Até que os sentimentos nos separe!
1 Machuca por dentro
Notas iniciais
O céu de Paris repousava sob uma luz suave de fim de tarde, tingindo os telhados em tons quentes que escorriam pelas fachadas antigas. Ruas estreitas pulsavam com o burburinho típico da cidade, misturando o aroma de pão fresco com ecos de risadas dispersas.
À saída do colégio Françoise Dupont, um pequeno grupo de amigos caminhava pelo boulevard. Marinette, envolta no próprio casaco azul-claro, seguia com passos apressados ao lado de Alya, Nino, Max, Alix e Zoé. Conversavam sobre o filme que pretendiam assistir, as vozes se sobrepondo em um coro de entusiasmo.
Marinette, porém, mantinha um olhar distante, como se um fio invisível a puxasse para longe da conversa.
— Ei — cutucou Alya com um sorriso simpático — não vale ficar distraída só porque o Adrien disse que não viria. — Ela soltou com um olhar teimoso, tentando aliviar a tensão da amiga, já que aquilo era uma situação recorrente.
Marinette suspirou. Era inútil tentar esconder o embaraço crescente.
— Não é como se eu conseguisse controlar essas coisas… — murmurou, desviando os olhos. — Eu revisei a agenda dele, tinha certeza de que não tinha nenhum compromisso.
Alix soltou uma risada abafada, revirando os olhos, enquanto Zoé lhe lançou um olhar compreensivo. Nino, por sua vez, deu um tapinha leve no ombro de Marinette.
— Relaxa, Mari. A gente sabe o quanto a agenda do meu mano Adrien é complicada — falou, tentando aliviar a tensão. — Bem... assim como o pai... — completou em um tom receoso, deixando subentendido que talvez soubesse o motivo da ausência do loiro.
As palavras a fizeram franzir a testa, mas ela preferiu focar no quanto seus amigos demonstravam estar amistosos. No fundo, sabia o quão complicada era a situação das saídas de Adrien que não envolviam a escola ou o trabalho.
Por isso tentou afastar os pensamentos inconclusivos. Afinal, ser a nova Guardiã da Caixa-mãe dos Miraculous já era um fardo suficientemente estressante. Só queria ser uma garota normal, com uma vida normal, indo se divertir no cinema com os amigos.
— Gente, foco! Faltam exatamente 9,05 segundos para perdermos os trailers. Vamos lá! — chamou Max, ajustando os óculos.
Com isso, Alya e Zoé puxaram Marinette de volta para o meio do grupo, e atravessaram animados a esquina da Rue de Rivoli. Foi quando cruzaram, quase sem notar, um rapaz de expressão carregada. Cabelos pretos, casaco cinza-escuro, celular pressionado ao ouvido. Passou por eles em silêncio, o olhar fixo à frente, alheio ao movimento ao redor.
Leo mal percebeu o grupo. Sua mente estava presa nas palavras que escutara poucos minutos antes. O pedido de uma conversa urgente por parte de seu melhor amigo o acompanhava como um peso no peito.
"Por que ele soaria tão... direto? Nunca foi assim."
A ligação havia sido breve e fria. E agora, cada passo em direção ao parque onde haviam combinado se tornava mais pesado. Um ano e meio em Paris lhe ensinara muito — sobre a cidade, sobre si mesmo, sobre a dificuldade de se adaptar sem perder a essência. Gostava de seus livros, de andar por ruas menos turísticas, de observar pessoas e imaginar suas histórias. Era alguém que buscava conexões reais — e, talvez por isso mesmo, temia perdê-las.
"Tudo parecia tão bem... por que agora isso?"
Cruzou as arcadas antigas e seguiu por uma alameda sombreada, onde as folhas dançavam com o vento. No banco central, o amigo já o aguardava. A postura era rígida, os ombros duros como pedra.
Leo se aproximou cauteloso.
— Ei… cheguei. O que houve?
O outro ergueu o olhar. Havia algo diferente ali — um peso que não combinava com a amizade que tinham. E foi direto ao ponto.
— Leo… a gente precisa parar com isso.
Leo franziu a testa, confuso.
— Com o quê, exatamente?
O amigo soltou o ar com força, como se estivesse se obrigando a dizer.
— Com a gente. Com essa... amizade.
O chão pareceu escapar por um instante. Mas Leo manteve a voz firme.
— Mas... por quê? Eu te fiz alguma coisa? Aconteceu algo?
O outro desviou o olhar, o maxilar tenso.
— As pessoas... estão comentando. Dizem que... a gente é um casal. Você sabe como isso pega. Meus amigos já vieram falar disso e eu não quero mais lidar com essa situação.
Leo sentiu o peito apertar em desordem, mas tentou manter o controle. Ficou tentado a soltar um "Tá bêbado de novo, idiota?", mas sabia que não era o momento de ser agressivo.
— Desde quando a opinião dos outros define a gente? Isso é... só conversa de corredor — soltou franco, para não dizer que era papo de gente que não tinha nada melhor a fazer além de cuidar da vida alheia.
Mas o amigo endureceu ainda mais. Os olhos brilharam com uma dureza inesperada.
— Não quero ser visto assim, Leo. Não quero que me associem a você desse jeito. Não posso e nem quero mais passar por isso.
As palavras ecoaram no fundo da cabeça de Leo. Seu olhar tentava se recompor, mas sua decepção era aparente.
— Então você vai jogar fora toda a nossa amizade... só por medo do que pensam?
Nós sabemos o que é verdade. E agora você não parece o idiota de sempre. Está sendo apenas... babaca. — falou, com a face demonstrando raiva diante de algo que lhe parecia tão irrelevante.
O amigo se levantou abruptamente, a voz agora carregada de frieza.
— Não se trata de você. Trata-se de mim! E se você quer continuar forçando essa porcaria de amizade, fique à vontade, mas... eu não vou carregar isso. Não mais.
Sem mais palavras, virou as costas e se afastou, passos pesados ecoando no silêncio.
Leo permaneceu sentado. As mãos apertaram o tecido do casaco até os nós dos dedos esbranquiçarem. O mundo ao redor perdeu o som. Só restavam as palavras não ditas, o nó na garganta, a raiva crescente e a dor muda.
Fazia de tudo sempre para ser irrelevante na mente dos outros, apenas querendo ser visto normalmente. Mas não... Por mais que tentasse criar uma fachada, as pessoas sempre vinham e pichavam tudo que conseguiam.
Por que mudar a visão das pessoas era tão fácil? Como era possível controlar os sentimentos dos outros?
Um suspiro quebrado escapou. A mochila pesava sobre os ombros como se carregasse não apenas livros, mas cada palavra dita ali.
Sua mão pairou abruptamente em sua nuca, roçando freneticamente entre o pescoço e os cabelos.
"Controle-se... Eu preciso controlar."
O olhar de Leo endureceu. E, por um instante, o vento pareceu cessar, deixando sua respiração descompassada assumir o controle do véu que havia se instaurado ao redor do banco. Seu coração batia de forma irregular, desesperado por encontrar um culpado para aquilo tudo.
Entretanto, a árvore que ficava ao lado do banco parecia sussurrar para Leo que o único culpado estava sentado logo abaixo dela: ele mesmo.
“Controlar os sentimentos é errado... mas se isso é tão humano, eu também posso errar por vontade própria.”
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