Atração Involuntária
30 Capítulo 30
CAPÍTULO 30
Finalmente, depois de meses morando na Califórnia, Gina conseguira realizar seu sonho maluco de presenciar um terremoto. Estávamos na terceira aula do dia quando a tremedeira começou. Nem foi muito forte, mas foi o suficiente para acabar com a energia da escola. Ou seja, sem aulas pelo resto do dia. Eu estava pensando em aproveitar o tempo livre e ir ao shopping com Gina. Estava querendo comprar algumas coisas para mim e para o quarto de Jesse. Mas meus planos foram por água abaixo quando eu vi Gina se aproximando com Jake, de mãos dadas e sorrindo como se fossem aprontar algo.
– Suze – Jake falou quando já estavam mais perto –, procura Brad por aí. Ele vai levar vocês para casa. Eu estou indo para casa de Gina.
Eu não queria ir para casa, mas também não queria mais ir ao shopping. Sozinha não tem tanta graça. Ainda não tinha almoçado e sabia que em casa não teria almoço, então eu procurei Brad apenas para informa-lo que eu iria para casa mais tarde. Resolvi que queria visitar meu namorado no trabalho e, se tivesse sorte, ainda conseguiria almoçar com ele.
Mas, ao chegar lá, eu vi que meus planos iriam para o brejo novamente.
Estava um pandemônio dentro do museu. Não havia visitantes, embora o museu estivesse aberto. Mas os funcionários corriam de um lado para o outro, afobados, tentando organizar tudo novamente. Pelo visto o terremoto havia sido mais forte ali. Eu vi Jesse vindo dos fundos do museu com uma caixa enorme nos braços. Ele ficou surpreso por me ver ali, mas também parecia aliviado. Ainda de longe ele me lançou um olhar aflito como se quisesse me falar algo e quando seu olhar desviou para um ponto específico do museu, eu pude perceber o motivo da sua aflição. Havia um fantasma ali. O fantasma de um senhor com cabelos brancos, barba da mesma cor tão longa que cobria seu pescoço, e de terno e gravata fora de moda.
Eu fiquei na dúvida sobre o que Jesse queria que eu fizesse, mas logo tomei minha decisão quando tudo começou a tremer novamente e não por conta de um terremoto.
– De novo não! – um dos funcionários que estava perto de mim exclamou e tentou segurar a maior quantidade de objetos que ele conseguia, evitando que fossem ao chão.
Corri em direção ao fantasma para fazê-lo parar antes que ele causasse mais danos. Jesse sussurrou um “Não bate nele” quando eu passei e eu não consegui deixar de rir. Tudo bem que isso era o que eu costumava fazer, mas eu não batia em idosos. Mesmo que esses idosos estivessem mortos.
Estava uma confusão tão grande ali que ninguém perceberia eu falando com o nada. O velho estava encostado na parede, de braços cruzados e não parecia nem um pouco satisfeito.
– Para com isso – eu sibilei quando parei na sua frente.
Ele não pareceu surpreso por eu estar falando com ele.
– Mais um? Por acaso está tendo uma convenção de mediadores nessa cidade inóspita?
Ele tinha um sotaque muito carregado, típico da Inglaterra.
– Eu pedi para você parar – eu insisti quando ele me ignorou.
Mas ele não parou. Então eu fiz o que a única coisa que fazia eles pararem. Não era exatamente o que eu queria fazer, mas, como eu disse, eu não bato em idosos.
– Para... com... isso! – eu pontuei cada palavra com um cutucão no seu ombro. Deu certo. Ele parou.
– Você não está morta. – Não era uma pergunta. Ele não parecia assustado, apenas surpreso.
– Pareço estar morta?
Mas ele não respondeu.
– Você vai me ajudar. – Mais uma vez não era um pergunta. Tampouco um pedido. Parecia uma ordem.
Ok. Eu não iria receber ordens de um fantasma que mais parecia o Papai Noel. Mas eu ia mesmo ajudar. Não era isso que eu fazia?
– Essa é a intenção.
Mas ele sumiu quando um dos funcionários passou correndo e esbarrou em mim sem querer.
Por que ele me pediria para ajuda-lo, ou melhor, ordenaria, e de repente sumia? Eu olhei para onde Jesse estava e ele simplesmente deu de ombros entendendo tanto quanto eu.
– Você já almoçou? – ele perguntou se aproximando depois de deixar a caixa em um canto.
– Não. Vim aqui te chamar para isso.
– Vamos agora? – Jesse sugeriu. – Eles vão fechar o museu para organizar tudo, mas vamos almoçar antes.
– Qual é a daquele fantasma? – eu perguntei quando já estávamos na rua a caminho do restaurante.
– Ele chegou pela manhã junto com algumas peças novas que foram doadas ao museu.
– Ele veio de brinde?
– Pelo que eu consegui extrair dele, aquelas peças pertenceram a ele – Jesse falou ignorando o meu sarcasmo –, mas era herança de família. Ele não está nem um pouco satisfeito dos netos terem doado tudo.
– Será que é isso que ele quer? Que a gente fale com os netos e reclame com eles?
– Acho que não. Ele só estava chateado com esse fato. Ele ficou nervoso mesmo quando eu disse que ele estava na Califórnia.
– Como assim?
– Ele não sabia onde estava. Só estava seguindo as peças. Mas quando eu disse onde ele estava, ele explodiu. Você deve ter sentido.
– Foi ele que causou o terremoto? – eu perguntei perplexa com o fato.
– Sim. – Por isso o museu havia sido o maior prejudicado. Foi o centro de tudo. – Mas ele percebeu que exagerou na reação e passou a descarregar a raiva apenas no prédio do museu.
– Quem é esse cara? E qual é o problema dele com a Califórnia?
– O problema eu não sei. Ele não quis me falar. Mas ele se chama William Matthew Flinders Petrie.
– Isso tudo? – Que nome grande. – E você decorou?
– Você não sabe quem é ele? – ele perguntou estupefato.
– Deveria?
Ele parou de andar e continuou a me olhar com expressão incrédula no rosto.
– Jesse, eu não leio mentes – falei quando ele permaneceu calado. – Quem é esse velho?
– Não o chame de velho, Suzannah – ele pediu, desmanchando a cara de sabichão. – É falta de respeito.
– Mas ele é velho – eu retruquei.
– Suzannah.
– Ok. Parei. Mas quem é ele?
Jesse voltou a andar e pegou minha mão nas suas, entrelaçando nossos dedos.
– Ele foi um dos maiores arqueólogos de todos os tempos. Foi quem inventou o método para reconstruir a sequência de acontecimentos históricos em culturas antigas.
Faz de conta que eu sei o que é isso.
– E por que eu deveria conhecer ele?
– Há um livro na sua casa que fala dele.
– Livro meu?
– Não. Eu o achei na estante da sala.
– Então está explicado. – Eu nunca perdi meu tempo lendo os livros que estavam na sala. – Nossa, Jesse – exclamei de repente quando me dei conta de uma coisa. – Ele é o seu primeiro fantasma.
– Acho que sim – ele falou dando de ombros. – Mas não foi a mim que ele pediu ajuda.
– Mas ele falou primeiro com você.
– Você está tentando se livrar da responsabilidade de mediá-lo ou é impressão minha?
– Nada disso. – Ok. Talvez eu estivesse. – É só que você nunca mediou nenhum fantasma. Não queria te tirar essa chance.
Mentirinha boba que não mata ninguém.
– Podemos dividi-lo.
– Dividi-lo?
– É. Podemos mediá-lo juntos. – Ele parou de andar novamente e me puxou pela cintura de encontro ao seu corpo. – O que acha?
– Com medo de mediar um fantasminha sozinho? – eu zombei envolvendo seu pescoço me aproximando mais.
– Arrumando uma desculpa para passar mais tempo com você – ele respondeu, sussurrando no meu ouvido.
Se era por isso, eu não tinha como recusar, certo?
– Seria um prazer dividir o fantasma do Papai Noel com você, meu amor.
Nós resolvemos aproveitar aquela uma hora que Jesse tinha disponível para adiantar alguma coisa com o velhinho. Que Jesse não me escute chamando-o assim. Ele me deu uma super bronca quando eu o chamei de Papai Noel. Mas, qual é! Ele parece com o Papai Noel.
Compramos hambúrgueres com batata frita – que eu tinha viciado Jesse – e fomos para o parque procurar um lugar tranquilo para comer e mediar.
Sentamos debaixo de uma árvore e eu chamei o tal arqueólogo. Ele apareceu depois da segunda tentativa e olhou para nós com um misto de surpresa e dúvida.
– Você estava me chamando? – ele perguntou com as sobrancelhas grossas arqueadas.
– Sim. O senhor disse que queria a minha ajuda.
– Ainda quero.
– E o que é? – Mais direta impossível.
– Isso aqui é mesmo a Califórnia? – ele perguntou olhando ao redor.
– Sim.
Eu fiquei com medo dele surtar como fizera no museu, mas ele sorriu. Tem cada doido.
– Isso é uma incrível coincidência.
– O que é uma coincidência?
– Meus netos terem doado as peças para o país e o estado que eu mais queria vir.
– E por que não veio antes?
– Como eu teria feito isso? – ele perguntou confuso.
– Oras. Vindo. O senhor não é um fantasma? Era só se transportar para cá.
– Eu não poderia.
– Claro que poderia.
– Não, Suzannah – Jesse me interrompeu. – Ele estava preso às peças. Não teria como vir de tão longe.
– Como é? – Eu juro que não estava entendendo.
– Ele tem ligação direta com aquelas peças. Nem todos os fantasmas conseguem se desprender facilmente.
Eu não estava entendendo nada. E ele pareceu perceber isso porque continuou explicando.
– Funciona como um imã. Os fantasmas conseguem se afastar um pouco do que lhe prende aqui, mas apenas um pouco.
– Sim – o fantasma que eu já havia esquecido o nome confirmou. – E eu estava em outro continente. Não teria como vir até aqui.
– E por que o senhor queria tanto vir para cá, senhor...? – Por que o nome dele tinha que ser tão grande e complicado?
– Sir William Matthew Flinders Petrie – ele informou estufando o peito ao dizer o “Sir”. Velho exibido.
E eu já havia esquecido o nome dele novamente. William alguma coisa.
– Tem apelido? – eu perguntei esperançosa.
– Pode me chamar de Petrie.
Mais fácil agora.
– Ok, Petrie, por que a Califórnia?
– Porque eu descobri que foi para este estado que haviam trazido uma peça muito importante da minha coleção.
– Quem trouxe?
– As pessoas que a roubaram – ele falou como se aquilo fosse uma coisa óbvia.
E parecia mesmo óbvia. Pelo menos para Jesse. Ele olhava para Petrie com se entendesse tudo. Eu continuava por fora.
– Explica isso melhor – pedi quando ele não continuou.
– Durante as minhas visitas ao Egito, eu encontrei muitos objetos importantes. Toda a minha coleção está exposta no museu que fizeram em minha homenagem – lá estava ele estufando o peito novamente –, mas essa peça foi roubada há algumas décadas. Eu sabia que ela havia sido trazida para cá porque foi onde encontraram os ladrões, mas nunca acharam a peça.
– O senhor acha que eles venderam? – Jesse perguntou.
– Creio que não. Pelo que eu consegui descobrir, eles estavam sujos de terra quando foram capturados, então o mais provável é que tenham enterrado. Os policiais fizeram uma busca nas proximidades onde eles foram achados, mas não houve resultado.
– Por que eles iriam enterrar ao invés de vender? – Eu não conseguia ver uma razão para fazerem isso.
– Provavelmente eles iriam esperar a poeira baixar para poder vender. Mas essa peça é a principal da minha coleção de antiguidades egípcias. Vocês precisam encontra-la – ele falou com um olhar suplicante.
– Mas ninguém sabe onde está.
Alguém tinha que usar a lógica ali. Se os policiais não tinham achado nada, como eu e Jesse conseguiríamos depois de tanto tempo? Essa peça já devia ter se decomposto.
– Você disse que me ajudaria – ele lembrou.
– Eu quero ajudar, mas também não sou advinha. Como posso saber onde essa peça está? Já procuraram antes e não acharam nada.
– Eles procuraram no lugar errado – ele parecia bastante seguro do que falava.
– E como o senhor sabe qual é o certo?
– Eu não sei. Você tem que procurar.
– Não é assim tão simples.
– Você disse que me ajudaria! – ele repetiu, dessa vez com a voz alterada.
E lá começou ele de novo a surtar, mas antes que eu pudesse fazer ou falar qualquer coisa, ele desapareceu.
– Belo fantasma você foi arrumar – eu ironizei, ainda olhando para o ponto onde o velho havia desaparecido.
– Ele é um pouco complicado.
– Complicado é elogio. Louco, isso sim!
– Suzannah, não fale assim.
– Como é que ele espera que a gente ache essa peça estúpida?
– Talvez se pesquisarmos um pouco, nós possamos descobrir algo.
– Você acha que há algo a respeito disso na Internet? – eu perguntei, me voltando na sua direção.
– Tenho certeza que sim – ele respondeu também se voltando para mim. – Ele foi um homem muito importante. E se essa peça é a principal da coleção dele, é muito provável que nós encontraremos tudo a respeito do seu roubo.
– Quando eu chegar em casa eu procuro alguma coisa. Como é mesmo o nome dele?
Depois que Jesse repetiu o nome e escreveu em um papel, nós encerramos esse assunto. Pelo menos por enquanto.
Terminamos de comer e ainda tínhamos vinte minutos até que Jesse tivesse que voltar para o trabalho, então ficamos namorando um pouco. Ele se encostou ao tronco da árvore e me puxou para que eu me apoiasse no seu peito. Adorava ficar daquele jeito, com suas mãos em volta do meu corpo, seus lábios no meu pescoço causando arrepios a todo instante.
– O que Jake queria com você ontem à noite? – perguntei em certo momento, lembrando quando Jake chamara Jesse para um canto e passaram quase meia hora conversando.
– Ele pediu para não contar a ninguém – ele respondeu sem parar de beijar meu pescoço.
– Por acaso tem algo a ver com ele se declarar para Gina?
Jesse riu contra a minha pele fazendo cócegas no lugar.
– Algo assim.
– Eu queria ser uma mosquinha para ver essa cena. – Eu fechei os olhos para tentar visualizar a situação. Não consegui. – Jake dizendo que ama Gina? Não consigo imaginar como seria. O que você falou para ele?
– Eu não vou dizer, hermosa.
– Chato.
– Curiosa.
No caminho de volta para casa eu tive a surpresa de encontrar Thais sentada numa varanda de uma das casas. Ela se levantou assim que me viu e veio na minha direção.
– Oi, Suze, como vai?
– Bem. E você?
– Também. Adorando a cidade.
– Trajes interessantes – comentei avaliando sua aparência. Ela usava um blazer cinza chumbo com saia justa da mesma cor que ia até os joelhos. Estava descalça, mas seu cabelo ainda estava meticulosamente preso em um rabo de cavalo elegante. – Não combina muito com o clima daqui.
– Eu estava num seminário – ela informou rindo. – Tive que me vestir assim para uma apresentação.
– Apresentação de quê?
– Paleontologia. É o que eu faço.
– Que estranho.
– O quê? – ela perguntou com o cenho franzido.
– Eu não imaginava você como paleontóloga.
– Me imaginava como o quê?
– Sei lá. Jogadora de vôlei.
Ela deu uma gargalhada alegre e seu rosto logo ficou vermelho por ser branca demais.
Ela voltou a sentar na varanda e eu sentei ao seu lado para descansar um pouco antes de seguir viagem.
– Onde está seu irmão? – ela perguntou depois de um tempo.
– Brad?
– Sim.
– Em casa, eu acho. Por quê?
– Ontem ele apareceu lá no hotel onde está acontecendo o seminário. Ficou dando em cima de mim de novo.
– Brad consegue ser bem persistente quando quer.
– Ele até que não é de se jogar fora, mas é muito novo. Mas é gostosinho.
Eca.
– Não ao meu ver.
– Seria estranho se você achasse. – Ela riu bebericando o refrigerante, pensativa. – Ele tem dezessete anos, não é?
– Sim. Vai fazer dezoito em alguns meses.
– Que pena. – Pena de quê? Quis perguntar, mas fiquei na minha. – Mas eu só espero que ele não apareça amanhã na palestra.
– Nós temos aula amanhã.
– Mas é no final da tarde. No mesmo horário da que ele foi ontem.
– Como ele ficou sabendo da palestra?
– Não sei. Acho que foi a minha amiga da onça que falou para ele – ela respondeu apontando para dentro da casa com a cabeça.
– Naly mora aqui?
– É. Mas ela não está em casa. Foi tirar umas fotos da Rock House para o site da cidade. – Ela suspirou pesadamente. – Faz um favor para mim?
– Claro.
– Pede para o seu irmão não ir à palestra de amanhã?
– Peço, mas por quê?
– Porque ele fica me secando durante toda a apresentação e isso me irrita. Se ele fizer isso mais uma vez eu serei obrigada a mandar os seguranças retirarem ele.
– Eu dou o recado para ele. – O negócio parecia ser sério. Imaginei Brad sendo preso por atentado ao pudor. – Pensei que você tinha vindo para cá de férias.
– E vim. Mas a pessoa que está organizando esse seminário é uma antiga amiga e me pediu para participar. Já que estaria por aqui, eu não vi motivos para não aceitar.
– E você vai ficar até quando?
– Acho que mais um mês. Acumulei férias e agora estou curtindo. – Ela suspirou novamente e olhou para o céu. – Você não teria um irmão que seja maior de idade, teria?
– Eu? Tem o Jake, mas ele tem namorada.
– Ah, que pena. – Hein? – Desde que eu cheguei aqui ainda não fiquei com ninguém. Estou meio necessitada.
Ai meu Deus. Pervertida à vista.
– E aqueles seus amigos que estavam na praia? – perguntei fazendo de conta que não estranhava nem um pouco suas palavras.
– Cheios de defeitos. – Ela olhou para mim e riu da minha expressão confusa. – Ou são casados, ou são sérios demais, ou idiotas demais. E ainda tem um que é gay. O círculo de amizades de Naly não é muito proveitoso.
– Sinto muito – eu comentei sem conseguir deixar de sorrir.
– Aquele cara que você apresentou a nós... Jesse?
– Sim. Meu namorado – me apressei a completar antes que ela começasse a falar besteiras.
– Percebi. Ele tem irmão?
– Não.
– E você não conhece ninguém que poderia me apresentar?
Nossa. Essa aí estava atirando para todo lugar.
– Conheço o pessoal da escola. Mas não são muito diferentes do meu irmão.
– Então deixa para lá – ela bufou chateada. – Não acredito que eu vou voltar pra Itália sem pegar nenhum americano. Que desperdício de tempo.
Procurei Brad quando cheguei em casa, mas ele não estava. David me disse que ele tinha ido surfar. Sabia que ele demoraria então resolvi adiantar logo aquela coisa do fantasma maluco para que quando Jesse chegasse, eu tivesse alguma novidade.
Fiquei surpresa quando digitei o nome “Flinders Petrie” e apareceram mais de 150.000 resultados. Pelo visto o cara era mesmo importante. Depois de quase uma hora de busca pelos sites eu finalmente consegui descobrir qual era a tal peça e passei a procurar informações sobre ela. Imprimi tudo que eu tinha descoberto sobre o roubo e fiquei esperando Jesse chegar para coloca-lo a par das novidades. Enquanto esperava eu fiz minha lição de casa, que era pouca já que quase não tivemos aula hoje.
Quando ele finalmente chegou, eu já havia jantado e ele também então eu arrastei ele para o jardim, deixando a porta de comunicação com a cozinha aberta, assim minha mãe não pensaria que estávamos fazendo bobagens.
Mas antes que eu pudesse mostrar qualquer coisa para ele, ouvimos uma explosão abafada, seguido de um grito no andar de cima. Depois de muito estardalhaço e gritaria histérica da minha mãe, nós conseguimos descobrir que a causa de tudo aquilo tinha sido uma das experiências malucas de David. Aparentemente, ele tentou misturar alguns líquidos que acabou explodindo. Até aí tudo bem, mas o problema foi que ele caiu de mau jeito quando tentou se safar do impacto da explosão e acabou torcendo o pulso.
Andy e minha mãe o levaram para o hospital, implorando para que não transformássemos a casa numa zona.
– Eu não vou ficar aqui segurando vela – Brad exclamou depois que os dois saíram com Dave.
Então ele simplesmente subiu, pegou a carteira e saiu de casa, sabe-se lá para onde. Esperava que ele não fosse atormentar Thais. Eu já tinha dado o recado a ele. E ainda tinha feito isso na hora do jantar, na frente de todo mundo, fazendo questão de falar palavra por palavra do que ela tinha me dito.
E é claro que ele levou uma baita bronca de Andy por estar se comportando como um maluco perseguidor. Fiquei super feliz. Finalmente consegui me vingar por ele ter me chamado de pervertida.
– Jesse – Jake chamou –, será que eu poderia dar uma palavrinha com você? É rápido.
De novo?
– Claro – Jesse foi até a cozinha e os dois sumiram lá dentro.
– Ai – Gina suspirou se jogando no sofá –, meu dia hoje foi perfeito.
– Eu não quero saber o que você fez com meu irmão, Gina.
– Eu não estou falando disso, mente poluída.
– E o que foi? – eu perguntei rindo.
– Primeiro foi o terremoto. Consegui matar minha curiosidade.
– Só você para ficar feliz por conta de um terremoto. E que por sinal, foi causado por um fantasma – eu sussurrei a última palavra para que Jake não ouvisse.
– Sério? – eu apenas assenti. – Ah, que saco! Então esse não valeu.
– Valeu, sim. A terra tremeu.
– Mas não foi natural. Mas, enfim, não foi só isso que fez meu dia ser perfeito. – Eu apenas continuei em silêncio esperando ela desembuchar de uma vez. – Hoje Jake falou que me ama. – Ela falou isso numa voz tão doce e dengosa que eu quase não entendi. – Foi tão fofo. – E eu senti que lá vinha a narração, mas eu estava mesmo curiosa para saber como Jake tinha se declarado. – Nós estávamos no meu quarto só nos aquecendo...
– Gina, omite os detalhes, por favor.
– Ok, sua chata. Nós estávamos lá no bem bom e de repente ele se afastou e disse que não queria fazer sexo comigo. Eu fiquei doida. Já estava no clima, mas aí, antes que eu surtasse de vez, ele disse que não queria fazer sexo, que queria fazer amor. – Lá estava a voz dengosa de novo quase me impossibilitando de entender. – Ele disse que estava cansado de fingir que aquilo era só um lance qualquer e se fazer de machão. Ele disse que me amava. Assim, com todas as letras. Foi o melhor sexo da minha vida. Aliás, sexo não. Amor. Foi perfeito.
Ok. Não foi exatamente uma declaração romântica, mas foi sincera. E era isso que importava.
– Fico feliz por você, Gina. Não pelo sexo maravilhoso que você teve, mas por te ver tão feliz.
– Eu estou. Demais. Eu pensei que ele nunca me diria isso. Mesmo eu sentindo que ele me amava, eu achava que Jake não era do tipo que se declarava.
– Nada que uma conversinha com meu namorado não resolvesse.
– Jesse está por trás disso? – ela perguntou perplexa.
Eu assenti sorrindo.
– Não sei os detalhes, mas eles passaram um bom tempo conversando ontem.
– Me lembre de agradecer a ele depois.
Depois que Jake voltou da cozinha com Jesse, os dois sorrindo cúmplices, ele subiu com Gina para seu quarto e eu fiquei sozinha com Jesse na sala. Adorei.
– Então, o que você conseguiu descobrir sobre o senhor Petrie? – ele perguntou sentando ao meu lado no sofá.
– Será que a gente não pode deixar isso para depois? – eu perguntei me aproximando mais. – Queria aproveitar que estamos sozinhos aqui.
– Eu só quero resolver logo isso para ter mais tempo com você, hermosa.
Suspirei pesadamente e me inclinei para pegar os papéis que tinha deixado na mesa de centro.
– Ok. Vamos ao que eu descobri sobre a tal peça. – Folheei as páginas procurando a informação e comecei a explicar para Jesse. – Se trata de uma placa de calcário que foi encontrada no cemitério de Giza em uma das visitas do nosso querido fantasma ao Egito. Se chama “A Princesa Néfertiabet antes de sua refeição”. Nome totalmente sem criatividade se quer saber a minha opinião. – Mostrei a foto da peça para Jesse e ele riu. Basicamente era uma imagem de uma mulher sentada à mesa. – Ela tem quase 38 centímetros de altura, mais de cinquenta e dois centímetros de largura e oito centímetros de profundidade. Ou seja, é pesada.
– Mas não é tão grande. Fácil de esconder.
– É. E sobre isso, vamos agora ao que eu descobri sobre o roubo. Ah, mas antes, um detalhe básico. A peça estava em exposição no museu dele que fica em Londres, mas estava em negociação para ser vendida ao Museu do Louvre, em Paris. Isso foi em meados de 1960. Mas antes que eles conseguissem finalizar o acordo, a peça foi roubada. A polícia desconfiou que fosse um roubo encomendado pelo pessoal do Louvre, para não terem que pagar pela peça. Então a polícia de Paris também se envolveu nas buscas, para limpar o nome do museu. Depois que eles pegaram os dois homens, que de franceses não tinham nada, eles continuaram com as buscas, mas os anos se passaram e nada. Quando a polícia local e os detetives contratados pelo Museu Petrie pararam com as buscas por falta de pistas, o Museu do Louvre assumiu a responsabilidade de achar a peça, mas exigiu a finalização do acordo.
– Essa peça pertence ao Museu do Louvre agora? – Jesse perguntou surpreso.
– Sim.
– Acho que o senhor Petrie não sabe disso.
– E não sabia mesmo – o próprio Petrie respondeu aparecendo de repente na nossa frente.
Ele não parecia nem um pouco feliz. E tampouco arrependido por nos assustar desse jeito.
– Como eles tiveram a coragem de vender a minha melhor descoberta para outro museu? – Ok, pelo tom de voz dele, ele estava mesmo furioso. – Era a minha peça principal. Mercenários é que eles são. Sabia que não deveria ter deixado minha família cuidar da administração das minhas antiguidades. Eles não tinham noção da importância que tudo aquilo tinha para mim. Primeiro mandam meus objetos pessoais para um museu que não tem nada a ver com a minha vida. Califórnia! – ele exclamou, falando cada vez mais alto, quase gritando. – Eu nunca vim à Califórnia quando estava vivo. E agora eu descubro que eles venderem a minha Princesa Néfertiabet para os franceses! É uma pena que eles já estão mortos ou eu iria agora mesmo os fazer pagarem por essa afronta à minha memória.
– Por favor, senhor Petrie, se controle – Jesse pediu educado.
“Por favor” uma ova! Ele estava começando a fazer as coisas tremerem de novo e se continuasse assim, logo o armário de porcelanas da minha mãe iria abaixo.
– Eles me traíram. Não deram o mínimo valor ao meu trabalho. Só queriam saber do dinheiro.
E ele continuava se alterando.
– Petrie – eu chamei, mas ele pareceu não ter ouvido. Continuava resmungando rápido e ainda mais alto. – Petrie – tornei a chamar, aumentando minha voz também. – Para com isso. Se você destruir minha casa, eu não te ajudo mais.
– Ameaçar não vai fazer com que ele se acalme, Suzannah – Jesse falou num tom anormalmente tranquilo.
Como é que ele poderia ficar calmo numa hora dessas com o velho a ponto de transformar minha casa em escombros? Mas Jesse conhecia mais de fantasmas do que eu, afinal ele fora um. Só então foi que eu lembrei o quanto fantasmas eram facilmente influenciados pelas alterações de humor de quem estivesse à sua volta e tratei de me acalmar também.
– O que é que está acontecendo aqui?
Levei um baita susto ao ouvir a voz de Jake que estava parado no alto da escada.
– Deixa eles, Jake – Gina tentava puxá-lo de volta para o quarto sem sucesso. – Eles devem estar tendo um papo de casal. Não se mete.
É claro que Gina sabia exatamente o que estava acontecendo naquela sala.
Eu não sabia se ficava com medo de Jake notar o que estava acontecendo ou se ficava com vergonha por ele estar apenas de bermuda e Gina abotoando uma camisa dele, provavelmente sem nada por baixo.
– Por que vocês estão discutindo? – ele perguntou sem se deixar ser arrastado por Gina.
– Jake, não se mete nisso – Gina repetiu, tornando a puxar ele.
Jake finalmente aceitou o conselho dela e os dois voltaram para o quarto.
Petrie não estava nem um pouco preocupado com o fato do meu irmão descobrir tudo. Ele continuava gritando e fazendo as coisas tremerem. E acho que o nervosismo que se instalou em todos ali por conta do medo de Jake descobrir alguma coisa, acabou contagiando ele, fazendo com que seus poderes se intensificassem. E não diminuiu mesmo depois que Jake saiu. O lustre começou a balançar perigosamente e os papéis que eu tinha deixado em cima do sofá começaram a voar. Em alguns segundos os objetos mais leves que estavam por ali seguiram o mesmo caminho, voando pela sala, batendo nos móveis, em mim e em Jesse, e atravessando seu corpo. E ele não se acalmava por mais que nós implorássemos. Será que Jesse me deixaria bater nele agora?
– Chama Steph – Gina sibilou, descendo as escadas apressada. – Chama ela para que ela possa tirar ele daqui.
– Eu não acho uma boa ideia – Jesse falou, mas eu já estava chamando ela.
E assim que ela apareceu, eu percebi por que Jesse não achava aquilo uma boa ideia. O problema era que Petrie estava alterado demais e Steph foi atingida pelas emoções dele assim que apareceu na sala, e seu corpo começou a tremer, suas emoções totalmente alteradas.
Merda. Merda!
– Não, por favor – implorei entrando em desespero. – Você também não, Steph. Para com isso.
– Não é tão simples assim, Suzannah – Jesse falou, já não tão calmo.
Ele estava tentando ajudar com essa frase? Porque não funcionou muito. Mas eu estava numa baita encrenca ali. Se já estava sendo complicado lidar com um fantasma sem controle, imagine com dois descontrolados.
– Steph – Gina chamou se aproximando dela –, nós precisamos da sua ajuda. Respira fundo e se controla.
– Eu não consigo – ela falou por entre os dentes com expressão torturada.
– Ele é mais forte que ela – Jesse explicou respirando fundo, tentando manter a própria calma.
Eu fiz o mesmo, mas não deu muito certo. Então mais e mais coisas começaram a voar, livros caindo da estante, quadros caindo das paredes. O armário de porcelanas começou a tremular ameaçando tombar a qualquer momento. Se aquilo caísse eu estava frita.
– Parem com isso, vocês dois – eu praticamente gritei em desespero. – Petrie, nós vamos te ajudar, ok? Mas você precisa parar com isso.
– Eles venderam a peça – ele repetiu gritando tão alto que eu tive que tampar os ouvidos. – Minha princesa é dos franceses agora.
– Sua princesa não é de ninguém no momento. Ela ainda está aqui na cidade esqueceu?
– E você vai achar. – Não era uma pergunta. Como é que ele ainda tinha a coragem de me dar ordens?
– Eu vou procurar – eu corrigi. – Mas só se você parar de destruir a minha casa.
Ele finalmente parou de gritar embora ainda tremesse um pouco. Mas Stephanie continuava alterada.
– Agora é contigo, Steph – Gina falou. – Tenta se controlar agora.
– Ainda não dá – ela continuava falando por entre os dentes como se fosse doloroso.
– Petrie ainda não está completamente controlado – Jesse informou olhando preocupado para Steph.
– Vamos lá, Petrie, contribua aqui.
– Vai seu velho chato – Gina exclamou de repente. – Se controla.
– Gina, isso não vai ajudar – eu falei nervosa.
– Ah, qual é! Olha só o estado da minha irmã. Isso está doendo nela.
Eu olhei para Jesse e ele me confirmou que Gina estava certa. Aquilo estava mesmo machucando Steph.
– Ok. Petrie, é o seguinte – aquela era a hora de ser drástica. Era tudo ou nada – Ou você para agora e vai embora, ou pode esquecer a sua princesa.
Ele me relanceou um olhar assustado, mas o medo de não ver aquela peça novamente era maior do que a raiva que ele estava sentindo por ela ter sido vendida. Sem mais palavras, ele sumiu. Steph relaxou no mesmo instante e as coisas que estavam voando, caíram espalhadas pelo chão.
– Você está bem? – Gina perguntou olhando aflita para a irmã.
– Agora sim – ela respondeu com a voz baixa e arfante.
– Desculpa por isso. Vai para casa agora. Daqui a pouco eu chego por lá.
– Ok. – Ela se voltou para mim e para Jesse com um olhar culpado. – Desculpa por não ter ajudado.
– Sem problemas, Steph. – Jesse falou compreensivo.
– Desculpa por te envolver nisso.
– Tudo bem. Até mais. – E sumiu.
Houve um suspiro coletivo de alívio ali na sala e nós três começamos a rir aliviados por ter acabado. Mas a alegria durou pouco.
– Alguém pode me explicar que diabos foi isso? – Jake estava parado novamente no topo das escadas observando a cena com o olhar assombrado.
Estávamos os três congelados no meio da sala, observando Jake que descia as escadas vagarosamente, olhando ao redor como se procurasse algo.
– O que está acontecendo aqui? – ele perguntou novamente, olhando de um para o outro esperando por respostas.
Nós continuamos em silêncio sem saber o que falar. Eu não sabia desde quando Jake estava parado ali, então não sabia o quanto ele tinha visto. Só esperava que ele não tivesse visto nada que nos comprometesse. Embora, a julgar pela cara dele, isso talvez fosse pedir demais.
Meu coração estava disparado de tão nervosa que eu estava naquele momento. Tinha acabado de me livrar de um fantasma maluco sem controle e agora surge meu irmão que provavelmente tinha visto tudo. Ou pelo menos a parte não fantasma da situação. Mas isso não tornava as coisas melhores.
Eu sempre me esforcei ao máximo para que ninguém descobrisse o que eu podia fazer, e tinha sido bem sucedida até hoje. E agora tudo parecia ter ido por água abaixo graças ao bom, velho e louco Petrie. Tive vontade de mata-lo de novo.
– Alguém vai me dizer o que está acontecendo ou eu vou ter que adivinhar? – ele estava visivelmente nervoso. Tanto quanto eu.
– Você acreditaria se nós disséssemos que estávamos ensaiando para uma peça da escola? – Gina arriscou com um sorriso fraco no rosto. Não teria convencido nem a um cego.
Ele apenas arqueou uma sobrancelha e encarou Gina de forma cética.
– O que você viu, Jake? – eu perguntei receosa da sua resposta.
– O suficiente. – Mais uma vez nós não falamos nada e ele continuou. – Quem é Petrie? – ele perguntou sério e olhou para Gina com o cenho franzido. – E foi impressão minha ou você estava falando com a sua irmã que, se não me falha a memória, está morta?
Gina ficou paralisada ao ouvir aquelas palavras e meu coração parecia querer sair pela boca. Eu olhei para Jesse e ele estava tão apreensivo quanto eu. Ele mordia os lábios com se tentasse segurar as palavras dentro de si.
– Eu quero a verdade, Gina – Jake pediu. – Não tenta me enrolar. Eu quero saber a verdade ou vou acabar pensando que você enlouqueceu. Ou melhor, vocês – ele se corrigiu olhando também para mim e para Jesse.
– A verdade não vai mudar a sua opinião, Jake – eu consegui falar enfim e me sentei no sofá. Jesse sentou ao meu lado e Jake e Gina sentaram no sofá à minha frente. Minhas pernas enfraqueceram de repente quando vi que não havia opção a não ser contar a verdade.
E foi o que eu fiz. Eu olhei para Gina e Jesse como se pedisse autorização, e quando eles não apresentaram objeções, eu comecei a falar. Com todas as letras, sem rodeios, eu falei que via fantasmas. Que eu era assim desde que me entendia por gente e expliquei detalhadamente como era o meu mundo. A forma como os fantasmas apareciam pedindo para ajuda-los com suas pendências entre os humanos.
Ele se manteve em silêncio enquanto eu falava, sua expressão era apenas um leve misto de confusão e surpresa.
– Fantasmas? – ele falou finalmente quando eu terminei. – Você vê fantasmas?
– Isso.
– Vocês também? – ele perguntou olhando para Jesse e Gina que apenas assentiram. – Até você, Jesse?
– Sim.
– E por que eu deveria acreditar nisso? – ele perguntou se recostando no sofá e cruzando os braços.
– Porque é a verdade. E foi o que você pediu.
– Mas isso também já é demais. Esse tipo de coisa não existe. Fantasmas não existem.
– Existem sim, Jake – Gina confirmou também se recostando no sofá. – Minha irmã é uma.
– Você está de brincadeira comigo, não é? – ele perguntou olhando incrédulo para Gina. – Tudo bem que eu já ouvi você conversando com ela algumas vezes, mas pensei que você falava com uma foto dela ou sei lá o que. Que sentia falta da sua irmã. Mas daí a dizer que ela é um fantasma já é demais.
– Por que você pediu a verdade se não estava preparado para ouvir? – ela perguntou irritada.
– Isso não é verdade Gina. Pare com isso. Essas coisas não existem.
– Jake, há três pessoas nessa sala que acreditam nisso por ter provas suficientes que existe. Você vai dizer que os três estão mentindo ou estão loucos?
Ele via a lógica no que Gina falara, mas ainda assim parecia difícil para ele acreditar.
– Eu... Vocês não...
– Quer saber o que mais? – Gina o interrompeu. – Eu não vou perder meu tempo tentando fazer você acreditar. Eu vou te provar que nós estamos falando a verdade. – Ela se voltou para mim antes de continuar. – Suze, chama Steph, por favor.
– Tem certeza? – eu perguntei receosa.
– Tenho.
– Ok.
– O que você vai fazer? – Jake perguntou inseguro.
– Chamar a minha irmã – Gina respondeu por mim quando eu já estava de olhos fechados.
Steph apareceu logo em seguida por trás do sofá onde Gina e Jake estavam sentados e nos olhou confusa.
– O que aconteceu?
Gina se voltou para falar com ela, apoiando um braço no encosto do sofá.
– Nós estamos tentando provar para Jake que você existe. Ou melhor, que fantasmas existem.
Jake também se virou naquela direção, mas é claro que ele não via nada.
– Agora ele sabe a verdade? – Steph perguntou entre surpresa e feliz.
– Saber sabe, mas não acredita.
Como Jake não via nada atrás dele, ele ficou apenas olhando para Gina que, para ele, estava falando sozinha.
– E o que vocês querem que eu faça? – Steph perguntou com um brilho estranho no olhar.
– Steph – Jesse chamou. – Não exagera.
– Eu não fiz nada – ela argumentou, mas sua expressão travessa a entregou.
– Eu conheço esse seu olhar, Steph – Jesse comentou rindo.
Agora foi para ele que Jake direcionou aquele mesmo olhar pasmo, suas sobrancelhas arqueadas.
– Você acaba com a minha festa – Steph resmungou cruzando os braços numa postura birrenta.
– Não tem festa nenhuma aqui. Nós só queremos fazê-lo ver a verdade.
– Jesse, às vezes você parece um velho falando.
Nós três rimos e Jake ficou ainda mais incrédulo com aquilo.
– Vocês são todos loucos – ele murmurou.
– Já sei o que eu vou fazer – Steph comentou ignorando-o.
– Sem exageros – Jesse tornou a pedir.
– É. Não vai quebrar nada – eu pedi olhando para o armário de porcelanas da minha mãe que ainda estava intacto.
– Relaxem. Só vou me divertir um pouco – ela falou antes de desaparecer.
– O que ela vai fazer? – eu perguntei olhando curiosa para Gina.
– Tenho uma leve ideia.
Logo em seguida nós vimos uma coisa que me fez cair do sofá. Não de medo, mas de tanto rir.
Stephanie vinha descendo as escadas, coberta por um lençol branco, parecendo aqueles fantasmas de desenho animado.
Jake deu um pulo tão grande do sofá que foi parar no outro lado da sala, esbarrando contra a parede no lado oposto a onde Steph estava agora. Sua cara de pavor me fez rir ainda mais. Steph ainda fez o favor de ficar flutuando a cerca de um metro do chão para que ele pudesse ver que não havia nada erguendo o pano. Pelo menos nada que ele pudesse ver.
– Q–que... o que... m–mas... c–como – ele gaguejava olhando para todos com ainda mais medo. E raiva também ao ver que todos estavam rindo.
Jesse, que era o mais controlado nas gargalhadas, levantou-se e foi até onde Jake estava.
– Está tudo bem, Jake. É apenas Stephanie.
– M–mas ela está m–morta – ele continuava gaguejando se imprensando ainda mais contra a parede conforme Steph se aproximava.
E para fechar a sua assombração com chave de ouro, Steph produziu um som agourento, típico de filmes de terror, fazendo um arrepio percorrer todo meu corpo. Esse era o único som que os humanos também conseguiam ouvir. Não sei exatamente porque, mas conseguiam. E ver a cara que Jake fez quando o ouviu, foi impagável. Eu cheguei a pensar que ele ia se borrar todo ali. Minha barriga já estava doendo de tanto que eu ria.
– Ok, Steph, pode parar – Gina pediu rindo. – Não vai matar meu namorado de ataque cardíaco.
Steph parou imediatamente, mas eu podia ouvi-la rindo debaixo do pano.
– Pode tirar o lençol Steph – Jesse falou ainda ao lado de Jake. – Ele já viu o suficiente.
– Não – sua voz soou abafada por conta do tecido. – Eu estou gostando de ficar aqui.
Depois que eu consegui parar de rir eu tive uma ideia.
– Jake, deixa eu te mostrar uma coisa.
Fui até onde Steph estava e, por cima do lençol, passei contornar seu corpo para mostrar a Jake que havia uma pessoa ali debaixo. Com isso aos poucos ele foi se acalmando e até chegou a rir quando percebeu que Steph estava acenando para ele.
– Ela disse “oi” – eu informei.
Depois disso tudo correu tranquilo. Respondemos algumas – muitas – perguntas que Jake nos fez, explicamos resumidamente a diferença entre o que eu era e o que Jesse e Gina eram, e depois ele pareceu aceitar tudo normalmente. Bem, não normalmente, mas aceitou. Com certeza ainda achava tudo aquilo estranho, mas sua mente estava mais aberta agora. Fizemos ele prometer que não contaria a ninguém e ele não se opôs. Na verdade, seria difícil alguém acreditar nele sem provas. E só nós poderíamos provar.
No dia seguinte eu acordei com o toque do telefone, mas nem me mexi para atender porque sabia que Andy ou minha mãe fariam isso. Olhei para o relógio e vi que estava quase na hora de levantar. Me arrastei até o banheiro e depois de vinte minutos eu já estava pronta. Quando cheguei ao andar de baixo encontrei Andy e minha mãe conversando na cozinha.
Minha mãe se voltou para mim assim que eu entrei.
– Suze, você se incomodaria de dividir seu quarto por alguns dias?
– O quê? Nem bom dia eu ganho mais? – eu perguntei pegando a caixa de cereais e o leite e levando tudo para a mesa.
– Desculpa, filhinha. Bom dia.
– Bom dia. Então, dividir o quarto com quem?
– Sua prima – Andy respondeu.
– Eu tenho prima? – Até onde eu sabia, minha mãe não tinha irmãos. E eu não acho que a sobrinha do meu pai, que tinha dois anos, poderia estar vindo para Carmel.
– A filha da minha irmã – Andy respondeu novamente.
– Qual delas? – eu perguntei antes de levar uma colherada de cereal à boca. Andy tinha duas irmãs e um irmão. Não conhecia nenhum deles pessoalmente porque eles moravam muito longe, mas já tinha ouvido falar muito deles.
– Audrey.
Ah. Audrey, a advogada.
– Ela vai ter que viajar com o marido para um congresso em São Francisco – minha mãe informou sentando à minha frente – e não querem deixar a filha na casa de Corina – ela falou, se referindo à outra irmã de Andy – por conta do que ouve da última vez que fizeram isso.
Resumindo a longa história que Andy tinha nos contado: da última vez que a sobrinha dele ficou na casa da tal Corina, a coitada voltou para casa com um piercing no nariz. Os pais dela só faltaram morrer ou matar Corina.
– Então, você se incomoda de dividir o quarto com ela? – Andy tornou a perguntar. – Será por apenas duas semanas.
– Sem problemas.
Naquele mesmo dia Andy comprou um colchão extra para colocar no meu quarto, já que o sofá-cama era de Gina. Não que ela usasse muito. Ela ultimamente quase não dormia no meu quarto. A sobrinha de Andy chegaria no sábado pela manhã, mas na quinta a noite já estava tudo pronto.
No sábado quando acordei, Andy e minha mãe já tinham saído para busca-la no aeroporto, mesmo o voo só estando marcado para chegar às dez. Depois que me arrumei direitinho – não para esperar a sobrinha dele, mas para esperar meu namorado lindo – fiquei na sala olhando para o nada enquanto Jesse não chegava.
– Essa produção toda é para o médium? – Jake perguntou indo para a cozinha.
– Mediador, Jake – eu o corrigi. – Se vai tirar onda, faz direito – resmunguei cruzando os braços.
Eu não estava tão arrumada assim. Usava um vestido bonitinho azul que batia a um palmo do joelho. A única diferença era o cabelo que estava totalmente liso e eu tinha colocado um pouco de maquiagem. Mas só um pouquinho para diferenciar.
– E não fica falando essas coisas. Vai que alguém escuta.
– Não tem mais ninguém em casa – ele falou da cozinha mesmo, aumentando a voz para que eu ouvisse. – Brad foi sei lá onde atrás de uma tal de Thais. – Ai meu Deus! Ele não tinha feito isso, tinha? – E David foi junto para o aeroporto.
O que significava que, se Jake saísse também, eu ficaria sozinha com Jesse. Gostei. Mas antes mesmo que eu pudesse sugerir que Jake fosse passar o dia com Gina, Petrie apareceu no meio da sala. Ele ainda não tinha aparecido desde aquela noite que ele quase destruíra a minha sala.
– Oi, Petrie – eu o cumprimentei sem mexer um músculo sequer.
Jake, que estava saindo da cozinha naquele momento, parou com o copo a meio caminho da boca e olhou ao redor.
– Ele está aqui? O fantasma louco?
– Por que ele está me chamando de louco? – Petrie perguntou com o cenho franzido.
Droga! Por que eu tinha tido a infeliz ideia de chama-lo de louco quando falei para Jake o que tinha acontecido naquela noite?
– Ele não é louco, Jake – eu lhe direcionei um olhar de advertência e torci para que ele entendesse o recado. – Só estava nervoso.
– Sei – ele murmurou, mas não falou mais nada.
– Em que posso ajuda-lo, Petrie? – perguntei voltando a encarar o fantasma.
– Eu gostaria de pedir desculpas pela forma que me comportei da última vez que estive aqui.
Ele realmente parecia arrependido.
– Sem problemas. Desde que isso não se repita.
– Não se repetirá – ele assegurou. – Só espero que aquilo não tenha feito você mudar de ideia quanto a me ajudar a achar a peça.
Eu bem que poderia ser má com ele. Dizer que ele que procurasse ajuda com outra pessoa. Mas, pensando bem, isso não seria exatamente uma ameaça, já que em Carmel o que não faltava era opção de mediador.
– Não – respondi por fim. – Não mudei.
– E quando você vai fazer alguma coisa? – ele perguntou ansioso.
– Hoje não vai dar. A sobrinha do meu padrasto está chegando hoje e eu não vou poder sair de casa. Mas amanhã eu vou tentar ir ao local onde acharam os homens que a roubaram.
– Isso é ótimo. Muito obrigado.
– Disponha. – Disponha uma ova!
O local era longe. Eu teria que convencer Jesse a ir comigo, não que eu achasse que ele iria recusar. Mas o pior era que, de acordo com o mapa que eu consultei, nós teríamos que andar por cerca de oito quilômetros para chegar ao ponto exato. Eu odiava andar.
– Isso foi interessante – Jake murmurou, ainda parado no mesmo lugar, depois que Petrie saiu. – É estranho te ver falando sozinha desse jeito.
– Eu não estava falando sozinha.
– Eu sei. Mas ainda assim é estranho.
Ouvi um barulho de carro na entrada e sabia que Jesse tinha chegado. Corri para a porta e a abri no momento que ele saia do carro. Desci os degraus correndo e pulei nos seus braços, envolvendo seu pescoço e o beijando em seguida.
Jesse correspondeu ao beijo com intensidade, me segurando pela cintura, aproximando mais nossos corpos.
– Que recepção calorosa – ele murmurou depois que interrompemos o beijo, mas sem me soltar.
– Estava com saudades – eu falei enquanto beijava seu pescoço.
– Olha lá o que você faz com a minha irmã, Jesse – Jake estava parado na porta de casa e, apesar das palavras nada amistosas, estava com um sorriso no rosto.
Jesse riu contra meus cabelos e me afastou devagar. Pegou minha mão na sua e levou aos lábios, beijando-a delicadamente.
– Eu também estava com saudade, hermosa – ele sussurrou e me guiou para dentro de casa. Ainda bem que ele estava me segurando pela cintura ou eu não teria sido capaz de andar sozinha.
Sentir seus lábios tocando a pele da minha mão com tanto carinho fez minha perna ficar bamba e aquelas borboletas dançarem no meu estômago.
– Cara! – Jake exclamou quando passamos por ele para entrar. – Você não cansa de ser assim não?
– Assim como? – Jesse perguntou sem entender ao que Jake se referia.
– Meloso.
– Meloso?
Era óbvio que Jesse também não entendera dessa vez. Não acho que ele já tenha ouvido essa palavra antes.
– Romântico – eu expliquei sorrindo da expressão confusa que havia no rosto dele.
– Ah, por que eu iria cansar?
– Sei lá. Ficar o tempo todo fazendo essas coisas deve ser entediante.
– Eu não vejo nenhum problema em demonstrar o que eu sinto – ele falou sério, me puxando mais para perto. – Eu a amo e nunca vou cansar de dizer isso.
– Liga não, Jesse. Jake é um insensível. Pode dizer o quanto quiser que me ama.
Jesse me virou de forma que eu ficasse de frente para ele e acariciou meu rosto com ternura.
– Eu te amo, hermosa.
– Eu também te amo, Jesse.
– Credo! – Jake resmungou ao nosso lado. – É mel demais para o meu gosto. Vou para o meu quarto jogar videogame. – Ele foi em direção às escadas e sem se virar continuou. – Juízo vocês dois.
Jesse me conduziu até o jardim e sentou em um dos bancos, me puxando para que eu sentasse em seu colo.
– O que você vai fazer amanhã? – eu perguntei enquanto ele beijava meu ombro.
– Te namorar? – ele respondeu com outra pergunta.
– Acho que a sua opção é melhor do que a minha.
– E qual é a sua? – ele perguntou rindo contra a minha pele.
– Deixa para lá. Eu já decidi que prefiro namorar.
– Fala, hermosa – ele pediu de um jeito que eu não tinha como não responder. Odiava quando ele fazia essa voz manipuladora.
– Eu estava pensando em ir até o ponto em que acharam os homens que roubaram a peça de Petrie. Ele veio aqui hoje e perguntou quando faríamos isso.
– É melhor resolvermos logo essa pendência – ele comentou sem parar de beijar meu ombro.
– Mas eu gostei mais da sua ideia.
– Nós teremos muito tempo para namorar, hermosa.
– Mas não é como se Petrie tivesse tanta pressa. Ele está morto. Não vai a lugar nenhum.
– Suzannah! – Jesse me repreendeu e me afastou um pouco para olhar nos meus olhos. – Eu não gosto quando você fala esse tipo de coisa. É errado.
– Jesse...
– Ele estar morto não significa que ele não tenha sentimentos – ele me interrompeu sério. – Petrie sofre tanto quanto qualquer humano.
– Eu sei, Jesse. Só estava brincando – eu murmurei tornando a me aproximar do seu corpo. – Ou você já esqueceu que eu namorei um fantasma?
– Eu acho que lembro vagamente disso.
– Bobo – eu ri, batendo no seu ombro.
– Linda.
Ele me puxou pela nuca e beijou meus lábios de leve. Mas, como era tão comum acontecer conosco, aquele beijo inocente logo se transformou em algo mais. Eu entreabri os lábios dando passagem para sua língua invadir minha boca, passando a executar uma dança sensual com a minha língua. Em segundos estávamos arfantes.
Por estar sentada no seu colo, eu não demorei a sentir o volume se formando embaixo de mim. Aquilo só me dava mais prazer e eu rebolei em cima dele fazendo-o gemer na minha boca.
Ele mudou meu corpo de posição fazendo com que eu ficasse de costas para ele, apoiada no seu peito musculoso e quente. Suas mãos deslizavam pelo meu corpo por cima do vestido. Aquela posição me dava a sensação de impotência, porque não me dava muitas opções de partes do seu corpo para tocar. Eu ergui minhas mãos sobre a minha cabeça e puxei seu rosto para mais perto, enterrando meus dedos nos seus cabelos. Ele afastou meus cabelos para o lado e passou a beijar e lamber meu pescoço, dando leves mordiscadas, me enlouquecendo de prazer.
Eu rebolei ainda mais em cima dele quando senti sua mão acariciando meus seios por cima do tecido e a outra subindo pela parte interna da minha coxa, até quase chegar à minha intimidade.
Não sei o que o fez parar as carícias, mas, de repente, ele ficou rígido.
– Que barulho foi esse? – ele perguntou com a voz entrecortada.
– Não tem barulho nenhum, Jesse – eu murmurei ondulando mais meu corpo contra o seu. – Não para, por favor.
Mas ele segurou meu quadril com firmeza, me impedindo de me movimentar mais.
– Acho que ouvi o barulho de um carro.
Eu parei para tentar ouvir algo e ele tinha razão. O carro de Andy tinha acabado de parar na entrada de carros e eu já ouvia o barulho das portas batendo.
– Droga! – pulei do colo de Jesse e tentei ao máximo melhorar a minha aparência, passando as mãos pelo tecido do vestido para tentar desamassá-lo e arrumar meus cabelos que estavam desgrenhados.
Jesse também se levantou, arrumou os cabelos que eu tinha assanhado, colocou as mãos nos bolsos da calça para tentar disfarçar o volume concentrado ali e passou a respirar fundo várias vezes.
– Ainda está bastante visível – eu comentei rindo da sua expressão de concentração.
– Isso não ajuda, Suzannah.
Chegamos na sala no mesmo instante que minha mãe passou pela porta da entrada, seguida de David e Andy que vinha carregando uma mala enorme e logo atrás a garota que deveria ser sua sobrinha. Ela era bastante comum, embora não deixasse de ser bonita. Cabelos e olhos castanhos, tipo físico mediano, nem muito baixa, nem muito alta. A altura normal para garotas de catorze anos. Ela olhava ao redor, curiosa, mas parou de avaliar o ambiente quando me viu. Ou melhor, quando viu a pessoa que estava atrás de mim. Seus lábios imediatamente se abriram em um sorriso satisfeito.
– Onde estão todos? – Andy perguntou depositando a mala num canto.
– Jake está lá em cima – eu informei apontando para o primeiro andar. – E Brad saiu.
– Eu pedi para ninguém sair de casa. – Ele meneou a cabeça chateado. – Dave, vá chamar seu irmão. Enquanto isso – Andy continuou depois que David tinha se retirado –, Suze, essa é minha sobrinha Larissa – ele informou apoiando as mãos nos seus ombros.
Eu estendi minha mão para cumprimenta-la e ela retribuiu o gesto, mas ainda sem tirar os olhos de Jesse.
– Esse é Jesse – minha mãe informou quando percebeu a direção do seu olhar.
– Olá – ela o cumprimentou animadamente estendendo uma mão para ele. – Larissa Lannes – ela se apresentou mais formalmente. Grande coisa! – Primo também?
Seus olhos brilhavam de expectativa e eu tive que me controlar para não pular naquele pescoço.
– Bem, quase. Ele é...
– Meu namorado – eu interrompi a minha mãe ao mesmo tempo em que envolvia Jesse pela cintura e o puxava para mim.
Isso mesmo, pode desmanchar esse sorrisinho. Ele é meu!
– Ah. Prazer – ela falou bem menos empolgada agora.
– Igualmente – Jesse retribuiu se esforçando para não rir.
Quando Jake desceu as escadas para cumprimentar a prima, Jesse me puxou para a cozinha com a desculpa de pegar algo para beber.
– Ciumenta – ele me acusou com um sorriso.
– Oras, ela estava se atirando em cima de você descaradamente.
– Precisava ser tão possessiva?
– Estava apenas defendendo o que é meu.
– Eu sou seu.
– É claro que é!
Ele riu ainda mais e me puxou pela cintura, beijando meu rosto e se afastando em seguida.
– Que beijo foi esse? – perguntei indignada.
– Beijo comportado.
– Eu não quero beijo comportado. Quero beijo na boca.
Ele voltou para perto de mim, beijou meus lábios rapidamente e tornou a se afastar, mas eu o segurei pela camisa, trazendo-o para mim pela nuca e beijando seus lábios com paixão.
– Agora melhorou. – Eu me afastei sorrindo e abri a geladeira para pegar algumas latas de refrigerante.
– Você é má.
– Só estou fazendo uso do que me pertence.
– Eu serei usado agora?
– Sempre que eu quiser. – Eu me voltei para ele com as latas na mão. – Você não se incomoda se eu te usar desse jeito, não é?
Ele andou devagar até mim com um sorriso perverso no rosto.
– Pode me usar à vontade – ele sussurrou deslizando as costas da sua mão pelo meu rosto, descendo pelo pescoço, continuando pelo ombro até a lateral do meu corpo, roçando de leve num seio.
Ainda bem que ele tinha ótimos reflexos, porque naquele momento eu soltei todas as latas e refrigerante e elas teriam ido parar no chão se ele não tivesse sido rápido o suficiente.
– Você é mau – eu murmurei quando ele apoiou as latas na bancada sorrindo ainda mais.
– Só estou fazendo uso do que me pertence.
– Chato.
– Eu tenho certeza que você não me acha chato.
– É, não acho mesmo – eu me aproximei dele, me erguendo na ponta dos pés para poder sussurrar no seu ouvido. – Te acho muito gostoso.
Ele me encarou com os olhos arregalados e eu saí correndo antes que ele falasse ou fizesse alguma coisa.
Ok. Eu não costumava falar esse tipo de coisa, mas era exatamente o que eu achava dele.
Andy preparou um dos seus almoços especiais para a chegada de Larissa e ela pareceu desencanar de secar meu namorado quando viu o quanto éramos apegados.
Brad chegou a tempo para o almoço e se safou de levar uma bronca maior do pai por ter trazido um presente para a prima. Não era bem um presente, mas ela pareceu ter gostado. Se tratava de um vale para ter aulas de surfe onde ele seria o professor. Eu percebi que ele estava escondendo alguma coisa às costas e eu consegui visualizar uma filmadora pequena. O que Brad estava fazendo com aquilo? Preferi nem perguntar. Só esperava que não fosse nada relacionado à Thais.
Gina chegou no meio da tarde e acabou levando Jake com ela depois do sagrado jantar em família.
Eu fui levar Jesse no carro e aproveitei para namorar um pouco já que isso tinha sido impossível durante todo o dia. Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, Jesse me puxou para a lateral do carro onde ninguém poderia ver o que estávamos fazendo e me imprensou contra seu corpo.
– Tú es que es sabrosa – ele sussurrou contra meu pescoço, mordendo e chupando a pele com volúpia. Sua mão deslizou pela minha coxa e a puxou para o seu quadril pressionando seu membro contra o meu sexo e arqueando seu corpo contra o meu.
Ok. Eu não fazia ideia do que ele tinha falado. Queria muito perguntar, mas não conseguia encontrar fôlego para fazer isso.
Ele continuou murmurando palavras em espanhol e eu me esforçava para entender alguma coisa, mas era difícil com sua mão percorrendo meu corpo, acariciando meus seios e, ainda por cima, sentindo aquele volume mais abaixo.
– Fala... em inglês – eu pedi num gemido, ondulando meu corpo contra o seu.
Mas ele não me atendeu. Ele mordia o lóbulo da minha orelha, falando em espanhol palavras que deveriam me estimular, mas que estavam me deixando frustrada. Resolvi fazê-lo provar do próprio veneno.
– Je vous souhaite à la fois. – É, eu falava um pouquinho de francês. E pareceu dar certo.
– O que você disse? – ele perguntou se afastando um pouco para me encarar com os olhos brilhantes de prazer.
– Primeiro você.
Ele continuou me encarando por alguns segundos, mas acabou se rendendo. Voltou a pressionar seu corpo contra o meu, seus lábios novamente no meu pescoço.
– Você é que é gostosa – ele murmurou dessa vez em um inglês perfeito. – Quente, macia, sensual. – Ele pontuava cada palavra com um beijo em uma parte diferente do meu pescoço, ora mordendo, ora lambendo. – Eu passei o dia todo querendo fazer isso com você. Quero te beijar – sua mão deslizou por baixo do meu vestido tocando na minha intimidade – aqui – ele completou pressionando a região úmida.
Meu corpo amoleceu por inteiro e eu teria ido ao chão se ele não tivesse me segurado pela cintura.
– Agora é a sua vez – ele sussurrou contra o meu ouvido.
Minha vez? Do que ele estava falando? Minha vez de quê? De deixar ele insano de tanto prazer?
– Eu te desejo demais – eu falei, lembrando da nossa pequena brincadeira.
– Não mais do que eu te desejo. – Sua mão deslizou para dentro da minha calcinha e passou a descrever movimentos circulares, pressionando o clitóris da forma que ele sabia que me dava mais prazer.
– Me beija – eu implorei quando senti os gemidos começando a surgir na minha garganta.
– Com prazer, mi hermosa. – Mas, ao invés de beijar meus lábios, ele desceu seu corpo até que seu rosto ficou na altura do meu quadril.
Me assustei quando ele começou a retirar minha calcinha lentamente.
– Jesse – eu sussurrei aflita olhando para os lados –, o que você está fazendo?
Ele ergueu o rosto sem parar o movimento.
– Eu te disse que queria te beijar aqui – ele falou com um sorriso perfeito nos lábios. – Você não quer?
Que pergunta idiota. É claro que eu quero. E não havia ninguém à vista mesmo. Ora! Que se dane.
Levantei a perna para ajuda-lo a terminar de tirar a peça e ele a guardou no bolso da calça. Hein? Ele ergueu um pouco meu vestido até a minha cintura e eu o segurei ali. Sua mão ergueu uma perna minha novamente e a apoiou no seu ombro. Quando seus lábios me tocaram finalmente, eu precisei tampar minha boca para não gritar. Ele movimentava dentro de mim com maestria, me fazendo arquear contra seu rosto. Sua língua se movia cada vez mais rápido e ele deslizou dois dedos para dentro de mim, me levando à loucura.
Eu sentia os espasmos percorrendo meu corpo e eu sabia que ele também percebia o meu estado porque intensificou os movimentos me fazendo chegar ao orgasmo em seguida. Eu me segurei no carro para não desabar enquanto ele continuava com a língua no meu sexo, limpando o líquido que escorria.
Ele se ergueu devagar com um sorriso satisfeito no rosto e me puxou para os seus braços.
– Um a zero para você – eu murmurei me aninhando em seus braços.
– Na verdade, é um a zero para você.
– Eu não gosto disso – eu resmunguei mais para mim mesma.
– De sentir prazer? – ele me perguntou confuso.
– De não te dar prazer.
– Você acha que eu não sinto prazer em te dar prazer?
– Mas você não chega ao fim.
– Você quer que eu chegue ao fim? – ele perguntou roçando seu corpo contra o meu.
Jesse continuava excitado e eu queria muito saciar seu desejo.
– Alguém está bem assanhado hoje – eu ri, apreciando a carícia das suas mãos às minhas costas.
– Você me provocou.
– Vou te provocar mais vezes daqui para frente. – Se cada vez que eu o provocasse ele fizesse isso eu estava feita. – O que me lembra uma coisa...
– O quê?
Mas ao invés de responder, eu inverti a posição imprensando-o contra a lateral do carro. Me ergui na ponta nos pés até que meus lábios encostassem no seu pescoço, mas não para beijar. Eu me posicionei direitinho e mordi seu pescoço de leve, mas fui aumentando a pressão dos meus dentes aos poucos. Ele me puxou com força pela cintura, colando nossos corpos e suas mãos deslizaram até as minhas nádegas, me erguendo mais.
– Consegui confirmar minha teoria – eu murmurei me afastando um pouco.
– Teoria? – ele perguntou arfando.
– A dor te deixa excitado – eu respondi com um sorriso triunfante no rosto.
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