Até ele voltar
9 Capítulo 8 - Conselho de boadrasta
Notas iniciais
– Vou só pegar minha bolsa e a do Bê e podemos ir! – exclamou Dandara, extremamente animada.
João e eu nos olhamos inconformados. Nosso magnífico plano já estava dando errado. Tive o maior cuidado do mundo em acordar às sete da manhã, antes de todos da casa. Me esgueirei com cuidado para fora e telefonei para a cadeia de Porto Sul, descobrindo que eles poderiam me oferecer horários de visitas às 10h30, 15h30 e 17h30. Perfeito. Eu veria Nat no primeiro horário e estaria em casa pouco depois do almoço.
Na mesa do café, por volta das oito, achei que o universo estivesse conspirando a meu favor quando Bianca saiu do quarto com roupa de ginástica, pronta para dar uma boa caminhada. Seria excelente, pois se ela não saberia onde eu e João supostamente iriamos, não iria atrapalhar. Saiu apressada antes que eu começasse a tocar no assunto.
Meu pai ficou entusiasmado com a ideia de eu e meu irmão sairmos juntos pelo Rio.
Dandara também ficou feliz. Só que infelizmente, até demais.
Mal havia acabado de dizer que João me levaria para conhecer seu campus quando ela riu entusiasmada, dizendo que isso era ótimo e mais, aproveitaria para me levar junto na primeira aula de natação de Bernardo naquela manhã. Depois, segundo ela, poderíamos almoçar todos juntos e ela nos deixaria em paz, pois Bernardo tinha escola e ela Ribalta. E antes que eu pudesse sequer raciocinar sobre o que estava acontecendo com meus planos, Bernardo se animou junto e me olhou com olhinhos brilhando.
Não poderia dizer não ao meu pequeno irmão.
E agora eu e João estávamos ali, sentados lado a lado no sofá esperando Dandara terminar de aprontar Bernardo e pegar suas coisas.
– Você pode ir outro dia – disse João – amanhã talvez.
– As coisas não funcionam assim, João – respondi, revirando os olhos – a mulher que me atendeu disse que as visitas sem um pedido oficial da justiça só podem acontecer as segundas feiras nesses três horários. Se não for hoje, terá que ser semana que vem. Eu corro o risco de precisar sair correndo para São Paulo a qualquer minuto... não quero deixar mais uma vez ela na mão.
João suspirou derrotado.
A escola de natação de Bernardo era extremamente aconchegante. Logo que chegamos, Bernardo já se enturmou com um menino novato. Ok, obviamente, a parte sociável era herança de Bianca. Por mais que estivesse preocupada com o horário e com Nat, dei meu máximo para ser uma excelente irmã. Ajudei-o a se vestir e fiquei o tempo todo do lado da piscina, encorajando-o, mesmo que naquele dia os pequenos alunos precisavam apenas se acostumar com a água.
– Isso é muito importante para ele – comentou Dandara, do meu lado – sabe, ter você aqui.
Sorri para ela.
– Não fui uma boa irmã – comecei e levantei as mãos pedindo calma quando Dandara tentou contestar – não fui mesmo. Privei meu próprio irmão de um pai no comecinho da vida dele, pois papai estava muito ocupado preocupado comigo.
– Todos estávamos – disse minha boadrasta, sorrindo e acariciando meus ombros – e agora, estamos extremamente felizes por estar de volta.
Meu sorriso se desfez no mesmo instante. Continuei a olhar Bernardo bater os braços na água, tentando não demonstrar meu incômodo diante de suas palavras, mas obviamente Dandara percebeu.
– Sei que quer me responder que você não voltou de fato – derrotada, balancei a cabeça em afirmativo, tentando me desculpar com o olhar – você é uma menina muito forte, K. De opinião, você luta pelo que você quer. Mas seu pai e toda sua família também lutamos. No final a opção será sua, mas você não pode nos impedir de tentar convencê-la a ficar.
– Não há mais nada para mim aqui, Dandara – argumentei, optando por olhá-la nos olhos. Ela merecia toda a minha sinceridade – meu trabalho, meus sonhos, meu namorado... tudo está longe daqui.
– Qualquer lugar é um bom lugar para ser feliz, Karina. Basta querer. Não quero te pressionar, até por que sei que isso não adianta. Mas sabe, você tem opções. Você poderia lutar no Rio tanto quanto em São Paulo. Oportunidades não vão te faltar.
– Mesmo assim – continuei, decidida – meu namorado está lá.
Observei atentamente as reações de Dandara. Ela pareceu querer dizer algo, mas se conteve. Engoliu as próprias palavras e passou a observar Bernardo, claramente perdida em seus pensamentos.
– Sei o que você quer dizer, Dandara – comecei, me controlando ao máximo para não me exaltar. Ela não merecia – você quer dizer o que todos me dizem desde que cheguei aqui: você não deveria estar com Cobra.
Dandara respirou fundo. Me puxou pelos ombros e me levou até os fundos do salão de piscinas, depois de fazer um sinal para João olhar Bernardo. Vi minha madrasta cruzar os braços e fazer um esforço para escolher as melhores palavras possíveis.
– Olha, K – começou ela, devagar – eu realmente considero você e Bianca minhas filhas. Tenho um carinho imenso, uma vontade maluca de proteger. Sei que hoje você está bem crescida, uma verdadeira mulher: linda, inteligente... independente. Mas eu ainda tenho essa vontade de zelar por você. Preciso falar pra você minha opinião. Mas antes preciso saber: você está feliz com ele?
– Muito – respondi imediatamente –ele não é o cara que um pai quer pra filha, Dandara. Ele nunca foi, não é e nem quero que seja. Ele é todo errado. Mas mesmo assim, o amo e ele me faz feliz.
– Imaginei que responderia isso — Dandara me olhou de maneira maternal, porém eu via que ela não havia gostado da minha resposta – e respeito, de verdade. Ele deve realmente te fazer bem. Mas... ele é da vida, entende K? Não consigo ver Cobra te dando um suporte para sempre. Pelo que eu sei, Cobra é acostumado a viver por si só, se criou sozinho. Tenho medo de um dia de ele achar que deve ir embora... e simplesmente te deixar para trás.
Quando senti minha garganta fechar, respirei fundo. Era eu e ele contra o mundo. Fomos eu e ele contra o mundo durante longos e difíceis cinco anos. Ele segurou minha mão, me protegeu, fez tudo que pode por mim. Dandara não sabia que ele já teve diversas oportunidades de me deixar para trás, mas não fez. Não fez, por mim.
– Não posso prever o futuro – continuei, com a voz mais fraca do que queria – aprendi isso da pior maneira, Dandara. As coisas são assim. Em uma hora está dando certo, na próxima pode não dar. Hoje, no presente, estou feliz. Isso que me importa por enquanto.
– Karina, eu sei – ela envolveu suas mãos nas minhas e me olhou nos olhos – pode não concordar, mas preciso te dizer.
Dandara começou a chorar. Lágrimas escorriam de seus olhos gentis e nesse momento eu desejei como nunca ser outra pessoa ou estar em qualquer outro lugar no mundo. Tentei desviar o olhar, mas ela segurou meu rosto com delicadeza.
– Eu queria tanto que você voltasse pra gente. E não voltasse obrigada ou que fosse infeliz, Deus nos livre disso. Queria que você percebesse que aqui você tem as pessoas que mais te amam no mundo. Queria que você desse essa alegria ao seu pai, que já sofreu tanto. Queria que você visse o Bernardo crescer. Queria você unida com João e Bianca. E do fundo do meu coração, eu queria que você fizesse sua família aqui. Eu sou a moda antiga, sabe? – ela riu e fungou antes de continuar – queria te ver com um rapaz que tenha planos de te levar pro altar, te dar filhos. Que frequente nossa família. Que traga um pouco de alegria pra você. Um rapaz que te ame mais do que tudo e que te proteja.
– Esse rapaz traiu minha confiança, Dandara. E você sabe disso.
Cheque mate: Dandara não sabia o que falar. Sorriu sem graça e abriu a boca diversas vezes, mas não conseguia dizer nada. Eu sabia exatamente de quem ela estava falando. Não era um rapaz idealizado, era alguém real.
– Você é realmente bem esperta – disse ela por fim, derrotada – olha, K. Você tem todo direito de não concordar. Mas esse é meu desejo, como sua boadrasta. Eu torcia tanto para que vocês se acertassem... ele vai est...
– Vou ver o Bernardo.
Caminhei com passos firmes, extremamente irritada e deixando Dandara sozinha. Eu não conseguia entender como ela poderia querer que eu voltasse com Pedro, depois de tudo. Se ela ao menos soubesse que nós já havíamos nos encontrado e que o Santo Pedro tinha sido extremamente grosseiro.
Santo Pedro, Todo Alegre e Iluminado Pedro.
Maldito karma.
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