Atração Involuntária
29 Capítulo 29
CAPÍTULO 29
Cerca de uma hora depois, quando meu estômago já estava praticamente cantando de tanta fome, eu consegui convencer Jesse a sair do quarto. Apesar daquela cozinha fria e moderna demais não ser o tipo de ambiente ao qual Jesse estava acostumado, ele parecia bem à vontade ali, mexendo nas panelas, retirando ingredientes da geladeira, pegando tudo de primeira sem ter que procurar uma segunda vez.
– Acho que você tem ficado muito tempo aqui na cozinha – eu comentei enquanto sentava à mesa.
– Nem tanto – ele falou dando de ombros. – Apenas para fazer as minhas refeições.
– Pensei que Paul tinha cozinheira.
– E tem. Ela é quem me ensina certos truques da culinária moderna – “culinária moderna”. Essa foi boa! – Mas eu gosto de cozinhar.
– O que você está fazendo?
– Frango ao molho mostarda – ele informou orgulhoso.
Deveria informa-lo ou não?
– Eu não gosto de mostarda – eu falei num tom baixo não querendo chateá-lo.
– Você prova e depois me diz o que achou – ele respondeu sem se abalar.
– E se eu não gostar?
– Com fome você não fica. Tem lasanha na geladeira.
Eu não sabia se me irritava com Jesse por ele sugerir que eu comesse comida velha ou se achava engraçado a facilidade com que ele estava se adaptando aos costumes atuais. Quem o visse naquele momento não faria ideia que ele tinha nascido há quase dois séculos.
Mas nem nas minhas fantasias mais eróticas eu poderia ter visualizado uma cena como aquela: Jesse vestindo apenas a calça do pijama, descalço, os cabelos ainda desgrenhados e o peito magnífico completamente nu. Ele estava de costas para mim, cortando as verduras que utilizaria e eu aproveitei para olhar aquele monumento. Seus ombros largos, suas costas musculosas – céus como eu adorava as costas dele, ainda mais com aqueles pequenos arranhões que eu tinha acabado de deixar ali. Isso sem falar daquela bunda deliciosa. Eu podia olhar aquilo à vontade. Tudo meu.
– Acho que você emagreceu uns dois quilos agora.
– Como? – ele perguntou por sobre o ombro.
– Dei uma boa secada em você.
Ele continuou me olhando com o cenho franzido, com aquela expressão que ele fazia quando eu falava alguma gíria que ele não conhecia.
– Deixa para lá. – Ele ia acabar me achando uma pervertida, mas o que eu poderia fazer? – Sabia que você fica lindo cozinhando?
Dessa vez ele parou o que estava fazendo e se virou para mim por completo.
– Sabia que você fica linda sentada aí vestindo apenas a minha camisa? – ele devolveu com um sorriso enorme no rosto. – Melhor ficar de costas ou vou acabar me distraindo com a visão. E o almoço não sairá nunca.
– Concordo que é melhor você ficar de costas. A visão fica perfeita daqui – eu o provoquei.
– Hermosa, hermosa... – ele murmurou, rindo em tom de repreensão.
– Hermoso, hermoso... – eu devolvi no mesmo tom.
Eu queria mesmo provoca-lo, mas a minha barriga tornou a protestar então eu fiquei na minha. Já passava das três da tarde e eu estava morta de fome. Sexo dá fome. Fato!
Eu acabei gostando, e muito, do frango que Jesse fez. Nem dava para sentir o gosto da mostarda. Nós comemos tudo em poucos minutos e eu coloquei os pratos na lava-louças enquanto Jesse nos servia de torta de morango para a sobremesa. Sentamos novamente lado a lado e eu não resisti quando um pouco do creme da torta escorreu pela sua boca até seu queixo. No momento que ele ergueu o guardanapo, eu segurei seu pulso e puxei seu rosto até o meu, limpando tudo com a língua.
– Delícia – murmurei ainda de encontro aos seus lábios.
A rendição dele era o meu presente. Ele me puxou em seguida para um beijo, invadindo minha boca com sua língua com urgência, sua mão na minha nuca me mantendo firme no lugar. Num movimento ágil, ele me puxou de encontro a si, me fazendo sentar em seu colo, uma perna de cada lado do seu corpo.
Quando ele me afastou um pouco para recuperar o fôlego, eu pude ver o desejo nos seus olhos. Jesse segurou meu rosto entre as mãos e, instantaneamente, eu agarrei-lhe ao pulso e virei a cabeça para correr a língua pelos dedos dele.
Eu ouvi o gemido rouco que brotou da sua garganta enquanto sua cabeça ia para trás num gesto de prazer. Eu aproveitei o movimento e me inclinei para beijar seu pescoço, lambendo, chupando, provando seu gosto único.
Uma de suas mãos se prendeu aos meus cabelos, me puxando na direção dos seus lábios e me beijou com ardor, enquanto a outra deslizou pelas minhas costas, puxando mais meu corpo de encontro ao seu.
Eu me sentia zonza com a intensidade do desejo que experimentava. Intensidade que manifestava uma necessidade urgente de tocá-lo e ser tocada por ele, de permitir a mim mesma deliciar–me na lenta exploração de cada pedacinho daquele corpo maravilhoso, absorvendo-lhe o calor, a sensação, a essência.
Eu o beijava com uma paixão crescente, a ponta da língua por vezes explorando seu pescoço, os dedos correndo por seus bíceps com uma sensualidade inconsciente.
Jesse ergueu a blusa que eu vestia, removendo-a, suas mãos tocando toda a extensão do meu corpo enquanto ele a retirava. Eu ergui os braços para auxiliá-lo e o envolvi pelo pescoço logo em seguida, colando meus seios ao seu peito.
Eu gemi baixinho, entregue, quando Jesse inclinou a cabeça e começou a trilhar beijos sensuais no meu pescoço e no vale entre os seios, me acariciando com a língua quente e voraz.
Incapaz de aguentar mais um segundo aquele tormento sensual, eu segurei a cabeça dele, comprimindo-a contra os mamilos intumescidos e latentes de desejo. Então, sussurrando uma torrente de palavras excitantes, eu comecei a deslizar minhas mãos pelo seu peito e abdômen, querendo retirar qualquer barreira que houvesse entre nós. Mas então uma barreira maior veio a minha mente e eu soltei um suspiro irritado.
– O que foi? – ele perguntou arfando, me olhando com o cenho franzido.
– A camisinha – eu respondi, tão arfante quanto ele, lembrando da porcaria que estava longe demais, no quarto dele.
– Você se refere a isto? – Sua mão foi até o bolso do pijama e de lá retirou um preservativo.
– Como foi que...? – Eu juro que não havia visto Jesse pegando a camisinha da minha bolsa.
– Eu peguei quando você foi ao banheiro – ele explicou orgulhoso. – Eu já conheço o suficiente da reação do meu corpo quando está perto de você. – Seus olhos correram pelo meu corpo, me deixando em chamas novamente. – Espero que não se incomode.
Ele estava brincando, né? Eu me incomodar? Ele salvou meu dia.
– De jeito nenhum! – eu respondi e o beijei sofregamente logo em seguida, voltando a acaricia-lo com cada vez mais ousadia.
Logo ele já estava sem a calça e eu tentei ensiná-lo a colocar o preservativo, mas ele pediu que para que eu colocasse. E eu simplesmente amava ver a reação dele ao sentir meu toque em seu membro.
Eu continuava sentada em seu colo, minhas mãos envolvendo seu pescoço, puxando-o de encontro ao meu corpo, enquanto suas mãos acariciavam minhas costas e seios com urgência, também me mantendo firme junto a si, nossos corpos ondulando eroticamente um contra o outro, sem barreiras de roupas entre as peles suadas e desejosas.
– Se você está deliberadamente tentando testar meu autocontrole, então lhe aviso que cheguei ao meu limite – ele disse com a voz rouca. – Você vai pôr em ação todas essas promessas sedutoras que seus olhos estão fazendo, ou terei que obriga-la?
A excitação me dominou por completo, me fazendo trilhar beijos pelo seu peito, pescoço, parando por fim para beijar seus lábios, enquanto eu me posicionava sobre seu corpo e descia lentamente em seu sexo, gemendo alto ao senti-lo me invadindo lenta e completamente. Eu estava por cima dessa vez. Eu teria o controle total do ritmo e profundidade dos movimentos.
Eu passei a me movimentar calorosamente sobre ele, cravando as unhas em suas costas, dominada por um prazer gigantesco. Um prazer além de qualquer sensação experimentada, uma necessidade que me fez ir mais fundo e mais forte. Ele erguia o quadril da cadeira, arqueando contra mim, se unindo à dança erótica enquanto gemia de prazer.
– Ah, Suzannah! – ele gemia, me segurando pelo quadril, me ajudando a subir e descer em seu corpo. – Isso é tão... perfeito!
Eu ouvi o gemido gutural de Jesse e senti meu próprio corpo começar a tremer nos espasmos do orgasmo mútuo.
– Jesse – eu praticamente gritei quando senti o clímax me atingindo com força, fazendo minhas pernas amolecerem e meu corpo relaxar por inteiro em cima do seu.
Ele me abraçou forte, me mantendo colada ao seu corpo, nossos corpos ainda sentindo os tremores de excitação.
Depois que limpamos a cozinha, subimos para tomar banho, separados. Já estava perto da hora de voltar para casa e se fossemos tomar banho juntos, não sairíamos nunca daquela casa. Por sorte eu achei um secador e pude deixar meu cabelo quase igual a como ele estava quando eu saí de casa. Não ficou perfeito, mas ao menos eu não chegaria em casa com ele molhado. Seria como dizer com letras garrafais o que eu fizera naquela tarde.
Entrei em casa de mãos dadas com Jesse como quem não quer nada. Jake e Brad estavam jogando videogame na sala e Gina também estava lá apenas de torcida e sorriu para nós quando nos viu. David vinha descendo as escadas com sua nova amiga Maria. Eu preferi não pensar o que eles estavam fazendo no andar de cima. Não era só porque a minha tarde tinha sido extremamente produtiva que eu deveria ficar imaginando que todos ali estiveram fazendo a mesma coisa. Se bem que uma certa mancha roxa no pescoço de Gina me fez perceber que pelo menos ela e Jake não tinham passado a tarde jogando videogame.
Eu sentei com Jesse em um dos sofás enquanto esperávamos o jantar ficar pronto. Eu podia sentir o cheiro camarões fritos e acho que bife também. Fiquei com água na boca.
– Jesse – David chamou depois de se despedir de Maria e voltar para a sala –, será que eu poderia falar com você um instante?
David querendo falar com Jesse?
– Claro – Jesse respondeu de pronto e acompanhou David até o jardim.
Fui atrás. A curiosidade de saber o que David poderia querer falar com o meu namorado foi mais forte.
– Eu não acho que ele te chamou também, Suze – Brad relinchou sem tirar os olhos do jogo.
Nem dei trela. Continuei meu caminho para o jardim e quando cheguei lá David estava tirando um papel do bolso da bermuda.
– Posso participar da conversa? – perguntei e sem esperar pela resposta eu sentei ao lado de Jesse num dos bancos do jardim.
– Eu queria ter uma conversa em particular com ele, Suze – ele falou sério. – Uma conversa de homem para homem.
Seria feio eu rir naquela hora? Acho melhor não, né? Mas David, com apenas doze anos, querendo ter uma conversa de “homem para homem” com meu namorado de vinte anos era hilário.
– Se você for conversar com ele sobre as intenções dele comigo, eu não vejo porque não ficar. Afinal, esse assunto também é do meu interesse.
– Mas...
– Todos dessa família falaram com ele na minha presença – eu o informei me esforçando para ficar séria. – Eu prometo ficar quietinha.
David acabou concordando por fim, terminou de desdobrar o papel, tirou uma caneta do outro bolso e sentou no banco em frente ao nosso. Eu me recostei no banco e cruzei os braços observando tudo com atenção.
– Primeiro eu gostaria de confirmar alguns dados, se não se importar.
– De forma alguma – Jesse respondeu muito educado.
Ele falava com meu irmão mais novo como se falasse com um adulto. Se bem que David muitas vezes agia mais como um adulto do que os meus irmãos mais velhos.
– Nome completo? – começou.
– Hector De Silva.
– Certo. – Ele fez um risco rápido no papel antes de continuar. – Mais conhecido como Jesse.
– Exato.
– Quem colocou esse apelido em você?
– Minha mãe. Ela sempre me chamou assim.
– Ok. Idade?
– Vinte anos.
– Quando completará 21?
– Dia 11 de julho.
– Ok. – Mais uns riscos no papel. – Agora vamos às perguntas mais específicas. – Aquilo estava mais parecido com um interrogatório de polícia. – Possui ficha criminal?
– Quê? – eu o interrompi surpresa. – Que tipo de pergunta é essa, David?
– Você disse que não interromperia.
– Mas isso é lá coisa que se pergunte?
Eu podia ver pelo canto do olho que Jesse estava rindo e eu não fazia ideia de onde ele estava vendo a graça naquela situação.
– Se você vai continuar questionando meu método de avaliação, então é melhor você sair, Suze.
Céus, por que ele estava tão sério?
– Eu não tenho passagem pela polícia, David – Jesse se antecipou antes que eu pudesse falar mais alguma coisa.
– Certo. – David desviou a atenção de mim e voltou ao seu papel. – Eu vejo que você não possui nenhum piercing visível – ele falou, analisando o rosto de Jesse. – Você tem algum não visível?
Jesse de piercing? Tive que fingir uma crise de tosse para abafar a gargalhada que se formou.
– Não.
Era incrível como Jesse conseguia se manter tão impassível com esse questionário ridículo.
– Tatuagens?
– Nenhuma.
Nesse momento minha mãe apareceu na porta que dividia a cozinha com o jardim para nos chamar para o jantar, mas ao ver o que estava acontecendo ali, ela pareceu se interessar e se aproximou. Andy veio logo depois e os dois se posicionaram atrás de David para observar suas anotações. Momento constrangedor.
– Explique em poucas palavras o que significa “chegar tarde”.
Dessa vez eu não pude deixar de rir. David me olhou de cara feia, mas não falou nada. Ah, qual é? Até minha mãe estava rindo.
– Se houver um horário estipulado para se estar em casa, chegar tarde significa chegar além desse horário.
– Ok. – Ele fez umas anotações rápidas. – Novamente, em poucas palavras, o que significa fidelidade para você?
Agora foi a vez de Jesse se empertigar. Uma hora ele teria que ver que aquelas perguntas eram tolas.
– Eu nunca trairia Suzannah – ele falou com a voz seca.
Andy sorriu com alguma coisa que David anotava no papel. Será que teria como eu afanar aquelas anotações? Estava curiosa.
– Qual foi a primeira coisa que te chamou atenção em Suze?
Jesse olhou para mim e sorriu.
– Os olhos.
– Meus olhos? – perguntei surpresa. – Sério?
– Sim. Me hipnotizaram – ele falou isso olhando direto nos meus olhos com os seus negros brilhantes.
Respira, Suze, respira.
– O que fez você se interessar pela minha irmã?
Opa. Essa eu também gostaria de saber a resposta.
– Eu não acho que seja possível descobrir o porquê de uma paixão. Só o que eu sei é que quando eu dei por mim eu não podia mais ficar longe dela.
– Mas você poderia tentar descrever algo? – ele parecia contente com a resposta de Jesse.
– É complicado explicar, mas acho que seu olhar, o jeito como ela mexe nos cabelos, seu tom de voz, seu sorriso, não sei. Tudo isso me fez ver que eu não conseguiria viver sem ela. Além disso, Suzannah tem um caráter admirável. Sei que parece meio confuso, mas...
– Não – David o interrompeu com um sorriso. – Nem um pouco confuso. – Ele dobrou o papel e guardou novamente no bolso. – Você é um bom rapaz Jesse – meu Deus, nem parecia que quem estava falando isso era um garoto de doze anos –, mas eu quero que saiba que Suze é a nossa garotinha. – Eu sou o quê? – Se você fizer alguma coisa para magoá-la, lembre-se que há quatro membros dessa família que não hesitarão em ir atrás de você.
Aquilo era para ter soado como uma ameaça? Então porque eu estava com tanta vontade de rir. Mas me controlei quando vi Andy assentindo, confirmando o que David tinha acabado de falar.
Eles finalmente entraram em casa, mas eu fiquei um pouco mais para me controlar.
Que vontade de matar essa família que me faz pagar o maior mico na frente do meu namorado.
– Sua família é incrível! – Jesse murmurou se levantando e estendendo a mão para que eu o acompanhasse.
Eu realmente não imaginava como Jesse poderia achar tudo isso incrível, mas resolvi ignorar o comentário quando ele me puxou pela cintura e me beijou com ternura.
O dia seguinte foi quase tão perfeito quanto esse. Agora vamos enumerar aqui o que foi perfeito nesse dia: primeiro porque Jesse veio passar o domingo comigo. Segundo: o dia estava tão bonito que resolvemos fazer um piquenique na praia. Terceiro: nós convidamos Cee Cee e Adam e o grupo ficou completo. Toda a minha família e meus melhores amigos, além do meu namorado, é claro, estavam ali. E quarto: quando Jesse tirou a bermuda que usava e a camiseta, ficando apenas de sunga, eu tive que amarrar uma corda invisível em mim para me forçar a permanecer no lugar e não ataca-lo ali mesmo.
Agora, porque meu domingo não foi tão perfeito quanto o sábado? Simples: porque eu não consegui um momento sequer a sós com Jesse. Minha família ficava o tempo inteiro bajulando ele, conversando com ele, quase não nos deixando juntos. O único momento que tivemos mais em “particular” foi quando eu fui dar um mergulho para resfriar o corpo e ele veio junto. Nem me importei muito com a cara que Cee Cee fez quando Jesse tirou a roupa. Eles tinham se conhecido naquela manhã e ela havia me puxado para um canto apenas para dizer que meu namorado era lindo. Como se eu não soubesse.
Nós mergulhamos separados por um tempo, mas logo estávamos juntos em uma parte mais funda, que não dava pé para mim, mas dava para ele, então eu fui “obrigada” a ficar agarrada em seu pescoço para não afundar. E eu que não sou besta nem nada, aproveitei para enlaçar seu corpo com as minhas pernas.
Ele tentou retirar as minhas pernas dali, mas eu apertei mais fazendo com que nossos corpos se unissem ainda mais.
– Hermosa, pare com isso – ele pediu tentando mais uma vez retirar minhas pernas da sua cintura. – Sua família está aqui.
– Se eles não estivessem aqui na praia o que você faria?
Ele me encarou com os olhos carregados de desejo.
– Se eles não estivessem aqui eu já teria te levado para um lugar onde pudesse ficar sozinho com você – ele falou isso com a voz baixa e rouca, ainda olhando nos meus olhos.
Eu fiquei arfante de imediato.
– E faria o quê?
– Hermosa...
Oras, se eu não poderia tê-lo naquele momento, queria ao menos me divertir.
– O que você faria, Jesse? – eu insisti.
Ele me puxou para mais perto, até que seus lábios se encostassem no meu ouvido.
– Eu faria o que quero fazer desde que eu vi você nesses trajes – ele sussurrou com a respiração roçando na minha pele.
– E o que é? – eu perguntei quase sem ar.
– Soltar esses laços frágeis – ele falou isso roçando as mãos de leve nos laços que prendiam as laterais da parte de baixo do biquíni e depois subiu as mãos para fazer o mesmo com os laços que prendiam a parte de cima às minhas costas, deixando uma trilha de fogo intenso pelo caminho – com a boca – ele completou mordendo o lóbulo e beijando meu pescoço.
Eu soltei um gemido longo ao sentir suas mãos descendo para as minhas nádegas e me pressionando contra a sua excitação evidente. Mas então ele se aproveitou do meu momento de rendição e retirou as minhas pernas que estavam em volta do seu corpo com facilidade.
– Mas como nós não estamos sozinhos, não há nada que eu possa fazer.
Eu me deixei afundar quando ele afastou meu corpo do dele, mas ele me trouxe de volta no mesmo instante e me levou para uma parte em que eu conseguiria ficar de pé.
– Você é mau – eu resmunguei fazendo bico.
– Você começou.
Ele já ia se afastando para voltar a nadar quando eu estiquei a mão e belisquei uma nádega por cima da sunga, sorrindo perversamente.
– Punição por me deixar assim – eu falei quando ele se voltou para me encarar com os olhos arregalados.
Eu me afastei dele rapidamente antes que eu ele inventasse de me punir também e voltei para a areia.
A praia estava bastante movimentada hoje. Não estava lotada, mas estava mais cheia do que o normal. Havia até um grupo de pessoas jogando vôlei um pouco perto de nós e, em dado momento, a bola acabou escapando e bateu em Brad que tinha acabado de se juntar a nós para pegar um refrigerante gelado.
– Quem foi o idiota?! – Brad já levantou xingando pronto para a briga, mas estacou no lugar quando viu uma mulher vindo na nossa direção.
– A idiota fui eu – ela informou quando se aproximou. Tinha um sotaque estranho que entregava logo que ela era estrangeira. Eu me senti numa daquelas cenas de filme em que uma mulher vinha correndo na praia em câmera lenta com os cabelos ao vento, só de biquíni e fazendo os homens babarem. Bem, Brad estava babando. Mas não era de se admirar. – Desculpe, errei a mira.
Ela era realmente bonita. O tipo de mulher que fazia os homens terem torcicolo de tanto forçar o pescoço para segui-la com os olhos. Loira, de olhos azuis, cabelos longos e ondulados. Usava shorts e uma regata branca, o que eu considerava um erro, já que o sol iria deixar uma marca nada bonita ali. Olhei logo para o meu namorado, mas ele estava conversando tranquilamente com Andy.
– Sem problemas – Brad falou todo galanteador. – Se você quiser pode errar a mira à vontade.
– Eu vou fazer o possível para não errar novamente.
Aquilo foi um fora, mas é claro que Brad não notou.
– Tem vaga para mais um na partida? – ele perguntou lhe estendendo a bola.
– Não – foi sua única resposta e ela voltou para os amigos que a esperavam para continuar a jogar.
– Bradizinho levou um fora! – Jake falou depois que ela já estava fora do alcance. – Tadinho do Brad. Perdeu a loiraça.
– Loiraça onde Jake? – Gina perguntou irritada – Eu não sou loira.
Tratei logo de ignorar a discussão que se formou ali.
Brad levar um fora era uma coisa nova. Ele parecia não ter gostado muito, mas ainda assim ele se aproximou mais da turma que jogava vôlei e na primeira oportunidade que surgiu ele conseguiu entrar no jogo. E a loira ignorou ele o tempo todo.
Eu comecei a me distrair e a me divertir com as tentativas patéticas do meu irmão tentando captar a atenção dela. Queria poder filmar aquilo. Era ridículo. Quer dizer, ele estava apenas sendo Brad, mas ela não parecia ser do tipo que caía naquele tipo de conversa.
Em dado momento, os amigos dela resolveram dar um mergulho e Brad, que adorava se exibir, não perdeu tempo em pegar a prancha e foi surfar. Ela ficou sentada na areia junto com uma amiga de cabelos longos e negros e pele morena. Peguei duas latas de refrigerante e levei até elas. Não sei o que me deu, mas tive vontade.
Elas me olharam com o cenho franzido quando eu lhes ofereci a bebida.
– Por ter aguentado o meu irmão – falei dando de ombros. – E por você ter sido firme e não caído na sedução barata dele.
– Sedução? – a loira perguntou rindo enquanto aceitava a bebida. – Ele estava dando em cima de mim?
– Algo do tipo – eu respondi rindo também.
– Nem notei.
– Loira. – Sua amiga ria. – Até eu notei.
– Não me ofende – ela resmungou então estendeu a mão para mim. – Thais.
– Suze – eu a cumprimentei e estendi a mão para a sua amiga.
– Naly.
– Senta aí, Suze – Thais sugeriu apontando para um espaço vazio na tolha em que elas estavam sentadas. – É Suze de Suzan?
– Não – Por que todo mundo pensava que era Suzan? Que saco. – Suzannah. Você é de onde, Thais?
– Por quê? Não pareço americana? – ela perguntou com se estivesse ofendida.
– Ela jura que não tem sotaque – Naly falou rindo da cara da amiga.
– Tem um pouco sim.
– Tanto faz. – Ela deu de ombros. – Sou da Itália. Estou passando um tempo aqui na casa da minha amiga da onça.
– A amiga da onça sou eu?
– Se a carapuça serviu.
Que duas amigas mais estranhas. Não tinha como não rir perto delas.
– Thaís não parece um nome italiano – eu falei aumentando um pouco o tom de voz para tentar interromper a discussão que parecia estar se formando ali.
– Ah, é o que dá misturar as culturas. Sou meio grega, meio italiana. Thais Cagliari – ela informou com um sorriso. – Nós duas – ela falou apontando para Naly – nos conhecemos quando eu fui visitar a minha família que vive na Grécia.
– Você também é grega? – eu perguntei para Naly. Ela não parecia grega, mas vai saber.
– Nada. Estava lá tirando fotos. – Ela ergueu a máquina profissional que estava pendurada em seu pescoço. – Adoro as construções da Grécia. Mas sou puramente californiana. Nalyanne Silva. Nascida aqui. Toda a minha família é daqui também.
– Silva? – eu perguntei surpresa. – De Silva?
– Quê?
– Nalyanne De Silva?
– Não. Nalyanne Evan Silva. Faz um tempo que a nossa família não usa mais o “De”. Acho que desde a geração da minha avó.
Ai meu Deus! Como é que pode? Não é possível, é? Mas aqueles cabelos, aquela cor da pele, os olhos negros...
– Está tudo bem? – Thais perguntou estranhando o meu silêncio e provavelmente notando a expressão de perplexidade que deveria estar estampada no meu rosto.
– Eu... É só que... – Mas eu não conseguia formular nenhuma frase coerente. – Naly, vem comigo? – eu chamei. – Ou melhor, espera aqui um instante. Eu já volto.
Sem esperar por resposta eu voltei correndo até onde Jesse estava, mas tratei de me acalmar para não fazer nenhum alarde perto da minha mãe que conversava com ele e Jake.
– Jesse – chamei com a voz mais calma que eu consegui emitir. – Será que você poderia vir aqui um instante?
Ele olhou para a minha mãe como se pedisse autorização. Oras. O namorado era meu. Eu poderia exigir a presença dele quando eu quisesse.
– Pode ir, querido. Depois continuamos a nossa conversa.
Minha mãe chamou Jesse de “querido”. Ai que fofo.
Eu peguei na mão de Jesse e o levei até onde as meninas estavam. Quer dizer, meninas não. Mulheres. Porque elas com certeza eram mais velhas do que eu. Naly parecia ter entre 18 ou 19 anos e Thais entre 24 ou 25 anos.
– O que aconteceu, hermosa? – Jesse perguntou antes que chegássemos até elas.
– Eu quero que você conheça uma pessoa – eu falei sem querer entrar em detalhes. – Mas eu não tenho certeza de nada. É só uma suposição.
– Certeza de quê?
– Você vai ver.
As duas nos encaravam com o cenho franzido enquanto nos aproximávamos e Jesse não estava atrás em relação à curiosidade quanto àquela situação. Achei melhor ir com calma para não fazê-las sair correndo.
– Jesse, eu quero te apresentar duas pessoas. – As duas se levantaram quando viram a minha intenção. Só não gostei muito da olhada que elas deram no peitoral exposto de Jesse. Deveria ter mandado ele vestir uma camisa. Ao menos ele estava de bermuda. – Essa é Thais... desculpe, esqueci o seu sobrenome.
– Cagliari. Thais Cagliari.
Jesse a cumprimentou rapidamente e eu logo parti para o que interessava.
– E essa é Nalyanne Silva. – Eu olhei para ele para poder analisar a sua reação. E ele não me decepcionou.
Ele a cumprimentou normalmente, é claro, mas eu notei o quanto aquela informação o deixara chocado. Ele analisava seu rosto com atenção, provavelmente percebendo as mesmas semelhanças que eu havia percebido.
Ele saiba que estava diante de um parente seu.
– Você disse Silva? – ele perguntou com a voz um tanto embargada.
– Qual é o problema com o meu sobrenome? – Naly perguntou desconfiada.
– Problema nenhum – eu falei sorrindo. – É que Jesse é...
– Eu vi algo a respeito da sua família no museu da cidade – Jesse me interrompeu rapidamente.
Como assim? Por que ele não queria dizer quem era? Mas ele apertou a minha mão de leve e eu me mantive em silêncio.
– Ah, sim. Minha família é muito antiga aqui na cidade. Há muito sobre nós no museu.
– Sim. – Ele parecia estar processando algo muito rápido na mente. Seu cenho estava franzido numa típica expressão de concentração. – Você não seria descendente de Cristóbal De Silva, seria?
Quem era esse? Eu sabia que Jesse não tinha irmãos e sabia que esse não era o nome do seu pai.
Naly, apesar de estar estranhando tudo aquilo, tinha um meio sorriso nos lábios.
– Sim. Meu tataravô.
– Ele foi um grande homem – Jesse continuava com a voz embargada embora se esforçasse ao máximo para deixa-la firme.
– Pelo que eu fiquei sabendo, foi sim.
E foi só isso. Jesse não falou mais nada. Mas naquele momento o grupo de amigos delas chegou fazendo um estardalhaço e não deu mais para manter conversa alguma. Nos despedimos rapidamente e eu me afastei com Jesse, mas não para onde a minha família estava. Ele me conduziu a uma parte mais afastada, onde quase não havia banhistas, longe das vistas da minha família e do grupo de amigos de Thais e Naly que agora incluía o meu irmão também.
O local que estávamos agora era quase deserto, perto das rochas. Jesse se encostou em uma delas e me puxou para um abraço firme, enterrando seu rosto na curva do meu pescoço, escondendo-se nos meus cabelos. Foi então que eu senti algo molhado na minha pele e percebi que Jesse estava chorando.
Eu fiquei em silêncio, apenas o abraçando mais forte, acariciando suas costas e seus cabelos. Eu não sabia o que falar. Eu não sabia se pedia desculpas. Eu não sabia sequer se havia motivos para pedir desculpas. Eu pensei que ele ficaria feliz por conhecer alguém da sua família, mas isso não parecia ter acontecido. Eu não entendia o porquê de ele nem querer dizer seu sobrenome. Por que ele inventara aquela história de conhecer a família dela por conta do museu?
Mas eu não fiz nenhuma pergunta. Esperei que ele me explicasse. Porque eu sabia que ele iria. Mas por enquanto eu deixei que ele chorasse, seu corpo sendo sacudido por soluços que ele tentava conter sem sucesso.
Depois de um tempo ele finalmente pareceu se acalmar um pouco.
Ainda sem falar nada Jesse sentou na areia encostando-se na pedra negra e me puxou para que eu sentasse ao seu lado. Eu observava aquele rosto banhado pelas lágrimas, com uma tristeza profunda estampada ali e meu peito se apertou por vê-lo sofrendo.
Eu ergui minhas mãos para secar seu rosto delicadamente, nossos rostos bem próximos, nossas respirações se chocando. Ele também ergueu suas mãos para acariciar meu rosto e afastar as mechas que o vento teimava em tirar do lugar.
– Obrigado por isso, hermosa – ele sussurrou com a voz tão baixa que quase não ouvi.
– Pensei que não tivesse gostado de conhece-la – eu murmurei em resposta. Afinal, se ele gostou, porque tinha chorado?
– É claro que eu gostei. Eu adorei. – ele afirmou com convicção e um sorriso começou a se formar em seu rosto.
– Então por quê...?
– Desculpe se eu te fiz pensar que eu não havia gostado – ele continuava acariciando meu rosto com ternura – Conhecer alguém da minha família foi maravilhoso.
– Por que você não quis que ela soubesse quem você era?
– Eu fiquei com medo de alguém da família dela ter algum registro sobre mim. Ela poderia estranhar.
Eu realmente não havia pensado nisso.
– Tem razão.
– Mas eu adorei conhece-la – ele falou apressado. – Só que... Isso me trouxe muitas recordações. – Sua expressão ficou sofrida novamente, embora ele ainda mantivesse o sorriso. – Foi a primeira vez que eu parei para pensar realmente em certas coisas. – Ele suspirou pesadamente antes de continuar. – Todos na minha família, todas as pessoas que eu conheci, já morreram. Meus pais, minhas irmãs, meus primos, tios. Todos estão mortos.
Agora eu podia entender o motivo do seu sofrimento. Não devia ser fácil para ele.
– Você viu como os traços dela são semelhantes? – ele estava com a expressão distante com se recordasse de algo, mas essa recordação pareceu lhe deixar feliz. – Ela se parece demais com Micaela.
– Quem é Micaela?
– Minha prima.
– A mesma de Felix Diego? – só de pensar nesse nome, dava uma sensação ruim.
– Não. Aquela era Isabel. Eu não tinha muito contato com ela, nem com os pais dela. Micaela era irmã de Cristóbal, que, além de ser meu único primo homem, era o meu melhor amigo.
Jesse passou a me falar do seu relacionamento com seus familiares, a forma como ele adquirira aquela cicatriz na sobrancelha em uma brincadeira mais pesada com o cachorro. Falou de forma bastante carinhosa sobre a prima Micaela e eu até teria sentido ciúmes se ele não tivesse me dito que ela tinha apenas doze anos quando ele “morrera”. Era engraçado ouvir Jesse contando as traquinagens que ele e o primo faziam quando crianças e, agora que eu já sabia a história toda, eu não me senti mais incomodada em ver seus olhos marejados novamente enquanto ele relembrava esses momentos.
Jesse quis dar um mergulho para lavar o rosto e eu fui junto para tirar a areia das minhas pernas.
– Conseguiu tirar a areia? – Jesse perguntou depois de emergir do terceiro mergulho.
– Acho que sim. – Eu dei de ombros tateando em volta do meu corpo para verificar.
– Posso conferir?
Eu é que não ia impedir de ter Jesse passando as mãos pelo meu corpo. Suas mãos deslizavam pelas minhas costas, descendo mais e mais, até chegar às minhas nádegas e me puxou devagar em direção ao seu corpo. Quase sem que eu notasse, ele foi andando para a parte mais funda do mar e novamente eu tive que envolver seu pescoço com meus braços para não afundar.
– É. Parece que está limpo agora – ele falou com um sorriso brincalhão nos lábios.
– Não está, não. Continue procurando que você vai achar areia em alguma parte.
Sem perder tempo Jesse voltou a deslizar as mãos, mas dessa vez de forma bastante ousada, sua mão entrando na peça minúscula e apertando os glúteos com desejo, puxando ainda mais meu corpo contra o seu. Eu gemi contra seu ouvido ao sentir sua excitação roçando no meu ventre. Quando ele tirou as mãos de dentro do biquíni, eu pensei que ele iria me afastar, ou parar com as carícias, mas, para minha surpresa, Jesse agarrou minhas pernas e me fez envolve-lo pela cintura.
Eu fiquei muito feliz por Jesse finalmente deixar fluir seu desejo por mim, e ainda mais feliz quando olhei ao redor e vi que a parte da praia em que estávamos estava completamente vazia agora. Não que desse para alguém ver o que estávamos fazendo. A água nos cobria até a altura dos nossos ombros e o nosso roçar de corpos parecia ser causado pelos movimentos das ondas.
– Quero você assim perto de mim, quero sua boca, seu corpo – ele sussurrou contra o meu ouvido, seu corpo arqueando mais contra o meu. – Eu te quero tanto, Suzannah
– Você me tem, Jesse – eu sussurrei em resposta.
Uma de suas mãos me segurava pelas costas enquanto a outra deslizou entre nossos corpos, descendo até a minha intimidade. Eu me arqueei contra sua mão ao sentir o toque no meu íntimo, gemendo no seu ouvido. Tirei uma das minhas mãos do seu pescoço e fiz o mesmo que ele, tocando seu membro pulsante por dentro da sunga.
Nós já sentíamos muito prazer apenas por estarmos juntos, mas dessa vez estava muito mais intenso. A excitação por estar em um lugar tão público, o perigo de alguém ver, fazia tudo ficar mais acentuado. Eu precisava urgentemente dele assim como eu sabia que ele precisava de mim.
– Hermosa – sua voz rouca fez com que eu afastasse meus lábios do seu pescoço e o olhasse nos olhos. – Eu quero... – ele arfava enquanto eu mantinha a pressão no seu membro – você. Agora. – Ele me puxou para um beijo urgente, mas breve, e se afastou novamente para me olhar com atenção. – Posso?
Seus olhos estavam carregados de uma luxúria tão intensa que seria impossível recusar algum pedido. Eu apenas assenti, sem consegui pronunciar nenhuma palavra, tamanho era o meu estado de excitação.
Sem mais palavras, Jesse afastou a parte de baixo do biquíni para o lado e me penetrou num único impulso. Ele passou a movimentar dentro de mim com urgência, suas mãos me segurando pelo quadril, intensificando o contato e controlando a velocidade das investidas.
Nossos gemidos se confundiam com o barulho do mar e dos pássaros que voavam pela praia deserta. O orgasmo veio rápido, mas potente, ele continuando a mover dentro de mim, fazendo com que a sensação se prolongasse ainda mais. Eu sentia seu corpo se contraindo e ele tirou seu membro rapidamente antes que seu líquido derramasse dentro de mim sem proteção. Eu gostei de ver seus olhos apertados em fendas, sua expressão era puro desejo, luxúria, ele mordendo os lábios de uma forma muito sensual enquanto sentia os espasmos do orgasmo.
Jesse me puxou contra o seu corpo e me beijou com paixão.
– Acho que senti um choque – ele murmurou depois de algum tempo com os lábios pressionados aos meus.
– Choque?
– Uhum. – Eu podia perceber que ele ainda estava com bastante dificuldade para respirar normalmente. – Foi intenso demais. Parecia que estava levando um choque.
– Isso não parece legal.
– Mas foi. Senti uma corrente elétrica mais forte do que eu jamais havia sentindo.
E ainda assim isso não parecia bom.
– Doeu? – eu perguntei em dúvida.
– Não. De jeito nenhum. Me deu ainda mais prazer.
Eu tive que rir com essa informação.
– Está se tornando masoquista agora, Jesse?
– Claro que não! – ele parecia ultrajado com essa sugestão.
– Da próxima vez eu vou me lembrar de te causar alguma dor e então veremos.
– Suzannah! – ele me repreendeu embora também sorrisse.
– Vamos voltar – eu o cortei com um sorriso. – Minha mãe deve estar se perguntando onde nós estamos.
Nós fizemos nosso caminho de volta para onde estava a minha família e os encontramos arrumando as coisas para voltar para casa. Eu não queria que esse dia terminasse. Ainda mais porque amanhã Jesse começaria a trabalhar no museu, o que significava que eu passaria o dia inteiro sem vê-lo e sem poder falar com ele.
Ainda bem que minha mãe era compreensiva e concordou em alterar o horário de namoro. Agora Jesse iria para a minha casa na parte da noite e minha mãe tinha até dito que ele poderia jantar lá em casa sempre que quisesse. Mas, independente do horário que ele chegasse, ele teria que sair às 22h. E eu teria que fazer as lições da escola antes dele chegar. Sem problemas. Adorei o novo acordo.
O problema é que no primeiro dia de trabalho Jesse largou às 20h, tentando aprender o máximo possível das suas novas funções e acabou não indo me ver. Ele até queria ir, mas eu não permiti. Já era tarde e ele devia estar cansado depois de trabalhar tanto.
– Lembre-se que você é apenas humano agora, meu amor – eu falei quando ele me ligou da casa de Paul.
– Mas eu estou com saudades – ele resmungou do outro lado e eu podia jurar que ele estava fazendo aquela cara de cachorro sem dono que ele fazia quando queria me convencer de algo. A sorte era que era mais fácil resistir a isso sem ver a tal expressão.
– Eu também estou. Mas amanhã nós nos vemos.
Ele ainda tentou insistir um pouco, mas acabou perdendo a batalha quando eu percebi que ele estava bocejando do outro lado da linha.
No dia seguinte nós estávamos comendo o desjejum que Andy preparara para toda a família. Era difícil nos sentar juntos para o café da manhã, mas hoje ninguém estava com pressa para sair já que David tinha feito o favor de testar uma invenção às seis e meia da manhã. Ele chamou sua invenção de propagador de sons. E resolveu propagar justamente o som do seu despertador. Saí do quarto correndo para saber onde havia sido o incêndio e dei de cara com Brad mancando no corredor e esbravejando aos quatro ventos. Depois dessa ninguém conseguiu mais dormir e por isso estávamos todos bem acordados para o café da manhã e ainda faltava meia hora para irmos para a escola.
– Suze – Jake me chamou do outro lado da mesa, devorando uma pilha assustadora de panquecas. – Jesse vem hoje?
– Vem.
– Isso se ele não te trocar pelo trabalho de novo. – Brad falando de boca cheia era a coisa mais nojenta do mundo. – Deve ter alguma funcionária gostosa naquele museu. Só pode!
Andy o repreendeu, mas aquelas palavras nem me atingiram.
– Eu não ligo, Andy – eu falei com um sorriso. – Brad só está assim porque uma certa italiana loira o rejeitou.
– Ela não me rejeitou – ele falou estufando o peito. – Ela já está totalmente na minha.
– Ela nem sabia que você estava dando em cima dela, irmãozinho. Acho bom você repensar as suas técnicas baratas de conquista.
Brad ficou possesso com aquilo e passou a comer ainda mais rápido do que antes, me direcionando olhares cortantes a todo momento.
– Mas Jesse vem mesmo hoje, não vem? – Jake tornou a perguntar.
– Vem sim – eu confirmei. – Por quê?
– Nada. Eu só queria perguntar uma coisa a ele.
O que será que Jake poderia querer com Jesse. Será que ele resolvera ter aulas de cavalheirismo? Duvidava muito disso.
– Você não está comendo nada, meu amor – Andy comentou acariciando a mão da minha mãe que estava sobre a mesa.
– Estou sem fome.
Minha mãe sem fome no café da manhã? Essa era nova.
– A senhora está bem, mãe? – perguntei olhando-a com atenção. Ela não parecia estar passando mal. Estava até um pouco mais corada que o normal.
– Estou. Mas acho que eu peguei sol demais no domingo.
Acho que estava explicado o motivo da vermelhidão no seu rosto.
Voltei da escola naquela terça parecendo mais um trapo. Os professores não tiveram piedade da minha pobre alma torturada e passaram trabalhos tenebrosos para serem entregues em uma semana. Eu nunca conseguiria dar conta de tudo aquilo. A não ser que Jesse me ajudasse. Mas agora com Jesse trabalhando eu não gostava de perder minhas poucas horas que eu tinha com ele. Queria apenas namorar.
Nada de estudar. Só namorar.
Cheguei em casa junto com meus irmãos e logo apertei o botão da secretária eletrônica, como eu sempre fazia quando chegava da escola. Brad foi direto para a geladeira e, antes que eu pudesse reclamar, ele já estava bebendo suco direto da caixa. Só esperava que ele jogasse a caixa fora. Jake também o acompanhou até a cozinha, mas apenas para pegar um saco de batatas fritas. David, que era o único normal daqueles três, subia as escadas em direção ao seu quarto.
A secretária eletrônica informou que havia apenas um recado não ouvido e eu aguardei para saber do que se tratava. Ao ouvir a voz de Andy, os três pararam o que estavam fazendo e se concentraram em ouvir também.
“Crianças, eu estou no hospital com a mãe de vocês. Ela não estava se sentindo muito bem quando fomos almoçar e eu preferi trazê-la para fazer uns exames. Não deve ser nada demais. Apenas uma indisposição alimentar. Devemos estar em casa antes do jantar, mas eu agradeceria se vocês não criassem nenhuma confusão enquanto estivermos fora. Eu falo isso para vocês, Brad e Jake. Sem brigas. Qualquer novidade eu ligarei.”
Apaguei a mensagem e já ia subindo para o meu quarto quando notei que os três continuavam parados no mesmo lugar, hora trocando olhares, hora olhando para os próprios pés. Até mesmo David estava agindo daquela forma estranha.
– O que foi? – eu perguntei parando também.
Aquilo pareceu fazê-los despertar do transe, mas ainda assim eles não saíram do lugar. Eles estavam sérios demais. Estranhos demais.
– O que foi que deu em vocês? – insisti cruzando os braços sobre os seios.
– O que mamãe tem? – David perguntou olhando para todos de forma nervosa.
– Eu não sei – eu respondi dando de ombros. – Deve ter comido alguma coisa que não fez bem. – Eu não estava entendendo aquelas reações.
– Ela já teve isso antes? – Jake perguntou do meio da cozinha.
– Claro. Todo mundo já comeu alguma coisa que não nos faz bem.
– Mas ela já foi internada antes? – ele perguntou ainda sério.
– Acho que não. Andy exagerou um pouco. – Mas ainda assim eles não relaxavam e continuavam a se olhar como se compartilhasse algo muito importante. – O que está acontecendo aqui?
Eu não gostava de ser deixada de fora da conversa. Se bem que aquilo não era bem uma conversa.
Foi então que David olhou para o retrato da mãe deles que havia na sala e eu finalmente compreendi. Eles estavam com medo da minha mãe ter alguma doença séria, assim como a mãe deles tivera.
– Minha mãe não está doente – eu afirmei com convicção. – Vocês ouviram o que Andy disse. É apenas uma indisposição alimentar. Daqui a pouco ela chega e vai rir da cara de vocês por ficarem tão preocupados por nada. – Mas eu sabia que a minha mãe não iria rir. A preocupação deles não era nada engraçada. – É sério, gente – eu insisti quando eles continuaram calados. – Minha mãe nunca teve nada. Nenhuma internação, nem nada. Saudável como uma pedra.
– Ela faz exames de rotina? – foi a vez de Brad perguntar.
Esse foi o meu limite.
– Ok. Já chega! – gritei. – Parem de agourar a minha mãe. Ela não está doente. Que saco!
Subi correndo as escadas e bati a porta do meu quarto com força. O que eles pensavam que estavam fazendo? Só porque a mãe deles havia tido câncer, não era obrigado a minha mãe ter também. Ou por acaso câncer agora é transmissível pelo ar ou pela água? A Califórnia agora teria uma epidemia de mulheres com câncer. Que absurdo!
Mas eu não deixei de ficar preocupada. Ela nunca passara mal desse jeito a ponto de ter que ir para o hospital. Ela já não estava bem pela manhã. Será que foi mesmo o sol que fez isso? Já tinha ouvido falar de pessoas que passavam mal depois de passar muito tempo exposta ao sol. Mas minha mãe havia ficado boa parte do tempo debaixo do guarda sol. E, se esse fosse o motivo, ela não deveria ter se sentido mal ontem? Porque os sintomas só apareceriam dois dias depois? Mas talvez Andy fosse mesmo do tipo dramático. Ou talvez a experiência com a mãe dos seus filhos tenha sido o suficiente para deixa-lo precavido.
Ainda assim, no instante em que eu ouvi o carro de Andy parando na entrada de carros, eu desci as escadas quase correndo e cheguei à sala a tempo de vê-los entrando. David também havia descido as escadas às pressas, e Jake e Brad já estavam na sala, provavelmente jogando videogame, que deveriam ter desligado ao ouvir o barulho do carro chegando.
– Que recepção calorosa – Andy brincou quando nos viu lado a lado perto da escada.
Minha mãe parecia bem. Um pouco mais pálida do que o normal, mas ela estava tão risonha quanto sempre ou até mais.
– A senhora está bem? – David perguntou, se adiantando e pegando sua mão.
– Estou, meu querido. Muito bem.
Rolou um suspiro coletivo de alívio no ambiente e nós não falamos mais nada.
– Mas ainda precisamos conversar – minha mãe falou, sem deixar de sorrir e já conduzindo David, que continuava abraçado à sua cintura, em direção à sala e sentou com ele em um dos sofás.
Nós seguimos os dois e sentamos também. Andy sentou ao seu lado e a envolveu pelo ombro, num gesto de carinho e apoio.
– O que aconteceu? – eu perguntei curiosa.
– Nós temos uma novidade para vocês – minha mãe anunciou olhando para Andy e depois para nós novamente. Ela nos olhava do mesmo jeito que ela me olhou no dia que foi à minha escola anunciar que iria se casar. Os olhos brilhando de pura felicidade. Por que eu sentia que lá vinha bomba de novo? – Eu estou grávida.
Silêncio. Ninguém falava. Ninguém se mexia. Ninguém respirava mais alto. Eu sequer respirava. E quanto mais o silêncio se prolongava, mais o sorriso da minha mãe evanescia e com ele o brilho dos seus olhos. Pelo visto a nossa reação não foi a esperada. Eu precisava falar alguma coisa já que os homens daquela família pareciam ter perdido a voz.
– Grávida? – foi só o que eu consegui pronunciar.
– Sim. Estou com três semanas. – Ela tentava segurar o sorriso no rosto, mas parecia difícil agora.
– Como assim a senhora está grávida? – Brad esbravejou, finalmente saindo do transe. – Pai, que papo é esse?
– Não é papo nenhum, Brad. Você vai ganhar um irmãozinho.
– Ou irmãzinha – minha mãe se apressou a completar.
– E quem disse que eu quero um irmãozinho ou irmãzinha? Eu já tenho esses dois! – Ele continuava alterado quando apontou para mim e para David. – Que palhaçada!
– Onde está a palhaçada aqui Bradley? Desde quando a sua mãe estar grávida é uma “palhaçada”? Eu não sei por que todo esse espanto.
Andy agora estava visivelmente irritado. E Brad tinha tanta noção do perigo que era ver seu pai irritado. Tanto que tratou de baixar o tom de voz.
– Como o senhor quer que a gente não fique assim? Eu nem sabia que vocês ainda faziam esse tipo de coisa.
Ai. Por que ele teve que falar isso? Eu preferia pensar que minha mãe ia receber o bebê de uma cegonha a ter que imaginar ela fazendo sexo com meu padrasto.
– Eu achei a notícia maravilhosa – David falou de repente, aliviando um pouco a tensão. – Não vejo a hora de ganhar um irmãozinho.
– Ou irmãzinha – minha mãe completou novamente. Pelo visto ela queria mesmo uma menina. – Sério que você gostou da notícia, Dave?
– Claro, mãe. – Ele a abraçou para confirmar ainda mais sua opinião. – Parabéns!
– Obrigada, meu amor. – Ela estava com a voz embargada e o sorriso começava a voltar ao seu rosto.
Eu respirei fundo tentando absorver aquela notícia. Um bebê. Depois de dezessete anos minha mãe estava grávida de novo. Eu ia ganhar um irmão ou irmã. Eu devia estar gritando histérica com a minha mãe, assim com Brad tinha feito. Onde ela estava com a cabeça de engravidar a essa altura do campeonato?
Mas, por incrível que pareça, quando eu imaginei minha mãe grávida com um barrigão e depois com um bebê nos braços, uma mãozinha pequenininha segurando seus dedos, e logo mais uma criança correndo pela casa sorrindo e fazendo bagunça, eu senti meu coração dando um salto. E não era de pavor. Eu estava feliz. Eu estava radiante.
Eu senti aquele mesmo sorriso bobo da minha mãe se espalhando pelo meu rosto e minha vista ficou embaçada quando lágrimas brotaram nos meus olhos.
Brad ainda estava dando um piti do meu lado, resmungando palavras incoerentes, quando eu me levantei do sofá e andei a minha mãe, me ajoelhando na sua frente. Ela me olhou apreensiva, mas não se mexeu quando eu estendi minha mão para tocar a sua barriga.
– Um bebê? – Eu ainda estava processando tudo lentamente e olhava diretamente nos seus olhos. – Meu irmãozinho?
– Ou irmãzinha – nós duas completamos juntas.
Começamos a gargalhar feito duas bobas. As lágrimas escorriam abundantes do seu rosto quando ela se jogou sobre mim e me abraçou com força, quase nos levando ao chão.
– É isso aí, velho! – Jake se pronunciou pela primeira vez. – Ainda dá no couro.
– Jake! – Andy gritou quase espumando de raiva.
– Ei, sem estresse. Isso foi um elogio. – Ele ria. – E é bom saber que eu tenho seus genes. Vida longa.
– Jake! – ele o repreendeu novamente, mas dessa vez não conseguiu conter o sorriso.
– Parei. – Ele também se ergueu e andou até onde nós duas estávamos, ainda abraçadas, sentadas no tapete. – Parabéns mãe. – Ele se abaixou um pouco para beijar o topo da cabeça dela, aproveitando para puxar meu cabelo de leve só para implicar. – E parabéns pai – ele falou estendo sua mão enorme e apertando a do pai.
– Ah, é mesmo. – Eu já ia esquecendo que aquele filho não havia sido feito sozinho. – Parabéns, Andy.
– Obrigado querida.
– Já vi que sou voto vencido nessa história – Brad resmungou.
– Voto vencido? Não havia votação nenhuma aqui Brad. – Podia perceber que Andy se controlava para não ficar irritado novamente.
– É. Tanto faz – ele falou dando de ombros. – Parabéns, coroa. Parabéns, mãe. Desculpa o surto.
– Tudo bem, filho.
– Só vamos torcer para que o bebê não seja parecido com você, Brad – eu falei ainda sem conseguir deixar de sorrir. – Um troglodita na família já basta.
– Tomara que não seja parecido com você – ele retrucou de imediato/ – Uma pervertida na família já basta!
– Bradley Ackerman! – Andy agora estava realmente irritado.
E eu também. Se não estivesse abraçando a minha mãe eu teria sido capaz de socar aquela cara irritante.
– Perversão é um termo comumente usado para designar um desvio de comportamento humano considerado normal – David começou falando como se estivesse em uma palestra fazendo com que todos parassem para ouvi-lo. – Ser pervertido é natural entre os humanos. E há quem diga que é genético. Então, levando em consideração que a família Ackerman é formada por homens sexualmente ativos, com exceção de mim, mas eu não conto por ser jovem demais, é bem provável que a criança seja contemplada com esses genes. E isso se torna ainda mais certo, se, como Brad diz, o lado materno dessa família também tiver as mesmas características.
Eu não podia acreditar no que estava ouvindo. Um discurso sobre perversão? Perversão genética? A sala ficou em silêncio novamente, dessa vez por conta das palavras do caçula da família. Nós olhamos um para o outro e então desatamos a rir.
Então era isso. Minha mãe estava grávida. Dentro de nove meses a família Ackerman iria ganhar um novo membro. E eu, a única Simon da família, senti uma alegria imensa me invadindo ao observar os futuros papais – de novo – naquela tarde. O cuidado, o amor que transparecia em cada gesto. Me imaginei daqui a alguns anos daquele mesmo jeito.
Não era difícil me imaginar naquela situação. Casada e grávida, quer dizer. Não que eu quisesse isso para agora. Nem para daqui a pouco. Mas em alguns anos era exatamente como eu queria estar.
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