Atração Involuntária
23 Capítulo 23
CAPÍTULO 23
Eu já estava pronta para sair quando ouvi a última porta se fechar na casa. Finalmente todos tinham ido dormir. Já estava com minha roupa de guerra mais uma vez: leggin, regata, casaco e tênis. Tudo preto. Peguei a mochila com os objetos que poderiam ser úteis para entrar no museu e subi no telhado da varanda me preparando para pular. Tomei cuidado para não fazer nenhum barulho que indicasse que eu estava saindo de casa e peguei uma bicicleta que estava encostada no canto da garagem. O museu era um pouco longe e eu até pensei em pedir uma carona para Gina, mas não tinha muita certeza se ela iria concordar com o que eu estava para fazer. E também havia o risco de Steph descobrir e ir correndo contar para Jesse. Ele definitivamente não concordaria.
Sabia que um segundo deslocamento poderia ser perigoso – como pular de uma altura de três metros, Gina dissera – mas não restava alternativa. Eu precisava fazer isso. Por ele.
Por sorte eu tinha ido ao museu naquele dia e o homem que tinha nos acompanhado me dera as informações que eu precisava para entrar sem problemas. Não que eu estivesse pensando em invadir o museu na hora que ele falara aquelas coisas, mas as informações agora iriam me servir.
Ao lado do museu havia um beco precariamente iluminado e foi lá que eu deixei a bicicleta. De acordo com as “instruções”, não havia sensores nas janelas do primeiro andar que era onde ficavam os escritórios. Subi ate lá escalando uma calha de ferro e depois de algumas tentativas eu consegui abrir a janela e entrei sem fazer ruídos. Parei um instante tentando ouvir algum barulho nesse andar, mas não havia nada. Eu também sabia que não havia câmeras de segurança em nenhuma das salas. Toda a vigilância era feita por dois seguranças que circulavam pelo prédio com lanternas e walk-talks. Sorte a minha. Eu só precisava me concentrar no barulho dos seus passos para não correr o risco de esbarrar com algum deles.
Antes de sair daquela sala eu tirei os tênis, ficando só de meia, e os deixei ao lado da janela escondido atrás de uma estante. Entreabri a porta e espiei pelo corredor. Estava vazio. Saí de lá devagar e desci as escadas de madeira indo em direção à sala que ficava no final do museu. No caminho eu ouvi o barulho de passos em uma das salas adjacentes e me escondi atrás de uma pilastra. O homem saiu da sala e passou por mim indo para frente do prédio sem me ver.
Continuei meu caminho e logo cheguei à sala onde ficavam os quadros. A miniatura estava lá no mesmo local que tinha visto pela manhã. Não havia nenhuma proteção contra roubos ali. Talvez eles não julgassem aquela imagem tão importante quanto os quadros que estavam na parede e que tinham uma proteção de vidro em volta. Retirei a miniatura e a coloquei no bolso do casaco.
Fiz o caminho de volta para a sala do andar de cima e dessa vez não encontrei nenhum vigilante. Vai ter segurança precária assim na China!
Mas isso me ajudou. Agora eu voltava para casa com a miniatura que poderia não ser importante para a Sociedade Histórica de Carmel, mas era extremamente valiosa para mim.
A volta foi bem mais complicada. O caminho era quase todo uma subida íngreme e eu tive que desmontar da bicicleta e empurrá-la por boa parte do percurso. Quando cheguei em casa eu joguei a bicicleta de qualquer jeito a um canto e escalei a árvore para entrar pela janela do meu quarto. Estava cansada pelo esforço que tinha feito e demorei um pouco antes de finalmente conseguir subir e entrar no meu quarto.
Assim que cheguei ouvi um ruído estranho vindo de algum ponto do quarto. Acendi as luzes e procurei pelo que estava causando aquele barulho. Era meu celular informando que haviam cinco chamadas não atendidas. Cinco? Mas quem era que estava me ligando a essa hora? Apertei o botão para identificar a origem das chamadas: Gina.
Eu retornei a ligação para saber o que a tinha feito ligar para mim cinco vezes seguidas, mas eu desliguei antes mesmo de chamar uma segunda vez. Não queria falar com ninguém agora. Não podia correr o risco de me desconcentrar para o que eu ia fazer agora. O que quer que Gina quisesse comigo poderia esperar até o dia seguinte. Joguei o aparelho em cima da cama e fui até o guarda roupa para pegar o casaco mais grosso que eu tinha. O mesmo que eu havia usado na noite que me deslocara pela primeira vez. E eu que tinha pensado que aquela seria a última.
Mas o incrível de tudo era que eu não estava nervosa. Estava ansiosa, mas não nervosa. Eu queria fazer logo aquilo. Vesti o casaco e peguei a miniatura do bolso do outro que estava no chão. Fui para o centro do quarto e tentei me lembrar do passo a passo antes de me deslocar. Primeiro visualizar o local para onde eu estava indo. Ainda me lembrava de todos os detalhes que Jesse tinha me dado. O segundo passo era me concentrar na época. Ouvi um celular tocando ao longe. Gina deveria estar me ligando novamente e eu tornei a ignorar. Voltei a me concentrar e fechei os olhos apertando a imagem entre as mãos da mesma forma que tinha feito da outra vez e logo comecei a sentir um calafrio percorrendo meu corpo. Abri os olhos e estava no mesmo quarto que estivera há alguns meses. Olhei direto para a cama. Jesse estava lá dormindo tranquilamente, parcialmente coberto pela colcha ridícula.
Meu coração deu um pulo gigante e eu cheguei a pensar que sairia pela minha boca. Meu Deus, como eu senti falta dele. Me aproximei mais para poder ver seu rosto pela última vez, mas evitei me aproximar demais e tentei ao máximo me concentrar no que tinha para fazer. Quanto mais eu demorasse pior seria para me afastar novamente.
Eis o meu plano: o homem matara Jesse porque não vira seu rosto e pensara ser outra pessoa. Jesse só havia coberto o rosto porque sentira frio, e ele só sentira frio porque a janela estava aberta. Então tudo que eu fiz foi fechá-la com cuidado para que não fizesse barulho. Não fui muito bem sucedida nisso. Mas o ruído não foi alto o suficiente para ele acordar, mesmo naquele silêncio opressivo.
Fui para o mesmo guarda roupa de duas portas para esperar e ver se algo daria errado. Só sairia daquele quarto no momento que eu visse o assassino indo embora e Jesse estivesse são e salvo. Quando abri a porta do guarda roupa eu ouvi o mesmo rangido que tinha ouvido naquela noite. Olhei rapidamente para Jesse, mas dessa vez ele não se movera. Estava tudo dando certo. Seu rosto continuava descoberto. Devagar eu entrei no móvel pequeno e fechei a porta deixando uma pequena brecha para o ar entrar. Sentei no chão do móvel e abracei meus joelhos procurando uma posição mais confortável para esperar.
Como eu tinha fechado a janela, o quarto não estava tão frio quanto na outra noite e eu fiquei aliviada com a temperatura agradável. Ao menos não iria tremer de frio enquanto esperava pelo homem.
E lá estava ele novamente entrando sorrateiramente no quarto. Ele andou até a cama e parou ao lado dela antes de tirar a faca do cinto. Esqueci completamente de respirar naquele momento e comecei a torcer as mãos uma na outra nervosamente.
Vamos, seu idiota! Dê uma olhadinha em quem está na cama. Não é o tal do Diego.
Ele ergueu a faca preparando o golpe, mas parou com a arma no meio do caminho. Não conseguia ver sua expressão devido à escuridão do quarto, mas ouvi claramente a sua voz.
– Quem diabos é você?! – ele murmurou assustado.
O problema é que eu não fui a única que ouviu.
Quando eu penso que está tudo indo bem, acontece uma merda dessas. Porque esse homem idiota teve que abrir o bico logo agora? Ele não poderia ter visto que Jesse não era quem ele estava procurando e simplesmente sair dali de fininho? Não! O imbecil tinha que falar.
Ele recuou assustado quando Jesse ergueu seu corpo na cama, mas manteve a faca em punho e apontando na direção de Jesse.
Jesse falou alguma coisa em espanhol e, para meu azar, o homem respondeu no mesmo idioma. Eu ainda consegui distinguir quando o assassino falou o nome “Felix Diego”, mas não entendi o que Jesse respondeu.
Alguém aperta a tecla SAP! Por que foi mesmo que eu não quis aprender espanhol em todo esse tempo que eu tinha passado com Jesse? Só podia ser porque eu sou burra! Agora eu estava ali presenciando uma conversa de extrema importância e não entendia patavina. Eu me controlava para não fazer nenhum ruído que denunciasse a minha presença, mas estava cada vez mais difícil.
Mas seja lá o que eles estavam falando não estava indo muito bem porque Jesse levantou da cama de um pulo e o quando o homem falou algo e deu um sorriso maligno. Então, para minha felicidade, Jesse começou a falar em inglês.
– Você não precisa fazer isso – ele falou e sua voz estava controlada, ou pelo menos era o que tentava transparecer. – Eu não conheço você e não sou da cidade. Só estou aqui a negócios e não tenho porque me envolver nos problemas das famílias daqui.
– Ainda assim – o homem falou com o mesmo sorriso no rosto –, eu não costumo deixar lacunas no meu trabalho.
Não, não, não! Por favor, não me diga que eles estão falando do que eu estou pensando?
– Vá embora e eu não falarei nada – Jesse falou recuando mais alguns passos e parando próximo à janela.
– Eu não vou embora enquanto não limpar a sujeira – ele falou avançando para cima de Jesse.
Jesse também atacou e os dois caíram no chão rolando em uma briga confusa e perigosa. Confusa porque eu nunca sabia quem estava ganhando e perigosa porque aquele homem, além de ser maior do que Jesse, ainda tinha uma faca nas mãos. Mas a faca rolou pelo chão logo depois da queda dos dois e veio parar perto do guarda roupa onde eu estava.
Então eu fiz algo que poderia vir a me arrepender depois, mas que eu não consegui evitar. Abri as portas do móvel sem me preocupar mais em me manter escondida e estendi minha mão para alcançar a faca que estava no chão. Os dois estavam tão entretidos na luta que só perceberam a minha presença quando eu dei um pulo para fora do guarda roupa, já com a arma em punho. O carrasco foi o primeiro a me notar e em sua breve distração Jesse o acertou com um soco no rosto que o fez cambalear alguns passos para trás e se apoiar na cama que estava às suas costas.
Jesse, que não estivera em tanta vantagem naquela briga, conseguiu se erguer e me olhou com o cenho franzido enquanto avaliava minhas roupas estranhas para aquela época. Ele falou algo em espanhol, ainda me olhando, mas antes que eu pudesse pedir para ele falar em inglês, o outro homem recuperou o equilíbrio e já se preparava para partir para cima de Jesse mais uma vez.
– Parado aí, cara! – eu ameacei, apontando a faca na sua direção.
O homem me encarou assustado e, assim como Jesse tinha feito, ele avaliou minha roupa, mas o olhar que ele me direcionou causou um arrepio em mim.
– Ora, ora. – Sua voz era divertida e surpresa. – Veja só o que temos aqui.
Ele deu um passo na minha direção e quando eu percebi que Jesse ia detê-lo, eu ergui mais a faca para que ele visse que eu não estava brincando.
– Eu disse para você ficar parado – minha voz estava firme embora eu estivesse tremendo nas bases. Por que alguém naquela droga de hotel não acordava e vinha nos ajudar?
Mas ao invés dele ficar assustado, o homem riu enquanto erguia as mãos num falso gesto de rendição.
– Ela é corajosa – ele falou olhando de relance para Jesse que não tirava os olhos dele antecipando alguma reação. – Mas é melhor você não se meter nisso, mulher! Eu conheço a senhora Hepburn e ela não vai gostar de saber que uma das suas filhas estava interferindo nos meus negócios.
Eu não me preocupei tanto com as suas palavras já que elas não fizeram o mínimo sentido para mim, mas a sua voz estava gélida e ameaçadora e seu olhar era mortal, e isso fez com que a faca tremesse na minha mão, mas eu tentei disfarçar.
– Eu não faço ideia de quem seja a senhora Hepburn – para minha alegria minha voz saiu firme –, mas eu não estou interferindo em nenhum dos seus negócios. Você obviamente não veio aqui para matar ele – falei apontando para Jesse com a mão livre –, então você pode muito bem ir embora agora. Nenhum de nós vai falar nada sobre o que aconteceu aqui e todos poderemos seguir nossas vidas tranquilamente.
– Você fala demais para uma mulher! – ele falou ainda com a voz fria. – Sabe, eu não costumo bater em mulheres, mas como você não está vestida como uma, eu posso abrir uma exceção. – E avançou para cima de mim.
O que aconteceu a seguir foi muito rápido. Jesse tentou se interpor entre nós mais uma vez, mas eu fui mais rápida e avancei contra o homem. No mesmo instante que eu consegui perfurar seu abdômen com a faca, ele me deu um soco no rosto que me vez cair pesadamente e deslizar alguns metros pelo chão.
Eu devo ter ficado inconsciente por alguns segundos, porque quando abri os olhos, Jesse estava ao meu lado me olhando preocupado. Eu tentei levantar, mas ele me deteve segurando meus ombros de leve contra o chão.
– Não levante agora – ele falou com a voz baixa e gentil. Exatamente como eu lembrava. – Você está sangrando.
Foi então que eu senti a dor latejante no meu rosto, no mesmo local em que o homem havia me atingido. Ergui a mão para tocar o machucado e senti um líquido quente escorrendo.
– Ai – foi só o que eu falei porque nesse momento Jesse estendeu a mão e tocou meu rosto perto do corte limpando o sangue delicadamente.
Eu senti aquela mesma corrente elétrica percorrendo todo meu corpo e percebi que ele sentira o mesmo porque me olhou com o cenho franzido e logo interrompeu o contato, mas não saiu do meu lado. Eu continuei deitada olhando para aqueles olhos negros que eu tanto tinha sentido falta e tive vontade de pular em seus braços e beijá-lo para sempre. Como será que ele reagiria se eu fizesse isso? Ele também continuava me encarando e eu daria tudo para saber o que se passava em sua mente. Seus olhos estavam confusos, mas foi só o que eu consegui identificar já que o quarto continuava parcialmente às escuras.
Então eu me lembrei do outro homem que estava no quarto e me ergui um pouco olhando em volta. Dessa vez Jesse não me impediu de levantar, mas estendeu a mão para me ajudar. Cavalheiro como sempre. O homem estava caído ao lado da cama e uma poça de sangue se formava ao seu lado.
– Minha nossa! – exclamei baixo. – Ele está... morto?
– Não. Apenas inconsciente. – Jesse respondeu, mas não olhava para o homem. Seus olhos não se desviaram de mim por um instante. – Você está bem?
– Eu? Sim. Normal. Já estou acostumada com isso.
– Está? – ele perguntou com o cenho franzido.
Eu deveria voltar para casa. Já tinha feito o que tinha para fazer. Jesse estava bem agora. Mas eu não consegui me afastar dele. Sentia tanta saudade que chegava a doer. E queria prolongar mais um pouco aquela sensação de que tudo estava como deveria estar. Queria ficar mais um pouco com ele, nem que fossem uns míseros minutos.
– Quer dizer, não que eu esteja acostumada a levar um soco na cara de um brutamonte desses, mas eu já me acostumei aos machucados. São comuns na minha vida.
– Como assim está acostumada a ser machucada? – ele perguntou nervoso. – Quem te bate?
Eu tive que rir com sua expressão de “fala o nome do canalha. Ele vai ter que se ver comigo”.
– Relaxa, Jesse. Ninguém me bate, não. Eu é que me meto em muita encrenca.
Foi então que eu olhei para ele e o vi com o cenho mais franzido ainda. Eu falei alguma besteira, não falei?
– Como você sabe o meu nome? – ele perguntou com a voz rouca e ao mesmo tempo desconfiada.
É. Falei besteira sim.
– Er... eu... – Lá estava eu gaguejando novamente. Senti falta disso. – Eu ouvi quando você falou agora a pouco.
– Eu não falei meu nome em momento algum.
Claro que não. Afinal, o que faria alguém se apresentar a um cara com uma faca na mão que visivelmente tinha intenções assassinas?
– Deixa isso pra lá, ok? – eu comecei a ficar com medo de que ele se chateasse comigo. – O que importa é que você está bem agora e eu acho que é melhor você sair daqui antes que esse cara acorde – falei, ou melhor, tagarelei, apontando para o homem no chão.
Mas é claro que ele me ignorou. Em parte.
– O que você estava fazendo dentro do guarda roupa?
– Esquece isso, está bem? – pedi indo em sua direção. – Vai embora antes que ele...
– Eu não vou a lugar algum enquanto você não responder às minhas perguntas – ele me interrompeu, mas ainda assim falava com educação.
– Não importa como eu sei seu nome, nem o que eu estava fazendo ali dentro.
– É claro que importa. – Ele deu alguns passos na minha direção e parou a cerca de um metro de mim. – Você por acaso fugiu da casa da senhora Hepburn? Estavam te maltratando por lá?
Ai meu Deus. Lá vinha essa tal de senhora Hepburn de novo. E eu lá sabia quem ela era? E mesmo se soubesse, acho que teria esquecido devido à proximidade do seu corpo com o meu. Eu esqueci de tudo naquele momento. Esqueci até de respirar.
– Você está bem? – ele perguntou com a expressão preocupada.
– Eu? – minha voz saiu baixa, quase um sussurro.
– Sim. Você parece que vai desmaiar.
Parecia mesmo? Bem, eu também estava começando a sentir isso. Ah, é verdade. Eu ainda não tinha respirado. Assim que inalei o ar o quarto parou de girar.
– Eu estou bem. – Minha respiração ainda não tinha voltado ao normal, mas eu já estava me sentindo segura para falar sem desmaiar. – Eu não conheço nenhuma senhora Hepburn – falei quando vi que ele ainda esperava pelas respostas.
– Você não é uma das filhas dela? – ele perguntou com uma sobrancelha arqueada. Aquela mesma que tinha uma cicatriz.
– Não. Por quê? Eu me pareço com ela?
Então ele riu. Falei alguma coisa engraçada? Não que eu tenha notado.
– Você não sabe mesmo que é Audrey Hepburn? – ele perguntou ainda rindo. Eu apenas meneei a cabeça. – Desculpe. Não deveria rir. Foi rude de minha parte. – Então ficou sério novamente. – É só que... – ele hesitou – as suas roupas...
– O que tem as minhas roupas?
Eu sabia que aquele não era bem o tipo de vestuário que as mulheres usavam nesse século, mas e daí?
– Eu nunca tinha visto nenhuma mulher se vestir dessa forma – ele percorreu meu corpo com os olhos, não de uma forma ousada, apenas como se quisesse verificar se eu estava usando mesmo aquilo, mas eu senti meu corpo aquecendo por onde seus olhos passavam. – Eu pensei que você fosse...
Mas ele não concluiu a frase porque dessa vez eu não consegui conter a tontura que me dominou e caí de joelhos no chão, completamente sem ar. Em segundos, Jesse estava ao meu lado me segurando pelos ombros para que eu não caísse deitada no chão. Com sua mão livre ele ergueu meu rosto para que pudesse me olhar melhor.
– Você não está bem. – Sua voz estava aflita. E, meu Deus, como seu toque era gostoso. Um pouco diferente do que eu estava acostumada. Era quente, mas continuava terno e firme ao mesmo tempo. Meu Jesse. – A pancada foi muito forte. Eu vou te levar a um médico.
– Não. Nada de médico – eu falei com a voz fraca, não pela tontura, mas pelo desespero que estava começando a me tomar por saber que eu teria que ir embora agora e que nunca mais o veria novamente. – Eu já estou de saída. Você precisa sair daqui também. Esse homem pode acordar e tentar te machucar de novo.
– E por que você se importa? – Eu ia tentar me levantar nesse momento, mas parei antes mesmo de iniciar o movimento.
Porque eu te amo.
– Porque eu não quero que você se machuque – eu falei olhando no fundo dos seus olhos.
Ele manteve o seu olhar preso ao meu como se não conseguisse desviar. Eu sabia que eu não conseguiria se tentasse.
– Por que você está aqui? – ele perguntou e eu me surpreendi com sua voz que estava rouca e entrecortada. Também notei que ele estava arfando um pouco.
– Eu vim te ajudar – eu falei por fim num sussurro.
Ele franziu o cenho novamente, mas não falou mais nada. Continuava me olhando com se tentasse desvendar algum mistério. Estávamos tão concentrados um no outro que não percebemos um leve movimento ao lado da cama.
Jesse foi o primeiro a sair do transe e se ergueu rapidamente quando viu que o homem estava ficando de pé. A faca não estava mais no seu abdômen. Ele agora a segurava na mão e o seu próprio sangue escorria por ela.
– Jesse, sai daqui, por favor – eu implorei ficando a sua frente para protege-lo.
Eu precisava que ele saísse dali o mais rápido possível para que eu pudesse voltar para casa e então nós dois estaríamos a salvo.
– O que você está fazendo? – ele perguntou segurando meu braço e me fazendo recuar para ficar atrás dele. – Saia daqui antes que se machuque mais.
– Jesse, você não está entendo...
Mas eu não consegui falar mais nada porque o homem partiu para cima de nós dois com toda força. Como é que alguém conseguia se manter de pé depois de perder tanto sangue? Antes que o homem se chocasse contra nós, Jesse me empurrou para trás para que eu saísse do caminho do impacto, mas eu tropecei em alguma coisa às minhas costas e acabei caído no chão.
Quando finalmente consegui me recuperar da queda, olhei para aqueles dois corpos. Os dois também tinham caído e agora se debatiam no chão. Eu abri a janela para poder ver melhor o que estava acontecendo ali. A briga estava cada vez mais feia. Jesse conseguira segurar a mão do homem que ainda empunhava a faca, mas não conseguira desarmá-lo. Ainda assim, com a outra mão livre, Jesse o socava em todas as partes que alcançava fazendo o homem se contorcer de dor.
Eu queria fazer alguma coisa para ajudar, mas tinha medo de complicar as coisas ainda mais. E além do mais, não era Jesse que estava apanhando. Mas, por via das dúvidas, eu peguei um candeeiro que estava em cima de uma mesa ao lado da janela e o mantive em punho.
Mas então, reunindo as suas últimas forças, o homem conseguiu desvencilhar sua mão que continuava presa à de Jesse e, no mesmo instante que Jesse o golpeou com tanta força que fez o sangue espirrar, o homem perfurou seu peito com a faca.
Jesse congelou no movimento de aplicar outro soco e o homem o empurrou de qualquer jeito para o lado fazendo-o cair pesadamente no chão.
– Não! – eu gritei e avancei para cima do homem com a intenção de proporcionar o máximo de dor que aquele candeeiro poderia aguentar antes de quebrar, mas aquela deveria ter sido sua última cartada porque antes mesmo que eu o alcançasse ele fechara os olhos pela última vez.
Joguei o objeto em qualquer parte do quarto e corri para onde estava o corpo de Jesse.
– Jesse? Jesse?! – chamei aflita, as lágrimas surgindo em meus olhos e eu não me preocupei em enxuga-las. Coloquei um dedo no seu pescoço e sorri satisfeita ao constatar que havia pulsação. – Jesse? Está me ouvindo? – mas ele não respondia. – Socorro! – gritei o mais alto que pude. – Alguém me ajude! Preciso de um médico!
– Não virá ninguém – ouvi a voz de Jesse saindo com muito esforço.
– Não se mexe. Vai ficar tudo bem – falei baixinho tentando tranquilizá-lo enquanto acariciava seu rosto quente e suado. – Por favor, alguém me ajude! – tornei a gritar.
– Não virá ninguém – ele repetiu e então eu parei para ouvi-lo. – Ninguém nesse hotel se conhece. As pessoas não costumam se meter em assuntos que não lhes dizem respeito.
– Não! – eu quase gritei novamente. – Tem que vir alguém. Deve ter um médico aqui.
– Por que você está chorando? – ele perguntou me ignorando e erguendo um dedo para tocar uma lágrima que escorria pelo meu rosto.
– Porque eu não quero que você morra – eu respondi chorando ainda mais. Eu peguei sua mão na minha e a apertei forte. – Eu não posso suportar isso.
Ele olhou para mim com os olhos mais ternos que poderiam existir.
– Posso saber o seu nome? – ele perguntou e sua voz saiu ainda mais fraca.
– Suzannah – eu respondi num fio de voz.
– Suzannah – ele repetiu como se tentasse memorizar e seus olhos se fecharam.
– Não! – gritei. – Jesse! Por favor, não me deixa!
Ele tornou a abrir os olhos e sorriu para mim. Era um sorriso fraco, mas ainda assim era um sorriso.
– Desculpa, mas eu estou cansado – ele sussurrou, então apertou a minha mão que estava presa à sua. – Por que você se preocupa tanto comigo, Suzannah?
– Porque eu te amo e não posso viver sem você! – eu respondi com a voz tão baixa que eu não sei se ele não foi capaz de ouvir. Seu rosto se contorceu de dor e ele apertou ainda mais a minha mão. – Por favor, um médico! – voltei a gritar embora não tivesse mais esperanças de que alguém pudesse aparecer. – Jesse, por favor, não morre – eu implorei. Me abaixei para ficar na altura do seu rosto e beijei sua testa suada. Fechei os olhos para aproveitar aquela sensação maravilhosa de sentir sua pele quente contra a minha. Tudo que eu precisava era de um médico. Uma porcaria de um médico para ajuda-lo. Ele não precisava morrer. Ele não podia morrer. Eu tinha voltado para aquele tempo para impedir que isso acontecesse e no final, tudo acabou do mesmo jeito. Se ao menos eu soubesse onde ficava o hospital daqui. Será que ficava no mesmo lugar que o atual de Carmel?
Foi então que eu senti um calafrio percorrendo meu corpo. Eu reconheci aquela sensação. Abri meus olhos e me vi no estacionamento do prédio do hospital de Carmel. O atual. Olhei para baixo e Jesse estava ao meu lado. Mas estava inconsciente.
– Socorro! – tornei a gritar e com isso senti uma dor alucinante na minha cabeça que quase me fez perder a consciência. Mas eu não poderia desmaiar agora. – Alguém me ajude!
Então, como um anjo descendo do céu, eu vi uma mulher correndo em nossa direção e sua voz gritando tão alta quanto a minha.
– Alguém ajude aqui. Tem duas pessoas feridas. Rápido.
Reconheci seu uniforme de enfermeira e suspirei aliviada. Agradecendo ao século XXI onde as pessoas adoravam se meter nos assuntos que não lhes diziam respeito, eu senti meu corpo caindo ao lado de Jesse antes de perder os sentidos.
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