Atlantis

4 Capítulo 3 - TPM masculina


Notas iniciais
Olá, queridos leitores! Bom, nesse capítulo vocês irão conhecer melhor sobre a "família" de Raven, e, claro, entrar em contato com sua "boca suja". Espero que gostem, boa leitura! Desculpa qualquer erro ♥

– Qual é, Raven? Vai ficar com essa cara a manhã inteira? – Pergunta Geórgia, colocando três batatas-fritas na boca, de uma vez só.

– Considerando que a manhã já está acabando, sim, eu vou.

– Meu Deus, Geo, você vai ficar comendo essas batatas logo de manhã? – Pergunta Brenda, olhando de modo horrorizado para Brenda e sua dieta duvidosa.

– Considerando que a manhã já está acabando, sim, eu vou – Geórgia debocha, imitando minha voz de um jeito ridículo.

Reviro os olhos assim como Brenda, que dá uma mordida satisfatória em sua maçã.

– Tudo bem, mas não venha chorar quando tiver que usar o tamanho GG da primark— Diz Brenda, ainda parecendo incrédula. Geórgia revira os olhos – Mas me diz, Rae, por que você está com essa cara?

– Eu só tive um dos piores finais de semana da minha vida. Patrick e suas festas, mau-humor da minha mãe e visita da minha avó paterna. – Admito, com os olhos fechados.

Eu estava com certeza sendo dramática, mas sabia que Brenda não se importaria com isso. Não era meu maior problema, mas conviver com minha mãe mau-humorada, Patrick de ressaca e minha avó ranzinza em um final de semana só era o bastante para me deixar exausta por uma semana inteira.

– Não fica assim, Rae – Brenda tenta me consolar, apertando de leve minha mão gelada graças ao final do outono.

– Aliás, pra qual time teu primo joga? – Indagou Geórgia, jogando o saco de batatas-fritas já vazio no lixo.

– Geórgia! – Exclamou Brenda, batendo de leve no braço de Geo, que provoca na mesma uma risada.

– Qual é, Brenda! Ele é um gato. Só queria saber se eu teria chances com um Purpleskull.

– Ele quer beijar na boca do cara que você deu em cima semana passada, se é que isso responde sua pergunta – Admito sem rodeio, e ver Geórgia ficar sem respostas brevemente provoca risos em Brenda.

– O único jeito de você pegar um Purpleskull é seduzir a mãe da Rae – Brinca Brenda, e logo Geo e eu fazemos uma careta.

Só de imaginar Geórgia sendo minha madrasta e beijando minha mãe fico com ânsia, e acredito que provoca a mesma coisa na minha amiga.

– Por favor, não! – Exclamo, e Brenda ri ainda mais.

– Passo. Beijo um Purpleskull em outra vida.

Nós três rimos, e logo percebo o quanto sou sortuda por ter as duas comigo. Sempre que estou em um dia não muito bom, as duas se esforçam o máximo para arrancar um sorriso meu, e não me acanho em fazer o mesmo quando alguma delas está para baixo. Amizade é isso, certo?

– Temos que ir – Diz Brenda, levantando-se da cadeira que estava sentada assim que o ônibus que elas devem pegar chega. – Fique bem, e me liga qualquer coisa.

– Até mais – Sorrio, e me despido de Brenda e Geórgia com um aceno.

As duas se conhecem há quatro anos, já que fizeram o terceiro ano do ensino médio na mesma sala. Brenda diz que nunca se deu tão bem com Geórgia, e eu até entendo. As duas são opostos, digamos. Geórgia, com toda sua sinceridade que é muitas vezes confundida com grosseria, é a pessoa mais desencanada que conheço. Ela não dá a mínima para o que pensam dela e muitas vezes não pensa duas vezes antes de dizer a cruel e verdade e, consequentemente, ferir o coração de alguém. Sempre me pergunto o que uma pessoa como ela faz num curso de psicologia. Não acho que ela será uma psicóloga ruim, mas algo me diz que ela não será o tipo de psicóloga que te ajuda nos momentos difíceis.

Já Brenda, que é doce de um modo quase incomum, parece ser a pessoa perfeita para cursar psicologia. Ela é calma, possui um controle fora do comum e sempre que pode tenta ajudar quem está desgraçado psicologicamente. Ela não é uma pessoa mentirosa, mas sabe omitir muito bem. Não é como se fosse dizer para um órfão: “você está sem pai e sem mãe, garoto”, como acho que Geórgia faria.

Nos conhecemos no curso, e, embora tenha demorado um pouco para sermos amigas mesmo, não nos desgrudamos há três anos, e sou muito grata por isso. As pessoas precisam de amigos, e estes devem ser verdadeiros. Não as conheço desde a minha infância, mas sei que posso confiar nas duas de olhos fechados.

– Srta. Purpleskull? – Sr. Boman indaga, tirando-me de meus devaneios com um breve susto.

– Ah! Oi, Sr. Boman – Respondo, e algo me diz que ele tenta falar comigo há um tempo.

Meu professor favorito é, sem sombra de dúvidas, o Sr. Boman. Ele nos dá aulas de Evolução do Pensamento Filosófico e Científico, e nunca pensei que gostaria dessa matéria até ele aparecer com suas teorias geniais. Desde que entrei na faculdade me dei muito bem com ele, e algo me diz que sou uma de suas melhores alunas.

– Você é uma das poucas alunas do período da manhã que ainda não saiu do campus... Aconteceu alguma coisa?

– Na verdade, eu perdi meu ônibus – Digo mais para mim do que para ele, assim que percebo que já se passaram cinco minutos desde que o ônibus que eu deveria pegar passou.

– Ah, sim. Pode me ajudar a levar essas caixas até o teatro? A Sra. Trumpet me pediu ajuda com a peça teatral do segundo ano, mas eu não fazia ideia que essa ajuda era, na verdade, levar caixas de figurino até ela.

– Claro – Pego algumas das caixas que está em sua mão e caminhamos até o teatro.

Isso deveria acontecer só em filmes, mas acontece de verdade. O pessoal que faz artes-cênicas é o mais descolado, sei o nome da grande maioria e não é porque eu sou popular, mas eles são. É como se fazer esse curso te tornasse automaticamente popular, sendo convidado para todas as festas do campus e tudo mais.

– E então, como vai? Acha que fez a escolha certa de curso? – Pergunta ele, tentando evidentemente puxar assunto.

– Sim, acho. Não sei se vou ser uma boa psicóloga, mas com certeza é o que quero ser.

– Você tem sorte, Raven. São poucos alunos que fazem a escolha certa logo na primeira tentativa.

Faço que sim com a cabeça e meu celular vibra, exibindo, na tela, uma nova mensagem de Jayden.

Nós dois estamos trocando muitas mensagens ultimamente, e isso me acalma, de certa forma. Quando nos despedimos, no hospital, fiquei com muito medo de perder um amigo. Embora nós dois estejamos nos esforçando, é inevitável: vamos perder ao menos um pouco de contato, ainda mais agora que a mãe dele pirou e quer saber para quem ele manda tantos torpedos, pelo menos é isso que a mensagem que ele mandou diz.

Mas nem é torpedo.

– Sr. Boman, eu... preciso da sua ajuda.

– Não posso te dar nota a mais só porque está me ajudando a trazer essas caixas, se é isso que você quer – Brinca ele, e nós dois rimos.

– Não é isso. Na verdade, é algo bem sério – Digo, e logo seu semblante muda um pouco. – Eu tenho um amigo, sabe. Nos conhecemos porque eu doei sangue para ele, já que ele tem leucemia linfoide aguda. – Sr. Boman olha para mim, parecendo curioso e atento – Sabe, ele não é do tipo que se entrega para a doença, pelo menos não é o que parece. Mas ele está sozinho. Seu pai acha que tudo pode ser resolvido com dinheiro, e a mãe dele é uma das pessoas mais frias que conheço. Eu sei que ele não está completamente triste, mas Jayden merece ser a pessoa mais feliz do mundo. Eu queria muito ajudá-lo a, sei lá, esquecer um pouco da doença, sabe? Ele é só um garoto, tem a minha idade.

– Raven, você faz curso de psicologia e sabe muito bem que saúde mental é algo que todos precisamos ter. Tenho certeza que ele se sentiria melhor se soubesse que pode confiar em você, e que você está disposta a dar à ele o carinho que seus pais não dão.

– Mas como eu posso ajudá-lo? – Entramos na sala de teatro, atraindo olhares de alguns alunos que ainda estão na mesma.

– Não posso lhe dizer isso. Como uma boa psicóloga, que você com certeza será, vai conseguir descobrir sozinha. A única coisa que você não pode fazer, de jeito nenhum, é deixá-lo sozinho numa situação dessas. – Largamos as caixas no chão, e a professora de teatro nos agradece com um sorriso – Mas, se me permite dizer uma coisa, acho que quem precisa de um psicólogo de verdade é a mãe desse garoto. Pode ser que ela tenha se abalado mais do que ele.

– Mas não podemos ajudar quem não quer ser ajudado, e eu tenho certeza que ela não quer ajuda. – Saímos da sala, e percebo que meu ônibus está prestes a chegar.

– Não podemos ajudar quem não quer ser ajudado, mas podemos convencê-la a querer ajuda. Por que não a apresenta para mim? Seria um prazer ajudá-la, ajudar seu amigo, e, consequentemente, você.

Mesmo que eu ache difícil que Scarlett aceite ajudo, faço que sim com a cabeça e digo ao Sr. Boman que vou apresentá-lo à ela.

– Bom, vou ver se precisam da minha ajuda antes de minhas aulas da tarde começarem – Diz ele – Obrigado pela ajuda, Raven. E até mais.

– Obrigada você, Sr. Boman. Até mais! – Ele caminha calmamente até a sala dos professores e, quando me viro, percebo que meu ônibus está prestes a dar partida.

Ótimo, segundo ônibus perdido em um dia.

~*~

Minha mãe faz a comida, eu coloco e tiro a mesa, e Patrick lava a louça. Esse era o combinado, até o tempo de frio chegar e meu primo ter o que minha mãe chama de “TPM”, tensão do pinto mole – e me desculpe o palavreado.

– Vocês não entendem? Minha mão vai congelar! – Exclama ele, parecendo incrédulo com o fato de não concordamos com sua brilhante ideia de comprar uma máquina de lavar louças.

– Você não usa essa tua mão pra outra coisa além de se masturbar e lavar a louça, Patrick. Me poupe – Brinco, e minha mãe ri alto.

Patrick me mostra o dedo do meio e revira os olhos.

– Uma máquina de lavar louças é muito cara, Patrick. E as tarefas estão bem divididas aqui em casa. Além do mais, você não liga a torneira aquecida porque não quer. – Diz minha mãe, trazendo uma panela fumegante até a mesa.

– Eu não ligo porque, na verdade, ela não aquece quase nada. Fica, no máximo, morna. E eu quero uma água quente para que eu não congele. Gente, estamos há uns três dias do inverno.

– Você tem duas opções: lavar a louça na água gelada ou na água morna. Pode escolher.

– Eu escolho a morte! – Dramatiza ele, provocando risadas minhas e da minha mãe.

Eu posso ser muita chata, reclamar muito de Patrick e não ser a melhor filha para minha mãe. Mas a verdade é que eu os amo mais do cabe, e o suficiente para nunca deixar de amá-los, mesmo que às vezes eu queria dar um tiro na testa dos dois.

Começamos a comer, com Patrick ainda reclamando de sua terrível tarefa que é lavar a louça, sendo que, quando dividimos as tarefas, foi ele quem fez questão de escolhe-las. Eu sei que acabei ficando com as mais fáceis, mas também sei o quanto meu primo odeia tirar e colocar a mesa, já que sempre confunde a gaveta dos talheres com a gaveta dos pratos.

– Ah, mãe, alguma notícia médica de Jayden? – Pergunto, tentando parecer o menos preocupada possível, mesmo quando minha mãe sabe que já estou com saudades dele, mesmo que troquemos mensagens todos os dias.

– Ele tem uma consulta amanhã, Rae. É durante a tarde, acho que dá tempo de você aparecer lá depois da faculdade.

– Vou ver se consigo.

– Tradução: eu vou sair da faculdade correndo como louca para chegar e ver o loirinho de olhos azuis – Diz Patrick, e não consigo me conter. Jogo uma batata em sua direção, que é abocanhada com sucesso.

– Em falar nisso, como vai a faculdade dos dois? – Indaga minha mãe, e Patrick engasga brevemente.

Minha mãe ainda não tem noção de que ele está com péssimas notas, indo de mal a pior. E, de certa forma, é bom ela não saber. Não só porque ela vai ficar puta da vida, mas também porque posso chantagear Patrick – não que eu faça isso o tempo todo, mas nunca sabemos quando vamos precisar de um favor um pouco difícil.

– A minha vai muito bem – Respondo, e logo Patrick concorda.

– Idem.

Solto um breve sorriso, que Patrick responde com um olhar medroso. Quase consigo ouvir sua voz dizendo: Raven Purpleskull, você é uma megera.

Notas finais
Não esqueçam de deixar seus comentários! Até o próximo capítulo ♥ P.S.: "Primark" é uma loja de roupas britânicas, estilo Riachuello, C&A e Renner.