Até depois da Morte!

5 A confusão nas ruas de Paris.


Houve uma parada súbita de afazeres em uma rua específica de Paris, as atenções voltavam-se especialmente a um lugar na entrada da cidade.
Uma garota montada sob um cavalo, daqueles característicos dos camponeses, galopava tranquilamente, observando tudo a seu redor com um olhar arrogante atípico das outras moças.
Justine, imediatamente ao por a faceta no lugar, foi alvo de um falatório intenso, que começou logo pelo fato de ser mulher. "Desleixada!" Exprimiu sra. Anabelle, uma nata mexeriqueira impiedosa que tratava tudo o que era anormal uma fronta aos costumes. "Indelicada" taxaram-na outros que nada mais tinham a fazer que reparar nos detalhes da visitante. Entretanto, para desapontamento geral, Justine nada se importava e nem dava valor aos comentários desdenhosos sobre seus trejeitos.
Pelo contrário, a face era tomada por uma seriedade profunda e inflexível, enquanto fitava cada um inquisitivamente.
Não precisava responder aos bisbilhoteiros, pois somente o olhar que lhes dirigia já era suficiente para fazê-los temer.
"Mas olhem, moços, reparem nisto!" Gritou alguém em algum lugar à esquerda da moça. "Mas não parece uma bonequinha neste cavalo? Desajeitada deste jeito..."
Riu intensamente o homem embebedado. Justine segurou com grande força as rédeas e virou rapidamente o cavalo com um olhar de ódio visceral.
"Quem disse isto?"
Perguntou, franzindo o cenho.
"Eu!" Confessou o velho, levantando as duas mãos e sacudindo freneticamente como um louco. "Eu disse!"
"Ora!" Começou a moça, abrindo os lábios em um sorriso maroto. "Se dizes isso com tanta propriedade, homem, é por que então já deves ter muita intimidade com os trejeitos delicados das bonecas. Deves ter brincado muito disso para saber identificar tão bem uma."
As gargalhadas dos que observavam foram imediatas, o que fez o velho se arrepender parcialmente da brincadeira, mas ele que também mantinha um espírito raivoso, levantou-se agilmente, derrubando a mesa e quebrando as garrafas cheias de cerveja.
"O que insinuas?" Berrou, com uma das mãos posicionadas no cinturão da calça, onde repousava uma espada sedenta para ser usada.
"Parece que teu cérebro de bêbado te impede de identificar um sarcasmo quando há um." Proferiu Justine, com olhar de sutil desdém e descaso. "Pense o que quiser!" Disse, retirando-se despreocupada.
"Mas o que é isso? Acredita realmente que me insultará desta forma e passará em branco? Nada disso! Volte e desça deste cavalo, lute comigo sua covarde!"
Isto fora o bastante para arrancar a estabilidade da alma da moça. Justine meneou a cabeça, bastante satisfeita em poder esfregar no chão aquele rosto vermelho e enrugado. Desceu do cavalo pouco importando-se com o monte de gente à observa-la atentamente.
Mulheres pararam de executar suas tarefas, padeiros pousaram as massas nas mesas e dirigiram-se até as janelinhas, ferreiros e até mesmo algumas crianças deixaram a brincadeira de lado para testemunhar o fato. Justine prendeu rapidamente o cavalo em um pequenino toco próximo a eles e depois de dar alguns tapinhas em sua crina, virou-se retirando do cinto a espada.
"Venha, meu amigo! Veja como a população anseia por sangue, veja como nos dirigem tamanha atenção!" Articulou ironicamente, dirigindo um gesto de reverência ao povo. "Obrigada!"
"Ora, pare de falar como um papagaio e mostre pelo menos que sabe morrer!"
Calaram-se todos e então iniciou-se a luta. No começo parecendo quase sem entusiasmo, porém depois de alguns minutos com o calor da fúria tomando os corpos dos adversários, os golpes tornaram-se bem mais agressivos, com Justine sofrendo dois não tão profundos cortes no braço esquerdo, enquanto o velho levava vários por todo o corpo. A embriaguez logo mostrou-se uma imensa desvantagem. Não fora preciso muito tempo para Justine cingir-lhe a espada e perfurar-lhe parcialmente a barriga, tomando cuidado para não ultrapassar muitas barreiras de pele, retirou-a vagarosamente enquanto o velho caía cambaleante deixando tilintar a espada no chão e agarrando a barriga, quase sem expressão.
"Seu demônio!"
Exclamou, enquanto Justine guardava a espada e outras pessoas chegavam para socorrer o velho.
"Isso é injustiça! Lutas-te com um homem ébrio, claro que ganharia! Qualquer um ganharia!"
Disse-lhe um rapaz, dirigindo-se a ela com um misto de desdém e revolta nos olhos.
"Eu não o matei, mancebo! Este golpe não o matará se socorrerem-lhe rapidamente."
"Não me matará? Estou sentindo uma dor imensa aqui e estais a dizer que não morrerei? Oh, sua..."
"Sua encrenqueira de uma figa!"
Gritou a mulher de, aparentemente setenta anos, alarmada jogando-se ao solo com todo o vigor para socorrer quem, provavelmente, seria seu marido. "Ah! Cale-se! Este homem é que é um patife, azul de tão bêbado."
Vociferou Justine exasperada, enquanto a massa de pessoas aglomeravam-se mais e mais a seu redor. Quando Justine preparava-se para sacar novamente a espada.
"Abram espaço, abram!" Ordenou repentinamente uma voz em meio a multidão frenética. Logo, guardas reais estavam altivamente dispostos, observando o estrago feito pelos dois inconsequentes. "Voltem aos seus afazeres!" Disse o mais experiente deles, dirigindo-se a população, que indignada rogava pragas à Justine entre outros maldizeres. Ela, entretanto, permanecia calada somente a observar as atitudes dos guardas.
"Levem ele!"
Ordenou, e o velho sangrando, fora colocado sob uma maca simples e levado por dois dos mais jovens subordinados.
"Ah, garota! Não se esqueça que irei voltar, ouviu?"
Gritava irritantemente, até desaparecer por completo. Justine esperava com paciência as ordens a serem dadas.
"Tu, serás levada para o calabouço por perturbar a ordem pública..."
"Deixe-me falar com conde Byron!"
Interrompeu Justine, tão autoritária quanto os próprios.
"O que?"
Perguntou, rindo o guarda. A jovem não transpareceu desapontamento, muito ao contrário, repetiu mais uma vez as mesmas palavras.
"Eu disse: deixe-me falar com conde Byron!"
"Malditos camponeses desgraçados! Acreditam qe podem ter seus desejos atendidos pela aristocracia, quando, em verdade, para nada servem além de provocar algazarra! Agarrem-na!"
Ordenou. Porém o distraído guarda, habituado ao sempre obediente povo, não atentou-se à moça que, aproveitando os olhares despreocupados dos homens, sacou a espada com tamanha rapidez que não poderia ser reparada com exatidão nem mesmo pelo mais astuto dos homens. "Facilite as coisas, fidalgo! Apenas desejo trocar umas palavrinhas com o Sr. Conde, nada mais que isso."
"Ora, como ousas apontar esta arma para minha garganta?" Gritou o guarda com os olhos esbugalhados e a coragem transformando-se covardemente no suor que escorria-lhe pela face e traçava um caminho por entre a poeira do pescoço. Dois dos outros homens imediatamente agarraram os braços de Justine que, mesmo esforçando-se ao máximo para conseguir desvencilhar-se não obteve êxito. Entretanto, para a vergonha dos indivíduos ali presentes foram necessários todos para mantê-lá quieta — parcialmente quieta.
"Joguem esta energúmena na charrete!" Disse, apontando decididamente para a velha e suja charrete onde muitos assassinos e criminosos de alta periculosidade também haviam sido jogados. "Tu mereces ficar no mesmo lugar onde ficam os ratos! Reze e rogue para que Deus tenha piedade de ti e que conde Byron não ordene tua morte!"
"Não preciso da tua compaixão, meu caro, esteja certo disso!"
Gritou, enquanto era arremessada sem piedade no chão do veículo. "Guardem ao menos meu cavalo! Levem meu cavalo!" Constatando que suas súplicas não trariam resultado algum — e também por uma questão de orgulho, pois não há nada mais depreciativo que implorar — Justine desesperada, reparou um garotinho serelepe que a muito tempo à observava.

Os olhos grandes e curiosos arregalavam-se com as cenas de ação presenciadas. Possuía uma boina cobrindo os finos e louros cabelos e roupas encardidas próprias dos garotos arteiros, o rosto redondo e a pele fina, rubra pelo esforço das correrias e brincadeiras.
"Garoto! Olhe aquele cavalo!" Disse Justine, indicando com o dedo o tranquilo alazão. "Quando voltar, te dou seis pães e um ragoût se cuidar dele para mim!"
O rapazinho pensou por um momento até perceber que a fome era tão imensa que nenhuma possibilidade de sana-la deveria ser recusada.
"Sim, srta!"
Disse, correndo até o cavalo.
"Diga que é em nome de um fidalgo!"
"Ora, cale-se aí atrás sua tagarela! Caso contrário seremos obrigados a te dar uma punição aqui mesmo!"
Vociferou o mais velho dos guardas. A charrete já movimentava-se bastante, Justine encolheu-se nos fundos do veículo, sem retirar os olhos nenhum momento do alazão e seu mais novo cuidador, até que sua vista não mais pôde focar-se neles e emburrada, foi obrigada a virar-se para as madeiras que compunham o compartimento onde se encontrava, o que não fora uma atitude muito feliz de sua parte.
As sujidades incrustradas nos vãos das tábuas eram uma mistura de sebo com fios de cabelo e outras sortes de imundices, o que dava a imaginar quantas cenas calamitosas já haviam se passado ali. Ainda vividos no chão, estavam os vestígios de sangue, provavelmente derramado pelos homens, bandidos espancados pelas pesadas mãos da monarquia, bandidos que muitas vezes matavam pela fome e pela miséria, não pelo desejo inconsequente do ser humano.

O ódio, na maioria, provém do mal primordial da injustiça e recebe toda a punição final.

***
E o tempo parecia eterno.

Nada era mais tedioso para a agitada Justine que permanecer quieta, apenas a observar as florestas parisienses, que passavam vagarosamente, enquanto sacolejava com os buracos e vez ou outra era levantada por completo quando as rodas topavam em pedras no caminho. A carroça, naturalmente, significava uma atração extra aos olhos dos moradores, "homens de bem" que regozijavam-se em poder inflar o peito e dizer ao vizinho: "Veja, que feio! Deus, sem dúvida, não à perdoará pelo mal cometido!" A maioria apontava e comentava, especulando em baixo tom as possíveis punições da lei para a moça encarcerada. Esta, entretanto, resolvia que importar-se com esses fatos irrelevantes retiraria todo o foco de sua verdadeira missão. Fechou os olhos preguiçosamente, enquanto os raios de sol que entravam pelas frestas ardiam levemente em sua pele, até dormir por completo.

***

Os olhos arregalaram-se exageradamente. Os engasgos misturavam-se as tosses desesperadas e a água invadindo as narinas com violência e os olhos ardendo pela queimação repentina. Os fios de cabelo colados no rosto de Justine embaçavam sua visão. Só era possível para ela avistar um homem alto ao lado da carroça à observa-la impecavelmente limpo e engomado, denunciava sua serventia ao rei.
O homem, que mais assemelhava-se a um boneco de tão impávido em suas feições, tremeu os lábios em uma ordem lacônica.
"Levanta-te!"
Justine parou por um instante, recuperando-se da água jogada violentamente na face. Relanceou a vista pelas redondezas e constatou estar em frente ao castelo. Um lampejo de grande impressão surgiu em sua feição ao reparar a grandeza daquela arquitetura.
Era repleto de janelas e mais janelas, dispondo de colunas minuciosamente lapidadas e um jardim, certamente, a pouco podado. Lembrou-se então da simples casa na Vila de Rochelle, caberia de certo, em apenas um daqueles quartos. Aumentou, portanto, — por esta simples constatação de pura desigualdade — sua sede de vingança.
Justine apoiou-se nos cotovelos e fitou o homem que lhe dirigia também um olhar de nojo.
"Onde está este tal de conde Byron?"
Perguntou, indiferente a qualquer tipo de obrigação ou demonstração de submissão.
"Coloca-te no teu lugar e não fazes mais perguntas."
Disse o guarda, chamando com um gesto dois homens para leva-la dali direto para o calabouço. Justine afastou-se como uma selvagem e empurrou os dois com tamanha força que, se não fosse pelo peso dos cavalos para balancear, a charrete teria desequilibrado-se e pararia no chão.
"Chega! Queres que te batamos? Aquieta-te e não faças mais isso, caso contrário, te açoitaremos!"
Justine cumpriu a ordem, mesmo com uma chama de fúria subindo-lhe pela cabeça. Ataram-na os braços nas costas amarrando fortemente com uma corda grossa e pesada. Levaram-na silenciosamente os dois guardas até a entrada, passando por entre o jardim e subindo as escadarias com pressa tamanha mas que Justine fora capaz de acompanhar sem tropeçar e sem atrapalhar-se nenhum momento sequer, diferentemente de outras damas em seu lugar.
Passaram pela sala Central, com um teto a quase perder-se de vista, adentraram salas e mais salas vazias e finalmente — ou tão prematuramente — juntaram-se a outros guardas, pois receavam que a menina astuta tivesse alguma idéia mirabolante de fuga no meio do caminho.
Desceram vários lances de escada e a medida que aproximavam-se, a penumbra os cobria a visão. Fora necessário duas velas para iluminar o caminho. Justine não demonstrava medo ou aflição, apenas observava e direcionava atenção a tudo.

Logo, chegaram ao subsolo.

Fedor, era o que o caracterizava em maioria e outros fatos desagradáveis. Como, por exemplo a poeira que cobria grande parte da área de cada objeto e cada centímetro de chão e os ratos e baratas que vez ou outra atravessavam o caminho correndo celeramente. Um dos guardas abriu uma das celas com a agilidade de um veterano e os outros enfiaram, empurrando sem pudor, a moça para dentro.
"Permaneça aí até as próximas ordens!"
"Me dê ao menos algo para molhar a boca, pois ficar sem comida já acostumei-me!"
"Ah! Agora súplica?"
"Creio que tenhas me entendido mal, este fora um pedido, não uma súplica, pois para haver súplica é preciso haver falta de orgulho e posso te dizer que disto não careço!"
"Ora, então continuas com teu orgulho e morras de sede!"
O guarda dirigiu um quase sem ânimo sorriso à Justine e sem nada mais dizer, todos saíram, deixando-a ali, presa.
Ela, então, olhou em volta para ao menos reconhecer o espaço onde passaria suas longas horas incertas.
Havia apenas um bloco de concreto disposto no canto direito e mais nada. Arrastou os pés pelo chão repleto das camadas de poeira e sentou-se. Pouco interessava a ela a situação que se encontrava, estava ciente e conformada que para cumprir aquilo que realmente viera fazer precisaria passar por situações como aquelas, sem reclamações, sempre fazendo uso da rudeza e não se deixando derrotar por qualquer intempérie. Estes eram os ensinamentos que aprenderá e que agora, finalmente, serviram-lhe de algo, pois as adversidades já chegavam e ela sentia de alguma forma que aquele era o início de uma jornada árdua.

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A noite passará rápido, porém não o bastante para que Justine não tenha acordado com dores inquietantes por todo o corpo. Em resumo, todas as horas que passou acordada serviram apenas para fazê-la adentrar cada vez mais profundamente em seus pensamentos, tornando insuportável qualquer idéia de permanecer consciente.
Não havia quase nenhuma forma de saber se as horas já haviam passado o suficiente para a chegada do dia, apenas um pequeno buraco no alto da parede — provavelmente feito por algum dos já encarcerados ali — que permitia a passagem escassa de um feixe de luz que permanecia estático no chão naquele momento. Justine deduziu, então por lógica que a manhã já passará e aquele era o início da tarde. A fome e a sede eram vontades que ela não conseguiria deter por muito mais tempo.
"Dê-me algo para comer ao menos!" Gritou, encostando a orelha na porta de ferro, mas nenhum sinal de aproximação houve para satisfazer seus anseios e assim, ela comformou-se.

Notas finais
Oi! Se você gostou desta história, favorite!