Atmosphere
2 Mind changing
Notas iniciais
I feel like I've awakened lately
The chains around me are finally breaking
I've been under self-restoration
I'm becoming my own salvation
Showing up, no more hiding, hiding
The light inside me is bursting, shining
It's my, my, my time to butterfly
— Revival, Selena Gomez.
Clarke entrou em casa, sentindo o cheiro da poeira e do mofo invadirem suas narinas como soldados num campo de batalha. A casa estava do mesmo jeito que seu pai havia deixado, a três meses atrás. Respirar fundo e sentir o cheiro da naftalina era irritante e deprimente. Jogando a mala de ombro no sofá coberto pelo plástico, a primeira coisa que ela fez fora subir até o segundo andar e pegar o aspirador de pó. Descendo novamente, ela o ligou e começou a faxina.
Talvez uma das maiores manias que puxara de sua mãe era a de deixar tudo na mais perfeita ordem e harmonia. Não conseguia relaxar até ter tudo em seu devido lugar. Enquanto arrumava a sala, ela admirava as pinturas penduradas na parede que havia feito com seu pai no verão passado. Quando seus olhos ameaçaram derramar lágrimas, ela focou sua atenção na cozinha. Mas não havia um único lugar naquela casa que não a fizesse lembrar-se de Jake Griffin. Ele era o homem mais bondoso do mundo. Era atencioso, carinhoso, e sempre cuidava da sua família. A onda de ódio a atingiu como uma flecha, e ela cerrou os punhos, segurando-se para não acertar nada na sua frente. Como Abigail poderia ter feito aquilo com ele? Com sua própria filha? A loira sentia a raiva subir em suas veias como ácido, queimando seu sangue e o fazendo borbulhar. Parou de apertar suas mãos quando sentiu as unhas fincadas na própria pele. Não adiantava mais se preocupar pelo passado; bastava agora deixá-lo para trás e seguir em frente.
Após tudo estar devidamente limpo e em seu lugar, Clarke sentou-se em seu sofá, encolhendo as pernas no mesmo. Não tinha ânimo para ligar a TV, então simplesmente ficou sentada ali, observando a neve cair suavemente contra sua janela, fazendo pequenos desenhos contra o vidro. Ela puxou um casaco de sua mala e jogou contra o corpo, deitando a cabeça nas almofadas com o objetivo de descansar. Fechou suas tenazes azuis, e respirou fundo antes de ouvir a campainha tocar. Quem poderia estar a incomodando aquela hora, de baixo de uma geada? Esgueirando-se para fora do móvel e parando em frente a porta, ela respirou fundo antes de abri-la e ser atingida por um abraço apertado de Raven Reyes.
Clarke havia a conhecido a quase sete verões atrás, quando viera passar as férias com seu pai. Rapidamente as duas se tornaram melhores amigas, mesmo podendo apenas se verem no verão. Com toda a turbulência de perder seu pai e fugir de casa, a loira havia esquecido completamente de avisar a menina que estava indo para Savannah. Equilibrando-se para não cair com Reyes em seus braços, Griffin entrou em casa, com um sorriso no rosto. Talvez os ares da nova cidade realmente estivessem lhe fazendo bem. As duas jovens acomodaram-se no sofá, e a loira teve menos de dois segundos para se preparar até ouvir os xingamentos de Raven, e sentir os tapas não-tão-suaves da mesma enquanto enfiava-se no meio das duas.
— Sua cadela com aids, por que não me disse que vinha pra cá?!
— Ah menina, me desculpe mesmo. É que eu sai às pressas de casa e acabei me esquecendo.
— Ainda bem que vi você da janela de casa, porque se não nunca saberia que está aqui. — Raven brincou, bagunçando a franja da loira — Vim correndo pra te fazer uma surpresa.
"Uma surpresa maravilhosa", Clarke pensou com um sorriso. Era bom ter sua menina ao seu lado de novo, ainda mais agora que iria precisar de muita distração. Precisava de pessoas que a fizessem feliz para não lembrar-se de seu pai e acabar virando uma depressiva. E com Rav em sua vida, não havia a mínima chance de isso acontecer. Por uma minúscula fração de segundos, o rosto de Bellamy cruzou sua mente, com o sorriso perfeito, o jeito arrogante e as sardas em seu rosto. Sacudiu a cabeça; ele era um problema, um problema daqueles cujo Clarke sempre quis evitar.
— Então, Clarkey, por que veio para Savannah? — Raven tirou-a de seu devaneio.
— Não dependo mais da minha mãe. E meu pai… — ela colocou um sorriso extremamente forçado em seu rosto, lutando contra suas linhas d'água, que reagiram imediatamente com lágrimas reprimidas — Ele vai me apoiar vivendo aqui.
A morena a encarou por três longos segundos, que pareciam muito mais milênios. Havia apenas duas únicas coisas que você jamais poderia dizer para a Reyes: que eletrônica era o pior estilo de música do mundo, e mentiras. Aqueles olhos castanhos conseguiam ler seu corpo, mente e alma em apenas doze nanossegundos e desvendar o que você tentava esconder. Ela cruzou os braços logo abaixo dos seios e franziu o cenho acusadoramente.
— Por que não acredito em você? Clarke, se eu sei que você está mentindo quando nos falamos pelo Skype, é mais do que óbvio que vou reconhecer sua mentira pessoalmente.
Como esperado, a garota não se aguentou firme por muito tempo. Em segundos, a loira desabava em lágrimas no colo de Reyes, que afagava seus cabelos com carinho, extremamente confusa e preocupada. Sempre que vinha a Savannah, Clarke era sorridente e brincalhona aos seus parâmetros, mas nunca havia passado a impressão de sofrer algum mal em sua casa. Desta vez, algo realmente sério ocorrera. Tão sério a ponto de fazer Clarke "Certinha" Griffin sair de sua casa. Raven afagou os cabelos da loira rapidamente e pediu licença, enquanto a mesma se levantava do sofá, abria a porta da frente e corria até sua casa, voltando em poucos minutos depois com alguns potes de sorvete e salgadinhos. Não suportava ver sua amiga sofrendo, e todos sabiam que Raven atravessaria o inferno para fazer seus amigos felizes. Essa era a maior qualidade da Reyes: estar sempre pondo o bem estar dos outros acima do seu.
— Clarkey Turkey, não fica assim. — Raven brincou, afagando mais uma vez sua cabeça — Seja lá qual for o motivo, tome seu tempo e me diga quando quiser, tudo bem?
— Rav? — a loira chamou com a voz um pouco menos chorosa.
— O que?
— Quando você vai esquecer desse maldito dia de Ação de Graças?
A morena riu e Clarke acomodou-se entre ela e o braço do sofá, enquanto a outra já havia ligado a TV e tinha um pacote de salgadinhos aberto no colo, enfiando as besteiras em sua boca enquanto assistia um dos episódios de Desperate Housewives. A loira limpou o resto das lágrimas que haviam em seu rosto, sentindo a tensão se desfazer por completo. Era bom ter uma amiga novamente, esfriar a cabeça, relaxar a mente depois de longas duas semanas. O celular em seu bolso tremia sem igual, tantas as chamadas e mensagens ignoradas de Abby. Não queria voltar a ter nenhum contato com sua mãe. Precisaria de muito tempo para recompor o rombo em seu coração que Abigail havia feito.
{…}
Depois de alguns dias, Clarke havia se acostumado ao clima frio de Savannah. Não era tão bipolar como o de Denver, que em menos de uma hora poderia passar do nublado ao ensolarado, mas era bem mais ameno do que o inverno rigoroso de Wellington. Raven diariamente lhe fazia visitas, sendo sua única e maior companhia. E desde que o conhecera, Clarke não havia visto Bellamy. Ele deveria ser das redondezas, não seria possível que ele apenas estivesse ali na hora certa.
Parou de pensar no mesmo. Bastaram apenas dois minutos de interação para a loira saber que aquele tipo de homem era o que ela preferia manter distância. Não queria ter seu coração mais quebrado do que já estava. Ter sido traída por sua própria mãe daquela forma havia lhe dado uma larga e sangrenta cicatriz, que levaria um longo tempo para se fechar. Ela vestiu o casaco de couro e a calça moletom, pronta para mais um dia de ficar em casa e procurar um emprego.
Clarke havia terminado sua faculdade de medicina a alguns meses atrás, graças ao fato de sua mãe ser uma médica e ensinar-lhe tudo o que sabia. Terminar a faculdade havia sido simples para ela; passou em seu último período com as maiores notas de sua classe. Ela estava prestes a engajar em um hospital grande de Denver quando o Ato Negro veio a tona e saiu de casa. Agora, estava atrás de um emprego para poder pagar as contas da casa.
— Bom dia, flor do dia. — Raven invadiu sua sala — Não me diz que você vai ficar em casa.
— Preciso de um emprego, Rav. As contas não se pagam sozinhas, sabia?
— Sei, duh. — debochou, se sentando ao lado da amiga — Qual tua área de trabalho?
— Medicina.
A morena abriu um sorriso. Griffin sempre teve jeito com a coisa, fosse cuidando de suas bonecas ou de animais. Os olhos tenazes da loira era gentis e bondosos, capazes de acalmar a fera mais brutal que poderia existir. A morena pensou por alguns instantes, batendo a ponta da unha limpa de esmaltes contra a mesa de carvalho. Quando a ideia lhe veio a cabeça, ela ergueu seus carvalhos castanhos na direção de Griffin, com um sorriso radiante no rosto.
— Um amigo meu trabalha como chefe da segurança do Ark Hospital. Ele disse que estão precisando de um médico geral a dois meses.
Clarke abriu um sorriso. Trabalhar, ter seu próprio dinheiro… Era mesmo uma das maiores realizações de seus sonhos, mesmo que agora fosse provida pela morte de seu pai. Raven telefonou para seu amigo, e em questão de segundos a Griffin havia uma entrevista marcada para segunda-feira no hospital. Reyes era mesmo maravilhosa.
— Muito bem, agora que eu consegui uma entrevista pra você, que tal vir comigo a uma festa? — a palavra "festa" fez a loira bufar pesarosamente — Por favor, Clarkey, primeiro que você me deve e segundo que precisa se enturmar!
Griffin sabia bem onde isso ia dar. Quase todas as festas em que Raven lhe convidava para ir haviam bebidas, pessoas saindo com estranhos e todo o tipo de coisa. Clarke preferia ficar em casa, vendo um bom filme de ação ou dois ou três episódios de House. Ela suspirou, enquanto a morena ajoelhava-se na sua frente e a encarava com seus famosos "olhos de gato".
— É só essa festa, ok? — ela insistiu, pidonha — E se você não gostar, pode ir embora.
— Promete?
— Prometo.
— Tudo bem, Rav. — a loira suspirou com um sorriso, enquanto sua amiga a abraçava e gritava "isso!".
Talvez uma festa fosse o que Clarke realmente precisasse para eliminar de vez todo o estresse que fazia sua cabeça querer estourar.
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