Atlantis
8 Capítulo 7 - Lavanda
Eu não sei de onde tirei coragem e tempo para vir até a casa de Jayden e tocar a campainha, sem realmente me importar em ser recebida com uma arma apontada para minha cabeça. Não que Scarlett seja um assassina que guarda armas em casa, mas eu não me espantaria se soubesse que ela já foi presa por psicopatia ou sociopatia.
Brincadeira. Mas com certeza aquela mulher não é uma das mais normais.
Mas, quando abrem a porta, sou recebida por uma moça linda e com olhos gentis escuros como jabuticabas maduras.
– Ahn, oi – Digo, com medo de parecer inconveniente ou algo do tipo – Sou Raven, e... sou amiga do Jayden. Ele está aí?
– Olá! – Ela exclama, com um tom caloroso que faz com que eu me sinta confortável imediatamente – Sim, sim, ele está no quarto dele. Entre enquanto o chamo.
Entro na casa e a moça sobe as escadas com uma rapidez que quase me espanta, contando que ela parece ter quase setenta anos. A sala na qual me encontro é quase do tamanho da minha casa, e não estou exagerando tanto. Suponho ser apenas a entrada, que possui sofás e poltronas beges sobre um tapete escuro com alguns detalhes em marrom.
Bem no centro, há uma mesa de vidro sem nenhum vestígio de pó ou algo do tipo, e um vaso bege enorme com flores lindas que me pergunto como estão vivas. Tenho certeza que as criadas cuidam muito bem dessas flores, mas sei que aquele olhar gélido de Scarlett poderia acabar com a vida das mesmas.
Aliás, me pergunto por que não fui atendida por ela, já que Jayden disse que agora ela passava muito mais tempo em casa graças a doença dele. Eu imaginei que ela atenderia a porta e logo fosse mandar eu tirar os pés de seus tapetes que provavelmente custam o aluguel da minha casa, mas não – ainda bem.
– São de verdade – Diz a voz de Jayden logo atrás de mim – As flores.
Me viro rapidamente e me deparo os cabelos loiros de Jayden mais bagunçados do que o normal, os cachos emaranhados, mas ainda assim sem nenhum nó. Ele está com olheiras que beiram ao profundo, mas num tom mais claro do que olheiras costumam ter. Seu lábio está aberto em um daqueles sorrisos largos capazes de fazer meus olhos se iluminarem, e seus pés estão descalços sobre o tapete.
Ele se aproxima e me dá um abraço rápido, mas demorado o suficiente para eu sentir aquele cheiro de shampoo masculino e lavanda tão característico.
– São lindas – Digo, referindo-me às flores. Seu sorriso se alarga mais um pouco, e sinto uma espécie de fervura.
– Graças à Yolanda – Diz ele, e logo vejo que a mesma moça que abriu a porta está a esquerda de Jayden – Ela é ótima com plantas. E com garotos que sofrem de leucemia linfoide aguda – Seu olhar vai até a moça, que dá um sorriso pesaroso.
– Vou deixá-los sozinhos – Anuncia Yolanda, se afastando – Se precisarem de alguma coisa, é só chamar.
Nós dois concordamos e ficamos uns dois minutos em silêncio, e, por mais incrível que pareça, o mesmo não se torna constrangedor ou algo do tipo.
– Eu tenho uma notícia para te dar. E tenho quase certeza que você vai amar. – Digo, quebrando o silêncio e presenciando um dos sorriso lindos de Jayden.
– Não me deixe curioso – Pede ele, provocando um breve riso em mim.
– Eu não posso te contar aqui. Isso tem que ser em um lugar mais... legal. – Digo, e ele ergue uma das sobrancelhas – Já foi ao Mayfields Lavender Farm? [http://static.panoramio.com/photos/large/24688965.jpg ]
– Aquela fazenda de lavanda, certo? – Pergunta ele, e faço que sim com a cabeça – Não, nunca fui.
– É bem perto daqui, acha que sua mãe ia querer nos matar se fossemos até lá?
– Provavelmente, mas temos até as cinco da tarde. E ainda são duas e meia.
– Então vá se calçar! – Exclamo, e ele dá uma gargalhada antes de subir as escadas correndo.
Na verdade, o que estava em minha mente era apenas dar à ele a notícia de que iríamos à uma formatura, voltar para casa e terminar meu trabalho da faculdade. Mas assim que senti seu cheiro, a única coisa que lembrei foi da fazenda de lavanda, um dos meu lugares prediletos na cidade. Olhando de longe, parecia como um mar roxo, um mar de lavanda, um mar do cheiro de Jayden.
Ele desce as escadas de mármore em menos de dois minutos, com um vans cinza nos pés e uma camiseta mais larga, diferente da outra que ele estava usando.
– Você quer que eu chame um táxi? – Pergunta ele, parecendo bem preocupado com isso – O motorista está com a minha mãe, segundo Yolanda.
– É sério isso? Vocês têm um fucking motorista? – Pergunto, incrédula, e realmente estou, já que passei minha vida todo andando de ônibus para lá e para cá.
– É, sim. – Ele parece um pouco constrangido, e logo rio um pouco, para não deixá-lo desconfortável – Mas ele é mais da minha mãe do que meu. Sabe como é, ela gosta de ter certeza de que, se alguma coisa acontecer, ela não precise dirigir até o hospital, e sim fique me acalmando. Não que isso surta algum efeito.
– Ah, eu entendo – Minto, já que na verdade não entendendo. Não seria mais fácil chamar uma ambulância?
– Mas então, posso chamar um táxi?
– Na verdade, eu estava pensando em irmos de ônibus.
– Eu nunca andei de ônibus, para dizer a verdade – Quando ele diz isso, me seguro para não parecer muito espantada. Essa é mais uma prova do quanto há diferença de “padrões” no Reino Unido.
– Bom, para tudo tem uma primeira vez.
~*~
Quando o ônibus finalmente chega depois de dez minutos de atraso, entramos no mesmo com uma certa urgência. Pagamos o transporte e subo as escadas, até o segundo andar. Jayden me segue com um olhar quase encantado. Me encaminho até o primeiro lugar, bem próximo à janela da frente, de modo que ele tenha bem essa sensação de estar no segundo andar de um ônibus – e pela primeira vez.
É encantador ver a expressão maravilhada de Jayden. Ele olha pela janela com um sorriso bobo no rosto, como se estivesse vendo algo inacreditável. Seus olhos percorrem as ruas, as casas, e me permito fazer o mesmo. Já andei inúmeras vezes nesses ônibus de dois andares, e nunca parei para perceber o quanto é incrível mesmo. Ver tudo dessa altura, ter essa sensação de estar guiando o ônibus com seu olhar.
Nunca achei que isso fosse capaz de acontecer. Eu já estava acostumada, não deveria me encantar com algo que vejo todos os dias. Mas Jayden conseguiu. Ele fez com que eu olhasse para a cidade com outros olhos.
– Nunca pensei que andar de ônibus fosse tão legal – Admite ele, e dou-lhe um dos meus sorrisos mais sinceros.
– Nem eu – Sussurro, e ele me olha com um olhar que sou incapaz de descrever. É um olhar de felicidade, a genuína felicidade.
– Você vai precisar andar de ônibus comigo mais vezes.
– Não será nenhum esforço – Nós dois sorrimos, e logo não sinto necessidade de dizer mais nada.
Continuamos olhando através da janela até o ônibus anunciar que chegamos ao Mayfields Lavender, e corremos pelas escadas com degraus grandes demais com uma certa adrenalina.
Enquanto caminhamos até a entrada da fazenda de lavanda, Jayden vai dizendo sobre tudo que viu, mas confesso não estar prestando muita atenção, mesmo quando o que mais quero é ouvir o que ele tem a dizer. Mas é como se sua voz seja uma melodia de fundo, como se eu me encontrasse em êxtase apenas por causa de uma cidade vista através de um janela de ônibus.
Assim que entramos na fazenda, me deparo com o mar roxo que me lembrava vagamente. O lugar consiste em, basicamente, várias fileiras de lavandas plantadas. E, como estamos na primavera, as mesmas assumem um tom de lilás-escuro que julgo ser minha cor favorita, e acredito que Jayden julga a mesma coisa.
– Meu Deus, Rae! – Ele exclama, me fazendo rir um pouco – Parece um mar lilás!
– Não é?! E sente só esse cheiro – Digo, e nós dois respiramos fundo, sentindo cheiro maravilhoso de lavanda, o mesmo cheiro que sinto quando abraço Jayden.
Nós dois caminhamos até o meio das fileiras e ficamos ali: Jayden passando a mão pelas flores, e eu sentada sobre a terra levemente úmida com a intenção de absorver cada segundo daquela vista que é capaz de tirar o fôlego de qualquer um.
Jayden senta-se ao meu lado e ficamos alguns minutos em silêncio, sem desviar o olhar de todas as fileiras de lavanda que se estendem em nossa frente.
– Acho que esse é o meu lugar favorito no mundo – Ele diz, com um tom quase melancólico.
– Então acho que temos o mesmo lugar favorito – Respondo, e posso ver ele sorrindo levemente.
E, como se aquele sorriso apertasse um botão em minha cabeça, me lembro do que descobri há uns cinco dias atrás. Jayden estava em estado terminal.
Eu sei que não deveria lembrar disso num momento como esse, mas é quase impossível. De repente, um espécie de aperto toma conta de meu peito e sinto uma vontade de chorar. O fato de estarmos aqui, sentados, olhando para essa vista maravilhosa com a consciência de que estou escondendo algo tão sério como a morte me deixa completamente incomodada. Eu sei que ele ficaria devastado, mas também sei que ele merece saber.
Mas precisa ser agora?
– Rae?
– Sim? – Pergunto, saindo de meu transe com um medo impossível de ele ter lido minha mente.
– Lembra-se de que você disse que precisava me contar algo? Algo que eu ia amar?
– Sim! – Exclamo, obrigando aqueles pensamentos a se afastarem pelo menos por esse momento. Eu não iria estragar um momento como esse, não iria estragar o lugar favorito de Jayden com uma notícia tão ingrata.
Faço perna-de-índio e fico em frente à Jayden, ele com um sorriso nervoso e curioso.
– Passarinho verde me contou que você nunca foi a uma formatura. Recebi a informação certa?
– Sim, e aposto que já sei quem é o passarinho verde – Ele diz, com um sorriso largo.
– Esse mesmo passarinho me deu uma ideia incrível, sabe? – Digo, tentando pensar num jeito inteligente de dar a notícia à ele – E você vai à um baile de formatura.
– Tá falando sério? – Pergunta ele, com uma incredulidade saudável, feliz.
– Super sério.
Jayden exibe um dos sorrisos mais largos e juro que vejo seus olhos marejarem um pouco.
– Obrigado, Rae. De verdade, do fundo do meu coração. Não sabe o quanto isso significa para mim – Ele agradece, e a única coisa que consigo fazer é puxá-lo para um abraço apertado e demorado, sem me importar com a posição não muito agradável que me encontro.
Aquele peso de estar escondendo algo dele continua ali, mas faço o possível para ignorá-lo e tornar esse abraço o melhor de todos. Eu prometi para mim mesma que o faria feliz em seus dias contados de vida, e, só de ver seu sorriso estampado, é como se eu ganhasse um troféu.
– Mas, se eu vou ao baile, tenho que chamar um par certo? – Pergunta ele assim que nos soltamos do abraço. Vejo um sorriso maroto em seu rosto, e não penso duas vezes antes de entrar em sua brincadeira.
– Ah, sim. Você precisa – Nós dois sorrimos e ele estende seu braço até uma das lavandas, arrancado-a delicadamente de seu caule e a oferecendo para mim.
– Aceita ir ao baile de formatura comigo, Purpleskull? – Ele força uma voz sexy e me provoca altas gargalhadas, que são respondidas com uma risada alta dele.
– Seria uma honra – Não consigo segurar meu sorriso, e aposto que Jayden também não consegue.
Ele leva sua mão até meu cabelo e coloca o mesmo atrás de minha orelha, juntamente com a flor. Seguro o impulso de segurar sua mão e fecho meus olhos, sentindo seu toque delicado em minha orelha.
– Ficou quase parecida com uma pessoa delicada com essa flor, sério – Provoca ele, e lhe mostro a língua, quase mordendo a mesma quando seu sorriso me provoca outro.
Jayden tem um poder sobre mim que eu não consigo ao certo explicar. É como se eu sentisse a necessidade de sorrir toda vez que ele o faz, como se ele me fizesse feliz, mesmo que eu não tenha tantos motivos para ser.
– Vamos tirar uma foto – Diz ele, tirando seu celular do bolso e ligando a câmera, direcionando a mesma para mim.
– Tudo bem, como eu fico melhor? Sorrindo, tipo, com os dentes ou só com os lábios?
– Essa foi a pergunta mais estranha que já fizeram para mim, mas eu prefiro seu sorriso com os dentes – Ele diz e nós dois rimos.
Dou um sorriso e fecho meus olhos graças ao sol, e logo ele tira a foto. Pego seu celular, com o intuito de tirar uma foto dele.
Ele dá um breve sorriso sem mostrar seus dentes e digo, sem deixar de tirar uma foto mesmo assim, já que ele fica lindo de todos os jeitos:
– Prefiro quando você mostra os dentes também.
Jayden me obedece, dando seu sorriso largo, e aposto que ele já sabe que meu coração se acelera quando ele sorri. Tiro uma foto, e logo ele tira o celular da minha mão, virando-o e apontado a câmera frontal para nós dois.
Ele encosta sua cabeça na minha e sorrimos – mostrando os dentes – e, por falta de uma, ele tira três fotos. Nós dois, nossos sorrisos mais verdadeiros e o mar lilás atrás de nós. O mar com cheiro de Jayden.
~*~
O ônibus que pegamos para voltar não tinha dois andares, infelizmente, então nos sentamos nos últimos lugares, ele na janela e eu ao seu lado, com meu celular nas mãos e o fone de ouvido plugado, um deles na minha orelha, e o outro na de Jayden.
Quando vi suas poucas músicas salvas no celular, decidi que iria mostrar algumas músicas para ele, e fiquei incrivelmente feliz quando ele gostou Cold Coffe, do Ed Sheeran.
– Então basicamente, ele é viciado em bebidas? – Pergunta Jayden assim que terminamos de ouvir Drunk.
– Talvez ele goste de beber, mas não é porque o Ed Sheeran fala sobre bebidas em quase todas as músicas dele que ele é alcoólatra.
– Na verdade, é sim.
– É, você tem razão – Admito, e ele sorri – Mas as músicas dele são incríveis.
– Deu pra perceber que você gosta. Você decorou mesmo a letra de todas elas?
– Digamos que não foi uma tarefa difícil. Até porque as músicas são realmente muito boas.
– São mesmo – Anuncia ele, e logo faço uma exclamação, como se tivesse ganhado uma aposta ou algo do tipo.
A verdade é que Jayden tem um gosto musical muito diferente, e parece quase um crítico ouvindo uma música. Posso quase ouvir seus pensamentos, anotando mentalmente qualquer desafinada da guitarra ou erro no baixo.
Continuamos ouvindo músicas até chegarmos no ponto perto de sua casa, e, assim que saímos do ônibus, desligo a música. Caminhamos até a casa, vulgo mansão, com uma certa pressa, já que o relógio já marca cinco e quinze da tarde, deixando claro que Scarlett já chegou e provavelmente está querendo me matar.
Quando estamos próximos da porta de madeira enorme, Jayden muda o assunto – que era a cor exata da lavanda – para algo bem diferente.
– Sabe, Rae, eu gostei muito das músicas que você me mostrou hoje. De verdade.
– Ah, fico feliz. Eu sei que tenho um bom gosto musical – Digo com uma falsa modéstia.
– São músicas boas, sabe? Essas que você escuta, as que tocam sempre no rádio. – Ele dá uma breve pausa e continua – São ótimas, mas... Eu sinto como se meu estilo de música favorita seja a sua voz – Quando ele termina de falar, fico sem respostas.
Não é como se ele tivesse dito algo completamente fofo do estilo dos filmes, mas faz meu coração bater um pouco mais forte. Olho de relance para ele, e Jayden não parece nem um pouco constrangido por ter dito isso.
– Minha bela voz de taquara rachada? – Brinco, e ele ri um pouco.
– Acho que adoro taquaras rachadas.
– Você sabe o que é uma taquara rachada?
– Não faço a menor ideia.
– Nem eu – Admito, e nós dois rimos, parando em frente a casa dele. – Bom, é melhor eu ir, antes que sua mãe apareça por aí.
– Concordo. – Diz ele, e nos encaramos por alguns segundo desconfortáveis.
– Até mais – O puxo para um abraço e, enquanto estou sentindo o cheiro indistinguível de Jayden, vejo que Scarlett nos espiona por uma janela do segundo andar. E ela percebe que eu a vejo.
– Até. – Ele diz, e não abre a porta até que eu esteja fora de vista.
Passo a mão pelo meu cabelo e sinto, logo atrás de minha orelha, a lavanda que Jayden depositou. Sou incapaz de segurar um sorriso.
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