Miles Charmichael é um homem velho, extremamente magro e alto que vive sozinho em uma casa, ironicamente, azul. Estamos sentados em um sofá que estava abarrotado de folhas, a casa inteira é toda abarrotada de folhas, e as paredes cobertas de formulas matematicas.

– Ana, Ana, Ana... – ele diz revirando uma pilha de papeis.

Ele ama repetir as coisas três vezes. Cicero olha para mim com as sobrancelhas levantadas, deve estar pensando que o cara é louco.

– Aqui! – ele grita e me entrega uma folha de papel com um monte de rabiscos indecifráveis – seus pais trabalhavam nisso alguns anos atrás, anos atrás...

– O que é isso ?

– Eu não sei – ele dá uma risada alta – mas seja o que for é importante. Acho que é um chip, talvez, um algorítimo dentro dele permite algo grande...

– Sabe de mais alguma coisa ? Alguma coisa que meus pais possam ter te deixado ?

– Acho... acho que sim, sim, sim. Talvez. Deixe me ver.

Miles voltar a mexer na bagunça da sala enquanto eu tento decifrar os rabisco na folha.

– Posso ? – Cicero aponta para a folha.

Entrego a folha em sua mão, mas ele me devolve pouco tendo depois sem entender nada.

– Está aqui em algum lugar, algum lugar...

Miles demora cerca de meia hora para gritar ‘’Aqui!’’ novamente, mas quando grita volta com uma caixa de madeira pequena. Abro a caixa e dentro dela há um colar idêntico ao meu, só mais vagabundo, e uma folha escrito ‘’ não confie em ninguém’’. Cicero levanta os olhos e vê o que há dentro da caixa.

– É isso ? – pergunto um pouco frustrada.

– Acho que sim, sim, acho que sim – Miles diz – seus pais são espertos, você vai entender, quando for necessário, vai entender.

Assinto. Nos despedimos de Miles que fica repetindo suas palavras de despedida enquanto voltamos para o carro. Sento pesadamente no banco do passageiro enquanto Cicero entra no carro.

– Não serve pra nada! – digo frustrada.

– Me de a caixa – Cicero diz sério.

Ele pega a caixa e arranca todo o forro de veludo.

– O que está fazendo ?! – grito tentando impedi-lo.

Não consigo impedi-lo, e em poucos segundos a caixa está toda sem forro.

– Como eu pensei... – ele diz e me estende a caixa.

‘’Divisa com o México, você saberá onde, saia daí!’’

Essas palavras entalhadas no fundo da caixa fizeram minha cabeça girar, eu nem notei quando Cicero deu partida no carro, só notei que Miles olhava toda a cena da janela.

– Quanto tempo você acha que vai demorar pra chegarmos lá ?

– Um dia, no máximo dois, estamos na outra ponta do país.

Assinto – Miles estava olhando da janela...

– Eu sei – ele diz com os lábios numa linha fina – acho que não confiavam tanto nele assim.

...

Passei o dia inteiro revendo as coisas da caixa e a própria caixa. Paramos apenas duas vezes, eu não estava com fome e Cicero comprava as coisas pra comer no caminho. Só paramos de novo em um hotel em uma cidade aleatória cujo nome nunca ouvi falar.

Cicero pediu dois quarto separados lado a lado no quinto andar, e nós fomos até lá.

– Boa noite – ele diz.

– Bom noite – respondo e entro no quarto.

O quarto não era grande, havia uma cama de casal, uma televisão, um sofá, uma cômoda ao lado da janela que ia do chão até o teto e uma porta no fundo do quarto que deve ser o banheiro. Apesar de pequeno o quarto é bem acomodado e arrumado dando um ar luxuoso ao pequeno cômodo.

Me dirijo ao banheiro que matem o mesmo ar do quarto, apoio a mochila em cima do mármore da pia quadrada e entro embaixo do chuveiro, deixo a água molhar meu cabelo e relaxar meus músculos. Muita coisa aconteceu de uma só vez, e não sei se conseguiria fazer tudo sem Cicero...

..

Definitivamente eu não conseguiria fazer nada disso sem ele. Nunca pensaria que havia algo embaixo do forro da caixa, e que Miles talvez não fosse confiável. Eu não conseguiria sozinha...

– Ana... – ele chama dentro do quarto.

– Já estou saindo.

Fecho o chuveiro e me seco, coloco o pijama e saio do banheiro enxugando o cabelo molhado. Cicero está usando uma calça xadrez vermelha e uma camiseta de flanela preta, ele para de respirar quando me vê.

– O que foi ? – pergunto.

– Não... Nada – ele se senta no sofá – só queria ver se voce estava bem.

– Estou, obrigada – digo me sentando na cama – e voce ?

– Já passei por coisas bem piores – ele diz com um sorriso aberto.

Sorrio de volta e largo a toalha molhada em cima da cama para tocar pelo pente, automaticamente Cicero pega a toalha e a leva para o banheiro. Quando ele volta estou olhando-o.

– Ah – ele diz um pouco envergonhado – costume.

– Ok – digo rindo.

Cicero se estica sobre o sofá e pega o controle remoto em cima da cômoda, ligando a TV. Ele se estica no sofá, apesar de não ser muito alto, ele é forte, grande. Aproveito a TV ligada e me enfio embaixo das cobertas.

– Vamos demorar pra chegar a divisa ?

– Talvez amanha na hora do almoço, ou um pouco depois.

– Ok.

Meu corpo fica pesado conforme o tempo passa, quando dormi Cicero ainda estava assistindo TV.