Atlantis
10 Capítulo 9 - Olhos de Oceano
Notas iniciais
– O que caralhos você está fazendo aqui? – É a única coisa que escapa de minha boca quando me deparo com Edward parado na porta da minha casa, com um rádio pequeno pendurado em sua mão grande e morena.
– Bem educada – Provoca ele, e é inevitável revirar os olhos depois do comentário.
– Se você veio aqui para fazer nota sobre o meu palavreado educado, sinto te dizer que tenho uma pessoa que faz o mesmo serviço, e ela é a minha mãe – Digo, e logo começo a fechar a porta, mas ele acaba segurando-a, de modo que eu não condigo terminar de fechá-la.
– Não foi à faculdade por quê?
– Estou morta de ressaca, acho que dá para perceber pela minha cara de defunto. E para ajudar estou sem maquiagem.
– É , você está bem acabada mesmo – Brinca ele, e juro que poderia lhe dar um soco na cara se fosse tão descontrolada quanto Geórgia.
– O que você quer, Edward? – Pergunto, encostando-me no batente da porta com um tom cansado.
– Bom, se vamos dançar duas músicas na formatura da minha irmã, quero me certificar de que você não vai pisar nos meus pés.
– Repetindo: estou de ressaca. Eu preciso descansar, você não percebe? Não vai dar para dançar com você hoje e nem nunca, além do mais, eu adoraria pisar nos seus delicados pezinhos – Dou um sorriso cínico, e Edward o retribui com uma longa revirada de olhos.
– Ah, é? Poxa, seria uma pena se eu rasgasse os convites da formatura, aqueles que você já pagou metade, não?
Quando Edward me chantageia e dá um sorriso ao final da frase, a vontade de bater em seu belo rosto com barba por fazer me invade, mas me contento em apertar o batente da porta com minhas mãos suadas. Ele sabe que, com essa chantagem, será impossível negar. Ele tem esse jeito imundo de estar sempre por cima, e isso faz com que eu queira matá-lo.
– Você é um filho da puta, Edward. – Anuncio, abrindo a porta para que ele possa passar pela mesma, e tenho náuseas quando vejo um sorriso triunfante em seu rosto, como de quem acabara de vencer uma competição.
Subimos a escadas até minha sala de estar, e logo começo a afastar a mesa de centro, onde Edward deixa seu pequeno rádio portátil. Não faço ideia de como vamos ensaiar essa dança, mas agradeço aos céus o fato de minha mãe nem Patrick estarem em casa, porque sei que tudo isso viraria assunto por dois meses.
Edward liga seu rádio e busca alguma música, e, quando encontra uma lenta de algum artista que não conheço, caminha até mim, ignorando todas as bufadas impacientes e reviradas de olhos vindas de mim.
– Tá, o que você quer que eu faça? Não vá achando que eu sou uma bailarina ou algo do tipo, porque eu não sou, e você sabe que a última coisa que eu quero nessa vida é dançar com você.
– Por enquanto, você pode só passar as mãos pelos meus ombros e ficar calada – Ele diz com um riso abafado no final, e faço o que ele manda, com a intenção de que aquilo acabe logo.
Assim que faço o que ele havia dito, seus braços longos e com músculos levemente definidos me envolvem, um pouco acima de minha cintura, e a primeira coisa que sinto é culpa. Embora negue, sei que Geórgia ainda alimenta uma certa paixão por Edward, e o fato de eu estar prestes a dançar com ele enquanto ela está sendo engessada no hospital me incomoda profundamente.
– Certo, é só você me acompanhar enquanto te guio. – Ele diz, e faço o possível para afastar pelo menos um pouco meu corpo do seu. Ele provavelmente percebe, mas ignora – Quando eu mover meu pé direito para trás, você move o seu esquerdo para frente, entende?
– Tudo bem – Concordo, e logo ele começa a se mover pela sala.
Um passo de cada vez, com paciência para todas as vezes que acabo movendo o pé errado ou fazendo algum passo rápido. Nunca imaginei que Edward saberia dançar, mas ele me surpreendeu, a confesso que está me guiando perfeitamente. Pelo menos não passaremos vergonha no dia da formatura.
– Está indo bem, Rae – Ele admite, com um sorriso leve, que apenas move os cantos da boca. Faço que sim com a cabeça, e novamente aquela culpa preenche meu peito.
Quando finalmente pego o ritmo dos passos, meu celular toca, e solto Edward repentinamente, como se tivesse acabado de receber um choque.
Confesso que agradeci ao universo pelo telefone ter tocado. Não é que eu não esteja gostando de dançar com Edward, o problema é que eu não consigo fazer isso com Geórgia. Claro, não é nada de mais. Mas eu sinto como se estivesse traindo sua confiança dançando com o cara que ela tem uma queda – ou devo dizer um abismo?
– Mãe?
– Oi, Rae... Está em casa? – Pergunta ela, e já percebo a tensão em sua voz. Sinto um gelo no estômago, e um medo inconsciente percorre minha espinha.
– Sim... O que houve?
– Você está sentada? – E é nesse momento que percebo que algo horrível aconteceu, e meu coração se aperta.
~*~
“Ele teve uma recaída”. É a única explicação que tenho de todas as enfermeiras que encontrei, e me deixa aflita não ter encontrado minha mãe ou Scarlett. Fico me perguntando inúmeras vezes se é possível haver recaídas quando a doença é leucemia, e a única coisa que consigo lembrar é do fato de Jayden estar em estado terminal – e não saber disso.
Estar sentada nessa sala de espera me deixa ainda mais aflita, sem citar o fato de Geórgia estar aqui também. O bom é que a situação dela é melhor: acabou quebrando o pé e receberá alta em menos de uma hora. Ainda não a encontrei, mas sei que Brenda ou Patrick estão com ela e, de certa forma, isso me acalma.
Mas não tenho notícia nenhuma de Jayden, sequer sei o que aconteceu com ele. A única coisa que minha mãe conseguiu dizer no telefone é que ele tinha acabado de ser internado, e que perguntou por mim. Interrompi imediatamente minha “aula” com Edward e peguei o primeiro ônibus que parou no ponto, praguejando contra o fato de eu não poder e nem ter um carro para dirigir.
Me lembro de ontem, como estávamos completamente bem. Deixei ele ver minha cicatriz, e lembro-me de como ele a beijou. A sensação que tive foi de que estava sendo beijada por um anjo, e confesso que queria que aquele momento nunca acabasse.
Eu não posso mentir para mim mesma: eu queria ser beijada por Jayden. Queria sentir seus lábios pressionando os meus, e cheguei a pensar que ele o faria. E quando minha mãe chegou no táxi, cortando nosso momento sozinho, tive vontade de pedir para ela dar mais algumas voltas com o taxista, que estava com um humor péssimo, por sinal.
É estranho como tudo muda de um dia para o outro, e agora não posso impedir de me sentir mortalmente preocupada com ele, e até um pouco culpada por estar dançando com o idiota do Edward quando ele estava sendo internado.
O relógio na parede mostra que já estou sentada aqui há uma hora, e parece que não fazer nada acaba piorando minha preocupação. Eu tenho medo de perdê-lo, e só agora percebo o quão importante ele se tornou para mim, mesmo que em pouco tempo. Eu sinto como se fossemos destinados a nos conhecer e mudar a vida um do outro, respectivamente.
Quando estou prestes a ir novamente ao balcão da recepção pela quinta vez, vejo minha mãe passando pela sala de espera apressada, com um papel em mãos e um semblante preocupado. Não me acanho e caminho rapidamente até ela, ignorando todos os olhares das recepcionistas e outros pacientes.
– Mãe! – Exclamo, e ela finalmente para de andar, virando-se para mim e dando um suspiro preocupado e aliviado, ao mesmo tempo.
– Rae! – Ela exclama também, e antes que ela pergunte como estou, a interrompo com uma pergunta muito mais importante.
– Cadê o Jayden? O que aconteceu? E o que é ter uma recaída?
– Ele recaiu, filha. – Ela diz, e dou um suspiro impaciente, encorajando-a a dizer o que realmente aconteceu – Chegou aqui com febre, petéquias e com sangramento na gengiva e no nariz. O médico ficou preocupado e achou conveniente interná-lo.
– O que diabos são petéquias?! – Exclamo alto demais, chamando novamente atenção das pessoas da sala de espera.
– Machas pequenas e vermelhas na pele. – Ela lê o papel que está em sua mão e logo continua – Mas ele está melhor – Tranquiliza ela, e sinto um peso sair de minhas costas – A febre foi controlada e o sangramento parou.
– Eu já posso vê-lo? Você disse que ele perguntou de mim, certo?
– Sim, você pode... Ele está no quarto dezoito, segundo andar. A última vez que o vi tinha acabado de receber um medicamento para a febre, que o deixa um pouco sonolento.
– Não tem problema – Digo, e seco o suor de minhas mãos nas calças jeans claras que estou usando.
Quando estou parcialmente longe de minha mãe, ela me chama novamente:
– Rae. Tem outra coisa que você precisa saber.
– O quê?
– O médico achou melhor contar a ele. Então... é. Jayden já sabe que está em estado terminal.
Viro de costas e posso sentir aquele peso que havia acabado de me livrar voltando novamente. Subo as escadas sem olhar para trás, mas sinto um olhar penoso de minha mãe.
Eu não quero que Jayden desista. Não sei como é receber a noticia de que está prestes a morrer, mas imagino ser algo que faz com que você pense sempre na pior atitude a se fazer, e eu não posso deixar que isso mude a mente de Jayden.
Eu quero vê-lo sorrindo, indo à formatura de uma desconhecida. Quero ir mais vezes até a fazenda de lavanda e discutir sobre como ficamos mais bonitos sorrindo. Quero sentir seu beijo não só em minha bochecha, próximo a minha cicatriz. Quero pressionar meus lábios nos seus e abraçá-lo, sentindo seu cheiro que acabei decorando de tão bom.
Bato na porta do quarto dezoito e, antes de abri-la, respiro fundo, como se estivesse me auto-encorajando. Quando a abro, vejo um Jayden com a pele mais pálida do que nunca e os olhos vermelhos e úmidos, como se estivesse chorando há pouco tempo.
Ao seu lado está Scarlett, sem um pingo de qualquer emoção. Ela exclama meu nome e, dizendo que nos deixará sozinhos, sai do quarto batendo seus sapatos de salto no piso. Fecho a porta atrás de nós, e logo percebo que Jayden não olha para mim, mas sim encara a parede à sua frente, como se sua tinta branca fosse interessante.
Ficamos em um silêncio que acaba comigo, e, mesmo que eu tente dizer alguma coisa, pareço muda. Eu não posso dizer nada, sei que estou errada. Jayden sabe que seu câncer já está em estado terminal, e eu não poderei mudar isso com palavra nenhuma. Além disso, algo me diz que ele sabe que eu sabia, há mais de uma semana, sobre isso.
– Quando você iria me contar? – Ele pergunta, e logo seus olhos enchem-se de água.
Sempre acreditei que o som mais terrível seria o de uma buzina de caminhão. É um som persistente e ensurdecedor, e sempre que escuto, acabo praguejando. Mas eu nunca pude estar tão errada.
Antes de fazer a pergunta, a voz da Jayden vacilou, e suas lágrimas acabaram vencendo. Esse som, o som de sua voz aveludada lutando contra a tristeza, esse sim é o pior som do mundo. Foi como se eu conseguisse ouvir cada lágrima gritando, como se eu escutasse ali todo o sofrimento pelo qual ele havia passado. E o pior: eu senti como se eu fosse culpada por tudo aquilo.
– Me desculpa, Jayden – Sussurro, e o mesmo acaba saindo alto demais, de modo que ele consegue escutar.
Ele fecha os olhos, e logo duas lágrimas tracejam seu rosto, e é impossível lutar contra a vontade de chorar. Eu não choro por comoção ou algo do tipo. Eu sei que estou chorando por ele, porque não sou capaz de vê-lo chorando sem chorar também.
Eu fico feliz quando ele está feliz, logo fico triste quando ele também está. Jayden comanda minhas emoções, e é tão difícil lidar com isso. É tão difícil lidar com o fato de vê-lo chorando pelo simples fato de que eu me desfaço toda.
– Eu sei que deveria ter te contado, eu sei que estou completamente errada – Digo, aproximando-me da maca que ele está sentado. – Eu juro que nunca quis te magoar, Jay. Eu tinha medo de que você desistisse, não queria que soubesse disso através de mim. E-eu... Eu errei. Mas eu nunca quis te magoar, eu juro.
As lágrimas continuam correndo seu rosto, assim como no meu. Sento-me na maca, e ele não se move, apenas abre os olhos, estudando-me com os mesmos.
– Me desculpa, me desculpa – Insisto, segurando de leve sua mão.
– Por que você está chorando, Raven?! – Me assusto ao ouvir o tom de sua voz, que é alto e nervoso – Não é você que está prestes a morrer, tá legal? Não é você que sente fraqueza todos os dias, que tem esses hematomas azuis ridículos enfeitando a droga da tua pele, você não tem sangue escorrendo de seu nariz uma vez por semana. Você não toma aquelas pílulas azuis que fazem você dormir como uma pedra, e você não precisa vir ao hospital todos os meses e ouvir que “talvez tudo dê certo”. Você é saudável, não tem porque chorar! – Um soluço desesperado salta de minha boca, e mais lágrimas tomam conta de meu rosto, deixando Jayden ainda mais nervoso. – Você ainda está chorando! Por que está chorando, Raven?!
– Porque eu desmorono completamente quando te vejo chorando, Jayden! – O interrompo com o mesmo tom de voz, e ele finalmente se cala – Eu não quero te ver chorando, eu não consigo ver você sofrendo! É como se tudo estivesse acontecendo, e pode ter certeza que o fato de eu não ter a mesma doença que você não diminui nem um pouco meu sofrimento.
– Mesma doença?! Raven, você não é doente, não tem doença nenhuma!
– Ah, tenho sim. – Dou uma risada quase inconformada no meio de minhas lágrimas – O nome é amor, e pode acreditar: é a pior de todas.
Nós dois ficamos em silêncio, mas sei que nossas mentes estão no meio do maior barulho. Entendo que Jayden me odeie agora, mas eu não posso deixar que isso aconteça. Eu não admiti que o amo para que ele se sinta comovido, mas sim para que ele entenda que eu nunca, jamais, iria gostar de vê-lo sofrendo.
Quero que ele saiba que eu apenas não contei à ele por motivos de medo e, talvez, falta de coragem. E não porque eu não queria contar ou algo do tipo.
Quando ficamos quase dois minutos em silêncio, julgo ser o momento certo para abraçá-lo e pedir desculpas, mas estou em um estado de nervos que nunca experimentei, e isso faz com que eu saia do quarto sem me despedir, batendo sua porta e descendo as escadas na maior velocidade possível.
Ignoro todos os olhares e, quando finalmente me sinto inteiramente sozinha, me permito chorar, sem me importar ao certo com todos os olhares das pessoas que caminham por essa praça.
O problema é que, sempre que fecho meus olhos, lembro-me de Jayden e seus olhos azuis que me lembram o oceano atlântico.
E, por ironia ou não, há alguns minutos, eu tive a impressão de que seus olhos de oceano estavam chorando um.
Fale com o autor