Conde Aaron de Byron era o perfeito exemplo do verdadeiro bon-vivant, filho único de Charlton de Byron, era um grande amigo da família real, que por ele cultivava grande estima, uma afeição quase fraternal. Aaron perdera os pais prematuramente em um episódio fúnebre e aterrador, um acidente que o marcou a memória profundamente. O garoto então, sem pai e mãe, fora criado por uma das governantas de confiança da família, Sra. Thérnadier que o educava com grande paciência e certa rigidez, sempre ao lado do rei e da rainha acostumou-se com a riquesa e ostentação monarquica.

Apesar das regalias, Aaron decidiu que deveria seguir os passos do pai, tornado-se um espadachim tão honroso quanto. Treinava diariamente e incansavelmente todos os dias, além dos deveres didáticos diários, doava uma parte de seu tempo para resgatar os golpes tão famosos de Charlton, treinava com o mesmo que treinara seu pai. Herve, mesmo debilitado, ainda lembrava-se com clareza dos golpes e regras dos duelos.

Aaron continha um amor incondicional — além das espadas — pelo violino, o qual tocava diariamente como fonte de distração e nos dias de ócio escrevia textos para acalmar a alma agitada. Também cultivava outro amor incondicional: mulheres. Esse era o grande motivo pelo qual arranjava tantas brigas. Era um assumido e escancarado admirador do primor feminino e — segundo palavras delas próprias — possuía agradável beleza. Dispunha de grande perseverança quando desejava algo — o que se mostrará, logo, uma característica crucial de sua personalidade ao decorrer deste enredo.
De caráter forte, carisma aguçado e exagerado autoritarismo, conde Aaron tornou-se regente da infantaria do reino, ganhando uma congratulação real exatamente aos vinte e um anos de idade, regendo assim a mesma posição do pai quando vivo.

Desta forma, o conde, tendo como prioridade outras ocupações, deixará de se empenhar tão intensamente nas lutas de espadas das ruas parisienses — as quais praticava desde os quinze anos ganhando a maioria — e passou a dedicar-se quase que inteiramente ao exército real, tornara-se mais reservado, passando horas a fio à escrever excessivamente e a se esbaldar em orgias com prostitutas, junto de outras importantes personalidades reais. Era absolutamente normal para ele a arte da conquista, já que nunca havia encontrado uma mulher que lhe repreende-se ou lhe ignora-se, porém era totalmente contrário a ideias românticas. Desacreditava que fosse capaz de amar um dia. Adepto da filosofia platônica, possuía um pensamento particular e um tanto contrário sobre seus sentimentos.
A personalidade forte o tornara respeitável por todos, mesmo sendo tão jovem. Mantinha opinião formada sobre a maioria dos assuntos e não dispensava um diálogo verdadeiramente relevante.

Por fim, um casmurro imutável, por assim descrevê-lo em breves palavras.

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Neste dia, a atmosfera sempre aconchegante de Paris, encontrava-se especialmente agitada. Uma festividade na realeza movimentava o ambiente aristocrata do país, de maneira oposta a população que, oprimida, repudiava os eventos reais fartos e exagerados.
Especulava-se a possível solenidade para o aniversário do rei dali a uma semana, nada obstante, embora estando o dia consideravelmente longe, os festejos já eram estimados fervorosamente, principalmente entre as damas, condessas e duquesas que, de imediato, mandavam seus modelos de vestidos para serem confecionados pela mais refinada alfaiataria da França.

O jovem Aaron, todavia, indiferente à todo esse rebu repentino, mantinha-se pensativo e absorto numa serenidade incomum para seu gênio.

Descansava, sentado em uma das poltronas do quarto, reflentindo profundamente sobre coisas indisvendáveis, tragava o charuto que à pouco havia comprado, observando a imensidão do Jardim, admirando a beleza já corriqueira da cidade. Morava ainda com a sra. Thernadier, pela qual tinha imenso afeto, esta, a propósito tratava-lhe como um filho, sempre alertando-o sobre os perigos de viver uma vida tão só. Aaron, entretanto, ria e achava-se inatingível desses erros que apenas os outros fracos e meros cometem.

"Senhor?"
Chamou-lhe sra. Thérnadier, receosa de interromper-lhe os pensamentos. "Uma visita, insistente, espera-lhe lá embaixo."
"Avisei-lhe que não desejo receber visitas hoje." Disse, sem desviar os olhos vividos do Jardim. "Dispense!"
"Sim, tentei dispensa-la, entretanto, ela é insistente demais, deseja vê-lo de qualquer forma."
O conde desviou o olhar, dissolvendo seus devaneios em instantes, encarando-a furioso e com um gesto esmagando o charuto em um pequeno pratinho.
"Mas quem quer interromper-me? Será uma deusa para ter todas as vontades realizadas desta forma?"
Indagou ironicamente, levantando-se abruptamente. O cenho franzido e a pele vermelha deixava claro o seu descontentamento em ser interrompido de forma tão indelicada. "Quem é a criatura?"
"Milady Madeleine." Disse Thérnadier, olhando de relance para a moça no andar abaixo. "Está muito bela, como sempre!"
"Ora, mas o que quer desta vez?"
"Sr, sabe muito bem o que quer Milady com vós."
Proferiu sra. Thérnadier, dirigindo um olhar amoroso, quase maternal ao conde. "Melhor recompor-se!"
"Não é necessário. Esta visita não me excita nem um pouco os ânimos."
"Tem certeza? Milady é uma mulher muito bela, delicada, educada...enfim, uma dama perfeita. Certamente, os dois formariam um par divino."
Aaron soltou um riso de desprezo à governanta, fazendo pouco caso de suas insinuações.
"Vocês mulheres não cansam de arranjar casais repletos de estereótipos que correspondam aos seus anseios? Estão sempre dispostas a juntar duas pessoas, mesmo que estas nada tenham umas com as outras! Arranjando casamentos, alianças...ora, isso me dá nos nervos!"
"Sem generalizar senhor, para mim a união de duas pessoas é sinônimo de regozijo. Principalmente a União de duas pessoas pelas quais tenho tanta afeição, e concordamos que milady à muito tenta chamar vossa atenção, traz-lhe presentes e está sempre disposta a ouvi-lo. Por que não baixa essa guarda inabalável e se entrega de vez à isto. Faria-lhe tão bem ter uma mulher, iria retirar-lhe da mente esses pensamentos contrários aos sentimentos, que sinceramente Sr, parece-me um ponto de vista tão extremista e maléfico que nem gosto de pensar."
"Ah, sra. Thérnadier, sempre fazendo-me rir com estes pensamentos idealistas demais. Minhas opiniões são bastante particulares e um tanto extremistas, é verdade! Porém, observo a realidade como a única concepção verossímil do mundo. Muitas vezes a ideologia de um universo utópico distorce o pensamento e negligência a análise, causando assim sofrimento nos que dela são adeptos. Posso dizer que uma vez apenas amei uma mulher, só que esta se foi." Houve um breve momento de silêncio entre os dois e uma expressão sombria pareceu tomar conta rapidamente do rosto de Aaron. "Não sinto nada parecido por nenhuma outra mulher desde este dia."
"Refere-se a tua mãe?"
"Sim, sim! Este era um amor que, posso dizer com convicção, acreditava, entrementes, hoje, mulher nenhuma toma meu coração. Sou um homem movido por paixões, algumas avassaladoras, outras amenas, porém, são paixões, não amores. Agora, deixe-me ir Thérnadier, já que fizestes questão de tirar-me o sossego!"

O conde desceu as escadas vagarosamente, determinado a não relembrar a conversa a pouco tida com a governanta.
Milady Madeleine era filha única de duque Louis e duquesa Adele da França, tendo como parente o arquiduque e arquiduquesa da Áustria, possuindo assim muitos dotes financeiros.

Sua beleza estonteante chamava a atenção até mesmo da pessoa mais distraída.
Tinha vinte e dois anos, loura, de tez bastante branca, compridos cabelos lisos que se derramavam sobre os ombros, mas naquele momento encontravam-se presos num penteado típico das damas da época, o que realçava ainda mais o rosto oval de traços finos.
Trajava um vestido azul que contrastava com seus olhos e evidenciava o corpo voluptuoso. Estava parada com uma aparência distante a olhar pela imensa janela como uma perfeita pintura.

"Gostou do Jardim?" Perguntou-lhe o conde enquanto descia as escadas. Ao vê-lo os olhos de milady tornaram-se inegavelmente deslumbrados.
"Ah! Sim, adorei! Realmente está muito belo. Sempre soube de tua queda por botânica e ornamentos, porém, não fazia idéia de ser tão refinado neste aspecto. Assim como tudo o que se dispõe a fazer."
"Agradeço, milady!" Disse ele, beijando-lhe a mão respeitosamente. "Contudo, considero este meu ofício apenas uma distração para a mente."
"Sim, como já era de se imaginar de um homem com tantos talentos."
"Todo o homem possui talentos, milady! Entretanto, alguns os exercem com mais frequência que outros. A propósito, a que devo a honra desta visita?"
"Ora, estava preocupada convosco. Estais sempre no Castelo junto do rei, que estranhei a tua ausência e decidi vir ver o que te acontecera."
"Um homem não pode ter a liberdade de uma vez apenas isolar-se do mundo como forma de descanso para a mente?"
"Oh! Perdão, não imaginei que quisesse ficar sozinho, geralmente és tão comunicativo e necessita tanto de amigos..."
"Então não me conheces verdadeiramente srta. Madeleine."
Interrompeu com certo tom de rispidez na voz.
Olhando-a de perto, era ainda mais bela. Os grandes olhos a fitarem ansiosos a feição de Byron. Era quase impossível não ceder perante tão doce encanto.
"Perdoe-me, creio que fui rude demais com a srta."
Disse, relaxando um pouco a postura altaneira que mantinha. "Queres ver as flores?"
"Não, Não quero tomar vosso tempo, conde! Creio que já é hora de partir!"
As palavras pronunciadas por milady de nada condiziam com sua verdadeira intenção. Os olhos, quase pedintes, reluziram perante o convite.
"Ora, não me negues este pedido, venha! Quero mostrar-lhe as flores que cultivo a pouco tempo. Aquelas que davam-me certo trabalho inicialmente, agora já estão bastante vistosas, para minha alegria. Quero mostrar-lhe os lírios. Gosta de lírios?"
Milady apenas confirmou com um leve movimento de cabeça, as bochechas tornando-se cada vez mais rubras, o conde riu deste ato inconscientemente. "Já era de se imaginar. Apesar de serem um tanto exigentes quanto ao cultivo, são flores belíssimas."
Disse, como se um entusiasmo momentâneo o envolve-se.
"Ah, é verdade Sr!" Afirmou milady, enlaçando seu braço no do conde delicadamente e com certo receio de que o outro se esquivasse, tomando cuidado para que não lhe reparasse fazendo tal coisa. Entretanto, Aaron permaneceu com a mesma aparência distante, não cogitou afastar-se nenhum momento, o que acalmou milady. "Lembro-me de quando meu pai cultivava lírios quando pequena. Para mim parecia a mais bela flor do mundo. Claro, com exceção das rosas."
"Sim, as rosas sempre são a preferência da maioria. Mas, em minha opinião, existem outras de igual ou maior beleza, como as lavandas-francesas, por exemplo. Gosto especialmente destas."
"Exatamente, sem contar que exalam uma fragrância bastante agradável."
Acrescentou Madeleine, tentando manter o diálogo vivo. Não havia nada pior para ela que perder o assunto com Byron, até porque este nada se esforçava para manter uma conversa.
Os dois adentraram o Jardim a passos lentos e ociosos. Os olhos de Aaron demoravam-se na imensidão abundante de flores a sua frente. Lírios, gérberas, lavandas, rosas, narcisos e mais inúmeras espécies estavam dispostas separadamente em uma área a se perder de vista.
"É impossível não se admirar com tamanha beleza, por mais que esta cena já me seja tão familiar, ainda sinto-me como se estivesse num lugar incomum. Imagino o quanto deve amar este jardim."
"Aprecio com grande alegria este lugar. Fora a herança mais significante de meus pais para mim."
"Ah, posso ver em seus olhos o quanto venera tudo isso." Disse, fazendo uma pausa para refletir sobre a próxima indagação. "Sente falta de teus pais, não?"
Aaron não demonstrou qualquer tipo de mudança em sua fronte, permanecendo circunspecto desde a chegada ao jardim.
"Srta. Madeleine, não me sinto confortável em falar sobre isso neste momento."
"Entendo, rogo para que esqueça desta indelicada pergunta que fiz. O que disse sobre os lírios no início? São mesmo difíceis de cultivar?"
"Em parte, sim! Por exemplo, se permanecerem por tempo contínuo em baixo da sombra, irão tentar a todo custo alcançar o sol e entortar. O melhor é que eles possam receber luz solar o dia todo." Explicava apontando vez ou outra para um ou dois lírios próximos a eles. "Mas, em compensação agregam maior beleza a qualquer ambiente."
"Sem dúvida! Essas cores todas contrastam entre si, uma verdadeira obra de arte. Foi um excelente presente do Sr e Sra Byron. Pretende deixar este lugar de herança para seus filhos?"
Perguntou, forçando um tom de despreocupação na voz. Porém, o conde imaginava que alguma pergunta daquele tipo surgiria, as conversas com as mulheres sempre tomavam esse rumo. Sorrindo, respondeu:
"Srta. Não me é agradável esta idéia, não pretendo ter filhos."
"Oh! Mas conde, filhos são presentes divinos. Estais a blasfemar contra Deus dizendo tais coisas. Irá mudar de opinião quando encontrar uma esposa..."
Este pareceu ser o estopim para a explosão de raiva no rosto de Byron, que rapidamente desenlaçou os braços dele e de Madeleine, que espantada, permaneceu estática perante tamanha brutalidade.
"Mas o que há? Por que a todo momento perturbam-me com este assunto? Não desejo constituir família, nem nada. Mais explícito que isso, seria impossível!"
"Pretendes manter esta inflexibilidade por quanto tempo mais?" Perguntou-lhe milady indignando-se com suas atitudes. "Me vê como um estorvo em tua vida, posso apostar! A única coisa que tenho a dizer é que sinto pena de vós, pois não sabes desfrutar do amor. Isso, Sr. Conde, não é nenhuma doença!" Disse, enquanto Aaron desviava o olhar como criança sendo repreendida.
"Sim, sim! Sei que amar não é uma doença, porém, por Deus, não me é agradável pensar nessas possibilidades, pois ainda sou jovem e devo desfrutar do melhor que me oferece a vida. Ao contrário de vós, mulheres, que nada aproveitam apenas para juntarem-se à homens que muitas vezes nem mesmo oferecem-lhes a devida atenção."
"O que estais a dizer? Que nós mulheres somos bobas por desejarmos o matrimônio?" Madeleine riu entusiasmada."Então diga-me, o que será de ti quando toda essa juventude passar? Quem te acolherá?"
"Não paro para pensar nessas trivialidades, pois, isso ainda esta deverás distante de acontecer."
"Oh! Deixe então para pensar em tamanhas 'trivialidades' quando tiveres a penar, sem ninguém! Adeus, partirei, pois não suportarei ouvir mais tamanhas besteiras!"
Afastou-se milady, disposta a não destinar sequer um olhar de compreensão ao rapaz, que, petulante decidiu não dar importância ao fato ocorrido, embora certamente, as palavras de milady tenham sido absorvidas por sua inconsciência.
Aaron caminhou celeramente de volta ao château, passando com uma feição arrogante no rosto próximo a sra. Thérnadier, nada disse para Justificar tamanha rudeza, essa por sua vez nada perguntou, apenas observou-o trancar-se na biblioteca, enquanto o som do baque violento da porta ecoava pelo salão. Poderia apostar que este no momento abria uma garrafa de vinho e preparava-se para tragar um charuto. Aaron jogou-se na poltrona de couro que jazia bem no centro da sala. Colocou-se a fitar as estantes repletas de livros, enquanto tentava livrar-se das reflexões as quais, ultimamente, vinha sendo obrigado a fazer.
Sem gabar-se, sabia que haviam várias pretendentes que desejavam ardentemente juntar-se a ele. Entretanto, nenhuma o parecia realmente provável.
Milady talvez fosse uma ótima escolha, possuía atributos físicos e intelectuais invejáveis para qualquer dama, sem contar que detinha vários dotes financeiros -O que serviria imediatamente de pretexto para qualquer outro em seu lugar, visto que o casamento baseia-se quase que unanimemente em interesses — Porém, Aaron nada sentia por milady. Não nutria desejo algum em permanecer ao lado desta durante anos a fio, conde Byron nunca fazia nada que consequentemente o desagradasse. Ser obrigado a esforçar-se para que conseguisse um dia amá-la? Não! Pouparia seus neurônios deste esforço. Preferia que, se um dia acontecesse algo do tipo, que fosse muito espontâneo, no mínimo.
As outras mulheres que conhecia eram na maioria meretrizes e algumas moças de família aristocrata. Nenhuma aguçava realmente sua atenção — digo, atenção não carnal. Poderia ter havido paixões repentinas, mas nada disso fora crescente, muito ao contrário, Aaron envolvia-se superficialmente com mulheres diversas, muitas vezes não dando espaço para outros encontros, pois sentia-se sufocado e pressionado pela sociedade conservadora da época. Criou certa repulsa pelas uniões arranjadas e casamentos de fachada, o que era bem comum.

Devaneios passaram-se e o conde, absorto, resolveu livrar-se daquelas indagações que mais obscureciam que aclaravam suas decisões. Escolheu um livro e permitiu-se desanuviar a mente e concentrar-se inteiramente nas páginas.

Notas finais
Oi? (Gostaria de esclarecer que esta história também apresenta críticas a sociedade da época.) Se você gostou, favorite! ************