Até depois da Morte!
12 As palavras que não deveriam ser proferidas.
Caminhava a passos largos e acelerados em direção a entrada da Conciergerie, o firmamento francês permanecia cinzento e o clima gélido permeava a atmosfera como na sequência de dias passados. Aaron tinha conhecimento sobre os horários em que o regimento iniciava as funções nas instituições parisienses por conta disso, chegara tão precocemente ao local. Entretanto não foi necessário esperar por muito tempo, logo chegaram a prisão os subordinados. O diálogo demorou-se pendendo entre questões legislativas e pessoais, pois não seria possível, do ponto de vista das determinações reais, libertar a moça. O conde, tomado por forte indignação, tanto reinvidicou, apresentando argumentos diversos, que ao final terminou alcançando o objetivo. O estranhamento em relação ao comportamento do conde para com a delinquente permanecia crescete e os boatos até mesmo espalhavam-se pelo ambiente real, Aaron entretanto permanecia indiferente a eles, era de sua natureza desconsiderar opiniões alheias.
As portas foram abertas com rapidez, era possível à Justine perceber as expressões de verdadeira desaprovação dos soldados enquanto a levavam novamente aos andares acima, contudo, aquilo tudo não a animava. Mais uma vez estava sendo liberta, e sabia que das duas vezes, apenas pela boa vontade do conde. A situação encontrava-se ainda mais incerta. Os sentimentos de ódio permaneciam intactos, entretanto, os questionamentos iniciavam-se. Justine tinha a necessidade de uma conversa sobre os fatos com o pai. Acreditava que o comportamento do conde não condizia com o que lhe fora repassado desde a infância.
Ao passar pela porta, a imagem de Byron personificou-se a sua frente. A aparência estava ligeiramente diferente da noite anterior, havia um leve inchaço abaixo dos olhos que somente fora perceptivel a Justine por conta da luz que sombreva os contornos da face. Ele permaneceu soturno, como se lhe pesasse pronunciar qualquer coisa.
"porque não me soltam? Já não fora dada a ordem?"
Aaron meneou sutilmente a cabeça como autorização, em seguida as mãos de Justine jaziam desatadas. De imediato, saltara para fora da Conciergerie sem sequer agradecer os feitos daquele que lhe concedera a liberdade. Para ela não era necessária nenhuma demonstração de gratidão.
"Espere-me!" Justine fora capaz de ouvir o chamado, ignorando-o, continuou o trajeto."Tua espada! Eu a tenho em mãos! Creio que não iria querer deixa-la em meu poder, sim?"
A pergunta soou em tom sarcástico. Justine retornou com tamanha velocidade sedenta pela espada que assustou aquele que a detinha.
"Tu não devias ter ficado com ela!"
"Sim, e talvez fosse mais prudente deixa-la em qualquer lugar, sem as menores condições de cuidado!"
"dê-me ela!"
Exclamou vendo que o conde hesitava.
"sim, esteja certa de que lhe devolverei o objeto, afinal eu o guardei para entrega-lo a ti, mas não antes que me esclareça algumas questões. Por favor, rogo-lhe para que não seja grosseira, nem faça uso de brevidades, pois é de extrema importância o modo como tuas respostas sairão de tua boca agora!"
"Tudo ficaria bem se tu apenas me devolvesse a espada!"
"Somente esclareça-me. Poderia saber porque correu em minha direção daquele modo tão feroz? Querias enfiar essa espada em mim?"
Justine desviou o olhar com receios.
"Não!"
"Isso somente? Por favor, não seja breve."
"O que queres que te diga?"
"A resposta!"
"E qual seria esta resposta, já que tu não consideras a minha?"
"É impossivel que eu desvende a resposta! Já considerei e desconsiderei todas as possibilidades por mim acatadas, mas nenhuma deve ser tão esclarecedora e certeira quanto a tua explicação!"
"Não há explicações! O que penso é minha propriedade, não devo compartilhar!"
"Este seria um bom argumento que, em condições habituais, me faria desistir de indagá-la. Porém, coloque-se em meu lugar e tente perceber o quão estranho é este teu comportamento para comigo! Qualquer um, com um pouco de apresso por alguém, sentiria-se terrivelmente mal ao perceber que está sendo escancaradamente recusado."
Justine refletiu sobre as palavras, já permeando os pensamentos com ríspidas constatações. Fora a primeira vez que o mudo lhe tomou a vontade de falar.
"Ódio! Esta é a resposta!"
O conde franziu o cenho.
"Não, não! Me ofereça uma resposta completa, srta. De Beaumont!"
"O que queres? Não vê que eu o detesto? Quer que eu discurse sobre isso, que escreva sobre isso? Pois, posso fazer, por que eu simplesmente tenho ódio sem tamanho por ti!"
o silêncio tornara-se o suplício daquele momento. Os sentimentos do conde oscilavam entre a surpresa, a dúvida e a negação, sendo todos estes fornecedores da mesma sesação de desconforto.
"Agora, devolva-me a espada!"
"Posso saber que origem tem esse ódio?"
"Tu dissestes que devolveria-me a espada se te respondesse a pergunta!"
"E esta não é uma pergunta? De onde veio tanto repudio? Essa repulsa! Não é coerente, odiar alguém sem motivos..."
"Há motivos!" Justine interrompeu, aumentando o tom em desespero. "Há muitos motivos. Jamais estive aqui para falar sobre as origens dos meus sentimentos! Estou aqui para duelar contigo, vim a Paris por isso e só sairei daqui ao vê-lo derrotado!"
Aaron verdadeiramente surpreendeu-se com o expresso.
"Eu ainda não compreendo, srta. De Beaumont. Entretanto, posso perceber pelo modo que me fitas, que dizes a verdade!"
"sim, agora devolva-me a espada! Se quiser, pode marcar o dia de tua morte, senão eu o matarei de qualquer forma!"
Disse, arrancando a espada da mão do conde e batendo em retirada.
É possível, senhores, somente por esta narração anterior, constatar os sentimentos do conde? É preciso descrever o quão contrariada e cabisbaixa tornou-se a expressão deste frente o pronunciamento da srta. De Beaumont?
Permitiu a seu cérebro um momento de reflexão profunda que executou ainda sob inércia. Estático, observava com perícia sua condição, envergonhando-se como um menino humilhado. Não humilhado pela moça, mas humilhado e pisado por seus próprios sentimentos. Traído pela racionalidade, somente lhe restará os sentimentos, aqueles sujos os quais ele renegará durante anos e também os quais nunca tivera a chance de provar. Era um veneno em sua opinião, e ele sabia que, quando chegasse a hora oportuna de encontrá-los, sofreria de imediato e tão intensamente, justamente pela vontade de mantê-los distantes. Encaixou o chapéu na cabeça e seguiu a passos firmes, embora, quisesse sentar-se ali, mesmo no chão e pensar durante horas, talvez dias a fio.
***
Justine nada sentiu. Sua frieza não podia ser maior agora que as lembranças encontravam-se remexidas. Se arrependia apenas de algo. Parecia que faltava-lhe coragem, a coragem que sempre lhe fora farta. Haviam já inúmeras oportunidades de alcançar o objetivo, entrementes não havia ação, muito menos sucesso. Nada do que planejara dera certo. O interesse que demonstrava o conde era de extrema estranheza e lhe preocupava imensuravelmente. O medo era, em grande maioria, o fato de constantemente Byron cuidar para o seu bem, não gostaria que nada entre eles evoluisse, seria mais correto que ele por ela sentisse raiva ou ódio, porém compaixão não aplicava-se. Nenhum inimigo sente por um adversário compaixão, a não ser que este, por natureza, comporte-se como um covarde. Assim pensava.
Levava enrolada no braço esquerdo a capa, dentro estavam guardados os copos com ragout que pusera para o pequeno Batiste. Paris, como corriqueiramente, estava tomada de gente. As feirinhas entupidas e as ruelas estreitas sumiam em meio ao trânsito constante de pedestres. Justine sabia bem por onde iniciar a procura pela criança. Jean estava sempre a perambular pelos becos, serelepe. Não foi preciso muito para encontra-lo. Justine o avistou ao longe e chamou por seu nome. Batiste, virou-se de imediato e disparou aos pulos em direção a ela, fazendo os cachos louros flutuarem. Justine teve que agachar-se para abraçar o menino. Estava sujo como sempre, entretanto, ela sentia-se feliz em vê-lo.
"O que estais a fazer?" Perguntou ele, ofegante. "Não estava em Versalhes?"
Justine o ignorou por alguns momentos, enquanto procurava no emaranhado de tecido o copo.
"Não interessa onde andei. Veja o que trouxe!"
Os olhos de Jean arregalaram-se com tamanha surpresa, as pequeninas mãos com dedos de unhas sujas, agarraram com vontade o copo trincado de comida.
"O que é?"
"Não consegues perceber o cheiro? Ragout, direto da realeza! Lembras do dia em que fui presa? E que prometi a ti trazer um prato de ragout? Pois bem, cumpri com minha palavra."
"Eu posso agradecer-te de que forma?"
Perguntou de maneira despretensiosa o garoto, cheirando a comida.
"Deverias tomar um banho!"
Exclamou Justine, sentando-se sobre a capa no chão do beco.
"Peça outra coisa! Tu também estais suja!"
"Diga-me, ainda posso hospedar-me na estalagem da sra Henriqueta?"
"Não sei, Justine! Há pessoas falando coisas más de ti!"
"Quem?"
"Os moradores daqui, todos! Dizem que tu és uma pessoa ruim e que deverias estar morta! Não gosto quando dizem isso!"
Jean respondeu com a inocência típica de criança.
"Bem, isso deve ser normal, pois as pessoas não compreendem os meus pensamentos e sentimentos. Natural que me julguem."
"Porque tu não duela com eles? Mataria todos!"
"Batiste, eu bem gostaria, entretanto só uma pessoa me interessa."
"Porque?"
"Tu fazes perguntas demais."
"Bom, as pessoas normais lutam porque tem motivos, não? Tu nunca tens motivos pra lutar!"
"Sim, tenho!"
"Quem tu tens vontade de matar?"
Perguntou o garotinho, enfiando a mão suja e trazendo em uma concha a sopa temperada até a boca. Os restos de comida escorriam-lhe pelos cantos dos lábios. Justine observou a cena e constatou que o menino nem mesmo reparava o que dizia.
"Sra Henriqueta, disse algo sobre mim?"
"Tu não respondentes minha pergunta, e eu a fiz primeiro!"
"Pare com isso Jean! Sou mais velha, respeite e responda minha pergunta, caso contrário diga adeus as aulas posteriores de esgrima!"
O menino não exitou em falar.
"Sra Henriqueta, disse para todos que tem pena de ti e que se sente arrependida por deixar-te hospedar no estabelecimento dela."
"Ora, só isso? Para atingir-me teria que, ao menos, saber xingar!"
Riu Justine.
"Ela também disse que todos devem tomar cuidado contigo. Não era para tu estais aqui! Eles podem te fazer mal!"
"Acredita que podem me matar, Jean?"
O garoto pensou por instantes, relanceando os grandes olhos pela extensão do beco.
"Não!"
"Então não devo me preocupar!" -Disse Justine, levantando-se com um pulo e ajuntando a capa.- "Deixe-me ir, Batiste!"
"Espere!" Pronunciou o garoto, puxando-a pela bainha do vestido. "É verdade que lutaste com um soldado infantaria?"
"Sim, é claro! Porque não seria?"
"Quantos golpes foram?"
"Poucos. Não me dei ao trabalho de matá-lo. Devo ir agora, Jean!"
Disse, deixando o garoto a fazer perguntas entusiasticas sobre o desempenho dela durante a luta.
A passos rápidos e largos, Justine seguia, próximo as paredes infiltradas. Os cabelos soltos, não possibilitavam esconder-lhe a face, pois eram curtos, em decorrência dos frequentes embates que travava. Os ombros chocavam-se com os tijolos causando-lhe pequenos arranhões, enquanto Justine tentava transitar despercebida. Ela possuia um ponto em vantagem já que aquele era momento de pico nos estabelecimentos, fazendo com que a maioria da população não a percebesse. Entretanto haviam alguns olhares de soslaio, principalmente aqueles que vinham dos mais velhos que reparavam os trajes diferentes que trazia no corpo. Justine apressou-se com mais afinco, contornando as barracas e adentrando celeramente os lados da estalagem da sra. Henriqueta.
Lá permaneceu durante alguns minutos observando o espaço ao redor. Decidiu então pular o pequenino muro da estalagem, caindo bem abaixo da janela do quarto de Geraldine que, certamente, não estaria lá aquela hora. Chamou por seu nome, porém nada avistou na janela. Resolveu esperar até que a moça aparecesse.
"Geraldine!" Exclamou num sussurro audível. "Sou eu, Justine!"
Os olhos da outra semiserraram-se, na tentativa de perceber quem chamava, logo os arregalou, abrindo os lábios, surpreendida.
"O que estais fazendo aí? Como entrastes?"
"Deixe-me entrar que lhe conto!"
"Oh, não! Justine, tu fizestes coisas horríveis, mamãe me daria uma surra se eu te deixasse aqui"
"Não acredite no que dizem!"
Geraldine, manteve-se a refletir sobre as palavras proferidas.
"Espere-me aqui!"
Após alguns minutos, uma grossa corda estendia-se da janela um pouco acima da cabeça de Justine que sorriu com a atitude. Sem exitar, agarrou a corda, subindo com destreza e em dois tempos, estando dentro do quarto da outra. Justine foi envolvida por um abraço inesperado da garota eufórica que fizera assustar-se.
"Por onde andaste? Não estais a trabalhar para sra. Capucine?"
"Não!"
"Como não? Era um emprego divino! O que aconteceu em Versalhes? É mesmo verdade tudo o que dizem?"
"Nem mesmo sei o que dizem!"
Geraldine sentou-se, com olhar repentinamente sério.
"Dizem que tu enfrentou um soldado da infantaria e que em um ataque de fúria tentou atacar um dos homens mais influentes da França depois do rei, conde Byron! Alguns afirmam que não existe sanidade em ti, outros dizem que tu és uma criminosa a vagar pelo País, cometendo crimes e perversidades. De um dia para o outro os boatos cresceram de forma desproporcional, Justine! Todos, exceto eu e as crianças te odeiam e rogam pragas a ti. O rei! Como ele não ordenou tua morte?"
Justine preferiu manter-se calada quanto a isso e pediu a Geraldine para que continuasse.
"Bem, dizem também que fostes para o Calabouço, duas vezes! Impressionei-me ao ouvir isto! Pensei em ti e disse que era mentira, entretanto mamãe repreendeu-me! Há também alguns que dizem que só tivesses a sorte de seres salva graças a boa vontade do conde! Achei este fato, particularmente, demasiado estranho! Pois o conde tem fama de antipático e totalmente alheio as pessoas!"
"Esta última parte é uma mentira descarada! Não precisei da ajuda de ninguém!"
"Então quer dizer que é verdade que fostes presa?"
"Sim, não tema! Nada fiz de tão errado. Apenas lutei! Sabes que isto é o que sei fazer de melhor!"
"Isto sempre me assustou! Não compreendo porque és assim! Estes fatos me deixam muito triste, desta vez não há exageros no que digo!"
"Estais dizendo isso como se este fosse um grande problema."
"Mas este é um grande problema! Não consegues ver? Tens um ódio tão grande pelas coisas que por vezes parece irracional!"
"Irracional seria se eu permitisse que o mundo brincasse comigo! De que adianta fingir, se é isso o que sou?"
"Tu pensas de uma forma estranha! Minha última frase para ti é que tu percebas o que fazes, pois, aprendi com mamãe que nossas atitudes possuem consequências."
"Deixe de lições e me diga onde posso dormir até encontrar outro lugar!"
"Pegue os lençóis da cama e coloque-os sobre o chão, pode escorder-te atrás da cama ou abaixo da cama, tanto faz! Mamãe tem a mania de entrar no quarto para guardar coisas e fazer limpezas."
Após acertarem onde seria o melhor local longe do campo de visão de sra. Henriqueta, Geraldine se foi. Justine organizou os panos da forma mais confortável que encontrou e dormiu, exausta, mesmo sob a cama.
**********
Duquesa Josephine ao ouvir o som da voz de Madeleine a articular-se sozinha no quarto, resolveu entender o motivo. Madeleine lia em voz alta, perambulando de um lado para o outro com graça. Gesticulando enquanto pronunciava perfeitamente as palavras, sorrindo enquanto lia a feliz descrição das personagens. A muito que a duquesa não via a filha a executar aquele ato, por isso, calou-se e deteve-se somente a observá-la. Madeleine logo percebeu-a e fechando o livro rapidamente, mudou a expressão tranquila para uma carranca imediata.
"Estavas a quanto tempo aí?"
"O bastante para perceber a perfeita dicção, minha querida!"
"Não me é agradável essas observações sem aviso!"
"Bem sei, Madeleine, conheço aquilo que te incomoda! Entretanto, meu bem, deixe que eu a olhe durante alguns minutos para que eu possa ter a certeza de que estais bem!"
"Ora, e porque não estaria?"
A duquesa percebeu que palavras indevidas foram pronunciadas.
"Não Madeleine, volte a ler!"
"Mamãe sei bem a que se refere. Estava fazendo-me de desentendida, porém sei que estais pensando no comportamento de Aaron na noite passada. Achei absurdo! Aquela delinquente quase o atingiu, poderia ter o matado! Porque ele ficou do seu lado? Porque não empunhou a espada e lhe perfurou em cheio o estomago?"
"Também percebi certa exitação de sua parte! Talvez porque o rei é um de seus grandes amigos e talvez fosse extremamente desagradável a atitude em meio a um festejo de tamanha dimensão!"
"Sim, acredito que tenha sido isto! Pois o conde é alguém muito próximo ao rei. Quanto as atitudes daquela moça! Sinto até mesmo, repulsa! Sem nenhum pudor e ainda lutando como homem, viu mamãe?"
"Sim, é evidente! Todos ali puderam perceber!"
"Ela até mesmo foi parar no calabouço! Veja, que grande vergonha! Nunca imaginei que uma mulher pudesse ter atitudes tão repulsivas assim!"
"Sim, este comportamento parece-me típico das moças que chegam a Paris de lugares remotos da França. Como ela, certamente!"
"Ah, isto não me importa! Confesso que encontro-me com a alma inquieta, pois não sei como encontra-se o conde. Sei o que me dirá, e antes que inicie seu discurso que, permita-me dizer mamãe, não resultará em nada, gostaria que compreendesse minha aflição! Lembra de como ela chegou tão perto de enfiar-lhe a espada? Arrepiei-me naquele momento! Se algo de ruim acontecesse a ele, já não sei o que faria de minha vida!"
A duquesa suspirou com pesar perante as palavras da filha.
"Madeleine, minha querida, o único temor que tenho é por ti e por tua saúde! Conde Byron não interessa-me! Sabes aquelas meretrizes? Todas o conhecem bem, pois ele frequenta aqueles lugares infernais onde somente homens baixos de espírito circulam."
Madeleine cobriu as orelhas como sinal de sua objeção as palavras da mãe.
"Não profira mais dessas palavras mamãe, se me amas! O conde possui uma triste história, passou por momentos deverás difíceis..."
"Isto não justifica nada de seu comportamento, Madeleine!"
"A resposta é, sim! Sim, mamãe! O homem é facilmente corrompido pelo meio em que cresce. Suas vivências, as referências que tem durante seu desenvolvimento, tudo complementa-se, resultando em seres com personalidades corrompidas."
"Ora, estais vendo! Aquelas idéias que pairam na mente perturbada daquele homem já desenvolvem-se em ti! Não sei o que fazer contigo! Desejo aclarar teus pensamentos, porém tu te fechas, querendo acreditar em uma mentira! Devo ir, pois não é de meu desejo que isto evolua para uma discussão deselegante."
A duquesa retirou-se sem dirigir olhares à filha. De imediato, o discurso que vinha do quarto reinicou-se. Sabia bem que a filha já não dava ouvidos a suas palavras, entretanto havia prometido a si mesma que jamais desistiria de tentar livra-la das mãos daquele homem cujo qual lhe causava repúdio.
***
"Já disse para deixar-me Thernadier!"
Exprimiu o conde com a voz reduzindo-se a sussurros. A governanta — e pode-se dizer sem dúvida, amiga — fitava-o com precaução enquanto, uma vez ou outra lhe fazia perguntas pertinentes a seu estado de espírito que, naquele instante, envontrava-se visivelmente perturbado.
"Toque um pouco, conde! Talvez a música lhe traga benefícios maiores que permanecer estático aprofundando-se em pensamentos desagradáveis."
"Não! Nem mesmo a música será capaz de amenizar minhas indagações!"
"Ora, desculpe-me Byron, entretanto, o que seria tão emergencial a ponto de deixá-lo desta forma?"
Aaron dirigiu o que parecia um triste olhar à governanta, acompanhado de um meio sorriso sem graça. Fora a primeira vez que a olhara nos olhos naquele dia.
"Como posso responde-la se nem mesmo sei o que me causa tanta inquietude?"
"Talvez o ataque da noite anterior! Oh, conde, posso jurar que quando soube do acontecido, estremeci, meu desespero pode, sem problemas ser comparado ao desespero de uma mãe ao saber da perda de um filho. Dizem que esta moça que lhe atacou é uma delinquente já conhecida da Guarda real. Tu mesmo a conhecia, Byron?"
O conde não respondeu-lhe imediatamente.
"Sim!"
"Então porque tu não tomates uma atitude? Deverias tê-la deixado morrer! Seria um bem que farias à todos! Esta moça esta aterrorizado Paris. Soube de boatos..."
"Thernadier, não imagine que não desejo tua presença, entretanto, rogo-lhe para que deixe-me sozinho, ao menos este instante."
A expressão inicial da governanta fora de total desagrado.
"Prometa-me que fará algo para extinguir estes pensamentos!"
Pronunciou, em tom quase materno, retirando-se logo em seguida.
Aaron prolongou-se sob mesma inércia de antes, pegou o caderno de anotações, entretanto, nenhuma letra fora transcrita, nada fez. Apenas fitou o bloco de notas nas mãos.
Eis que aqui inicia-se uma sucessão de pensamentos relacionados ao diálogo com a malfeitora, como lhe nomeavam. A incoerência no que lhe confessou a moça era extrema. Rememorou cada palavra e cada expressão, minuciosamente, como que em uma investigação. Entretanto não fora possível chegar a qualquer conclusão. Tudo lhe parecia extremamente abstrato, não lhe ocorria nenhuma resposta ou justificativa ao comportamento da moça e todo aquele "não saber" lhe inquietava mais que qualquer outra coisa. O verdadeiro desejo que tinha era coloca-la a sua frente e interrogá-la de todas as maneiras possíveis. Despejar sobre ela suas indagações mais profundas e obter respostas completas e justificativas coerentes para aquele comportamento indiferente e austero que mantinha. Poder investigar o olhar desviando-se na pronúncia de uma mentira, as mãos remexendo incansavelmente e monotonamente nos joelhos, como sinal de ansiedade, os pés executando ritmados compassos sobre o chão, enquanto os lábios da moça forneciam as informações e ele traçava suposições, como que em um jogo. Permanecer sossegado e tácito era algo tão difícil para seu caráter que chegava quase a ser penoso.
****
O cansaço tomou tanto as energias restantes de Justine que nem mesmo fora possível a ela perceber a chegada do alvorecer. Acordou-se de supetão com as chamadas impacientes de Geraldine ao sacudir-lhe os ombros.
"Vá! Vá! Mamãe está vindo para a limpeza!"
Justine, com rapidez ímpar, arrastou-se para fora da cama, carregando nas mãos a espada e a capa que esperava servir-lhe de algo.
"Peço para que tu me deixes dormir aqui está noite de hoje!"
Geraldine concordou com um balançar de cabeça, enquanto sinalizava a saída avidamente. Justine agarrou-se ao parapeito da janela e jogou-se, mantendo os joelhos flexionados afim de reduzir a magnitude do impacto. Não demorou muito até que ela estivesse já a vagar pelos becos novamente. O cavalo, lembrava-se, havia deixado na estalagem. O temor de tê-lo perdido, caso sra. Henriqueta, tenha o lançado a sorte nas ruas parisienses, tomou-lhe os pensamentos. Nada poderia fazer, ele estaria perdido e não havia como encontrá-lo, não era possível até mesmo a ela adentrar a estribaria da hospedagem, sem encotrar-se com sra Henriqueta, sem dúvidas isso lhe traria problemas gigantescos, como voltar ao calabouço. Estremeceu somente ao considerar a possibilidade. Adentrou as extremidades de um extenso beco, que por poucos metros não podia ser considerado uma ruela. Juntou-se a alguns dos indigentes que vagavam sem rumo por entre as arestas das construções, famintos e pedintes. Observou os caminhos que traçavam, alguns arrastavam os pés, eram mancos, a dor deveria ser-lhes corriqueira, imaginou. Nos rostos estampava-se o retrato do povo francês naqueles tempos. Alguns a olhavam pelos cantos, olhares repletos de profunda tristeza. O ódio da monarquia já aceso em seus pensamentos, tornou-se inevitavelmente intenso. Deixou-lhes, embora sentisse a necessidade de ajudá-los.
A cena a entristeceu durante o resto do dia.
***
Logo cedo, sem nem mesmo despedir-se adequadamente de Thérnadier, o conde partira até Versalhes. Levava em mãos folhas e uma caneta para anotações. Desembarcou em frente a loja de Sra. Capucine, entrando e sem maiores cerimônias inquirindo-a com perguntas.
"Diga-me, se possível, onde encontrou aquela tua funcionária, srta. De Beaumont!"
Proferiu, dispondo de total tranquilidade. Capucine, o encarou durante alguns momentos, parcialmente descrente do que ouvira.
"Conde, peço-lhe desculpas, entretanto, o que ainda queres com esta moça? Pois, afinal, soube do que ela lhe fez! Sempre a tive como, praticamente uma filha, é assim que trato minhas funcionárias, com um amor quase fraternal. Após este episódio lamentável, não mais quero ter com ela nenhuma ligação e o pior é que de certa forma era meu o convite que lhe possibilitou adentrar o baile, perdoe-me. Ela o machucou?"
Byron sorriu, já tornando-se impaciente.
"Ora, srta. Capucine, responda-me apenas, não preocupe-se com o estado físico em que me encontro. Possuo piores injúrias, muito mais significativas que esta que me causou tua funcionária."
"Não deixarei de preocupar-me com teu estado, Sr. Byron! Esteja certo do que lhe digo, pois conheci até mesmo teus pais. Quanto a pergunta que me fizestes, embora não me seja conveniente passar-lhe essas informações, pois temo por tua segurança, direi somente o que sei. Esta moça, eu a encontrei na cidade de Paris. Somente isso lhe digo."
"Em que ponto exatamente?"
Sra. Capucine dirigiu-lhe um olhar de desaprovação.
"Próximo onde antigamente havia esta loja."
"Sim, agradeço! Posso ver pelo olhar que me direcionas que não estais disposta a me fornecer mais informações. Adeus!"
Despediu-se, já direcionando-se a saída.
"Sr. Conde!" Chamou-lhe, Capucine. "Sei que te interessa muito esta moça, também compreendo em que sentido, porém, vejo que estais ainda mais obstinado que normalmente, apesar de não ver razões para todo este empenho. De toda forma, não te aproximes de Beaumont, não dê chances à ela. É perigosa ao extremo, não brinco no que digo, sr! Pude presenciar seus treinamentos nos jardins deste terreno, pude ver com quanta maldade e destreza golpeava o tronco das árvores, o ódio ardendo nos olhos. As marcas ainda estão lá se quiseres ver. Cheguei até mesmo a pensar que ela possui problemas, digo isso com base nos poucos diálogos que tivemos. Sempre muito silenciosa, com respostas curtas e grossas, entretanto quando era de seu interesse, tornava-se persuasiva ao extremo. Beaumont é uma astuta criminosa! Deveria envia-lá ao calabouço!"
Durante todo o pronunciamento, seu interlocutor permaneceu silente, fitando-a com olhar sereno. Não havia sinais de incômodo com as palavras proferidas, parecia, como sempre, mergulhado em extrema indiferença. Entretanto, é evidente que acreditava estar Capucine equivocada.
"Tu não és a primeira que diz-me isto, também não serás a última, porém, não é por meio de testemunhos que irei basear minhas conclusões. Somente digo-lhe isto! Adeus!"
E retirou-se.
***
O olhar de Aaron percorria todas as vielas de maneira meticulosa. Avisou ao cocheiro para que cruzasse o trajeto sem pressa, de forma que fosse possível destinar atenção a cada feição encontrada pelo caminho. Lembrava-se, por sorte, do antigo endereço do qual se referiu Capucine, por vezes, solicitava que parasse a carruagem e posicionava-se para identificar o aspecto de cada um, em meio ao incessante trânsito de pessoas.
"Não há como adentrar estes becos." Pronunciou, dirigindo-se ao cocheiro. "Espere-me aqui, não demorarei!"
O homem pareceu exitar, mesmo com o conde a oferecer-lhe oito écus.
"Perdoe-me, Sr. Conde! Porém, tens absoluta certeza de que queres adentrar estes becos? Há muitos criminosos encrustados pelos cantos. Seria imprudente deixa-lo ir sem avisar-lhe dos perigos."
"Sei bem disso, amigo! Se tiveres receios em permanecer aqui, podes ir para outro lugar. Entretanto, esteja próximo quando eu retornar!"
Explicou-lhe, sem nem mesmo considerar os posteriores alertas sobre a segurança do local.
Caminhando a passos largos, logo sumiu por entre o pandemônio de gente. O chão molhado encharcava-lhe os sapatos. Não havia quem não o percebesse, ele logo atentou-se que as roupas chamavam a atenção, deveria te-las trocado, desfarçado-se minimamente. Entretanto não houve tempo para pensar nestes detalhes desde que acordou decidido a procurar a moça. Resolveu que somente perambular não lhe traria resultados.
"Sabes de alguma moça, cujo sobrenome é Beaumont?"
Perguntava, enquanto fornecia todas as características correspondentes, todavia nenhuma resposta lhe supriu as dúvidas. Caminhava alguns passos fazendo a mesma pergunta aos que pelo caminho encontrava, perdeu as contas de quantas vezes precisou repetir as mesmas palavras. Os minutos passavam-se rapidamente, e a figura desconcertada do conde continuava a perambular pelos cantos escuros. Houve um momento, porém que percebeu encontrar-se consideravelmente distante do lugar de onde saira, pensou que seria melhor retornar, embora insatisfeito por não tê-la encontrado. Nem mesmo sabia o que lhe diria, na verdade, desejava apenas interroga-la, ou talvez aquela seria a desculpa para seu incansável desejo de vê-la. Embora isso para ele fosse um engodo.
Resolveu examinar apenas mais alguns metros e, em curiosa coincidência a encontrou em situação já previsível. Justine instruía um pequeno garoto que lhe dirigia total atenção. De joelhos, ela, provavelmente, lhe estava demonstrando situações de ataque, imaginou o conde. Se obedecesse somente ao impulso imediato de seus neuronios, sem perícia, caminharia aceleradamente até ela e iniciaria um discurso sensato sobre como suas meias palavras o atingiram imensamente e que não via motivos para toda aquela cólera etc etc..
Entretanto, não prestaria-se a ato tamanho de humilhação, preferia que um raio o partisse a ter que declarar o quanto incomodava-se com a forma que Justine o tratava. Como justificaria o fato de ter percorrido durante todo aquele tempo caminhos tão incertos e desconhecidos somente a fim de encontra-la se não importavasse com ela? Seria um papel deplorável que executaria miseravelmente. Cruzou, então, os braços e escondeu-se ainda mais na penumbra, de forma que não pudessem observa-lo ali. Não fora preciso esperar tanto. Logo, Justine ergueu-se com a espada envolta pela capa e retirou-se, por mais que protestasse o menino.
Vendo que o garoto lá permanecia, Aaron aproximou-se sutilmente de forma a não assustá-lo.
"Olá! Conhece-me, garoto?"
O menino permaneceu calado enquanto fitava o conde com curiosidade.
"Com toda certeza, Sr conde!"
Disse, levantando-se com um pulo.
"Ora, posso ver que és um garoto esperto! Gostaria de fazer um simples favor a mim?"
"O que deseja?"
"Como chama-se aquela que dialogava contigo a minutos atrás?"
"Ela chama-se Justine, porque quer saber?"
"Tu és próximo a ela?"
"Sim, somos amigos! As pessoas de Paris estão dizendo coisas mentirosas sobre ela e isso entristece-me!"
"Sim, incomodo-me igualmente! Por isto perguntei seu nome. Desejo ajuda-la, para isso, então, precisarei de tua ajuda." Disse o conde, rebaixando-se a altura do menino para que pudesse ser compreendido com mais clareza. "Diga-me, quanto quer para repassar-me informações diárias sobre tua amiga?"
"Como terei certeza de que queres realmente ajudar?"
Perguntou o garoto, limpando as mãos sujas de terra. Aaron irritou-se levemente com a extrema desconfiança.
"Ora!" Riu-se ele "Sou um conde, as palavras por mim proferidas bastam como decretos. Porém, como desconfias tanto, posso dar-te agora mesmo um símbolo de minha sinceridade."
O conde retirou do bolso interno do casaco, um pequenino pingente de ouro em formato de espada.
O garoto vibrou ao perceber a grandeza do presente.
"Isto é para guardar como símbolo do teu amor pelos duelos e pela espada, principalmente! Não o venda!"
"Jamais, Sr conde!"
Disse agarrando o pingente e delicadamente, guardando-o no bolso de retalhos da camisa.
"Diga-me então, de onde ela vem?"
Aaron preparou o bloco de anotações e a caneta.
"Ninguém sabe exatamente. Nem mesmo eu! Ela apareceu por aqui recentemente e já causando balbúrdia, todos perceberam que era muito boa com as armas, começaram a assistir suas aulas pelos becos, principalmente as crianças. Nós aprendemos muito com as aulas que dá."
"Somente isso?"
"Não! Se quer saber toda a história de Justine por aqui, tens que se preparar pois não é uma história muito agradável! Como estava dizendo, ao chegar aqui ela logo arrumou confusão com um velho bêbado que perambulava sempre pelas esquinas. Esqueci-me o nome...enfim, eles duelaram e ela foi levada ao calabouço. Disseram por Paris que tu mesmo a soltas-te!"
O conde confirmou o que já imaginava. Havia liberto Justine a dias atrás.
"Ela voltou para as ruas, arranjou um lugar na estalagem da sra Henriqueta. Não faço idéia de como conseguiu, porque esta é uma mulher muito insuportável! Também conseguiu trabalhar para a loja da sra Capucine, então, não apareceu mais por Paris. O Sr sabe que ela foi para Versalhes, sim? Pois bem, após a confusão ela voltou!"
"Tu sabes se em algum momento ela se referiu a mim?"
"Bem, ela não gosta muito de ti!"
Aaron concordou. Aquele fato não era novidade.
"Ela diz os motivos? O que lhe fiz para odiar-me?"
O garoto pensou por alguns instantes.
"Não!"
Aaron não convenceu-se com uma resposta tão lacônica, mesmo assim, percebeu que o menino havia externalizado tudo
o que sabia. Levantou-se, fechando o pequeno caderno e guardando-o no bolso. Fitou o menino, que agora parecia ainda mais pequenino.
"Qual o teu nome?"
"Me chamo Jean Batiste!"
"Excelente, Batiste! Amanhã trarei seis écus como agradecimento pelas tuas informações. Esteja sempre atento a Justine, não a deixe cometer besteiras demasiadas. Cuide dela, correto? E, algo extremamente importante, ninguém, muito menos Justine deve saber das conversas que estamos tendo!"
"Sim!"
Proferiu o garoto, levando a mão à boca afim de afirmar que nada diria.
Aaron saiu sem nada mais dizer. Refez o mesmo trajeto decadente, dessa vez, calmamente. Não cruzava olhares com nenhum dos pedintes, fitava intensamente o chão.
***
Após inquieta noite, ele voltou novamente ao lugar, saltou da carruagem com perfeita destreza. Refez o caminho do dia anterior, ainda lembrando-se perfeitamente o trajeto. Desta vez, trajava-se de forma mais simples para que chamasse o mínimo de atenção. Com as perguntas que fez pelo caminho, chegou até a estalagem que lhe avisara Jean Batiste. Observou primeiramente pelas vidraças afim de encontrar Justine sem precisar entrar em contato com alguém, já que seria um erro dar a entender que estaria aflito procurando respostas — embora estivesse. Nada viu que remetesse a ela. Bateu, então, a porta com desgosto. Logo estava a encarar Henriqueta, que espantou-se com a presença.
"Sr. Conde? O que fazes por aqui?"
O reconhecimento o incomodou.
"Gostaria de saber se é aqui que vive uma moça chamada Justine?"
Geraldine que por perto estava, posicionou-se discretamente atrás da mãe, para melhor escutar o que dizia o conde.
"Oh! Não, não! Jamais, conde! De maneira alguma deixaria uma criminosa dormir embaixo deste teto! Se estais a procurá-la, ela talvez esteja a vagar por aí, arranjando intrigas, procure pelos becos, mas não nos lugares decentes!"
"Estais a dizer que ela agora dorme ao relento?"
"Provavelmente!"
Ele algo anotou, agradeceu de maneira desatenta e partiu, apressadamente. Henriqueta trancou a porta num baque.
"Ora, Geraldine, o que será que quer o conde com esta insensata?"
"Não imagino nada mamãe!"
"Ainda pergunta se aqui ela está! Que coisa! Não, não! Nem morta deixo uma criminosa adentrar meu estabelecimento!"
"Claro mamãe!"
Respondeu-lhe a filha.
****
"Não me dissestes que ela dorme pelas ruas!"
Exprimiu o conde a Jean Batiste, de maneira a repreende-lo.
"Ela dorme as noites na casa da sra Henriqueta! A filha dela oferece abrigo!"
"Quem é esta?"
"Geraldine! É muito diferente da sra Henriqueta, embora seja um pouco irritante!"
"Isto quer dizer que aquela sra. nada sabe sobre isto?"
"De maneira alguma, caso soubesse, Justine já teria sido expulsa."
O conde meditou por alguns instantes. Jean Batiste o observava, pensando em quanto era estranho aquele homem.
"Já que te preocupas tanto com Justine, porque tu não falas com ela?"
Aaron dirigiu-lhe um olhar de censura.
"Eu faço as perguntas, Batiste!"
O menino desculpou-se.
"Onde ela está neste momento?"
"Junto aos pedintes, por ali!"
Ele apontou um lugar ao leste. Aaron imaginou um cenário decadente e desagradou-se com o fato de gerar incômodo figurar Justine em meio a toda aquela miséria. Como podia sentir tanto por alguém que por ele nada sentia? A vontade de ir até ela crescia a medida que passava o tempo, resolveu partir antes que executasse este tolo e deplorável papel.
"Estou indo, Batiste!" Disse, entregando ao garoto seis écus. "Lembre-se, nada diga e esteja sempre atento a ela!"
"Deixe comigo, Sr. Conde!"
Apressado, chegou a carruagem, com terrível mal-humor. Fazia frio em Paris naquela manhã e a carranca do conde assemelhava-se ao dia cinza. Seguiu então, aproveitando o trajeto até Versalhes, não obstante soubesse que o que lhe aguardava, da parte do rei, nada seria agradável. Sempre fora o preferido e disto tinha consciência. talvez porque o rei o viu nascer e crescer, sempre o tivera como parte da família. Ao perder os pais, os monarcas tornaram-se sua segunda casa, a qual ele tinha afeto tamanho, mas, obviamente, não permitia transparecer. Colocou-se a pensar sobre questões diversas durante o caminho. Pegou o livro que levara, no intuito de que a leitura inibisse os incômodos pensamentos. Nada conseguiu ler, nada conseguira escrever, nem mesmo manter-se quieto conseguia. Rendeu-se, finalmente, aos desejos do cérebro e iniciou uma profunda análise sobre Justine. O que a fez vir até Paris dotada de tanto ódio? Não era normal a maneira que o olhava. Algo que, se fosse ele a narrar, nunca admitiria, mas que o causava imensa angústia. Em completo, para ele, tudo era novo. O fato de uma mulher ocupar-lhe tanto a mente. Nada havia de costumeiro em vagar pelas ruas da França a procurar por alguém, rebaixar-se perguntando sobre ela pelas casas, para multidões, pagar a uma criança para que lhe mantenha informado se ela encontra-se bem ou não. Compadecer-se com um ser que o humilhava quando podia, que descaradamente lhe rebaixava e que desejava sua morte. Sentia que tudo aquilo em nada resultaria, na verdade, a única possibilidade de Justine sentir-se satisfeita talvez com sua presença, seria se ele em uma cova estivesse, esta simples lógica de pensamento o fizera abarrotar-se da estranha e profunda sensação de languidez, que perpetuou-se até a chegada em Versalhes.
Pagou ao cocheiro quatro écus, e encaminhou-se até o antichambre do Palácio sutilmente desanimado.
Fontaine Dousseau, um velho amigo o abordou de supetão já com um sorriso expressivo, segurando dois violinos nas mãos.
"Ah, Byron ainda bem que chegaste! Veja só, Jacques diz que os violinos sebastian klotz são melhores que os Stradivarius! Que insolente, não é verdade? O que diz?"
"Os dois são igualmente bons, entretanto o Stradivarius apresenta-se melhor elaborado, em consequência das proporções matemáticas específicas."
Dousseau gargalhou, entregando os dois violinos ao amigo Jacques.
"Estais vendo Jacques! Aprenda conosco!"
"Ora, pois saiba que não há nada melhor que um interrogatório para que as evidências tenham fundamento!"
"Ah, saía daqui com estes teus pensamentos, amigo Jacques! Ora, que fuça é essa, Aaron! Alguma meretriz virou tua cabeça dessa vez?"
Riu escandalosamente.
"Não!"
"Então, porque essa cara? Estais precisando divertir-se! Faz tempo que não vamos aqueles lugares!" Sugeriu o amigo, malicioso. "Estais com cara de peixe morto!"
O conde limitou-se a apenas cruzar os braços.
"As garotas sentem tua falta!" Disse, acendendo um charuto. "Principalmente, Larissa!"
Este último comentário retirou o conde de seu estado de inércia em segundos.
"O que que tem esta mulher?"
"Ah, não diga que não lembra de tuas palavras? 'Tu és a mais perfeita mulher que já pude tocar, querida Larissa! Tua tez assemelha-se a um pêssego, juntamente com teus lábios que...'"
"Pare, Dousseau! Não diga mais nada!"
Proferiu, visivelmente irritado. O amigo pareceu não ligar, observava os jardins com quietude.
"Quem disse para iludi-la? A coitada continua lá, esperançosa de que um dia tu retorne para busca-lá! Te aconselho a ir, essas mulheres são vingativas, escuta o que te digo. Estais vendo isso aqui?" Disse, evidenciando uma cicatriz quelóide na altura dos ombros. "Isto foi feito por uma!"
"Não voltarei lá! Não comente nada sobre mim."
"Ah! Isso será um desafio então, pois tu és um dos assuntos preferidos, até desagrada-me todo esse favoritismo! Que isso? Não voltar? Tu só podes estar brincando! Tu és um dos maiores frequentadores. Ah, sei! Encontraste outro lugar com garotas mais belas, estou certo?"
"Não, completamente errado!"
"Viraste caseiro, então? O que é mais absurdo devo admitir!" Pronunciou rindo. "Irá casar-te com Madeleine?"
"Esta última hipótese é absurda!"
"Ora, que pena! Pois eu adoraria não ter que competir com este teu charme novamente!"
Pronunciou, debochado.
"Conde Aaron!" Chamou-lhe alguém. Ao constatar quem era, desagradou-se grandemente. Lefebvre estava a seu lado, encarando-o de forma escarniosa. "O rei chama-lhe no Grand gabinet, deve chegar lá o mais rápido possível, pois o assunto é de extremissíma importância."
Aaron pôs-se a pensar em como o rei teria tido conhecimento tão prematuro de sua chegada. A resposta estava em Lefebvre! Era evidente que a muito, ele esperava pela reprimenda que daria o rei no conde que tanto o desagradava.
***
O conde adentrou a sala particular real com certa prudência, já que suspeitava do temperamento do monarca em relação ao ato desobediente que executou durante a festividade passada. O rei gargalhava enquanto discorria sobre uma temática, certamente, bastante cômica com o Duque.
"Chamou-me, majestade!"
Proferiu. O Duque despediu-se e saiu, celeramente. Aaron permaneceu inexpressivo a esperar o pronunciamento real. O monarca solicitou que sentasse.
"Aaron, sabes que possuo grande apreço por ti por teu sobrenome, contudo não compreendo qual esta sendo tua lógica de pensamento estes últimos dias. Quando te dispuz a sucessão do cargo de teu pai na infantaria, imaginei que iria exercer um trabalho tão excelente quanto o dele. Porém, vejo que até mesmo andas libertando encarcerados, o que é uma atitude extremamente imprudente. Acredita que devo ser conivente com isso?"
"De forma alguma, majestade!"
Respondeu-lhe o conde em tom reflexivo.
"Portanto, diga-me, porque soltaste a moça que por centímetros não conseguiu matar-te?"
Houve uma lentidão na resposta.
"Esta moça não é de Paris, veio de longe, provavelmente camponesa. Acredito que tenha padecido de alguma forma para ter este comportamento, talvez algo de família."
"Estais a defende-la?"
"Não, somente explico-lhe minha opinião e ofereço-lhe a resposta sobre minhas decisões quanto a soltura desta moça."
"Queres dizer então que somente por estes fatos tu libertas uma criminosa? Por somente pena? Tu aqui nada decretas! Eu sou o rei, isto cabe somente a mim!" Exclamou, irritadiço. Byron não modificava em nada o semblante fechado, apresentava-se plenamente indiferente as palavras do rei, lá permanecia como um boneco. "Qual o nome dela?"
"Justine de Beaumont!"
"Beaumont? Acredito já ter deparado-me com este sobrenome.." Refletiu o monarca por um momento. "Ora, sim! Creio ter este nome nos registros reais; e não por coisas boas. Um criminoso, talvez! Arranjou intensas confusões por Paris. Até mesmo duelando com teu pai, se não estou enganado."
"Meu pai?"
Perguntou-lhe, subitamente exprimindo absoluto interesse no assunto tratado.
"Sim! Não recordo-me plenamente, porém já li algo semelhante nos registros. Não pense que eu o deixarei vasculhar os documentos em busca de respostas, Aaron!"
Antecipou-se o monarca, já imaginando os planos do conde.
"Não há porque preocupar-se" tranquilizou-lhe num suspiro. "Somente isto?"
"Evidente que não! Escutas bem o que te digo: ou tu retornas a exercer teu papel como antes, ou retiro-lhe o posto. Se mais uma vez esta tal Justine for capiturada e tu a libertares, prepara-te para deixar o cargo! E te atentas, pois estais demasiadamente desperso ultimamente."
"Certo!" Disse, Byron em tom firme. "Somente isto?" O rei o dispensou com um sutil balançar de cabeça.
Lefebvre o aguardava nos corredores, somente na intenção de instiga-lo.
"Vejo que o diálogo foi bastante agradável!"
Proferiu de maneira quase silenciosa.
"Sim, Lefebvre! És um excelente adivinho!"
"Oh, usando da ironia, Sr. Conde? Deverias ser mais explícito em tuas palavras!"
"Ora, perdão! Meu tom de voz soa naturalmente sarcástico, embora não seja minha intenção, amigo!"
Proferiu, dando-lhe as costas, exasperado.
***
Uma pedra atravessou a janela de Geraldine, atingindo com força a parede e causando estalo tamanho que a assustou de imediato. Correu até a janela já imaginando quem teria executado aquele ato tão indelicado.
"Justine!" Exclamou, discretamente, receosa de que fosse possível a alguém escuta-la.
"Seja mais discreta!"
"Ora, jogue logo essa corda, Geraldine!"
A garota soltou a corda, prendendo uma das extremidades nos pés da cama. Justine escalou-a rapidamente, passando pela janela de maneira silenciosa.
"Tu tens que agradecer-me e não ficar impondo-me coisas!"
"Perdão!" Disse Justine, com sorriso sarcástico. "Agradeço! Dormirei onde desta vez?"
"Pode ser ao lado de minha cama. Amanhã não é dia de limpeza!"
"Bem, então, adeus!"
Disse Justine pegando das mãos de Geraldine, ascobertas e organizando-as sobre o chão, a amiga contestou-se se seria verdadeiramente importante informar-lhe da procura do conde sobre ela naquele dia. Exitou por um momento, entretanto não fora capaz de guardar para si aquele fato que considerava tão estranho.
"Encontraste conde Aaron?"
Perguntou, falsamente despretensiosa.
"Do que estais falando?"
"Ora, pensei que já sabias. Parece-me que o conde está a tua procura, veio até aqui somente para saber notícias tuas!"
Justine franziu o sombrolho com a feição tornando-se colérico.
"Quem o informou sobre isso? O que tu disseste?"
"Nada de mais! Mamãe não gosta de falar de ti, sabes bem." Disse, aproximando-se de Justine. "Então, o que achas que ele queria?"
."Não sei!" Disse, inquieta. "Se tivesse conhecimento de que ele por aqui anda, já o tinha feito parar!"
"De que esta falando?"
"Não! Esqueça o que disse, durma!"
"Não! Tu achas que não percebo que tu mudas quando falo do conde? Porque te tornas tão impaciente assim?"
"Isso é coisa da tua cabeça!"
"Porque andas com estas armas? Atacas cruelmente as pessoas. O conde aparenta ter uma ótima personalidade, nunca vi nele algo que o fizesse merecer o ódio de alguém!"
"Se esta é tua opinião, nada direi!"
Articulou Justine, cravando a visão na espada que permanecia sobre os lençóis jogados ao chão.
"Porque tu, então? Sinceramente, esta visita fora a mais estranha que já recebemos aqui depois da tua! Talvez ele tenha algum tipo de interesse.."
"Não! Isso não! Não há nenhuma possibilidade, Deus queira que não! Pare, não gaste tuas energias cismando com isso! Não pergunte-me mais nada relacionado a este assunto!" Exclamou, encarando firmemente Geraldine. "Boa noite!"
Virou-se e agarrando a espada, colocou-se a pensar durante horas até dormir profundamente.
****
O baque incessante e intenso na porta acompanhado dos agudos gritos da Sra. Henriqueta fizeram Geraldine e Justine despertarem imediatamente.
"Oh, é mamãe!" Sussurrou, Geraldine. "Tens que sair, rapidamente!"
"Abra, Geraldine!"
Berrava Henriqueta aplicando chutes na porta. Todo aquele excesso de gritos irritava Justine de tal maneira que se a mulher estivesse a sua frente naquele momento, certamente já estaria ferida. "Achas que não sei que abrigas esta criminosa em nossa casa? Eu a ouvi, Geraldine, abra!"
Após este último pronunciamento, um passageiro silêncio pairou pelo local seguido de um forte impacto na porta que a fez abrir-se violentamente. Um rapaz alto e magro adentrou as quedas o quarto, Sra. Henriqueta vinha logo atrás, Vermelha. Justine já havia escancarado a janela, fazendo com que as fortes gotas de água invadissem o quarto impetuosamente, encharcando o local.
"Tu és um verme para a sociedade! Saí de minha casa, antes que te mande de volta para o calabouço, desaparece!"
Justine dirigiu o olhar a Geraldine que chorava, apreensiva. Não tinha certeza se por causa de sua partida ou se tudo aquilo era medo do que lhe podia fazer a mãe. Sem pestanejar, pulou da janela despreparada caindo sobre uma poça de lama. Rolou para o lado, levantando-se com rapidez e escalando o muro.
"Se eu por aqui te encontrar, tenha certeza de que te mando para o inferno!" Vociferou com asco, fechando a janela num vigoroso baque. Em decorrência da chuva que precipitava-se com vigor, o movimento pelas ruas havia minimizado, na verdade não havia movimento. Justine estava sozinha, evidente que este fato não era o que lhe incomodava, a chuva parecia estar especialmente mais castigante aquele dia. Ela correu até uma cobertura e lá permaneceu, resolveu que esperar seria a melhor coisa a fazer.
***
"Chove muito, Sr conde! Aconselho-o a não sair da carruagem. Geralmente os malfeitores esperam estes momentos para praticar crimes."
Disse o cocheiro, resguardado sob a coberta de um estabelecimento. Aaron encontrava-se dentro da carruagem refletindo sobre o que seria mais vantajoso fazer. Considerava que havia precipitado-se naquele dia, resolveu sair instantaneamente ao alvorecer. Em decorrência de não ter conseguido repousar efetivamente a noite inteira, acordara irrequieto ao extremo. Solicitou que a carruagem o viesse buscar rapidamente, e lá estava novamente. As palavras do garoto Jean e da Sra Henriqueta perpetuavam-se ainda por sua memória. Tomado por súbito ímpeto, decidiu que se viera até ali, deveria fazer algo.
"Tens qualquer coisa que sirva para passar por entre essa chuva?"
"Tenho este guarda-chuva!"
Disse o cocheiro, tirando das laterais de seu assento um guarda-chuva preto.
"Espere-me aqui!"
O conde retirou-se. A tempestade se acentuava, soprando ventos a velocidade suficiente para que o guarda-chuva fosse arremessado constantemente para o lado. O beco não seria o melhor caminho a tomar. Em meio aquele temporal, certamente estaria tomado por água. Decidiu, então, caminhar pelas ruas até onde encontravam-se os pedintes, recordando-se das palavras de Batiste.
Com o conde aproximando-se pelas ruelas e Justine estando onde estava, é de se imaginar que houvera um desagradabilissimo encontro entre os dois. Ao repará-lo, ela ergueu-se com presteza dejando que Byron não a tivesse percebido, entretanto o conde jazia significativamente próximo a ela. A chuva também fora impiedosa com suas vestes que colavam-se ao corpo de tão encharcadas. Ele resguardou-se sob o mesmo abrigo que Justine.
"O que estais fazendo?"
Perguntou ela, retirando da capa a espada.
"Não é preciso tanto!" Aaron exprimiu, sacudindo o guarda-chuva. "Eu nada farei de mal, disso tenha certeza!"
"O que faz aqui?" Berrou Justine. "Diga-me!"
"É melhor sair-mos deste temporal, não acha?"
Ela irritou-se profundamente.
"Saía daqui!"
"Ora, preferes ficar sob chuva que somente caminhar até a carruagem? Vamos, venha!"
Convidou-a, estendendo-lhe a mão. Justine estagnou, não compreendendo o ato. O fato de Byron ser-lhe constantemente cortês a fazia refletir, e sentir-se extremamente desconfortável, exatamente por isso, não o golpeou imediatamente. Percebendo que ela exitava, ele ousou aproximar-se de maneira sutil, quase impercetível.
"Desarme-se, Justine!"
"Não!" Afirmou, afastando-se. "Como sabes meu nome?"
"Direi somente se tu comigo fores até a carruagem!"
"Não, não!" Exclamou, posicionando a espada mais uma vez em posição de ataque."Eu já falei tudo o que tinha para falar com tua pessoa!"
"Ora, de forma alguma! Temos muitas coisas a esclarecer! Começando com esse teu desejo sem fundamentos de matar-me! Viestes a Paris por tua família?"
"Cale a boca! Não diga nada sobre minha família!" Gritou, por pouco não o golpeando no abdômen. "Saía de meu encalço! Por que quer saber de mim, se o que almejo é mandar-te para o inferno?!"
O conde recolheu a mão que dirigia-lhe e limitou-se a apenas contemplar Justine . Esta calmaria causou um desassossego tremendo na moça.
"Queres me ver longe?"
"Sim, vá embora!"
Talvez Aaron não devesse, entretanto, não conseguiria mais guardar as palavras para si, tinha a vontade quase incontrolável de explicar-lhe tudo o que por ela sentia, seria exatamente como retirar pedras do sapato.
"Saiba que eu a procurei incessantemente durante todos estes três dias, somente para saber se estavas bem! Posso abriga-la, não terás que ficar escondendo-se pelos cantos ou em casas alheias. Não te prestarás a humilhação de dormir no chão ou em lugares desagradáveis! Não haverá frio, nem nenhum desconforto e a única coisa que quero é ouvir-te. É com isso que me pagarás! Porém tu teimas em perpetuar esta tua severidade como se fosse um ultraje aceitar a ajuda que te ofereço. Como pode proferir palavras tão duras sendo que eu jamais desejei o teu mal? Não somos inimigos, jamais seremos, compreenda!" Terminou, percebendo o tom exaltado já que o temporal fazia com que sua voz soasse quase inaudível. Recompôs-se ciente do humilhante fiasco que acabara de cometer. "Diga algo, Justine!"
Não houvera nenhuma resposta. A moça simplesmente correu em meio a chuva, deixando-o.
"Tu não podes me deixar aqui, não desta forma!"
Proclamou, seguindo-a. Tinha plena consciência do quão decadente parecia executando aquela terrível cena. Porém, esperava que a resposta que sairia dos lábios dela valesse o esforço.
A moça virou-se, encarando-o firme. A espada na mão, colada ao corpo.
"Nada mudou!"
"Não use meias palavras!"
"Ainda sinto um ódio imenso por ti!"
"Não é verdade! Vejo em teus olhos que não é verdade!"
"Sim, é! Aceite, eu por ti sinto repulsa!"
"Mentira!" Gritou em meio ao temporal. "Então mate-me neste momento!"
"Não o farei pois para isso deve-se haver um duelo justo."
O conde sorriu e Justine pode reparar, pela proximidade, as sardas que continham seu rosto. Desviou o olhar, com incômodo.
"Não! Quando se odeia, se mata e nada mais! O que pode ser mais injusto que o que estais a fazer comigo?"
"Eu nada faço! Tu mesmo faz!"
Pronunciou, visivelmente aturdida.
"Vens aqui, começas a dizer coisas estranhas. Não entendo como ainda não o matei, pois oportunidades não me faltam. Devemos duelar, é somente disso que tenho certeza!"
"Não, não há motivos para duelar. E mesmo que houvessem motivos, não há nenhuma possibilidade de que eu por ti crie ódio e deseje teu mal!"
"Essas são apenas desculpas para encobrir tua covardia!"
"Seja como for, pense o que quiser. Tuas palavras ofensivas não me persuadirão a travar contigo um embate."
A chuva perpetuava-se lavando completamente a área de cada objeto a seu alcance. Entretanto, parecia que o assunto tratado naquele diálogo apresentava-se tão mais importante que nenhum dos dois parecia importar-se com a tempestade.
"Vá! Não temos mais nada para tratar." Aaron demorou-se perante ela, confirmando a si próprio o que já tinha conhecimento. Não seria vantajoso permanecer a insistir. "Somente volte se estiver devidamente preparado para um embate justo!"
"Se tu assim desejas, que assim se faça!"
Disse-lhe, caminhando de volta a carruagem sem retornar o olhar a Justine.
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