Até a Lua
2 The Blue Point
– Ih, não era uma casa – digo saindo de dentro do Jeep.
Estávamos parados na frente de um restaurante chamado The Blue Point, o lugar era pequeno, tinha um pequeno posto de gasolina na frente e na parte de trás havia o restaurante, as paredes todas pintadas de azul com um letreiro neon aceso, apesar do dia.
– Vamos ? – Cicero pergunta.
Assinto e nós entramos, do lado de dentro o restaurante também é azul, há varias pessoas almoçando aqui, boa parte caminhoneiros sentados nas banquetas de frente para o balcão. Cicero e eu nos sentamos um uma mesa com sofá de estofado azul no canto do restaurante. Uma garçonete usando um vestido de uniforme antiquado azul se aproxima da mesa.
– Bom dia, o que vão quere... Ah meu Deus! – ela diz quando olha para mim – É você!
– Sou... Eu ?
– Sim, espere ai.
A garçonete sai de perto de nós.
– Acho que deixaram algo pra você – Cicero diz olhando o cardápio.
– Acha que eu posso confiar nela ? – sussurro.
– Por que não ?
– Eu não sei.
– Olha, aquela mulher não me parece nada suspeita.
– Também acho que não, mas...
– Ana, se acalma.
Assinto e remexo os pés esperando a garçonete voltar, pouco tempo depois ela volta com um envelope pardo na mão, ela finge não ver Cicero.
– Aqui – ela diz – pediram pra que eu guardasse isso para você.
– Obrigada – ela começa se afastar – espera – chamo, então ela volta – como sabia que era eu ? Quem deixou isso aqui ?
– Me deixaram uma foto, e a pessoa que deixou, deixou com outra pessoa que não trabalha mais aqui – ela diz e dá uma rápida olhada para Cicero.
– Ah, obrigada.
– Não foi nada. Olha, a pessoa que deixou isso... – ela se abaixa e olha em volta – A pessoa que deixou isso me mandou te avisar para sair logo daqui.
Assinto enquanto a garçonete se afasta apressadamente. Cicero que ouvia tudo em silencio se levanta e me puxa para fica em pé.
– É melhor irmos, se não, não chegaremos a tempo – ele diz num tom casual com um sorriso.
Estranho sua reação, mas apenas assinto. Saímos do restaurante, percebo que alguns dos caminhoneiros nos olhavam.
– Entra, rápido – Cicero diz ainda com um sorriso.
Entro rápido no carro e Cicero faz o mesmo, quando o carro dá partida vejo que os mesmos caminhoneiros que nos olhavam estão saindo do restaurante.
– Você acha que eles...
– Não sei.
Cicero volta para a interestadual seguindo em frente para algum lugar que eu não sabia qual, ele olha pra trás pelo espelho retrovisor de vez em quando.
– Droga!
Olho pelo espelho e dois caminhões vindo em nossa direção, vejo que os homens que os dirige são os do restaurante. Meus dedos apertam o envelope pardo com força amassando-o. Cicero pisa no acelerador e começa a ziguezaguear pelos carros, os homens fazem as mesmas coisas, porém com um pouco mais de dificuldade por causa do tamanho do caminhão.
– Eles estão chegando perto – digo apertando o envelope.
– Você vai rasgar isso ai – ele diz com calma.
Largo o envelope e seguro na lateral do banco, olho para trás e vejo que agora eles estão bem atrás de nós.
– Eles estão aqui! – digo.
Ele não diz nada, apenas olha o espelho e pisa mais fundo no acelerador. Os homens continuam vindo atrás de nós, um deles acelera e anda lado a lado conosco, o caminhão anda ao lado de Cicero e nos joga para a direita, olho para a direita o outro caminhão nos alcança.
– Estão fazendo sanduíche da gente! – digo desesperada.
Os lábios de Cicero formam uma linha fina e depois se transforma em um sorriso, ele pisa no freio e o carro para enquanto os caminhões continuam, ele faz uma manobra brusca virando o carro na contra mão, em seguida manobra o carro até a outra pista. Seguimos no meio de outros carros.
– Por que não estão vindo atrás de nós ? – digo meio sem fôlego.
– Já tentou fazer isso com um caminhão ?
Um sorriso satisfatório está em seus lábios, enquanto ele dirige normalmente.
– Abre o envelope.
Pego o envelope pardo na mão e abro a parte de cima.
Oi filha,
Sentimos muito pelo jeito como sumimos, mas se você está lendo isso quer dizer que as coisas mudaram. Não sei exatamente o que nos aconteceu, mas sei porque e você está em perigo. Entenda que nunca fizemos nada para te fazer mal. Tudo isso vem de antes de você. Nós não....
Paro de ler. Balanço a cabeça de um lado para o outro.
– O que foi ? O que diz aí ? – ele pergunta.
– Eu não quero ler.
– Por que não ?
– Eu só... não quero.
Cicero não fala nada apenas assente. Alguns quilômetros a frente ele para o carro no acostamento e vira para mim.
– Posso ?
Entrego o envelope para ele, seus dedos longos e brancos seguram a folha enquanto eu o observo ler.
– Por que não que ler ? – ele pergunta assim que termina.
– E se... e se estiverem mortos ? – sussurro.
– Não estão.
– Como pode ter certeza ?
– Ana, 24 horas atrás você nem teria imaginado tudo isso acontecendo, eles não estão mortos.
– Mas...
– Olha, você não quer ler, tudo bem. Mas eles te deixaram instruções aqui, precisam que você cumpra.
– Você vai me ajudar ?
– Com toda certeza – ele dá um sorriso largo.
Assinto, eu não sei como posso arrumar segurança em um estranho, mas eu arrumei. Cicero pega uma mochila no banco de trás que eu não tinha notado, de dentro dela tira um caderno e uma caneta azul em seguida começa rabiscar nele.
– Aqui.
Ele me entrega o caderno.
– Não consigo entender sua letra – digo com uma careta.
– Ah claro – ele ri um pouco – era o que estava escrito na carta, temos que ir a um endereço em uma cidade não muito longe daqui, lá você procurar por Miles Charmichael.
– Pronta ? – ele pergunta.
– Estou.
Ele sorri para mim e se volta para o volante, antes que ele de partida eu seguro seu braço.
– Obrigada, por tudo.
– Não me agradeça – ele sorri, mas dessa vez seu sorriso é triste.
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