CAPÍTULO 22 – POV JESSE

Eu precisei morrer para ser feliz. E eu não me importaria de morrer novamente se precisasse. Ela tinha sido a melhor coisa que já me acontecera. Quando eu estava com ela era como se eu estivesse vivo novamente e eu quase conseguia sentir meu coração batendo. Ela me deixava sem fôlego mesmo sem eu precisar respirar.

Eu nunca tinha ficado tão nervoso quanto naquele momento em que descemos as escadas juntos na noite da véspera de Natal, e isso porque eu tinha mais de cento e cinquenta anos. Mas eu estava me sentindo como um daqueles jovens que ia conhecer a família da moça pela primeira vez. E eu já conhecia toda sua família. Informalmente, mas conhecia.

Será que ela percebeu o quanto minhas mãos às suas costas estavam tremendo? Se notou, ela não falou nada.

Mesmo ninguém naquela sala podendo me ver – sem contar Gina e Stephanie – eu me comportei como se eles pudessem. Com exceção do momento em que seu irmão, Brad, me atravessou. Não é muito agradável quando algo sólido nos atravessa, mas o sorriso que ela deu naquele momento e o som hipnotizante do seu riso me levaram a repetir aquilo, dessa vez de propósito.

Brad não ficou nada feliz quando o líquido do seu copo – que deveria ser apenas um refrigerante, mas, estranhamente, cheirava a álcool – derramou por cima da sua roupa. Eu me senti um pouco culpado na hora, mas foi só ouvir o som da sua risada para o sentimento de culpa esvair por completo.

Mas depois disso eu me comportei de verdade. Fiquei próximo à lareira que nunca era usada, conversando com Stephanie sobre nossas experiências pós-morte. Ela não tinha tanto poder quanto eu já que tinha morrido há menos tempo, mas já tinha muita história para contar. Era fácil conversar com ela e eu quase esquecia que éramos dois fantasmas passando o Natal na casa da minha namorada.

Era Ano Novo. Estávamos comemorando na praia e todos riam e conversavam ao mesmo tempo. E, mais uma vez, eu me sentia vivo só por estar perto dela. E isso porque ela nem estava ao meu lado. Gina e Cee Cee tinha chamado-a para uma conversa “só para garotas” como Gina falara e eu estava apenas andando sem rumo entre os convidados da festa, tomando cuidado para não atravessar ninguém por acidente.

Já passava da meia noite quando eu entreouvi uma conversa da mãe de Suzannah com a mãe de Cee Cee.

– É incrível como o tempo passa rápido – ela dizia animada. – Até pouco tempo atrás Suzinha era apenas um bebezinho que me seguia para todos os lados e agora já é quase uma mulher.

– Eu me sinto da mesma forma. Quando Cee Cee chegou em casa um dia dizendo que estava namorando eu quase tive um treco. Ainda bem que é com Adam. Eles são amigos desde pequenos e Adam é um menino de ouro.

– Eu fico pensando quando Suzinha começar a namorar. É claro que eu não vou me opor, mas será muito estranho.

– E pensar que daqui a alguns anos elas vão estar casadas.

– Nossa! Vamos com calma. Minha Suzannah ainda tem dezesseis anos – ela exclamou assustada. – Se bem que daqui a alguns dias ela fará dezessete.

– O tempo voa.

– Mas não tão rápido assim.

– Eu duvido que você não sonhe em carregar seu netinho nos braços um dia.

As duas se olharam cúmplices e sorriram.

Aquilo era o suficiente para mim. Não queria mais ouvir. Eu procurei por Suzannah e fui até onde ela estava. Adam já tinha se juntado ao grupo, então o momento “só para garotas” já tinha acabado.

Passei um braço em torno da sua cintura sentindo aquela mesma corrente elétrica que eu sempre sentia quando a tocava. E o tremor que percorreu o corpo dela era um claro sinal que ela sentia o mesmo que eu.

Mas, por mais que eu me esforçasse para me concentrar naquela conversa, eu não conseguia esquecer as palavras da mãe de Suzannah e Cee Cee. “Casamento e família”. Isso era o que toda mãe queria para os seus filhos. Isso era o que toda mulher queria para si. Por que com Suzannah isso seria diferente? Eu sabia que não era.

Eu fiquei contemplando o mar enquanto pensava sobre tudo aquilo. Eu tentava esquecer, tentava ignorar, mas foi impossível fazer isso quando a mãe de Suzannah falou para quem quisesse ouvir:

– Minha Suzinha está crescendo tão rápido. – E começou a falar sobre o aniversário dela.

Depois disso eu não aguentei mais e me afastei um pouco de todos, indo em direção às rochas. Fiquei lá de pé, voltando a observar o movimento das ondas.

Suzannah não é assim – eu dizia para mim mesmo – ela escolheu ficar ao meu lado sabendo que nada disso seria possível.

Eu nunca poderia ser apresentado à família dela e ela nunca poderia engravidar de mim. Ela sabia que essas coisas eram impossíveis de acontecer e, ainda assim, ela me escolheu. É a mim que ela ama, independente das limitações.

Eu a ouvi se aproximando e tentei mudar a minha expressão que não deveria estar muito boa.

– Por que você veio para cá? – ela perguntou parando ao meu lado.

– Eu pensei ter visto um fantasma perto das rochas.

Eu não me sentia bem em mentir para ela, mas eu não poderia dizer o que ia na minha mente quando nem eu sabia exatamente o que era. Eu estava confuso e precisava de tempo para pensar. Por mim, eu ficaria pensando para sempre e nunca me afastaria dela, mas será que Suzannah merecia isso? Será que ela merecia viver essa vida incompleta que eu poderia oferecer?

Então eu me dei um prazo para decidir; eu teria até o dia 13 de janeiro – o dia do aniversário de Suzannah – para resolver isso de uma vez por todas. Depois desse dia eu não poderia mais mudar a minha escolha. Se eu decidisse que era melhor ficar ao lado dela, eu nunca mais pensaria nisso novamente. Nós ficaríamos juntos para sempre, independente das dificuldades.

Mas se eu decidisse que o melhor para Suzannah era que eu me afastasse e a deixasse ter um futuro normal, era o que eu faria. Não sei como, mas eu faria.

Para meu desespero, os dias estavam passando muito rápido e eu ainda não tomara minha decisão. Cada vez que alguém trazia à tona o assunto do aniversário de Suzannah eu tinha certeza que o melhor a fazer era deixa-la para que ela pudesse ter uma vida completa onde ela pudesse casar, ter filhos. Mas só de imaginá-la ao lado de outro homem, eu sentia vontade de matar esse homem que sequer existia. Eu não conseguia pensar nela abraçando, beijando, ou fazendo outras coisas que eu preferia nem pensar, com outra pessoa que não fosse eu. Mas também não podia negá-la o direito de ter o que toda mulher deseja. Ela poderia até dizer que não tinha vontade de ser mãe, mas eu sabia que isso mudaria em alguns anos.

Sem querer eu me peguei imaginando como seria um filho nosso. Será que ele ou ela teria os mesmos olhos incrivelmente verdes dela? Ou seu sorriso perfeito e sincero? Será que ele ou ela teria aquela mesma fascinante expressão que ela fazia quando estava irritada com algo? Aquela expressão que só me dava mais vontade de beijá-la?

Mas ela ainda poderia ter um filho assim. Tudo que eu precisava fazer era deixa-la livre.

Mas então havia aqueles momentos em que ficávamos sozinhos, quando eu sentia seu amor, o calor do seu corpo, e o assunto do aniversário nunca era mencionado e eu via que era burrice minha ficar pensando tudo aquilo. Como eu poderia sequer cogitar na possibilidade de deixa-la? Era por ela que eu continuava aqui nesse mundo. Sem ela eu não seria nada. E eu via o quanto ela ficava radiante quando estava comigo. Ela precisava de mim tanto quanto eu precisava dela.

Então, para não me deixar influenciar por nada, eu precisava me afastar um pouco. Enquanto Suzannah estava ocupada com alguma coisa, eu saía para pensar. Às vezes ia para um lugar onde os fantasmas costumam ficar quando não estão no mundo dos vivos. Mas quando aquele local ficava muito tumultuado eu procurava um local mais calmo no mundo dos vivos.

Faltavam apenas dois dias para o grande dia e eu já estava começando a ficar preocupado. Ainda não tomara minha decisão e não conseguia mais agir naturalmente. Suzannah estava desconfiada do meu comportamento estranho e eu tenho certeza que ela não acreditava em nenhuma das desculpas que eu dava para justificar as minhas ausências e minha constante distração, mas ela não fazia mais perguntas.

E ainda havia o problema do aniversário em si. Independente da minha decisão, aquela ainda era uma data especial. Se eu decidisse ficar ao lado dela para sempre esse dia seria como uma comemoração. Um marco definitivo do início de nossa vida juntos. Mas, caso essa não fosse a minha escolha... Bem, esse seria o nosso último dia juntos. Uma despedida.

– Buuu!

– Oi, Stephanie – eu falei sem me virar.

– Ai, como você é sem graça – ela reclamou sentando ao meu lado. – Nem para fingir que se assustou.

– Onde já se viu um fantasma tentar assustar outro? Só podia ser você.

– Estou entediada – ela murmurou apoiando o queixo nos joelhos. – O que você está fazendo aqui?

Nós estávamos sentados nas rochas que ficavam na área mais afastada da parte movimentada da praia.

– Pensando – respondi sem tirar os olhos do mar. Olhar o movimento das ondas sempre me acalmava.

– Bem que eu estava sentindo cheiro de queimado.

– Como? – Eu a encarei sem entender. Às vezes Stephanie falava coisas completamente sem sentido.

– Pensar demais pode provocar um curto-circuito daqueles.

Eu esperei que ela continuasse, mas aquela parecia ser sua explicação.

– Sabe que eu não faço ideia do que você está falando.

– Deixa para lá – ela falou rindo. De mim. – Então, no que você estava pensando?

– Algumas coisas – falei, vago. Mas então eu tive uma ideia. – O aniversário de Suzannah é daqui a dois dias.

– É. Eu fiquei sabendo.

– Eu quero preparar uma coisa especial para ela, mas preciso de ajuda.

– Pode contar comigo! – ela exclamou já ficando de pé, empolgada.

O lugar que eu escolhi era um dos meus favoritos para ficar quando não estava na casa de Suzannah. Na época em que eu era vivo, aquele penhasco ficava no caminho para chegar à cidade e eu sempre parava ali para olhar o mar antes de concluir a viagem, ou quando ia inicia-la na volta para casa. Aquela árvore – um junípero espanhol – já estava ali naquela época embora fosse bem menor. E eu costumava sentar à sua sombra e ficar lá apenas ouvindo o som das ondas batendo nas rochas logo abaixo. Eu tinha ótimas recordações daquele lugar.

E então era dia 13. Tudo já estava pronto – com muita ajuda de Stephanie – e só faltava trazê-la. Eu tinha avisado que tinha uma surpresa para ela fora de casa e ela disse que daria um jeito de sair por algumas horas naquele dia. Eu estava nervoso como nunca e ainda não tinha conseguido me resolver.

Antes de aparecer no seu quarto eu verifiquei se ela estava sozinha. Ela estava com a mãe. Eu fiz isso sem que Suzannah percebesse minha presença de um lugar onde eu poderia ver sem ser visto – o lugar não era necessariamente no mundo dos vivos. Era como se eu não estivesse em lugar nenhum – Eu não costumava fazer isso com muita frequência porque era como violar a privacidade das pessoas, e eu já estava de saída quando algumas palavras da mãe de Suzannah me chamaram atenção.

– Minha pequena está se tornando mulher – ela dizia enquanto acariciava os cabelos da filha com um olhar maternal.

– Menos mãe! – Suzannah respondeu tentando se esquivar.

– É sério, Suzinha – ela a deteve pelos ombros e a olhou, séria. – Você está iniciando sua jornada para se tornar mulher. É quando começa as emoções das primeiras realizações. O primeiro beijo, o primeiro amor, A primeira desilusão amorosa...

– Sério, mãe, sem papo piegas agora – Suzannah a interrompeu. – Eu tenho que sair.

E mais uma vez sua mãe a impediu.

– São etapas da vida de toda mulher, minha filha. Daqui a alguns anos você vai sair de casa e depois vai se casar com um homem maravilhoso e terá muitos filhos e...

– Ok, mãe. A gente poderia ter essa conversinha sobre o meu “futuro” – ela fez as aspas no ar quando falou essa palavra – em outro momento?

– Tudo bem. – Mas ainda não a soltou. – Só uma coisinha antes: eu tive um sonho há alguns dias e você estava com um bebê no colo...

– Mãe... – Suzannah a olhou impaciente.

– Calma, foi só um sonho – ela a interrompeu. – Mas teve uma coisa que me emocionou demais sabe... Ele se chamava Peter.

Era o nome do pai de Suzannah. Eu percebi que ela ficou abalada com essa revelação e eu também fiquei.

– Era só isso meu amor. Vou sair agora para que você possa terminar de se arrumar.

Suzannah continuou parada no meio do quarto depois que sua mãe saiu e foi então que eu tomei a minha decisão. Ela merecia isso. Ela merecia ter a oportunidade de segurar um filho nos braços, de poder colocar o nome do seu pai nele. Ela merecia ser feliz da forma mais plena que uma mulher poderia ser. Eu queria que tudo isso fosse ao meu lado, mas isso não era possível então eu a deixaria seguir a própria vida. Sem mim. Sem nenhum fantasma que a fizesse desistir de tudo aquilo. Eu sei que iria machuca-la, mas eu seria firme. Eu tinha tomado minha decisão e não voltaria mais atrás.

Eu não consegui aparecer no quarto dela de imediato. Me afastei novamente para digerir tudo aquilo. Hoje seria o último dia que nós ficaríamos juntos e eu precisava fazer com que tudo fosse perfeito. Eu não poderia deixar que ela percebesse nada do que eu iria fazer porque eu queria ver o sorriso no seu rosto para poder me lembrar dele para sempre.

Apenas quando eu me senti em condições de controlar minhas emoções, eu apareci no seu quarto, dessa vez deixando que ela me visse.

– Pensei que tinha me esquecido – ela exclamou assim que eu apareci.

– Nunca.

Eu a levei até o lugar em que tinha preparado a surpresa e aproveitei o caminho em que ela estava com as vendas nos olhos para tentar me recompor um pouco mais. Mas depois que eu vi o seu sorriso ao se deparar com a minha surpresa, tudo ficou mais fácil. Eu acabei sendo contagiado pela sua alegria e não tive como não me divertir também.

Eu estava tentando criar coragem para falar, mas não conseguia. Nós ficamos sentados abraçados – eu encostado à árvore e ela ao meu peito – e eu podia sentir o calor que emanava do seu corpo, mesmo através das roupas, enquanto eu a acariciava nos braços. Eu ainda não me sentia pronto, mas precisava fazer logo.

– Eu te amo muito, Suzannah – comecei, fazendo esforço para minha voz soar firme. – Nunca esqueça isso.

– Impossível esquecer – ela respondeu voltando um pouco seu rosto para mim. – Eu também te amo.

Dios. Eu não posso fazer isso. Eu não posso me afastar dela. Involuntariamente eu a apertei entre os meus braços como se quisesse impedi-la de fugir. Senti um tremor percorrendo meu corpo. Estava com medo. Medo de perde-la para sempre.

– Não importa o que aconteça – continuei mantendo a voz calma –, eu vou te amar para sempre.

Um brilho estranho passou pelos seus olhos verdes. Como se ela temesse algo. E eu não aguentei encará-la.

– Está tudo bem? – ela perguntou com a voz fraca.

Eu continuei olhando para o nada sem querer ver aquele brilho novamente.

– Claro. Eu só queria te dizer isso. Para você nunca esquecer o que eu sinto por você.

– Eu nunca vou esquecer porque você sempre estará comigo para lembrar.

Um novo tremor percorreu meu corpo e dessa vez ela percebeu. Eu não podia fazer isso agora. Não ali.

– É melhor nós voltarmos antes que sua mãe fique preocupada.

Mas ela me impediu de levantar, alegando que tinha combinado com a mãe de voltar antes do anoitecer. Eu sei que era errado o que eu estava fazendo, mas eu não consegui conter o impulso de tocá-la, de sentir seu corpo correspondendo ao meu toque pela última vez.

Afastei seus cabelos do ombro para beijar aquela pele quente e macia. Devagar, eu virei seu corpo até que ela ficasse de frente para mim e suas pernas ficaram em cada lado do meu corpo. Então eu beijei aqueles lábios cálidos gentilmente e ao mesmo tempo com paixão. Ela envolveu seus braços delicados no meu pescoço e seu corpo se ajustou com perfeição ao meu.

Eu a afastei um pouco para que pudesse olhar nos seus olhos.

– Você é tão doce. – Minha voz saiu rouca do desejo que já me dominava. Eu precisava dela. Eu precisava senti-la por inteiro. – Eu te quero tanto.

– Você já me tem – ela sussurrou beijando meus dedos que percorriam seus lábios e seu rosto.

Ela relaxou nos meus braços, pousando a cabeça no meu peito e eu podia sentir os batimentos do seu coração contra a minha pele. Tão viva. Tão minha. Ela era minha. E eu estava abrindo mão daquilo que me era mais precioso. Eu a abracei de volta tentando impregnar seu calor em mim e minhas mãos passaram a percorrer cada parte do seu corpo como se tentasse memoriza-lo.

Aquela mesma corrente elétrica voltou com força redobrada para os dois e ela arqueou seu corpo contra o meu. Era impossível conter a luxúria que me dominava. Quando ela sussurrou meu nome com a voz carregada de desejo, eu não consegui me conter mais e a beijei desesperado por sentir seu gosto.

Eu não queria fazer amor com ela pela última vez em um lugar exposto como aquele, mas depois que ela insistiu, eu vi que não teria volta. Seria a nossa última vez e seria como ela quisesse. Ela ditaria as regras dessa vez.

Ela adormeceu nos meus braços e eu continuei abraçando–a sabendo que seria a última vez que sentiria seu calor em contato com o meu corpo frio. Com cuidado para não acordá-la, eu me afastei do seu corpo e fiquei contemplando suas curvas, memorizando cada detalhe. Eu sentia a dor me oprimindo e o medo de perde-la me dominou mais uma vez.

Cobri seu corpo com a toalha para que ela não ficasse com frio e vesti minhas roupas que estavam jogadas pela grama. Juntei as suas e as dobrei colocando–as perto dela. Então voltei a sentar embaixo da árvore e fiquei observando–a enquanto ela dormia tranquila. Era um anjo em forma de mulher. Depois de alguns minutos ela despertou e me olhou com os olhos sonolentos.

– Um dólar pelo seu pensamento – ela falou com a voz estranha.

E eu vi aquele mesmo olhar temeroso cobrindo o brilho dos seus olhos. Ela sentia o que estava por vir.

Eu precisava fazer isso. Era agora ou nunca.

– Eu estava pensando em como você é perfeita. – Eu a amava mais do que tudo e não queria ficar longe dela, mas eu precisava. – Em como eu tive sorte de te conhecer. E como você me completou com seu amor. E ainda mais sorte por você me amar sendo quem eu sou.

– Sendo esse homem maravilhoso que você é – ela falou com a voz trêmula.

– Sendo apenas um fantasma – eu a corrigi.

Ela se envolveu na toalha cobrindo seu corpo perfeito e se aproximou de mim colocando meu rosto entre suas mãos quentes pequenas.

– Você nunca foi um fantasma para mim, Jesse.

– Eu sempre serei um fantasma, Suzannah – a atitude dela não estava me ajudando em nada. Com relutância eu me afastei indo até a beira do penhasco para só então me voltar para encará-la. – Ao contrário de você. Você é jovem, Suzannah, e tem toda uma vida pela frente.

– Jesse – ela me interrompeu e voltou a se aproximar de mim –, nós já tivemos essa conversa antes.

– Eu sei – eu falei mantendo a minha voz firme –, mas então eu percebi o quanto estava sendo egoísta de impedir você de ter uma vida normal.

– Eu já te disse que minha vida é com você! – ela falou com a voz soando fraca novamente.

– Você não pode ter uma vida ao lado de uma pessoa que está morta. Eu não posso permitir que você desista de tanto por mim.

– Eu não me importo...

Eu via seu corpo tremendo e sentia vontade de abraça-la e lhe dizer que estava tudo bem.

– Mas eu sim. – Eu não poderia falar aquelas coisas naquele lugar. Era perigoso e aquele deveria ser um lugar para trazer boas recordações. Eu fui até onde estavam suas roupas e a entreguei – Vamos. Depois terminamos essa conversa.

– Não! – ela gritou e jogou a roupa no chão. – Vamos conversar agora!

Eu a estava magoando e sofria com isso.

– Daqui a pouco vai anoitecer e sua mãe ficará preocupada.

– Eu não me importo.

Mais uma vez eu tive que controlar o impulso de abraça-la. Voltei a pegar as peças e as coloquei em seus braços.

Agradeci mentalmente quando ela começou a se vestir e peguei a toalha que estava no chão.

– Vamos – falei sem demonstrar emoção.

– Por que você está fazendo isso, Jesse? – ela perguntou durante o caminho de volta.

– Em casa nós conversamos. – Eu não poderia deixa-la no meio do caminho. Tinha que leva-la até perto de casa onde ela estaria segura.

Quando chegamos, eu precisei respirar fundo para criar coragem.

– Suzannah – eu comecei usando todo o controle que eu adquiri em todos esses anos para manter minha voz firme. Mas eu não consegui olhar nos seus olhos e ver a dor que eu estava lhe causando.

– Jesse, por favor, não faz isso.

– Eu preciso...

– Não precisa, não! – ela gritou e se aproximou estendendo a mão para me tocar, mas eu recuei alguns passos evitando o contato. Eu sabia que só pioraria a situação.

– Eu sei que nós já falamos sobre isso antes, Suzannah, mas agora é sério. – Eu a encarei finalmente quando me senti seguro para não deixar transparecer o quanto aquilo estava doendo em mim também.

– Você está terminando comigo? – ela perguntou num fio de voz.

Eu não posso fazer isso! Eu não consigo. Dios mio, o que estou fazendo? Eu amo essa mulher. Eu não posso deixa-la.

Eu precisei recorrer às lembranças que me fizeram tomar essa decisão para conseguir prosseguir. Imediatamente a voz da mãe de Suzannah veio à minha mente: “eu tive um sonho há alguns dias e você estava com um bebê no colo”. Era disso que eu precisava. Uma dose de realidade. Respirei fundo antes de falar, controlando o tom da minha voz mais uma vez.

– Estou.

Eu nunca tinha precisado usar tanto do meu autocontrole quanto naquele momento quando ela desabou em lágrimas na minha frente. Ela gritava comigo sem deixar que eu conseguisse concluir nenhuma frase e eu acabei gritando de volta. Era mais fácil discutir aos berros do que ouvir a sua voz doce e torturada que ela usou para me desarmar. Não que tenha sido proposital, mas me desarmou.

– Eu te amo – ela me interrompeu num sussurro. – Eu sei que você me ama também – ela continuou. – E não importa o que você diga ou faça eu nunca serei capaz de viver sem você!

Sua voz era firme e aquilo era muito, muito pior do que seus gritos. Eu não conseguia mais racionar, todo meu controle indo embora. Eu esqueci tudo que eu precisava falar e balbuciei algumas palavras desconexas que eu sequer consegui entender. Mas ela entendeu.

– Pode se passar semanas, meses, anos – ela falou –, eu nunca, nunca vou conseguir viver sem você. Eu posso até existir, mas eu não estarei mais viva.

Dios. Não existiam palavras, gestos ou mesmo pensamentos que poderiam expressar a dor que eu estava sentindo.

– Hermosa... – eu sussurrei querendo desistir de tudo aquilo.

Mas então ela voltou a gritar comigo e, para meu espanto, ela começou a me bater. Sempre que eu tentava me proteger do seu ataque ela mudava o local dos socos. Eu segurei seus pulsos, mas ela continuou se debatendo nos meus braços e eu tinha medo que ela se machucasse. A sua força não era nada se comparada a minha. Não que eu estivesse usando força suficiente para machuca-la, mas poderia fazer isso sem querer. Por mais que eu pedisse que ela parasse com aquilo, ela parecia não me ouvir.

– Mas que droga, Suzannah! – eu exclamei irritado quase perdendo o controle novamente. Já podia ouvir um leve som de galhos se rachando a nossa volta. Eu tinha que descontar meu descontrole em alguma coisa ou acabaria machucando-a. Então, sem querer eu deixei as palavras escaparem da minha boca. – Eu te amo.

Quando seu corpo caiu sem forças aos meus pés eu não resisti mais e a envolvi nos meus braços, abraçando-a finalmente. Mas ela não correspondeu. Parecia não ter mais forças.

– Eu sempre vou te amar – eu falei não me importando de que aquilo pudesse piorar as coisas. Era apenas algo que eu precisava falar. – Não importa quanto tempo passe, eu nunca vou deixar de te amar. E eu sei que você também vai continuar sentindo o mesmo por mim, mas você tem que seguir com a sua vida. Você precisa fazer isso. Você tem sua família que te ama e que vai estar sempre do seu lado. E você tem Gina também que te ama como a uma irmã. – Eu tomei seu rosto entre minhas mãos para poder olhar nos seus olhos mais uma vez. – Eu não vou te pedir para deixar de me amar porque eu sei isso seria impossível. Mas você tem um coração enorme, Suzannah, e você pode amar de novo. Então tudo o que eu te peço é para você seguir a sua vida e ser feliz. Eu quero que você se permita a ser feliz e amar novamente. E eu quero que você me prometa que vai fazer isso.

Ela simplesmente ergueu suas mãos delicadas até a minha nuca e me beijou. E eu correspondi. Um último beijo, eu disse para mim mesmo. Nosso último beijo. Mas não era assim tão simples. Não era qualquer beijo. Era o beijo dela; eram os lábios dela que estavam pressionados aos meus e naquele momento eu tive certeza que estava fazendo a maior idiotice de toda a minha existência. Eu estava deixando a mulher da minha vida para sempre. O meu único e verdadeiro amor.

Antes que eu fizesse alguma estupidez como pedir para ela esquecer tudo aquilo que eu falara, eu a afastei delicadamente pelos ombros.

– Não torne tudo mais difícil. – Eu quase não reconheci a minha própria voz. Era como se um doente terminal estivesse falando. Mas era como eu me sentia. Como se estivesse morrendo de novo.

– Difícil para quem, Jesse? Por que você não parece estar encontrando nenhuma dificuldade para me falar tudo isso.

Mas do que ela estava falando? Ela achava mesmo que aquilo estava sendo fácil? Ela achava que eu não me importava?

– Você não faz ideia do quanto está doendo em mim ter que falar essas coisas para você, mas...

– Então por que, Jesse? – ela gritou mais uma vez. – Se está te machucando tanto quanto está doendo em mim, por que você está fazendo isso?

– Porque é o certo. – E eu a encarei sem me preocupar em esconder a dor que eu estava sentindo. – Eu nunca devia ter deixado essa relação chegar a esse ponto. Eu ficava me enganando dizendo que não havia problema nenhum em estarmos juntos, que o nosso amor seria suficiente para superar todos os desafios, mas eu tinha sido egoísta a ponto de não perceber que era você que estava fazendo o maior sacrifício abrindo mão da sua vida para ficar comigo. Mas agora eu não vou mais permitir isso. – Era agora. – Eu vou embora, Suzannah...

– Não – gritou e se atirou nos meus braços.

Hermosa, eu te amo demais – era isso que eu queria dizer, mas eu apenas a afastei mais uma vez. Então eu me levantei e me afastei dela. A cada passo que eu dava para longe era como se uma faca atravessasse meu peito.

– Volte para casa, Suzannah. – Já era noite e poderia ser perigoso. – Sua mãe já deve estar te procurando.

– Jesse não vá... – ela implorou estendendo a mão como se quisesse me tocar.

Eu fiquei olhando para sua mão estendida e reuni todo o controle que me restava para não voltar e pegar sua mão na minha. Então olhei naqueles olhos verdes pela última vez.

– Adeus, hermosa – murmurei. – Seja feliz. É tudo que eu te peço. Seja feliz por mim. – E fui embora, deixando-a lá sozinha.

Eu saí de lá me sentindo a ponto de explodir. Eu comecei a mudar de lugar para lugar com uma velocidade que eu usava quando queria ficar cansado – passei por praias, montanhas, fazendas, desertos, florestas –, mas aquilo ainda não era o suficiente. Então eu parei em um lugar que me pareceu seguro o suficiente – era uma floresta de mata muito densa e grandes árvores. Eu nunca tinha feito o que eu estava fazendo agora, ao menos não naquela intensidade. Essa foi a primeira vez que eu deixei a fúria me dominar por completo. Mas eu sabia que só aquilo poderia aliviar o que eu sentia.

Em questão de segundos os galhos mais fracos das árvores já estavam voando a minha volta, hora se chocando nos troncos e se espatifando em seguida, hora me atravessando e desaparecendo na escuridão atrás de mim. Logo, os galhos maiores começaram a romper também e se juntaram aos menores. O barulho era ensurdecedor.

Enquanto eu fazia isso eu comecei a lembrar dos nossos momentos juntos. Cada pequeno detalhe desde o dia que nos conhecemos até o dia que meu mundo desabou. E eu desabei junto com ele. Caí de joelhos no chão cheio de folhas e galhos secos – assim como eu sabia que ela estava – e foi como se tudo explodisse a minha volta. Eu nunca tinha usado meus poderes até aquele ponto e o que eu vi me deixou espantado. Árvores de menores portes tinham sido arrancadas pela raiz e as maiores estavam rachadas e algumas levemente envergadas. E essas eram poucas. Parecia que um meteoro tinha caído ali e destruído tudo. Mas tinha sido eu. Minha dor causara aquilo.

Então eu ouvi sua voz me chamando, ou melhor, gritando. Era como se ela estivesse ali do meu lado com sua voz melodiosa e eu instintivamente a procurei na escuridão. Mas eu sabia que ela estava à milhas de distância.

Eu queria ir até ela, confortá-la ou ao menos ver se ela estava bem. Eu sabia que ela não estava por que eu não estava, mas eu precisava vê-la. Mas eu sabia que não poderia fazer isso agora. Se eu fosse até lá eu sabia que não seria capaz de me conter vendo-a chorando e sofrendo pelo que eu tinha feito. Eu precisava me controlar novamente – e os galhos que continuavam voando a minha volta, cada vez maiores, mostravam claramente que eu estava longe de recuperar o controle – antes de sequer pensar em chegar perto dela, por que sabia que eu nunca conseguiria me afastar para sempre.

Eu gritava cada vez mais alto para tentar abafar a voz dela dentro da minha mente, mas nada era suficiente. Então, depois do que me pareceu uma eternidade, eu senti meus poderes esgotarem e meu corpo caiu pesadamente no chão. Ela não gritava mais, ou me chamava de forma alguma.

Ela deve ter voltado para casa – eu pensei. – É aniversário dela. Sua família deveria estar esperando por ela. Mas, de alguma forma, eu não imaginava Suzannah em uma festa depois de tudo que aconteceu. E só então eu percebi a idiotice que tinha feito. Ou melhor, a segunda idiotice. Porque a primeira tinha sido deixa-la. Mas o pior é que eu tinha feito isso no dia do seu aniversário. Aquele era para ser um dia feliz e eu tinha destruído tudo. Controlado ou não eu precisava ir até ela agora e ver o tamanho do estrago que eu tinha feito.

Eu sabia que aquela sensação de esgotamento que eu estava sentindo sumiria no momento que eu me transportasse para outro lugar e aquilo não me fazia sentir melhor. Eu queria ficar cansado, dolorido no sentido físico da coisa, porque assim eu não sentiria tanto a dor emocional que eu estava sentindo. Mas era inevitável.

Eu apareci na sua casa da mesma forma que tinha feito aquela manhã, para que ela não pudesse me ver ou sentir minha presença, mas ela não estava na sala onde todos estavam, inclusive Gina. Fui até seu quarto, mas ela também não estava lá. Olhei no relógio digital no criado-mudo ao lado da cama: oito e meia. Já fazia mais de duas horas que o sol tinha se posto e ela ainda não voltara para casa. Não era possível que ela ainda estivesse lá, era?

Mas foi onde eu a encontrei, exatamente na mesma posição que estava quando eu saí. Eu esperei para que a dor me atingisse, mas ela não veio. Tudo que eu senti foi um torpor me dominando que eu nunca tinha sentido antes e que me fez ficar parado ali observando-a chorar com intensidade enquanto seu corpo era sacudido por soluços incontroláveis. Eu não consegui me mover, eu não consegui respirar, eu não consegui fazer o que eu mais queria. Eu queria gritar, eu queria voltar a arrancar árvores e explodir pedras, mas eu não consegui. Pela primeira vez eu me senti morto no sentido mais completo da palavra.

Aos poucos eu fui despertando desse torpor e me lembrei do que tinha ido fazer ali. Precisava dar um jeito de leva-la para casa. A primeira pessoa que me veio à mente foi Gina que estava a apenas alguns metros de distância dentro da casa dela, mas depois eu descartei essa hipótese. Eu não teria coragem de encará-la depois do que tinha feito à sua melhor amiga. Então fui atrás de Stephanie. Eu só tinha ido à sua casa uma vez e fora naquela mesma manhã. Eu a encontrei no quarto de Gina revirando seus CDs displicentemente.

– Eu preciso que você me faça um favor – falei e fiquei surpreso com o tom da minha voz. Estava sereno e baixo.

Ela se voltou para mim depois de guardar os CDs de volta em uma caixa.

– Nossa! – ela exclamou quando se deparou com a minha expressão. – Que cara é essa de quem perdeu um cachorrinho? – eu continuei olhando para ela sem expressão nenhuma no rosto e ela deve ter entendido que algo realmente sério tinha acontecido, pois tirou o tom de zombaria da voz. – Desculpa. Pode pedir.

– Eu preciso que você vá até a sua irmã e diga a ela onde Suzannah está – eu falei no mesmo tom e lhe passei o ponto exato em que ela se encontrava.

– O que aconteceu – ela perguntou preocupada.

– Você vai fazer isso? – perguntei ignorando-a.

– Claro que sim, mas...

– Obrigado – e fui embora.

Eu sei que fui grosso com ela, mas eu não pude evitar. Eu não me sentia em condições para conversar com ninguém no momento. Tudo que eu queria agora era ficar sozinho. Eu queria me certificar de que ela chegaria bem em casa, mas eu sabia que isso era só uma desculpa para poder vê-la de novo. Eu confiava em Stephanie para fazer o que eu pedi. E eu sabia que ela viria atrás de mim assim que descobrisse o que tinha acontecido.

Não deu outra. Eu estava sentado nas rochas da praia novamente e ela me encontrou fácil já que eu tinha ficado muito ali nos últimos dias.

– Seu imbecil, canalha, louco, doente mental! – ela gritava comigo a plenos pulmões assim que apareceu ao meu lado. Suas emoções estavam tão alteradas que fizeram algumas pedras se erguerem e voarem para longe. – Você bebeu gasolina ou algo do tipo? Por que você fez isso, seu mongol?!

Eu deixei que ela continuasse me agredindo verbalmente até que a sua cota de insultos acabaram e ela sentou ao meu lado me olhando com atenção.

– Você está bem? – ela perguntou num fio de voz. Eu não respondi. Não precisava. – Desculpa. Que pergunta idiota. É claro que você não está.

Continuamos em silêncio por alguns minutos observando a lua que estava cheia essa noite.

– Ela está arrasada – ela falou no mesmo tom ainda olhando para o céu.

– Eu sei.

– Por que você fez isso, Jesse? – ela perguntou com o cenho franzido, girando um pouco o corpo para me olhar.

– Ela precisa ter a vida dela. – Minha voz continuava sem emoção.

– Não vai me dizer que você a deixou porque resolveu ser altruísta de uma hora para outra? – ela estava quase gritando novamente. – Não foi você que me convenceu a parar de insistir que a minha irmã me mediasse? Não foi você que disse que não ia fazer nenhum bem a ela se eu me afastasse?

– Stephanie, eu realmente não...

– Você só falou aquilo da boca para fora? – ela continuou, me ignorando. – Porque eu pensei que você estava falando por experiência própria.

– É diferente, Stephanie. Sua irmã não estava abrindo mão da vida dela para ficar com você.

– E que bem você acha que fez para Suze com essa sua atitude estúpida? Porque ela não me parece muito feliz a situação.

– Mas vai ficar – ela tinha que ficar.

– Você vai? – ela me encarava com a sobrancelha erguida, cética.

– É diferente. – murmurei. – Ela é jovem...

– E você é um imbecil! – eu a olhei com o cenho franzido. – Não vem com essa cara, não. Você sabe que é. Por que você resolveu fazer isso depois de todo esse tempo?

Eu não queria mais pensar no que me levara a tomar aquela decisão. Por mais que eu soubesse que tinha feito a coisa certa, a cada minuto que eu passava longe dela aqueles motivos pareciam mais vagos.

– Jesse? – Stephanie insistiu quando eu não respondi.

– Eu não quero falar sobre isso. – Vi que ela ia insistir novamente, mas não permiti. – É sério, Stephanie. Eu quero ficar sozinho. Por favor – acrescentei para não deixa-la magoada.

Ela ainda insistiu um pouco, mas vendo que eu não ia responder nada, ela deu de ombros e murmurou um “idiota” antes de desaparecer.

Eu sabia que aqueles motivos só estavam me parecendo fracos agora por conta da saudade que eu estava sentindo dela. E sabia que isso só iria piorar com o passar do tempo. Depois de algumas horas eu não resisti mais e fui para onde meu coração estava. Olhei diretamente para a cama esperando vê-la dormindo, mas ela não estava lá. Será que tinha acontecido alguma coisa? Então eu notei um movimento vindo do tapete do quarto que estava às escuras.

Ela estava lá deitada, ainda com o vestido que usara essa tarde. Ela parecia estar sonhando, mas eu não me atrevi a chegar mais perto para me certificar. Eu continuava naquele local seguro para mim onde ela não podia me ver e eu observava-a com atenção, seus cabelos desgrenhados, seu rosto ainda molhado pelas lágrimas, seu peito se movendo lentamente acompanhando o ritmo da sua respiração.

Em determinado momento, sua respiração começou a ficar mais pesada e acelerada. Será que ela estava com falta de ar? – eu pensei aflito. Mas Suzannah não tinha problemas respiratórios, ou tinha? Mas então eu me dei conta que ela deveria estar tendo um sonho ruim, pois ela começou a murmurar palavras desconexas durante o sono e seu rosto assumiu uma expressão torturada. Ela começou a arfar cada vez mais forte e seu corpo começou a suar. Eu queria acordá-la para que ela se livrasse daquele pesadelo de uma vez por todas, mas antes que eu pudesse fazer qualquer besteira ela acordou sobressaltada.

Aquela era a minha deixa. Eu nunca tinha violado a privacidade dela e já tinha passado do meu limite. Ficar observando-a dormir era uma coisa, outra bem diferente era ficar acompanhando cada um dos seus passos.

Eu voltei para o seu quarto um pouco depois, sem conseguir resistir ao impulso e me arrependi no mesmo instante quando a vi chorando, sentada no assento ao lado da janela ouvindo o CD que eu tinha batalhado tanto para fazê-la ouvir.

Eu continuava com aquele torpor que não me permitia sentir dor alguma. Era como se eu estivesse observando tudo que estava acontecendo com um estranho e não comigo. Eu não sei se era melhor estar assim ou ficar como ela sentindo cada partícula da dor com uma intensidade que chegava a assustar.

Eu não aguentei ficar ali por muito tempo. Voltei para o meu lugar preferido atualmente. Meu refúgio. Aquelas pedras negras em que eu pisava combinava perfeitamente com o meu humor e foi ali que eu passei o dia. Eu queria que aquela sensação de dormência deixasse meu corpo, mas por mais que eu destruísse tudo ao meu redor, eu não conseguia voltar a sentir a dor e aquilo estava começando a me deixar desesperado.

Já tinha anoitecido novamente e eu continuava no mesmo lugar. Stephanie apareceu do meu lado e, do nada, me empurrou com força fazendo com que eu caísse de qualquer jeito por cima das pedras.

– O que foi isso? – eu perguntei olhando-a sem entender enquanto me erguia novamente.

– Só para você não esquecer que é um idiota – ela falou antes de sentar em uma pedra. Quando eu fiz menção de sentar ao seu lado ela me impediu empurrando meu corpo para longe de novo e, dessa vez, usando um pouco dos seus poderes em mim. Ela me pegou desprevenido mais uma vez e eu cambaleei um pouco antes de conseguir me firmar. – Não quero você sentado perto de mim.

– Eu estava aqui primeiro.

– Problema seu – ela falou sem me olhar. – Se está incomodado é só se retirar.

Eu a ignorei e sentei do seu lado e, dessa vez ela não me impediu.

– Sabia que minha irmã teve que pular a janela do quarto de Suze para fazê-la comer? – ela falou ainda sem me encarar. – Se Gina tivesse se machucado, eu dava um jeito de te matar de novo.

– Desculpe – eu murmurei, baixando o olhar.

– Gina me disse que ela desistiu de bancar a boa moça na frente da família.

Eu não sei por que Suzannah insistia em dizer que o seu comportamento agressivo em certos momentos a tornavam uma pessoa ruim. Tudo bem que não era comum – pelo menos na minha época – que mulheres saíssem de casa no meio da noite ou que batessem nas pessoas – e às vezes em fantasmas – quando era contrariada, mas tudo isso era consequência de quem ela era. Ser mediadora trazia grandes responsabilidades e ela ainda era muito jovem e, ainda assim, conseguia encarar tudo muito bem.

– E ela ficou de castigo porque não quis dizer à mãe o que tinha acontecido ontem à noite.

– Por que você está me falando essas coisas, Stephanie? – eu a encarei com o cenho franzido. Afinal, ela sabia que eu mesmo já estava me martirizando sozinho.

– Para te manter informado.

– Eu não sei se eu quero saber. – Eu desviei meu olhar novamente, voltando a observar as pedras aos meus pés.

– Ignorar não vai fazer desaparecer.

Eu sabia que não, até porque eu não estava ignorando nada. Eu estava apenas irritado por saber que as coisas estavam tão ruins para ela. Já não bastava tudo que eu tinha feito, ela ainda tinha que ficar de castigo?

– Você não falou para sua irmã ou para Suzannah que estava me mantendo informado, falou?

– Não.

– Certo.

– Mas se você quiser, eu posso...

– Não – eu a interrompi. – Eu prefiro que você não fale nada. Seria bom também se você evitasse mencionar meu nome perto dela.

– Ignorar não vai fazer desaparecer – ela repetiu me olhando de lado.

– Mas ajuda.

Eu esperei que Stephanie saísse para voltar para o quarto dela.

Ela já estava dormindo quando cheguei, então eu me permitir ficar no seu quarto normalmente sem precisar me esconder, e sentei no assento da janela e fiquei observando-a dormir. Quantas vezes eu já não tinha feito isso antes? Era maravilhoso observá-la enquanto ela mantinha essa expressão serena no seu rosto incrivelmente perfeito. E era ainda melhor quanto eu fazia isso enquanto a tinha aninhada em meus braços.

Mas então a expressão serena desapareceu e aquela mesma expressão torturada voltou ao seu rosto. Ela estava sonhando novamente. Ela começou a arfar cada vez mais rápido, e então voltou a balbuciar as mesmas palavras desconexas, mas dessa vez eu consegui entender algumas.

– Espera... – ela sussurrava – quase lá... Jesse, não...

Jesse? Ela estava sonhando comigo? Eu senti que ela estava acordando e, como eu não estava escondido como eu tinha ficado na noite anterior, eu saí rapidamente de lá antes que ela me visse.

Eu estava de volta às rochas negras e as ondas se chocavam nelas com violência logo abaixo. Suzannah estava sonhando comigo e o sonho não era bom. A constatação de que eu estava fazendo–a sofrer até em seus sonhos foi o que rompeu a barreira da dor que me invadiu de repente me pegando de surpresa. Eu caí nas pedras novamente, dessa vez sem ninguém me empurrar. Eu não conseguia ficar em pé. E eu chorei como nunca tinha chorado em toda minha vida. Nem depois dela.

Suzannah estava sofrendo. Eu estava sofrendo. E não havia nada que pudesse ser feito.

Eu sabia que estava fazendo besteira por estar vendo–a todos os dias, quando o que eu realmente precisava fazer era me afastar, mas eu já tinha desistido de tentar esquecê-la. Na verdade, essa possibilidade passou pela minha mente por apenas alguns segundos e eu logo descartei a ideia. Seria impossível esquecê-la. E como eu não poderia mais tocá-la, o melhor que eu poderia fazer para tentar aplacar o mínimo que fosse a saudade era observá-la de longe durante alguns momentos do seu dia, mas nunca invadindo demais a sua privacidade.

Há até algum tempo atrás eu tinha uma forte ligação com o quarto de Suzannah por ter sido o local da minha morte. Mesmo estando longe daquele lugar, eu sempre sabia quando havia pessoas dentro dele ou não. Agora essa ligação tinha sido transferida para ela. Eu sempre sabia quando ela estava sozinha. E eram nesses momentos que eu me mantinha afastado. O problema era que ela passava a maior parte do tempo sozinha e eu ficava frustrado por não estar perto dela.

Durante a noite eu me permitia me aproximar mais enquanto ela dormia, mas nunca chegava perto o suficiente para sentir o calor que emanava da sua pele, porque eu não sabia se seria capaz de me conter caso o fizesse.

Os sábios sempre diziam que o tempo curava tudo. Mas talvez esses sábios nunca tivessem sentido um amor tão intenso quanto o que nós sentíamos um pelo outro. Cada dia que eu passava longe dela era uma tortura. Eu queria tocá-la, queria abraça-la, beijá-la até ficar sem fôlego. Eu queria voltar a dizer “eu te amo” a todo instante. Eu me sinto completamente dependente dela.

E mesmo ela não tendo a vantagem de poder me ver como eu estava fazendo, eu sabia que ela não estava tendo muito sucesso em seguir em frente. Eu via seu olhar quando não tinha ninguém prestando atenção nela. Eu a via chorando toda noite depois que acordava do tal sonho. Eu queria saber o que ela sonhava toda noite, mas não tinha como descobrir sem revelar que eu estava observando-a regularmente.

Stephanie ainda continuava me insultando sempre que tinha a oportunidade, mas continuava me informando sobre algumas coisas que aconteciam como, por exemplo, que Suzannah estava atrasada nos estudos e agora estava em uma biblioteca com Gina para colocar os trabalhos em dia.

– E você sabe que isso é culpa sua, não sabe? – ela falou tentando me empurrar das pedras. Ela continuava com essa mania ridícula, mas depois de ter feito isso três vezes seguida, ela não conseguira mais sequer me desequilibrar. Eu já reconhecia aquela expressão que ela fazia antes de tentar me empurrar. – Suze fica pensando em você o tempo todo e esquece de todo o resto.

Eu não sentei ao seu lado dessa vez. Continuei andando pelas pedras e arremessando pedregulhos no mar de vez em quando, como tinha feito durante todo o dia. Estava impaciente, mas não sabia o motivo. Quer dizer, eu sabia sim. Ela era o motivo. Fazia tempo que eu não passava tantas horas longe de Suzannah quanto hoje. Ela acordara cedo e tinha ido para a biblioteca logo em seguida e eu não gostava de ficar perto dela quando Gina estava com ela. Apesar de nenhuma das duas poderem me ver, Stephanie poderia. Não me ver, mas sentir a minha presença. E se ela soubesse que eu andava seguindo Suzannah em todos os lugares eu não teria mais paz. E como Stephanie geralmente aparecia onde Gina estava eu preferia não arriscar.

– Você pode parar um pouco no lugar? – Stephanie reclamou. – Eu estou começando a ficar tonta.

– Por que você não está com a sua irmã? – eu perguntei, ignorando-a e continuei a andar pelas pedras. Queria que a noite chegasse logo para que ela fosse dormir e então eu poderia vê-la novamente.

– Por que ela está com Suze agora – ela falou voltando a olhar para o mar.

– E? – perguntei franzindo o cenho, mas sem parar para olhá-la.

– Nada – ela levantou rápido. – Vou indo. Fica aí com a sua tristeza eterna que eu vou me diverti um pouco. Mamãe contratou uma empregada nova, já que a outra surtou depois da minha última brincadeira. – E se foi.

Eu não pude deixar de sorrir com o comentário de Stephanie. Já era a terceira empregada que ela fazia pedir demissão desde que sua família se mudara para Carmel e ela nunca cansava. Mas não consegui entender o motivo de Stephanie não ficar querer perto da irmã só porque ela estava com Suze. Será que as duas tinham discutido? Mas eu não fiquei pensando sobre isso por muito tempo. Depois eu daria um jeito de perguntar.

A noite chegou finalmente e eu fiquei esperando ela dormir para poder vê-la novamente. Eu estava tão ansioso que algumas pedras pequenas não paravam de voar a minha volta. Já era muito tarde quando finalmente eu senti que ela tinha adormecido e não esperei um segundo sequer para ir para o quarto dela.

E lá estava ela deitada na cama com a expressão relaxada. Notei que havia um livro em cima do assento da janela. Macbeth de Shakespeare. O seu caderno estava ao lado aberto com algumas anotações sobre a história do livro. Lembrei que ela tinha comentado sobre esse trabalho que o professor passara na última semana de aulas, mas ela tinha dito que escreveria sobre Romeu e Julieta.

Não quis arriscar retirar seu material porque ela poderia perceber que alguém tinha entrado ali, então continuei em pé ao lado da janela de frente para a cama. Eu não cansava de olhá-la. E eu sentia muita falta de vê-la olhando para mim com seus olhos verdes brilhantes que tanto me fascinavam.

Eu vi sua expressão alterar aos poucos quando ela começou a sonhar. Eu não aguentava mais isso. Eu não aguentava mais vê-la sofrer até nos sonhos. O único momento em que ela poderia ter paz era durante o sono e aquele sonho idiota estava impedindo isso.

Em um impulso louco eu me aproximei mais da cama para acordá-la.

Eu estava a apenas alguns centímetros dela e conseguia sentir o calor que emanava do seu corpo. Estendi a mão para tocar seu rosto de leve apenas. Teria que ser rápido. Ela não poderia me ver ali. Mas então seu rosto mudou de expressão. Onde antes havia dor e desespero agora havia uma expressão feliz, como se algo no sonho tivesse mudado.

Nossos rostos estavam a apenas alguns centímetros um do outro e eu podia sentir o seu cheiro me impregnando. Um sorriso apareceu no seu rosto e foi crescendo a cada instante. Então eu recuei. Não queria interromper o que quer que estivesse deixando-a daquele jeito. Dios mio, como eu sentia falta daquele sorriso.

E eu estava tão concentrado em seu sorriso que não percebi que ela estava acordando. Foi apenas questão de milésimos de segundos entre o instante que ela acordou sobressaltada e o instante que eu percebi isso e desapareci. Foi tudo tão rápido. Eu cheguei a ver seus olhos abrindo. Será que ela me viu? Se ela tinha me visto, então eu tinha acabado de colocar tudo a perder. Eu precisava verificar as consequências do meu ato.

Voltei para o quarto sem que ela me visse. Ela estava sentada no assento da janela abraçando os joelhos e com o queixo apoiado neles. Ela estava chorando, muito, enquanto seu corpo era sacudido por tremores intensos.

Então eu percebi que o mesmo estava acontecendo comigo. Estávamos os dois, cada um em um ambiente diferente, e ao mesmo tempo no mesmo lugar, chorando e sofrendo pelo mesmo motivo.

E então sua voz se fez ouvir na noite, apenas um sussurro.

– Eu te amo tanto, Jesse. Eu te amo para sempre.

Eu te amo para sempre. Aquela frase ficou ecoando na minha mente durante todo aquele dia. Eu não consegui mais voltar lá. Eu não suportei vê-la daquele jeito.

A dor é fenomenal, fatal e não cede, não acalma, não dá trégua. E a alma se contorce, geme em lamentos surdos que tomam o corpo. A dor da perda não tem som, não tem voz. Estar morto não fazia essa dor ser mais fraca. Massacrava minha alma a tal ponto de tudo ao redor perder o sentido e o brilho da vida.

Eu tinha robotizado meu corpo e caminhava perdido para lá e para cá, desnorteado, completamente perdido em mim mesmo. A dor da perda era pesada demais. Impossível de ser carregada por apenas uma pessoa. E eu não queria fazer isso. Eu não aguentava mais.

Eu passei o dia inteiro no nosso lugar. No penhasco onde nós estivemos unidos pela última vez. Eu ainda não tinha voltado lá desde aquele dia. A noite chegou e eu continuava no mesmo lugar.

Ela precisa ter a vida dela – eu repetia para mim mesmo como um mantra. – Ela pode ser feliz sem mim. Ela tem que ser feliz sem mim. Eu precisava lembrar os motivos que me fizeram tomar essa decisão, mas a cada vez que eu lembrava de um motivo, ele me parecia fraco, sem importância o suficiente para valer todo aquele sofrimento.

Mas era por ela que eu precisava buscar forças para suportar a dor, por mais profunda e dolorida que fosse, por mais aterradora e...

E... Então eu me dei conta de que não valia a pena. Eu até suportaria aquela dor de bom grado se soubesse que ela estaria bem sem mim, mas isso nunca seria verdade. Nós precisávamos um do outro e isso nunca mudaria.

Eu só esperava que um dia ela me perdoasse por tê-la abandonado daquele jeito, mas, de qualquer forma, eu acabara de desistir de ficar longe dela. Nem um segundo se passou desde o momento que eu tomei minha decisão até o instante em que eu apareci no seu quarto, dessa vez sem me esconder. As lágrimas ainda escorriam pelo meu rosto, mas agora eram de felicidade. Alegria por saber que finalmente a dor iria acabar.

O quarto estava às escuras e eu esperei ver o contorno do seu corpo delgado na cama, mas ela estava vazia. Procurei–a pelo quarto, mas ela não estava em lugar algum. O relógio digital ao lado da cama informava que já passava de uma da manhã. Onde será que ela estava? Procurei por toda a casa, mas ela não estava em parte alguma. E uma das bicicletas não estava na garagem. Ela tinha saído.

E se ela estivesse com problemas? Imediatamente fui até a casa de Gina e encontrei Stephanie na cozinha equilibrando uma pilha de pratos de forma precária.

– Preciso que me faça um favor – falei sem rodeios.

– Já reparou que você só vem até mim para pedir favores? – ela falou sem se voltar e continuou seu trabalho.

– Eu desisti, Stephanie – eu murmurei sem encará-la. – Eu não consigo ficar longe dela.

Por muito pouco os pratos não foram todos ao chão. Stephanie os equilibrou no último instante antes de se voltar para mim com um sorriso enorme no rosto.

– Até que enfim você tomou um chá de semancol!

– Chá de quê? – E lá vinha Stephanie novamente com aquelas expressões estranhas.

– Deixa para lá – ela falou, vindo em minha direção, radiante. – Então, em que posso ajuda-lo?

– Ela não está em casa – eu falei voltando a ficar preocupado. – Eu não sei se ela está com algum problema para ter saído há essa hora.

– Suze não está em casa? – ela perguntou espantada.

– Não.

– Ai meu Deus! – ela exclamou.

– O que? – eu perguntei assustado com sua reação.

– Ela não estava nada bem hoje, Jesse.

Então ela me contou o que tinha acontecido durante a tarde quando Suzannah descobriu que Stephanie mantinha contato comigo e a sua reação quando disse que eu estava tão mal quanto ela.

– Por que você foi dizer isso para ela?! – eu quase gritei. – Eu te pedi para não falar!

– Desculpa, mas não deu para...

– Onde ela está? – eu a interrompi.

– Eu não sei. – Eu podia notar que ela estava tão preocupada quanto eu. – Eu vou pedir para Gina ligar para ela.

Stephanie desapareceu na minha frente e eu queria segui-la, mas não seria certo entrar no quarto da sua irmã. Depois de intermináveis minutos ela voltou com o rosto ainda mais aflito.

– Ela não atende o celular. Deve ter deixado em casa.

Eu não esperei mais. Saí pela cidade à procura dela. O primeiro lugar que eu fui foi ao penhasco, mas ela não estava lá. Então fui à sua escola. Talvez ela só estivesse saído para mediar algum fantasma. Não havia porque ficar preocupado. Mas então por que eu estava me sentindo tão nervoso? Eu procurei em cada parte da cidade em que poderia haver fantasmas, mas não havia sinal dela. Depois de mais de uma hora de procura eu resolvi voltar para a casa e esperar ela chegar. Talvez Stephanie ou Gina tivessem conseguido falar com ela e ela poderia voltar para casa a qualquer instante.

Sentei nos degraus da entrada da casa e fiquei esperando ela chegar. Foi então que eu notei uma bicicleta jogada de qualquer jeito a um canto. Suzannah tinha voltado? Eu ouvi um barulho vindo do andar de cima. Sim, ela estava em casa. No nosso quarto. Um sorriso se formou nos meus lábios no instante em que eu a vi parada no meio do quarto com os olhos fechados e as mãos sobre o peito como se rezasse. E então o sorriso se desfez. Eu reconheci aquela postura.

– Suzannah, não! – eu gritei, mas era tarde demais. Ela já tinha se deslocado.