Até depois da Morte!
6 O tormento no calabouço acaba!
A voz urgente, porém de um tom quase inaudível capitou imediatamente a atenção de Aaron.
"Sr. Chamam-lhe no castelo. Parece-me que é de extrema importância vossa presença."
Disse sra. Thérnardier com uma seriedade exclusiva das noticias ruins.
"Sim, mas quem requer minha presença? Disseram o motivo?"
"O motivo não disseram-me, entretanto três guardas reais o aguardam no jardim."
Aaron, aparentando não muito entusiasmo com o chamado, fechou o livro vagarosamente tomando cuidado para que o marcador permanecesse intacto e visível. Levantou-se com um suspiro.
"Já descerei!"
Sra Térnardier assentiu e partiu silenciosamente.
Aaron vestiu o justaucorps que usava sempre e caminhou até a porta, descera velozmente os degraus da escada.
De imediato, avistou os três guardas a esperarem-lhe no jardim, cada um em posição de altivez e dispondo de uma carranca sisuda que Aaron logo pediu para que desarmassem.
"O que há? Por que motivo me olham com estas caras de morte?"
"Sr. encarceramos uma baderneira que causava confusão e um intenso pandemônio nas ruas da cidade. Naturalmente, o Sr. deve ir até o castelo impor uma punição."
"Sim." Disse despreocupadamente enquanto vestia as luvas. " Por que não cumprem direto o que está na lei. Deixem-na sofrer no calabouço."
"Certamente, Sr. Conde, porém esta moça veio de longe, provavelmente de alguma vila ao oeste. É uma boa esgrimista e diz querer ver ou falar com vós."
Aaron franziu o sombrolho com estranhamento.
"Falar comigo? Me conhece, essa moça?"
" Acredito que não, Sr, porém ela insiste em falar convosco."
"Ora, então, leve-me até lá."
Aaron subiu na carruagem com os ânimos começando a agitar-se, não podia esconder o estranhamento que aquela notícia lhe causará.
A carruagem partiu e o conde se colocará a pensar incesantemente enquanto os guardas observavam o movimento das ruelas.
"Apenas sabem isto sobre ela?"
Perguntou, fitando o teto da carruagem com ar analisador.
"Sim, foi o que pudemos observar. Como qualquer patife ela é uma pessoa de maus instintos, nada de muito relevante."
Após essa pronunciação, o silêncio tomou conta do veículo. Aaron parecia incomodado com toda a situação.
Aquele dia era um dos raros em que poderia, finalmente, reduzir a pilha dos incontáveis livros que acumulava.
Para sua satisfação, então, o caminho era curto e logo os quatro chegaram ao local.
Aaron puxou vagarosamente a cortina da pequena janela da carruagem para observar o castelo com uma expressão dura, quase totalmente irritadiça por ter sido tão repentinamente retirado de seus afazeres diários, os quais ele apreciava grandemente.
Os guardas e o conde caminharam uma extensão considerável em silêncio até o castelo. Os jardins estavam, como sempre, impecáveis — e Aaron não pôde deixar de reparar nestes pormenores que apenas poderiam ser constatados por alguém com tamanha paixão pela jardinagem.
Fazia certo tempo que não ia até o castelo tratar de casos como aquele, geralmente tudo era resolvido a distância. Suas ordens eram impostas e nada, além da objeção real, poderia contradize-las.
"Por que estão parados?" perguntou Aaron com um gesto, logo após passar alguns segundos num silêncio inquietante. "Digam-me mais sobre está moça, devo confessar que surpreende-me muito ter uma mulher como ré, entretanto o que mais me intriga é o fato de ela conhecer-me. Qual seu nome?"
"Não sabemos senhor, mas ela, provavelmente, vem de algum destes condados ao oeste, como dissemos inicialmente, pelos seus trajes, deve ser camponesa, de certo."
"O que fez está moça exatamente? Ela estaria duelando, como relataram-me?"
Perguntou, perambulando pelo salão, absorto em pensamentos.
"Sim, na verdade 'duelando' não é exatamente a palavra correta a ser empregada, esta moça travava um embate ultrajoso e sanguinário, acabou ferindo gravemente um ancião, inclusive. Causava confusão e, ainda por cima, assustava e desonrava as mulheres de boa índole."
Este último comentário do guarda fizera o conde esboçar um sorriso incrédulo.
"Desonrando? De que forma?"
"Ora, seus atos não condizem em nada com as atitudes que devem ser tomadas pelas mulheres de respeito. Expor-se desta forma, agir como um homem? Parecem-me muito estranhas estas atitudes."
"Não compartilho das mesmas idéias que vós, felizmente. Para mim, a ousadia demonstrada por esta moça fora um sinônimo de sua coragem. É incomum uma ocorrência como esta nas ruelas parisienses, posso dizer até mesmo extraordinária. Mulheres são colocadas num pedestal, imaculadas, idealizadas como se não fossem também seres humanos totalmente inclinados a erros, extravagâncias, arrependimentos , etc...São obrigadas a assim permanecerem pelo dever intrínseco de cultivar a moral, os princípios e os bons costumes. Devo dizer meu amigo, isto incomoda-me muito. Solte-a!"
"Senhor não existe razão pra que a soltemos. Isto é insensato!"
"Armand, o que me diz de quando lutavamos e nada nos acontecia? Por que então encarcerar uma mulher por lutar? somente por seu sexo? Isto é incoerente! Solte-a e não me importune novamente com este assunto."
Dizendo isto, o conde, resoluto da decisão tomada e sem oferecer tanta relevância ao fato, desceu as escadas, logo sumindo de vista.
*****
O som dos passos firmes que ecoava pelo calabouço alertaram Justine, que pensou esperançosamente sobre a possibilidade de sanar aquele sofrimento.
Havia entendido que então, seus gritos não foram perdidos, não sabia ao certo, mas conseguirá ao menos que aqueles guardas voltassem. Para lhe dar o que comer? Isso parecia bom. A boca seca salivou com anseio, o corpo levantou-se e ela aproximou-se da porta de ferro, empunhando as mãos e batendo com toda a força possível.
"Aquieta-te! Aquieta-te!" ordenou o guarda "Caso contrário, te deixaremos mofar aí! Palavra de honra!"
As portas foram se abrindo, ao passo que os guardas ficavam a postos para qualquer imprevisto. O rosto inexpressivo de Justine apareceu imediatamente.
"Tirem-na!"
"O que há? Não estou mas encarcerada?"
"Não!"
"Como?" perguntou, Franzindo o cenho "Quem tirou-me daqui?"
"Isso não lhe diz respeito!"
"Certamente que sim, meu senhor!" Disse, enquanto os guardas a levavam até as escadarias.
"Tu fazes perguntas demais."
"Onde está conde Byron?"
"Isto não te interessa! Conde Byron nem mesmo a conhece!"
Justine pensou durante alguns breves minutos.
"Sim, bem sei disto. Porém, minha vontade é de inscrever-me nos testes para a guarda real, mais especificamente, a infantaria.
Os risos foram imediatos e com uma pequena dose de puro sarcasmo.
"Como pretendes isto? Acreditas veementemente que conseguirá esta proesa que nem mesmo muitos homens conseguiram? És louca!"
"Ora, o que tem de errado nisto?"
"Tu és fraca! És mulher, não sabes nem mesmo empunhar uma espada com perfeição."
"Quem tu pensas que é pra dizeres tamanhas bobagens? Já me viste à lutar? Pois bem, tu terás uma amostra de meus dons com as espadas muito brevemente."
"O que pretendes dizendo isto?"
Os guardas pararam enquanto Armand fazia um breve sinal com as mãos.
"Que tal uma luta, um duelo! Eu e tu na festa real? Não seria magnífico! Caso tu ganhes, teus méritos irão crescer nas terras francesas, serás até mesmo reconhecido pelo rei, de quem vós tanto careces de reconhecimento, e caso eu ganhe tentarei algo na guarda. Diga-me, o que achas?"
O discurso de Justine alcançou o objetivo, os olhos de Armand ficaram tentados a aceitar aquela proposta. Dez segundos fora o tempo necessário para a resposta.
"Parece-me bastante tentador tudo isso. Esteja lá às 20:00 hrs, a esperarei nos jardins. Para que isto não me prejudique perante o exército, informarei ao rei que será apenas um espetáculo preparado por mim. A majestade aprecia lutas, só preciso arranjar um jeito para que ele permita está, especialmente!"
"Quanta engenhosidade! Espero que tenhas as mesmas habilidades para com a espada, parceiro! Pois não há nada mais imprevisível."
"Ora!" Armand riu com descaso "vocês mulheres são sempre demasiadamente previsíveis!"
O sinal foi dado e Justine voltou a ser levada, sem mais dizer uma só palavra. Porém, seus pensamentos eram os mais calculistas e frios possíveis. Ela tinha certeza, venceria mais essa.
****
Aaron decidiu visitar um amigo que já não via a algum tempo. Recordou-se no meio do caminho o convite feito a três semanas atrás para que o conde lhe concedesse uma visita.
Considerando que nada mais tinha a fazer se não gastar o tempo em meio a seus devaneios literários, resolveu subitamente que nada lhe custaria o diálogo inteligente com uma pessoa de boas opiniões, quem mais poderia ser considerado para este encargo que o amigo?
"Ernest?" Chamou, batendo avidamente a fechadura na porta "Sou eu, seu amigo Byron!"
Passaram-se alguns minutos para que a porta fosse aberta com grande entusiasmo e o amigo de bigode fino e cabelos parcialmente brancos aparecesse com uma expressão de surpresa. Ernest estendeu as mãos a Aaron.
"Então, finalmente, atendestes o meu pedido, pensei que tivesses esquecido!"
"Jamais, amigo! Apenas não pude vir antes por motivos de trabalho, estas semanas passadas me foram de grande exaustão."
"É claro! Entre logo, não conversaremos deste jeito!"
"Tens uma casa bastante agradável!"
"Fico feliz com este comentário! Quando mudei-me para a França, pensei em morar em um lugar como este. Tranqüilo, com uma boa vizinhança..."
"E um jardim bastante exuberante, parabéns!"
Ernest soltou uma risada, sentando-se em uma das poltronas próximas a janela.
"Este jardim é muito belo, é verdade! Porém, te digo sinceramente, meu amigo, que se não fosse por minhas filhas ele não teria metade da beleza que tem. Elas são fascinadas por jardins."
"Interessante, não sabia que suas filhas possuiam gostos tão peculiares."
Pronunciou Aaron, remexendo pensativamente na aba do chapéu.
Vendo que o amigo mostrou interesse pelas preferências das filhas e visando que logo em breve teria obrigatoriamente que casar uma delas, contente Ernest esclareceu detalhadamente os dons e qualidades de cada uma.
"Oh, sim caro amigo! São meninas muito prendadas estas minhas. Anne, a mais velha, possuí uma grande habilidade para o desenho e o bordado, veja aquele quadro, foi ela quem pintou." Disse orgulhoso, mostrando um grande quadro exposto no centro da sala principal pintado a óleo. Uma jovem moça de olhos grandes e vívidos estava retratada, Aaron não podia negar que a artista possuia talento.
"Claire, a filha mais nova possui talento voltado para a música. Toca piano e clarineta desde muito cedo. Conde, meu amigo, sem intenção de exalta-la, mas Claire possui uma voz magnífica."
"Sim, é verdade Sr. Byron! — Disse a esposa de Ernest, descendo as escadas animada. Eu e Ernest cuidamos desde a infância para que elas se tornassem moças prendadas, bem educadas e inteligentes, e posso dizer meu senhor, hoje colhemos resultados satisfatórios com nossas filhas. Elas são damas exemplares. Oh! Mas deixemos de somente falar, trarei elas aqui para conhece-lo! Anne, Claire, desçam aqui, há visita!"
"Não, Sra. Brigitte! Não é necessário!"
Após este pronunciamento, evidentemente a expressão da Sra. Brigitte mudará repentinamente da satisfação para o incômodo, seria um insulto não aceitar conversar com suas filhas, Aaron lembrou-se que esta era a sina de um homem solteiro e rico naquele ambiente.
"Mas sr. conde, não custa nada ao menos conhecer nossas meninas! Eu aposto que não se arrependerá."
Logo, as garotas apareceram no topo da escada, com vestidos de cores suaves que demonstravam delicadeza e simplicidade, provavelmente selecionados para aquelas ocasiões.
As duas possuíam belezas diferentes, mas em igual proporção, eram altas e encorpadas, como a maioria das moças da alta classe francesa. Byron não poderia deixar transparecer o desconforto que sentia naquela situação em respeito ao amigo de longa data. Percebeu os olhares atentos da sra. Brigitte, perspicazes a qualquer demonstração de interesse de sua parte. Porém, se aquela senhora nutria alguma esperança de que ele se tornasse um potencial pretendente para suas filhas, estava muito enganada. Como sabem, esta não era uma das prioridades do conde.
"Esta é Claire e Anne!"
Apresentou sra. Brigitte, com entusiasmo. As duas cumprimentaram com um leve curvar de cabeça e sutil sorriso, enquanto que Byron somente baixou os olhos discretamente.
O silêncio não demorou muito para se tornar constrangedor, até o pronunciamento da Sra. Brigitte.
"Claire, querida! Não quer tocar algo para nós? Talvez stamitz?"
"Oh! Não, querida!" intrometeu-se Sr. Ernest, percebendo que o amigo não estava disposto a permanecer ali por muito tempo. "Acredito que o Sr. Conde deva ouvi-la em outra ocasião, pois agora iremos conversar um pouco."
"Conversar? Conversar sobre trivialidades imagino, o que tem demais em ouvir nossa filha?"
"Ora, Brigitte bem sabes que a muito que não nos falamos, por favor, deixe-nos!"
Disse o marido, saindo junto de Byron para os jardins. Dando uma risada ao afastar-se, pronunciou:
"Não te deixaria encurralado numa situação dessas."
"Agradeço!"
"Sei bem como se sente. Também passei por estes momentos constrangedores em minha juventude, pergunte-me se me sentia confortável?"
"Presumo que não!"
"Exato! Era uma legião de damas, e, obviamente, suas mães ansiando pela vossa união. Papai era o único que entendia-me, dava glórias por isso."
Os dois sorriram.
"Entretanto, minha concepção mudará desde que conheci Brigitte.."
"O quê dela fora tão crucial para uma mudança dessas. Qualidades superficiais?"
Perguntou Aaron sarcasticamente.
"Não, amigo! Era bastante cauteloso quanto a isso na juventude. Mas sim, beleza fora um dos motivos iniciais, porém, após um tempo, depois de a conhecer deverás, pude perceber suas verdadeiras qualidades.."
"Juntamente aos defeitos."
"Sim, mas que ser humano não os possuí?"
"De fato! O considero bastante corajoso por isto."
"Deverias começar a pensar nestas coisas, amigo! Pense nas boas alianças financeiras que isto lhe proporcionará."
"Ora, mas podes estar seguro que penso, embora não me sinta tão feliz com isso. Porém, se caso vier a casar-me com alguém, os maiores benefícios serão dados à noiva. Estou em desvantagem quanto a isso."
"Não totalmente, existem moças da alta aristocracia que desejariam firmar aliança convosco. Há boatos.."
"Nenhuma me agrada verdadeiramente. Penso que devo contentar-me somente com a beleza caso não viva com esta mulher para o resto de minha vida, do contrário, outras qualidades devem ser consideradas, ou melhor, quanto mais qualidades, creio que maior
Será meu interesse. Mas, não digo que prefiro moças prendadas ou coisas do tipo. Tenho tendência a levar em conta qualidades como a independência, por exemplo, ou a inteligência. Estas são minhas considerações já meramente estabelecidas, amigo. Nunca parei para pensar nisto efetivamente."
"Percebo que tuas exigências — ou considerações, como queira — são bastante peculiares. Não será fácil encontrar moças independentes por aqui. Até porque, nenhuma mulher é criada para ser independente, os pais não fazem isso."
"Este é um grande problema, Ernest! Não acha?"
"Talvez, conde! Não creio tanto que hajam mulheres de atitude hoje. Não é tão coerente, não me chame de conservador, por favor! Mas esta é minha opinião."
"Compreendo perfeitamente! Talvez nem todos acostumem-se a um comportamento como esse."
"Sim amigo! Mas voltando ao início, te aconselho a refletir mais sobre sua futura esposa.."
Disse em tom de brincadeira.
"Deixe de brincar com este meu infortúnio! Ainda há muito para pensar. Não gasto meu tempo com tamanhos devaneios."
"Bem sei, não é de sua personalidade. Bom, amigo, sempre que precisar ter uma conversa, já sabe quem deve procurar."
"Sem dúvida, Ernest! Mas espero não tomar vosso tempo novamente tão cedo, Adeus!"
Os dois cumprimentaram-se e a visita se fora.
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