Até depois da Morte!
1 A ira é um erro!
Para compreender com mais propriedade a história que narrarei agora, convido-o leitor, a regressar juntamente comigo ao ano de 1724, vinte e dois anos atrás, mais precisamente no verão da eterna"Ville lumiére".
1724, 27 de agosto.
O firmamento era de um azul vivo e límpido, toda Paris parecia encontrar-se em completo rebuliço, boatos e apostas eram feitas de maneira ilegal e não limitavam-se apenas aos burgueses, que torciam avidamente, mas também aos fidalgos, que reuniam-se frequentemente para discutir o destino das intermináveis lutas diárias.
Naquela época, eram frequentes os pavores súbitos e a euforia da população frente às lutas marcadas, geralmente por consequência de fatos frivolos. Quando não eram os salafrários que importunavam a sociedade — entre outras desavenças bem mais relevantes — eram os senhores que guerreavam entre si, em duelos que, na maioria das vezes, terminavam de forma funesta.
Haviam, porém, preciosas exceções.
Conde Charlton de Byron VII era um exímio espadachim, cuja descendência vinha da casa de Fontainebleau, também de sua majestade, o rei Filipe IV, no ano de 1300. Era um homem esguio que presava todos os tipos de esportes e colecionava congratulações e títulos reais. Estimava, antes de tudo, a coragem, todavia, a mente inconsequente e a natureza impulsiva, eram características que muito mais prejudicavam que beneficiavam, o que, consequentemente o fazia arranjar lutas e brigas frequentemente. Possuía habilidade nata para o manuseio de toda a sorte de armas brancas, no entanto, o florete e a espada de ferro eram suas armas favoritas. A herança da família em armas estendia-se desde a primeira descendência. A preferência era hereditária, não havia um parente sequer que não apreciasse com grande estima a arte da esgrima, contudo, o título de Mestre era seriamente ameaçado por um dos ambiciosos camponeses recém-chegados à Paris. Chamberlain Beaumont, era o nome.
Sujeito matreiro, pragmático, dúbio. Atento a tudo e a todos. Tinha ar desconfiado, mas se ganhava sua confiança, mostrava-se bastante complacente, no entanto isso era coisa que acontecia raramente. Na maioria das vezes, Chamberlain mantinha-se taciturno a observar tudo ao seu redor. Era também um espadachim singular em seus trejeitos. Tinha um modo particular de manusear o florete, o que lhe rendeu fama por entre as vilas parisienses logo no momento de sua chegada.
É de se imaginar que a fama abrangente que conquistou tenha chego ao Palácio a aos ouvidos de todos os influentes, inclusive do duque, que animado, informou ao conde de Byron a notícia um tanto quanto desagradável.
"Não lutarei, Duque!" Disse com certo desconforto.
"O que dizes? Estais com receio do que possa te acontecer?" Perguntou o Duque, desconcertado.
"Verdadeiramente, acreditava que fosses mais nobre, Byron!"
"Sim, creio que já dei provas bastante boas para comprovar essa sua crença. Mas realmente, gostaria de parar por um momento." O Duque, contrariado transpareceu irritação frente a negação do conde.
"És um grande amigo, Byron! De certo que tenho grande estima por ti, entretanto, tua fama se deu por teus feitos de coragem, precisas lutar para mostrar que ainda és o mesmo de antes. Acredito que não queira deixar a regência da infantaria do Reino, sim?" Perguntou-lhe com olhar inquisitivo. Vendo-se sem saída Byron concordou em mais uma vez lutar pela honra e muito mais pelo Reino, que por si próprio. Sua mulher, entrementes, ficou em estado de grande nervoso, já que sabia o grau de violência das competições, no entanto não era de se esperar que as lutas terminassem de forma incruenta, o objetivo era incontestável, apenas um deveria sair vitorioso. Chamberlain, porém, manteve-se calmo ao receber as primeiras notícias da luta contra Byron pelo qual alimentava extrema repulsa.
A propósito, Chamberlain a muito almejava por este dia.
Foi com grande felicidade que enviou uma carta à mulher na Vila de L' Rochelle, avisando-a sobre a conquista um dia anterior a luta.
Os dias passaram-se aceleradamente, como era de se esperar. Quando dois homens estão a espera de uma luta, o tempo se torna relativo.
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Assim, às 15:00h da tarde, em uma Paris tomada pelo mormaço solar do verão, os dois encararam-se pela primeira vez. Não houve tempo para cumprimentos mais aprofundados. Os jovens em meio a inconsequência dos golpes duros e de grande precisão, pouco tinham a pensar sobre a grande tragédia que possivelmente poderia vir a acontecer por atitudes insensatas no momento. A luta, como era de se esperar, foi de elevado nível de dificuldade, com golpes experientes e bem elaborados de Conde Byron e a audácia, coragem e força de Chamberlain do lado oposto. Os fidalgos vibravam a um golpe bem sucedido do conde e os camponeses e burgueses torciam para seu recém-chegado herói que fazia jus a fama. Em meio a luta demorada, o sangue começou a jorrar inevitavelmente, o que fez a condessa resguardar-se solitária a orar na Capela do chantêau.
Ao final, haviam na maioria, pessoas de estômagos deverás forte a contemplar a luta, que somente cessou com a chegada do cardeal, que repudiava veementemente os atos violentos na cidade.
"Por Deus!" Gritou. "suponho que devo intervir nesse ato de violência. O que há com as vossas mentes? Corrompidas pela maldade, creio, pelo o que vejo. Quantos mais teremos que perder para que essa realidade de ira e guerras chegue ao fim? A ira é um erro, filhos!" Dizia com tom de lição na voz rouca. O silêncio tomou conta imediatamente da praça e ao longo daqueles minutos, todos destinaram total atenção ao velho cardeal.
"Venham, rapazes! Levarei-os até o rei."
Proferiu, abrindo caminho por entre a multidão que, desanimada, acompanhava os objetos de seu entretenimento caminhando, mais mancando que andando, golpeados dos pés a cabeça.
"Majestade!" Pronunciou ao chegar no palácio, inclinando-se ligeiramente na direção do rei, que permanecia inerte, somente a observar os dois adversários com um toque de despreocupação sutil.
"O que há cardeal? Mais uma vez problemas com as brigas de rua?"
"Asseverativo, majestade! Como pode ver, suponho, estes dois baderneiros, o que inclui um membro real, conde Charlton de Byron, e este...como chama-se mesmo meu jovem?"
"Chamberlain Beaumont!"
Respondeu o garoto, sem baixar o olhar decidido.
"Sim, sim! Recordo-me bem" Disse, voltando-se ao rei "Este moço veio da vila de L'Rochelle, majestade! Os dois praticavam atos aterradores na praça. Veja o estado de seus corpos! Não há sequer um pedaço de pele sem um corte."
"Posso ver com clareza, cardeal! O que não me falta é visão para reparar injúrias tão profundas, porém, acredito que este nada mais foi que um ato de coragem dos dois. Não há nada de tão repugnante ou aterrador, como vós afirma resolutamente, nestes atos que, diga-se de passagem, ocorrem tão frequentemente no cotidiano francês."
"Não adversando-o, majestade! Ainda assim, de acordo com os preceitos do cristianismo, não devemos, de maneira alguma incitar a violência entre irmãos. Os atos por eles cometidos sugerem a mim que sejam disseminados."
"Então o que queres que eu faça com os dois?"
"Nenhuma punição extremista, rogo-lhe. Porém, afaste-os um do outro para que nunca se reencontrem novamente."
"Espere!" Gritou conde Byron, como se todos não estivessem próximos o bastante para ouvi-lo.
"Deixe-nos ao menos terminar o que começamos."
"Concordo, majestade!" Disse Chamberlain, a pele avermelhando-se pela raiva que aumentava gradativamente. "Peço para que deixem-me acabar com este patife!"
Como uma fera, Byron saltava, exclamando maldições e opróbrios xingamentos. Caso não houvessem os guardas para barra-los, a luta teria recomeçado, ainda mais violenta. Nem mesmo as inúmeras chagas hemorragicas interrompiam os movimentos bruscos feitos pelos rapazes rusguentos que rosnavam entre-dentes como cachorros de rua.
"Chega de discussão!" Acudiu o rei, temendo, talvez um tumulto, embora esse fato já tenha acontecido irreversivelmente. "Tu, rapaz de L'Rochelle, uma das carruagens reais, irá levá-lo de volta a vila. Sem mais delongas, homens! Levem-no ao seu destino."
"Majestade, por favor! Rogo-lhe para que me permita lutar. Veja! Sou jovem, tenho apenas dezoito anos, porém, disponho de vivacidade e força suficiente para lutar a mesma altura que qualquer outro espadachim da França, está é minha grande chance..."
"Ora, garoto! És um camponês! Volte de onde veio e não nos cause mais transtornos."
Disse o rei, fazendo um gesto com a mão para os homens apostos aproximarem-se.
"Charlton, não pense que sairá ileso. É meu dever, como chefe de estado, puni-lo também."
Ao passo que os guardas aguarravam os braços de Charberlain, este dirigia um olhar abarrotado de excessiva cólera a Charlton que nem mesmo ele compreendia com propriedade. Antes das grandes portas fecharem-se por completo, gritou Chamberlain com certa calma surpreendente:
"Podemos não nos ver nunca mais, Charlton! Entretanto, guarde o que digo, nossos filhos deparar-se-ão um dia. Isto não é uma promessa, é um pressagio."
Disse, precedente ao estrépito ensurdecedor das portas a fecharem-se, enquanto o eco das palavras de Chamberlain repercutiam pela extensão do Castelo.
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