CAPÍTULO 17

Os meses seguintes passaram sem grandes acontecimentos. Eu continuava namorando o homem mais perfeito do mundo e a cada dia eu o amava ainda mais. Gina se tornou a minha melhor amiga e fazíamos praticamente tudo juntas já que ela vivia na minha casa. Stephanie parou de atormentá-la com essa história de seguir em frente depois que ficou sabendo do meu namoro com Jesse, e depois que ele a convenceu – isso mesmo. Jesse teve uma conversinha de fantasma para fantasma com ela – de que a sua partida não faria bem para ninguém, muito menos para a sua irmã, então ela também passava boa parte do tempo conosco, completando o quarteto mais estranho que poderia existir.

Quando não estávamos nesse quarteto, eu e Gina nos juntávamos à Cee Cee e Adam para atividades menos sobrenaturais como ir ao shopping, ao cinema ou passar o dia na praia, que, por sinal, era o que estávamos fazendo agora. Cee Cee e Adam, como de costume, estavam debaixo do guarda–sol enquanto eu e Gina estávamos deitadas em uma toalha nos bronzeando. Era sábado à tarde e tínhamos tirado todo o dia para relaxar depois de termos ficado duas semanas seguidas enfurnadas na biblioteca da escola estudando para as provas que antecederam as férias de inverno. Mas agora tinha acabado. Estávamos de férias com nada para nos preocupar a não ser o que faríamos no dia seguinte.

No final da tarde nos despedimos de Cee Cee e Adam e subimos em direção à minha casa. Gina dormiria lá essa noite e no dia seguinte iríamos bem cedo ao shopping comprar os presentes de Natal que seria dali a cinco dias. Já estávamos na entrada de carro quando Jake nos alcançou. Ele vinha correndo em nossa direção vindo da praia onde estivera surfando com Brad e alguns amigos brutamontes. Estava com uma daquelas roupas de térmicas que os surfistas usam, mas a parte de cima estava abaixada caindo solta pelos quadris.

Gina me entregou a toalha que estava em suas mãos e correu na direção de Jake pulando nos seus braços e recebendo um beijo logo em seguida. Pois é... Jake e Gina estavam namorando.

Essa era a minha deixa. Não queria ter que ver meu meio-irmão se agarrando com minha melhor amiga, então eu simplesmente dei as costas e continuei meu caminho para entrar em casa.

Eu sei que disse que nesses últimos meses não houve grandes acontecimentos, mas eu não considerava isso grande coisa. Afinal, era bem óbvia a afinidade que eles tiveram desde o dia que se conheceram. Eles oficializaram tudo cerca de um mês depois daquela noite que eu voltei no tempo. E é claro que isso tornou Gina uma das alunas mais invejadas da escola. E odiada também, principalmente por Kelly Prescott.

Eu ainda ria lembrando do ataque de ciúmes da garota quando descobrira que Jake e Gina estavam juntos para valer. Ela tinha emitido um som estranho que se assemelhava a uma mistura de apito de futebol, rugido de leão e choro de criança quando está com fome. Enquanto gritava feito louca dentro do banheiro das meninas, o corredor que estava repleto de alunos ficou todo em silêncio apenas ouvindo aquele barulho. Ouvimos também uma de suas amigas implorando para ela parar de tentar arrancar os cabelos. O resultado de tudo isso foi uma Kelly que saiu para um corredor lotado que encarava aquela aparição de rosto muito vermelho e completamente descabelada.

No começo, seu grupinho de patricinhas superficiais ainda tentaram implicar com Gina, mas não dera muito certo.

Tínhamos acabado de sentar em uma mesa com Cee Cee e Adam para almoçar quando ouvimos a aproximação do bonde do terror.

– Oi, Gina – Kelly cumprimentara com falsa cortesia, parando junto da nossa mesa. Seu grupo de seguidoras parou atrás dela como guarda-costas. – Eu só vim te dizer para aproveitar bastante enquanto esse seu rolo com Jake durar, porque daqui a pouco ele enjoa de você e parte para outra. E eu estarei esperando.

Mas é claro que Gina não era do tipo que se abalava com esse tipo de comentário e nem do tipo que ficava calada.

– Oi Kelly, seu cabelo parece melhor hoje. O que fez? Transplante? – ela perguntou calmamente enquanto colocava catchup no cachorro-quente.

Kelly não respondeu nada, mas corou intensamente.

– E só para a sua informação – Gina continuou levantando o olhar para Kelly –, eu e Jake não estamos tendo um “rolo”. Estamos namorando.

– Isso é o que você pensa! – Kelly retrucou colocando as mãos nos quadris num gesto de desafio.

– Tem gente que não sabe a hora de se recolher à própria insignificância – Gina falou ainda com uma calma impressionante.

Eu tive que me controlar para não rir naquele momento e pude ver Cee Cee também se controlando, mas Adam ria sem o mínimo de pudor.

– Você está rindo de quê seu mongoloide? – Kelly esbravejou.

– De você, Kelly – Gina respondeu por ele. – Será que não vê que está fazendo um papel ridículo?

– Escuta aqui sua vad... – Mas Kelly não pôde continuar o insulto, porque nesse momento a mão de Gina apertou “acidentalmente” a bisnaga de catchup forte demais fazendo com que seu conteúdo espirrasse na estúpida blusa rosa de grife que Kelly usava.

– Ops – foi tudo que Gina falou.

Então ela levantou e andou até Jake que estava vindo em nossa direção com seu lanche na mão, que Gina tirou depositando-o em uma mesa próxima, envolveu seus braços no pescoço dele e o beijou na boca calorosamente.

Todos os alunos que estavam por perto e observaram o ataque de Kelly seguido pelo contra-ataque mais que perfeito de Gina começaram a assobiar e aplaudir a cena como se estivessem em um teatro. E riram da cara de Kelly quando ela saiu correndo e fazendo aquele barulho estranho de novo. Eu não sabia se ria ou se aplaudia. Acabei fazendo os dois.

Depois que eu entrei em casa e coloquei as toalhas na lavanderia, subi os degraus correndo para encontrar Jesse. Tinha que aproveitar qualquer momento que tivéssemos a sós.

Veja bem, não é que eu estivesse reclamando da presença constante de Gina na minha casa, mas o problema é que nas duas últimas semanas de aula, nós mal ficamos juntos. Eu passava o dia inteiro estudando e chegava tão cansada que tudo que eu queria fazer era dormir. E Gina estava dormindo aqui em casa desde ontem então significava que eu estava há duas semanas sem contatos íntimos com meu namorado.

Ok. Tudo bem. Eu posso até estar parecendo uma viciada em sexo, mas o problema é que quando a gente se acostuma com uma determinada coisa, é difícil parar. E eu estava com muita saudade dos toques de Jesse. E ele também estava. Eu sabia disso pelo modo com que ele me tocava na noite passada enquanto Gina estava escovando os dentes para ir dormir, mas interrompeu as carícias quando ouvimos a torneira fechar.

Jesse não estava no quarto quando eu entrei, mas bastou apenas que eu fechasse a porta – sem trancar já que Gina também estava dormindo ali – para que ele se materializasse no meio do quarto.

Andei até ele, que estendeu sua mão para pegar a minha e me puxou para perto de si.

– Estava com saudade, hermosa – ele murmurou, com o rosto enterrado nos meus cabelos.

Eu me aconcheguei naturalmente nos seus braços como sempre fazia, colando meu corpo ao dele, intensificando o contato.

Quando ele me beijava com tanta doçura quanto estava beijando agora, fazia com que sinos tocassem na minha mente, como se celebrassem uma união perfeita.

O sangue pulsava nas minhas veias, meu coração batia acelerado. Meus seios, colados junto ao peito másculo, arfavam me enchendo de prazer. E eu podia sentir sua excitação através da sua calça antiga e do vestido curto que eu usava por cima do biquíni.

A nossa respiração alterada era o suficiente para denunciar o que sentíamos. Naquele momento, nós nos desejávamos mais que tudo.

Senti ele me conduzindo em direção ao banheiro, fechando a porta atrás de si, e não fiz objeção. Lá poderíamos ter mais privacidade. Eu sabia que não iríamos nos aprofundar muito essa noite, mas iria aproveitar cada mínimo toque.

As mãos dele percorriam meu corpo, vorazes, me levando a loucura. Arqueei meu corpo contra o seu e meus seios tocaram seu peito novamente. Soltei um gemido de prazer ao sentir a mão dele deslizando sob o vestido tocando minhas coxas, acariciando minha pele que estava quente pelo sol e pela paixão que me invadia. Devagar, sem parar de me tocar um instante sequer, ele ergueu o vestido tirando-o por completo, me deixando apenas com o meu biquíni. Suas mãos passaram a acariciar meus seios por cima do tecido, deixando os mamilos intumescidos. Sua boca seguiu suas mãos e ele passou seus lábios por cada centímetro da minha pele, sem pressa.

Eu também o tocava, minhas mãos ousadas percorrendo suas costas, seus ombros, seu peito magnífico. Quando dei por mim, estávamos os dois nus nos tocando, pressionando um corpo contra o outro, querendo mais. E eu que pensei que não iríamos aos finalmentes.

Meu corpo todo clamava pelo dele. O quente contrastando com o frio causando um choque que só fazia aumentar as sensações. Ele fez com que eu sentasse na bancada e eu abri minhas pernas automaticamente. Ao senti-lo entre minhas coxas, arqueei mais o corpo na sua direção, encostando nossos quadris, fazendo-o gemer alto. Quando ele entrou em mim eu precisei tampar a minha própria boca com as mãos para abafar o gemido que saiu pela minha garganta.

Envolvi meus braços pelos seus ombros trazendo-o para mais perto de mim, fazendo com que nossos corpos se colassem. Uma de suas mãos estavam nas minhas costas me mantendo junto a ele e a outra permanecia no meu quadril enquanto ele intensificava os movimentos dentro de mim.

– Díos – Jesse gemeu com o rosto na curva do meu pescoço. – Hermosa eu não aguento mais.

Já sentia seu corpo começar a enrijecer contra o meu e eu comecei a experimentar da mesma sensação.

– Oh, Jesse...

Chegamos ao clímax juntos, logo em seguida. Após o que pareceu uma eternidade de espasmos de prazer, nossos corpos relaxaram. Continuamos abraçados por mais algum tempo, com Jesse acariciando meu cabelo molhado pelo suor.

– Você é maravilhosa – ele sussurrou no meu ouvido fazendo um arrepio involuntário percorrer meu corpo.

Eu me afastei dele apenas o suficiente para olhar nos seus olhos negros e enxergar neles o mesmo amor que eu estava sentindo.

– Eu te amo, Jesse.

– Eu te amo mais – ele falou antes de me beijar.

Ficamos ali por mais alguns instantes até que ouvimos as vozes de Gina e Jake no corredor.

– É melhor eu ir – Jesse falou olhando para a porta do banheiro que permanecia fechada.

– Ok.

Ele me deu mais um beijo antes de recolher suas roupas e desaparecer.

Tomei um banho demorado, sequei os cabelos e saí para o quarto enrolada na toalha, já que não tivera tempo de levar uma muda de roupa para o banheiro. Gina estava sentada no sofá que ainda não tinha sido convertido em cama e folheava uma revista despreocupada. Ou era o que parecia. Havia apenas uma coisa estranha ali: a revista estava de cabeça para baixo.

– Gina – eu chamei me aproximando dela. – Está tudo bem?

– Está. Por que não estaria? – Ela bem que tentou soar tranquila, mas sua voz saiu um pouco histérica.

– A revista está de cabeça para baixo – informei tentando controlar um riso.

– Ah – ela murmurou colocando a Cosmopolitan na posição certa.

– O que aconteceu? – eu perguntei sentando ao seu lado sem me importar de estar só de toalha.

Ela ergueu o rosto da revista para me encarar com uma expressão de medo e ansiedade.

– Jake pediu para eu ir para o quarto dele depois que você dormisse – ela falou tão rápido e baixo que eu quase não entendi. Eu disse “quase”.

– V–vocês vão... vão...? – gaguejei sem conseguir formular uma frase coerente.

Gina, pela primeira vez, corou intensamente.

– Acho que sim – ela balbuciou abaixando a cabeça constrangida.

Demorou alguns segundos para me recuperar do choque da novidade, mas depois a curiosidade falou mais alto.

– Me conta tudo! – exigi.

– É estranho. Eu não... – Mas ela não completou a frase e tornou a baixar a cabeça corando ainda mais.

– Ah, qual é, Gina! Você passou todo esse tempo fazendo brincadeiras sobre minha relação com Jesse e agora vem corar quando a situação é com você? Nem pensar, mocinha! Você vai me contar tudo.

Ela me encarou com um meio sorriso no rosto.

– É que é estranho – ela murmurou.

– Eu também achava isso e ainda assim te falei tudo, não falei?

Ela apenas assentiu com a cabeça.

– Então pode ir desembuchando!

Eu tentava a todo custo falar como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Como se não fosse nem um pouco estranho conversar com minha melhor amiga sobre sexo, quando esse sexo seria feito com meu meio-irmão. Eca.

Mas eu sabia que ela precisava disso. Eu queria ter tido alguém para conversar sobre isso quando eu conheci Jesse e senti tudo aquilo por ele.

– Me fala – pedi. – Como foi? Ele simplesmente chegou para você na maior e pediu?

– Não – Gina respondeu, então se pôs a falar e eu fiz de tudo para não fazer cara de nojo quando ela entrou em detalhes. – Nós estávamos lá embaixo na garagem e o clima começou a esquentar. – Ela ainda corava, mas agora que tinha começado não ia mais parar. – Já faz algumas semanas que as nossas carícias ficaram mais ousadas.

Eca! Eca! Eca!

– Ousadas como? – perguntei calmamente.

– Uns amassos mais quentes – ela explicou. – Nas duas últimas vezes ele pegou no meu seio.

Ai que nojo!

– E hoje, quando ele me encostou na parede da garagem, ele pressionou o corpo dele no meu e eu senti que ele estava bastante excitado.

Juro que senti alguma coisa subindo pela minha garganta. Eu pedi para ela me contar, mas também não precisava ser tão detalhada.

– E você?

– Eu o quê?

– Você também estava? – Era incrível como minha voz soava calma quando tudo que eu queria fazer era tampar os ouvidos para não precisar ouvir aquilo. Estava me saindo uma ótima atriz. Talvez seja a minha vocação. Ser atriz de Hollywood.

– Muito. Quanto mais ele me tocava, mais eu queria que ele continuasse.

– E até onde você quer ir com isso?

– Ah, sei lá... – Ela baixou a vista novamente.

– Gina – respira fundo. Vai lá. Você consegue perguntar isso –, você quer transar com Jake? – perguntei. Não vomita. Não vomita!

Ela me olhou novamente.

– Acho que sim. – Ela pensou um pouco olhando pela janela aberta. – É. Eu quero.

– Você tem certeza? – perguntei, mas eu queria mesmo era perguntar: você quer mesmo transar com aquele cara? Ele parece um ogro. E fica tão nojento quando está suado. Urgh.

– Tenho. Eu gosto dele de verdade, sabe? – Ela deu um sorriso de lado. – Ele é gentil, bonito, sexy. – Ok. Gosto a gente não discute. – E quando ele me toca eu me sinto tão bem. Tão viva. Parece que meu corpo todo fica em chamas.

Eu sorri lembrando que era exatamente assim que eu me sentia com Jesse.

– Mas eu tenho medo – ela continuou.

– Medo de quê?

– Sei lá. – Ela deu de ombros. – De doer. Ele é tão grande. Deve ser tudo proporcional.

Ai meu Deus. Eu não acabei de imaginar o tamanho do dito cujo do meu meio-irmão, acabei? Ai que nojo! Eca! Pensa em outra coisa, Suzannah! Qualquer coisa. Pensa em borboletas azuis. Pensa na nova coleção de sapatos Jimmy Choo. Pensa em qualquer coisa que não seja o tamanho proporcional de Jake.

– É normal doer um pouco, mas é só no começo – eu falei com minha voz soando incrivelmente calma. – E depende também da confiança que você sente com Jake. Se você se sentir segura com ele, logo ficará mais relaxada e nem vai se preocupar com a dor.

– Eu confio nele – afirmou rapidamente.

– Então não tem por que ficar com medo. Eu tenho certeza que você vai gostar. E depois fica bem melhor.

O sorriso de Gina aumentou ainda mais e ela me abraçou.

– Obrigada, Suze – ela falou depois que se afastou. – Agora eu estou mais tranquila.

Então ela levantou e correu em direção ao banheiro.

– Preciso me preparar – ela falou já na porta. – Tomar um banho caprichado para ficar bem perfumada para ele. Você me ajuda a escolher a roupa certa? E a lingerie também?

Ai meu santinho. Por que um raio não cai na minha cabeça quando eu preciso? Um terremoto também seria bem vindo. Desse jeito eu vou ter pesadelos.

– Claro! Será um prazer – respondi apenas, para evitar falar besteira.

Ela entrou no banheiro em seguida, fechando a porta com um sorriso no rosto e cantarolando.

E o Oscar de melhor atriz vai para... Suzannah Simon!

Ok. Fase um da minha ajuda para a primeira vez de Gina: concluída!

Mas antes de iniciar a fase dois eu precisava vestir alguma roupa. Já estava começando a ficar com frio enrolada apenas naquela toalha molhada. Peguei um short jeans curto e uma regata branca, me vesti rapidamente e saí do quarto em direção à segunda fase. Parei em frente à porta do quarto de Jake e bati.

Assim que entrei me arrependi. Que cheiro era aquele? Era uma mistura de suor e roupa suja. Argh. Além do cheiro, ainda tinha a bagunça. Roupas espalhadas por todo canto visível – e aposto como nos não visíveis também –, revistas de carro jogadas no chão e na cama, diversos pôsteres daquele estúpido Camaro na parede.

Jake estava sentado no chão, só de bermuda e jogava vídeo game com uma empolgação infantil.

– Ah, é você – ele exclamou, desviando a vista do videogame apenas o suficiente para dar uma rápida olhada em mim e voltou sua atenção ao jogo.

– É, sou eu – murmurei entrando naquele antro e fechando a porta atrás de mim. – Quero falar com você.

– Manda! – ele falou ainda sem desviar a vista do jogo.

Manda? Manda?! Eu sei o que eu vou mandar seu estúpido, imbecil, aproveitador de amigas inocentes.

– Será que você poderia parar de jogar um pouco e prestar atenção em mim? – perguntei calmamente.

– Eu estou prestando atenção em você. – E continuava com a atenção voltada para a batalha sangrenta que acontecia na tela. – Morre. Morre! – ele exclamou apertando os botões do controle tão rápido que mal se viam seus dedos.

Essa foi demais para mim. Andei até onde ele estava e puxei o cabo do controle que estava conectado a TV.

– Mas o quê...? – ele me encarou furioso. – Porque você fez isso?!

– Posso falar agora? – perguntei parando a sua frente e cruzando os braços.

Ele ainda se inclinou para olhar o jogo na TV onde se via a mensagem “Você Perdeu, Babaca!”, antes de levantar e sentar no único ponto livre de tralhas na sua cama.

– Fala, Suze! – ele pediu num suspiro.

Resolvi não fazer rodeios.

– Você espera mesmo trazer minha melhor amiga para dormir aqui nessa zona que é o seu quarto?

Seus olhos se arregalaram na minha direção e sua boca ficou aberta por alguns segundos, conferindo-lhe uma aparência de doente mental, mas depois ele recuperou a pose e me encarou sem graça.

– Ela te falou? – ele perguntou constrangido.

– Claro que sim – respondi ainda de braços cruzados. – Amigas sempre contam tudo uma para outra. Então, o que você pretende fazer com relação a isso? – perguntei abrindo os braços para abranger todo seu quarto.

– Isso o quê?

– Como o quê, Jake? Seu quarto?

– E o que tem ele? – ele perguntou olhando ao redor sem entender.

– Você acha que Gina vai gostar de deitar nessa sua cama fedorenta cheia de roupas sujas?

– Ela te falou alguma coisa? – ele perguntou com o cenho franzido.

– Claro que não! Ela nunca entrou aqui, ou entrou?

– Não. Ainda não.

– E você pretende transar com ela aqui no meio das suas meias sujas?

Ele se levantou e foi até a TV para desliga-la, parando ao meu lado.

– Isso é entre nós dois.

– Gina é minha amiga e eu não vou permitir que ela seja obrigada a usar um protetor de nariz na primeira vez dela. Ou você não sabe que é a primeira vez dela?

– Eu sei – ele respondeu com a voz um pouco abatida e baixou a cabeça desviando o olhar do meu. – Mas é que eu não sou do tipo romântico. Nem saberia ser.

– É para isso que eu estou aqui – afirmei categórica.

– Você vai me ajudar? – ele perguntou espantado erguendo os olhos para me encarar.

– Claro! Eu seria uma pessoa muito desnaturada se não ajudasse meu irmão a ser menos ogro com minha melhor amiga.

Ok. Para tudo! Foi impressão minha ou eu acabei de chamar Jake de irmão?

Hum. Isso foi estranho. E curioso.

Jake abriu um enorme sorriso e, para tornar tudo ainda mais estranho, me abraçou erguendo um pouco meu corpo do chão.

– Obrigada, maninha! – ele exclamou depois que me soltou. – Você é o máximo.

Argh! Dane-se. Já que eu estou no inferno é melhor me juntar ao capeta mesmo.

Então agora chega com essa história de meio-irmão. Pelo menos para Jake. E pro David também. Ele é tão legalzinho comigo. Mas Brad continua sendo só meio-irmão. Por mim ele não seria nem isso.

Tudo bem que ele tinha sido bem fofo comigo naquela manhã que ele ficou todo protetor querendo conhecer Jesse para saber das intenções dele, mas tinha sido só aquela vez. E já fazia muito tempo.

Mas, como eu sou uma alma caridosa, eu posso pensar na possibilidade de promover ele ao posto de irmão se ele for legal comigo mais alguma vez.

– Mas a gente precisa ir rápido. Só temos uma hora antes do jantar. Eu te ajudo a começar, mas você vai ter que terminar sozinho.

– Por quê?

– Porque eu tenho que ficar com Gina no quarto depois do jantar ou ela vai desconfiar que eu te ajudei.

– E onde ela está agora?

– No banho. Vai demorar um pouco ainda.

– No banho, é? Hum. – Ele lançou um olhar malicioso em direção a parede como se tentasse ver através dela. E olha que ainda tinha o quarto de Brad no meio.

– Eca, Jake. Eu ainda estou aqui.

– E daí?

Calma, Suze. Respira, respira!

– Vai querer minha ajuda? – perguntei com calma.

– Claro!

– Então é melhor se comportar. – Ele olhou na minha direção e bateu continência para mim. Gracinha! – Vamos começar.

– O que eu faço? – ele perguntou olhando ao redor.

– A primeira coisa que a gente tem que fazer é recolher a roupa suja. Vou lá embaixo pegar um saco para colocar tudo dentro. Enquanto isso você vai juntando tudo.

Saí para o corredor e antes de descer as escadas entrei no meu quarto para verificar se Gina ainda estava no banho. Estava. Ok.

Na volta para o quarto de Jake eu fiz a mesma coisa e dei uma leve batida na porta do banheiro para perguntar se Gina iria demorar. Ela me pediu mais quinze minutos que eu automaticamente aumentei para vinte.

Depois que recolhemos as roupas, Jake desceu para coloca-las na lavanderia e trazer produtos de limpeza enquanto eu recolhia as revistas de carros e as colocava em uma cesta apropriada para isso, mas que estava vazia. Homens!

Trocamos os lençóis da cama – Jake retirou os sujos já que eu não tive coragem de tocá-los – e eu forrei com os novos, dando um acabamento melhor antes que eu tivesse que voltar para o quarto para ajudar Gina com a roupa e a lingerie.

– Ok. Agora é com você – avisei depois que o instrui com o resto da limpeza com os produtos. – Mas antes eu queria te dizer umas coisas.

– Sinto que lá vem bomba. – Ele parou no meio do quarto e esperou que eu falasse.

– Em primeiro lugar – comecei –, como você já sabe, essa é a primeira vez de Gina, então...

– Você vai mesmo querer conversar sobre sexo comigo, Suze? – ele me interrompeu cruzando os braços e erguendo uma sobrancelha.

– Escuta aqui, seu garanhão. – Isso foi para ofender, mas ele estufou o peito orgulhoso. Imbecil. – Gina não é nenhuma Kelly Prescott que você pega de qualquer jeito.

– Eu sei que não – ele garantiu e eu vi a sinceridade no seu rosto.

– Então é bom que você seja gentil e paciente com ela. Ela está um pouco nervosa.

– Está? – ele perguntou finalmente descruzando os braços e parecendo preocupado.

– Claro, mas é normal. É só você ser carinhoso com ela. Você consegue fazer isso?

– Claro que sim. Eu nunca a machucaria. – E ali estava a sinceridade novamente.

– Certo. Segunda coisa – continuei. – Gina está se arrumando para você – eu tentei ignorar o novo olhar de malicia que ele dirigiu na direção do meu quarto – e é bom você fazer o mesmo.

– Quê? – ele me olhou espantado.

E eu lá falei em grego?

– Eu só estou te pedindo para você tomar um banho decente e colocar uma roupa limpa e sem furos. É pedir demais?

– Não. Eu posso fazer isso.

– Ah, e você tem alguma cueca boxer? – Ok. Foi uma coisa meio estranha de perguntar ao meu irmão, mas é que eu lembrei de repente e não deu tempo de editar. E é claro que eu corei depois de perguntar.

Jake também corou, por incrível que isso possa parecer.

– Suze, essa conversa está começando a ficar estranha.

– Deixa de ser chato, Jake – eu o repreendi embora achasse a mesma coisa. – Gina me disse que acha... er... sexy.

– Mesmo? – ele riu e seus olhos brilharam. – Eu tenho algumas. Tenho preta, branca, azul e cinza. Qual você acha melhor?

Ai céus! Eu acho melhor a gente pular a parte que eu ajudo a escolher a cor da cueca que meu irmão vai usar com a minha amiga.

– A preta – respondi sem conseguir olhar para ele.

– Certo. O que mais ela falou que gosta? – ele perguntou empolgado. – Ela falou alguma coisa de como gosta mais quando eu a toco ou...

– Jake – eu o interrompi sem querer ouvir aquilo –, vamos voltar ao que interessa.

– Mas isso interessa – ele retrucou.

– Terceira coisa – continuei, ignorando–o. – Deixa ela dormir aqui um pouco. Sei que seu pai e minha mãe não podem descobrir sobre isso, mas não é nem um pouco legal você mandar ela para o meu quarto assim que acabar. Espera o dia começar a amanhecer.

Jake franziu o cenho e me encarou com a expressão curiosa.

– Que foi? – perguntei sem entender sua atitude.

– Você é virgem, Suze?

– Quê?! – quase gritei tamanho foi o susto que eu tomei com a sua pergunta.

– É só que você fala como se tivesse experiência no assunto – ele respondeu me analisando.

– Isso é lá pergunta que se faça? – eu falei tentando parecer ofendida.

– E você ainda não respondeu.

– Não respondi porque não é da sua conta.

– Nós estamos aqui falando da minha vida sexual. – Ele cruzou os braços e sorriu. – Então eu acho que isso me dá o direito de perguntar sobre a sua.

E o pior é que dava mesmo. Mas eu não tinha coragem de responder, então achei melhor ficar em silêncio.

– Hum – ele murmurou. – Quem cala consente.

Eu apenas desviei meu olhar do dele e dei de ombros.

– Então é verdade? – ele exclamou rindo. – Uau. Eu sabia que você não era nenhuma santinha, mas também não imaginava que fosse tão...

– Está bem, Jake. Já chega! – eu o interrompi, irritada. – Tenho que voltar para o meu quarto. Gina já deve ter saído do banho. – Abri a porta para sair. – Ah, e não esqueça de usar camisinha – sussurrei para ele antes de fechar a porta.

Só porque eu não precisava usar camisinha com o meu namorado, não queria dizer que eu não lembrava essas coisas.

Entrei no quarto e, como imaginei, Gina já estava lá revirando a sua pequena mala que estava no canto do quarto. Ainda estava apenas de toalha e deu um suspiro de alívio quando entrei.

– Nossa, até que enfim – ela exclamou se erguendo para falar comigo. – Pensei que tinha esquecido de mim. Onde você estava?

– Lá embaixo falando com a minha mãe – improvisei. – E aí? Já escolheu a roupa?

– Ainda não – ela respondeu voltando a atenção para a mala. – Eu estou na dúvida.

Eu a ajudei com isso e ela já estava completamente vestida quando Andy gritou, do andar de baixo, que o jantar estava pronto. Escolhemos um vestido branco tomara-que-caia que ia até cerca de um palmo acima do joelho, e que ficava lindo em contraste com a pele bronzeada dela. Deixamos seus cabelos cacheados ao natural e ela estava pronta. Não era muito a cara dela usar uma roupa tão delicada, mas ela mesma disse que não queria usar nada de couro, nem jeans, então essa foi a melhor opção.

O jantar transcorreu sem problemas. Eu continuava a fingir que não percebia a mão de Jake na perna de Gina e ninguém percebeu que ela estava mais calada que de costume, já que David monopolizou toda a conversa falando sobre o acampamento de ciências que ele iria depois das festas de final de ano.

Hoje era o dia de Brad lavar os pratos, então depois que tiramos os pratos da mesa, eu subi com Gina para o meu quarto. Jake fingiu que eu não sabia de nada sobre a noite dos pombinhos e nos desejou boa noite antes de subirmos. Mas é claro que eu notei o olhar intenso que ele lançou na direção dela antes de sentar no sofá para assistir um filme com Andy.

Quando chegamos, Jesse estava lá sentado no assento da janela apreciando a vista da baía e estendeu a mão para mim depois que fechei a porta. Espera aí! Gina não iria dormir ali hoje, o que significava que eu teria a noite inteira a sós com meu namorado. Ah! A vida é bela!

Gina sentou na sua cama – que minha mãe tinha arrumado provavelmente quando eu estava no quarto de Jake – e pegou a Cosmopolitan, nervosa demais para conversar. Jesse estava sentado com as pernas estiradas no assento e eu sentei entre elas, me recostando no seu peito másculo. Era tão gostoso ficar ali com ele acariciando meu braço de leve e beijando meu pescoço e meus cabelos que nem notei o tempo passar.

– Está tudo bem, Gina? – Jesse perguntou depois de cerca de uma hora com os três em completo silêncio.

– Uhum. Está – ela respondeu rápido sem tirar seu rosto que estava escondido atrás da revista.

– Você está calada – ele insistiu.

Eu dei uma cotovelada de leve na sua barriga sinalizando para ele ficar quieto. Ele entendeu o recado e não falou mais nada.

– Não é nada – sua voz começava a ficar histérica.

Tinha que fazer alguma coisa para acalma-la. Só não sabia o quê.

– Gina – chamei, e ela ergueu o olhar da revista –, vem comigo.

Levantei e fui em direção ao banheiro. Ela me seguiu e eu fechei a porta depois que entramos.

– Você precisa relaxar, Gina – falei olhando-a preocupada.

– Eu estou tentando – ela murmurou visivelmente tensa.

– Tem alguma coisa que eu possa fazer para te ajudar?

Ela mordeu o lábio inferior enquanto pensava.

– Sei lá. Acho que... hum... – Ela assumiu uma expressão como se tivesse visto a luz no fim do túnel. – Acho que se você me falar um pouco de como é com você e Jesse talvez eu fique mais calma.

Ai meu Deus. Eu ia ter que descrever minha relação sexual com Jesse? Vergonha é pouco. Não que eu nunca tivesse falado nada para ela, mas a diferença era que ela estava pedindo isso para se preparar para transar com meu irmão. E isso era, no mínimo, estranho.

– Você quer saber sobre o quê exatamente? – perguntei temendo sua resposta.

– Ah, sei lá. Como é que você faz para não ficar nervosa? Como é que você faz para entrar no clima da coisa?

– Eu não faço nada – respondi com sinceridade. – É só ele me tocar que eu já “entro no clima”.

Eu notei sua cara de desapontamento então resolvi falar um pouco mais. Qualquer coisa que desviasse sua atenção.

– Sabe – comecei –, hoje quando a gente voltou da praia e você ficou lá embaixo com Jake, eu encontrei Jesse aqui no quarto quando subi.

Ela apenas me encarou com as sobrancelhas erguidas, mas eu pude notar seu interesse.

– E a gente começou a se beijar – continuei – e não conseguimos parar.

Seus olhos se arregalaram enquanto um enorme sorriso surgia nos seus lábios.

– Você está querendo me dizer – ela sussurrou – que você e Jesse...

– Sim – respondi e consegui não corar.

– Quando? Onde? – ela quis saber.

– Aqui mesmo no banheiro. Mais especificamente nessa bancada que você está encostada.

Ela se afastou rápido do local e me lançou um olhar aparvalhado.

– Sua pervertida! – ela exclamou e nós rimos.

Depois que saímos para o quarto ela já estava completamente relaxada e ficou conversando conosco até que percebemos que todos na casa tinham ido dormir.

Ela respirou fundo e se levantou.

– Me deseje sorte – pediu já andando na direção da porta.

– Boa sorte – desejei. – E divirta–se.

– Eu vou – ela respondeu com um sorriso no rosto. Antes de sair ela se virou para mim. – Obrigada por tudo, Suze.

– Disponha – falei sorrindo.

Ela saiu e fechou a porta atrás de si.

– Onde ela está indo? – Jesse perguntou depois que ficamos a sós.

– Para o quarto de Jake – respondi com simplicidade.

Jesse não falou nada, mas compreendeu o significado daquelas palavras.

– Então nós teremos o quarto só para nós essa noite? – ele perguntou em um sussurro com os lábios encostados no meu ouvido fazendo um arrepio percorrer todo meu corpo.

Eu simplesmente me virei ficando sentada no seu colo de frente para ele com uma perna de cada lado do seu corpo e o beijei com paixão.

Essa noite prometia. E não apenas naquele quarto.