Até ele voltar

5 Capítulo 4 - Como assim, Bianca?


Notas iniciais
Hora de Bianca e Karina!

Dei passos firmes e rápidos até chegar ao meu antigo quarto. Meus olhos percorreram o cômodo rapidamente, constatando que tudo havia mudado. Bianca estava sentada com as pernas cruzadas em sua mais nova cama de casal. Havia um guardaroupas enorme, uma penteadeira toda trabalhada, as paredes tinham desenhos coloridos e ursos estupidamente fofos estavam espalhados em prateleiras.

– Nem parece que tem 25 anos nas costas, hein Bianca – alfinetei enquanto jogava minha mochila em minha antiga cama.

Ela ainda estava ali, assim como o restante das minhas coisas, devidamente espremidas para dar espaço ao quarto da Barbie projetado por Bianca. Reconheci meu aparelho de som, meus CDs, meus livros, meus cadernos... tudo. Bianca ignorou e continuou a me encarar de forma séria.

– O que foi, patricinha? Não vai falar nada? – vi minha irmã mordendo a língua. Ela deveria estar se contendo para não surtar comigo – não morde a língua, Bianca, é perigoso você engasgar com o veneno.

Ela levantou tão rápido que meus pés firmaram com força no chão assim que ela deu alguns passos em minha direção. Eu jurava que ela viria para cima de mim. Mas infelizmente, ela não veio.

– Por que você voltou, Karina? – começou ela, bufando de raiva – foi só o namoradinho se estrepar que resolver voltar pra bagunçar o que já estava um pouco arrumado?

Ela poderia falar qualquer coisa sobre mim. Mas não de Cobra.

A empurrei com tanta força que Bianca foi arremessada de volta a sua cama. O que foi pior, pois Bianca veio que nem um furação para cima de mim. A empurrei de novo e ela levantou de novo.

O que tinha acontecido com Bianca? Já era pra ela estar chorando de dor ou gritando socorro pro meu pai.

– Chega de palhaçada, sua mimada. Não sou obrigada a te escutar fazendo piada com o estado de saúde de uma pessoa. Criança! – praticamente gritei aquilo na cara dela. Como se percebesse o que eu faria a seguir, Bianca se adiantou para a porta e a trancou antes que eu pudesse evitar. A chave foi colocada em cima de armário. Ela alcançaria facilmente, mas eu, com minha altura, jamais.

– Golpe baixo – resmunguei sentando da maneira mais masculina possível em uma cadeira. Pernas abertas, corpo jogado para frente.

– Vamos falar sobre o estado de saúde das pessoas então, Karina – disse Bianca, cruzando os braços na minha frente e permanecendo de pé em um pose de mandona. Ridícula. – você tem ideia do caos que deixou por aqui quando decidiu fugir daquele jeito?

– Esqueceu o motivo, Bianca? – tentei lembrá-la.

– Não quero saber a porra do motivo, sua irresponsável. Papai surtou, ficou doente – arregalei os olhos. Ela percebeu – sim, Karina! Papai pode ser um lutador com uma vida saudável e cheio de energia, mas a idade chega pra todo mundo. Some isso a noites sem dormir, sem comer, sem relaxar com medo de que você estivesse em perigo. E só pra te lembrar, com um filho pequeno de 1 ano e poucos meses. A Dandara praticamente criou o nosso irmão sozinha durante um tempo enquanto nosso pai vasculhava jornais e noticiários atrás de qualquer informação sua.

Engoli seco. Quando eu fugi de casa, aos 18 anos, sabia que complicaria as coisas para minha família. Mesmo tendo meus motivos e minhas ambições, jamais queria ter causado dor ao meu pai, a pessoa que mais amava no mundo. As palavras de Bianca me acertaram em cheio pois, eu admitia: havia sido irresponsável em deixar todos daquele jeito e o pior: ter sumido de circulação por meses. Só fui aparecer novamente aos olhos do meu pai nos jornais, em uma coluna que anunciava que “Karina Duarte, 19 anos, foi presa por posse ilegal de arma de fogo ao lado de Ricardo Cobreloa, 22 anos. Após pagamento de fiança, os jovens foram liberados”. Precisei fugir novamente por algumas semanas, de São Paulo para Belo Horizonte, com medo de meu pai me achar. Agora eu imaginava Dandara sozinha no Rio de Janeiro, cuidando de uma criança pequena enquanto o marido saía em disparada para outro estado atrás da filha delinquente.

– E ele, como está? – perguntei em um sussurro, sem encará-la nos olhos.

Ela entendeu. Mas demorou alguns segundos para desmanchar a carranca e me responder com um sorriso contido.

– Maravilhoso. Está grande, forte.

– Lutador ou artista?

Bianca riu.

– Estudioso. Com todas as coisas que ele poderia ter herdado, nosso menino foi puxar justo a parte nerd do João.

Foi por Bernardo que eu havia voltado. Durante os meses que fiquei sob a asa de Lobão, perdi o contato com todos, os ignorava mesmo que eles me procurassem. Mas havia uma pessoa ali no meio deles que foi impossível ignorar por tanto tempo: Dandara. Com seus olhos compreensivos e o sorriso que iluminava o dia de qualquer pessoa, minha boadrasta havia me feito um pedido em meio às lágrimas: ficar ao lado de Gael enquanto ela dava a luz. Não resisti e cedi. Mais tarde, conversando com ela, Dandara me contou que aquele foi o plano particular dela de me trazer de volta.

E foi o único que funcionou.

Ao ver meu irmão ali, em seus braços, algo dentro de mim mudou. É como se a crosta de gelo ao redor do meu coração tivesse derretido. Depois de tanto tempo, soltei lágrimas de felicidade. No mesmo instante, sabia que eu estava fazendo escolhas erradas erradas. Que aquelas pessoas ali, espremidas em um quarto de hospital (Gael, Dandara, Bianca, João, Bernardo) eram realmente a minha família. Enfrentei Lobão. Voltei para casa.

Mas uma coisa eu aprendi durante a minha vida: a minha felicidade, tem a péssima mania de durar pouco. Muito pouco.

– Falando naquele nerd, cadê ele?

Lembrar de Bernardo me deixava mais leve, me fazia ser outra pessoa. Estava sorrindo para Bianca sem perceber. Mas ela fechou a cara. Sem graça. Abriu a boca várias vezes mas não disse nada.

– João saiu.... com um amigo. – disse Bianca, envergonhada pela situação.

– Ah, entendi... Me fala como ele está então.

Não entendi o por que, mas Bianca ficou ainda mais sem graça. Me deu as costas e começou a andar em círculos, gesticulando de forma esquisita enquanto falava.

– Tá bem, ué. Tá comendo, dormindo.

– Que foi, Bianca? Endoidou? Ele entrou pra faculdade? Ainda vai na analista? Está aceitando melhor o Bernardo? Tem namorada? Quero saber coisas interessantes.

Bianca sentou-se em minha cama. Assustada.

– Faculdade de Sistemas de Informação em uma faculdade pública aqui no Rio, tinha parado com a análise mas vai voltar semana que vem, ama o Bernardo... não tenho nada a ver com a vida amorosa dele, né Karina?

Bianca disse aquilo tão rápido que eu quase não entendi. Precisei de alguns segundos para verificar se eu tinha assimilado tudo.

– E você, com o Duca ainda?

Ela apenas afirmou com a cabeça. Meu pai entrou para deixar minhas malas. Deu sorrisos idênticos para nós duas.

– Espero que vocês se acertem.

Saiu nos deixando ainda mais sem graça. Pobre, Mestre. Nunca aprendia que nós nunca nos entenderíamos. Ficamos em silencio por um longo tempo enquanto eu começava a desarrumar minhas coisas. Bianca me apontou uma parte no armário reservado para mim.

– Vai ficar quanto tempo?

– Um mês.

– E... como está o marginal?

Bati a porta do guarda roupas com raiva.

– Desculpa! – pediu Bianca enquanto se aproximava de mim, respirando fundo para manter o controle – pra mim ele é sim um marginal que te arrastou pra longe da gente...

– ... fui porque eu quis...

– ... e te meteu em um monte de encrenca. Não consigo acreditar que ele ainda se aproveita de você....

– ... porque eu deixo...

– ... aproveita que você é frágil, se aproveitou da sua tristeza e da sua cabeça dura pra te levar pra cama e...

– Bianca. Chega.

– Mas se você gosta, não vai ser eu que vai arranjar mais um motivo pra gente brigar. Espero que ele fique bem, de verdade.

– Mas longe de mim, não é mesmo?

– Uma das minhas missões enquanto você estiver aqui é fazer isso mesmo.

Olhei-a incrédula. Eu era muito otária em achar que poderíamos ter uma conversa sincera, de igual para igual. Bianca sempre daria um jeito de querer se impor sobre mim.

– Estava bom demais para ser verdade. Você tem que arranjar um jeito de se meter na minha vida, sempre! Quando vai aceitar que eu consigo me virar sozinha? Fiquei cinco anos muito bem sem você com esse instinto protetor ridículo. Que só me ferra!

– Ah, muito bem mesmo! Sendo presa, apanhando em aposta, se metendo em briga de torcida, dormindo com marginal!

– Isso não é sua conta, garota!

Estávamos gritando. Logo ouviríamos batidas na porta.

– É da minha conta sim, Karina! Você saiu daqui uma menina inocente, apenas prometendo ir atrás dos seus sonhos. Acabou virando uma perdida, amante de marginal!

– CALA A BOCA BIANCA! O Cobra é meu namorado, não se atreva a insinuar que eu apenas transo com ele. Você não sabe da minha relação com ele. O Cobra me ama.

Bianca riu tão alto que eu senti vontade de arrancar cada fio daquela cabeça. Dar tapa até minha mãe ficar marcada.

– Ama? Ama? Karina, pelo amor de Deus! Você deve ser mais uma pra ele. A fixa, mas não a única.

Ergui o punho. Eu iria acertá-la tão forte que Bianca ficaria uns dias exatamente igual ao Cobra: em coma. Mas nós duas pulamos de susto ao ouvir as batidas na porta.

– BIANCA E KARINA! – era Dandara – parem já vocês duas. Seu pai saiu para buscar o Bernardo no coleguinha. Ele não merece mais sofrimento. Karina, se controle. E Bianca, para de provocar a Karina.

Ouvimos seus passos rápidos e tivemos certeza que ela tinha se afastado.

– Não vou pedir desculpas. Ainda acho que ele é um marginal. E por mais que você seja uma estúpida, vou te provar que você merece alguém melhor.

– Vai me arranjar alguém? Dá ultima vez não deu certo.

– O teatro municipal anda me pagando bem. Você pode até escolher dessa vez.

Bianca disse aquilo firme e ainda me encarando. Por mais incrível que parecesse, gostei do desafio. Ela nunca me desafiava daquele jeito, sempre se esquivava ou dava um jeito de pedir socorro.

– Não se mete mais na minha vida. Eu estou te pedindo.

Deixei as coisas como estavam e decidi sair para conversar com Dandara. Mais algumas trocas de palavras e com certeza começaríamos a brigar de novo. Eu queria evitar mais um confronto. Pelo meu pai. Eu me acertaria com ela quando estivéssemos sozinhas. Estava louca para ver até onde a Bianca do desafio ia.

– Me deixa sair, vai.

Bianca pegou a chave e me entregou. Mas quando eu estava prestes a abri-la, Bianca me puxou com força e me abraçou. Um choro compulsivo fazia seu corpo tremer. Ela me apertava forte, escondendo o rosto no meu pescoço.

– Que drama, Bianca. A gente sempre briga...

– Não conta para ninguém.

– Que brigamos?

– Que eu estou grávida.

Um choque entre nossos corpos me fez soltá-la de repente. Apertei seus ombros e a obriguei olhar para mim. Bianca soluçava, desesperada. Grávida?

– Ninguém sabe?

– Não.

– O Duca precisa saber.

– Não precisa.

– Ele é o pai, sua sonsa... por mais que...

Bianca congelou. Tremeu. Seus olhos me imploravam perdão.

– Como assim, Bianca? Quem então?

– Vai ficar tudo em família, afinal.

Acho que meu queixo atingiu o chão. Comecei a tremer junto com Bianca e só não chorei porque estava assustada demais para isso.

Eu ia matar aquele nerd sem vergonha.

Notas finais
Acabei me empolgando na relação delas e não citei o Pedro mas calmaaaaa que ele chega!!!!! Gostaram da Bianca grávida do João? HAHAHHAHAA