ele saiu com Alicia – Jesse me informou quando eu perguntei por Paul. – Hoje é o dia de folga dela.
– Eles estão bem?
– Sim. Paul está bastante mudado. É claro que ele ainda continua com aquela história do livro sobre mediadores e deslocadores e sempre que estamos só nós dois aqui, ele me bombardeia com perguntas sobre a minha existência enquanto fantasma. Mas ele está menos rude, mais maduro.
– Alicia está fazendo bem a ele.
– Sem dúvida.
Ele pegou minha mão e me guiou para dentro. O que eu vi ali dentro me deixou completamente pasma e maravilhada.
Onde antes havia um ambiente frio e sem graça, agora eu via a cena mais perfeita e romântica do mundo. Velas estavam espalhadas por todo lugar, desde as prateleiras de metal, até nos móveis mais baixos que geralmente eram decorados por objetos de vidro e de metal e que agora refletiam a chama das velas, conferindo um aspecto extraordinário. A sala estava irreconhecível. E não apenas pelas velas. O sofá sempre tão branco e impecável estava coberto com mantas alaranjadas e a mesa de centro de vidro estava arrumada para o jantar, coberta com uma toalha branca e cheia de pétalas de rosa vermelha espalhadas por toda a sua extensão. Havia velas ali também. No chão, almofadas laranja, vermelha e branca estavam espalhadas ao redor da mesa junto com mais pétalas de rosa.
– Jesse, isso é... – eu murmurei completamente sem fôlego com o que eu via – lindo.
– Que bom que você gostou – ele sussurrou no meu ouvido me abraçando por trás e beijando meu pescoço.
– Eu amei. Como você fez isso em tão pouco tempo?
Tudo bem que Jesse era um super namorado, mas ele não tinha mais super poderes.
– Stephanie me ajudou. Eu comprei as coisas que precisava e comecei a arrumar, mas ela terminou enquanto eu preparava o nosso jantar.
– E ainda tem o jantar – eu murmurei sem conseguir falar num tom normal.
Meu namorado era simplesmente perfeito!
– Sim. Então, sente-se confortavelmente que eu vou trazer tudo. – Ele me levou até as almofadas e foi até o aparelho de som. Logo ouvi uma melodia suave e já tão conhecida. A primeira música do CD de James Morrison se fez ouvir e ele me encarou como se esperasse pela minha reação. Um sorriso foi surgindo lentamente em seus lábios à medida que o mesmo acontecia comigo.
Jesse se ajoelhou ao meu lado e tomou meu rosto em suas mãos.
– Essa música não te traz recordações ruins? – ele perguntou ainda inseguro.
– Não – eu respondi com sinceridade. – Ela me lembra você. Por isso eu ouvi tanto quando você estava longe. Eu te sentia mais perto.
Ele pareceu satisfeito com aquilo e se inclinou para tocar meus lábios de leve com os seus. Depois de alguns instantes com nossos lábios pressionados um contra o outro, Jesse se afastou em direção à cozinha.
Ele voltou alguns minutos depois com uma bandeja nas mãos.
– O que é? – eu perguntei enquanto ele me servia e o cheiro bom invadia o ambiente.
– Carne com vinho tinto – ele falou enquanto acrescentava legumes cozidos.
– Parece bom.
Ele se serviu também e sentou à minha frente nas almofadas. E, para a minha surpresa, me serviu de vinho.
– Eu sou menor de idade, lembra? – eu comentei com um sorriso, mas aceitando a taça que ele me estendia.
– Lembro, sim. Por isso você só vai beber essa taça. Mas essa carne fica ainda melhor quando acompanhada ao vinho com o qual ela foi feita.
– Você está parecendo um chef falando desse jeito. – Eu levei a taça aos lábios, sentindo o gosto doce do vinho e o álcool queimando levemente a minha garganta, mas dando uma sensação boa de relaxamento.
A comida estava deliciosa. Era incrível como Jesse conseguia cozinhar tão bem. Mas, pensando bem, o que é que ele não conseguia fazer bem? Aquele homem era perfeito em tudo.
Quando terminamos de comer o prato principal, Jesse se ergueu novamente e foi na cozinha pegar a sobremesa. Ele voltou mais rápido dessa vez com apenas um prato na mão e sentou-se ao meu lado.
– Essa sobremesa se chama Paixão de Chocolate – ele informou num tom baixo me estendendo uma colher e pegando outra.
Eu observei melhor o prato. Além do chocolate cremoso que tinha pedaços de alguma coisa dentro, o prato era composto por uma bola de sorvete de morango e pedaços de morango cortados e jogados em cima.
– O que tem aí? – eu perguntei cutucando o chocolate com a ponta da colher.
– Nozes, uvas passas e rum.
– Rum? Quer me deixar bêbada? – eu perguntei rindo.
Ele riu também e afundou a colher na sobremesa levando aos meus lábios. Fiquei sentindo os diversos sabores na minha boca antes de morder as nozes. Quase não dava para sentir o gosto do rum, mas ele deixou o sabor mais apurado. E a mistura com o sorvete e os morangos deu o toque final.
– Delícia – eu murmurei depois de engolir tudo.
Eu fiz o mesmo com a colher que estava em minhas mãos e levei um pouco até a boca dele. Ficamos assim, um servindo o outro, alternando beijos entre as colheradas da sobremesa maravilhosa, até que o prato ficou vazio.
Continuamos nos beijando por um longo tempo, seu gosto doce por conta do chocolate, até que já estávamos ambos arfando. Ele se afastou um pouco dos meus lábios, apenas o suficiente para tomar ar, antes de voltar à atenção para o meu pescoço e depositar beijos e pequenos chupões no local. Minha respiração ficou ainda mais alterada quando suas mãos passaram a percorrer todo o meu corpo por cima do vestido.
Num movimento único, Jesse me puxou para cima do seu corpo, minhas pernas ficando uma de cada lado do seu quadril. Suas mãos subiram pelas laterais das minhas coxas, entrando pelo vestido e subindo cada vez mais, enquanto seus lábios se revezavam entre o meu pescoço, meus ombros e meu colo, exposto pelo vestido tomara que caia.
Minhas mãos se enterraram em seus cabelos e eu puxei seu rosto para cima juntando nossos lábios num beijo ávido, sedento. Estávamos tão entretidos nas carícias e no beijo ardente, que não ouvimos a porta da frente se abrindo e os passos se dirigindo até a sala. Só percebemos a presença de mais alguém ali quando ouvimos um pigarro leve.
Nos deparamos com Paul e Alicia parados nos observando, ele com um sorriso perverso e ela corada até a raiz dos cabelos, parecendo querer estar em qualquer lugar menos ali, mas Paul a mantinha firme no lugar com uma mão em volta da sua cintura.
– Atrapalhamos alguma coisa? – Paul perguntou sem desfazer o sorriso.
Jesse retirou rapidamente as suas mãos de dentro do meu vestido e me ajudou a sair do seu colo, colocando uma almofada no lugar. Apesar estar super constrangida por ter sido pega naquela situação eu não pude deixar de sorrir com o gesto de Jesse.
– Oi, Paul – Jesse murmurou com a voz ainda rouca e arfante. – Oi, Alicia.
– Oi – Alicia cumprimentou de volta. – Como vai, Suze?
– Bem. – Situação constrangedora é pouco.
– Desculpem atrapalhar o... jantar de vocês. – O tom de Paul era tudo menos arrependido.
– A sala ficou linda – Alicia comentou, dando um cutucão nas costelas de Paul. – Ficou tão romântica.
– Jesse preparou tudo para mim – eu falei orgulhosa do meu namorado e aproveitando para tentar amenizar a situação.
– Ficou maravilhoso. – Seus olhos passavam por cada detalhe, apreciando tudo assim com eu tinha feito.
– Assim você acaba comigo, Jesse – Paul reclamou. – Ela vai me cobrar a mesma coisa.
– Claro que não – Alicia se apressou a falar. – Eu adorei o restaurante que você me levou. Só achei a sala bonita. Era sempre tão sem graça. Acho até que você pode deixar assim. Ficou mais aconchegante.
– É. Até que não ficou ruim – Paul comentou também olhando ao redor. Seus olhos então se detiveram na garrafa de vinho em cima da mesa de centro. – Dando bebida alcoólica para menores de idade Jesse?
– Eu só tomei uma taça.
– Relaxa, Suze. Eu não vou contar para os seus pais. – Ele pegou a taça nas mãos para ler o rótulo. – Boa escolha. Esse vinho é muito bom. Se incomodam se acompanharmos vocês num drinque? Já quebramos o clima mesmo.
Pior é que ele tinha mesmo jogado um balde de água fria. Paul foi até a cozinha e voltou com duas taças nas mãos, entregando uma a Alicia e servindo-a em seguida. Os dois sentaram-se a nossa frente e nós ficamos um tempo ali conversando sobre futilidades e eu até consegui convencer Jesse a me deixar tomar mais uma taça de vinho tinto.
– Mas é a última, hermosa.
– Ah, deixa ela beber, Jesse – Paul reclamou tornando a encher sua taça. – Ela vai dormir aqui mesmo. Pode aproveitar, Suze.
Mas eu fiquei só nessa taça mesmo. Eu não era acostumada a beber e não queria extrapolar. Mas apenas aquelas duas taças que eu havia consumido já alteraram alguma coisa em mim. Não que eu tivesse ficado bêbada, mas eu me senti mais desinibida, mais relaxada. E incrivelmente mais sensível. Apenas o leve toque das mãos de Jesse na minha cintura era suficiente para despertar cada célula do meu corpo e me fazer arfar levemente.
Ele continuava entretido conversando com Paul e Alicia e eu já não conseguia mais prestar atenção no que eles falavam. Minha atenção estava toda concentrada no toque de Jesse e eu fiquei desejando estar sozinha com ele. Eu precisava senti-lo me tocando sem as barreiras das peças de roupa.
– Acho que o vinho me deu sono – eu murmurei deixando minha voz sonolenta e fingindo um bocejo em seguida.
– Já está tarde mesmo – Jesse falou acreditando na minha interpretação tosca. – E amanhã você tem aula.
– Nós vamos continuar por aqui um pouco, curtindo a sua decoração e o vinho – Paul falou brincalhão.
– Ok – Jesse se ergueu e estendeu a mão para me ajudar a levantar.
Fiquei feliz por não estar tonta. Ele pegou a minha mochila que continuava num canto da sala e a jogou sobre o ombro, pegando minha mão e me guiando até o seu quarto.
Assim que ele fechou a porta eu pulei em seus braços, envolvendo seu pescoço e beijando seus lábios com fervor. Ele se assustou no momento, mas logo relaxou e retribuiu com a mesma intensidade.
– Você disse que estava com sono – ele murmurou afastando um pouco os lábios dos meus.
– Eu menti. Só queria ficar a sós com você.
– Podia ter me contado. Teria me poupado da frustração que senti quando você disse que queria dormir.
– E que graça isso teria? – eu não pude deixar de sorrir com as suas palavras. E ao mesmo tempo fiquei ainda mais ansiosa. – Adoro ver essa sua cara de inocente quando não entende os meus planos.
– Você é impossível, Suzannah.
Ele me puxou novamente para si e envolveu meu rosto com as mãos, procurando meus lábios com os seus. Eu sentia o calor da língua entrelaçando-se com a minha, numa carícia já tão familiar. A intimidade entre nós mantinha-se tal como sempre fora mesmo na época em que ele era fantasma. A diferença agora era que ele era tão quente que parecia estar com febre. Aliás, nós dois estávamos com febre. E só havia uma forma de aplacar aquele calor.
Eu sentia a necessidade de dizer “eu te amo” repetidas vezes, enquanto suas mãos percorriam meu corpo e deslizavam o vestido pelo meu quadril, me deixando apenas de calcinha.
Jesse se inclinou e beijou meus seios, ao mesmo tempo em que me guiava de costas até a cama e me fazia cair sobre ela, seu corpo ficando por cima do meu. Minhas mãos afundaram nos cabelos dele e eu fui tomada pelo prazer de sentir sua língua e seus lábios em torno dos meus mamilos rijos. A mão ágil do meu amado não demorou a descer até o centro da minha feminilidade e me fazer sentir prazer de uma forma única.
Terminamos de nos despir entre beijos e abraços, numa confusão feliz, excitados de corpo e alma, e nos unimos sem poder esperar mais – Jesse por cima de mim e minhas pernas envolvendo-o pelos quadris com força. Sentindo-o dentro de mim, eu gemi querendo gritar de felicidade, pensando que queria tanto aquilo, tê-lo ali e reconhecer o cheiro dele, o gosto dele, a textura de sua pele.
Eu percorria seu corpo firme com as mãos, provocando gemidos nele, enquanto ele me possuía com um poder, uma intensidade e um calor envolventes que se intensificaram quando ele passou a gemer meu nome enquanto aumentava o ritmo. Quando eu não aguentei mais, me deixei arrebatar por aquele momento glorioso em que perdia o controle e não havia mais nada, em lugar nenhum, a não ser aquele prazer supremo. Me senti apertando-o dentro de mim e foi nesse momento que ele me acompanhou, os corpos suados, a respiração acelerada, o coração disparado, como se fosse uma tortura deliciosa, que nos deixou cansados e felizes.
Depois, enquanto esperávamos nossas respirações se normalizarem, ele me puxou contra o seu corpo, minhas costas pressionadas em seu peito formidável, seus braços envolvendo minha cintura e eu entrelacei minhas mãos nas suas. Adormecemos juntos satisfeitos e cheios de paz.
Acordei no meio da noite e fiquei vendo a lua que se infiltrava pela enorme janela com vista para o mar. Eu senti o corpo quente sob o meu e vi que agora eu estava deitada com a cabeça apoiada em seu peito. Eu sequer havia percebido quando mudamos de posição.
Não sabia que horas eram e nem me interessei em procurar algum relógio pelo quarto, mas eu me sentia incrivelmente acordada. E, vendo aquele corpo perfeito, sem nada cobrindo a sua masculinidade, eu fiquei ainda mais desperta. Eu não resisti e passei a percorrer minha mão pelo seu peito, descendo até o seu abdômen e subindo novamente para os seus ombros. Mas eu ainda queria mais. Queria tocar aquele corpo por inteiro, sentir cada detalhe sob os meus dedos.
Me afastei lentamente do seu corpo tomando cuidado para não acordá-lo e me ajoelhei na cama para poder observá-lo melhor. Eu queria acender a luz, mas a lua acabou dando um brilho diferente ao quarto e eu deixei assim mesmo. Aos poucos meus olhos foram se acostumando à baixa luminosidade e eu pude distinguir cada traço, cada músculo do seu corpo.
Me inclinei novamente em sua direção e voltei a percorrer seu corpo com as mãos. Ele se mexeu levemente, mas ainda sem despertar. Continuei a minha missão de reconhecimento, descendo para as suas pernas, começando pelos pés e subindo devagar. Eu sentia seus pelos se arrepiando por onde minhas mãos passavam e me surpreendi quando o ouvi gemendo baixo, dormindo, quando eu cheguei às suas coxas. E mais surpresa ainda eu fiquei quando vi que ele estava começando a se excitar. Eu continuei tocando-o na região das coxas, me detendo por mais tempo na parte interna e vendo seu membro ficando cada vez mais rijo. E quando minhas mãos se aproximaram da sua virilha, ele arqueou o quadril levemente, tornando a gemer baixo e despertando por fim.
– Suzannah – sua voz estava rouca, não sei se pelo sono ou pela excitação. Ele ergueu um pouco o corpo, se apoiando nos cotovelos para poder me observar –, o que está fazendo?
– Te conhecendo – eu sussurrei sem deixar de tocá-lo.
Ele deu um sorriso torto e arqueou uma sobrancelha, mas seu corpo logo voltou a cair sobre a cama quando eu o toquei ainda mais perto do seu membro, e um gemido brotou de sua garganta.
– Eu pensava que estava sonhando – ele murmurou, tornando a se erguer sobre os cotovelos.
– Estava tendo um sonho erótico? – eu perguntei tentando conter uma risada.
– Se eu disser que estava, você vai ficar chateada?
Longe de ficar chateada, eu fiquei ainda mais excitada.
– Desde que eu estivesse fazendo parte desse sonho.
– Você estava – ele falou com a voz rouca e dessa vez eu vi que não era pelo sono. – Mas eu acordei e vi que a realidade estava bem melhor.
Ele tentou se erguer por completo e estendeu as mãos na minha direção, mas eu o detive, empurrando-o pelos ombros de volta para a cama.
– Eu ainda não terminei o meu reconhecimento.
Ele riu, mas ficou quieto enquanto eu continuava a percorrer seu corpo. Evitei chegar perto demais do seu sexo depois que ele quase me agarrou de novo. Subi pelo seu abdômen de tanquinho, contornando cada músculo com a ponta dos dedos. Eu continuava de joelhos ao lado dele, mas resolvi mudar para uma posição mais confortável. Passei uma perna por cada lado do seu quadril, ficando sentada em suas coxas e voltei minha atenção à parte superior do seu corpo. E não o detive quando ele passou a acariciar minhas coxas, apertando-a de vez em quando. Eu só não deixei ele me puxar mais para cima quando ele tentou. Queria continuar naquela brincadeira por mais algum tempo. Mas era difícil me controlar, vendo-o tão pronto e sabendo que eu estava na mesma situação. Os dois corpos nus, sem barreiras a não ser a minha vontade de conhecer mais daquele corpo que tanto me fascinava.
Minhas mãos agora estavam espalmadas em seu peito onde tantas vezes eu me aconchegara. Quando eu o ouvi gemendo novamente, dessa vez ainda mais alto, eu tive uma ideia que, do mesmo jeito que me deixou vermelha de vergonha, me deixou extremamente excitada. Saí de cima dele, ouvindo reclamar quando eu desci da cama e fui até a minha mochila pegar algo que Gina tinha me dado no dia anterior.
– Fecha os olhos – eu pedi enquanto voltava para a cama e escondia a pequena embalagem às minhas costas. Ele me olhou com o cenho franzido, mas fez o que eu pedi. Voltei para a mesma posição de antes, sentando em suas coxas e abri a embalagem da camisinha com sabor de morango. – Não abra os olhos.
– O que você vai fazer, hermosa?
– Só fica quietinho.
Eu verifiquei se ele me obedecia antes de continuar. Posicionei a camisinha no seu membro rijo, fazendo-o gemer de satisfação ao sentir meu toque e eu respirei fundo antes de fazer o que eu queria. Me inclinei sobre ele e encostei meus lábios em seu membro, deslizando a camisinha por toda sua rigidez. Adorei a reação dele depois disso. Seus dedos se infiltraram nos fios do meu cabelo, afastando as mechas do meu rosto, e suas pernas tremeram quando eu tornei a subir e descer, sentindo o gosto doce do morango. Continuei os movimentos por mais algum tempo, mas parei quando ele começou a arquear o quadril, gemendo cada vez mais alto.
Ele me encarou com o olhar aflito quando eu ergui meu rosto e já ia falar alguma coisa quando eu me posicionei sobre ele, o ajustando na minha entrada e deslizei devagar até que ele me preencheu por completo.
Jesse soltou um rugido alto e suas mãos agarraram meu quadril com força, sua cabeça se inclinando para trás e seu quadril tornando a arquear, intensificando ainda mais o contato, me fazendo gemer de prazer. Eu apoiei minhas mãos em seu peito e comecei a me mover cada vez mais rápido. Seus olhos se mantinham abertos, me encarando intensos, analisando cada reação do meu corpo quando ele se movia embaixo de mim de uma forma diferente, em movimentos circulares, e ao mesmo tempo me preenchendo mais profundamente.
– Ah, Jesse. Isso é tão bom. – Ele sorriu deliciado e eu cravei minhas unhas em seu peito, arranhando-o. Ele tornou a gemer, mas não de dor. Seus movimentos ficaram ainda mais acelerados e sua mão apertou ainda mais meu quadril. – Meu masoquista está de volta – eu consegui falar sob o fôlego e um sorriso brotou em meus lábios.
Mas as minhas palavras surtiram o efeito contrário do esperado. Ele parou de se mover dentro de mim e segurou minhas mãos no lugar para que eu não continuasse arranhando-o.
– O que foi? – eu perguntei com a respiração irregular.
– Eu não sou masoquista – ele falou sério, com a voz rouca e arfante.
– Jesse...
– Eu não gosto disso, hermosa. Não é uma coisa boa de ser chamado.
Ok. Ele estava surtando e quebrando o clima totalmente. Mas eu me pus no lugar dele por um instante para responder a coisa certa. Ele era de um século em que sexo não era discutido tão abertamente. E provavelmente o masoquismo não era visto com bons olhos naquela época. Não que fosse assim nos dias de hoje, mas era diferente.
– Jesse – eu me inclinei sobre o seu corpo, encostando meus seios em seu peito e acariciando seu pescoço com delicadeza. – Não tem nada de mais nisso. A dor e o prazer se confundem. Mas não isso não significa que eu vá usar chicotes ou cera quente em você. Mas isso... – Eu beijei seu peito e o mordi devagar aumentando um pouco a pressão dos meus dentes. A resposta do seu corpo foi imediata. Seu quadril arqueou involuntariamente e nós dois gememos juntos ao senti-lo entrar mais fundo em mim. – Isso não tem nada de mais – eu completei com certo esforço.
– Mas...
Eu o interrompi mordendo-o novamente e fazendo-o gemer mais.
– Vai me dizer que isso não te excita.
Ele pegou meu rosto nas mãos me forçando a encará-lo.
– Você me excita! – ele afirmou sério e me puxou para um beijo urgente.
Foi o suficiente para trazer a paixão de volta. No vai e vem dos movimentos, ora eu me curvava à sua frente, ora me jogava para trás colocando as mãos em suas coxas. O suor escorria pelos nossos corpos. Suas mãos se firmaram em minha cintura me ajudando nos movimentos e eu me curvei mais uma vez, não para beijá-lo, mas aproximando meus lábios do seu ouvido para lhe dizer o quanto eu o amava. Ele puxou meu rosto para um beijo sôfrego e foi nesse momento que atingimos o ápice juntos, desencadeando a paixão alucinante, fazendo nossos corpos tremerem loucamente, sentindo os espasmos do orgasmo violento.
No dia seguinte eu acordei um tanto atrasada para a aula, mas consegui chegar à escola antes dos portões fecharem. Me despedi rapidamente de Jesse combinando de ir para o museu assim que saísse da escola. Na hora do intervalo eu coloquei Adam e Cee Cee a par das novidades, informando também a Jake, Gina e Brad sobre a entrevista que haveria no museu.
O ruim de namorar um cara que não estava mais na escola era ter que ser obrigada a segurar vela para os meus amigos. Quando eu não aguentei mais, eu puxei o livro que Jesse havia me dado e comecei a lê-lo. Nem notei quando Brad se afastou para atender o celular, falando com a voz toda melosa. Cee Cee teve que me cutucar para que eu levantasse quando deu a hora de voltar para a aula.
Ao final da aula, Jake me levou para o museu e disse que estaria de volta antes da hora da entrevista. Quando entrei, não vi Jesse em lugar nenhum. Não sabia se ele estava na parte de trás do prédio ou no primeiro andar, então resolvi sentar em um dos bancos compridos que ficavam em frente aos quadros e coloquei a mochila no chão entre as minhas pernas, retirando o livro de dentro novamente.
O começo do livro falava sobre a vida pessoal de Petrie. Sobre a sua família, sua infância, sua educação e a influência que seus pais tiveram em sua carreira. Sua primeira viagem ao Egito foi em 1880, quando ele tinha 27 anos. Seu primeiro trabalho lá foi na pirâmide de Gize onde ele passou a dedicar mais atenção até que encontrou a tal peça que tinha causado tanta confusão. Ele foi o primeiro professor de Arqueologia Egípcia na University College em Londres, e mesmo depois disso ainda continuou com os trabalhos de escavação. Seu conhecimento era tanto que ele escreveu mais de 100 livros. O cara era mesmo um gênio. E, por todas as suas descobertas, e os relatos que havia naquele livro, relatos feitos pelo próprio Petrie, a cada descoberta ele se sentia mais vivo, mais disposto a trabalhar naquilo que era a sua paixão.
E eu comecei a me colocar no lugar dele, pensando como seria vivenciar todas aquelas experiências, conhecendo mais sobre as culturas e as formas de vida do passado.
Ok. Eu sei que nunca fui muito de apreciar as coisas antigas, mas depois de namorar um fantasma e conhecer pessoas iguais a mim que lidava com essas loucuras quase diariamente, eu acabei me acostumando com aquilo. Fazia parte de mim e eu aceitava isso de bom grado agora. Afinal, se eu não fosse o que eu sou, eu nunca teria conhecido Jesse e viveria uma vida incompleta sem saber o que me faltava.
– Você fica tão linda quando está lendo concentrada – Jesse sussurrou no meu ouvido parado atrás de mim.
E eu estava mesmo tão concentrada que levei um susto ao sentir sua respiração na minha nuca. Não um susto que me fez pular, mas o suficiente para o meu coração bater descompassado e minha respiração ficar entrecortada. Se bem que eu não sei se eu fiquei assim pelo susto, ou por conta da proximidade de Jesse.
Um pouco depois as pessoas começaram a chegar para a entrevista. Às 16h em ponto estavam todos lá. Minha família, meus amigos, Jean Brodoteu e sua equipe, e os jornalistas. Minha mãe havia sido convidada para me entrevistar representando os EUA e havia mais três pessoas além dela: um jornalista de um jornal importante do Egito e dois da França. Mas eles falavam inglês fluente e a entrevista correu tranquilamente.
Eles fizeram as perguntas que já eram esperadas sobre como e onde encontramos a peça, como havia sido todo o processo de devolução da peça ao Museu do Louvre. Terminadas as perguntas, chegou a hora da entrega do cheque simbólico da recompensa e muitas fotos foram tiradas.
– O valor será depositado em uma conta no nome de vocês dois – Jean nos informou depois que as câmeras foram desligadas. – Você só poderá usar o dinheiro quando completar dezoito anos, Suze. Mas Jesse poderá movimentar a conta como desejar. Os cartões chegarão nas suas residências em no máximo 15 dias.
** Último final de semana de agosto **
Os meses se passaram e agora eu me encontrava a apenas dois dias do início das minhas aulas para o último ano escolar. Quase nada mudou nesses sete meses. A não ser a minha mãe. Ou melhor, a barriga dela. Ela estava enorme. Não que estivesse gorda, mas eu ficava impressionada como ela conseguia se equilibrar com aquele volume que crescia a cada dia. Às vezes eu tinha a impressão que ela cairia para frente a qualquer momento. Sério. Estava um monstro. Mas ela disse que era normal quando se estava grávida de gêmeos. Isso mesmo: gêmeos. Como se não bastasse a família enorme que nós já tínhamos, agora viriam mais duas pestinhas para acabar com a nossa paz. Minha mãe estava tão doida para ter uma menina que acabou sendo agraciada com duas. Ela só descobrira o sexo do segundo bebê há algumas semanas já que a outra estivera com a perna na frente nos outros ultrassons. Desde então ela já havia sido apelidada de espaçosa.
E eu continuava namorando o meu lindo, maravilhoso e gostoso ex–fantasma, que por sinal acabara de chegar em casa para a sua festa de despedida. Repetindo: despedida. Eu precisava repetir isso o tempo todo para tentar me conformar, mas não estava sendo fácil. E mesmo eu fazendo todo o meu drama e chorado até secar as lágrimas, eu sabia que não mudaria o fato de que eu tinha que deixar ele ir. Mas como eu poderia viver sem ele? Jesse era a minha vida e eu jamais conseguiria ficar afastada dele.
– Por favor, hermosa – a voz de Jesse estava torturada por me ver chorando mais uma vez. – Não fica assim.
Estávamos no jardim da minha casa, com Andy preparando um dos seus famosos churrasco em homenagem a Jesse e eu não me aguentei e comecei a chorar de novo quando minha mãe comentou por alto a partida dele.
– Eu não quero que você vá – eu choraminguei, sentando no seu colo e abraçando seu pescoço.
– Hermosa...
– Mas eu sei que você precisa ir. É só que... Como é que eu vou conseguir passar todo esse tempo sem te ver?
– Eu também vou sentir sua falta, meu amor – ele falou enquanto acariciava meus cabelos com ternura. – Mas a faculdade é perto. Nós nos veremos nos finais de semana.
– Mas isso significa que passaremos a semana inteira sem nos ver.
Eu já tinha perdido as contas de quantas vezes nós tivemos aquela mesma conversa desde que Jesse recebera o resultado comunicando a sua aprovação na Universidade de Berkeley. Ele passara esses meses estudando feito um condenado, mas conseguira entrar na faculdade que ele queria, não apenas por ser uma das melhores da Califórnia para cursar medicina, mas por ser perto de casa. Assim nós poderíamos nos ver com mais frequência.
Mas ainda assim, ter que passar cinco dias por semana sem vê-lo seria uma tortura. E tortura ainda maior seria quando ele estivesse em semana de provas e tivesse que ficar no dormitório estudando.
– Promete que vai me ligar todos os dias? – eu perguntei pela centésima vez.
– Prometo.
– E promete que vai pensar em mim a todo instante.
– Prometo, hermosa – ele sempre ria quando eu falava isso. – Como se eu já não pensasse.
– Mas não precisa pensar quando estiver em sala de aula. Eu não quero que você leve bomba por não conseguir deixar de pensar na sua namorada linda.
– Eu até hoje não entendo por que vocês se referem a se sair mal em alguma matéria com essa expressão: “levar bomba”. Não faz o mínimo sentido. Mas eu vou tentar evitar pensar em você durante as aulas.
– E você promete que não vai...
– Eu prometo que não vou me apaixonar por nenhuma universitária – ele completou já sabendo aquela conversa de trás para frente. – Mas eu não vou conseguir manter essa promessa por muito tempo. Por um ano eu sei que consigo, mas não por mais que isso.
– Engraçadinho.
– Estou falando sério. Quando certa caloura chegar lá eu vou esquecer tudo e agarrá-la na frente de todos.
– Bobo. Eu ainda nem sei se vou conseguir entrar nessa faculdade.
– Eu tenho certeza que vai. Você é boa aluna.
– E eu também tenho uma forte motivação.
– Ah, por falar em motivação, eu comprei uma coisa para te motivar ainda mais.
– Você é minha motivação, caso não tenha entendido.
– Eu entendi sim, sua boba. Mas meu presente é para te motivar no seu curso. Eu deixei no carro, já volto.
Mas é claro que eu fui atrás, embora não tenha conseguido chegar muito longe. Ainda na sala, eu encontrei com Paul que me segurou pelo pulso, mas sem grosseria.
– E aí, Suze. Agora que Jesse está indo embora, você não quer dar uma chance para mim? – Em outra época eu até teria ficado com raiva da sua sugestão, mas eu sabia que ele estava brincando. Até porque Alicia estava bem do seu lado.
– É melhor você se comportar, Paul, ou eu penhoro essa aliança – ela o ameaçou, fazendo menção de tirar o anel de noivado.
– Ei, eu só estava brincando. – Ele levou sua mão direita aos lábios e beijou seu dedo por cima do anel. – Ela agora deu para me ameaçar com isso. Qualquer coisa que eu faço ela diz que vai penhorar ou leiloar a aliança.
– Só assim para te colocar nos eixos, Paul – Jesse comentou sorrindo, entrando naquele momento com uma caixa verde nas mãos. – Olha quem chegou. – Ele abriu caminho para Naly passar, acompanhada de Thais e Brad.
– Oi, Suze – Thais se adiantou para me abraçar. – Que saudade.
– Também senti sua falta. – Eu a abracei de volta e me voltei para Brad quando ele jogou a mala de qualquer jeito num canto da sala. – E aí, Brad, o que achou da Grécia?
Brad tinha ido passar as férias de verão na Grécia com Thais. Pois é. Mesmo de forma estranha deles, eles estavam namorando.
– Muito boa. Só voltei mesmo porque as ondas daqui são bem melhores do que as de lá.
– E porque suas aulas começam na segunda – Thais o lembrou.
– É. Isso também – ele falou dando de ombros como se aquilo não importasse tanto. – Finalmente é o último ano da tortura.
– Aleluia irmão! – eu o acompanhei rindo. – Oi, Naly.
– Oi, Suze.
– Eu vi suas fotos na Time’s Magazine. Ficaram ótimas.
– Obrigada. – Ela ficou meio sem graça, mas eu sabia que ela estava orgulhosa. – Ah, Jesse, eu trouxe uma coisa para você. – Ela retirou uma embalagem do tamanho de um CD da bolsa e entregou a ele.
– Não precisava, Naly.
– Presente de despedida. Espero que goste.
Ele colocou a caixa com o meu presente – que já estava me fazendo roer de curiosidade para saber o que era – em cima do sofá para ficar com as mãos livres e poder abrir a embalagem.
– Uau, Naly, eu adorei – ele exclamou feliz e a abraçou. – Obrigado, prima.
Não. Naly não sabia que eles eram primos. Aquilo era apenas uma brincadeira entre os dois. Há alguns meses Jesse resolvera se aproximar dela, mas ele tinha decidido a não falar seu sobrenome. Mas ele logo descobriu que ela já sabia que ele era um De Silva. Bem, não um De Silva. Apenas alguém com o sobrenome parecido com o dela. Ela já sabia quem ele era, ou melhor, quem nós éramos, assim que nos apresentamos a ela na praia. A questão era que ela trabalhava para o Jornal de Carmel e tinha lido a notícia que saíra falando do nosso suposto assalto onde nosso nome era mencionado. Mas ela pensava que os sobrenomes eram apenas uma coincidência já que Jesse, tecnicamente, era de New York. Então eles acabaram ficando amigos e tinham essa mania de se chamarem de primos. E é claro que Jesse ficava super feliz com isso, já que eles eram primos de verdade. Não sei de que grau, mas eram.
Depois que Brad começou a reclamar que estava com fome, eles foram para o jardim atacar o churrasco de Andy, me deixando a sós com Jesse na sala.
– Ah, Jesse – Paul chamou parando na porta de comunicação que dava para o jardim. – O pessoal da mudança já passou lá em casa e pegou as suas caixas. Disseram que já vai estar tudo no seu quarto quando você chegar à faculdade.
– Ok. Obrigado.
– O que foi isso que você ganhou de Naly? – eu perguntei depois que Paul saiu, não aguentando mais de curiosidade.
– Um CD com músicas antigas.
Quando ele disse antigas, eu imaginei coisas do tipo Beatles ou Jackson 5 ou até B.J. Thomas que era super antigo, mas eu não reconheci nenhum dos nomes.
– Quem é Louis Moreau? – eu perguntei listando um dos nomes que apareciam bastante na relação de músicas.
– Um cantor e compositor da minha infância.
– Da sua... Infância? – ele apenas assentiu. – Tipo... Século e meio atrás?
– Isso mesmo. Eu comentei com Naly que gostava de música antiga e mencionei algumas que eu gostava. E esse é o seu presente – ele falou estendendo a caixa verde com fitas da mesma cor, mas de um tom mais claro.
Desfiz o laço com pressa e meu queixo quase caiu quando eu vi o que era.
– Como... você... conseguiu? – eu gaguejei tamanha era a minha surpresa. – Estava esgotado.
– Eu tenho meus contatos – ele falou brincalhão.
O presente era nada mais, nada menos que o principal livro escrito por Petrie: As Pirâmides e Templos de Gize. Eu tinha rodado mais de dez livrarias atrás desse livro, além de ter procurado na Internet, mas não tinha achado em lugar nenhum.
– Jesse... eu... amei! – eu pulei nos seus braços e o beijei por todo o rosto antes de finalmente beijar seus lábios macios. – Melhor presente impossível!
– Sabia que você ia gostar. Vai te ajudar muito quando você começar a estudar arqueologia.
Depois de ler quase todos os livros de Petrie e mais outros sobre o assunto, eu vi na arqueologia a minha única opção para estudar. Aquele curso era a minha cara.
– Sem dúvidas. Obrigada, meu amor.
– Foi um prazer – ele me puxou pela nuca para juntar nossos lábios novamente.
– Ei, vocês dois – Brad chamou do jeito simpático dele –, mamãe está chamando.
Nós voltamos para o jardim que agora estava lotado. Além dos que estavam na sala agora pouco, Jake e Gina também estavam ali. Jake conseguira convencer o pai a esperar mais um ano antes de começar a faculdade, porque ele queria entrar junto com Gina, mas prometera que arrumaria um emprego. David também estava ali com Maria que segurava seu dedo mindinho toda feliz.
– Cadê Larii? – eu perguntei dando pela falta de uma pipoquinha.
– Estou aqui – ela falou aparecendo às minhas costas de repente e, como sempre, pulando. – Acabei de pregar a plaquinha na parede. Ficou tão fofa.
A plaquinha a qual ela se referia era a placa com o nome das gêmeas que ela tinha mandado fazer e dera de presente para a minha mãe. Eu poderia até dizer que Larii estava tão empolgada com esses bebês quanto a minha mãe, ou até mais. Tinha até vindo passar parte das férias aqui em casa para ficar o tempo todo paparicando a minha mãe. Ela ficara assim desde que descobrira que o nome de uma das meninas seria Larissa.
– Eu só não sei por que dar o nome de Larissa justamente à espaçosa – ela reclamara quando ficara sabendo da notícia.
A placa que ela fez foi com os apelidos que também já haviam sido escolhidos. Larie – com o “e” no final para diferenciar – e Tita. Larie de Larissa, é óbvio, e Tita de Letícia. Não sei por que o “Tita”, mas foi como eles resolveram chama-la.
– Agora que todos estão aqui – minha mãe começou, apoiando uma mão na barriga enorme – eu proponho um brinde. – Ela ergueu o copo que estava em suas mãos. – Parabéns, Jesse – ela continuou depois que todos ergueram seus copos. – Não apenas por entrar na faculdade, mas por ter conseguido superar tudo que aconteceu e ainda ter tirado uma nota excelente nos exames.
Enquanto Jesse agradeceu pelo brinde, bastante corado, eu estufei o peito com orgulho do meu namorado. Jesse, por conta da sua nota muito alta no SAT, tinha conseguido uma bolsa de estudos de 70%.
Com isso, Jesse quase não precisaria mexer no dinheiro da nossa recompensa. Na verdade, Jesse só havia usado esse dinheiro até agora para comprar um carro, porque ele não queria levar o de Paul para a faculdade.
– É chamativo demais – ele justificou quando eu perguntei o motivo da troca.
E Paul tinha se recusado a deixar Jesse sair da casa dele quando nós mencionamos essa possibilidade. Tinha feito um drama daqueles e nós desistimos dessa ideia. Assim, Jesse continuou trabalhando no museu e tinha dinheiro mais que suficiente para se manter. E quando ele descobriu que tinha conseguido a bolsa de estudos, nós decidimos doar a parte que ele não usaria na faculdade para a Sociedade Histórica de Carmel. Mas ele ainda teria que usar uma parte do dinheiro. O curso de medicina era muito puxado e não permitiria que ele continuasse trabalhando para pagar os estudos.
Continuamos nos divertindo e comendo por mais algumas horas até que Jesse me puxou para um canto dizendo que queria me levar a um lugar. Se despediu rapidamente de Paul e Alicia que já estavam de saída e pediu licença aos outros.
– Aonde nós vamos? – eu perguntei quando ele pegou minha mão e me conduziu para o lado de fora da casa. Passamos pelo carro novo dele, um Dodge Dakota vermelho, e começamos a andar em direção às árvores na lateral da minha casa.
– Para um lugar que eu gosto muito – ele falou simplesmente e nós continuamos a andar.
Mas eu logo reconheci o caminho que estávamos fazendo e estanquei no lugar, segurando firme na sua mão.
– Jesse, você não está me levando para onde eu estou pensando, não é? – eu perguntei olhando alarmada para a elevação que se estendia à nossa frente.
– Suzannah...
– Não, Jesse. Você sabe que eu não gosto daquele penhasco.
– É por isso mesmo que eu estou te levando lá.
– Por que eu não gosto? – eu perguntei irritada, franzindo o cenho.
– Porque eu gosto. E não quero que você fique com más recordações.
– E agora você quer me levar para lá para se despedir de mim. De novo.
– Mas dessa vez será diferente.
– Esse penhasco vai ficar marcado como o local das nossas despedidas.
– Bem, tecnicamente nós não nos despedimos no penhasco da outra vez.
– Jesse...
– Considere esse local como um local de grandes mudanças, ok?
– Jesse – eu choraminguei. Não queria ter que rever aquele lugar.
– Por favor, hermosa, por mim. Eu amo esse lugar, eu vi aquela árvore crescendo. Por favor.
Pedindo assim com essa voz dengosa e esse olhar pidão...
– Está bem. Mas vê se não vai terminar comigo dessa vez.
– Boba.
Ele tornou a me puxar pela mão e logo chegamos ao maldito... Quer dizer, ao penhasco. Estava tudo do mesmo jeito que eu lembrava, com a exceção de não haver nenhuma toalha branca com comidas gostosas em cima. Jesse me levou até a sombra da grande árvore e me puxou para os seus braços.
– Eu vinha aqui sempre que chegava à cidade quando ainda era vivo. E também vinha antes de ir embora – ele sussurrou beijando meus cabelos e acariciando as minhas costas. – Era como se o mar me desse às boas vindas e pedia para eu voltar logo. Esse lugar é especial para mim e foi por isso que eu o escolhi para viver meus últimos momentos com você da outra vez.
– E agora tudo se repete.
– Com a diferença que agora não estamos nos afastando de verdade. – Ele ergueu meu rosto para que eu o olhasse nos olhos – Eu te amo, Suzannah. E eu vou te amar para sempre. Eu não quero que você fique triste com essa despedida, hermosa – ele pediu enxugando uma lágrima que já escorria pelo meu rosto. – Eu quero lembrar do seu sorriso alegre sempre que fechar meus olhos antes de dormir e sonhar com você.
– Eu me acostumei a te ver todo dia – eu murmurei ainda com a voz chorosa. – É difícil.
– Eu sei, meu amor. Também me dói ter que te deixar. Mas da mesma forma que você me fez te prometer tantas coisas absurdas...
– Não eram absurdas.
– Eram sim. Mas eu também quero que você me prometa as mesmas coisas.
– Jesse...
– Me promete que vai pensar em mim a todo instante – ele pediu sério –, menos quando estiver em aula – ele acrescentou sem conseguir evitar um sorriso.
– Eu prometo – eu também não pude deixar de sorrir.
– Me promete que vai me ligar todos os dias?
– Você já vai me ligar todos os dias – eu o lembrei.
– Eu te ligo pela manhã e você me liga à noite – ele sugeriu.
– Combinado!
– E me promete que não vai se apaixonar por nenhum surfista ou por...
– Eu prometo que não vou amar nenhum outro homem a não ser você, Jesse – eu o interrompi segurando seu rosto entre as minhas mãos. – Eu amo você e apenas você.
– Para sempre.
– E pela eternidade – eu completei antes de encostar meus lábios nos seus.
Não importava se passaríamos um dia, uma semana ou um ano separados, nosso amor era eterno e nada poderia mudar isso. Eu tenho sorte por estar apaixonada pelo meu melhor amigo. Sorte por ele sentir o mesmo que eu sinto. Jesse não estava comigo apenas fisicamente. Ele está dentro do meu coração e eu o levarei para todo lugar, assim como ele também fará.
Essa certeza faz com que a distância fique mais fácil. E enquanto o vento balançar as árvores ao nosso redor, enquanto a Terra continuar girando, nós seremos sempre amigos, amantes, um só.
Fale com o autor