Até ele voltar
2 Capítulo 1 - Preciso partir
Notas iniciais
Acordei assustada quando a enfermeira entrou. Observei-a trocar os curativos e conferir os aparelhos antes de sair. Ela nem me olhava nos olhos mais. Obriguei meu corpo a levantar e senti meu corpo arder em protesto. Com algum esforço, consegui alongar um pouco os braços e os ombros. Respirei fundo, tentei parecer normal.
– Sabe que dia é hoje? — a voz de Roque vinda da porta me fez saltar no mesmo lugar, o que não era novidade, pois cada pequeno barulho naquele silêncio infernal era o suficiente para me fazer ficar em estado de alerta — sabe, Karina?
– Sábado. — respondi ríspida — está achando o que, Roque? Que estou enlouquecendo? Que não sei mais os dias da semana?
Se ainda era possível, eu estava mais insuportável do que de costume. Vi Roque suspirar. Ele era um homem muito alto, negro e de barba clara. Seus olhos sempre me passaram a impressão de alguém que sofrera muito na vida. Devíamos muito a ele, eu e Cobra. Depois que decidimos nos juntar e ganhar os ringues, Roque foi o único treinador de boa carreira que aceitou nos treinar de graça por um tempo. "Sejam campeões e estarei satisfeito" eles nos dizia.
– Hoje é dia 26 de abril — Roque parou uns instantes como se esperasse que eu chegasse a alguma conclusão óbvia. Mas eu não cheguei — o acidente aconteceu na noite do dia 18... de março.
Engoli seco. Céus, fazia tanto tempo assim?
– Nosso campeão tá demorando, né? — disse qualquer coisa estúpida desse tipo e cheguei mais perto da maca, acariciando as mãos de Cobra — mas ele volta. Sei que volta.
Roque se aproximou. Durante alguns segundos, ficamos em silêncio.
– Você poderia vir comigo até a sala de espera? É importante.
Deixei a sala sem contestar. Roque havia feito aquele mesmo pedido mais cedo e eu recusei. Se não fosse realmente importante, ele não repetiria. Me joguei em uma das cadeiras desconfortáveis da sala de espera. Aceitei o copo de água que ele me ofereceu, brincando com a borda do copo plástico.
– E então?
– Seu pai me ligou quarta feira. E sexta feira. E hoje, de manhã — não respondi, continuando a brincar com o copo — falei sobre o estado de Cobra. Disse também que você estava bem... se alimentando... dormindo direito... não gostei muito de mentir, se quer saber.
– Não precisava mentir, Roque. Afinal, não é da conta dele.
– Karina... — começou o treinador, visivelmente cansado de tentar me fazer retomar aqueles laços familiares perdidos — ele está preocupado. Você poderia, por favor, ligar pra ele?
– Conversei com ele já sobre isso — bebi a água de uma vez só para poder destruir o copo plástico em minhas mãos — ele quer vir aqui ou que eu volte... as duas opções estão descartadas. Ele sabe que eu estou bem... na medida do possível. Não precisava ficar ligando... saco.
– Karina — Roque abaixou-se, pegou nas minhas mãos e me olhou diretamente nos olhos — seu pai aceitou seu tempo. Prometeu não ficar te incomodando e cumpriu... mas até eu concordo que não dá mais. Estamos nessa há mais de um mês. Se o Cobra não...
– NÃO SE ATREVA, ROQUE! — berrei. Tentei tiras minhas mãos mas Roque as segurou mais firme, me impedindo de levantar — ele vai melhorar! Vai sair dessa. Não podemos desistir dele!
– Não iremos — ele mantinha-se absurdamente calmo — mas você não pode entregar-se dessa maneira. Cobra pode voltar amanhã, daqui um mês, um ano... ou uma década. Você precisa aceitar isso. Vai ficar dez anos da sua vida em salas de espera de hospital? Você não faz outra coisa Karina.
– Eu quero estar aqui quando ele acordar — lágrimas estúpidas começaram a cair. De novo.
– Se ele... quando ele acordar, vai querer ver uma Karina forte, bem alimentada, descansada. Não uma versão dela que fica chorando pelos cantos, gritando com todo mundo, esquecendo de viver, de se cuidar. Só estou avisando, quando ele acordar, a bronca vai ser daquelas.
Roque riu e foi inevitável rir com ele.
– Seu pai chega amanhã.
Tentei me soltar das mãos de Roque, mas ele as apertou com força. Me machucou. Era essa a maneira que ele tinha de controlar meu gênio, para que eu mesma não me atrapalhasse nos treinos. Era forma dele de dizer que enquanto eu fosse seu treinador, eu devia obediência. O curioso é que com o tempo, acabei prestando obediência mesmo em assuntos pessoais, como agora. Mesmo com vontade de explodir, continuei a encará-lo quieta, esperando uma explicação.
– Chega logo após o almoço. Vai te buscar no apartamento, já passei o endereço. Vou vir aqui todos os dias ver nosso campeão. Estou bem informado, fiz algumas amizades com funcionários. Se alguma coisa mudar no estado dele, pra bem ou pra mal, serei o primeiro a saber. E eu te prometo, Karina, que você vai saber também. Ninguém vai te impedir de voltar correndo se precisar.
– Por quanto tempo preciso ficar no Rio de Janeiro?
– Não falaremos em datas. Apenas vá, veja sua família, seus antigos amigos. Se tudo tiver um saco, pelo menos pegue um solzinho naquelas praias maravilhosas — mordi o lábio inferior, mostrando nervosismo. Ele me conhecia — seu pai disse no mínimo um mês. Sei que você consegue.
Me despedi de Cobra chorando. Odiava ser tão fraca assim, mas eu simplesmente não conseguia me conter.
– Eu volto. E você também.
Na porta do hospital, o táxi já me esperava.
– Karina, olhe para mim — chamou Roque, antes que eu entrasse. Obedeci — não tente fugir ou se esconder. Ficaria decepcionado em saber que você é a mesma criança que chegou pra mim aos 18 anos. Aquela Karina fugiria. Mas você não.
Sorri para ele. Entrei no carro.
Cobra e eu dividíamos um apartamento confortável em um bom bairro de São Paulo, perto da academia de Roque. Ficávamos as manhãs e tardes treinando e a noite ficávamos juntos no nosso canto, vendo filmes, comendo e conversando. Eu era feliz.
Foi difícil arrumar as malas. Tentei separar apenas o essencial, mas a bagagem ficou maior do que eu esperava. Peguei luvas, equipamento de luta. Não usaria nada do meu pai. Usaria aquilo que eu comprei com meu próprio dinheiro. Deixei algumas roupas de Cobra separadas, caso ele precisasse. Dei uma organizada no apartamento. Desliguei tudo. Esvaziei a geladeira e coloquei as coisas em uma sacola para o porteiro. Peguei dinheiro. Naquela noite, resolvi dormir com uma das camisetas dele. Naquela madrugada, decidi levar algumas camisetas dele comigo. E algumas fotos também. Tudo estava pronto para partir.
Menos meu coração.
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