Até ele voltar

4 Capítulo 3 - De novo aqui


Notas iniciais
Oi pessoa, obrigada pelos comentários! Vou responder todos. Estão gostando? Sei que está parado, mas preciso explicar umas coisas antes de começar perina. No próximo capítulo, K e Bi vão conversar e a Bi vai soltar algumas coisas sobre onde anda o Pedro. Tem uma surpresa no próximo capítulo envolvendo a Bi... hahahaha

Flashback Karina

Ouvi os passos de Bete no corredor e me encolhi mais ainda. Ouvi a porta se abrir devagar, a luz acender e senti ela me procurando pelo quarto. Por fim, me encontrou: encolhida no chão ao lado da cama, abraçando meus próprios joelhos, com o rosto escondido nas pernas. Chorando, muito. Bete ficou alguns instantes estática analisando a situação. Suspirou e se agachou na minha frente.

– Eu estava te procurando, meu anjo — sussurrou ela, fazendo carinho em meu cabelo comprido — estou indo para a casa. Combinei com a Sol de ver alguns filmes, você quer ir?

Não respondi. Bete permaneceu em silêncio, sem parar de me fazer carinho nos cabelos. Por fim, levantou-se devagar. Mas para minha surpresa, instantes depois ela se agachou novamente, dessa vez puxando meu rosto e me fazendo encará-la.

– Que pecado ver esses olhinhos azuis cheios de lágrimas, minha menina — disse ela com pena de mim — não chora, não fica assim.

– Eu não quero ouvir, Bete — disse brava, chorando ainda mais — isso é tudo culpa minha mesmo.

– Como assim, menina? — Bete me olhou séria — você é a que menos tem culpa nessa história. Aquelas meninas não merecem sua amizade. Deixa disso.

– Mas me machuca, Bete. É sempre a mesma coisa. Ninguém naquela escola gosta de mim. Só da Bianca.

– Isso não é verdade, você tem seus amigos. Acontece que aquelas meninas... não são do mesmo mundo que você, entende K? Elas não te entendem. Não estou as defendendo, porque fiquei grilada com tudo. Mas não deixa isso te afetar, meu anjo. Você nem gosta delas mesmo, nunca gostou. Pra que isso agora?

Encostei a cabeça na cama pensando no que Bete havia dito no final. Realmente. Alguma coisa estava mudando.

Nunca me importei com o que pensavam sobre mim. Sempre preferi ser sozinha na maior parte do tempo, ter poucos amigos. Não ia para festas de aniversário, não participava de festas de pijama, nada. Na verdade, eu nunca era convidada. Talvez eu fosse estressada, desleixada e bruta demais para andar com o grupo de fêmeas da minha escola. Elas sempre andavam em bandos, dando risadinhas, usando cor de rosa e trocando esmaltes, maquiagens e revistinhas. Eu ficava do outro lado, jogando bola e fazendo competição de arroto com os brothers. Pelo menos até os 11 anos, eu era feliz.

Quando as meninas da escola começaram a trocar as risadas de vergonha por risadas maliciosas, roupa rosa por roupa curta, e revistas por namorados, meus problemas começaram. Comecei a ser vista por elas. Elas me encontraram.

"Porque ela se veste como homem?". "Será que ela é lésbica?". "Não deveríamos andar com ela, ela pode se apaixonar pela gente". "Nunca vi ela com batom". "Ela é muito bruta, não se comporta como uma menina de verdade". Esses eram os comentários que ouvia com mais frequência do que deveria. E eu simplesmente não podia entender, estava confusa. Elas sempre me deixaram em paz, sempre convivemos amigavelmente, qual era o problema agora?

Tive problemas com os meninos também. Mesmo eu sendo provavelmente a menos vaidosa e bonita da escola, as namoradinhas dos meus amigos não me queriam por perto.

Eu não conseguia me encaixar. Não conseguia me sentir confortável em um vestido, não queria beijar na boca, não conseguia paquerar. Fui ficando sozinha.

Bianca era o oposto de mim: linda, arrumada, simpática, popular, desejada. Meninas queriam ser suas amigas, meninos a queriam como namorada. Ninguém nem se lembrava que a menina do colegial era irmã daquela esquisita do nono ano.

Em uma manhã de quarta feira, Alice Romero estava distribuindo convites para sua festa de 15 anos. Seria espetacular e inesquecível, dizia ela. Bianca foi convidada para ser uma das 15 meninas mesmo sendo mais velha que a aniversariante e chegou toda radiante em casa. Não liguei. Mas meu pai sim. Meu pobre e inocente pai não entendia porque eu não havia sido convidada.

"Ela é da sua sala e chamou a todos menos você. Não tem lógica", dizia meu pai inconformado.

"Karina não se esforça pra se enturmar e o resultado é esse", dizia Bianca paciente.

"Cala a boca, Bianca", dizia eu irritada.

"Se sua irmã não vai, você também fica em casa, Bianca", dizia meu pai firme.

"Isso não é justo! Não tenho culpa se a Karina não foi convidada", dizia Bianca, aos prantos.

Soube que Bianca tentou convencer a mimadinha da amiga a me deixar ir. Ela não deixou obviamente, disse algo sobre o traje ser esporte fino e sobre eu não ter classe. Pelo menos eu não saia transando com todo mundo, senhorita Romero. Bianca infelizmente não quis dar o meu recado.

No sábado, dia da festa, teve uma confusão tremenda. Bianca batendo o pé para poder ir, um menino do time de futebol ligando querendo levá-la a tal festa, meu pai explodindo de raiva por vários motivos, eu no meu canto da sala vendo televisão. No meio da briga, Bianca como sempre disse algo que fez meu pai ceder. Ele sempre cedia para ela. Vitoriosa, Bianca bateu palminhas com Bete, ligou pro engomadinho do time de futebol e eu não aguentei. A chamei de mimada, manipuladora, egoísta e mais umas coisas que fizeram Bete até fazer o sinal da cruz. Vi o rubor subir por Bianca e ela vomitou as palavras que eu nunca mais esqueci.

"Ninguém gosta de você, Karina. Você vai ser sozinha o resto da vida. As meninas tem razão, eu merecia uma irmã mais bonita e alegre do que você, sua bruta, esquisita".

Meu estômago revirou e minhas pernas viravam gelatina. Corri para o meu quarto, apaguei a luz e me joguei ali naquela canto, soluçando. Ela tinha razão. E foi assim que Bete me encontrou.

– Não gosto de te ver assim, Karina — disse Bete, enxugando minhas lágrimas — se a Bianca fosse minha filha, eu tinha dado uns tapas nela, é isso que eu faria. — Dei risada. Abracei Bete com toda a minha força — Gosto de você, Karina. Como se fosse minha própria filha. Você e a Bianca. Mas hoje você merece mais ou meu amor.

– Obrigada Bete. Isso significa muito para mim.

Agora, aos 23 anos, entrei novamente em casa. E Bete ainda estava ali me esperando. De braços abertos, com os olhos cheios de lágrimas. A abracei forte, tentando aliviar toda a saudade que eu sentia.

– Menina, você está tão linda — comentou Bete — olha só esse cabelão! Você estão encorpada!

– As pessoas mudam , não é? — disse sorrindo – Meu pai me iludiu dizendo que você tinha preparado tudo que eu mais gostava!

– Não iludi não. Olha só essa mesa!

– Cabelo cresce. Mas a fome nunca diminui.

Tomei um susto tão grande que deixei o bolinho de chocolate cair no chão. Fechei os olhos e respirei fundo antes de encará-la.

Flashback Karina.

Não conseguia dormir. Então, coloquei minha música e passei a folhear algumas revistas com reportagens com lutadores famosos. Por causa do volume, não ouvi quando abriu a porta. Só fui me dar conta de sua presença quando ela parou em minha frente, chorando mais do que eu havia chorado antes.

– Bianca? — disse assustada. Olhei para o relógio que marcava meia noite. Ela havia saído as dez — o que aconteceu, garota? Por que voltou tão cedo?

– Karina, me perdoa! — antes que eu pudesse impedir, Bianca se jogou em cima de mim, em abraço apertado até demais.

– Não começa, larga!

Tentei empurrá-la, mas Bianca usou uma força que eu não sabia que tinha e conseguiu segurar meu rosto e me obrigar olhar para ela.

– É tudo mentira. As pessoas gostam de você, sim. Eu sou a pessoa que mais te ama no mundo, Karina. Você é minha irmã, eu te amo demais — Bianca soluçava. Eu não tinha reação — não consegui ficar lá. Acabei brigando com a estúpida da Alice. Acho que bati nela.

Tive vontade de rir da cara de assustada dela, mas não o fiz. Coloquei os fones novamente, me deitei, joguei a coberta em mim e fechei os olhos.

– Tanto faz — respondi.

– Karina?

– O que é, Bianca?

– Se depender de mim, você nunca vai ficar sozinha.

Naquela noite, fingi estar dormindo quando Bianca deitou-se comigo e me abraçou, ainda chorando.

O clima estava pesado. Respirei fundo e me virei lentamente para encarar minha irmã mais velha.

– Oi, Bianca — comecei com um sorriso falso.

– Bem vinda, Karina — ela foi seca. Me deu as costas — vem comigo, precisamos conversar.

Conversar? Ok, Bianquinha. Vamos conversar.

– Não mata sua irmã — pediu Gael enquanto eu seguia Bianca com uma expressão demoníaca.

– Não vou. Apenas machucar profundamente.

Notas finais
O que acharam? Meu twitter: hereforsantoni