Atração Involuntária
14 Capítulo 14
CAPÍTULO 14
Eu acordei no dia seguinte bem me sentindo bem melhor. Quando saí do quarto, depois que conseguir encerrar com muito esforço o beijo de despedida, eu encontrei com Brad no corredor. Ele, vendo o sorriso no meu rosto, não perdeu tempo.
– Viu só, maninha? Eu disse que sexo cura tudo!
– Vai se ferrar, Brad!
– Ei – ele chamou, me segurando pelo cotovelo. Não consegui entender o sorriso que estava no seu rosto –, ele... ainda está aí, não está?
– Do que você está falando? – perguntei, embora tivesse uma ideia do que se tratava.
– Seu namorado ainda está no seu quarto. – Não foi uma pergunta. E sem esperar pela confirmação, voltou para a frente do meu quarto.
– Deixa de ser idiota. – É claro que eu não tinha medo nenhum do que ele pudesse ver quando abrisse aquela porta. E ele abriu.
Jesse estava lá. Já estava vestido e sentado à nossa janela, no mesmo lugar que estava antes quando eu saí.
– Cadê ele? – Brad perguntou olhando ao redor.
– Ele quem? – Ia me fingir de inocente, é claro. Mas agora só para irritá-lo.
Brad continuou avançando para dentro do quarto olhando em todos os cantos, embaixo da cama, dentro do banheiro, dentro do guarda-roupa.
Jesse já estava se dobrando de tanto rir e eu precisava me controlar para não acompanha-lo.
– Eu quero conhecer esse seu namoradinho – ele falou, parando no meio do quarto e cruzando os braços debaixo do peito.
– Por quê? – perguntei imitando sua pose. Minhas costelas já estavam doendo do esforço que eu fazia para não rir.
– Por que eu tenho que saber se ele é bom o suficiente para você. – Hein? Será que eu ouvi direito?
– Como é que é? – Tive que desmanchar a pose quando fui pega de surpresa pela sua resposta. Jesse também parara de rir.
Brad pareceu notar que falara algo estranho para o comportamento usual dele e ficou um pouco constrangido, mas não o suficiente para fazê-lo parar de falar.
– Como única pessoa dessa família que sabe sobre esse seu namoro secreto, eu me sinto na obrigação de conhece-lo.
Eu estava completamente sem palavras.
– Para de me olhar desse jeito, Suze – ele continuou, me encarando um pouco sem graça. Aliás, muito sem graça. – Eu estou falando sério. Você é muito nova para ter esse tipo de relacionamento. Eu tenho que saber se esse cara não está se aproveitando da sua ingenuidade.
– Espera! Para tudo! – eu o interrompi, agora irritada. – Que papo é esse agora? Desde quando você se preocupa com isso. E desde quando isso é da sua conta?
Jesse agora estava ao meu lado e tocou levemente no meu braço.
– Calma, hermosa, ele só está preocupado com você. – E ele estava sorrindo com uma expressão compreensiva. Preocupado uma ova! Ele estava se metendo na minha vida.
– É claro que eu me preocupo com você! – ele respondeu no mesmo tom que o meu. – Você é minha única irmã e está trazendo um cara aqui para casa que ninguém conhece. E como eu sei que você não planeja apresenta-lo tão cedo para mamãe, eu me sinto no dever de avalia-lo.
Ok. Agora minha raiva sumiu por completo. Brad tinha me chamado de irmã, eu que nunca tinha feito nenhum esforço para me encaixar nessa família, e chamado minha mãe de mamãe. Não tinha como não reagir de outra forma nesse momento.
– Você... não precisa se preocupar. – Minha voz estava um pouco embargada e eu pigarreei para tirar o nó que se formava na minha garganta.
– Mas eu me preocupo! – ele respondeu erguendo o queixo em tom de desafio. – Então, quando eu vou conhece-lo?
Eu olhei rapidamente para Jesse que ainda estava do meu lado. Ainda havia um sorriso no seu rosto, mas sua expressão estava um pouco abalada. Esse era um dos problemas da nossa relação. Por mais que eu quisesse declarar aos quatro ventos que eu estava apaixonada, eu sabia que não poderia fazer isso, porque todos iriam querer conhece-lo e isso não era uma opção.
– Você não vai – eu respondi encarando Brad novamente.
– Por que não? – ele perguntou desconfiado. – Ele não é casado, é?
– Não, Brad. Ele não é casado. – Seria muito mais simples se esse fosse o problema.
– Então por quê?
Como eu posso dizer isso? Hum... Deixa eu ver... Porque meu namorado morreu há 150 anos. Eu não acho que ele iria ficar muito feliz de ouvir isso. No mínimo mandaria me internar numa clínica psiquiátrica. Completamente inviável.
– É... Complicado. Mas deixa isso para lá.
– Claro que não! Como é que eu vou saber que esse cara é bom para você? Como é que eu vou saber que ele não está só se aproveitando de...
– Ele não está – eu o interrompi antes que ele começasse a falar mal de Jesse na frente dele. – Ele não está se aproveitando de mim. Isso eu posso te garantir. E quem melhor para saber se ele é bom para mim do que eu?
– Ele pode estar te iludindo. Homens são bons nisso.
Eu tive que rir com essa. Brad com certeza era bom com isso. Iludir as garotas, eu quero dizer. Mas não Jesse. Não quando ele fora criado para respeitar as mulheres e cuidar delas como um ser muito precioso.
– Relaxa, Brad. Ele não está me iludindo. Jesse me ama e eu o amo também. É só isso que você precisa saber.
– Amor? – Os olhos dele estavam arregalados me encarando com espanto. Senti os dedos de Jesse roçar mais uma vez no meu braço e deslizar para as minhas costas num gesto de carinho. Fiz um esforço tremendo para não olhar para aqueles olhos que eu sabia que estariam brilhando intensamente como sempre brilhavam quando eu falava que o amava. – Você disse que o ama?
Eu apenas acenei com a cabeça.
– Eu... Não imaginei que era amor. Pensei que...
– Pensou o quê, Brad? Que eu estava só transando com um cara qualquer sem nenhum compromisso?
– Suzannah! Isso não é jeito de falar – Jesse me repreendeu em voz alta. Voz que só eu ouvi.
– É. Pensei isso sim – Brad respondeu, sorrindo malicioso.
– Como é que é? – novamente Jesse foi quem falou. – Como ousa dizer que minha namorada é uma qualquer seu... – ele falou alguma palavra em espanhol, mas não precisava ser nenhum gênio para saber o que aquilo não era um elogio.
Então, para minha surpresa ele começou a fazer com que as cortinas esvoaçassem com força para dentro do quarto e o espelho começou a tremer assustadoramente.
– Que diabos?! – Brad exclamou olhando assustado ao redor.
Estufei o peito com orgulho. Meu namorado estava me defendendo e eu sorri com esse pensamento.
– Para com isso – pedi pelo canto da boca, mas continuei rindo. Só não queria que meu meio-irmão tivesse um ataque do coração no meio do meu quarto.
Jesse parou no mesmo instante, mas ainda continuou olhando irritado para Brad.
– Mande-o retirar o que disse – ele pediu entre os dentes.
– Você se enganou, Brad. Nós nos amamos – falei, fazendo de conta que nada daquele ataque de poltergeist tinha acontecido.
– É... – Ele ainda estava olhando ao redor desconfiado, mas então se voltou para mim. – Eu estou vendo isso. Bem, se você o ama então ele deve ser uma boa pessoa.
Senti Jesse relaxando ao meu lado.
– Ele é, sim – eu confirmei com um sorriso no rosto.
– E eu não vou conhece-lo, não é?
– Não.
– Tudo bem. Você sabe o que faz da sua vida.
– Ei, vocês dois. – A cabeça de Jake apareceu pela porta que estava entreaberta. – Se vocês não descerem em cinco minutos eu vou embora sozinho.
– Droga! – Brad gritou enquanto corria para fora do meu quarto. – Espera aí, cara. Eu nem comi nada ainda.
– Problema seu. – Jake respondeu se distanciando.
Eu me voltei para Jesse que me encarava com a expressão calma.
– É melhor você ir ou vai se atrasar.
Eu acenei novamente com a cabeça e dei um beijo rápido naqueles lábios macios antes de sair correndo do quarto.
Como eu saí de casa sem comer, na altura da hora do almoço eu já estava com um buraco no lugar do meu estômago. Andei na frente de todos, quase correndo em direção à lanchonete.
– Que foi isso, Suze? – Cee Cee perguntou depois que me alcançou quando eu já estava sentada devorando meu primeiro cachorro-quente. Primeiro porque ainda tinha mais dois na minha frente esperando ansiosos para seguir o mesmo caminho.
– Estou com fome – respondi entre uma mordida e outra.
Gina riu enquanto sentava ao meu lado. É. Ela agora fazia parte do nosso grupinho estranho. Cee Cee e Adam estavam conversando animados sobre um filme que tinham assistido na noite anterior e Gina se virou para conversar comigo. Quer dizer, ela falava enquanto eu comia.
– Paul nos chamou para passar a tarde na piscina do hotel com ele. O que acha?
O que eu achava disso? Hum... Deixa eu pensar: passar a tarde numa piscina enorme num hotel de luxo ou passar a tarde no meu quarto com meu namorado fantasma? Dúvida cruel essa. Num dia normal eu provavelmente escolheria passar a tarde com Jesse, mas hoje não era um dia normal. Estava um sol maravilhoso e seria pecado perder um dia desses. Além do mais, já fazia um tempinho que eu não sabia o que era sol. Já estava começando a desbotar.
– Legal – respondi depois de engolir o último pedaço do primeiro cachorro-quente e já partindo para o segundo.
– Ok. Então a gente passa na sua casa para você pegar uma roupa de banho e depois na minha. De lá a gente segue para o hotel, combinado?
Epa. Uma mediadora na minha casa? E se ela visse Jesse lá? E se ela descobrisse que ele era meu namorado? Péssima ideia. Mas o pior é que eu precisava pegar meu biquíni. A não ser que eu comprasse um na loja do hotel. O problema é que os produtos dessas lojas geralmente custavam uma fortuna e eu não queria gastar meu dinheiro em um biquíni quando eu tinha um monte em casa.
– E então, Suze, combinado?
– É. Tudo bem – eu respondi quando tive uma ideia.
Terminei de comer o mais rápido possível, quase me engasgando umas três vezes.
– Calma, Suze – Adam falou, rindo da minha pressa. – É um cachorro-quente, mas ele não vai sair correndo.
– Eu lembrei que tenho que pegar um livro na biblioteca – falei já ficando de pé enquanto bebia o resto da minha coca para fazer descer a comida que ainda estava na minha garganta. – Vejo vocês depois.
Saí correndo em direção à biblioteca, mas não fui para lá. No corredor, passei por uma sala que vivia vazia – a mesma que eu conhecera Stephanie e soubera que Gina era uma mediadora e eu uma deslocadora – e entrei nela fechando a porta atrás de mim.
Fechei os olhos e me concentrei da mesma forma que eu fizera na tarde anterior quando chamei Stephanie no quarto de hotel de Paul. Só que dessa vez não era ela que eu queria que viesse até mim. Abri meus olhos e Jesse apareceu logo em seguida me olhando com um sorriso no rosto.
– Chamou, madame? – perguntou, fazendo uma reverência na minha direção.
– Sim, senhor – respondi rindo. – Queria te pedir uma coisa.
– Me peça uma estrela e eu te trarei uma constelação. – Sua voz estava rouca e seus olhos prenderam os meus.
– Er, eu... – Céus. Como é que ele vem assim de repente e me joga uma dessas. Resultado: Suzannah Simon com falta de ar. – Eu... Não quero uma constelação. Nem teria onde colocar. E além do mais, brilha muito.
Tudo bem. Estava falando bobagens, mas o que ele esperava. Não dá para raciocinar direito depois de uma dessas.
– O brilho de uma constelação não é nada se comparado ao brilho dos teus olhos, hermosa – ele falou no mesmo tom, sem aproximando um pouco até quase encostar-se ao meu corpo.
É claro que depois dessa eu não conseguir falar mais nada. Meu peito começou a subir e descer rapidamente acompanhando o ritmo da minha respiração ofegante. Ele se aproximou mais, me prensando contra a porta com seu corpo másculo. Ergueu sua mão até a altura do meu ombro, removendo de lá uma mecha do meu cabelo, fazendo com que meu pescoço ficasse exposto.
Eu parei de respirar quando ele aproximou seus lábios do meu ponto mais sensível naquele local e aplicou um beijo suave na minha pele.
– Você queria me pedir alguma coisa? – ele perguntou com os lábios roçando de leve no local, sua voz ainda mais rouca e baixa, apenas um sussurro.
Juntei todas as minhas forças para conseguir lembrar o motivo de ter chamado ele ali.
– S–sim. Eu...
– Pode dizer, hermosa, eu faço o que você quiser. – Ele não tinha se afastado um centímetro do meu corpo.
Céus. Ele ainda me matava desse jeito.
– Jesse... – Eu respirei fundo para tentar recuperar o raciocínio e o empurrei levemente pelos ombros. – Por favor, é sério.
Ele se afastou um pouco e ergueu as mãos em rendição.
– Desculpe. – Mas ele não parecia com cara de culpado com aquele sorriso maravilhoso no rosto. Minha vontade era agarrá-lo ali mesmo.
Concentre–se, Suzannah! Essa minha voz da consciência consegue ser irritante quando quer. Certo! Foco!
– Paul me chamou junto com Gina para passar a tarde na piscina e eu aceitei. – Minha voz oscilou um pouco na última palavra. Esperava que ele não ficasse chateado por eu ter escolhido ir para a piscina e não ficar com ele.
– Que bom, Suzannah – ele falou e pela expressão no seu rosto ele realmente achava aquilo bom. – Tenho certeza que vocês vão se divertir.
– Você não se incomoda mesmo?
– Claro que não. Eu já estava começando a ficar preocupado com a sua vida social.
– Falou igual a minha mãe. – Nós dois rimos depois disso.
– Mas você disse que queria me pedir alguma coisa – ele lembrou.
– Sim. É que eu vou passar lá em casa com Gina depois da aula para pegar meu biquíni e eu queria ter pedir para você não aparecer no quarto enquanto ela estiver.
– Tudo bem – ele respondeu de pronto, mas ficou sério e eu estranhei aquilo.
– O que foi?
– Nada. Era só isso mesmo que você queria pedir? – ele perguntou ainda sério, mas agora evitava olhar para mim.
– Era – respondi completamente confusa pela sua mudança de atitude.
– Ok. Então até mais. – Ele virou de costas para mim e eu pude notar que seus ombros estavam rijos. – E não se preocupe – ele falou ainda de costas – eu não estarei no quarto essa tarde.
Antes que ele pudesse sumir, eu o segurei pelo pulso.
– Jesse, o que aconteceu?
– Não aconteceu nada, Suzannah. – Ele ainda não se virara para me olhar, mas era nítida a frieza da sua voz. – É melhor você ir para a aula.
– Por que você faz isso, Jesse? – eu perguntei irritada, soltando sua mão. – Por que você fica desse jeito e nunca me fala o motivo? Eu odeio quando você faz isso. Eu odeio quando você fala nesse tom comigo como se não se importasse. Eu odeio quando você me ignora como se eu não me importasse. – Eu tinha que me controlar para não gritar. – Deixa eu te dizer uma coisa, Jesse: eu me importo!
Jesse me encarava com o rosto sem expressão, mas seus olhos brilhavam intensamente.
– Por favor, Jesse – eu implorei num sussurro, me aproximando dele. – Me fala o que foi que eu fiz para você ficar assim. E se você disser mais uma vez que não é nada...
Ele diminuiu ainda mais o espaço entre nós e tocou meu rosto com suavidade.
– Você não fez nada, hermosa, é só que eu... – ele me interrompeu, mas depois parou. – A gente conversa à noite, ok? Vem vindo alguém.
– Jesse, espera...
– Eu te amo, Suzannah. Nunca esqueça isso.
– Jesse!
Mas ele já tinha sumido. Logo em seguida Stephanie apareceu na sala.
– Falando sozinha?
– Oi, Steph – respondi me controlando para não deixar transparecer a confusão no meu rosto. – Tchau, Steph. – E saí da sala antes que ela fizesse perguntas.
Eu passei o restante do horário de aula com vontade de chorar, mas não me permiti a isso. E também não ia permitir que ele estragasse minha tarde.
Encontrei com Gina no final da aula e fomos juntas em direção ao carro dela. Quando chegamos ao local onde o carro dela estava estacionado, tivemos uma surpresa ao encontrar Paul encostado em um Camaro preto conversível que estava estacionado ao lado do carro de Gina. Esse carro eu reconheceria de longe depois de tê-lo visto em toda a parede do quarto de Jake – não que eu entrasse muito lá. E Jake não parava de falar que era seu sonho de consumo.
– Paul, o que faz aqui? – Gina perguntou quando chegamos mais perto.
– Resolvi pegar vocês para que você não precise dirigir até o hotel – ele respondeu com um enorme sorriso no rosto. – Gostaram da surpresa?
– Esse carro é seu? – Gina respondeu com outra pergunta apontando para o Camaro.
– É alugado.
– Então está explicado. Você só queria se exibir.
E parece que Gina acertou em cheio porque ele não respondeu e riu um tanto constrangido.
– Oi, Suze. Que bom que você aceitou o convite. A tarde vai ficar bem melhor agora.
Epa. Como é que é? Que papo é esse? Hum... Vai ver ele só estava sendo educado. Ou ainda estava com aquela fixação pelo fato de eu ser uma deslocadora.
– Obrigada por me convidar. Agora é melhor a gente sair daqui antes que Jake veja o seu carro.
– Quem é Jake? – ele perguntou sem sair do lugar.
– Meu irmão. – Hein? – Quer dizer... Meio-irmão. Ele é simplesmente louco por esse carro. Se ele chegar agora, você não terá mais paz.
Saímos do estacionamento, eu no carro com Gina, e Paul nos seguindo no dele. Gina iria deixar seu carro em casa e depois seguiríamos os três no Camaro. Mas antes iríamos à minha casa para pegar minha roupa de banho.
– Vocês querem beber alguma coisa? – perguntei assim que entramos.
– Não, obrigada – Paul respondeu olhando ao redor.
Gina também recusou e os dois sentaram no sofá da sala enquanto eu subia as escadas para o meu quarto.
Quando eu cheguei lá, não havia nenhum sinal de Jesse. Claro! Tentei não me abalar com isso e resisti à tentação de chama-lo. Ainda estava chateada com ele e também não podia correr o risco de trazer meu namorado fantasma para dentro de casa com dois mediadores no andar de baixo.
Troquei a calça jeans e a camiseta básica verde por um vestido de alças da mesma cor que ia até o joelho. Separei um biquíni e uma muda de roupas limpas para não ter que molhar o carro de ninguém na volta para casa, juntei tudo com minha carteira e coloquei em outra bolsa. Desci as escadas e os encontrei no mesmo local conversando animadamente.
– Estou pronta.
Os dois levantaram no mesmo instante e Gina se dirigiu à saída. Eu fui logo atrás, mas Paul me impediu de sair segurando meu pulso. Eu me virei para encará-lo.
– Você está linda, Suze – ele falou, seus olhos percorrendo todo meu corpo.
– Er... Obrigada. – Eu senti meu rosto em chamas, mas me senti extremamente desconfortável quando seu polegar passou a fazer círculos no meu pulso num gesto de carinho. – Vamos?
– Claro. – Ele soltou meu braço e saímos.
Gina já estava dentro do carro e eu me apressei para entrar também. Quando chegamos à casa de Gina nos deparamos com uma enorme construção de dois andares e um belo jardim com vista para o mar. Embora não fosse muito raro uma casa em Carmel com esse tipo de vista.
– Fiquem à vontade. Eu já volto – Gina falou já subindo as escadas.
Eu sentei em um sofá de dois lugares e me arrependi logo em seguida quando Paul sentou ao meu lado.
– Me fala um pouco de você, Suze – Paul pediu depois de alguns segundos com os dois em silêncio.
– Você já sabe tanto a meu respeito.
– Eu sei sobre você ser uma deslocadora, mas é só. Você disse que tem um irmão...
– Meio-irmão – eu o corrigi.
– Certo. Me fala um pouco da sua família.
Então eu passei a falar sobre a minha mãe, Andy e meus meio-irmãos malucos. Só não falei de Jesse. Mas eu descobri que era muito fácil conversar com Paul. Ele era divertido e fazia tantas perguntas que eu nem percebi que Gina estava demorando. Só dei por mim quando ela chegou com o rosto vermelho como se tivesse corrido em uma maratona. Era a primeira vez que eu a via usando uma roupa que não era de couro ou preta. Ela usava um short jeans curto e uma regata roxa.
– O que aconteceu? – perguntei levantando do sofá e indo ao seu encontro.
– Não foi nada. – Sua voz ainda estava arfante. – Só uma pequena discussão com minha querida irmã. Vamos?
Saímos os três em direção ao carro de Paul.
– Suze, vai na frente – Gina pediu. – Eu não estou com saco para bater papo.
– Você não vai passar a tarde de mau humor, vai Gina? – Paul perguntou depois que já estávamos acomodados dentro do conversível.
– Acho que não. Depois que mergulhar naquela piscina eu te dou uma resposta definitiva.
– Dependendo da resposta, eu te afogo lá mesmo.
Gina deu um soco no seu ombro e se recostou no banco de couro olhando para a paisagem que se descortinava ao nosso lado.
– Me fala mais de você – Paul pediu dando um toque de leve na minha perna para chamar minha atenção.
– Eu já falei de mais sobre mim. Agora é sua vez.
– Minha vida é chata.
– Duvido!
– É sério. Você vai dormir nos primeiros cinco minutos.
Mas é claro que eu não dormi. Em primeiro lugar porque a vida dele era realmente interessante e em segundo lugar porque ele não parava de tocar na minha perna por cima do vestido. Eu me afastava, mas ele parecia não notar. Ou fingia não notar.
Mas quando ele não estava flertando descaradamente, Paul conseguia ser divertido. Ele falou da sua família que consistia basicamente em: ele, o pai, a mãe e só. Ele já tinha acabado os estudos e resolvera tirar esse ano para decidir sobre seu futuro.
– Minha mãe nunca permitiria que eu fizesse isso – eu comentei rindo e ele me acompanhou.
– Meus pais só permitiram isso porque eu estava um ano adiantado nos estudos.
– Nerd.
– Não mesmo. – Ele se fingiu de ofendido e riu ainda mais. – Eu comecei a estudar cedo.
Então ele continuou falando da sua vida. Falou dos esportes que ele gostava de praticar: jogar tênis, velejar e esquiar – ou seja, esporte de rico. Falou também das inúmeras festas que ele era obrigado a ir e das poucas que ele ia com prazer quando sabia que teria alguém da idade dele, embora essas fossem raras. Em relação à mediação, ele disse que apenas ele e seu avô tinham esse dom, e que seu pai não acreditava neles, então esse assunto nunca era mencionado na casa dos Slater. Eu fiquei chocada quando Paul falou que o pai uma vez sugerira internar seu avô depois que o pegara discutindo sozinho.
Chegamos ao hotel depois de um tempo e Paul deixou o carro com um vallet. Entramos e eu fui para o vestiário com Gina, que se manteve o tempo todo em silêncio, enquanto Paul ia se trocar no seu quarto.
– Por que você está assim, Gina? – eu perguntei quando já estávamos indo para a piscina com os biquínis e um roupão do hotel por cima.
– Eu discuti com Steph. Mas deixa isso para lá. Eu não quero me irritar agora. Só quero curtir um pouco essa piscina. O sol me faz bem. Daqui a pouco eu já estarei melhor, você vai ver.
Ela nem falou com Paul quando ele chegou. Tirou o roupão e me entregou junto com sua bolsa antes de mergulhar na piscina.
– Ah! – exclamou lá de dentro. – Está uma delícia. – E se pôs a nadar para longe.
Eu me juntei a Paul e colocamos nossas coisas em uma mesa perto do bar. Eu não podia negar que Paul tinha um corpo lindo, todo definido e bronzeado, mas por mais que ele fosse muito bonito e simpático, eu não sentia nada por ele. Nem um pingo de atração sequer.
E por mais que eu me forçasse a não pensar em Jesse, eu não conseguia esquecer sua expressão dessa tarde. Ele estava estranho e eu fiquei com medo da sua reação. Ainda mais quando ele disse suas últimas palavras que não paravam de ecoar na minha mente: “Eu te amo, Suzannah. Nunca esqueça isso.” Soou como uma despedida. E toda vez que eu pensava nisso meus olhos enchiam de lágrimas.
Mas o resto da tarde passou sem problemas depois que Gina voltou ao seu normal e controlou o ritmo da diversão. O sol já estava se pondo quando nos trocamos e fomos para a recepção esperar o carro de Paul.
O problema veio depois que deixamos Gina em casa e eu fiquei sozinha com Paul no interior do carro que agora estava com a capota levantada.
– Gina é muito louquinha – eu comentei assim que saímos da casa dela. – Ela é tão alto astral.
– É – foi a única resposta dele que não tirava os olhos da estrada.
– Vocês se dão muito bem. – Ele apenas acenou com a cabeça. – Ela disse que vocês se conheceram depois que Stephanie...
– Suze – ele me interrompeu finalmente se voltando para mim –, se você não se incomoda, eu não quero falar da Gina.
– Ah, ok. Sobre o que você quer falar então?
Mas Paul não respondeu. Ele ficou um tempo em silêncio apenas dirigindo e eu voltei a olhar para paisagem. Quando eu pensei que iríamos assim por todo o caminho, me surpreendi quando ele tocou minha perna que agora estava exposta pela saia um pouco mais curta que o vestido anterior.
– Suze, eu não vou negar que eu me sinto atraído por você – eu afastei minha perna um pouco e ele retirou sua mão de lá –, mas eu já notei que você não sente o mesmo.
Eu não falei nada. Não sabia o que falar. É claro que eu já tinha notado que ele se sentia assim por mim, mas ele falar era outra coisa. Ainda bem que o caminho não era tão longo.
– Eu te acho muito bonita, Suze. Fazia tempo que eu não me sentia assim com uma garota.
– Gina...
– Gina é como uma irmã para mim. E eu tenho certeza que ela se sente da mesma forma comigo.
– Paul, você só está se sentindo assim porque eu sou uma deslocadora. – Pelo menos era isso que eu tentava me convencer. Apenas essa fascinação pelo que eu era.
– Talvez – ele falou para a minha surpresa. – Talvez eu tenha ficado encantado pelo que você é, mas talvez seja mais do que isso.
Ele voltou a tocar na minha perna e eu o afastei dessa vez com a mão, já que o cinto de segurança me impedia de ir para mais longe dele.
– Você não sente nada quando eu te toco? Nada? – ele perguntou me encarando com o cenho franzido.
Ele estava sendo honesto comigo, então eu também respondi com a verdade.
– Não.
Mas ele colocou a mão na minha perna mais uma vez e, mais uma vez eu a retirei de lá com a mão.
– Para com isso, Paul. Por favor.
– Tudo bem. Parei. – Ele riu, embora eu não achasse graça nenhuma da situação. – Posso ao menos saber o motivo?
– Motivo de quê?
– De você me rejeitar?
– Além do fato de eu não sentir nada por você? – ele estava pedindo uma resposta dessas.
– É. Você nem ao menos quer tentar sentir nada por mim. Você por acaso tem namorado?
Ai, céus. A pergunta que eu não queria que ele fizesse. Se bem que eu não precisava dizer que Jesse era um fantasma.
– Tenho.
Ele olhou para mim com as sobrancelhas erguidas.
– Sério?
– Sério – respondi olhando nos seus olhos para que ele visse que eu falava a verdade.
– Ah. – Ele voltou a encarar a estrada e fizemos o resto do percurso em silêncio.
Ok. Não foi tão ruim assim. Paramos em frente à minha casa e eu soltei o cinto. Já estava com a mão na maçaneta da porta quando ele me deteve me segurando pelo pulso novamente.
– Espera, Suze.
Me voltei para encará-lo e ele também tinha soltado o cinto de segurança.
– Você já namorou antes?
– O quê? – eu perguntei recuando. Que tipo de pergunta era essa?
– Você me ouviu.
– Eu ouvi, só não entendi por que você está perguntando isso.
– Responde.
– Não.
– Não, você não vai responder ou não é a sua resposta à minha pergunta.
– Não é a minha resposta. Agora me diz por que você perguntou...
– Então você não tem como comparar a relação que você tem com seu namorado.
– Aonde você quer chegar, Paul? – Eu estava começando a ficar irritada com ele, mas tentava disfarçar isso.
– Eu só estou tentando te dizer que talvez você só não sinta nada por mim porque você está acostumada com uma pessoa e nunca experimentou nada diferente.
– Eu não preciso experimentar nada para saber o que eu sinto – eu respondi com frieza. Tem gente que não sabe levar um fora.
– Então eu proponho uma coisa: nós nos beijamos e se você não gostar, eu prometo que nunca mais insisto com você. Mas se você gostar...
– Eu não vou gostar. E não vou te beijar – eu respondi e me preparei para sair do carro, mas ele me puxou mais uma vez.
E quando eu me virei para encará-lo ele estava muito próximo. Eu sabia o que ele ia fazer.
– Nã... – eu tentei me opor, mas era tarde demais.
Os lábios dele apertaram os meus e sua mão apertou a minha nuca me impedindo de recuar. Eu empurrei o peito dele com força, mas ele era mais forte do que eu e não parou. Então eu simplesmente congelei. Travei meus lábios e não me mexi um centímetro sequer. Depois de alguns segundos tentando invadir meus lábios ele finalmente desistiu. Assim que Paul se afastou eu ergui minha mão e desferi uma tapa no seu rosto. Vi a marca dos meus dedos que ficaram gravadas no local, mas não me importei.
– Você perdeu a oportunidade de não fazer uma idiotice – eu falei sem um pingo de expressão no rosto ou na voz.
– Suze, me desculpa, eu...
– Não, Paul. Eu não desculpo. – E saí do carro batendo a porta com força.
Subi as escadas e entrei em casa com tanta raiva que não notei que minha mãe estava no hall e quase esbarrei nela.
– Onde é o furacão?
– Eu vou para o meu quarto – falei passando direto, indo em direção às escadas.
– O jantar já vai ser servido.
– Estou sem fome. – A última coisa que eu queria agora era comer.
– Ei, calma filhinha. Volta aqui.
– O que foi, mãe? – perguntei desanimada, já com o pé no primeiro degrau.
– Quem era o carinha no carro? – ela perguntou sorrindo em tom de cumplicidade.
– Só um imbecil mongolóide! – eu respondi sem pensar, por entre os dentes.
– O que é isso, Suzannah? – minha mãe me repreendeu se aproximando. – Eu nunca te vi agindo assim. O que deu em você?
– Não é nada, mãe. – Era melhor sair logo dali antes que eu acabasse falando mais besteiras. – Eu vou para o meu quarto.
– Você não vai a lugar nenhum, mocinha! O jantar já vai ser servido.
– Eu não estou com fome – falei tornando a subir os degraus.
– Eu não perguntei se você está com fome.
Eu olhei para minha mãe estranhando seu comportamento. Ela nunca tinha falado assim comigo antes. Se bem que eu nunca tinha dado motivos para ela falar assim comigo.
– Mãe – eu falei tentando controlar a minha raiva. O resultado era uma voz completamente desanimada –, por favor, eu só quero ficar sozinha.
– Me diga o que aconteceu e eu penso no assunto.
Eu respirei fundo antes de falar.
– O... – Quase xinguei Paul novamente, mas me detive a tempo. – Carinha do carro me beijou.
– Mas isso é ótimo, Suzinha... – minha mãe falou com visível empolgação no seu rosto sorridente.
– Não, mãe. Não é nada ótimo. – Eu ainda estava séria. – Ele me beijou a força.
– Por que ele faria isso? – ela perguntou com o cenho franzido, o sorriso sumindo do seu rosto.
– Porque que me recusei ao beijá-lo. Então ele fez contra a minha vontade mesmo.
– Quem é ele?
– Paul Slater. A senhora não conhece. É amigo de uma amiga da escola.
– Amigo de Cee Cee? – A única amiga que minha mãe conhecia era Cee Cee.
– Não. Amigo de Gina. A senhora também não conhece ela. É aluna nova. Acabou de chegar de New York – expliquei. – Então, posso subir?
– Por que você não queria beijar ele?
– Mãe! – exclamei. Só minha mãe mesmo para me fazer esse tipo de pergunta. Mas quando eu vi que ela não ia desistir eu resolvi responder. – Porque eu não gosto dele!
– E por que você não gosta dele?
– Ai, mãe. Por favor! – Mas minha mãe continuou me encarando esperando a resposta. Por que um raio não caía em cima de mim quando eu precisava? – Ok, mãe. Eu até que estava achando ele legal, como amigo – me apressei a acrescentar –, mas quando ele começou a passar a mão na minha perna, embora eu o afastasse, durante todo o caminho até aqui em casa, ele caiu um pouco no meu conceito. E depois quando ele me beijou a força, eu resolvi que não quero mais nada com ele. Nem mesmo amizade. – Esperei ela falar alguma coisa, mas ela continuou me olhando em silêncio. – Então, posso subir?
– Pode. Mas eu não estou gostando nada desse seu jeito de falar, Suzannah.
– Desculpa mãe, mas eu estou realmente chateada com tudo isso e preciso mesmo ficar sozinha. – Eu lhe lancei um olhar de súplica.
– Tudo bem. Só espero que amanhã você tenha voltado ao seu normal.
– Eu também – respondi enquanto subia as escadas.
Quando eu entrei no quarto não havia sinal de Jesse. Suspirei e fui para o banheiro. Depois do banho, sequei meus cabelos e escovei os dentes ainda enrolada na toalha. Sai para o quarto e encontrei Jesse sentado no banco da janela.
Quando viu que eu estava só de toalha, ele me olhou de cima a baixo e eu senti meu corpo esquentando em cada ponto que seus olhos passavam.
– Desculpe. – Ele levantou e desviou o olhar. – Eu pensei que você já estava vestida. Eu volto depois.
– Jesse! – Mas ele já tinha sumido.
Que palhaçada era essa?! Desde quando nós tínhamos esse tipo de cerimônia? Eu estava tão irritada que joguei a toalha longe enquanto ia até o guarda-roupa. Não estava com vontade de colocar pijama então optei por um short cinza curto e uma blusa básica azul marinho.
Sentei na cama bufando de raiva e cruzei os braços esperando.
– Pronto. Já estou decente agora. Pode aparecer! – E ele apareceu logo em seguida. – O que deu em você, Jesse? Você já me viu sem roupas um monte de vezes!
– Eu sei. Desculpa ter saído daquele jeito – sua voz era baixa, mas firme –, mas a gente precisa conversar e se eu continuasse aqui enquanto você se trocasse, eu não ia resistir.
– Ah... – Falando assim... – Sobre o que você quer conversar? Vai me explicar o que aconteceu lá na escola?
– Vou. – Ele sentou no chão encostado no banco da janela e eu desci da cama para ficar na altura dos seus olhos, sentando no chão também de frente para ele, encostada à cama.
Respirei fundo esperando que ele começasse a falar.
– Eu vou recomeçar de onde paramos. Você me perguntou o que você fez para mim e eu disse que você não tinha feito nada. E eu falei sério. O problema não é você, sou eu...
– Ai, Jesse. Não vem com esse papo...
– Por favor, hermosa, me deixa falar. – Eu me calei e cruzei os braços sob os seios esperando por mais. – Não fala nada até eu terminar, está bem? – Eu apenas acenei com a cabeça e ele continuou. – Quando você me falou que iria passar o dia com Gina e Paul – Argh! Só de ouvir aquele nome, meu estômago embrulhava –, eu fiquei muito feliz porque você estava ficando amiga de pessoas que poderiam me ver, então a nossa relação não seria mais tão secreta assim, mas então você me pediu para ficar longe da sua casa enquanto Gina estivesse aqui. É claro que eu entendi o motivo, mas ainda assim eu me senti estranho quando percebi que eu nunca iria conhecer nenhum dos seus amigos nem a sua família.
– Isso é bobagem, Jesse – eu o interrompi com medo do que ele estava falando. Medo pelo que poderia estar por vir.
– Você pode achar isso, mas eu não – ele retrucou sem se importar de eu tê-lo interrompido. – Eu vivi em uma época em que um casal não ficava a sós antes de o cavalheiro conhecer a família da moça, hermosa. Eu sei que atualmente tudo está diferente, mas eu ainda sou assim. E eu sempre serei. Nunca vou mudar meu jeito de ser, Suzannah, porque eu estou morto. E você não merece isso. Você não merece ficar presa em um relacionamento sem futuro com um fantasma.
– Você está terminando comigo? – Eu já sentia um nó se formando na minha garganta e lutava contra as lágrimas que teimavam em encher meus olhos.
Ele olhou no fundo dos meus olhos e eu vi a dor passando pelos seus.
– Você merece mais do que eu posso te dar, Suzannah. – Seu tom de voz também era baixo embora ele tentasse deixa-lo firme, sem muito sucesso.
– Você já me dá tudo que eu preciso. – Minha voz era só um sussurro agora.
Eu precisava fazer alguma coisa para mudar a linha dos pensamentos dele. Eu não aguentaria se ele terminasse comigo. Ele desviou o olhar do meu e levantou, ficando de costas para mim e olhando para fora da casa pela janela aberta.
– Paul parece gostar de você – ele falou ainda de costas para mim e com a voz sem emoção.
Eu também levantei depois de ouvir aquele nome. Jesse olhava para algum ponto na entrada do jardim como se tentasse ver algo que não estava mais lá.
– Por que Paul entrou na conversa agora? – eu perguntei ainda com a voz embargada pelo nó na minha garganta. Será que Jesse tinha visto alguma coisa?
– Eu vi quando ele te beijou dentro do carro mais cedo. – Sua voz ainda estava sem emoções, mas seus ombros ficaram nitidamente rijos.
– Jesse, ele me beijou a força. Eu não queria que aquilo acontecesse, eu...
– Eu sei. Eu também vi quando você o bateu depois que ele te beijou.
– Então por que...?
– Mas você não deveria ter feito isso.
– Feito o quê? – Eu não fazia ideia do que ele estava falando.
– Recusado ele dessa forma. Ele parece ser uma boa pessoa.
Meu Deus, Jesse tinha enlouquecido. Essa era a única explicação para o que ele acabara de falar. Isso, ou alguém tinha feito uma lavagem cerebral nele.
– Você está ouvindo o que você está falando, Jesse? – eu perguntei completamente incrédula. – Olha para mim, por favor. – Eu não gostava de falar com as costas dele. Precisava ver nos seus olhos o que ele estava sentindo de verdade.
Mas quando ele se virou para me encarar, seu rosto estava totalmente sem expressão.
– Paul me agarrou a força e você vem me dizer que ele parece uma boa pessoa?
– Tudo bem, ele errou por ter feito isso, mas...
– Mas o quê, Jesse? – eu o interrompi irritada.
– Todo mundo erra, Suzannah. Eu tenho certeza que ele se arrepende de ter feito o que fez.
– E Papai Noel me visitou no último Natal. – Eu o encarei com a sobrancelha erguida e os braços cruzados sob os seios. – Ah! Qual é, Jesse!
– Seja racional, Suzannah! – Ele agora também estava irritado comigo. Antes isso do que a total falta de emoções. – Paul é jovem, bonito e com um futuro inteiro pela frente. Um erro apenas não o torna um completo canalha.
– Então por que você não fica com ele? – Eu tinha que me controlar para não gritar, tamanha era a raiva que estava sentindo.
– Suzannah! – ele me repreendeu.
Eu bufei irritada e comecei a andar pelo quarto. Eu não sabia se gritava, chorava ou batia em Jesse. A última opção me parecia a mais atrativa. Parei no meio do quarto e o encarei.
– Me fala logo o que você quer com toda essa conversa, Jesse!
– Eu estou tentando fazer você enxergar a realidade. – Ele me olhou com pesar nos olhos. – Eu não posso te dar nenhum futuro, hermosa.
– Eu nunca pedi isso. – Eu me aproximei dele finalmente e as lágrimas ganharam a batalha, rolando livres pelo meu rosto. – Eu nunca te pedi nada! Mas agora eu te peço. Não faça isso comigo, Jesse. Não seja esse ser altruísta que eu sei que você é. Não tente colocar a minha felicidade na frente da sua se afastando de mim, porque a minha felicidade é você!
Ele enxugou minhas lágrimas com o polegar e ficou assim acariciando meu rosto por um tempo. Sua expressão era um misto de dor e amor.
– Você não faz ideia como eu me senti ouvindo seu irmão falar tudo aquilo essa manhã. – Eu não o corrigi por ele ter dito que Brad era meu irmão e não meu meio-irmão. Aquilo não importava agora. – Tudo que eu mais queria era poder me apresentar a ele e a toda sua família e provar para eles que eu sou bom para você. Provar que as minhas intenções com você são boas e que eu te amo de verdade, que não estou iludindo você. Mas isso nunca vai acontecer.
– Eu sei de tudo isso. Não basta? – Eu estava me sentindo frustrada por ele estar assim. Ergui minhas mãos pegando seu rosto entre elas. – Não basta? – insisti.
Um sorriso triste apareceu no canto dos seus lábios e ele cobriu minhas mãos com as suas.
– Basta – ele se rendeu por fim. – Por enquanto.
E isso era tudo o que eu precisava. Só mais um tempo ao lado do homem que eu amava.
Eu não me importava com o tempo que nós tínhamos juntos. Eu sabia que não seria muito. Pelo menos não para mim. Jesse tinha a eternidade e nunca envelheceria. Dentro de poucos anos eu já seria mais velha do que ele e ele provavelmente iria querer que eu seguisse minha vida ao lado de alguém como eu, alguém que pudesse ser apresentado à minha família. Mas o problema era que ele era a minha vida agora e eu iria aproveitar cada momento que ele ainda quisesse ficar ao meu lado. Iria aproveitar cada toque seu, cada beijo como o que ele me dava naquele momento. Um beijo que transmitia todo amor que ele sentia por mim e eu fiz com que ele também sentisse todo amor que eu sentia por ele.
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