Quando chegamos ao quarto, Brad estava andando de um lado para o outro.

– Onde vocês estavam!?

– Na cobertura — respondo.

Caleb nem se dá ao trabalho se olhar para Brad.

– Toma — Brad me entrega um envelope pardo.

– O que é isso ?

– Eu não sei. Mandaram te entregar.

Caleb se aproxima de mim e arranca o envelope das minhas mãos.

– Você é retardado ? Como dá a ela um envelope sem saber o que tem dentro? Estão tentando matá-la!

– Então abra você. E depois vamos embora daqui.

Caleb rasga o envelope sem paciência alguma e lê o que está escrito na folha. Chego ao seu lado para ler também.

Miles sabe mais do que diz. Procurem-no.

Brad também estava lendo.

– Quem é Miles ? — ele pergunta.

– Um amigo dos meus pais. Vamos procurá-lo ?

– Vamos — Caleb responde.

– Mas pode ser uma armadilha — Brad se opõe.

– Pode.

– Mesmo assim que ir ?

– Quero.

– Está arriscando nossas vidas! — Brad quase grita.

– Fique a vontade a não ir.

Brad fica em silêncio.

– Ok. Então vamos.

– Ainda não. Vamos amanhã cedo. Se for uma armadilha, eles esperam nos ver correndo para longe daqui.

– Tem razão — digo baixo.

Caleb me olha com um olhar cúmplice, que eu finjo não ver.

...

Eu corri, estava com medo de alguma coisa, mas não sabia o que. Tropecei e cai, fiquei deitada no chão até sentir alguém me levantar. Caleb tomou meu rosto nas mãos e encostou sua testa na minha.

– Você precisa acordar, Ana. Precisa saber a verdade.

– Por que não me contar ? — perguntei

– Não posso te contar algo que nem eu sei.

– Mas, Caleb, eu não sei do que está falando.

– Sabe, sim. Você precisa acordar.

Então eu acordei.

Na manhã seguinte, arrumamos nossas coisas e descemos até o saguão. Brad se ocupou em fechar a conta. Caleb e eu estávamos em pé lado a lado esperando Brad quando senti um braço descansar nos meus ombros.

– Vamos logo, Finn! — Caleb grita me abraçando — Ainda temos outros lugares para ir.

Brad olha para nós, e vê Caleb com o braço nos meus ombros, ele apenas assente e acaba de sair. Saímos do hotel direto para o Jeep.

– E agora?

– Direto para o Miles.

Chegamos na casa do Miles já de noite. Parecia vazia, todas as luzes apagadas, a grama estava alta, e as latas de lixo estavam caídas ao lado da casa. Vi um movimento na cortina.

– Ele sabe que chegamos — digo.

Caleb sai do carro, nós saímos atras. Batemos na porta, mas Miles não atende.

– Miles! — Caleb diz — Sabemos que está aí!

Ele bate de novo, então a porta se abre bruscamente.

– O que vocês querem, agora ? Agora, eu estou ocupado, ocupadíssimo!

Ele começa fechar a porta da Brad a segura.

– Precisamos conversar, meu amigo.

– Quem é você ?

– Por favor, Miles. Você sabe quem eu sou.

– Brad ?

– Uhum.

Miles olha para Brad como se o visse pela primeira vez, aproveitamos a deixa para entrar em sua casa. Continua uma bagunça, mas de algum jeito, parecia pior.

– Estão procurando vocês — ele diz nervoso.

– Sabemos — Caleb diz — também sabemos que não nos contou tudo o que sabe.

– Contei! Claro que contei ! Por que não contaria ? — ele praticamente gritou.

– Não sei, pode nos dizer.

– Eu não tenho nada para contar, se vieram aqui para isso, podem ir embora...

Ele vai em direção a porta, mas Caleb voa para cima dele e segura sua camiseta com força fazendo-o olhar para ele.

– Escuta, você vai nos dizer o que sabe, se não...

A frase fica no ar e Miles parece apavorado, me aproximo dos dois e coloca as mãos sobre as de Caleb, ele afrouxa o aperto.

– Miles — digo docemente — nos conte o que sabe e nós vamos embora.

Ele faz que não com a cabeça.

– Miles — Brad diz — por favor.

Miles olha para Brad.

– Só porque eu te devo, te devo uma, devo.

Então ele revira os papéis e pega um envelope grande escondido, ele faz sinal para nos aproximarmos e sentarmos a mesa com ele. Ele joga as coisas da mesa no chão e abre o envelope em cima da mesa.

– Vê ? — ele mostra vários papéis cheio de desenhos e algorítimos.

– O que isso quer dizer ? — pergunto.

– Seus pais, isso foi tão sem querer quanto qualquer coisa, eles tentaram criar uma realidade virtual, inicialmente era pra ser um jogo, mas acabou sendo muito mais do que isso. Eles criaram um jeito de acessas suas memórias e colocar dentro do jogo. Você poderia criar vidas inteiras dentro disso sem que nem percebesse. Claro, existem efeitos colaterais que ainda precisavam ser melhorados, mas creio que já fizeram...

– É isso ? — pergunto meio zonza — O projeto é uma realidade virtual ?

– Sim. Nunca houve nada igual.

Caleb olhava as folhas tentando entender, e Brad apenas me encarava.

– Você está bem ? — ele pergunta baixo.

– Estou.

Miles olha nervosamente para os lados.

– Isso está errado! — ele balança a cabeça de um lado para o outro — Isso está errado! Eu não deveria ter feito isso, eles confiaram em mim...

Ele se levanta rápido e segura meu braço com força, Caleb e Brad se levantam no mesmo instante alertas a Miles.

– Você precisa sair daqui! Eles vão chegar logo!

Ele me coloca em pé, junta os papéis da mesa e dá para Brad. Depois ele vira para Caleb parando um minuto olhando seu rosto, parecia que a cena tinha entrado em pause, então Miles voltou se mexer e abriu a porta, olhando para fora.

– Fora! Fora! Eles chegarão logo!

Nós saímos e corremos para o carro. Quando Caleb dá partida no carro olho para Miles e vejo que seu rosto está em pânico.

– Não podemos deixá-lo! — grito.

– Não podemos levá-lo — Caleb responde.

– Caleb, ele nos ajudou!

– Eu sei, mas eles, com certeza, colocaram um rastreador no Miles.

Faço silêncio.

– Ele vai morrer não vai ?

– Sinto muito.

Caleb solta uma mão do volante e pega a minha.

– Sinto mesmo — ele aperta minha mão.

Ouço Brad bufar no banco de trás e Caleb solta minha mão.