Até depois da Morte!
2 A promessa!
Notas iniciais
1727, 11 de novembro.
A França, aos poucos deixava para trás o clima agradavelmente morno do verão e abria espaço para o frio do outono que se aproximava trazendo consigo uma das épocas mais estonteantes do País.
Em Rochelle — pequenina Vila ao Oeste da França — as folhas das árvores começavam a adquirir cores variadas, tornando a paisagem numa pequena amostra estupenda de beleza. Diferentemente da inegável beleza da natureza, a França vivia uma época onde a discrepância social era imensa.
A sociedade europeia dividia-se em três partes ditadas pelo nascimento, havia um abismo entre a riquesa da aristocracia e do clero e a pobreza dos camponeses, estes que tinham como ofício, além da agricultura e pecuária, o trabalho dos comerciantes e artifices que exerciam funções variadas. Os membros do terceiro estado, o que incluía os camponeses, não desfrutavam dos mesmos privilégios que os outros estamentos. Eram excluídos das decisões políticas, cabendo a eles somente concordar com o que lhes era imposto.
Em meio a este cenário de tamanha disparidade em uma das discretas casas campestres da vila, nascia a filha de Chamberlain de Beaumont e Cécile de Beaumont.
A garota de sutil encanto e boa saúde era vigorosa e cheia de esperteza. O que logo mostrou-se como característica dominante de sua personalidade.
Naturalmente, herdou o caráter lacônico e esquivo do pai, juntamente com a beleza da mãe.
Cécile era camponesa, honesta e de bom coração, sempre ajudava quem precisava, mesmo tendo tão pouco a oferecer.
Desagradava-a o fato de o companheiro ser tão altamente inclinado a lutas violentas como as praticadas em Paris. O ar sonhador era evidente em sua complacência, como o conjunto harmonioso de detalhes que a compunham. Diferentemente de Charberlain — cuja personalidade já fora detalhadamente exposta anteriormente — Cécile detinha uma aura de alegria a seu redor, sempre distribuindo igual e intenso júbilo até ao mais ínfimo dos motivos.
Contudo, em 1730 após três anos do nascimento da pequena Justine, uma tragédia assolou a família, com impacto tamanho que acometeu a todos da pequena Vila. Cécile havia sido misteriosamente assassinada durante uma chuvosa noite.
Não havia, entretanto, qualquer prova ou evidência do assassino, que rapidamente despertou o ódio em todos os que acompanhavam de perto o caso.
O corpo jazia delicadamente exposto em meio às flores de um bem cuidado jardim da vila. Não havia sangue, nem qualquer outro tipo de excreção presente. O que dificultou de forma considerável a investigação e perícia.
Portanto, fora rapidamente acatada a tese de envenenamento, perante os fatos evidentes, como os livores que adquiriram uma cor cinzento acastanhada em partes do corpo. Logo após, houve uma mais profunda perícia, onde se introduziu a possibilidade de afogamento, pela quantidade de água nos pulmões. Os pulsos possuíam roxuras pouco expressivas, que só puderam ser reparadas depois de uma mais apurada examimação. Entrementes, não fora possível encontrar a identidade do assassino e o crime fora descartado pelos investigadores, o que causou imenso desespero em Chamberlain, que indignado e em um excesso de fúria destruiu os móveis da pequena casa onde morava.
"Justine diga, o que farei agora?" Gritava, enquanto dirigia um olhar insano à filha, que amedrontada encolhia-se incrustrada, no canto.
"Diga como ficaremos?" Jogou a mesa de jantar com tamanha força que a mesma acabou por danificar a parede, destruindo alguns velhos tijolos.
"Sua mãe era tudo o que eu tinha. Como serei feliz sem ela? Como serei feliz sem sua personalidade apaziguadora para combater a minha?"
Vociferava, enquanto aproximava-se da menina que tremia e soluçava, os olhos esbugalhados fitavam-na vorazmente, enquanto as veias do rosto saltavam sutilmente abaixo da camada de pele e o suor, decorrente do esforço, escorria-lhe pela testa.
"Tu sabes quem fez isso?" Perguntou segurando a menina pelos braços finos.
"Tu sabes quem fez isso, diga!"
Sacudiu a filha como uma boneca de pano.
"Não papai!"
Respondeu-lhe fechando os olhos enquanto era chacoalhada, fazendo as gotículas de lágrimas espalharem-se pelo ar.
"Charlton!" Disse. Os olhos tomados de uma raiva descomunal e loucura.
"Ele fez isso! Aquele patife desgraçado! Ele à matou, ouvis-te?"
"Sim!"
"Dúvida?" Perguntou. "Eu vi, vi com estes olhos aqui!"
Lamentou-se. Justine o dirigia tamanha atenção que quase esquecia-se da tragédia a pouco mencionada
"Ele é o mais horrendo dos homens, é um monstro de maldade imensa. Matou sua mãe, veja! A maldade está sempre muito perto de nós. O mundo é mal, Justine, aprenda! Ah! Ele voltará para nos matar, é claro!
Pode estar nos ouvindo agora mesmo. E então? Que faremos?"
Indagou Chamberlain mais para si mesmo que para a filha, pegando uma das espadas que jazia num velho baú. Justine concedia total atenção aos gestos insensatos do pai. Não aparentava ser uma criança de tão pouca idade, pelo aspecto tão perfeitamente compenetrado.
"Estais vendo essa arma? Somente e apenas isso irá protegê-la do mundo lá fora! Não confie em ninguém, apenas em si própria, só assim irá sobreviver." Disse, entregando a velha espada à filha e agachando-se para parecer mais claro. "Eu te ensinarei a lutar, te ensinarei meus segredos, essa espada foi minha única amiga durante muito tempo e será tua única amiga a partir de hoje! A vingança é o combustível de todo o homem!"
"O que é vingança?"
Perguntou-lhe, inocente a garota.
"É quando devolvemos aquilo de mal que fizeram a nós, Justine! É uma questão de honra. Se não tiveres honra, nunca serás alguém, nunca receberá congratulações, nem será digna de respeito. Mas, para que se possa ter honra é preciso ter coragem. A coragem, Justine, essa é a mais admirável virtude. É preciso ter coragem para executar a vingança, é preciso ser como os grandes homens! Se quiseres ser um desses, terá que ter coragem!"
"Mas, eu tenho coragem!"
Chamberlain gargalhou vigorosamente como se algo lhe parecesse exageradamente cômico.
"Ah! Não, a coragem não se mostra por palavras, Justine, e sim por feitos, atos! Veja, se tem coragem, golpei-me com essa espada!" A menina permaneceu estática a olhar para o pai sorrindo a sua frente.
"Como farei isso se és meu pai?"
"Não!" Berrou Chamberlain "Mesmo que em meu lugar estivesse o rei, se tivesses realmente coragem, golpearia! Sem mais delongas, menina! Golpei-me!"
A criança levantou-se um pouco desajustada pelo peso da espada. As pequeninas mãos roliças segurando o mais forte possível o cabo revestido de couro. Levantou-a e a espada escorregou-lhe da mão, tilintando no chão.
"Segure!"
Disse o pai lhe devolvendo a arma.
"É pesada!"
Gritou a menina.
"Não importa! Só golpei, o peso da espada não importa, se sua coragem for realmente grande, nada mais será relevante!"
Com isso, a garota distribuiu toda a força em um golpe que seria certeiro caso Chamberlain não tivesse desviado a tempo.
"Sim!" Disse satisfeito "É assim que mostramos o quanto valemos. O respeito depende da coragem!"
"Entendi! Mas o que vai acontecer com quem matou a mamãe?"
"Sim, minha querida. Você é realmente minha filha, sabe interpretar até mesmo meus pensamentos. Charlton merece uma vingança a altura não acha?"
"Sim!"
"Amavas a tua mãe?"
Justine respondeu-lhe com um balançar afirmativo de cabeça.
"Ele deve perder alguém que ama! Prometa para mim que irá cumprir a promessa de vingança agora firmada entre nós dois."
"Eu prometo!"
Disse a filha, fitando, pensativa a espada na mão.
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