Notas iniciais
Um dia excepcionalmente comum, só que não é bem assim...

Luna’s POV.

Eu caí da cama por causa do susto que tomei com o barulho estridente do despertador. Por que eu tinha colocado aquele alarme naquela porcaria? Eu sentei e fiquei olhando para o meu travesseiro, ele parecia estar me chamando e eu queria tanto ficar ali mais um pouquinho… Eu levanto num pulo, não podia chegar atrasada.

Entro no chuveiro tentando me lembrar do que eu tinha sonhado, só sei que eu corria sem entender o motivo e só parava quando entrelaçava os meus dedos nos de alguém. Tinha grama por todo lado e ela estava começando a ficar cheia d’água. Eu tinha uma vontade maluca de rir e tudo estava girando e girando e girando e um dos corações da pulseira perdida que eu estava usando no sonho, tinha ficado preso em um monte de algas (?). Eu não conseguia tirá-lo de lá e a água ia vindo como num tsunami e eu corria tentando puxar alguém que estava em baixo de mim. Justamente quando fui ver quem era, eu acordei. O mais surpreendente de tudo é que apesar de ser absurdo, o sonho foi tão real… Detestava quando um sonho assim era cortado bem na parte mais interessante.

Depois de terminar o banho bem rápido e me vestir, eu me olho no espelho e faço uma careta. Metade dos meus cabelos estava armada e a outra… Bom, parecia que eu tinha dormido dentro da geladeira. Eu tento arrumá-los, mas eles não ficavam decentes de jeito nenhum, era isso o que chamavam de “bad hair day”, certo? Eu faço uma trança e suspiro sabendo que eu nem teria tempo para tomar o café da manhã.

Para ajudar, a minha mãe achou que seis e meia era uma ótima hora para ligar e encher os meus ouvidos com reclamações sem sentido. Ela falou, falou e falou e quando eu já estava de saco cheio, pronta para lembrá-la de que eu tinha feito dezenove anos há meses, morava na minha própria casa, pagava as minhas próprias contas e não devia satisfações para ninguém, ela resolveu elogiar o “garoto-simpático-que-tinha-atendido-o-telefone-no-outro-dia” e dizer que ele só não era melhor do que o Adam. Eu viro os olhos avisando que o ônibus tinha chegado. Não era obrigada a ficar ouvindo aquilo logo cedo.

Eu sentei no fundo do ônibus com a minha bolsa no colo e fiquei olhando pela janela sem aprestar a mínima atenção no que eu via. “E se você quiser saber, não é como se essa fosse a primeira vez que nos beijamos.” O jeito que aqueles olhos estavam presos nos meus naquela hora… “V-você está blefando!” “Estou”? O jeito que lábios dele se esticaram quando ele sorriu me provocando… Se eu estivesse com uma câmera… Sacudi a cabeça. Pensar em algo assim não era nem um pouco normal, mas aquela “bendita” cena não parava de se repetir na minha cabeça e aquilo era terrível, fazia com que eu me sentisse tão confusa.

Por muito pouco eu não desci no ponto errado. Estava completamente avoada e assim passei o resto da manhã, durante todas as aulas. Nunca tinha ficado tão feliz por não ter precisado falar muito na apresentação de um trabalho, a maior parte dele era um vídeo que eu tinha filmado e ajudado a editar, mas mesmo assim tiveram que me cutucar umas duas vezes até eu sacar que tinha que colocar o pendrive no computador.

— …Você está me ouvindo? — Gabriel estava parado na minha frente no meio do corredor.

— Não sei… Oi?

— Perguntei se você vai na palestra de sexta-feira, a das cores e efeitos visuais. Depois daquele seu discurso sobre as imagens e sons no clima dos filmes, no mês passado. Achei que você seria a primeira da fila.

— Ah, eu vou sim e… eu dei um discurso? Falei pouco até.

— Só faltou você subir em cima da mesa e chorar emocionada… — Ele balançou a cabeça negativamente enquanto ria.

— Exagerado. Eu só tentei responder o que me perguntaram.

— E como… — Dou um peteleco nele. — Tá, parei… Bom, falei disso porque a Emily nos convidou para passar lá na pizzaria direto daqui. Ela falou que já vão ter os cardápios e ela quer a gente lá.

— Combinado! — Como eu só tinha comido um bolinho da cantina desde cedo, meu estômago ronca só de pensar em comida.

— Eu tenho que terminar de montar um cartaz lá no corredor. — Ele faz uma careta.

— Até mais tarde então.

Eu saio dando risada. Estava feliz por ter algum lugar para ir nesse dia, porque tinha certeza de que Sábado seria um saco. Iria almoçar com a minha família e alguns amigos dos meus pais para eles ficarem falando de negócios. Só o meu irmão conseguia detestar mais aquilo do que eu. Bem que eu queria convidar alguém para ficar lá conversando comigo, como eles sugeriram, mas eu não levaria um amigo para aquela tortura.

Depois de pegar o metrô e o ônibus eu desço algumas ruas para chegar em casa. Só pensava nas sobras de ontem esquentadas no meu prato com um pouco de queijo em cima talvez… Quando fui tirar as minha chaves do bolso, vi um Audi amarelo estacionado na minha calçada. Achei estranho e quando me aproximei mais um pouco, vi Adam indo apertar a campainha. O que ele estava fazendo ali? Ele não deveria estar em Santa Catarina? Eu dou meia volta e saio andando sem olhar para trás. Tinha prometido passar na casa dos meninos e era isso o que eu faria.

No meio do caminho a minha mãe tinha ligado agindo como quem não queria nada, mas era óbvio que ela tinha um dedo (se não a mão inteira) naquilo. Ela disse que Adam estava viajando por causa do trabalho e que ficaria hospedado na “nossa” casa até amanhã cedo quando voltaria para a casa dele. Sem contar que ela disse que não deixaria o meu irmão vir aqui como prometido, Nico ficaria chateado, fazia mais de uma semana que não nos víamos. Quando ela começou a tentar fazer a minha cabeça eu desliguei o celular e voltei a minha atenção para o caminho.

Apertei a campainha umas quatro vezes antes de alguém dar algum sinal de vida. Gabriel atendeu a porta e me abraçou, metade da cara dele estava amassada com o formato da manga da blusa dele, provando que ele devia ter dormido no sofá até agora.

— Veio para o almoço que eu sei…

— Bobinho. Vê se pega um travesseiro na próxima. — Aperto a bochecha toda marcada dele. — Foi bem na apresentação? Era tipo uma amostra de TCC, né?

— Isso e fui ótimo, o professor gostou do site que “eu” fiz.

— Olha, nem me deu créditos…

— Claro que dei. Como o professor atrasou eu imprimi outra “página de agradecimentos” e citei você lá.

— É sério!?

— Olha a cópia aqui. — Ele me estende uma folha dobrada que estava sobre a estante, mas não me deixa pegá-la. — Não liga para o tamanho disso, é porque da última vez reclamaram por eu ter colocado só uma pessoa, enchi a folha dessa vez.

— Uau, literalmente! Pensei que estivesse brincando.

Lá para no final da folha estava escrito: “Agradeço à Luna, uma grande amiga, que me emprestou um pouquinho de sua criatividade”. No resto da folha ele agradeceu desde o cara da papelaria que imprimiu as cópias até o irmão dele por tê-lo ajudado a estudar as falas.

— Não vai dizer nada?

— Obrigada! — Eu dou outro abraço nele.

— Vocês não estão com açúcar demais hoje, hein? — Pela cara dele, Len parecia estar num dia pior do que eu o meu, isso porque minha noite anterior tinha sido horrível e nem passar a tarde com o meu irmão ou poder entrar em casa eu podia, ou ele era exagerado ou estava péssimo.

— É tudo ciúmes…

— De quem? — Len ri irônico. — Vai dormir, vai…

— É, Luna… nem chegue muito perto dele hoje, vai que ele morde…

Len faz uma careta para o irmão que apenas ri disso. Ele senta no sofá, mas logo levanta irritado jogando o lápis que ele tinha sentado em cima, na mesinha. Gabriel o coloca dentro da mochila imediatamente.

— Deve ter caído do meu bolso… — Ele se explica sem ganhar a atenção do irmão.

— A vó já não deveria ter chegado? — Len pergunta depois de passar a mão no relógio de pulso dele.

— Na verdade ela passou aqui enquanto você estava tomando banho. Ela disse que tinha que pegar uma coisa na casa de uma amiga e que já voltava. — Gabriel senta no sofá menor. — Já deve estar chegando.

— Tomara, eu não tenho o dia todo… — Ele murmura a última frase.

— Eu vou ali na biblioteca e já volto.

Len bufa e eu viro os olhos. O que tinha acontecido com ele? Parecia o “mesmo de antes”. Nos últimos dias ele estava bem aturável e às vezes era até mesmo divertido estar com ele… Eu pisquei várias vezes quando entrei na biblioteca. A arca não estava no lugar que deveria estar e vários dos livros estavam empilhados em cima da mesinha. Eu saí de lá tentando não correr e sentei bem do lado do Len no sofá.

— Não precisa sentar em cima de mim!

Len mexia furiosamente no celular dele e nem virar para mim ele virou. Gabriel mesmo sem olhar para a gente, por estar com os olhos grudados na televisão, ri da cena. Eu solto um longo suspiro. Se ele fosse ficar com aquele “humor maravilhoso” o dia todo eu iria voltar para casa. Bom, nem isso eu podia fazer…

— Calma… Preciso falar com você. — Eu tento não soar nervosa.

— Agora não. Não vê que eu estou ocupado? — Ele tira um dos fones que usava.

— Mais do que você vê que pode ser algo importante. — Eu digo baixo o bastante para apenas ele ouvir, mas se ouviu, ele ignorou completamente.

— Você deve estar com fome. Pela hora, você nem passou na sua casa, né? — Gabriel pisca para mim tentando quebrar o clima tenso.

— Só de falar nisso… — Eu lamento com a mão sobre o estômago que roncava alto.

— Eu também não almocei ainda.

— O sono estava bom? — Pisco para ele.

— E como… — Boceja com uma das mãos entre os cabelos loiros. — Fiquei acordado até tarde estudando.

A nossa sorte era que a avó deles cozinhava como se tivesse mais umas três pessoas na casa porque nós dois estávamos com bastante fome e a comida boa demais para não se repetir o prato. Depois de lavar a louça eu voltei para a sala deixando Gabriel, que preferiu esperar eu terminar tudo para começar a secar e guardar as louças, na cozinha.

Len tinha largado o celular na mesa e parecia nervoso, mas nem de longe tão irritado como antes. Eu queria muito saber o que estava acontecendo, mas eu não perguntaria. A chance de levar uma patada era grande e eu não queria brigar de novo.

— O que você queria falar? — Ele parecia se esforçar para agir naturalmente. Estava tenso e eu não queria deixá-lo preocupado.

— Nada… — Sherley aparece do nada e se enrosca nas minhas pernas. Eu a acaricio, fazia tempo que eu não a via por ali.

— Não parece.

— É que não precisa ser agora, nem deve ser tão importante assim.

— Eu decido se é importante ou não. Anda… Fala logo.

— Por que você está tão irritado?

— Não interessa. — Ele disse aquilo de um jeito tão frio que eu até me arrepiei.

— Se não interessasse eu não teria perguntado. — Eu bufo.

— Então não é da sua conta. Fale logo o que tem que falar… — Ele tira os óculos para limpá-los na barra da blusa.

Seguro o impulso de continuar retrucando e olho bem para ele. Os traços dele estavam mais duros por causa da carranca, mas o que eu via ali não era exatamente raiva, mas não era novidade que ele detestava dar satisfações para mim, especialmente.

— Você entrou na biblioteca ontem? — Falo antes que ele terminasse de abrir a boca para reclamar do meu silêncio.

— Só para pegar um livro e arrumar a sua bagunça. — Ele estava irritado novamente. — Pare de mudar de assunto.

— Mas não estou! — Cruzo os braços.

— Vai voltar a gritar?

— Eu nem estou gritando ainda. — Eu detestava não conseguir controlar tão bem o tom da minha voz quanto ele.

— Ainda? — Eu o ignoro.

— É que quando passei lá, a arca estava do outro lado da biblioteca e os livros, ou pelo menos muitos deles, estavam fora dela. Pensei que podia ter sido outra pessoa…

— Uns livros fora do lugar, até pode ser, mas eu não mudei aquela coisa de lugar.

— Tem certeza? — Vai que ele estava com sono na hora e nem percebeu… Eu vivia perdendo e colocando as coisas no lugar errado assim.

— Eu sou cego, não idiota…

— Sendo grosso desse jeito estou começando a pensar que é idiota sim! — Eu já estava de pé olhando feio para ele que sorria debochando.

— Você sabe que encarar não funciona comigo.

— Estou nem aí se você é c…

— Cheguei…

No meio daquilo tudo eu nem percebi que a dona Serena tinha destrancado a porta e acabado de entrar na sala. Com vergonha do que ela pode ou não ter ouvido, eu sentei no sofá tentando me acalmar. Meu peito subia e descia depressa e eu com certeza estava meio vermelha. Desde quando eu estava respirando daquele jeito?

— Tudo bem por aqui? — Gabriel pergunta do meio do corredor. Ele deveria ter me ouvido quase gritando.

— Maravilhoso. — Len responde e Serena sorri, parecia estar acostumada com os humores do neto.

— Você contou para ela que nós tínhamos que conversar?

— Não. — Eu respondo por ele que apenas ri como se adivinhasse que eu olhava para ele de rabo de olho.

— Acabei esquecendo. — Ele encosta ainda mais no sofá e ignora o fato do celular dele estar vibrando há algum tempo.

— O importante é que ela está aqui. — Serena sorri para mim. — Bom, é mais fácil de explicar se estivermos na biblioteca, vamos lá.

— Tá bom então… — Len, assim como eu, estava bem confuso.

Serena estava séria, então deveria ser algo importante… Como tínhamos falado sobre a minha faculdade ontem, talvez ela quisesse que eu filmasse alguma coisa ali, mas seria melhor se ela tivesse me avisando antes por causa do equipamento, mas para que precisaria do neto ali também? Ou podia ser algo sobre os livros. Não, não podia ser… ou podia? Afinal, era para ela que eles foram entregues. Nós dois que tínhamos fuçado neles e percorrido por tantos daqueles mundos fantásticos em segredo…

— Vai ficar aí parada na frente da porta ou vai me deixar entrar? — Len resmunga.

Eu viro os olhos bufando e ele parecia bem contente com isso. Ele achava que me provocar sempre que podia era algo engraçado ou o quê? Nós parecíamos dois adolescentes meio bobos ou então duas crianças que não paravam de implicar uma com a outra. Às vezes, eu admito, quando chegava em casa eu até ria de algumas de nossas “brigas”, outras eu ficava com tanta raiva que não queria voltar a ficar perto dele tão cedo.

— Então… — Serena encosta na mesinha olhando para a gente.

Meu celular começou a vibrar no meu bolso e eu ameacei tirá-lo de lá. Se fosse a minha mãe, eu ignoraria, mas podia ser alguém importante, bom se fosse ligariam de novo. Eu puxei a cadeira da escrivaninha e sentei esperando que ela continuasse.

— Não vai atender?

— Depois eu retorno. — Eu mal termino a frase e o celular já volta a vibrar.

Depois de tirá-lo do bolso eu olho para o visor ficando preocupada. Era o número do Nico e ele deveria estar na academia agora. Responsável do jeito que era, dificilmente ligaria, ainda mais, mais de uma vez durante a aula de ginástica.

— Aconteceu alguma coisa? — Dessa vez é Len quem pergunta.

— Acho que sim, eu preciso retornar, desculpa.

— Tudo bem. — Dona Serena sorri compreensiva. — Nós vamos esperar.

Eu vou para a sala discando o número e antes do primeiro toque ele atende. A voz dele estava meio mole e rouca, como se tivesse chorado. Nico disse que tinha caído em cima do braço e que nossa mãe não estava atendendo e até pensou que nem eu atenderia, ele estava na enfermaria com o braço enfaixado, esperando alguém levá-lo para casa. Depois de acalmá-lo eu prometo ir correndo para lá e peço para ele passar o telefone para a enfermeira.

— Mil desculpas, mas eu tenho que ir. Meu irmão torceu o pulso e eu preciso levá-lo para casa. — Eu falo no meio do corredor para os três ouvirem.

— Nossa, que ruim. É melhor você ir logo! — Serena me abraça se despedindo e Len acena de leve.

— Amanhã você me devolve. — Gabriel joga as chaves na minha mão.

Depois de sair da casa eu vou correndo até o fundo do meu quintal e pego a moto toda empoeirada que eu tinha parado de usar há uns dois anos. Depois de espanar um pouco do pó e verificar se o capacete do Nico estava ali eu coloco o meu e vou para a academia. Por sorte não peguei muito trânsito e cheguei lá rápido.

Uma mulher de jaleco branco estava no hall e quando uma das recepcionistas apontou para mim ela veio me cumprimentar dizendo que era a enfermeira que tinha atendido o meu irmão. Disse que pelo que tinha visto era só uma torção leve, mas que era melhor tirar um raio-X num hospital amanhã. Ela entrou comigo na academia e fomos para a lanchonete procurando pelo meu irmão. Nico estava tomando um sorvete meio desajeitado com a mão esquerda, já que a direita estava machucada. O nariz e as bochechas dele estavam vermelhos por causa do choro e quando me viu, ele sorriu.

— Está doendo?

— Não igual antes, mas se mexer… — Ele faz uma careta mexendo de leve o pulso machucado.

— Então é melhor não fazer isso, né? — Eu bagunço os cabelos castanhos dele e o abraço.

— É… — Ele concorda com a cabeça depois morder metade do sorvete.

— Por que não ligou para o papai?

— A Anna disse que ele estava em reunião.

— Deveria ter falado que era muito importante.

— Eu sei, mas não queria atrapalhar… — Ele olha para os próprios pés.

— Isso não seria atrapalhar…

— Vamos para casa? — Ele muda de assunto sabendo que eu iria insistir.

— Para a minha ou para a sua?

— Você já sabe… A mamãe vai brigar com a gente se eu não voltar e o Henrique vai lá em casa hoje à noite no jantar. Eu prometi brincar com ele.

— Já ouvi essa discussão antes… Tá bom, eu te levo lá, mais vai ser de moto, tudo bem?

— Tá bom… — Ele torce o nariz e joga o palito babado no lixo, correndo para pegar as coisas dele com o professor.

Ele segurava com força na minha jaqueta, dava para perceber que ele estava com sono, e não era atoa, o remédio para a dor que a enfermeira tinha dado era um pouco forte. Ele não era muito tagarela, mas normalmente estaria conversando comigo, falando sobre como preferia ir de bicicleta ou patinete do que nessa coisa barulhenta. Depois que o porteiro nos deixou entrar, eu paro a moto bem no meio do gramado, sem me importar com as reclamações que viriam.

— Você pode me pegar no colo? — Nico estava com muito mais sono do que antes.

— Uhum. — Eu o pego com cuidado. — Você não está muito pesado para um menininho de seis anos?

— Você que está fraca. — Ele resmunga afundando a cabeça no meu pescoço.

Jean, uma das duas camareiras, abre a porta para mim e eu coloco Nico no sofá enorme de couro branco da sala sem que ele acordasse. Olho na sala de jantar, mas minha mãe não estava lá, então subo as escadas irritada procurando por ela.

Sentada na poltrona giratória do quarto dela, “Dona Rebecca” estava pintando as unhas de vermelho totalmente distraída. Se eu não tivesse pigarreado, ela não me veria tão cedo. Apesar do susto leve ela sorri olhando para mim.

— Finalmente lembrou do endereço de casa? Já sei, veio checar se esse lugar ainda existe ou então veio ver o Adam. — Ela fecha o vidro do esmalte e assopra as unhas.

— Onde está o seu celular? — Eu ignoro a provocação.

— Você poderia dar um oi, pelo menos…

Eu o vejo em cima da mesinha e ligo o aparelho percebendo que estava no modo silencioso, eu mudo para outro modo verificando a lista de chamadas perdidas. Nico tinha ligado para ela umas cinco vezes e ela nem tinha como saber. E se eu não tivesse atendido? E se eu não pudesse buscá-lo? Quando é que alguém iria, pelo menos, saber o que tinha acontecido com o garoto? Só quando alguém fosse buscá-lo meia hora depois? Aquilo era um absurdo.

— Por que isso está no silencioso?

— Detesto que me incomodem quando estou ocupada… — Ela vira os olhos. — Podemos conversar direito?

— Olha, mãe… O Nico torceu o braço e ligou para você várias vezes e você não atendeu. Eu tive que pegar a minha moto e ir para lá antes que ele começasse a pensar que todo mundo tinha abandonado ele e eu estava bem mais longe do que você. Eu sou a irmã dele, não a mãe dele. — Eu fico muito chateada com a falta de preocupação dela, bem que não tinha porque ser diferente…

— Pensei que já tivesse desistido de andar naquela coisa velha.

— Pois é… — Eu bato o pé no chão esperando que ela focasse no que importava.

— Ele está bem? — Ela parecia mesmo preocupada, mas nunca o bastante para pedir desculpas.

— Sim, está lá no sofá da sala dormindo. — Eu solto um longo suspiro. Precisava beber água para me acalmar de verdade. — Você precisa levá-lo para um médico amanhã, para tirar um raio-X e dar esse remédio aqui… — Coloquei o pote na mão dela.

— Eu vou fazer isso. Obrigada por buscá-lo. — E ela fazia parecer que estava tudo bem, mesmo com a mancada dela.

— Tenho que ir. — Eu saio de lá antes que eu começasse a me sentir desconfortável.

— Luna? — Adam estava com uma toalha sobre os ombros e sem camisa. Tinha acabado de sair do banho.

— Droga, esqueci que você estava aqui… — Falei comigo mesma.

— O quê? — Ele seca aqueles cabelos meio oxigenados e se aproxima.

— Agora não, Adam. Eu tenho um compromisso e já deveria estar lá. — Desço as escadas.

— Espera, eu vou me vestir, aí podemos ir juntos a…

— Tchau. — Eu não paro de andar em momento algum.

Mal me despeço dos funcionários da casa que encontrei no caminho e já subo na minha moto voltando para a casa do Gabriel novamente. Como eu estava com as chaves, eles nem se deram ao trabalho de abrir a porta. Os dois estavam esparramados no sofá assistindo um filme de terror com direito a pipoca, refrigerante e luzes apagadas para entrar no clima.

— Então… Cadê a avó de vocês?

— Ela saiu. — Os dois respondem juntos.

— Que legal. — Eu suspiro.

— O seu irmão está bem? — Gabriel pergunta e, apesar de estar virado para a televisão, dava para saber que Len também estava no mínimo curioso.

— Sim, ele já está em casa e parece que só torceu o pulso.

É só eu sentar no sofá que o filme acaba, eu parecia ter algum tipo de imã para esse tipo de situação. Quase sempre que achava um filme bom na TV, eu só via a última cena ou então as letrinhas…

— Bom, eu vou tomar um banho, porque eu devo estar salgado. — Gabriel bufa olhando feio para o irmão. — Né? — Quando ele levanta do sofá algumas pipocas caem no chão.

— Vai lá! — Len dá risada.

Eu fico ali calada pensando na vida, ou melhor, no nó que ela estava sendo nesses últimos dias… Apostava que Adam tentaria passar lá em casa perto da hora do jantar, então o jeito era voltar bem tarde. Eu podia passar na casa da Sofia ou da Ângela inventando alguma desculpa…

— Que susto, caramba… — Eu quase caio do sofá quando Len bate a mão no meu braço.

— Desculpa, mas eu tinha que saber se você ainda estava aí. — Ele senta do meu lado e vira o rosto para frente. — Não estou a fim de ficar falando sozinho de novo…

— Você não vê nada mesmo, né? — Eu encosto no fundo do sofá evitando olhar para ele. Não sabia se ele estava de bom humor para conversar comigo, ainda mais sobre algo pessoal. Eu sabia que poucas das pessoas cegas realmente viam nada e às vezes ficava curiosa sobre ele, mas não o bastante para deixar escapar como agora.

— Você quer saber se mesmo jogando um neon na minha cara vai dar no mesmo que agora? — Ele pergunta sério, mesmo com aquela escolha de palavras.

— Tipo isso… — Eu me remexo no sofá e ele vira para mim como se me olhasse.

— Então é isso aí. — Ele dá de ombros. — Quer começar com um questionário ou você está a fim de pegar um livro?

— Poxa, justo agora que eu ia perguntar sobre os traumas da sua infância… — Eu dou risada, já me colocando de pé.

— Vê se vai logo… — Ele ri de lado e aquelas duas covinhas aparecem.

Eu saio da sala assobiando e vou até a escrivaninha olhando os livros empilhados. Eles não pareciam ordenados e eu só não tinha certeza de que eu tinha os deixado espalhados ali porque eram muitos. Coloquei uns três livros na arca pensando em guardar tudo nela, mas aquele lado da biblioteca era mais apertado, seria ruim de mexer depois… Como a escrivaninha era de madeira maciça tive certeza de que aguentaria o peso, então afastei uns livros colocando umas pilhas pequenas e pesadas no chão. Eu me afastei para pegar a arca e colocá-la no espaço novo, mas não apresto atenção e acabo tropeçando no tapete. Consegui amenizar a queda virando o corpo, mas tanto a arca quanto o que estava dentro dela acabou caindo no chão. Eu resmungo esfregando a mão no meu cotovelo ralado.

— Luna!? — Len aparece na porta, ele parecia assustado. — Você está bem? — Ele não sabia para qual direção “olhar”.

— Acho que estou… — Reparo que aquela era a primeira vez que ele me chamava pelo meu nome.

— O que aconteceu? — Ele dá uns passos inseguros.

— É a gravidade. Eu e o chão somos amigos de longa data. — Ri sem graça recolhendo dois livros que estavam perto de mim. — Olha, um deles caiu aberto. Qual será?

— Lun. — Ele encosta a mão no meu braço.

— Relaxa. Nós precisaríamos abri-lo para funcionar, não?

— Acho que é melhor não arriscar. — Diz tarde demais.

— Ah, é Be… — Antes de terminar a frase, sinto que estamos sendo puxados para dentro do livro.