Atração Involuntária
18 Capítulo 18
CAPÍTULO 18
Era dia 22 de dezembro e eu estava no quarto com Gina embrulhando os presentes de Natal que tínhamos comprado. Eu já tinha embrulhado o dela na noite anterior para ela não ver. Tinha sido muito difícil achar seu presente, já que ela tinha tudo, mas eu tinha achado, com muita sorte, um CD que eu sabia que ela queria muito, mas que estava praticamente extinto.
Já estávamos quase acabando quando seu celular tocou.
– É minha mãe – ela falou antes de atender. – Oi, mãe. – Fez uma pausa para escutar. – Sim, eu estou na casa dela. – Nova pausa. – O que aconteceu? – Mais uma pausa, mas dessa vez mais longa. Gina levantou do chão onde estávamos sentadas e andou até perto da janela onde Jesse lia um livro de biologia.
Pois é. Depois que ele tinha lido todos os meus livros de história e os que eu tinha trazido da biblioteca, ele passara sua atenção às ciências biológicas e, mais uma vez, eu preferia ficar de fora quando ele embarcava nesse tipo de leitura.
– Passar o Natal onde? – Gina exclamou visivelmente alterada. – Mas eu não quero ir. – Ela escutava o que sua mãe falava, mas me olhava aflita. – Mãe, eu não quero! – falou novamente. – Porque vovó é uma louca e vai querer arrancar meu piercing de novo. Da última vez demorou mais de um mês para cicatrizar.
Eu não pude deixar de rir com isso, embora tivesse ficado triste de saber que Gina iria passar o Natal em New York com sua avó.
– Mãe, eu não vou para a casa dela nem arrastada. – Eu podia ouvir sua mãe gritando no telefone embora não entendesse o que falava. – Tudo bem, eu estou indo para casa agora, mas vou logo avisando que não tem conversa que me faça passar o Natal com ela. Certo, mãe. Até daqui a pouco.
– O que aconteceu? – perguntei assim que ela desligou.
– Minha avó caiu da escada e quebrou a bacia.
– Minha nossa! – exclamei assustada. – Ela está bem?
– Está. Ainda está no hospital, mas vai receber alta amanhã. – Ela sentou no chão novamente me ajudando a terminar o último embrulho. – O problema é que ela ia passar o Natal na casa do meu tio que mora em New Jersey, mas agora não vai poder viajar. Então ela inventou que quer os filhos dela em casa para celebrar o Natal juntos. Meu tio está indo hoje para lá com a família e minha mãe quer partir amanhã bem cedo, mas eu não quero ir – ela terminou com a voz irritada.
– Você pode ficar aqui – eu sugeri sem pensar, mas depois achei a ideia muito boa.
– Mesmo? – Gina perguntou excitada.
– Claro – confirmei. – Isso é, se sua mãe deixar.
– E a sua mãe? – ela perguntou incerta. – Será que ela não se incomoda?
– Você está de brincadeira? – perguntei sorrindo. – Minha mãe te adora. Acho que, por ela, você se mudava de vez para cá.
Nós duas rimos enquanto separávamos a minha pilha de presentes da dela que era maior que a minha, já que ela insistira em comprar presentes para toda a minha família. Ela disse que falaria com a mãe dela e me ligaria logo em seguida e pegou apenas o presente da mãe e do pai já confiando na resposta positiva deles.
Assim que ela saiu, eu fui até a extensão do telefone ao lado da minha cama e liguei para minha mãe para informar as novidades e não me enganei com relação à sua reação.
– É claro que ela pode passar o Natal conosco. Vai ser maravilhoso. – Então sua voz ficou um tanto embargada e eu imaginei que ela estava com lágrimas nos olhos. – Ah, filhinha. Eu fico tão feliz de ver você fazendo tão boas amizades. É incrível como você está mudada. Eu te sinto tão mais leve.
E, por incrível que pareça, ela estava certa. Eu quase não precisava mais fingir ser uma garotinha meiga e inocente. Eu quase não me metia mais encrencas já que Gina – que simplesmente amava ser uma mediadora – assumia todos os casos de novos fantasmas que apareciam na região.
Eu só entrava na jogada quando a coisa começava a se complicar como quando, por exemplo, um fantasma ficava mais agressivo que o normal. Então, como não tinha tanta coisa com o que me preocupar, eu acabei ficando mais calma. Mas ainda precisava me policiar com meu linguajar, principalmente quando ia responder a alguma das gracinhas de Brad na frente dos outros.
Depois que encerrei a ligação, eu guardei os presentes dentro do guarda-roupa e liguei o som colocando o CD de Janet Jackson para esperar a ligação de Gina.
– Que barulho é esse? – Jesse perguntou assim que a primeira música começou a tocar.
– Não começa Jesse. Você e sua implicância com meu gosto musical – respondi simplesmente e me joguei na cama.
Jesse nunca aprovava as musicas que eu ouvia então, na maioria das vezes, eu a as escutava com os fones de ouvido.
– Ah, é musica? – ele retrucou encarando o aparelho de som com o cenho franzido. – Pensei que estavam torturando alguém.
Eu preferi não responder e comecei a acompanhar a música com os olhos fechados. Quando os abri Jesse estava parado ao lado da cama me observando
– Por que você escuta esse tipo de música quando tem CDs tão bons na sua coleção? – ele perguntou com um sorriso irresistível no rosto.
– O que você considera bom, para mim é cafona.
– James Morrison não é cafona – ele retrucou ainda sorrindo.
– James Morrison é cafona. E – eu continuei quando ele estava prestes a discordar de mim mais uma vez – eu não tenho o CD dele.
– Claro que tem.
– Não, eu não tenho.
– Tem sim.
– Jesse – eu comecei num tom como se falasse com uma criança – eu saberia se tivesse algum CD desse cara. Afinal, os CDs são meus.
Ele simplesmente deu as costas para mim sem falar nada e se encaminhou até onde eu guardava meus CDs e DVDs. Procurou um pouco e voltou com uma caixinha na mão que estendeu para mim. Era... James Morrison.
– Você tem – ele falou.
Quando foi que eu comprei isso? Esse estava bem longe de ser o tipo de música que eu estava acostumada a ouvir. Forcei um pouco a memória enquanto olhava o CD em minhas mãos. Ainda estava deitada na cama e Jesse continuava parado ao meu lado. Então eu lembrei. Eu tinha ganhado em uma brincadeira de amigo secreto da escola na Suíça. Como eu nunca tinha feito nenhuma amizade mais firme por lá, ninguém sabia o meu gosto musical e acabaram me dando esse. Eu me lembro de ter jogado o CD em um canto do quarto naquele mesmo dia e só o achara quando estava juntando minhas coisas para a mudança para a Califórnia.
– Se você nem sabia que tinha esse CD é porque nunca o ouviu – Jesse continuou me encarando com a sobrancelha erguida.
– Mas eu sei que tipo de música ele toca. E eu não gosto.
– Bem, eu já ouvi e sei que é bom.
É. Jesse tinha essa mania de ficar mexendo nas minhas coisas quando eu não estava em casa.
– Sua opinião não conta muito já que você viveu numa época onde não se tinha muita variedade musical – eu o contradisse e lhe estendi o CD de volta.
– Muito pelo contrário. – Ele me deu outro daqueles seus sorrisos perfeitos. – Eu já vivi bastante e passei por muitos estilos musicais diferentes e posso dizer, com certeza, o que é bom ou não. E James Morrison é bom.
– Essa é a sua opinião. – E eu fechei os olhos e voltei a acompanhar a música.
Só tornei a abrir os olhos quando senti o colchão ceder ao meu lado quando Jesse se juntou a mim. Mas ele não ficou ali simplesmente ouvindo a música como eu estava. Ele deitou sobre mim apoiando seu peso sobre seu cotovelo, mas ainda assim permitindo que eu sentisse cada parte do seu corpo.
– Por que você não me deixa colocar esse CD? Depois que você ouvir, você diz se gostou ou não? – ele sussurrou no meu ouvido de uma forma muito manipuladora.
– Eu não vou gostar. – Minha voz saiu baixa já que eu fiquei completamente sem ar, meu corpo inteiro já respondendo ao seu.
– Você não sabe. – Seus lábios roçavam no meu pescoço fazendo com que qualquer resposta evaporasse.
Suas mãos deslizaram por dentro da minha blusa tocando a pele nua da minha cintura e eu arqueei meu corpo involuntariamente de encontro ao seu.
– Por favor, hermosa – ele pediu com a voz rouca de encontro ao meu ouvido.
– Er... o quê? – Eu já não raciocinava direito. Meus seios arfavam e meu corpo estava inteiramente em chamas.
– Posso colocar o CD de James Morrison para tocar? – ele pediu no mesmo tom de voz com sua respiração roçando a pele sensível do meu pescoço.
– Sim – foi só o que eu consegui dizer num sussurro. Sendo tão persuasivo assim Jesse poderia me pedir o que quisesse que eu não teria como negar. Ele podia até pedir que eu dançasse tango em um pé só que eu faria.
Ele sorriu triunfante contra a minha pele e levantou depois de beijar meus lábios de leve.
– Isso foi muito feio, Jesse – eu o repreendi embora ainda estivesse com a respiração ofegante.
Ele apenas riu enquanto tirava o CD de Janet Jackson e colocava o de James Morrison no lugar. Assim que a melodia calma começou a ecoar pelo quarto ele veio na minha direção novamente e me estendeu a mão.
– Dança comigo? – ele pediu com um olhar intenso.
Tinha como negar um pedido desses? Impossível. Eu sou de carne e osso afinal de contas.
Ele me conduziu até o meio do quarto e eu passei meus braços pelo seu pescoço.
– O que você está fazendo? – ele perguntou se afastando um pouco com o cenho franzido.
– Dançando com você. O que parece?
– Eu não sei dançar assim – ele disse.
– É como eu sei. É fácil. Veja. – Tirei minhas mãos do pescoço dele e levei suas mãos até a minha cintura, então coloquei as minhas mãos de volta no seu pescoço. – Agora é só balançar no ritmo.
Jesse fez o que eu disse.
– Viu só? Você está dançando.
– Que tipo de dança é essa? – ele perguntou ainda achando aquilo estranho.
– Lenta – eu falei. – Nós chamamos de dança lenta.
Jesse não falou mais nada. Era incrível como ele aprendia tudo tão rápido.
Nós ficamos ali nos movimentando devagar ao som de James Morrison que, por incrível que possa parecer, eu gostei. Se bem que dançando com Jesse eu topava ouvir qualquer coisa, até mesmo Mariah Carey. É isso mesmo. Eu não gosto de Mariah Carey. Eu sei que a música “Hero” é um clássico, mas eu não vou com aquela cara dela de empregada emergente que ganhou na loteria. Ela pode até ser diva, mas para mim ela é a rainha suprema da cafonice.
O que eu estava fazendo? Como eu podia pensar em Mariah Carey quando tinha Jesse tão perto de mim?
Ele me puxou para mais perto do corpo dele, fazendo com que não restasse espaço algum entre nós. No momento que meu corpo encostou ao dele eu pude sentir que ele estava excitado. Ele percebeu que eu tinha sentido e sorriu sem graça.
– Você me deixa assim – ele sussurrou no meu ouvido com a voz rouca, fazendo um arrepio percorrer todo meu corpo.
Então a dança lenta passou para algo mais quando eu rocei meu corpo no dele fazendo-o gemer de satisfação. Suas mãos percorriam minhas costas enquanto eu mantinha as minhas presas ao seu pescoço para me manter em pé já que minhas pernas tinham virado manteiga. Ele tocava em toda parte do meu corpo que suas mãos alcançavam, começando pelo quadril e subindo pela minha cintura, passando então para as minhas costas. Seu toque deixava um rastro de fogo na minha pele e em questão de segundos eu já estava clamando por mais.
Nossos corpos se moviam no ritmo da música, friccionando um no outro a cada movimento. Eu finalmente consegui firmar minhas pernas e deixei minhas mãos deslizarem pelo seu peito descendo cada vez mais. Suas mãos a essa altura já estava dentro da minha blusa e subiam em direção aos meus seios. Eu prendi a respiração aguardando o contato quando, para minha total frustração, o telefone tocou.
Eu dei um pulo para trás do susto que levei. Essa foi a única vez que eu fiquei com muita raiva de ter uma extensão no quarto, já que seu toque quebrou o clima perfeito. Jesse também não parecia muito feliz a julgar pela forma como ele encarava o telefone como se quisesse jogá-lo pela janela.
– Essa dança foi... diferente – ele falou com a voz ainda rouca.
Eu só tive tempo de sorrir para ele antes que ouvíssemos a voz de Andy.
– Suze – ele praticamente gritou do andar de baixo. – É para você.
Corri para o aparelho já sabendo quem era. Mal falei “alô” quando ela começou a gritar empolgada do outro lado da linha.
– Ela deixou. Ela deixou! – Ela falava tão alto que eu precisei afastar o fone do ouvido para não ficar surda. – Ah, que perfeito. Vai ser o melhor Natal da minha vida! – Escutei um barulho surdo seguido de um gemido.
– Gina, está tudo bem? – perguntei tentando controlar o riso.
– Está. Eu só tropecei. Já estou arrumando minhas malas – ela falava apressada, mas não gritava mais. – Ah, antes que eu me esqueça, minha mãe quer o telefone da sua mãe para ligar para ela e confirmar se não tem nenhum problema mesmo eu passar o Natal com vocês. Você já falou com ela, não falou?
Ela falava tão rápido que eu mal tinha tempo de pensar nas suas palavras.
– Falei – respondi e passei o número do trabalho da minha mãe.
– Ah, faz um favor para mim – ela pediu ainda com a voz agitada, mas quase num sussurro. – Não fala para Jake que eu vou passar esses dias aí. Eu quero fazer uma surpresa.
– Pode deixar – prometi.
– Bem que você disse que depois da primeira vez não dá vontade de parar.
Nós rimos e ela desligou prometendo chegar em menos de uma hora.
Gina ainda não tinha dormido com Jake desde a primeira vez que tinha sido há apenas dois dias, mas pelo visto, ela já tinha gostado, e muito, da coisa. Eu praticamente tive que arrancá-la do quarto de Jake na manhã seguinte à primeira noite deles.
Jesse foi o responsável pela salvação. Ele me acordou na manhã de domingo ainda bem cedo.
– Suzannah – ele falava baixo, embora ninguém da casa pudesse ouvi–lo. – Suzannah – ele insistiu quando eu tentei ignorá-lo.
– O que foi, Jesse? – perguntei com a voz sonolenta. – Que horas são?
– Ainda é cedo, mas...
– E hoje é domingo – eu o interrompi. – E eu estou de férias. – Tentei puxar o cobertor para cobrir meu rosto da claridade que começava a entrar pela cortina aberta da minha janela, mas ele me impediu.
– Suzannah, acorda. – Sua voz estava ansiosa, mas eu não entendi o motivo.
– O que foi? – perguntei enfim o encarando irritada.
– Acho que sua mãe acordou.
Eu ouvi um barulho de pratos sendo retirados do armário no andar de baixo. É. Definitivamente alguém estava acordado. Provavelmente minha mãe já que ela era do tipo que madrugava.
– E daí? – eu perguntei ainda sem entender sua atitude.
– Gina ainda não voltou para o quarto.
Eu olhei para o sofá-cama que continuava intacto, então a lembrança de onde ela estava chegou à minha mente.
– Droga! – exclamei já pulando da cama. – Jake é um imbecil mesmo. Se alguém descobrir, eu vou me ferrar junto com eles.
Olhei ao redor procurando minhas roupas que tinham sido jogadas de qualquer jeito pelo quarto na noite anterior. Jesse me ajudou a recolhê-las embora eu preferisse que ele não o tivesse feito, já que ele estava tão desprovido de roupa quanto eu e isso acabou tirando meu raciocínio momentaneamente. Depois que despertei do transe de ver Jesse nu, levei as roupas até o cesto de roupas sujas no banheiro, peguei uma camisola que tinha deixado por lá e vesti o roupão de algodão por cima antes de sair do quarto.
Minha mãe ainda estava na cozinha, mas eu preferi andar nas pontas dos pés evitando fazer qualquer barulho. Bati de leve na porta do quarto de Jake, mas depois de bater quatro vezes seguidas eu percebi que aquilo não adiantaria. Não podia bater mais forte ou minha mãe ouviria, então só me restava entrar para acordá-los. Ai meu Deus. Eu me meto em cada uma.
Coloquei uma mão na frente dos olhos para evitar ver alguma coisa que me faria vomitar e entrei fechando a porta atrás de mim sem ruídos.
– Jake? – chamei ainda enxergar. Nada de resposta. – Gina? – tentei novamente. Nada.
Bando de surdos! – tive vontade de gritar.
– Jake? – tentei novamente aumentando um pouco o tom de voz.
Dessa vez eu ouvi um movimento de lençóis se movendo na cama.
– Mas que diabos...?! – ele exclamou, mas sem gritar. Ele tinha noção do perigo. – O que você está fazendo aqui?
– Eu vim levar Gina para o quarto já que você não seguiu o combinado. – Era estranho conversar assim sem olhar para a pessoa, ainda mais sendo essa pessoa meu irmão que provavelmente estava nu a apenas alguns metros.
– E precisava entrar? – ele perguntou com a voz irritada.
– Suze? – Gina exclamou com a voz sonolenta. – O que...?
– Eu bati. Mais de uma vez, por sinal. – Tateei a porta às minhas costas. – Mamãe já acordou – informei girando a maçaneta devagar. – É melhor você voltar logo para o quarto, Gina. E tentem não fazer barulho.
Saí apressada para me livrar daquele cheiro que era uma mistura do floral do produto que eu tinha dado para Jake limpar o quarto e outra coisa que eu prefiro não mencionar.
É claro que depois disso Gina descobriu que eu tinha ajudado Jake a deixar o quarto habitável para a noite deles.
– Mas eu desconfiei logo – ela dissera enquanto andávamos pelo shopping na tarde de domingo. Nosso plano inicial era ir pela manhã, mas isso não dera muito certo já que Gina mal tinha dormido durante a noite. – Eu estranhei quando vi o quarto dele tão arrumado. Eu nunca tinha entrado lá, mas já desconfiava que fosse algo parecido com um campo de batalha.
– Algo parecido – eu ri.
– Suze – ela chamou embora eu estivesse ao seu lado.
– Oi?
– Obrigada por ajudar a tornar minha noite ainda mais perfeita.
– Para que serve as amigas, certo?
Ela apenas assentiu e continuamos nossa busca pelos presentes, cada uma com sua listinha na mão.
Pois é. Apesar de todo o nervosismo inicial, Gina tinha adorado a sua primeira vez. E a segunda vez também, conforme ela dissera, que tinha sido naquela mesma noite. Ela me contou tudo, com exceção de alguns detalhes que eu pedi que ela deixasse de fora. Ora! Ele é meu irmão afinal de contas. Eu não vou querer saber do tamanho de determinada coisa ou a forma como ele a toca e como isso a faz se sentir. Fora isso ela me contou tudo. E disse que não via a hora de repetir. E pelo visto ela repetiria essa noite.
Eu só precisava pedir para ela programar o despertador para acordá-los. Não queria ter que fazer isso outra vez.
Era véspera de Natal e minha casa parecia um hospício. Sem exageros. Minha mãe estava tão louca com essa coisa de ceia de Natal que já estava surtando. Eu ainda tentei acalmá-la ajudando–a a arrumar a mesa, mas quando eu perguntei se haveria lasanha no cardápio ela me expulsou da cozinha aos gritos. E eu juro que vi seus olhos cheios de lágrimas. Que mal havia em perguntar isso? Eu gosto de lasanha, tá?! Os meninos já tinham fugido há tempos. No final só restou ela e Andy preparando tudo.
A ceia só seria servida à meia-noite, então Andy fez uns sanduíches para aguentarmos até lá, que comemos no quarto mesmo com medo de um novo ataque histérico da louca, digo, da minha mãe.
Às 21h eu e Gina já estávamos prontas. Assim que ela terminou, Jake bateu na porta para descer as escadas com ela. Foi fofo demais da conta. Ele até que ficava bonitinho quando estava bem vestido e não estava suado. Ele usava calça e camisa social assim como os outros homens da casa. Pelo visto a variedade iria ficar por conta das mulheres. Gina estava com um vestido tomara que caia preto – que fez minha mãe quase chorar de desgosto, pois, conforme ela dissera, Natal era para celebrar o nascimento e não ficar de luto – e o vestido era lindo. Justo na parte de cima e rodado do quadril para baixo com uma fita de cetim logo abaixo dos seios. Eu tinha optado por um vestido vermelho de alcinhas finas, que era justinho nos seios, mas daí para baixo era solto e ia até um palmo acima dos joelhos.
Jesse apareceu atrás de mim e eu vi seu reflexo no espelho.
– Você está linda – ele murmurou com um sorriso perfeito no rosto mais que perfeito.
Lindo estava ele. Não que estivesse usando alguma roupa especial de Natal. Ele estava com a mesma roupa de sempre, mas cada vez que eu o via eu o achava ainda mais maravilhoso.
Eu andei até ele e o abracei sentindo uma leve vontade de chorar. Não sei se era o Natal que me deixava assim. Acho que não. Acho que foi o fato de eu ter visto Jake descer para a sala de mãos dadas com Gina e fiquei imaginando como seria fazer o mesmo com o meu namorado. Por que, meu Deus, eu não poderia ter esse simples desejo atendido? Era demais fazer com que meu namorado fantasma voltasse a viver? Eu nem peço muita coisa.
– Está tudo bem, hermosa? – Jesse perguntou estranhando meu silêncio, mas ainda não deixando de me abraçar.
– Está – eu respondi e, para meu alívio, minha voz saiu firme. – É só que eu te amo demais.
E como eu amava aquele homem! Nossa! Chegava a doer. Mas de uma forma boa, é claro. Ai. Acho que o Natal estava me deixando melosa mesmo.
– Eu também te amo, mi hermosa. – Ele se afastou um pouco, apenas o suficiente para me olhar nos olhos. – Posso te pedir uma coisa?
– Claro. – Será que ele não tinha aprendido ainda? Ele poderia me pedir o que quiser que eu faria sem pestanejar.
– Eu – ele começou, mas parecia meio inseguro – posso ficar lá embaixo um pouco com vocês?
Eu o encarei sem acreditar no que ele estava pedindo. Minha nossa! Seria perfeito. Tudo bem que ninguém poderia vê-lo, mas... quer dizer, Gina iria vê-lo, mas ainda assim seria muito bom.
As lágrimas voltaram aos meus olhos e, dessa vez, eu não me preocupei em escondê-las. Ao invés de responde-lo eu pulei nos seus braços, abraçando-o forte.
– Isso é um sim? – ele perguntou rindo, me abraçando de volta.
– Isso é um super sim! – Ainda bem que eu estava usando maquiagem à prova d’água.
E então, como eu sou um gênio no corpo de uma garota muito da esperta, eu tive uma ideia.
– Jesse, posso te pedir uma coisa também?
– Claro.
– Desce comigo? – afinal, mesmo sem minha família poder vê-lo eu saberia que ele estava ali e isso já seria mais que suficiente.
Mais uma vez as palavras não foram necessárias. O sorriso que apareceu no seu rosto foi de completa felicidade e logo em seguida ele me puxou para um beijo de tirar o fôlego. Tudo bem que eu teria que retocar o batom depois dessa, mas e daí? Dane-se! Queria mesmo era beijar aquela boca gostosa. E bota gostosa nisso!
Opa. O que era isso na minha... er... bunda? Mão boba? Opa, opa! Adoro mão boba. A minha mão também estava bem bobinha descendo pelas costas dele. Mas, como nem tudo são flores e meu namorado é muito bem comportado quando deve ser, ele se afastou de mim. Relutante, mas se afastou. Contei até dez na minha mente enquanto minha respiração voltava ao normal.
– Isso foi um sim? – perguntei ainda arfante.
Ele deu mais um dos seus sorrisos de tirar o pouco fôlego que me restava e me deu um abraço rápido.
– Isso foi um super sim! – ele sussurrou no meu ouvido antes de se afastar.
Céus. Lindo, lindo, lindo. Meu, meu, meu. Todo meu!
Verifiquei minha aparência no espelho, arrumei o que precisava e saí para o corredor com Jesse do meu lado. Quando chegamos ao topo da escada ele passou um braço em volta da minha cintura. Queria pegar a mão dele, mas aí já era pedir demais que ninguém notasse a minha mão segurando o nada no ar.
Gina estava perto das escadas e se engasgou cuspindo coca para todo lado quando viu com quem eu estava. Ainda bem que não tinha ninguém à sua frente.
Jesse riu ao meu lado e eu também. Com a diferença que eu não estava rindo por causa de Gina. Eu ria porque não conseguia fazer outra coisa.
Durante toda noite Jesse ficou perto de mim. Duas vezes Brad o atravessou sem querer e quase derramou o refrigerante adulterado – não que ele tenha dito isso, mas Brad não ficaria tão feliz assim com um simples copo de refrigerante. Stephanie também estava conosco nessa noite. Gina pedira para eu chama-la assim que terminei de descer as escadas e agora ela conversava com Jesse animadamente e eu jamais o vira tão feliz. Os dois estavam encostados na parede para evitar mais derramamento de refrigerantes ou outras coisas
Jesse poderia até ter mais de cento e cinquenta anos, mas ali ele era apenas um homem jovem de vinte anos aproveitando um Natal depois de tanto tempo sendo privado desse simples prazer. Eu nem ouvia mais o que as pessoas na sala conversavam. Era só o mesmo papo de véspera de Natal e eu estava sem saco para aquilo.
Fiquei apenas observando Jesse enquanto ele conversava com Steph e era quase como se os dois estivessem vivos. Só o que os diferenciava era o leve brilho que os corpos deles emitiam.
Faltando cinco minutos para a meia noite – estava até parecendo virada de ano – Andy serviu ponche para todos – sem álcool para os menores de idade. Então ele ergueu sua taça para propor um brinde.
– Nunca pensei que pudesse me emocionar novamente em um Natal – ele começou a dizer. Olhou em torno da sala e em seguida para minha mãe. – Nem que esta casa se tornaria um lar, muito menos que uma mulher tão especial fosse aparecer do nada e transformar tudo, em tão pouco tempo. – Os olhos da minha mãe já estavam prestes a transbordar de lágrimas. – Você conseguiu trazer a alegria de volta às nossas vidas e eu serei eternamente grato por isso. – Então ele olhou para mim. Hein? O que foi? – Suze, você é uma menina de ouro. Espero que um dia esses dois pentelhos aqui – ele falou apontando para Jake e Brad – aprendam a ser educados e gentis como você.
Ou aprendam a atuar tão bem quanto eu. Me senti super mal nessa hora. Consciência pesada é um bicho ruim de lidar. E é claro que Brad olhou para mim como se quisesse me fuzilar com os olhos. E eu fiz de conta que fiquei com medo. Jake apenas sorriu de leve e deu um beijo no rosto de Gina e sussurrou alguma coisa fazendo-a rir. Eles não estavam falando de mim, estavam?
Andy ergueu a taça mais uma vez.
– Um brinde às duas mulheres que vieram para completar a família Ackerman com seu brilho e muita paciência para lidar com esses homens de uma vez só.
Todos ergueram suas taças e brindaram juntos. Então minha mãe também levantou para propor outro brinde. Olha o mico, mãe! Ela enxugou as lágrimas com um lenço de papel que já estava ao seu lado e ergueu a taça.
– Em primeiro lugar – ela começou –, eu gostaria de dizer que é um prazer lidar com todos esses homens de uma vez. Eu faço isso de muito bom gosto. Eu amo todos vocês como se fossem meus filhos. – E daí ela teve que parar por alguns segundos antes de conseguir falar de novo. – E eu fico tão feliz de ver todos vocês se dando bem – ela olhou para mim e para os outros três “filhos” dela –, e ainda mais feliz de ver que a minha Suzinha está se adaptando tão bem aqui. Nunca pensei que um dia viria minha filhinha tão feliz. – Olhou para Gina que também estava com os olhos cheios de lágrimas. – Gina, meu anjo, obrigada por ser essa amiga tão verdadeira para a minha filha. Você será sempre bem vinda nessa casa.
Ergueu a taça mais uma vez, impossibilitada de continuar. Andy foi até ela e a abraçou sussurrando palavras carinhosas no seu ouvido.
E, o que era aquilo? Era impressão minha ou Gina estava se levantando para propor um brinde. Senta aí, sua louca! – tive vontade de gritar. Desde quando Gina era do tipo que brindava no Natal?
– Eu sei que todos já devem estar querendo comer, mas eu prometo que serei breve. – Deu um pigarro de leve para limpar a garganta antes de começar. – Primeiro eu gostaria de agradecer a todos por permitir que eu passasse o Natal com vocês...
– Que é isso, meu anjo – minha mãe a interrompeu. – É um prazer ter você aqui.
– Obrigada. – Ela sorriu um pouco constrangida. Esse “meu anjo” constrange qualquer um. – Eu confesso que não queria me mudar para a Califórnia. Eu achava que nunca conseguiria viver num lugar que não fosse New York. Mas hoje eu agradeço aos meus pais por terem sido irredutíveis na decisão que eles tomaram. Conhecer você, Suze – ela olhou para mim com um sorriso que dizia mais que as palavras –, foi a melhor coisa que me aconteceu desde a morte da minha irmã. E eu sei que ela está aqui conosco em espírito – quase me virei na direção de Steph quando ouvi um “é isso aí!” atrás de mim – e que ela está muito feliz por mim. – Ela deu uma rápida olhada na direção da irmã antes de voltar à atenção aos outros da sala. – E é claro que ser amiga de Suze também tem a vantagem dela ter um irmão muito lindo e que por sinal é meu namorado.
Todos riram depois dessa e Jake a puxou para o colo desajeitado e deu um beijo no seu pescoço.
Espera. Agora também me deu vontade de falar. Eu hein. Que estranho. Mas... Vamos que vamos!
Mas antes que eu pudesse falar alguma coisa, depois de já estar de pé também, eu ouvi a voz suave de Brad. Sentiu a ironia?
– Não inventa, Suze! – ele gritou comigo. – Eu estou com fome.
– Brad! – Andy o censurou. – Continuei falando e vai ficar sem jantar.
Você poderia ter ficado calado quando teve a chance. Essa frase eu transmiti no olhar que lancei para ele e então comecei meu brinde.
– Eu não sou muito boa com isso, mas vou me esforçar. – Respirei fundo e comecei. – Essa vinda para Carmel não poderia ter sido melhor para mim. Eu amo tudo aqui. Adoro o mar. Adoro a escola. Os amigos que eu fiz nela. – Olhei para Gina com o mesmo sorriso que ela tinha lançado para mim. – Você sabe que eu te amo, não sabe, Gina?
– É, eu sei sim. – Ela sorriu emocionada. Credo. Todo mundo estava tão chorão hoje. – Eu também te amo.
– Mãe, no dia que eu cheguei aqui, a primeira coisa que eu notei era como você estava diferente. Fazia anos que eu não te via tão sorridente e completa. Andy, obrigada por ser esse marido maravilho para a minha mãe e por fazê-la feliz de novo. – Andy murmurou um “é um prazer” e eu esperei um pouco para a minha mãe diminuir o choro e continuei. – E eu também amo essa casa antiga e aconchegante e tudo que ela me trouxe. – Olhei no fundo dos olhos da pessoa mais especial para mim e falei o que mais queria. – Principalmente as pessoas que moram dentro dela há tanto tempo.
– Aê, maninha! – Brad exclamou. – Que lindo. Alguém me passa um lencinho.
– Brad! – Andy o repreendeu novamente.
– Está tudo bem, Andy. – Olhei para Brad sem hesitar. – Apesar de você ser tão implicante comigo, Brad, eu também te amo. – E pior é que amava mesmo. – Você é o meu irmão chato. Toda garota precisa de um.
E ergui minha taça enquanto todos na sala se acabavam de rir. E Brad? Bem, na hora que ele voltou a si Andy já estava cortando o peru. Deixei todos seguirem na frente e fiquei sozinha com Jesse na sala.
– Feliz Natal, meu amor – ele sussurrou no meu ouvido me abraçando pela cintura.
– Feliz Natal.
E bota feliz nisso! O que mais eu poderia querer? Tinha uma família maravilhosa – embora meio maluca –, amigos indescritíveis e ainda tinha um homem perfeito completamente apaixonado por mim. Ah, e eu por ele, é claro! É tão bom amar e ser correspondida.
E foi assim, nessa completa alegria, que eu passei os últimos dias do ano. A virada do ano foi bem parecida. Gina continuou conosco já que sua família decidira ficar em New York por mais uns dias. Nem preciso dizer o quanto Jake vibrou com essa notícia.
As únicas diferenças foi que não houve discursos – duas vezes ninguém merece! – e nós passamos na praia. Andy montou uma tenda e fizemos a festa lá mesmo. Jake e Brad se responsabilizaram pelos fogos de artifício e a família de Cee Cee e Adam também estavam lá.
É como eu já disse. Nada poderia estar mais perfeito. Ainda mais com Jesse novamente ao meu lado.
E eu estava tão feliz que não notei de imediato quando Jesse se afastou um pouco do grupo depois que minha mãe, em alto e bom som, mencionou o meu aniversário que seria dali a alguns dias – “minha Suzinha está crescendo tão rápido”. E também não percebi que ele não estava sendo sincero quando, depois de procurá–lo, eu perguntei por que ele tinha feito isso.
– Eu pensei ter visto um fantasma perto das rochas – ele dissera.
E eu acreditei. E ignorei o aperto que se formou no meu peito quando ele acariciou meu rosto sem falar mais nada, com os olhos vazios, e me conduziu de volta a festa.
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