At The Ballet

28 Trágica história


Notas iniciais
Olá pessoas!! Como vocês estão? Então, chegou o capítulo mais emocional sobre uma personagem específica... SIM! ESTE É O CAPÍTULO SOBRE A JULIETA!! Agora, entendam um pouco essa loucura dela. E eu sempre digo: entendam, mas não a perdoem, ela fez muita coisa ruim e ela sabe disso, mesmo que não saiba. Boa leitura!

1918 — Paris, França

Eram oito horas da manhã de uma segunda-feira quando Julieta chegou em Paris. Ela desceu do trem exibindo um sorriso que não era preciso ser forçado, juntou as malas antes de caminhar até o portão de saída. Julieta olhou o relógio na esquina do portão de saída e viu a marca das oito horas da manhã. Seu corpo se encontrava com os corpos de franceses atrasados e velozes e ela pedia perdão em francês e eles sorriam pela educação. Um aroma forte de perfume intoxicava o táxi, que havia conseguido parar com ajuda de um francês desconhecido. "Tão gentis...".
–Académie de police, se il vous plaît.(Academia da policia, por favor). -pediu Julieta sorrindo ao senhor que dirigia o carro.
–Visites? (Visitas?) -perguntou o homem com o carro em movimento.
–Non, non ... Un emploi d'honneur (Não, não... Um emprego de honraria.)
–Oui, le monde à besoin de femmes que d'hommes meurent pour eux. (É, o mundo está precisando de mulheres enquanto homens morrem por elas.)
–Le monde dans son ensemble. Tout comme les femmes. (O mundo em geral. Assim como as mulheres.)
O homem apenas acenou com a cabeça e voltou a visão para a rua. O balanço do carro fez com que Julieta embalasse a conversa com Oliver onde contara sobre a vinda à Paris.
"-Pai. Eu estou indo para Paris, não é o seu sonho? Que seus filhos tenham servido a um exército? -ela perguntou com as mãos atacando o espaço entre ela e o pai, gesticulava furiosamente.
–Filhos homens. Exército inglês! -declarou Oliver furioso. -Negue isso, Julieta. Vá para a América. Vá para onde quiser, mas você está proibida de ir para a França.
–Por que? Estamos aliados, não estamos? -disse Julieta. -Suas batalhas acabaram, pai. França e Inglaterra se uniram para quebrarem a Alemanha. Não vê o quanto é importante que pessoas como nós sirvam outros países aliados.
–Qual é o real motivo, Julieta? Comer em restaurantes caros? Fazer compras? Cheirar perfumes? Casar? Ter filhos? -perguntou Oliver ironicamente. -Nada vai acontecer nesse momento e você não é estúpida. Então, qual é o verdadeiro motivo?
–Eu já disse. Eu quero poder ser um orgulho dessa família. -disse Julieta.
–Você logo não tardará a tirar o sobrenome Grant de seu nome. Qual é o motivo, Julieta? -Ele perguntou novamente, parecia mais calmo como se aceitasse qualquer merda que ela viesse falar.
Em seu coração, ela nunca tiraria o nome Grant do seu. -Bem, se o senhor não aceita meus motivos, eu posso achar outros."
–Lady arrivé. (Senhora, chegamos.)
–Miss, en fait. (É senhorita, na verdade) -disse Julieta pagando o táxi e juntando as duas maletas na rua antes de encontrar o grande e pesado portão de ferro. -Aqui está o motivo, pai.
Ela foi abordada por um homem armado que cuidava do portão. Um homem grosso e bruto. Ele apitou uma espécie de apito prateado e uma mulher apareceu, ela estava com uma calça azul e blusa apertada, quase nem notava os olhares que recebeu do guarda armado, mas pareceu muito interessada nos olhares de Julieta. Ela mandou que o guarda abrisse os portões e somente ela atravessou a entrada para falar com Julieta que nunca, em toda a sua vida, tinha vista uma mulher usando calças.
–Você deve ser a senhorita Grant. -disse a moça sorrindo. Apertou a mão de Julieta e levantou a sobrancelha.
–Sim, me chamo Julieta Grant. -disse Julieta ainda intrigada pela beleza da moça. -Me chame como quiser.
–Claro que chamarei. -disse a moça. -É bom ter outra inglesa com qual posso falar ser arrastar o sotaque francês.
–Você também é inglesa?
–Apenas nascida e criada. -disse a moça pegando a mala de Julieta e gritou para que o guarda abrisse o portão. -Eu me mudei com os meus pais quando fiz dez anos.
–Eu vinha constantemente para Paris. -disse Julieta sorrindo. -Eu conheço essa cidade como se fosse minha casa. Eu tinha que ajudar de alguma forma.
–Fico muito agradecida por ter nos escolhido. -disse a moça. -Ficamos eternamente gratos por mulheres que queiram lutar por nossos países. Principalmente, quando são mulheres tão lindas.
A moça olhou para Julieta que enrubesceu e abaixou a cabeça, a moça sorriu. Elas sempre ficam vermelhas... envergonhadas.
–Eu que fico agradecida. -disse Julieta. -Eu queria poder estar na guerra, mas já mandamos nosso homem, meu irmão. Eu vou tentar ajudar com o que posso.
Uma pessoa por família era enviada, a dor de perda era menor. Quando a guerra começava havia perda de muitos homens e eles eram obrigados a enviar os despreparados caçulas e as mulheres como segunda e terceiras opções. Sempre seriam daquelas famílias lazarentas que enviavam seus filhos com orgulho no sorriso e perda no coração.
–Claro que vai. Então, podemos começar pelo básico? -disse a moça.- Primeiramente, meu nome é Miranda, eu sou...
–Você é minha comandante! -exclamou Julieta rapidamente. -O que você está fazendo aqui? Quero dizer... Por que uma comandante recebe as novatas?
–Bem, eu preciso ver como elas são. -disse Miranda andando lentamente. -Valeu a pena esperar por você.
Julieta enrubesceu novamente.
–Pois bem. -disse Miranda parando de andar e desceu a mala ao seu pé. Ela buscou pela cintura de Julieta e a trouxe para perto de si. -Aquele prédio mais afastado é o dormitório masculino. Ele é maior pela quantidade de meninos que estão sendo treinados. Nosso dormitório é este aqui, bem na nossa frente. Temos uma delegacia funcional no centro do local, onde os maiores problemas são resolvidos. Não por mim, nem pelo comandante Bochechudo, mas por um delegado aposentado que tinha duas opções. Cuidar dos novatos ou morrer com eles.
–É de fato uma oferta irrecusável. -disse Julieta ainda olhando para a mão em sua cintura.
–O refeitório é naquele canto, temos uma biblioteca ao lado da delegacia, mas vocês passam o maior tempo no centro de treinamento, obviamente.
–E como são os treinamentos?
–Separados. -disse Miranda mas parou de falar em seguida. -Ah sim. São bem físicos e cansativos.
–Como quebrar pedras?
–Isso são para prisioneiros. -disse Miranda puxando Julieta até o dormitório feminino. -Mas quase isso. Você notará um tratamento diferente aqui.
–Você quer dizer na polícia francesa?
–Não... -disse Miranda abrindo a porta dupla do dormitório fazendo com que todas as mulheres olhassem para ela. -Quero dizer: aqui!
Eram nove mulheres, onze com Julieta e Miranda. Nenhuma era casada, mas a maioria ainda tinha vinte anos assim como Julieta. O seus uniformes eram padronizados: calças azuis e blusas apertadas. O treinamento no centro de treinamento durava doze horas por dia, de segunda-feira aos sábados. Domingo era um dia livre, podiam até sair da academia, mesmo que não fosse o recomendável. Quando Julieta perguntou se as meninas namoravam os meninos do dormitório tão próximo, elas riram.
Julieta estava no prédio da biblioteca ao lado da delegacia, ela buscara um livro de capa vermelha e desceu. Ouviu o comandante da parte masculina gritar com o delegado e ela se esgueirou, ficando encostado num lugar onde ninguém poderia vê-la e ninguém iria, porque apenas ela ia até a biblioteca nos domingos.
–Eu já disse, ela transa com mulheres! -gritou novamente o comandante.
–E eu já disse, eu não me importo! -disse o delegado. -Ela é nossa melhor comandante e sim, melhor que o senhor! O fato de com quem ela fode não me importa nem um pouco. Ela podia ser alemã que eu não me importaria.
–Isso é um absurdo! Eu vou denuncia-la as forças alemãs! -declarou o comandante.
–E eu o denuncio ao exército por ter ligações com as forças alemãs. -disse o comandante. -É uma faca com dois cumes, não é? Vá visitar sua esposa, suas crianças e entenda que nessa guerra não tem lugar para babaquice. Ela não quis transar com o senhor, porcaria! Quando eu levei essa história ao superior, ele riu e disse: 'quer mesmo perder a sua melhor comandante?', esqueça comandante. Vá embora!
O comandante deixou a delegacia com passos pesados. Julieta saiu de onde estava e caminhou a linha até o dormitório, pensando alto. Apenas ela e uma outra mulher geralmente ficavam no dormitório aos domingos, porque a menina era órfã e Julieta não tinha nenhum conhecido na França.
–Olá. -disse Julieta para a mulher. -Você aceita um café?
A mulher levantou o olhar de seu livro e olhou para Julieta profundamente. -Claro, por que não?
As duas pararam num café perto da academia e se sentaram numa mesa de rua. Elas fizeram os pedidos e esperaram em silêncio. Quando a moça havia deixado as duas xícaras em cima da mesa, Julieta decidiu perguntar.
–Você fala muito bem inglês. -comentou Julieta.
–Eu sei. Uma família cuidou de mim por dois anos para o orfanato, eles falavam inglês. -disse a moça tomando um gole de café. -Você é naturalizada inglesa?
–Eu nasci na Inglaterra, eu moro na Inglaterra. -disse Julieta. -Mas eu sempre fui apaixonada pela França. Um erro do destino.
A moça riu. -Você deve estar bem feliz com essa união entre os dois países.
–Sim, eu estou. -confirmou Julieta. -Me desculpe, qual é o seu nome mesmo?
–Acho que não fomos devidamente apresentadas. -disse a moça. -Meu nome é Charlotte. E o seu é Julieta.
–É, sim. -disse Julieta sorrindo. -Prazer.
–Escuta, eu sei que pode ser meio solitário vir de outro país e não conhecer ninguém, mas eu não sou como as outras...
–Perdão? -disse Julieta.
–Você sabe... Com o tipo de gente que elas se relacionam... -disse Charlotte baixinho. -Eu gosto de homens. Eu tinha um namorado.
–Foi para isso que eu quis conversar com você! O que acontece naquele dormitório? Hoje eu ouvi o comandante da ala masculina reclamando com o delegado...
–Isso é natural. -disse Charlotte rindo. -Miranda e o Christopher fazem apostas de quem consegue mais mulheres durante o mês. Se Miranda se sai melhor, Christopher passa na sala do delegado e ameaça entrega-la. Ou quando ele está alterado e quer transar com ela, mas ela odeia homens e nega ele toda vez. Ele se sente rejeitado e vai ameaçar entrega-la.
–Achei que ele fosse casado. -disse Julieta baixinho.
–Ele é. -disse Charlotte. -Mas a mulher dele nem desconfia. Miranda é um amor de pessoa, se não fosse por te comer com os olhos, seria uma boa amiga.
–Nossa. -disse Julieta rindo. -Ela me segurou e apertou quando eu cheguei. Eu achei que era apenas uma forma carinhosa dos franceses disseram 'olá'.
–Não, mas ela não aperta ou algo assim com todas. -comentou Charlotte.
–Eles devem sofrer de coração partido.
–Eles teriam que ter um coração para que se quebrasse. -as duas riram. -Você não se sente incomodada com o resto das meninas? Quero dizer, Miranda arranja um jeito de "acabar" com as pessoas que tem problemas com elas. É bom sempre ter isso em mente.
–De jeito nenhum. -disse Julieta sorrindo. -Quero dizer, ela pode fazer o que bem entender. Contanto que esteja dentro das leis... Eu não vejo problema.
–Não vê problemas? -perguntou Charlotte interessada. -Você não parece ser muito anglicana.
–Eu não sou religiosa. -disse Julieta rindo. -Se eu fosse, que tipo de religiosa eu seria? Estaria numa academia de policia treinando para atirar em alguém.
–Eu tenho uma boa mira. -disse Charlotte rindo. -Olhe só.
Charlotte pegou um dos pacotes com açúcar e sacudiu. Julieta olhava para seus movimentos sorrindo. Charlotte arremessou o pacote e caiu bem em cima de uma mulher a quatro mesas a frente.
–Acho que ela está usando uma peruca, porque ela não sentiu. -disse Julieta rindo.

Quando Julieta entrou no dormitório, Miranda estava nua sobre a cama. Ela estava dormindo e suspirava. Nada a cobria e ela estava sozinha. Nenhuma das meninas estava com ela. Charlotte disse que não entrava no dormitório durante aquele horário em específico e Julieta entendeu o motivo. Mas ela não tinha problemas, na verdade, Miranda tinha a bunda mais linda que já tinha visto na vida. Ela se sentou em sua cama e segurou o livro de capa vermelha na mão. Seus olhos não conseguiam desviar daquele corpo em cima da cama. Estavam tão próximas, tão juntas. Julieta estava sentindo o estômago revirar e algo abaixo do abdômen pulsar. Nunca havia sentido nada igual, mas sabia exatamente o que era. Ela precisava tocar em carne humana, na sua própria ou de alguém. Ela se levantou e caminhou até a cama de Miranda. A mão pendia no ar, os impulsos elétricos a empurravam para baixo. Miranda se moveu e virou a barriga para cima, fazendo Julieta recolher a mão e os olhos arregalar. Ela apenas puxou a coberta por cima do corpo de Miranda e foi se deitar com a cabeça latejando. Miranda fez um barulho com a boca e sorriu, mesmo que ninguém pudesse ver.
Julieta acordou no meio da madrugada suando e nervosa. Seu corpo estava vermelho e o peito subia e descia desparamente. Ela buscou um casaco no armário e deixou o dormitório tentando não fazer barulho. Ela caminhou pelo campus algumas vezes antes de se sentar num banco, no escuro com apenas a luz da lua ao oeste. Ela ouviu passos no mato seco e alguém caminhava na sua direção, mas ela apenas tentou ignora-la. Ela fechou o casaco esperando que não fosse reprendida por estar ali fora no alto da madrugada. Se levantou e alinhou a coluna numa posição de respeito por qualquer criatura que estivesse vindo.
–Você está bem? Ouvi a porta bater com força.
–Me desculpa, senhora. Não vai acontecer novamente. -disse Julieta ainda em pé. O corpo de Miranda já tinha se esparramando no banco e soltou uma risada.
–Grant, relaxe. -disse Miranda rindo. -Eu sei o quanto pode ser sufocante ficar num quarto. Você não fez mais do que deveria. E sente-se, por favor. Ou serei obrigada a olhar para a sua bunda?
Julieta ficou avermelhada, num tom quase impossível de tomar posse.
–Estou brincando. -disse Miranda olhando para Julieta. Buscou entre os seios uma caixa de cigarros. -Você deseja um?
–São ingleses?
–Ah, não, por favor! -disse Miranda rindo. -Você não vai suportar nenhum cigarro depois que experimentar os franceses. Eu te prometo.
Julieta aceitou um cigarro. Colocou-o na boca e levou-o em direção ao esqueiro de prata aceso na mão de Miranda. Ela tragou e tirou o cigarro da boca, tão alucinada pela doçura e perfeição de um cigarro.
–Nossa! -exclamou Julieta num sorriso. -Deve ser o melhor cigarro que eu já provei.
–É, provavelmente. -Miranda estava acendendo um para ela mesma. -E qual é a sua história, Grant? Por que largaria tudo para vir para cá?
Uma pergunta tão direta fez Julieta tossir um pouco. Ela tinha a história que havia contado para o seu pai e achava que aquela iria servir. Mas olhou para aqueles olhos castanhos tão claros e pensou se conseguiria mentir para ela. Se contar a verdade não a faria alguém com dignidade? Mas a verdade era humilhante.
–Não é como se isso fosse a cadeia. Eu gosto daqui.
–É brigada com os pais? Talvez queira se esquecer de um passado penoso? Ou você tem um marido e ele é feio?
–Você é muito mais curiosa do que as pessoas falam.
–Eu sou muita coisa que as pessoas não falam. -disse Miranda com a sobrancelha levantada. -Ou talvez você apenas deva querer ajudar seu país.
Mas não era, pensou Julieta.
–Achei que não existissem mais heróis como você.
–Talvez nunca tenham existido e talvez eu seja uma farsa. -disse Julieta rindo. -Mas enquanto nenhuma das opções possuir verdade, eu posso ter tido tudo ou nada.
–Você deveria ter feito filosofia. -disse Miranda. Virou seu corpo de lado, fazendo com seu joelho entrasse para o banco e tocasse o de Julieta. -Mas escolheu a policia.
–Eu nunca disse que fui boa com algo.
–Não, não disse. Mas tão pouco falou de você mesma. -comentou Miranda. Jogou o final do cigarro no chão e pisou em cima. Buscou outro para que a conversa continuasse.
–E sobre o que você desejaria saber? Você já possui minhas recomendações e ficha médica.
–Você não seria ninguém se você pudesse ser decifrada e explicada por um prontuário médico. Não haveria desafio e eu não estaria, às duas horas da manhã, lhe fazendo companhia.
–Eu não pedi que viesse. -disse Julieta jogando o seu cigarro no chão e buscando aquele que estava na mão de Miranda. Tragando e soprando a fumaça no pescoço de Miranda, que estava perto demais.
–Pediu, sim. No fundo, você gostaria de saber exatamente como é. Todas as novatas querem. -Miranda sorriu. -Mas você é diferente das outras. Você não está fingindo que é indefesa, você está sendo forte e jogando comigo. Você é melhor do que as outras.
Miranda mordiscou o lóbulo da orelha de Julieta. Julieta sentiu as pernas cambalearem e a respiração descontrolada. -Gostaria de saber como é o que?
–Sobre como é ficar à ponto de se sentir maravilhada pela primeira vez. Como é se sentir viva pela primeira vez. Como é ficar nos braços de uma mulher. Todas as meninas querem saber como é. Algumas tentam. Outras gostam, mas acabam se casando com um homem qualquer. E algumas, a minoria, fica solitária como apenas uma lembrança de alguma mulher que está tentando ficar excitada com o seu marido, mas ele é ruim demais.
Julieta parou de sentir os tremores nas pernas. Ela olhou além de Miranda. Para o coração de Miranda. -Você se sente solitária? Por que, então, não se torna aquelas que casam com um homem qualquer?
–Porque eu nasci para ser a solitária.
–Isso é uma escolha sua. -disse Julieta se virando para dentro do banco. As duas tinham as pernas coladas e o tronco apenas se tornavam mais próximos. Mas as bocas, essas pareciam estar a quilômetros de distância. -Você poderia ter apenas uma menina.
–Como quem? Está para nascer a menina certa. -disse Miranda numa certa melancolia. Julieta tocou o rosto de Miranda. Acariciou seus cabelos negros e sorriu.
–Você costuma se abrir com as pessoas assim? -perguntou Julieta rindo.
–Como se todos não falassem sobre isso. -disse Miranda rindo. -As meninas não ligam, mas os meninos ficam furiosos.
–Claro que devem ficar, uma menina linda que nunca vai olhar para eles. Eu me sentiria perdido, também. -Miranda levantou a sobrancelha.
–Você é complicada de entender. -disse Miranda.
–Na verdade, não. -disse Julieta. -Mas você parece ser complicada de entender.
–Na verdade, não.
Julieta riu. Os cabelos loiros balançando pela risada. Miranda ofereceu outro cigarro. -Não, obrigada. Acho melhor voltarmos.
–Eu sou a sua supervisora. -disse Miranda. -E você devia aproveitar um pouco mais a vida.
–Meu pai estava certo.
–Sobre o que?
–Ele disse que quando eu viesse, seria uma ordinária. -disse Julieta rindo. -Ele estava certo. Mas sabe de uma coisa? Que bom!
Miranda beijou os lábios de Julieta numa surpreendente força.

Com quase três meses de namoro, Julieta não poderia estar mais feliz. Com apenas um problema que ela não fazia ideia. Um relacionamento envolvia duas pessoas, mas apenas ela estava feliz e não conseguia notar isso. Pra falar a verdade, Miranda vivia numa tristeza profunda criada por ela mesma. Ela havia mentido sobre como se sentia e agora, era quem estava triste. Tudo era sufocante e mentiroso. Ela não se sentia bem e duvidava que Julieta estivesse naquela felicidade completa que tanto demonstrava. E era onde o problema havia se instalado. Julieta fazia tudo por Miranda que não retribuía tanto quanto deveria. Julieta não se importava, ela estava tão feliz ao ponto de ser cega e enxergar os defeitos como qualidades. O nome de Miranda continuava a ser declamado pelo Christopher na sala do delegado. Ela ainda continuava a trair Julieta. Numa noite qualquer, literalmente qualquer noite, ela saiu para respirar algo que não fosse a essência de flores de Julieta.
–Como eu a odeio! -gritou Miranda perto do dormitório masculino, longe dos ouvidos de sua namorada.
–Falando com as árvores, Miranda? -perguntou Christopher rindo.
–Não venha falar comigo. Você continua me ameaçando? Qual é o seu problema?
–Não. Qual é o seu? Você tem namorada e achei que ia parar de dar em cima das outras.
–Você é casado. É o sujo falando do mal lavado. -disse Miranda. -Eu não sei qual é o problema daquela menina! Ela não me larga. Eu sinto o cheiro dela em todos os lugares. Eu preciso me livrar dela! Espera. Eu tive uma ideia. E você vai adorar porque está nela.
–Não posso mata-la. -disse Christopher numa piada. Miranda ficou séria, esperando. -Nem manda-la para guerra despreparada. Não com os recursos que temos.
–Pare de falar, por favor. -pediu Miranda e gesticulou com as mãos. -Você vai amar. Você vai transar com ela. Mesmo se ela se recusar, o que vai acontecer, porque eu sou melhor do que você. E é óbvio que ela me ama.
–Acho que é o melhor favor que vou fazer.
–Tapado, escute! Ela tem esses peitos pequenos e perfeitos. Uma bunda linda. Mas se quiser ficar até o final, faça ela calar a boca. Ela fala muito e isso prejudica. Não deixe que grite, o delegado não pode ouvi-la.
Miranda voltou para o quarto onde Julieta já dormia e pela primeira noite em muitas, conseguiu dormir sem os braços de Julieta ao seu redor. Eles deviam se significar proteção, mas a falta deles era a liberdade como nunca havia visto.
No dia seguinte, Julieta acordou com um sorriso imenso. Ela se virou e caiu da cama. Ninguém estava no dormitório. Aquele dia iriam mandar dois homens e uma mulher para as trincheiras e as meninas foram liberadas dos treinos matinais. Deixou o dormitório e não viu ninguém no campus. Ela resolveu ir até a biblioteca. O sol ainda estava fraco e o ar fresco batia em seus cabelos. Ela havia vestido a calça apertada, mas não conseguia se acostumar com aquela coisa nas suas pernas. Subiu as escadas e chegou em pouco tempo. O ar abafado na biblioteca fez com que tossisse. O cheiro de livros fez com que Julieta ficasse parada no meio da biblioteca por alguns segundos apreciando-os. Ela ouviu o som da fechadura e a chave de ferro girando. Se virou para a porta e viu Christopher caminhar em sua direção. Ela poderia pensar em diversas coisas, mas apenas viu o rosto, a face de mediocridade de Christopher. Aquele corpo bruto e nojento vindo em sua direção e não pode imaginar mais do que a verdade. Ela gritou. Chorou e gritou, mas recebeu um tapa no seu rosto. A marca dos dedos enormes de Christopher. Ele rasgou toda a roupa dela. Ela havia parado de gritar, mas tentou fugir dele. Conseguiu ir até a porta trancada e sentiu seu corpo ser espremido contra a porta de madeira.
–Se você ficar quieta, pode até gostar. Eu vou te transformar em uma mulher novamente.
Não importasse o quanto gritasse, o quanto chorasse, ele não havia parado. Quando acabou, jogo-a no chão. Como um pano sujo que ninguém tem coragem de tocar.
–Vá se arrumar. Alguém vem vê-la em alguns minutos.
Julieta não se moveu. Christopher abotoava a camisa. Ele se virou e irritado, jogou seu pé nas costelas de Julieta. -Eu disse para se arrumar! Ou melhor, fique assim. Nem se mexa. Eles devem estar chegando.
Um carro chegou para levá-la. Ela ficou quieta, do jeito que fora jogada, quando vieram lhe examinar. Com as lágrimas caindo, ela viu Miranda na porta. Miranda estava rindo. Julieta gritou e correu em sua direção. Sua cabeça parecia vazia e nada se passava por ela, como se estivesse meditando. Ela caiu sobre Miranda e lhe socou o rosto, as costelas e todas as partes que conseguia acalçar. Miranda ficou inconsciente e não acordou quando lhe chamaram. Julieta gritou pedindo que tirassem-na dali. Pediu que a levassem embora. Pediu para que tudo acabasse. Algum senhor levantou a seringa contra a luz e algumas gotas caíram no abdômen de Julieta. Ela ainda estava nua quando tudo se foi por algumas poucas horas.
–Você vai ficar bem. -disse o senhor para o corpo já duro de Julieta. -Procure relaxar, você nunca mais vai voltar para esse lugar.
Julieta desmaiou antes que a agulha da seringa entrasse na sua carne. Ela adormeceu por um longo tempo e quando acordou demorou um momento para se lembrar que não sabia onde estava. Mas parecia um dormitório. Tinham camas velhas e algumas cômodas. Ela sentiu algo em seu braço esquerdo. Era uma mulher gorda que estava segurando o seu braço. As duas se olharam, a mulher olhava com olhos assustadores. Por um momento, Julieta se perguntou se aquilo era a vida real.
–Eu vou soltar você. Se você parar de chorar e gritar. -disse a mulher gorda, parecia estar a ponto de chorar. -Mas pare, por favor!
–Eu prometo. -disse Julieta. A mulher saiu saltitando como uma criança e a ironia foi feita. Olhou para seu próprio braço e ele estava vermelho.
Uma mulher vestindo branco adentrou o quarto rapidamente. Tirou a chave do colar e abriu a cômoda ao lado de Julieta.
–Você acordou. Eu vou pedir que alguém venha vê-la. Um das meninas tentou matar a outra com um garfo de plástico e está todo mundo maluco! -a enfermeira riu da própria piada. -Malucos todos já estão.
A enfermeira correu. Parecia estar perdendo a próxima atração de um circo. Achava que estava no meio de um circo onde só existiam palhaços. Outra enfermeira entrou alguns minutos depois.
–Você está atrasada. -disse a enfermeira.
–Me disseram para esperar por você.
A enfermeira bateu no rosto marcado de Julieta. -Escute! Você não se atrasa para nenhuma consulta médica! Não é minha culpa se a senhora aqui teve que acordar agora.
Julieta permaneceu calada até chegar ao pequeno consultório do doutor Aspire. A enfermeira abriu a porta e a empurrou lá dentro. Julieta cambaleou e caiu no chão.
–Se levante. -disse uma voz por trás do jornal. -O chão não é muito limpo.
–Pode me dizer o que estou fazendo aqui? -perguntou Julieta se sentando na cadeira. Percebeu que vestia uma camisola branca. -Eu não deveria estar aqui...
–Não? Deve rever o seus conceitos, então, senhorita Grant. -disse Aspire, abaixou o jornal e tinha um olhar duro. -Foi achada nua, acusada de ter relações sexuais com uma mulher, a mesma mulher que está deitada numa cama se hospital sem poder se mexer, falar ou ver por sua causa.
Julieta começou a se assustar, os olhos não pareciam parar e os pensamentos estão ainda mais inquietos.
–Não podemos fazer muito com você, mas prometemos lhe tratar bem. Para o seu melhor, e é claro, que terão as consequências. Esteja avisada. Você será afastada das outras pacientes, terá total isolamento e será monitorada todos os dias, todas as horas. Cada movimento seu será suspeito e quando você receber alta, se receber, estará uma pessoa melhor.
Julieta se ajoelhou ao lado do médico e beijou a sua mão. Ela gritava agradecimentos, ele apenas passou a mão pela bunda dela e a empurrou como um cachorro sarnento, por detalhe ela não parecia nada que alguém quisesse. Julieta foi levada para uma sala estofada pensando que tudo que fizessem com ela seria para o seu próprio bem. Prenderam as suas mãos e colocaram uma camisa para que não tocasse em nada. Em lapsos mais sérios de total escuridão mental, ela gritava. Nesses lapsos ela tinha dúvida sobre se estaria fazendo bem à ela. Ela adquiriu duas personalidades distintas e em dois meses já detectaram a loucura. Ela tentava se prender numa linha imaginária mas a cada dia que se passava, esquecia ainda mais das situações e lembranças e amigos e família. Numa das consultas mensais, ela foi liberada de soltar as mãos que quando soltas caíram como gelatina ao lado de seu corpo antes que conseguisse puxar e mexer com elas.
–Você não receberá alta tão cedo, senhorita Grant. -disse Aspire para a parte consciente de Julieta, mas esta olhava para a rua. -E lamento em informar, mas teremos que utilizar um novo tratamento. Com a vinda da eletricidade, essa ideia foi criada para que as pessoas tentassem retomar ao seu estado normal em 1912 e ela funcionou em alguns casos. Você será a primeira a tentar em nossa "hospedagem". Você deve assinar alguns papeis. Senhorita Grant?
–Senhorita Grant? -perguntou um homem perto de Julieta. Ela abriu os olhos e viu ele de cócoras. Ela havia dormido e tentou recuperar a postura, como uma mania imperdível e sentiu aço na sua cabeça e em seus pulsos e tornozelos. -Você dormiu no meio de uma explicação primordial. Não temos tempo para explicar novamente. Apenes relaxe e tente focar em um ponto qualquer na sala.
O homem ligou o aparelho e um barulho preencheu o sala. Julieta sentia medo apenas de ouvir o barulho. Ele apertou um botão vermelho e Julieta sentiu todo o seu corpo se dobrar e gritar e comprimir contro o ferro na cadeira. Ela sentia a eletricidade passando por seus poros, fazendo seu coração bater tão rápido que pela velocidade: explodiria. Ela não sentiu quando acabou, mas não foi rápido. Ela sentiu seu corpo duro e o olhou apenas com os olhos, sem conseguir mexer a cabeça. Ela estava nua e parecia roxa. Viu algo vermelho descer de sua vagina, mas não sentia nada.
–Algo deu errado. -exclamou o homem. Ele correu até o telefone ao longe e Julieta permaneceu sentada, imóvel, até que algumas mulheres a tirassem de lá e a levassem para longe do hospital. Ela adormeceu novamente quando uma agulha lhe perfurou a carne.
Ela acordou no meio de uma sala de cirurgia. O médico estava tampado por um pano, mas ela mal sentia as pernas.
–Metade do feto foi retirado. -avisou o médico. Julieta começou a chorar pelo bebê que esteve em seu ventre.
–Brittany! O que aconteceu com a minha Brittany!?
–Ela acordou! -disse a enfermeira. -Outra dosagem, por favor.
Diferente de todas as vezes que havia desmaiado ou dormido, ela sonhou. Viu uma criança rindo e correndo em sua direção. Via sua pequena sobrinha. Há muito tempo não se sentia feliz como naquele sonho. Quando acordou, ela já estava num quarto normal. Uma carta estava em seu colo e já podia sentir suas pernas funcionando. A carta dizia que o sanatório a dispensava por ter completado o tratamento e que ela nunca mais se acomodasse em seus aposentos. Eles não queriam ter nenhuma ligação com a Julieta. Eles haviam provocado o aborto do filho que ela não sabia que esperava. Eles haviam mandado ela embora e agora, não sabia a quem recorrer. Ela deveria ter voltado quando pode, deveria ter ligado para Howard mais cedo, deveria ter largado tudo e acreditado que o tratamento estivesse completo. Ela ficou em Paris e arranjou um emprego medíocre. Sua mãe mandava dinheiro para sustentar o luxo de dormir em quartos de hotéis. Quando Miranda acordou do coma, ela foi acionada pela polícia. Miranda declarou que Julieta não era culpada e pediu que nunca mais chegasse perto dela. Apenas a declarou como louca, mas a polícia já estava ciente da condição que haviam diagnosticado Julieta.
Anos se passaram e Howard visitou Julieta com a pequena Brittany em seus braços. Julieta disse que havia engravidado de um guarda e que talvez perdesse o emprego se descobrissem e a mandou tirar o bebê. Howard acreditou no que a irmã lhe contara. Apenas não entendeu porque Julieta ainda estava em Paris depois de todos aqueles anos. A policia queimou os arquivos sobre as ocorrências que possuíam o nome de Julieta. Ela havia se apaixonado por Brittany. Brittany abraçou quando a viu pela primeira vez em anos e sorria. Julieta se sentia vazia toda vez que pensava o quão longe estava de Brittany. Ela nunca estava em paz, mas com Brittany ao seu lado ela realmente podia se esquecer de todo o mal que havia feito e passado.
–Como nossa filha cresceu, Howard. -comentou Julieta vendo Brittany rodopiar pela sala do quarto de hotel. -Ela é a menina mais linda do mundo. Nossa menina.
Julieta criou diversas identidades falsas em sua estadia na França. Ela não poderia deixar Paris. A polícia a pressionava para que deixasse o país e até recrutaram Howard no processo, anos depois, muito mais velho. Uma das últimas estadias de Howard na França foi para levar Julieta consigo, mas ela não queria ir, não podia ir.
E para um bem menor, num dia qualquer, ela foi. Ligou para sua sobrinha e voltou para Londres. A ida para a Inglaterra trouxe uma personalidade doentia que Julieta temia adquirir quando atravessasse a fronteira. Não acredita? Ela ligou sua perfeita estabilidade com a França e por isso não queria deixa-la. Quem engano? Não foi apenas por isso, estamos falando de Julieta, afinal. Ela, de fato, acreditava que se deixasse Paris, nunca voltaria a ter uma perfeita função do cérebro. Mas ela não queria deixar a França até Miranda estivesse morta. Porque ela sabia que só poderia deixar o único, mesmo que falso, amor de sua vida se ela estivesse morta. Miranda morreu de uma doença, uma praga ou qualquer outra coisa. Ela estava sendo cuidada por uma enfermeira na Academia de Policia onde ainda treinava as meninas. Quando a enfermeira deixou Miranda no jardim para tomar algum calor e cor nas bochechas, ela tardou morta e sem cor e sem vida.
Julieta riu, chorou e as suas duas personalidades tornaram-se vivas dentro de si. Nada poderia para-las, nem mesmo sua sobrinha que no coração considerava a filha morta.
A confusão era tamanha e ninguém a ajudava.

"A trágica história se formou no dia que atravessei aqueles imensos portões de ferro. No dia que Christopher me estuprou. No dia que Miranda pediu que eu ficasse longe dela. No dia que Miranda morreu. No dia que eu a beijei. No dia que senti ciúme do meu irmão. No dia que não vi minha Brittany nascer. No dia que vi minha filha seguir meus passos beijando aquela nojenta. No dia que minha mãe declarou o ódio à mim. No dia que levei um tiro. No dia que minha mente parou de funcionar. No dia que meu coração parou de funcionar. Vejam bem, quando falamos de uma trágica história, ela não tem começo. Toda história trágica é trágica porque ela foi sempre assim. Eu não declaro um começo, mal sei meu fim, mas eu sei a minha história e essa, senhoras e senhores, vocês acabaram de ler. Eu não sou nenhuma personagem criada por Shakespeare. Não sou a Julieta que morreu por amor. E nunca serei a Julieta que morrerá por amor."
–Julieta Grant, palavras escritas nas margens de um livro vermelho roubado de seu antigo quarto na Academia quando ouviu Miranda dar seu último suspiro.

Notas finais
Gostaram do recado de Julieta? E o que acharam da vida de Julieta? Ah, no próximo capítulo teremos mais surpresas e muito mais do que isso. Qualquer dúvida, me chamem. Comentem! E espero que tenham gostado!!! Beijos e até mais!