Atlantis
3 Capítulo 2 - –J
Notas iniciais
Quando olhava para Jayden encostado naquela cama com lençóis brancos, nunca imaginei qual seria o seu tamanho. Ou como seus cabelos cairiam sobre seus olhos, quando não estavam encostados na fronha do travesseiro macio.
Ele é bem mais alto que eu, e nem sou tão baixa assim. Deve ter uns sete centímetros a mais que eu, e, por incrível que pareça, isso não me deixa com a sensação de ser vulnerável ou pequena. Seus cachos loiros e rebeldes caem sobre seus olhos, de modo que ele deve empurrá-los para trás com suas mãos levemente azuladas.
– Ainda bem que veio, Rae – Diz ele, sorrindo brevemente enquanto me aproximo dele – Já estava pensando que você não viria...
– Desculpa pela demora! Eu me atrasaria menos se minha mãe me ligasse mais cedo – Minha mãe, que está ajudando Scarlett a colocar uma mala preta no porta-malas revira os olhos – E se o ônibus que peguei não passasse por locais com tanto tráfego. Aliás, esse hospital precisa colocar na entrada da pediatria, com letras bem grandes: pediatria. Eu sempre entro por lá, ao invés do hospital adulto.
– Pode deixar que colocarei sua reclamação na caixinha de melhorias do ambiente. – Brinca minha mãe, que ri com a própria piada.
Jayden ri também, mas Scarlett não. Na verdade, acho que essa mulher é incapaz de sorrir. Talvez seus músculos da boca não sejam tão desenvolvidos, mas, segundo minha mãe, ela só é muito infeliz mesmo. Jayden nunca tocou no assunto, mas sei que sua mãe ficou arrasada quando descobriu que seu saudável filho estava com câncer.
Mas, sinceramente, eu iria ficar muito feliz se meu filho estivesse melhor, saindo do hospital com uma doadora compatível e um estado bom.
Eu posso perceber o quanto Jayden está feliz, mesmo sem ele dizer. Seu olhar está calmo, como sempre, mas parece que algo está diferente. Parece que um peso já não está em suas costas, como se, de repente, todos os seus problemas tenham sido resolvidos.
– Pronto. As malas já estão no carro. Vamos, Jay? – Pergunta Scarlett, sem rodeios.
Essa foi uma das poucas vezes que a ouvi falar desde que conheci Jayden. Todas as vezes que vim visitá-lo – e foram muitas – ela saia do quarto imediatamente. Me agradeceu depois que doei o sangue, mas aquela gratidão toda não me convenceu. Ela parecia cansada o tempo todo, como se tivesse desistido.
– Ah, sim. – Respondeu ele, que logo virou-se para mim e para minha mãe.
Ele vai se despedir, e não demorou para que eu sentisse uma espécie de aperto no coração. Seu dissesse isso para minha mãe, ela provavelmente iria querer me levar à um cardiologista, mas eu tenho certeza que não é um problema nas minhas artérias do coração.
Esse aperto foi o medo de perdê-lo. Não é como se nunca mais fossemos nos falar, ou como se ele fosse se mudar de país. Mas eu sabia que, o fato de ele não estar mais internado no hospital que minha mãe trabalha iria nos separar muito.
Minha missão já havia sido concluída, meu sangue já corria nas veias de Jayden como se fosse seu sangue. Meu dever nunca foi virar sua amiga, ou animá-lo. Nunca me pediram para que eu me apegasse à ele, que eu o transformasse em meu melhor amigo. Mas eu o fiz, e não posso fazer nada quanto isso.
Só me resta torcer para que não percamos o contato, e que ele continue me considerando uma grande amiga, assim como eu o considerarei meu melhor amigo
– Obrigado, Senhora Paige. – Diz ele para minha mãe, aproximando-se dela para um abraço – Não sabe o quanto foi importante para mim. Se tornou minha enfermeira favorita, muito obrigado, de verdade.
– Ah, Jayden! – Exclamou minha mãe, que já estava emocionada. Revirei os olhos, mas senti um nó na minha garganta – Você é um garoto de ouro, aprendi muito com você. Se cuida.
Se cuida mesmo. Eu sei que, com meu sangue, ele tinha melhorado e talvez até se curado da doença. Mas o fato de deixá-lo sozinho com sua mãe me assustava. Eu não sabia se ela cuidaria tão bem de Jayden quanto as enfermeiras cuidaram.
Os dois se separaram, e minha mãe enxugou as lágrimas rapidamente, com as costas de sua mão. Jayden dá um breve sorriso e se aproxima de mim. O nó em minha garganta se aperta, e meu coração passa a bater mais forte.
– Vou sentir sua falta. – É a única coisa que consigo de dizer.
Sem pensar duas vezes, abraço Jayden de modo como nunca abracei ninguém. Ele retribui o abraço e ri um pouco.
– Não vai ter tempo de sentir. Peguei seu número com a sua mãe, você será obrigada a me atender todas as vezes que eu te ligar.
– Se me ligar enquanto estou dormindo, não me responsabilizo dos apelidos maldosos que irei te dar. – Respondo rindo.
Estar enlaçada nos braços de Jayden é incrível, de verdade. O fato de ele ser mais alto que eu faz com que o abraço seja ainda mais aconchegante, e seu cheiro é agradável de modo sutil, e não evasivo ou forte demais. Ele não possui muitos músculos, e isso deve ser reação dos remédios que toma. Mas, mesmo assim, me sinto completamente segura.
– Aquele favor que eu te pedi ainda está de pé, né? – Pergunta ele.
Finalmente saio do abraço e olhos em seus olhos, que parecem levemente temerosos.
– É claro. Mas estou um pouco arrependida por não ter lhe pedido nenhuma quantia. – Brinco, e o temor em seus olhos desaparece instantaneamente, dando lugar a um sorriso largo.
– Agora não tem como voltar atrás. Se não cobrou nada, nada mais cobrará.
– Jayden? Podemos ir? – Interrompe Scarlett, parecendo imapaciente encostada em seu carro enorme.
– Sim, sim. – Diz ele, que volta a olhar para mim quando responde sua mãe – Tchau, Rae.
– Tchau – Respondo, e antes de caminhar até o carro, sua mão aperta a minha e sinto uma espécie de fervura.
Os dois entram no carro, e saem do estacionamento do hospital rapidamente, deixando minha mãe e eu em silêncio, apenas observando o carro se afastando mais e mais.
– Antes de passar meu número para qualquer um, peça minha autorização. – Digo, e minha mãe sai de seu transe rindo um pouco.
– Sim, senhora.
– Ele já está curado?
Minha mãe dá um suspiro longo e olha em meus olhos.
– Não, ele não está.
– Mas ele vai se curar, certo? Com o meu sangue.
– É o que espero, Rae. – Responde ela, mas não me convence.
Conheço minha mãe muito bem, e posso perceber que ela não está me contando tudo que sabe. Mas resolvo ignorar essa minha desconfiança, e caminho para dentro do hospital, enquanto ela conta sobre o que pretende fazer de jantar quando chegar em casa.
~*~
A ideia de minha mãe era fazer macarrão com algum molho branco, receita que viu na internet. Mas seus planos vão por água abaixo quando chegamos em casa.
Assim que abrimos a porta, um cheiro insuportável de suor e bebida nos invade, e não demoro para sentir ânsia. Olho para minha mãe, que está com uma careta. Ela murmura “Patrick”, e logo deduzo o porquê daquele odor horrível.
Patrick, meu primo que perdeu sua mãe há três anos, mora conosco de favor. Seu pai é um cara sem estruturas nenhuma, além de ser alcoólatra e há rumores de que ele usa drogas. Quando sua mãe morreu, ele ficou sem lar, já que ainda era de menor e minha avó não podia cuidar dele.
Minha mãe, por gostar muito de sua falecida irmã, resolveu deixá-lo morar conosco até ele poder morar sozinho. Acontece que ele já é de maior há dois anos, e nada de sair da minha casa.
Patrick é realmente muito legal, mas talvez o fato de ter perdido sua mãe tenha o deixado “corrompido”, pelo menos é o que minha avó diz. Ele vai muito à festas, suas notas na faculdade são péssimas, é um garoto que adora uma bebida e, ainda por cima, recebe um dinheiro que sua mãe deixou para ele, e utiliza a grana para coisas muito inúteis como um chapéu de brilhante que ele nunca usará na vida.
Quando subo as escadas e coloco os pés na sala de estar, vejo Patrick jogado no chão, com uma garrafa de whisky na mão. Ele está adormecido, assim como as outras dez pessoas em sua volta. Entre elas, meninos e meninas, todos bêbados.
Minha mãe não parece assustada ou irritada, na verdade, ela já está acostumada. Quase toda sexta-feira Patrick faz uma festa, ou vai à uma. Eu não tenho nada contra isso, mas a droga da festa não precisava ser na sala de estar da minha casa.
– Levantem-se! – Grita minha mãe, batendo na porta.
Todos os adolescentes desconhecidos acordam na hora, e não posso deixar de perceber que um deles tem – eca— restos de vômito na camiseta.
– Oh, não... – Murmura Patrick, colocando a mão na cabeça – Tia Paige, eu posso explicar, eles...
– Calado, Patrick. – Interrompe minha mãe, com um tom autoritário – Eu quero que todos você se levantem e saiam da minha casa agora.
Todos os jovens fazem o que minha mãe manda, embora cambaleiem um pouco. Quando eles passam por nós, não posso deixar de prender o ar, mas ainda sinto um cheiro de suor, com vômito e bebida.
– Nossa, Patrick, quem é essa gata? – Pergunta o garoto que parece menos bêbado antes de passar pela porta.
Quando estou prestes a lhe mostrar o dedo do meio e responder algo maldoso, minha mãe me corta, lançando à ele o olhar mais mortífero que já vi.
– Eu mandei sair, e não fazer comentários inúteis.
– Desculpa, Dona, é que...
– Saia. – Diz minha mãe, e me torço para segurar o riso.
O garoto sai correndo, sem olhar para trás. Não sei como têm tanto medo de minha mãe. Ela não é a pessoa mais ameaçadora que já vi, e seu olhar é o mais bondoso possível.
Quando todos os jovens saem, começamos a arrumar e limpara a casa, contra minha vontade, é claro. Quem fez a bagunça foram aqueles idiotas, então é justo que eles arrumem. Mas minha mãe está realmente muito séria, e acabo não querendo desafiá-la. Arrumo a sala com certo nojo de achar uma poça de vômito no chão.
Patrick mais cambaleia do que arruma, e ele está realmente muito tentado a “se explicar”. Ele inventa as desculpas mais esfarrapadas que já ouvi, e minha mãe apenas o escuta em silêncio, com a expressão ilegível.
Quando terminamos de arrumar tudo, Patrick vai tomar um banho e dormir, já que está com uma dor de cabeça “impossível de ser tolerada”. Prevejo minha mãe brigando muito com ele amanhã, e fico com um pouco de medo. Espero que ela não acabe descontando em mim o fato de ter que limpar a casa numa sexta-feira à noite.
Quando estou deitada em minha cama, olhando para a tela do meu computador sem prestar muita atenção no episódio de How I Met Your Mother que estou assistindo, uma mensagem chega em meu celular, de um número desconhecido.
“Oi, Rae. Aqui é o Jayden, salva meu número aí. Ah! E você tem alguma dica de banda? Estou querendo conhecer músicas novas, espero que seu gosto musical seja bom. Não me decepcione. — J.”
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