Atlantis

9 Capítulo 8 - Estrelas e Cicatrizes


Notas iniciais
Olá, leitor! Fiz a playlist da história, com as músicas atualizadas até o décimo capítulo, que será postado em breve. Aqui está o link: https://open.spotify.com/user/223pvh435mzdisqg3nhjpqaoa/playlist/12Mxp24fM0aYoRsSoDI3iE

P.O.V Jayden

Os longos cabelos castanhos que costumam cair como cascatas em seus ombros estavam, agora, balançando para lá e para cá. Ela levantava seus braços e os mexia de acordo com a melodia eletrônica que tocava de fundo, e sua expressão, embora já mostrasse que estava embriagada, estava o mais tranquila possível, com seus olhos fechados e os cílios volumosos e escuros cerrados.

Não sou capaz de contar quantas vezes fui à um pub, mas todas elas foram antes de eu saber que estava doente. Após o diagnóstico, foi como se todos os meus amigos se afastassem, como se eu tivesse algo contagioso. Cheguei a me perguntar se não iria sair mais com pessoas da minha idade, se não poderia ir à uma danceteria ou algo do tipo, e Raven respondeu essa pergunta quando chegou na porta da minha casa com seu primo, Patrick, e suas duas melhores amigas, Brenda e Georgia.

Claro, esses não são meus amigos, na verdade são bem diferentes deles, mas, de qualquer forma, são pessoas legais, e sei que se importam com Raven assim como eu me importo.

Patrick, Georgia e Raven estão na pista de dança, fazendo gestos e movendo-se desajeitadamente, de um jeito que faz com que Brenda, que está sentada ao meu lado, de altas gargalhadas que são abafadas pelo som alto.

Confesso que gostaria de estar como eles: com copos de drinques na mão, já pedindo o próximo para o garçom. Porém, minha mãe fez com que eu prometesse à ela que eu não beberia mais, e sou a última pessoa a ter coragem de desobedecê-la .

A verdade é que minha mãe nunca foi muito presente, mas ela tinha presença. As poucas vezes que nos víamos eram marcadas em meu corpo pela sua mão pesada. No começo, nunca entendia ao certo o motivo de ela me bater tanto. Mas ao poucos eu fui me acostumando, embora nunca tenha sido corajoso o suficiente para impedi-la. Quando descobrimos que eu estava com leucemia, tenho certeza que ela se culpou e, desde então, nunca mais levantou a mão para mim – mas não posso dizer o mesmo quanto a sua voz.

Esse é só um dos principais motivos para eu pedir tanto para ir morar com meu pai, mas perdi totalmente as esperanças quando ele se mudou para a Alemanha com sua nova família. Aprendi a conviver com minha mãe, embora eu passe mais tempo com as empregadas da casa do que com ela.

É difícil se sentir tão indesejado por toda a sua família, então sempre recorria aos meus amigos e minha ex-namorada, que eu poderia jurar que se casaria comigo quando nos formássemos. Mas a doença veio à tona, e então ela quebrou meu coração, assim como todos os outros. Não sei como ainda fiquei surpreso. É normal, eu já deveria ter me acostumado: as pessoas fodem com seus sentimentos, até que você não tenha mais nenhum.

E eu acreditava que não sentia mais nada por ninguém além de, no máximo, muita simpatia – e me refiro às empregadas que me criaram. Mas, então, Raven apareceu, abrindo a porta de meu quarto do hospital com um certo receio e um sorriso quase incerto no rosto, como se tivesse medo de mim, mas não da minha doença.

– E então, Jayden? Como vai? – Pergunta Brenda, uma das amigas de Raven, a única que tem um carro e parece ser a mais sã.

– Ah, oi? – Indago, e ela dá uma breve risada, tirando sarro da minha falta de atenção. – Me desculpa, eu não ouvi. Estava em outra dimensão. – Comento rindo, e ela também o faz.

– Deu para perceber... Estava pensando no quê?

– Em várias coisas, para ser sincero.

– Pode me dizer uma delas? – Ela pergunta, sem parecer curiosa. Seu tom de voz apresenta uma profissionalidade quase irritante, e me pergunto se ela não está apenas me usando como treino para seu curso de psicologia.

– Na minha vida, em geral – Respondo, e ela finalmente percebe que não quero tocar nesse assunto. Agradeço mentalmente e, quando percebo que ela já está tempo demais em silêncio, volto meu olhar para Raven, que está cantando uma música com o braço ao redor do pescoço de Georgia.

Me pergunto qual das duas está mais bêbada, e meu coração se aperta quando as duas quase caem para trás de tanta bebida. Nunca imaginei que veria Raven nesse estado. Para ser sincero, não achava que ela bebia, mas Rae sempre consegue me impressionar. Ela não sabe, mas a foto que tiramos na fazenda de lavanda é, atualmente, meu protetor de tela do celular.

– Ela é bonita, não? – Brenda tira-me de meus devaneios mais uma vez, e volto minha atenção para ela – Digo, não sou lésbica nem nada, se é isso que está se perguntando. Mas eu sei reconhecer uma pessoa bonita, e a Rae é uma delas, você não acha?

– Concordo plenamente – Respondo baixo, e, se ela não estivesse prestando atenção, seria incapaz de ouvir.

Dou um gole no suco que estou tomando e volto a olhar para Raven, que dá mais um grande gole do líquido transparente em seu copo.

– Você gosta muito dela, né? – Brenda indaga, e dessa vez sou obrigado a olhar para ela, que presta muita atenção em mim, como se eu fosse um ser de outro planeta.

– Gosto.

– Já disse isso para ela?

– Na verdade, não – Admito – Mas acho que ela sabe, não? Digo, somos bem amigos, aposto que ela sabe que gosto muito dela.

– Eu não estava me referindo à esse tipo de gostar – Anuncia Brenda, e logo minha suspeita se concretiza. Brenda vai ser uma psicóloga incrível, e sei disso porque ela parece decifrar o que estou pensando, assim como todos os psicólogos que já fui.

– É que, na verdade... – Começo, e logo as palavras se enrolam – Não, eu nunca falei para ela. E, sim, eu gosto dela, e me refiro ao outro tipo de gostar, esse que você se referiu também. Mas... Sabe, eu não acho necessário dizer à ela. Entende? Tipo, eu tenho total consciência de que esse sentimento não é recíproco, e...

– Jayden. – Ela me interrompe, e me calo imediatamente – Só para constar, ela fala de você como se você tivesse colocado as estrelas no céu. Se isso não é reciprocidade, bem, eu não sei o que é.

E, quando estou prestes a pensar alguma outra coisa para responder à Brenda, ouvimos um grito estridente vindo da pista de dança. Um gelo percorre meu corpo e desvio meu olhar para Raven, e logo percebo que o grito não vem dela, mas sim de Georgia, que está jogada no chão, com a maquiagem borrada de lágrimas.

Brenda sai correndo, e eu a sigo, tentando imaginar o que ocorreu. No meio da pista, há uma multidão, todos tentando observar o que aconteceu, e confesso ser muito difícil passar entre todos aqueles corpos curiosos. Quando finalmente chego até elas, Brenda, Patrick e Raven estão agachadas ao lado de Georgia, que está chorando mais do que antes.

– O que aconteceu? – Pergunto, correndo até eles e agachando-me ao lado de Raven.

– Eu não sei, nós estávamos dançando e então ela caiu, eu não sei. – Diz Raven, parecendo confusa e com a voz embargada graças à bebida.

– O pé dela, ela torceu o pé! – Exclama Patrick, pegando-a no colo e tentando abrir espaço entre todas as pessoas bêbadas que estavam em volta dela – Brenda, rápido, vamos levá-la ao hospital.

Brenda concorda e sai correndo atrás de Patrick, sem antes dizer a palavra “táxi” para mim com uma certa dificuldade. Repasso o que acabou de acontecer várias vezes, e ainda parece difícil acreditar que ela torceu o pé numa pista de dança.

Ajudo Raven a se levantar e, ao perceber que ela está cambaleando muito e quase cai duas vezes, passo a mão pela sua cintura, e ela acaba apoiando em mim até sairmos do pub, que está bem mais vazio na parte de fora. Sento-a no meio fio, e, antes que ela possa cambalear ou algo do tipo, sento-me ao seu lado, sentindo, após alguns breves segundos, sua cabeça apoiada em meu ombro.

Repasso mais algumas vezes o que acabou de acontecer, mas não é tão fácil o fazer quando Raven está com a cabeça em meu ombro, e meu nariz próximo aos seus cabelos, que têm um cheiro doce maravilhoso.

– Como que a gente vai embora? – Pergunta ela, com a voz lenta e arrastada. – Nossa carona acabou de ir para o hospital com o meu primo e uma mulher com o pé torcido.

Quando Raven termina de dizer isso, levanta a cabeça e olha em meus olhos, e logo começa rir, e eu sou incapaz de não acompanhar sua gargalhada contagiante. Que ótima maneira de encontrar uma saída para a situação catastrófica: rir.

– Posso ligar para a minha mãe, mas não acho uma boa ideia.

– Não acho uma boa ideia também – Admite Raven, e nós dois rimos de novo. – Vou ligar para a minha mãe, ela pode pegar um táxi e vir até aqui. Não tenho dinheiro nem para o ônibus, minha bolsa ficou no carro da Brenda.

– É, melhor ligar para ela. Meu dinheiro foi todo embora com a conta. Dá para acreditar que o preço de uma dose de vodka é quase dez libras?!

Raven ri um pouco e tira o celular do bolso de sua calça, coloca o mesmo no ouvido e, depois de um tempo, tenta falar, com a voz mais embargada possível. Após duas tentativas, tiro o celular de sua mão e respiro fundo, dizendo olá para Paige, que era uma de minhas enfermeiras prediletas na época que estava internado.

– Jayden?! O que aconteceu com a Rae? Está tudo bem? – Seu tom de voz deixa claro o quão preocupada ela está.

– Sim, ela está bem. A Georgia, que a senhora sabe quem é – Paige faz um “uhum” no outro lado da linha – Estava dançando e torceu o pé. Brenda e Patrick foram com ela até o hospital, e eu e Raven estamos sem dinheiro para pegar um ônibus.

– Meu Deus! Tudo bem, escute: fiquem em um lugar seguro. Vou pegar o primeiro táxi e vou chegar aí o mais rápido possível. – Ela dá um longo suspiro, que me diz que Raven estará encrencada – A Raven bebeu?

– Digamos que sim – Respondo, olhando para Rae, que me estuda com seus olhos distantes.

– Ótimo – Ela responde e, antes de eu lhe dizer um tchau, a chamada é encerrada, e Rae pergunta, com a voz um pouco menos embargada:

– Ela percebeu que eu estou bêbada, né?

– Sim – Respondo, e ela passa suas mãos em seu rosto, num gesto cansado que comprova ainda mais que ela estará encrencada.

Ela bebe um gole de água da minha garrafa, e nos dirigimos à um banco que está posicionado em frente ao pub, como se, na verdade, fizesse parte da decoração.

– Então, pode tentar me explicar o que aconteceu com a Georgia? – Pergunto, e Raven faz que sim com a cabeça, já parecendo um pouco menos embriagada.

– Nós estávamos dançando, e então ela reclamou que o sapato estava lhe machucando. De repente, eu só a vi no chão, gritando e chorando. Acho que o salto estava gasto demais ou algo do tipo.

– Tomara que ela fique bem – Digo, e ela concorda com a cabeça.

– Desculpa por esse passeio ter sido o pior de todos. Sério, eu queria que você conhecesse meus amigos, mas... Eu acabei bebendo demais, assim como eles. E aconteceu toda essa coisa, e agora temos que ir embora de táxi com a minha mãe. – Raven passa sua mão esquerda em seu cabelo, colocando-o atrás da orelha. Se tem algo que percebi, é que ela sempre deixa seu lado direito mais escondido pelo cabelo, mesmo que muito sutilmente. – Desculpa mesmo.

– Ei! Não precisa se desculpar. Esse não foi o melhor passeio, mas tenho certeza que vamos ter outras oportunidades. E, de certa forma, eu os conheci, e, sinceramente, já posso perceber que são pessoas incríveis. – Lembro-me do que Brenda havia me dito: “ela fala de você como se você tivesse colocado as estrelas no céu”. — Mesmo com tudo que aconteceu, foi divertido.

– Não precisa mentir, Jayden. Não foi nem um pouco divertido. – Ela diz, e tudo que mais tenho vontade de dizer é que foi incrível vê-la sorrindo, dançando e cantando do modo mais gracioso possível.

Queria dizer o quão incrível foi saber que, de alguma forma, o que sinto por ela é recíproco. Que o shampoo que ela usa tem um cheiro incrível, e que o melhor momento do dia foi ter sua cabeça apoiada em meu ombro.

Mas nada sai, apenas um aceno com a cabeça, indicando um “não”. Ela sorri e olha para o chão, levando sua mão para a parte direita de seu cabelo. Quando acho que finalmente vou ver seu lado direito mais claramente, ela abaixa a mão, como se tivesse lembrado de algo proibido, de certa forma.

Não consigo esconder minha curiosidade e acabo soltando:

– Percebi que você sempre esconde seu lado direito com o cabelo. Por quê?

– Ah, não é nada – Diz ela, e reviro os olhos de lado, como se a convencesse a contar a verdadeira história. – Tudo bem... Mas só lhe conto se prometer não dar risada.

–Prometo, de dedo mindinho – Digo e estendo meu dedo mínimo, que ela logo enlaça com o seu, que tem as unhas pintadas de preto. Ela está com um sorriso no rosto, assim como eu.

– Quando eu era pequena, estava pulando no sofá e, sem querer, caí sobre uma mesa de vidro que tinha na minha sala de estar. Acabei com uma cicatriz enorme da minha orelha até a altura do meu olho. Não gosto de mostrar para ninguém, sabe? É uma cicatriz bem feia.

– Você, feia? – Pergunto, incrédulo, e ela ri um pouco. – Eu duvido.

– Não duvide.

Reviro os olhos e aproximo minha mão de seus cabelos, que cobrem seu lado direito. Ela segura em minha mão e olha em meus olhos. Tento passar o olhar mais confiante, e, depois do que julgo ser uma eternidade, ela solta minha mão e fecha lentamente os olhos.

Coloco suas mechas atrás da orelha e, embora a luz esteja fraca, posso enxergar uma cicatriz bem fina que vai do começo de sua orelha até dois dedos abaixo de seu olho. A cicatriz é quase invisível, e tenho certeza de que muita gente não iria nem reparar. Além do mais, ela não está no meio do rosto, e sim perto de sua têmpora.

Raven ainda está com os olhos fechados e, provando que sou um completo curioso, passo meu dedo indicador pela cicatriz, e percebo que ela se arrepia. Percebendo que ela ainda está com os olhos fechados, faço algo que nunca imaginei fazer.

Aproximo meu rosto do seu e, antes que ela perceba e se afaste, beijo de leve a ponta da cicatriz. Foi como um beijo na bochecha, mas um pouco mais para direita. Passei longe de sua boca, mas, ainda assim, ela continua arrepiada. Dou um breve sorriso.

Acabei de beijar a cicatriz em sua pele, a única coisa capaz de provar que, na verdade, ela não é um anjo.

Afasto-me e ela abre os olhos, com as maçãs do rosto ainda avermelhadas.

– Ainda acho você linda. – Sussurro, e ela não esconde seu rosto com seu cabelo.

Nem mesmo quando sua mãe chega, e muito menos quando entramos no banco de trás do táxi, ouvindo Paige dando uma breve bronca em Raven.

Ela não esconde seu rosto pelo resto do caminho, e apóia sua cabeça em meu ombro de novo, até adormecer. O táxi para em frente a minha casa graças às coordenadas que dei ao motorista e, para não acordá-la, encosto sua cabeça no vidro do carro com a maior delicadeza possível.

Quando abro a porta de minha casa e olho para o carro, posso vê-la ainda com os olhos fechados, e seu lado direito à vista.

Notas finais
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