Até ele voltar
3 Capítulo 2 - Voltei, Rio
Notas iniciais
A maldita mala de rodinhas me denunciou. Meu plano era chegar no táxi silenciosamente, sem que ele me visse antes do tempo. Entrar no carro que nem um foguete e responder todas as perguntas olhando pra janela. Assim eu não precisaria encará-lo durante um tempo. Mas ele ouviu o som dessa coisa barulhenta. Agora eu tinha que lidar por alguns instantes com meu pai me olhando daquela forma enquanto eu atravessava a calçada larga. A mala estava pesada, o que atrasou mais ainda meu percurso. O olhar fixo em mim continuava. Sorte minha estar de óculos escuros.
– Filha — começou ele — que saudade.
Não via meu pai desde os 18 anos. Cinco anos se passaram. Senti algo estranho no meu peito quando vi os olhos dele marejarem e depois, como se não fizesse questão de lutar contra aquilo, as lágrimas vieram. Muitas delas. Eu não sabia o que fazer. Meu pai também não, o que é uma droga. Por fim, soltei a mala e abri um pouco os braços. Ele entendeu.
Depois de cinco anos, abracei meu pai novamente. Sei que ele tinha perguntas a fazer, broncas para dar. Mas por alguns minutos ficamos ali, apenas nos abraçando. Eu não sabia o que estava sentindo até meus olhos começarem a me trair. Fui a primeira a me soltar, dei a mala para o táxista e me acomodei no banco traseiro. Meu pai veio logo depois.
Eu podia ouvir a cabeça de Gael funcionando enquanto eu me concentrava em apenas observar as ruas que passavam pela minha janela. Sabia que ali dentro haviam milhares de perguntas a serem feitas e o Mestre tentava organizá-las da melhor maneira possível. Depois de um tempo, o silêncio começou a perturbar. Vi pelo reflexo Gael me encarando.
– Seu cabelo... cresceu bastante.
Ri internamente, pois dentre todas as possibilidades que imaginei, reparar eu meu cabelo nunca passou pela minha cabeça. Mesmo que ele esteja na metade das minhas costas agora.
– Você dizia que atrapalhava nas lutas... cortava todo mês porque ele crescia rápido e... — ele estava começando a se empolgar.
– Eu prendo. Tá de boa.
– Certo — um minuto de silêncio — e o Cobra? Ele...
– Em coma. Tipo, coma mesmo.
– Entendi.
Não falamos mais nada.
Aos 16 anos vi minha vida inteira virar de ponta cabeça. Tudo saiu do lugar. As pessoas mais importantes, de repente, não eram mais as mesmas. Todos me enganaram. Optei por me fechar contra o mundo. Saí de casa, briguei com Bianca, humilhei meu pai, terminei com Pedro. Fingia não ver Dandara, ignorava João, trocava de rua ao ver a Mari, nem dava bom dia ao Jeff. Eu me isolei completamente.
Morei com Nat e fiquei sob a guarda de Lobão durante um ano inteiro. Ou talvez 11 meses ou 13. Nunca parei para contar. Mas sei que foi o tempo suficiente para organizar um pouco minha vida mas não tempo suficiente para Gael me esquecer. "Nunca vou desistir de você" ele me dizia dia após dia. A verdade sobre Lobão veio a tona depois de eu voltar para a casa. Para a minha verdadeira casa. Já estava com Gael há dois meses quando conseguiram desmascará-lo, incluindo paternidade, golpes e processos ilegais. Lobão havia perdido tudo: minha guarda, a academia, os títulos, os alunos, os contratos, os esquemas, a dignidade. Tudo. Até onde eu sabia, ele estava atrás das grades.
Meu coração apertou enquanto aquelas lembranças vinham a tona. Fechei os olhos e me veio a imagem dela: Nat. Não conseguimos salvá-la. Ela estava na cadeia. Agora que eu estava de volta, poderia visitá-la.
O silêncio permaneceu durante todo o caminho, dentro do aeroporto e também durante o voo. Falamos só o necessário. Estava ótimo assim. Ao desembarcarmos no Rio de Janeiro, me senti mal. Fisicamente pelo calor exagerado, emocionalmente pelos motivos óbvios. Não havia ninguém para nos receber e eu suspirei aliviada. Não suportaria ver a babaca da minha irmã, pelo menos não agora.
Pegamos mais um táxi e o caminho era o de sempre. Em 20 minutos, chegamos ao Catete. Era domingo, as ruas estavam vazias. Reconheci a banca da Dona Dalva, a fábrica... aquele restaurante.
– Já faz um tempo não é mesmo? — comentou meu pai, enquanto ele pagava o motorista.
– Tudo parece igual — respondi tirando os óculos — estupidamente igual.
Gael riu.
– Prepare-se para se surpreender. Passou um furacão por esse lugar.
Fiquei intrigada, mas meu orgulho não me deixou perguntar nada. Eu conseguiria as respostas depois, da minha maneira. Respirei fundo e me dirigi até a porta. Assim que minha mãe alcançou a maçaneta, senti a mão pesada de meu pai no meu ombro. Virei a cabeça lentamente e pela primeira vez naquele dia, o encarei nos olhos.
– Bem vinda de volta, filha. Tenho tanta coisa para te falar.... mas eu não sei nem por onde começar. Perdoa seu pai. Eu realmente quero voltar a ser como era antes. Senti muito sua falta, K.
Ele voltou a chorar, encarando os próprios pés. Eu o amava. Mesmo nos meus momentos de mais raiva e rancor, essa era uma das únicas certezas da minha vida: eu amava meu pai. Com todo meu coração.
– Teremos tempo para consertar as coisas — sorri para ele, que retribuiu sem graça — apenas me diga que uma dessas grandes mudanças não envolve a Bete. Ela ainda vai me encher de comida?
– Como ela sempre fez. Você vai se surpreender com a quantidade de coisas que tem nessa casa para você comer.
Sorri de novo enquanto meu pai entrava em casa antes de mim. Engoli seco e respirei fundo sem ele perceber. O que eu encontraria dentro daquela casa?
Estava na hora de começar a encarar o passado.
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