Atmosphere
1 Welcome to Savannah, princess
Notas iniciais
Boa leitura!!
I wanna sleep next to you
But that's all I wanna do right now
And I wanna come home to you
But home is just a room full of my safest sounds
- Troye Sivan, Talk Me Down.
A loira estava a um tênue fio de estourar.
Sua cabeça latejava, as lágrimas cortavam seu rosto e sua mente estava tão bagunçada quanto as pilhas de um lixão. Seu coração estava tão estilhaçado quanto uma janela quebrada após uma tempestade. Como sua mãe, sua progenitora, a mulher que lhe trouxe a vida poderia fazer algo como aquilo? Tirar a vida do seu próprio marido era doentio. A repulsa revirava seu estômago como uma centrífuga enquanto Clarke Griffin jogava suas roupas e pertences de qualquer forma dentro da mala. Podia ouvir sua mãe bater na porta desesperadamente, chorando e suplicando para ser ouvida. A loira engasgava-se com seus próprios soluços, seus olhos azuis vermelhos de tanto chorar. A mancha de café em sua camisa, que pertencia a seu pai, a fazia recordar que Jake Griffin não estava mais ali, pronto para recebê-la com um abraço confortante quando precisava.
Quando sua mala estava pronta, ela tomou coragem para abrir a porta, fazendo Abby, que estava apoiada na mesma, cair no chão. Suas lagoas azuis, antes brilhantes e repletas de alegria, agora carregavam tristeza, decepção, ódio e repulsa. Sua mãe ergueu-se do chão, o rosto vermelho e encharcado pelas lágrimas.
- Clarkey, por favor…
- Não me chame assim! — ela berrou, a fúria nadando em suas palavras, usando do entejo como boia salva-vidas — Você perdeu esse direito quando matou meu pai!
- Filha, eu não tive escolha, eu…
- Não interessa! Se entregasse no lugar dele! Meu pai não tinha culpa se você havia se enfiado naquela merda de tráfico! — a menina chorava ainda mais — Eu vou embora dessa casa e você não vai me impedir. Eu tenho nojo de você, Abigail. Espero nunca mais te ver.
E jogando a mala sobre o ombro, Clarke desceu as escadas como um raio dourado, abrindo a porta de casa e a batendo com força. Enquanto caminhava para longe daquele lugar onde seu pai perdera a vida, ela tentava se recompor, passando as mãos desesperadamente pelo rosto, fazendo as lágrimas pingarem no asfalto como uma estradinha de migalhas, numa versão lúgubre de João e Maria. Em poucos minutos, a loira atravessou mais da metade do quarteirão, e já estava pronta para entrar em um outro quando ouviu a voz suave de seu melhor amigo a chamar. Ela suspirou e tentou colocar um sorriso falho no rosto, sabendo que não conseguiria enganar Wells Jaha.
Wells sempre preocupou-se com Clarke. Eram melhores amigos desde os sete anos de idade, quando seus pais se conheceram. Para a garota, ele era como um irmão mais velho, no qual ela sempre poderia buscar apoio e encontrá-lo. Ele tocou seu braço com delicadeza e ela não pôde segurar sua máscara por muito tempo, voltando a desatar em lágrimas novamente, afundando o rosto no pescoço de seu amigo.
- Por favor, irmãzinha, não fique assim. Eu sei o que aconteceu com seu pai e…
- Não posso continuar aqui, Wells. — ela sussurrou — Tudo me lembra ele. Tudo.
- Você pode ficar comigo e com meu pai.
Ele não queria vê-la partir. Clarke era uma das coisas mais importantes — talvez a maior delas — de sua vida. Não aguentaria assisti-la ir embora de sua rotina. Mas também não aguentaria vê-la sofrer todos os dias, tirar de seu rosto aquele sorriso lindo que ele tanto amava. Não podia ser tão egoísta a chegar nesse ponto.
- Não posso, Wells. Simplesmente não consigo.
- E pra onde pretende ir? — ele perguntou, limpando as lágrimas da bochecha avermelhada e delicada da loira.
- Comprei uma passagem para Savannah hoje de manhã. — ela fungou — Papai tem uma casa lá, sempre íamos passar as férias naquela cidade.
- Você vai ficar bem, Clarke? — seus olhos azuis pareciam perdidos e opacos, mas ela assentiu com a cabeça — Sabe que pode contar comigo sempre, não é?
- Sei, Wells. Obrigada por ser meu melhor amigo por todo esse tempo.
Eles se abraçaram novamente, e o negro lhe chamou um táxi. Ele beijou sua testa e observou o carro se tornar apenas um ponto amarelo no final do quarteirão. Clarke, mais calma, pediu ao motorista que a levasse para o aeroporto. Enquanto seguia, sua mente tentava se organizar novamente. Agora viveria por conta própria. Teria de dividir a poupança de seu pai com Abby, e isso não lhe renderia tanto dinheiro. Precisaria pagar as contas, suprir sua geladeira, comprar alguns móveis e objetos... Viver sozinha, agora, seria um grande desafio. Mas a loira estava disposta a aceitar aquele leão do que voltar a viver com sua mãe novamente. Doía-lhe saber que não pôde ao menos se despedir de seu pai. Dizer o quanto lhe amava. E aquilo só fazia com que Clarke odiasse sua progenitora ainda mais.
Ameaçando tombar em lágrimas novamente, ela limpou suas lagoas azuis com o dorso das mãos, respirando fundo. O táxi freou com brutalidade em frente ao aeroporto. A loira deixou o carro e lhe pagou o que devia, enquanto o mesmo zarpava dali com a velocidade de um raio. O aeroporto de Denver nunca estava cheio, a cidade era pacata como uma fazenda. Ela observou o lugar com seus olhos fugazes, examinando cada pessoa que passava pela sua frente, numa forma de espantar o tédio e pensamentos indesejados. Estava observando o passo lento e trepidante de uma senhorita quando seu voo fora chamado. Ela depositou sua única mala no despacho do avião e seguiu para a plataforma, observando a silhueta da cidade tomar forma contra o Sol poente. Ela apertou seu pulso, onde o relógio de seu pai, a coisa mais preciosa que ela carregava, pendurava-se em seu braço. Estava deixando um passado feliz e um presente terrível para trás.
Clarke estava dando um novo passo em direção ao futuro.
{…}
Sentiu uma mão suave tocar em seu ombro desnudo pela blusa de manga, e quando se levantou, Clarke por pouco não acertou o nariz da comissária de bordo, que avisou-lhe que já haviam pousado na Georgia. Corada, a loira se desculpou e agradeceu, dando-lhe uma nota de vinte dólares. Ela sorriu e conduziu a garota para fora do avião, onde o ar frio do ar condicionado atingiu seu rosto.
Olhando pelos grandes vitrais do aeroporto de Savannah, ela pôde observar a neve aterrissar com suavidade no asfalto da cidade. Ela apertou-se em sua jaqueta jeans e caminhou para a área de despacho das malas. Pegou sua bolsa e seguiu solitária pelo saguão vazio, onde as atendentes dos balcões observavam as poucas pessoas que ali estavam com o semblante mergulhado e afogado no mais puro tédio. Era uma cidade tão pacata quanto Denver, mas só de estar ali ela já sentia um pouco mais de paz. O telefone em seu bolso vibrava como louco, eram dezenas as ligações de sua mãe e as mensagens de Wells perguntando se havia chegado bem. Clarke deu um débil sorriso; alguém realmente se importava.
Chamou um táxi e passou o endereço de sua nova casa. Enquanto o carro seguia, ela examinava tudo o que conseguia: a neve batendo com suavidade contra o vidro da janela e cobrindo a grama dos quintais das casas, o clima dócil e tranquilo que a cidade tinha, o formato das residências, as pessoas se escondendo dos cristais de gelo dentro de livrarias e cafeterias. Savannah tinha um clima totalmente indie e tranquilo que a alma de Clarke desejava. Uma música calma provinha do rádio, causando uma sensação de êxtase na moça. Seus sentidos se acalmaram e sua mente relaxou. Quando se deu conta, o motorista a chamava educadamente, avisando que havia chegado em seu destino.
Ela agradeceu e o pagou, descendo do carro. Encarou a casa pintada de branco a sua frente e sentiu suas linhas d'água arderem novamente. Ali era o refúgio do seu pai... E sua nova casa. Um sentimento de arrependimento tomou conta de sua cabeça. "Eu deveria mesmo estar aqui?", ela pensou, ainda encarando a casa, acumulando flocos de neve em seus ombros e seu cabelo.
- Você deveria entrar em casa.
A voz rouca soou muito mais perto do que ela esperava. Clarke se virou assustada, e toda a dúvida e arrependimento de estar ali se dissipou como fumaça ao vento. O rapaz deveria ter vinte e cinco, vinte e seis anos. Os cabelos escuros estavam bagunçados, e caíam em seus olhos de uma forma charmosa. Seu rosto era coberto por sardas, sardas estas que faziam as mãos de Clarke coçarem por papel e caneta para poderem desenhá-las. Era alto e moreno, usava uma jaqueta de couro preta e uma blusa cinza, em conjunto a calça jeans escura e um par de botas nos pés. Mas ao olhar em seus olhos, Griffin se viu perdida numa infinidade negra. Um mar escuro e lindo, no qual ela adoraria se afogar. O rapaz deu um sorriso incrível, mostrando as carreiras brancas de dentes perfeitamente alinhados. Ela não impediu um sorriso.
- Perdida?
- Não, eu, hãn, moro aqui.
- Mesmo? Já fazem três meses desde que alguém entra nessa casa. — ele riu, debochado.
- Acabei de me mudar…
- E eu não me importo. — ela franziu o cenho — Sou Bellamy Blake.
- Clarke Griffin.
Ele sorriu e limpou um pouco da neve que caia em seu ombro, fazendo uma breve reverência na direção da loira. Ela imediatamente soube que aquele garoto era problema.
- Seja bem vinda a Savannah, princesa.
Notas finais
Twitter: @jssperjordan
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