Até ele voltar
6 Capítulo 4 - Alô?
– Eu gostaria de dizer que estou emocionado – desabafou meu pai, sentado na ponta da mesa – Bianca, meu amor, estou quase chorando de alegria junto com você.
– Eu... queria tanto... que a Karina... – soluçava Bianca, ensopada de lágrimas – nunca fui tão feliz na minha vida.
Bianca engasgou nas próprias lágrimas. Ninguém desconfiava.
A verdade era que eu não consegui fazer Bianca parar de chorar. A sacudi, dei tapas, falei frases de efeito moral e nada adiantava. Ela continuava a chorar escandalosamente com a bocona aberta. Eu precisava tomar alguma atitude antes que Dandara aparecesse me acusando de ter batido na minha irmã. Ou pior, antes que a desequilibrada da minha irmã contasse ao mundo sobre sua gravidez com o nerd. Por fim, a arrastei para fora do quarto e encontrei todos na sala conversando. Jurando que mataria Bianca mais tarde, contei para toda a família que finalmente tínhamos nos acertado. Perdoei Bianca e ela ficou tão feliz por tirar esse peso da consciência que não conseguia mais parar de chorar. Coisas de irmãs que se amam.
Bete agradeceu aos céus, Dandara nos abraçou, Gael citou seus lutadores favoritos e até Bernardo pulou animado. E agora estávamos ali, ao redor da mesa farta, conversando sobre coisas da rotina enquanto Bianca chorava que nem uma retardada. Durante a conversa fiquei sabendo que a academia do meu pai ia bem, que Dandara continuava a dar aulas na Ribalta, que João era um excelente aluno, que Bernardo tinha vários amigos. Então, nada havia mudado.
Bete falou que Sol havia lançado carreira solo depois que a Galera da Ribalta... não sei. Antes de eu saber, meu pai pigarreou e imediatamente Bete trocou de assunto. Engoli seco.
Fiquei em choque ao saber que duas pessoas do bairro haviam morrido: Dona Dalva e Lucrécia. Pelo que eu havia entendido, Dona Dalva estava doente há alguns meses e então no último mês, ela não resistiu a uma pneumonia. Duca estava morando sozinho e muito desolado. Olhei para Bianca e dessa vez ela não quis me encarar. Lucrécia havia morrido poucos meses depois de eu ter ido embora. Dandara me disse que a notícia foi bem divulgada, mas obviamente eu não vi, uma vez que eu evitava ao máximo saber de qualquer coisa que não envolvesse lutas. Por um momento, me perguntei se Cobra sabia disso. Me virei para Bianca enquanto voltavam a conversar sobre as peças da Ribalta.
– E a Jade?
– Edgard quis assumir ela, sabe, cuidar – sussurrou, mais calma agora – mas ela simplesmente não quis. Pegou a herança da mãe, conseguiu uma vaga em uma companhia boa de dança e foi embora para a Europa. Não sei muita coisa, não. Por mais incrível que pareça, a Jade nem se gaba por isso. Sumiu mesmo, que nem você.
– Nunca mais voltou ao Brasil?
– Voltou sim, mas não avisava. Fazia seus espetáculos nas capitais e ia embora.
– Que barra. E o resto dos alunos?
– Cada um pra um lado. A maioria desistiu da carreira artística, se quer saber. Lírio foi pro BBB, ficou sabendo?
– Jura? Não.
Como eu não sabia disso? Era uma coisa que me daria excelentes risadas com Cobra.
– Nem tinha como, eu acho. Ele saiu na primeira semana. Ele não agradou muito. Narcisismo não pega nesses programas. Ele faz bicos em programas na TV. O corpo ajuda. Joaquina agora é escritora, tem uma coluna relativamente boa em uma revista. Ela responde perguntas dos leitores... sobre sexo.
Dei risada. Aquilo era a cara dela. Anotei mentalmente que precisava comprar uma revista dela o mais rápido possível.
– Jeff? Mari?
– Casados e lindos. Joaquim é uma graça, precisa conhecer. Os dois abriram um barzinho no centro que deu super certo. Adivinha? A graça do lugar é que todos os dias tem a música da Mari e as danças do Jeff. Um sucesso o lugar, vamos ainda essa semana!
– E os lutadores do pai?
– Duca era a grande promessa, mas andou para trás depois que a Dona Dalva ficou doente. Vai precisar recomeçar, ficou muito tempo afastado. Há vários alunos novos. Alguns antigos desistiram, como o Marcão e Max. Zé está indo bem, vai lutar próximo o Warriors – ela fez uma pausa, certificando-se que todos ainda estavam distraídos – notícias do Wallace?
– Não.
– Pensei que estivessem todos juntos.
– Ano passado ele decidiu se separar. Mas está bem.
Era mentira. Wallace havia se deixado levar por dinheiro. Era o que mais participava das apostas. Chegou a um ponto que eu, Cobra e Roque não pudemos mais pará-lo. Ele não ouvia, só queria saber da vida boa, mulheres e a bebedeira que a grana suja trazia. Deixou de ser um sonho e tornou-se uma obsessão. Roque tentou ameaça-lo de o cortar dos esquemas e Wallace preferiu se vender para outra academia. Até onde eu sabia, o enganaram. Ele perdeu tudo. Estava na pior em uma cidade do Paraná. Não tínhamos como ajudá-lo.
Após a refeição, Bianca foi correndo para o quarto e se trancou dizendo que precisava estudar sua próxima peça. Sabia que na verdade, ela precisava de um tempo para pensar. Eu era a primeira pessoa que ela havia contado seu segredo, mas isso não significava que estava menos confusa. Resolvi respeitar seu tempo.
Conversei com Bernardo. Era triste, pois ele não me reconhecia, não me encarava como irmã. Por mais que fossemos grudados antes de eu ir embora, ele era pequeno demais para se lembrar disso. Era minha culpa, afinal. Trocamos algumas palavras e percebi que nem tudo estava perdido. Tínhamos muitas coisas em comum. Prometi a mim mesma que a minha meta no Rio seria ser uma irmã de verdade para ele, assim como Bianca e João eram.
Joao. Sem vergonha.
– Cadê o João? – perguntei enquanto ajudava Bernardo a arrumar um quebra cabeças. Bete havia ido embora e meu pai precisava deixar alguns materiais novos na academia.
– Vai dormir em um amigo que está na cidade – respondeu Dandara.
Muito tempo. Precisava encontra-lo antes que eu explodisse de ansiedade. Precisava das respostas que Bianca não me daria.
– Posso ir vê-lo?
– Ele chega amanhã, meu amor.
– Me passa o celular dele então.
– Amanhã. Amanhã vocês conversam.
– Não. Hoje. Me dá o telefone dele. Por favor, Dandara.
– Não, K – respondeu Dandara, sem graça – não tem pressa. Você vai ficar bastante tempo.
– Mas...
– Ele perdeu o celular – disse ela por fim.
Como?
– Tá... – ri sem graça. O que estava acontecendo? O que esse moleque estava aprontando? – me passa o celular do amigo dele então.
– Não tenho.
Quase não ouvi a resposta dela. Saiu da sala apressada.
– Eu tenho – disse Bernardo. Ele correu para procurar o número uma agenda do Batman guardada em uma gaveta – o amigo do João joga guitar hero comigo. Ele deixa eu ligar para ele quando está na cidade.
– De onde o amigo dele é?
– De São Paulo. Aqui.
Não havia nome, no lugar estava “Guitar Hero”. Disquei o número no meu celular e esperei. Esperei e nada.
– Difícil esse amigo do João.
Estava quase desligando quando eu ouvi o barulho de alguém atendendo. Parecia estar respondendo um outro telefone por isso não falava comigo diretamente.
– Ele está ocupado. Como ele chama?
– Alô?
Minha garganta fechou. Sentia como se um buraco negro se abrisse aos meus pés. Eu estava em queda livre.
Eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar.
– Alô? Quem é?
– Pedro – respondeu Bernardo sorrindo – João está com um amigo que se chama Pedro.
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